sábado, 19 de agosto de 2017

CUIDANDO DA SAÚDE ALBINA

Que maravilha, mais um artigo acadêmico sobre especificidades do albinismo acaba de ser publicado na Physis: Revista de Saúde Coletiva. Intitulado O cuidado à saúde de pessoas com albinismo: uma dimensão da produção da vida na diferença, o texto pode ser baixado em PDF no site da Scielo, no link:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-73312017000200319&script=sci_abstract&tlng=pt

Eis o resumo do artigo:

O cuidado à saúde das pessoas com albinismo perpassa a invisibilidade social do grupo populacional, o acesso à informação e aos serviços de saúde, a integralidade do cuidado e a multiplicidade na produção da vida. O objetivo do estudo é discutir o cuidado à saúde de pessoas com albinismo e familiares. Estudo descritivo com abordagem qualitativa, desenvolvido no Instituto Benjamin Constant (IBC). A coleta dos dados ocorreu entre abril e maio de 2012, utilizando a entrevista individual semiestruturada com dez participantes, pessoas com albinismo / familiares, sendo: dois alunos do IBC, seis mães, uma avó e uma ex-aluna usuária do serviço de oftalmologia. Destacamos na intersetorialidade, a relação da saúde com a educação e a seguridade social. Há carência de formulação e efetivação das políticas sociais, dispositivos normativos, como possibilidade de superação da invisibilidade social e da garantia do direito à saúde. A vida das pessoas com albinismo extravasa a deficiência e a diferença, e demanda a efetivação de dispositivos normativos, processos singulares e subjetivos para a produção do cuidado no cotidiano das práticas em saúde. Mais que saberes dados, exige escuta, relações horizontais e coprodutivas para o cuidado em saúde.

ALBINO GOURMET 237

Gerenciado pela Yamily - que superou o efeito sanfona alimentando-se corretamente - o canal Emagrecer Certo objetiva promover a reeducação alimentar e o bem-estar.
Selecionei algumas receitas de lá pra você ter uma noção do que encontrará:

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

VER SEM VER

A mulher cega que pode 'sentir' o mundo ao seu redor


Este é um dos fenômenos mais curiosos da neurociência cognitiva.


Há algumas pessoas no mundo com "visão cega": são pessoas cegas, mas que têm uma espécie de "segunda visão", pois seu cérebro é capaz, inconscientemente, de perceber as coisas ao seu redor.

A escocesa Milina Cunning perdeu a visão por volta dos 20 anos. Pesquisadores investigam seu caso há algum tempo.

"Se atirassem uma bolinha de ping-pong na cabeça de Milina, provavelmente ela levantaria seu braço e a pegaria na mão antes de ter consciência do que estava acontecendo", disse Jody Culham, uma pesquisadora que estudou o cérebro de Cunning.

"Posso me mover na minha casa sem problemas e organizar as coisas, mas não consigo vê-las. Sei que estão aqui, meu cérebro me informa disso".

Mas como é a vida através dos olhos de Milina? Assim como ela mesma descreve:

"Quando cheguei ao hospital, era uma pessoa com visão normal. Me colocaram em coma induzido devido a problemas de saúde que eu tinha. E fiquei em coma durante 52 dias."

"Quando acordei, via tudo completamente preto. Não era capaz de ver nada. Me disseram que, enquanto eu estava em coma, sofri um derrame cerebral que me deixou cega."

"Durante os próximos meses, as coisas começaram a mudar. Depois de seis meses, parecia que eu via alguma cor, mas ninguém acreditava em mim."

"Então, entrei em contato com um neurologista chamado Gordon Dutton. Assim que me viu, ele supôs que eu tinha visão cega".

"Quando me encontrei com Dutton, ele insistiu em fazer alguns testes. Em um deles, ele colocava cadeiras no corredor do hospital e me pedia para caminhar entre elas. 'Simplesmente ande no seu ritmo normal', disse".
"Fiz isso e fiquei esbarrando nas cadeiras. Quando cheguei ao fim do corredor, ele me disse: 'Agora caminhe um pouco mais depressa entre as cadeiras'".

"Assim que caminhei mais depressa através delas, uma a uma, não me machuquei nenhuma vez. Foi incrível".

"Dutton me explicou o seguinte: 'não pense muito, apenas faça. Não dê muitas voltas na cabeça'. Era meu subconsciente me dizendo como realizar essa tarefa e evitando que eu batesse nas cadeiras".

"Consigo me movimentar pela minha casa sem problemas, mas não consigo ver as coisas. Sei que estão ali, meu cérebro me diz".

"O mesmo ocorre se a minha família deixa coisas atiradas pela sala. Digo a elas: 'vocês têm que arrumar um pouco as coisas, senão vou tropeçar por tudo."

"Se há alguma coisa, como uma bolsa ou sapatos, consigo vê-los, passar por cima ou guardá-los".

"É estranho que consiga ver coisas que eu não posso ver por ser cega".

"Sei que você está sentado aqui, perto de mim...Mas não consigo vê-lo".

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

NÃO É ALBINO

Raro Alce Branco é Avistado Na Suécia

Após três longos anos de busca, Hans Nilsson finalmente conseguiu gravar estas raras imagens na região de Varmland, na Suécia. De acordo com a BBC, existem apenas cerca de cem alces brancos neste país. Estes animais têm a pele branca devido a uma mutação genética.

Hans Nilsson, avistou este alce branco pela primeira vez perto de uma vala, a comer. No dia seguinte, foi à procura do alce com uma câmara de filmar e encontrou o raro animal, conseguindo captar o momento. Hans afirma que esteve com o alce pelo menos 20 minutos e a cinco metros de distância.
https://www.funco.biz/raro-alce-branco-e-avistado-na-suecia/

TELONA QUENTE 198


Roberto Rillo Bíscaro

Há não muito, insistia pela enésima vez na importância de prestigiarmos produções estreladas por veteranos, as quais este blog é pródigo em divulgar. Meu argumento ingênuo é que se houver público pra tramas inteligentes na terceira-idade, mais filmes e séries de boa qualidade com tais protagonistas serão realizados. Será que se boicotarmos produções que insistam nos estereótipos imbecis pra idosos, elevamos sua idade mental ou condenaríamos esses atores à falta de trabalho até mesmo em papeis idiotas?
Isso passou pela cabeça, enquanto via o tóxico Um Amor de Vizinha, título boboca pra And So It Goes (2014), do roteirista Mark Andrus, o mesmo de As Good As It Gets, aquele estrelado há vinte anos por um já idoso Jack Nicholson mal-humorado, acordando pra vida e pra tolerância. No caso de And So It Goes, a picaretagem roteirística é contar a mesma história, protagonizada por Michael Douglas.
Oren é intragável corretor de imóveis, que vive num modesto complexo de apartamentos, enquanto tenta vender sua mansão. Rude com seus vizinhos afro-americanos, o rabugento ancião é surpreendido, quando seu filho ex-narcoadicto vai pra cadeia e lhe deixa a neta pra cuidar. O amargo viúvo sequer sabia da existência da menina, que logo cai nas graças da vizinha solitária e insegura, aspirante à cantora de cabaré. Precisa dizer o que o contato com a menina opera na psique empedrada de Douglas?
Em princípio não há nada de mais com Um Amor de Vizinha. Pelo contrário: é indicado pra tardes tediosas comendo pipoca, passando pilha de roupas, pra esquecer os problemas. Mas, o oportunismo e grosseria do roteiro são quase imperdoáveis pra atores experientes como Douglas e a tal vizinha, Diane Keaton, a eterna Noiva Nervosa, do Noivo Neurótico Woody Allen. Não há nuanças, é tudo jogado na cara do espectador de qualquer jeito, com a certeza de que o produto está sendo assistido como algo em série que é. Com a certeza de que se está vendo aquilo sem se prestar atenção, com conversa paralela, testando o vapor do ferro de passar. A ainda tem Keaton dando uma de cantora; acho que isso é o pior.
Poder-se-ia suspeitar de roteiro caça-níqueis com atores de cachê barato, sedentos por qualquer holofote, sendo filmado por diretorzinho estreante, mas nem essa desculpa há. And So It Goes é dirigido por Rob Reiner, de This Is Spinal Tap e Louca Obsessão (1990), cuja carreira também está na depressão da descendente. E aí está o resumão da ópera: várias carreiras que já renderam milhões de dólares agora precisam recorrer a tais veículos.
De vez em quando, uma Diane West consegue um papel melhor num In Treatment ou um velhusco como Douglas se reinventa como pianista biba (ele está ótimo como Liberace, vocês viram?). Mas, a regra hollywoodiana pra terceira-idade parece que são joças como Um Amor de Vizinha.
Tem na Netflix. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

EDUCAÇÃO ALIMENTAR ALBINA EM MACEIÓ

Oficina oferece educação alimentar a pessoas com albinismo

A educação alimentar e nutricional foi o foco central das atividades desta segunda-feira (14) da reunião mensal do Grupo de Pessoas com Albinismo e Baixa Visão. Coordenado pela Gerência de Atenção à Pessoa com Deficiência (GAPD) da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o encontro contou com a parceria da equipe de nutricionistas e estagiárias da Gerência de Promoção e Educação em Saúde (GPES), que procurou estimular os pacientes a adotarem hábitos e uma alimentação mais saudável.

“Os pacientes com albinismo têm uma grande dificuldade de absorção de algumas vitaminas. A Vitamina D é uma delas, pois eles não podem ficar expostos ao sol para ajudar nessa absorção pelo organismo. Daí, e também por outros fatores, a necessidade de ajudá-los a escolher melhor os alimentos”, afirma a assistente social e responsável técnica pelo grupo na GAPD, Luciana Ferreira.

Para facilitar o entendimento de todo o grupo – especialmente dos participantes com baixa visão –, a oficina sobre o tema foi montada de forma lúdica, com dinâmicas diversificadas. Sob a supervisão das nutricionistas Juliana Lyra, Kelly Barros e Adriana Paffer, o tema foi abordado com a participação das acadêmicas Bruna Lemos e Palloma Araújo, do curso de Nutrição da Ufal, procurando focar numa alimentação mais adequada à prevenção da ocorrência e auxiliar no enfrentamento de doenças como diabetes, hipertensão e obesidade.

“Tomamos como base as diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) e o Guia Alimentar para a População Brasileira 2015, que chama a atenção para a necessidade de um cuidado maior com a alimentação, dando prioridade ao consumo de alimentos in natura e alertando para o risco da ingestão dos alimentos processados ou ultraprocessados, estes com grande teor de sal, açúcar, óleos e conservantes”, reforça a nutricionista da GPES, Kelly Barros.

Ao final da oficina, que utilizou até caixas decoradas com as cores de um semáforo, para indicar o grau de risco à saúde com os alimentos expostos, os participantes levaram todas as informações que receberam para relembrar em casa – inclusive os 10 passos para uma alimentação saudável – de forma divertida: em formato de cordel.

Albinismo

Uma a cada 17 mil pessoas no mundo apresenta alguma forma de albinismo, o que torna essa característica rara. O albinismo é a incapacidade de um indivíduo em produzir melanina, que é um filtro solar natural e que dá cor à pele, pelos, cabelos e olhos. O albino não consegue se defender da exposição ao sol e a consequência imediata é a queimadura solar, principalmente na infância, quando o controle é mais difícil. Sem a prevenção, os pacientes envelhecem precocemente e desenvolvem cânceres de pele agressivos e precoces.

O grupo

O grupo de pessoas com albinismo e baixa visão foi criado em 2009, com a finalidade de compartilhar orientações e informações sobre saúde e direitos dessa população. Desde o último mês de março, a SMS garantiu à população de albinos do município o acesso facilitado ao atendimento em dermatologia na rede pública, assim como o encaminhamento adequado em reabilitação visual, que passou a ser feito pelo CER da Pestalozzi e pela Apae Audiovisual.

Além disso, Maceió, que já tinha o fornecimento de protetores solares para esses usuários desde 2012, teve esse direito assegurado, por meio da aprovação da Lei Municipal nº 6.605/2017, na Câmara Municipal.

CONTANDO A VIDA 200

BYE, BYE BRASIL...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Eu queria. Juro que queria muito escrever sobre coisas leves, flanar em torno de amenidades. Ah, como seria bom falar de superação da crise, contar histórias afetivas, relatar casos com finais felizes. Era tudo que gostaria, mas... Mas, não dá para calar diante de certas situações que são mais do que diagnósticas. Voltar ao Brasil depois de longa viagem, inexoravelmente, implica processo de readequação. É como se perder novamente em um labirinto que se pensava sinalizado com indicativas de saídas. Difícil, mas essa constatação derrota o acalanto de ilusões positivas, cabíveis em retornos. Ao contrário de tantos amigos queridos, sinceramente, não estou vendo a almejada “luz no fim do túnel”. Logo eu que me achava um esperançoso empedernido. E tenho minhas razões. Ao me encaminhar para o embarque em Beirute, assisti (outra vez) a uma cena que me fez descer ao inferno da cidadania: mais uma brasileira sendo deportada. O aparato policial era alarmante e até amedrontador, pois a embarcada era jovem, negra e estava algemada. Os protocolos para essas situações são espetáculos, pois a prisioneira é a última a chegar e a primeira a ser colocada dentro da aeronave. Como as leis internacionais proíbem viagem sem liberdade de movimentos, um funcionário da polícia acompanha a deportada, que se senta na última fila. Por lógico, o constrangimento foi contagioso e, na medida das suposições, todos queriam saber quem era, por que e quais os possíveis desdobramentos do caso. Para mim, logo, ficou claro que se tratava de caso de prostituição. Acertei.
No esforço de equilíbrio, tentei me distrair com outras preocupações, mas, sem sucesso algum. O que me ocorria era a nítida lembrança de outro caso, presenciado no aeroporto de Madri há alguns anos. Ao chegar então à Espanha, na passagem pelos guichês de controle de passaportes, vi uma moça sendo impedida e, sob gritos de protestos, ser levada para uma sala de averiguação. Soube depois que se tratava de mais uma “brasileira” suspeita. A soma de histórias sobre “brasileiras e brasileiros que deixam o país” tem me movido a registros que se multiplicam em entrevistas de história oral de vida. Aprendi ao longo de mais de dez anos de gravações que há dois fatores primordiais influenciando nas decisões. Um, primeiro, imediato e pessoal, diz respeito a interesses ligados a busca de melhor lugar social e de novas chances. E todos os limites da vivência brasileira se abraçam em justificativas: falta de oportunidades, preconceitos, desilusões sociais. O segundo fator é mais complexo, pois remete a uma negação cultural. Como se justificar deixando o tal “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”? Sim, preside um conflito briguento entre o ter que sair e o mito encravado na memória coletiva nacional e que preza um histórico de país que recebe (não exporta) gente. Pois é, ainda pensamos que a generosidade divina nos deu solo fértil, sem cataclismos, com paisagens invejosas e um povo incruento e cordato. Tudo, é claro, temperado com um sambinha, boa cachaça, comida saborosa e futebol.
Todo turista atrevido se autoriza um pouco antropólogo. Não fujo à essa regra, mas adiciono ao meu olhar o cuidado em ouvir os outros, e, no caso a gravar a versão dos evadidos. É fácil se apaixonar por histórias de vidas de pessoas que, quase sempre, se colocam em situação de risco. Isso, porém não é tudo, pois na troca da aventura pura e simples, dilemas subjetivos se colocam. Como equilibrar a desilusão imediata frente à quebra do poderoso mito do Paraíso Tropical? Como trabalhar com a exclusão social, tendo em mira o dramático amor à pátria, às nossas coisas e gente?  
Filtradas centenas de histórias, a maioria colhida no “exílio”, mantida a percepção das deportações e ciente dos consequentes efeitos diplomáticos entre o país que expulsa e o que compulsoriamente recebe de volta seus “expatriados”, é possível entender a precariedade historiográfica que temos. Encarando os temas “brasileiros fora do Brasil” e “prostituição brasileira no exterior”, ainda que se salvem alguns poucos bons estudos, o que se nota é um vazio assustador. O vácuo acadêmico/temático afeito a tais fenômenos, lega o assunto a “caso de polícia” ou ao “direito internacional”. Sempre criminalizados, os evadidos ficam a margem dos critérios analíticos comuns. Sobras. Silêncio. Alienação geral. Por lógico há conveniências em tais posturas: o ingresso de divisas advindas desses brasileiros se apoia na conveniência governamental que não consegue abrir frentes de trabalhos para pessoas que, prioritariamente, se situam entre 20 e 40 anos. E quantos somos fora do corpo nacional? Quatro ou cinco milhões de pessoas? Como saber? 
O avesso deste processo todo é ainda mais perturbador. Fontes do Itamaraty contabilizam, no presente, cerca de 2 mil brasileiros detidos em prisões estrangeiras. A maioria está na Europa (1066) e responde por três crimes prevalentes: prostituição ilegal, tráfico de drogas e furtos. Em diferentes países da América Latina (774), estão ligados aos negócios com drogas e armas, além do tráfico de pessoas. Nos Estados Unidos, temos cerca de 700 pessoas prioritariamente presas por presença ilegal e tráfico de drogas. Em diferentes países da Ásia estão encarcerados quase 300 brasileiros e brasileiras envolvidos em prostituição e tráfico de drogas, isso inclusive em países islâmicos onde a pena de morte é rigorosamente praticada. Na América Central, Caribe, África, Oriente Médio e Oceania estão detidos mais ou menos outros 150 patrícios, presos por motivos combinados.   
A simples constatação da persistência desse problema convoca a uma indagação quase insuportável. Se os anos de 1980 foram chamados de “década perdida”, estaríamos agora reeditando o mesmo processo? Sei lá o que dizer, mas uma coisa é certa, faz eco o verso de Chico Buarque ao dizer em uma passagem “Estou me sentindo tão só/ Oh! tenha dó de mim/ Pintou uma chance legal/ um lance lá na capital/ Nem tem que ter ginasial/ Meu amor... Bye,bye Brasil/ A última ficha caiu”.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

ADELINA & ADELAIDE


GENÉTICA: História de gémeas uma albina, outra não

Adelina e Adelaíde são gêmeas. Nasceram no dia 9 de Julho de 1995, filhas de pai e mãe negros. Até aqui nada de extraordinário. Davy Alexandriski, fotógrafo brasileiro, expõe-nos, com a sua lente, duas irmãs que sendo gêmeas, uma é albina e outra não.

E explica isto como resultado de uma simples mutação cromossómica, responsável pelo facto, indesmentível, diga-se, de o organismo da Adelina não metabolizar uma enzima – tirossinase – em melanina, como o da sua gêmea Adelaide. “Por isso, e apenas isso, suas peles têm pigmentação diferentes. Essa é a única diferença aparente entre elas”, destaca.

A história sensibilizou-nos não somente pelo seu lado insólito, mas pela precisão da fotografia e promoção de humanismo.

O fotógrafo fala-nos de duas meninas que no seu dia-a-dia transmitem valores positivos à sociedade, mostrando que são cidadã do mundo e irmãs concebidas no mesmo útero, não interessando, portanto, as aparências.

Elas cresceram com esta lição bem estudada. Atropelaram mitos pseudoculturais, impondo-se com a crença de serem cidadãs deste mundo. Adelina no terceiro ano da Faculdade de Direito, enquanto a Adelaide frequenta o terceiro ano da Faculdade de Engenharia Eletrotécnica .

Mas nem tudo foram flores na vida da Adelina (a albina). E a sua irmã , Adelaíde (com a chamada pigmentação normal) se transformou na protetora da vida toda.

TELINHA QUENTE 272


Roberto Rillo Bíscaro

Forbrydelsen abriu o caminho pra popularização do Nordic Noir na TV inglesa, mas foi A Ponte que eletrizou o subgênero. Desde 2007, Inglaterra, EUA, França, Espanha, Nova Zelândia têm produzido thrillers com forte gosto escandinavo. O Reino Unido é o que tem se inspirado mais e melhor nos suecos e dinamarqueses. Shetland, Broadchurch, Y Gwill são policiais imperdíveis pra quem curte histórias e ambientação deprês. Fortitude trouxe até Sofie Gråbøl pro elenco, além de se passar numa fictícia base polar norueguesa. O amor britânico por tudo Scandi não arrefeceu em 2016. A ITV contratou Hans Rosenfeldt – o criador de BronIBroen – pra conceber e escrever os 8 capítulos de Marcella, exibidos a partir de abril e ora disponíveis na Netflix.
Marcella Backland é uma ex-policial atordoada, porque seu marido acaba de abandoná-la. Justamente então, um colega a procura pra informar-se sobre assassinatos em série, que a detetive-sargento investigara. Suspeita-se que o maníaco está atuando novamente. Ainda obcecada pelo caso não-resolvido e desesperada pra preencher seu tempo e cabeça, Marcella pede seu emprego de volta e mergulha num mundo de prostituição online, falcatruas corporativas, traição extraconjugal e psicopatia. Há um agravante, porém: ela vem experimentando episódios de amnésia, então, às vezes ficamos na dúvida de se alguns dos malfeitos não foram cometidos por ela mesma. Isso a liga com a já clássica Saga Norén, de The Bridge, e seu possível Asperger jamais mencionado. Mas física e indumentariamente, Marcella é parente de Sarah Lund, de Forbrydelsen. A atriz Anna Friel está meio caracterizada como sua colega dinamarquesa, até mesmo num casaco que sempre veste, que aliás, me lembrou o usado por uma detetive francesa da chinfrim Virage Nord (2015), outra cria do Nordic Noir.
Como no caso dos problemáticos Norén e John River, a tarefa primeira é acreditar que a polícia inglesa aceite a DS Backland de volta, sem recapacitação ou avaliação físico-psicológica, só porque ela pede. Numa cena ela diz que quer retornar e na próxima já está com os novos colegas, uns 15 minutos primeiro capítulo adentro. Mas, sem suspensão da descrença praticamente não assistiríamos a nada. 
Em Marcella, Rosenfeldt usa a mesma técnica de apresentar subtramas aparentemente do nada, como em BronIBroen. Ficamos desorientados, mas logo entendemos ou supomos a conexão. No caso desta série, isso liga-se à própria desintegração da personalidade da detetive, então o embaralhamento é bastante interessante. Não se trata de nada muito complexo; o show é bem assistível. Só há que ter paciência, porque os procedimentos são meio lentos.
Fãs de The Bridge não deixarão de comparar as 2 séries, então é bom avisar que aquele padrão de excelência não é alcançado e algumas das subtramas não são resolvidas a contento. Marcella nunca atinge as alturas da produção sueco-dinamarquesa, mas também é importante lembrar que o mundo de Saga Norén é ponto fora da curva.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MAIS UM VILÃO ALBINO

Raio Negro | Série da DC escala rapper albino para viver vilão clássico das HQs
O rapper Marvin “Krondon” James vai interpretar o clássico vilão Tobias Whale na série Raio Negro, próxima adaptação da DC a ir ao ar no canal CW, mesmo que exibe The Flash, Arrow, Legends of Tomorrow e Supergirl.


De acordo com a TVLine, Krondon é um rapper bem conhecido na área de Los Angeles, especialmente por seu visual único, visto que é albino. O personagem dos quadrinhos divide essa condição com seu intérprete.

Nas HQs, Tobias Whale é um político que mata o pai do Raio Negro após ser exposto em um escândalo de corrupção. Ainda não há previsão de estreia para a série.

CAIXA DE MÚSICA 278 (ALBINA)

Hermeto Pascoal lança o álbum 'No mundo dos sons'

O multi-instrumentista chega com disco inédito depois de 10 anos sem gravar


Matheus José/Divulgação. Hermeto Pascoal.

O processo criativo de Hemeto Pascoal foge completamente da formalidade. Ele não precisa se isolar num quarto da sua casa, no bairro de Jabour, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para compor as músicas que reafirmam a genialidade que o fez conhecido como “bruxo dos sons”. A inspiração para ele pode surgir em cima do palco – onde costuma improvisar o tempo todo – ou ao batucar no próprio corpo.

Aos 81 anos, o veterano compositor, arranjador e multi-instrumentista nascido em Lagoa da Canoa (Alagoas), há 10 anos sem lançar disco, está chegando ao mercado com No mundo dos sons, álbum duplo que saiu pelo selo Sesc, no qual reuniu 18 temas – todos inéditos. Alguns deles homenageiam “irmãos espirituais que a música me concedeu”, diz com a pureza que lhe caracteriza.

No mundo dos sons, que Hermeto gravou com seu grupo, no estúdio Gargolândia, em São Paulo, pode ser ouvido também nas plataformas digitais de streaming Spotify, Deezer, Google Play Music e Aple Music. Além de assinar a direção musical, composições e arranjos, ele toca pianos, teclados e escaletas, e utilizou instrumentos nada convencionais como berrante, apito, colher e chaleiras – sempre com a celebrada maestria.

Hermeto, pelos seus cálculos, tem armazenado algo em torno de 9 mil composições. “ Registro tudo em cadernos, sem títulos, mas, já com os acordes. Depois, na hora da execução num show, ou em gravações de estúdio, podem até ganhar novos arranjos”, explica. “As alterações no andamento, no entanto, não desvirtuam do que foi escrito originalmente”, acrescenta.

Ele conta que em fevereiro levou para o estúdio paulista 30 músicas. “A maioria foi composta há muito tempo e fazia parte do meu acervo. Mas há também coisas mais recentes, embora para mim, música não tem idade, gênero ou nacionalidade. Música é universal. Criadores de outras nacionalidades compartilham espiritualmente comigo dessa ideia”.

Sobre os nomes dados aos temas, com os quais presta homenagem a compositores brasileiros, expoentes do jazz, ex-integrantes do seu grupo e familiares, ele conta que a escolha foi feita depois das músicas prontas, já na fase da remasterização. 

“São irmãos de som e alguns, de forma corpórea, já não estão mais entre nós, mas mantêm-se vivos espiritualmente na minha memória afetiva”, ressalta.

Parte deles, o genial albino conheceu em diferentes períodos em que esteve nos Estados Unidos, entre o final da década de 1960 e o começo dos anos 1980. “Em 1969, fui convidado por Airto Moreira e Flora Purim para gravar dois discos com eles. Atuei como compositor, arranjador e instrumentista. À época, conheci Miles Davis (celebrado em Para Malis Davis) e gravei Igrejinha e Nem um talvez, músicas que entraram num disco dele. Naquele tempo fiz amizade, também, com Chick Corea e Ron Carter, outros irmãos”, lembra. Para os dois, Hermeto dedicou Um abraço Chick Corea e Para Ron Carter”, lembra.

Selo Sesc/Divulgação
Uma outra recordação que o compositor guarda é a do argentino Astor Piazzola, reverenciado em Viva Piazzolla!.. “Em 1986, Piazzola fez um show no Teatro Tuca, em São Paulo, logo após uma apresentação minha. Naquela noite, ele chegou para alguém da produção e disse: ‘Vocês têm que erguer uma estátua para este homem, referindo-se a mim, o que me deixou extremamente envaidecido”.

Tom Jobim, Sivuca, Edu Lobo, Jovino Santos e Carlos Malta são grandes artistas brasileiros que deram nome a outras faixas do No mundo dos sons. “Participei de apenas um disco do Tom, gravado nos Estados Unidos, como arranjador. Quase não nos víamos no Rio de Janeiro. Nos encontrávamos mais em aeroportos. Eu me aproximei do Edu naquele festival da TV Record, vencido por ele com a canção Ponteio. O arranjo da música foi inspirado na sonoridade do Quarteto Novo, grupo do qual eu fazia parte”.

De Sivuca, Hermeto tem uma tenra lembrança. “Adolescente, cheguei a Recife para tentar viver de música. O Sivuca, que era mais velho do que eu, me deu oportunidade na Rádio Jornal do Comércio. Mais tarde nos reencontramos no Rio. Albino como eu, por vezes éramos confundidos. No final da vida, ele foi morar em João Pessoa e nunca mais nos vimos”. Forró da gota para Sivuca é o tributo prestado ao acordeonista paraibano.



Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press

No Mundo dos Sons
Álbum duplo de Hermeto Pascoal e grupo, com 18 faixas. Lançamento do selo Sesc. Preço sugerido: R$ 30.
 Harmonia no Caos 
A base da música é a mais exata das ciências; é a matemática que dá ordem e organiza uma composição ou um arranjo. Ao mesmo tempo, não há nada menos exato que a sensação provocada por uma peça musical que, ao contrário das outras manifestações artísticas, não se apoia em conceitos ou formas visíveis.

Depois de uma vida, está sendo lançado um novo disco de Hermeto Pascoal, talvez o músico brasileiro que melhor represente essa organização do caos, tanto pelos instrumentos inusitados que usa quanto pelas linhas musicais que explora. Se alguém quiser classificar sua música, vai dar com os burros n’água; nada ali é o que parece.

Nos 18 temas de No mundo dos sons, ele homenageia amigos, na maioria músicos, em manifestações livres e soltas — alguém mais racional pode perguntar por que festejar Ron Carter e Astor Piazzolla, por exemplo, com temas que embutem frevos? E por que não? O importante é que tudo faz sentido e, mais importante, aguça os sentidos — principalmente o prazer de fazer pensar.

Logo na abertura do disco, Hermemeto mostra sua aguda noção de tempo musical num tema dedicado a São Paulo, quando coloca o ouvinte no meio de sons que parecem se chocar, mas que na verdade vão se harmonizando para mostrar o corre-corre da cidade grande. Tudo parece acabar no trânsito, como se houvesse música ali; e o surpreendente é que há.

Em Para Miles Davis, ele desenvolve um tema livre a partir de uma construção musical quase cubista, em que as notas parecem invertidas, usando instrumentos tradicionais ao lado de sons de gansos e galinhas e uma percussão fora dos padrões. Mas, de novo, só há música onde existe ordem; mesmo que seja assim, com toda liberdade.

Hermeto explora o jazz (Vinicius Dorin em Búzios), frevo (Para Thad Jones), baião (Forró da gota para Sivuca) ou qualquer outro gênero musical, mas o importante para ele parece ser ultrapassar as divisas que se apresentem. Os temas — quase todos — são variados, abusam de mudanças de andamento e cortes melódicos, e provocam enquanto entretêm.

O multi-instrumentista e grupo radicalizam a proposta em Entrando pelos canos, tema inteiramente desenvolvido sobre instrumentos de percussão — e aí valem colheres de plástico, berrante, tamancos de madeira e canos de alumínio. É uma música completa que nasce do batuque. Para encerrar, ele propõe um tema mais introspectivo, delicado, que por vezes cobre um diálogo entre Hermeto e seu neto, a quem a música Rafael amor eterno é dedicada. Uma coda: é música pura, direta, livre e fantasiosa, onde o único fundamento estético parece ser o prazer de fazer e de ouvir.
Paulo Pestana 

domingo, 13 de agosto de 2017

SUPERAÇÃO EMPREENDEDORA

O jovem bilionário Flávio Augusto vem da periferia do Rio de Janeiro, onde teve a ideia de criar uma escola de inglês, que virou um fenômeno no mundo das franquias. Conheça um pouco de sua história.

sábado, 12 de agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

TELONA QUENTE 197



Roberto Rillo Bíscaro

Tenho lugar macio no coração pra thrillers espanhóis, daqueles bem inverossímeis, mas elegantemente montados, às vezes, canastronicamente atuados, mas cheios de reviravoltas. Já resenhei Mientras Duermes, mas sobre alguns não escrevi, como um que há (havia? Nunca sei) na Netflix, sobre um pai e filha num automóvel, onde um desafeto colocou uma bomba.
Quando li a sinopse d’Um Contratempo (2017), no menu da Netflix, adicionei à minha lista e vi na primeira brecha. Apenas depois de vê-lo, descobri que era o segundo longa do diretor Oriol Paulo, d’El Cuerpo, resenhado aqui, e que parece era da Netflix (viram como me perco?). Tomara que o espanhol seja ainda jovem e goze de boa saúde, porque pode vir muito mais coisa boa dele.
“Após acordar ao lado de sua amante assassinada em um quarto de hotel, um empresário contrata advogada para descobrir como acabou sendo suspeito de um homicídio”, diz a sinopse oficial. Pra quem não viu tá de ótimo tamanho saber apenas isso. Suspense tem disso: quanto menos se sabe, melhor. Em Contratempo, quanto menos se enxerga também, mas isso deixo pros mais atentos.
O filme tem como foco central narrativo o embate entre o jovem empresário e a advogada, durante umas 3 ou 4 horas noturnas. Como a promotoria traria testemunha surpresa (magina, dá pra sacar logo quem é), a doutora Goodman compromete-se a criar com Doria uma narrativa pra livrá-lo da cadeia. Narrado em distintos planos temporais não cronologicamente ordenados, Um Contratempo pega todos os elementos típicos dum thriller e recombina-os de 2 ou 3 maneiras, porque a cada possibilidade de história, o espectador as vê como se tivessem acontecido
Se tal estratagema às vezes nos desorienta – quem quer segurança e certeza não deve escolher thrillers, né? – também justifica determinadas alterações na construção de personagens, especialmente da amante morta. Em sentido metalinguístico, Um Contratempo é a escrita dum roteiro, perante nossos olhos.
Tem final surpresa, ambientação noir noturna e/ou florestal, na fronteira sul entre França e Espanha e até participação de Francesc Orella, o Merlí, conhecido dos assinantes brasucas da Netflix. Que mais você quer pruma noite divertida?

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CONTANDO A VIDA 199

NOVOS PAIS, NOVA ÉTICA PARENTAL...

José Carlos Sebe Bom Meihy


Para o cronista, abordar datas que se repetem na rotina dos calendários implica achar atalhos originais, esforço para não ser maçante ou repetitivo. Dizer algo que certifique a comemoração, mas que, ao mesmo tempo acrescente algo, demanda cuidados. Uma das demandas remete às celebrações em datas redondas como 10, 20, 25, 30, 50, 75, 100 anos... Como se fossem apelos emocionais obrigatórios, a retomada de certos eventos se presta a cultos que tanto servem para reafirmar como evidenciar equívocos. Em um ou outro ponto, os aniversários se justificam para solidificar laços pessoais, de grupos, religiosos ou civis, com vocação coletiva. Muito das construções identitárias ou de comunidades se rende a tais rituais. Importante marca dessas cerimônias se expressa pelo esforço de quebra de rotinas na essencialização de fatos. Tudo como se houvesse permissão para que acontecimentos do cotidiano se firmassem como fora da curva rotineira. Talvez, o mais expressivo exemplo disso seja o “dia das mães”. O cotidiano materno, por certo e como tantas outras exaltações natalícias, se opera no dia a dia, mas a definição de uma data “específica” ratifica e sublima o mito desse afeto inigualável. Por certo, o comercio se beneficia disso, e de igual monta se percebem cultos religiosos exaltando tradições, algumas inventadas recentemente.
Ainda que se pense que, por exemplo, o amor materno seja inquestionável e irrestrito, eterno e universal, sabe-se que sua invenção é bem mais recente. Aliás, convém lembrar que como qualquer sentimento, o amor – em todas as suas formas – não responde a posturas inatas ou manifestações determinadas biologicamente. Os sentimentos também têm histórias e são suscetíveis a condicionamentos culturais, segundo lapsos de tempo e circunstâncias espaciais. Uma autora importante pela valentia, Elizabeth Badinter, por exemplo, escreveu um livro polêmico, daqueles que queimam mentes de leitores, questionando o “mito do amor materno”. Lembrando que houve épocas, recentes mesmos, em que as crianças depois de nascidas eram legadas às criadas e retornavam aos seus lares com cinco anos de idade, tudo se tona explicativo de culturas e épocas. A noção de família, na realidade, começou a mudar com a caracterização da burguesia, a partir do século XIX.
Valendo-me do mesmo mote, fico imaginando o significado interno de reflexões sobre a paternidade. Por certo, os livros religiosos e toda a literatura de um período, bem como a história, se rendem a releituras e interpretações. No caso do cristianismo, a redefinição do papel familiar implicou a noção de Sagrada Família para servir de norma forjadora de padrões úteis depois da revolução industrial. A mãe, modelada pela Virgem Maria, seria sinônimo de afeto invariável, comum a todas as mulheres. São José, o bom senhor que serviu de pai, representaria o provedor, homem zeloso pela honra da mulher e sustento da casa. O filho – leia-se também no plural, “os filhos” – selaria a unidade que, afinal, é a base de qualquer sociedade moderna e unidade econômica. Frente à precariedade de estudos históricos que insistam na desconstrução de pressupostos fixos, persiste a resistência de valores assumidos como inquestionáveis ou dogmáticos. Valeriam aprofundamentos históricos na questão, mas, mesmo que à flor d’água, é oportuno colocar alguns pontos que se mostram pertinentes a responder sobre o sentido da paternidade hoje.
Em vez de simplesmente retocar os mesmos denodos exaltativos da paternidade, cabe inscrever alguns pontos fundamentais. Nos dias atuais, frente a emersão transformadora do papel da mulher na sociedade, como ficam os papeis paternos? Não apenas considerando os avanços femininos e a decolagem feminista, mas levando-se em conta a relativização do papel do casamento, qual o peso das tradições patriarcais que, queiramos ou não, ainda desafiam um padrão de masculinidade? E a chamada revolução sexual, com a flexibilização do binarismo homem/mulher teria algum impacto no perfil paternal? Pensemos, a guisa de provocação, nos casais homoafetivos e nas aberturas legais para adoções. Será que o que se comemora como “dia dos pais” agora, encerra o mesmo teor do passado recente? Ou que devamos aceitar o feminino também cabível como paterno? Tenho amigas casadas, lésbicas, e em um desses casos, um componente da unidade familiar quer festa e presente dos filhos, há como não respeitar?
Parece questionável também pensar no significado da coleção de mudanças na educação dada ou permeada pelos pais. Suponhamos diálogos de pais e filhos sobre as orientações sexuais em geral. Ou sobre o uso de drogas. Que tal falar de aborto com os filhos? Ou de relações abertas? Sem uma nova ética, atualizadora de diálogos, não há como se pensar na paternidade além das festinhas e presentinhos tolos. Ser pai hoje requer capacidade de negociação e valentia na discussão de papeis e funções domésticas. Talvez, portanto, o melhor presente que se possa pensar para os pais modernos seja a veiculação de uma nova ética. Feliz dia dos pais a quantos se dispuserem a pensar nos filhos sob os padrões de hoje.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

TELINHA QUENTE 271



Roberto Rillo Bíscaro

Embora corramos sempre o risco de exagero ou imprecisão, nesses tempos de overdose de fartura de séries, é importante tentarmos rotular a qual subgênero cada produção pertence, a fim de facilitar, pelo menos um pouco, a vida dos telespectadores. Nem sempre é fácil, porque vivemos a época do pastiche e do crossover, mas pelo menos pode-se tentar dar alguma noção ao consumidor, perdido em um turbilhão de produções.
Os seis capítulos criticamente aclamados de Top Of The Lake (2013) são prioritariamente descritos como série policial com elementos de drama feminista. Eu alteraria a ordem, porque a produção neozelandesa é um poderoso drama-denúncia dos excessos fálicos da sociedade patriarcal, que usa quase como desculpa uma investigação policial. É preciso ter isso em mente antes de se decidir por assistir à produção, que consta da grade da Netflix brasileira. Caso o expectador não se neuro-programe pra aceitar que as convenções e velocidade do drama vêm primeiro, pode achar Top Of The Lake bem monótono, porque há longas sessões que não fazem a trama detetivesca caminhar um milímetro. Mmmm, mesmo depois de me posicionar perante o subgênero, achei meio chatinho, embora esteticamente bem-sucedida. Não, uma coisa não exclui a outra em meu universo emocional.
Nos confins cenicamente belíssimos da Nova Zelândia, uma eurasiana de 12 anos aparece grávida, pra em seguida desaparecer. Ela é filha dum coroa malvado e desonesto, com meios-irmãos da pesada. Candidato a estuprador de vulnerável é o que não falta na pequena Laketop, que afugenta qualquer desejo de viver no interior do arquipélago; eita gente estranha! Se bem que jamais vemos a cidadezinha, atente pra isso, é só natureza, acampamentos, cabanas isoladas. A natureza é fundamental em Top Of The Lake e pra quem curte paisagens, já vale a minissérie.
Quando Tui aparece grávida, quem convenientemente está passando temporada no lugarejo é a detetive Robin Griffin. Ela veio visitar a mãe moribunda e por isso tirou licença de seu emprego em Sidney. Obcecada pelo calvário da menina abusada, Robin tem seus próprios e pesados fantasmas envolvendo seu passado adolescente em Laketop.     
Produzida, escrita e dirigida pela cineasta Jane Campion, Top Of The Lake encaixa-se em seu cânon de denúncia dos abusos do macho. Até sua querida Holy Hunter está no elenco, como mentora espiritual dum grupo de mulheres abusadas que monta acampamento numa área conhecida como Paraíso. Cheia de afirmações-verdades e sentenciosas. Acho tão sacal esse tipo de personagem...
O selo Campion confere a Top Of The Lake direção segura de atores e produção esmerada, além de clima de cinema independente, com sua galeria de gente disfuncional e ações de esquisitice de butique. Tudo muito cabeça, simbólico, pertinente em sua denúncia contra alguns grupos oprimidos (brancos ou eurasianos; neozelandeses nativos não existem nessa natureza), mas, como policial, sinto muito, não dá. É apenas desculpa do roteiro pra falar de outras coisas e querer transgredir (embora um exame de “DNA ex machina” recue a transgressão mais patente).
Robin Griffin não age como protagonista quase nunca, a não ser nos 15 minutos finais, quando há uma plot twist a partir de uma epifania meio que do nada. Top Of The Lake serve pra mostrar como essa visita ao local de nascimento funciona como catarse regenerativa pra detetive. É preciso desconstruir pra construir. Eurasiana ou branca, mulher se ferra mais no patriarcado. Essas coisas são legais em Top Of The Lake e não o suspense policial ou as revelações sobre o sumiço de Tui. Até porque revelar a homossexualidade duma personagem com cabelo super Limahl não surpreende nada, né? Mmm, a não ser que você não seja 50tão e sequer suponha quem tenha sido o vocalista do Kajagoogoo.    
Lento, cheio de distrações narrativas quanto à trama policial (e inverossimilhanças: como alguém fica meses numa floresta gélida e permanece com aquele cabelo de comercial de shampoo? Me deixaaaaaa!), Top Of The Lake é um drama feminista que apenas reafirma a boa época pela qual passa a produção televisiva.

Mas, não sei se terei saco pra prometida temporada dois. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

CAIXA DE MÚSICA 277


Roberto Rillo Bíscaro

Após a explosão da internet, uma das diversões/paixões de amantes de qualquer estilo é buscar pérolas e raridades. O objetivo pode ser desde fazer bonito pra se mostrar ou mesmo descobrir obras-primas obscuras. Fãs de rock progressivo há décadas vem desencavando sótãos, porões, baús e sites especializados à cata de pepitas.  Difícil encontrar obras-primas, mas volta e meia topamos com álbum que nos lembra algum grupo amado não mais existente, então, tal emulação assume tons de novidade. É como se estivéssemos ouvindo LP “novo” de algum(ns) querido(s) há tempos extinto(s).
Foi o que aconteceu, quando tropecei em Caverns Of Your Brain, do obscuríssimo ianque Lift. Na verdade, era como se prenunciasse o que décadas depois fariam grupos como o Glass Hammer, isto é, mesclar sonoridades típicas de diversos grupos prog pra criar uma sua. O Lift não tinha maturidade ou perícia pra sintetizar suas explícitas influências em novidade, mas o resultado frankenstênico de seu único álbum é muito interessante pra quem se amarra em prog sinfônico melódico.   
Imagine uma banda no sul dos EUA, abrindo seus shows em 1973, com Watcher Of The Skies, do Genesis, quando os próprios britânicos não passavam de excêntricos alternativos, conhecidos por poucos em seu país. Pois o Lift, formado no ano anterior, em Nova Orleans, fazia isso e acrescentava covers de ELP, Yes, Moody Blues, Led Zeppelin e outros.
Quando as quatro canções de Caverns Of Your Brain foram gravadas, em 1974, os membros do Lift não tinham mais de 19 anos de idade. A formação era Chip Gremillion (teclados), Cody Kelleher (baixo), Chip Grevemberg (bateria e percussão), Richard Huxen (guitarras) e Courtenay Hilton-Green (vocais e flauta). Só que o material não foi lançado até, 1977, quando a banda amargava em Atlanta, já com formação bem distinta, inclusive, vocais femininos.
O Lift debandou em 1979 e os membros nem sabiam que em 1977 Caverns Of Your Brain fora lançado, porque o selo que o fez era pirata. Parece que há uma reedição com material dos anos de Atlanta, mas não me interessei em conhecer.
Em linhas bem gerais, pode-se descrever o Lift como cruza entre Yes e Genesis. Os 10 minutos de Simplicity têm climão de teclado no começo, meio Watcher..., mas o vocal é super-Jon Anderson. Entretanto, lá pelo sétimo minuto, uma descarga de Hammond foge das texturas utilizadas por Tony Banks e confere ao Lift um som mais original, mais perto do prog italiano. Uma das diversões de ouvir versões mais genéricas de prog rock da época e brincar de caçar influências. Trata-se de subgênero muito idiossincrático, então, fãs mais devotados reconhecem guitarras Fripp, Hackett ou Howie; teclado Wakeman ou Emerson; bateria Collins etc.
Embora mais indicado pra fãs de prog tecladista, Caverns pode agradar guitarreiros, devido ao solo à David Gilmour nessa faixa de 9 minutos, que abre meio experimentosa, meio space rock, assume tom litúrgico pra finalmente decidir-se por tom meio pastoral Floyd-genesiano.
Buttercup Boogie são 6 minutos de punhetação prog adolescente. Teclados e bateria em corredeira célere com intervenção de guitarra apimentada. Tipo, ELP encontra o baixo de Chris Squire e The Knife. Trippin’ Over The Rainbow são quase dúzia de minutos de casamento de Yes com Genesis (Banks em um dos movimentos de Supper’s Ready), intercalando as texturas matinais do primeiro com teclados mais dramáticos e até algo lúgubres de prog europeu continental.
Sabe-se lá se esses teens sulistas teriam desenvolvido linguagem prog só deles. Nem compensa brincar de futurologia no condicional; melhor curtir Caverns Of Yur Dreams. 

domingo, 6 de agosto de 2017

BARBEIRO DA SUPERAÇÃO

O pernambucano Cesar ficou paraplégico em um acidente enquanto nadava, há mais de duas décadas. Mesmo deitado em uma cama o tempo todo, ele é um profissional requisitado por homens e mulheres, que vem cortar cabelo e delinear sobrancelhas. Assista ao vídeo:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TELONA QUENTE 196

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Roberto Rillo Bíscaro

Embora não seja a única instituição onde abusos sexuais aconteçam, a Igreja Católica é infame pela recorrência e impunidade de pedofilia e efebofilia. O escândalo e ultraje provocados por denúncias de abuso clerical soam mais sujas, porque esses “pastores” deveriam zelar pelo bem-estar espiritual de seus cordeiros e não comê-los.
No Chile, nos anos 2000, irrompeu escândalo envolvendo o padre Fernando Karadima, dirigente da paróquia de El Bosque, queridinho da tradicional família pinocheteana chilena. Em 2004, ex-seminaristas e membros da rica congregação começaram a denunciar o contínuo e serial assédio sexual e moral infligido pelo religioso em inúmeros jovens, entre as décadas de 80 a 2000.   
Em 2015, o diretor Matias Lira dirigiu El Bosque de Karadima, a partir de roteiro de Elisa Eliash, Alicia Scherson e Álvaro Díaz. Sucesso de bilheteria em seu país natal, o filme transformou-se em minissérie em 3 capítulos na Chilevisión, onde teve suplementação de hora e meia de material. A julgar pela perturbadora versão cinematográfica que a Netflix brasileira disponibiliza em seu catálogo, dá muita vontade de ver essa mini.
El Bosque de Karadima é narrado de forma justaposta por uma personagem ficcional, baseada nos depoimentos das verdadeiras vítimas. Thomas Leyton é esse compósito: jovem totalmente inseguro, sozinho no universo, que deposita toda confiança em Karadima, que ainda por cima, desfruta de fama de santidade. Adotando o ponto de vista do abusado, um dos trunfos do roteiro é realçar a dificuldade do oprimido em reconhecer-se como tal e, mesmo ao fazê-lo, em decidir quebrar o vicioso ciclo de abusos. E é justamente esse trunfo que deixa El Bosque de Karadima um filme necessário, mas nem sempre fácil de assistir. Benjamin Vicuña está excelente no papel do abusado Tomi, que ao mesmo tempo que sente repulsa por ser sodomizado enquanto sua esposa e filhos o esperam no hall, também sente carinho por Fernando, que pelo menos, era o único que lhe ouvia na juventude.
Poder-se-ia reclamar que a esposa de Leyton é meio tolinha por não haver desconfiado de nada depois do pintoso dialogo que tem com Fernando e de literalmente pegá-lo se esfregando com um jovem secretário. Também deve se supor que o padre tenha psicologia mais complexa do que a de um simples (mas condenável, claro) velho safado. Mas isso é opção do ponto de vista do roteiro e provavelmente também porque há mais dados dos abusados do que do pároco, blindado pela Igreja.
Sem escorregar pro sensacionalismo e com premiada atuação de Luis Gnecco, como Fernando, El Bosque de Karadima é excelente e dolorido exemplo de como o abuso de autoridade destrói vidas.