sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

SAIDINHA DE FIM DE ANO

Sempre um prazer trabalhar no blog, que no primeiro semestre resultou em ida ao Encontro, com a Fátima Bernardes e depois grande matéria sobre albinismo no programa Bem Estar.
Mas, chegou a hora da saidinha de fim de ano, que, não planejada com antecedência, acontecerá por uns 15 dias.
Hora de levar a mama para passear um pouquinho, ela merece!
Nos vemos em meados de janeiro!
Feliz 2018 para todos nós!!!!

MELHORES DE 2017 – PARTE II


Roberto Rillo Bíscaro

Vez mais, elejo o melhor do semestre, agora, pra juntar com a lista do primeiro (acesse-a aqui) e compor o melhor de 2017. 

CINEMA
Gloria – filme chileno sobre uma mulher “comum”, que se empodera.

Os Árabes Também Dançam – a dureza de ser minoria étnica numa nação sempre envolvida em conflitos.

A Tempestade de Areia – filme israelense que mostra como o patriarcado é hipócrita e nocivo às mulheres.

El Bosque de Karadima – as consequências nefastas do abuso sexual a partir dum caso verídico envolvendo a igreja católica chilena.

MÚSICA
Caravela Escarlate: Caravela Escarlate – quem diz que no Brasil não se faz excelente rock progressivo?

Wobbler: From Silence to Somewhere – álbum de rock progressivo norueguês, que já nasce clássico.

The Smiths: The Queen Is Dead – um dos álbuns mais importantes do rock relançado em edição tripla.

OMD: English Electric – o álbum de 2013 dos synthpopers ingleses é bom do começo ao fim.

Unreal City: Frammenti Noturnni: álbum de prog rock italiano deste ano, que não deve nada ao apogeu setentista do subgênero.

Jamila Woods: HEAVN – o nome do álbum já diz muito, Paraíso. Sem mais.

Ingranaggi della Valle: In Hoc Signo – o primeiro álbum dos proggers italianos não deixa signo sobre signo.

Avery Sunshine: Twenty Sixty-Four – nãoo é a toa que diva Aretha Franklin é fã desta ensolarada da soul music moderna.

TV
Slasher – a segunda temporada da série de terror é uma delícia pra fãs do subgênero cujo apogeu foi nos anos 80.

Hostages – as duas temporadas da série israelense são pura adrenalina pra maratonar.

Wallander – gostei de todas as versões desse detetive sueco, mas a favorita é com Krister Henriksson.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

TELONA QUENTE 217



Roberto Rillo Bíscaro
Ano que vem, Halloween fará 40 anos e Jamie Lee Curtis voltará a interpretar Laurie Strode, icônico papel que transformou a filha de Janet Leigh e Tony Curtis na final girl mais famosa do universo slasher. Jamie afirmou que será a última vez que encarnará a personagem, mas fãs devem se lembrar que ela disse o mesmo, em 1998, quando de Halloween H20. Nem é necessário vasculhar arquivos pra checar a informação, basta assistir a Halloween: The Inside Story (2010), disponível em inglês sem legendas no Youtube.
Em seus 90 minutos, o documentário foca na produção do clássico mambembe de John Carpenter, que além de influenciar toda uma geração de cineastas trash, ainda tem uma das trilhas-sonoras mais reconhecíveis da história do cinema em qualquer subgênero. E composta por Carpenter! O desgramado é bom e sabe disso, basta ver a atitude blasê, de quem se acha. OK, ele até que pode.
Cuidadosamente evitando o anterior Black Christmas (1974) – que influenciou em muito Halloween - Halloween: The Inside Story é farto em minúcias e anedotas de produção, como explicar a profusão de folhas secas outonais de Illinois num filme gravado em plena primavera californiana. Canonizado em seu estatuto de clássico, já se pode até apontar alguns erros grosseiros, como membros da equipe aparecendo por detrás de arbustos e que tais.
Até personagens menores e extras dão depoimentos, além de críticos e executivos, então, é prato cheio pra fãs não apenas da franquia, mas de slasher films e horror em geral. Mas, admiradores da indústria cinematográfica gostarão de saber como era o esquema de lançamento dum filme no fim dos anos 70, quando a crítica especializada tinha forte poder pra (des)fazer uma película. Detonada nos jornais, a película só engatou nas bilheterias, depois que 2 críticos respeitados viram seu valor. Isso e o boca-a-boca fizeram de uma produção barata de 325 mil dólares (25 mil foi o salário de Donald Pleasence), o filme indie mais lucrativo durante uma década. 
Finalmente, um documentário que abordou o uso de “totally”, pela personagem Lynda. Hoje tão comum entre descolados, a atriz PJ Soles dá aula de “totally”. Você também aprenderá de qual ícone sci fi originou-se a máscara de Michael Myers, enfim, é muito divertido e totalmente informativo.
Falando em P. J. Soles, ela não solta nenhum totally enquanto narra os quase noventa minutos de Halloween: 25 Years of Terror (2006), que oferece visão bem mais panorâmica da franquia, inclusive com o impacto das comunidades de fãs impulsionadas pela internet e que influenciariam roteiros e produção dos filmes do século XXI.
O documentário abre obviamente falando da importância do original de John Carpenter, que tem em sua cotidianidade um diferencial enorme no horror ambientado em mansões góticas, sarcófagos, castelos medievais ou mesmo no sinistro Bates Motel, mais mundano que a Transilvânia, mas ainda muito rococó. Halloween se passa num subúrbio indistinto de milhares ao redor do mundo desenvolvido.
O que torna Halloween: 25 Years of Terror valioso é o passeio diacrônico, que pela data não pode englobar as releituras de Rob Zombie, mas em seu percurso de  quarto de século detecta as tensões e pressões que passaram a existir, quando Halloween deixou de ser produto indie pra se tornar peça valiosa do lucro corporativo. É por causa desse jogo de interesses – acoplado a crescente explicação do mal de Michael Myers – que os Halloweens dos anos 80 em diante, passaram a ser cada vez mais como qualquer slasher film inspirado no Halloween original. Mortes melequentas passaram a sobrepor o suspense.


Será que alguma sequência suplanta a aura do original? Por mais que ame Sexta-Feira IV, o primeiro filme – cópia de Halloween, que nem tem Jason Voorhees – tem um quê imbatível. No caso da obra de Carpenter isso é inconteste, porque Halloween praticamente deu as coordenadas dum subgênero do horror e depois se rendeu à sanguinolência de suas tantas imitações.
De todas as franquias “clássicas”, Halloween deu o escorregão mais espetacular. A parte 3 nada tem a ver com a mitologia de Michael Myers; onde já se viu isso? Lembro-me da raiva por ter me sentido enganado. Por mais que produtores expliquem que o conceito de franquia ainda era incipiente e que a trama proto-Black Mirror/pós-Invasores de Corpos nem seja ruim, o que importa é que a marca Halloween passou a significar filme com a personificação mascarada do mal e se possível com o Dr. Loomis, enquanto Donald Pleasance respirava. A resposta do público foi fracassar o filme na bilheteria, fazendo com que a franquia hibernasse pela maior parte dos 80’s, enquanto Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo enchiam cofres.
Em 1988, algum estúdio decidiu ressuscitar Myers e nos próximos anos pelo menos mais 3 sequências foram feitas, antes da repaginação de H20, em 1998. Como explica o título, o documentário Halloween 4, 5 & 6 (2013) minucia a produção dessas sequelas, com entrevistas com elencos, o relacionamento desses com a estrela Pleasance e seu sucesso ou fracasso comercial/”artístico”. Mesmo com filmes consagrados, é normal nesses documentários a inflação da importância, enfim, a construção de hype mitificante. Mas, quando isso acontece com bombas como as partes 5 e 6 fica difícil de engolir sem rir. Até se admitem os erros e entraves que implodiram os 2 filmes, mas elogiar tanto o 4 é duro. Assim, esse é o documentário menos essencial pra não fãs de carteirinha da franquia ou de horror (meu caso, nunca cultuei Michael Myers; sou bem mais o Dr. Loomis).

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

CONTANDO A VIDA 216


HORÓSCOPO: 2018

José Carlos Sebe Bom Meihy

Adeus ano velho. Xô 2017. Vai tarde. Eita ano difícil!... Até para acabar, 2017 dá trabalho. Mas há de virar. Pelas perspectivas, porém, não é plausível garantir que o “novo tempo” seja mais fácil ou melhor. Tomara que a boa saúde de todos compense o “pouco dinheiro no bolso”. As possibilidades positivas são remotas e, em troca, as expectativas assustam, pois, além de tudo teremos Copa do Mundo e eleições. A continuidade dos escândalos políticos se mistura com o desequilíbrio dos três poderes que, aliás, apresentam-se a cada dia mais “desempoderados” e distantes do povo. Num esforço adivinho nos é permitido supor alguns lances mostrados à guisa de horóscopo imaginário.


JANEIRO: calor e chuvas com deslizamentos que atingirão comunidades pobres. O ano começará com o fracasso do governo na tentativa de recuperar algum prestígio. Apesar das férias escolares e do natural esvaziamento provocado pelo verão, as bases sindicais tentarão articular campanhas que, contudo, não emplacarão. Nova edição do BBB apresentará facetas do gosto público pelos vexames transmitidos pela Rede Globo (negros, velhos e trans estarão representados, reafirmando mitos: da democracia racial, tolerância etária e de gênero); 

FEVEREIRO: mais calor e chuvas torrenciais. O Carnaval será magnífico, mesmo sem a ajuda das diversas prefeituras. A celebração do centenário do Cordão do Bola Preta arrastará milhões de pessoas pelas ruas do centro do Rio, justificando ser aquele “o maior bloco carnavalesco do mundo” (ainda que os pernambucanos contestem, afirmando que o Galo da Madrugada seja imbatível). A Campanha da Fraternidade será anunciada, mas sua duração precária se apagará logo devido a superposição de problemas urgentes reportados pela mídia. Políticos se rearranjarão para disputas eleitorais, e uma série de denúncias será propagada pelas redes sociais. O almejado alento de harmonia pelo ano novo já terá se dissipado, dando lugar a mais ódio e ameaças;

MARÇO: as águas do mês famoso pelas chuvas se mostrarão ameaçadoras. Na arena cultural, muito há de se falar sobre os 50 anos dos eventos de 1968. No final do mês, a fração democrática fará crítica aos “anos de chumbo”, e a crescente onda ultraconservadora defenderá as causas reacionárias, ligadas também aos segmentos que pretendem converter o país em imensa igreja;

ABRIL: a Semana Santa motivará movimentação mostrada como inigualável pelo governo que insistirá em convencer a população iludida pela recuperação econômica, apagando a certeza de que ela é fato exclusivo das grandes empresas e dos bancos que atingirão lucros nunca revelados. Em nível eleitoral, novos escândalos serão revelados;

MAIO: os preparativos para ida da Seleção à Rússia quase ofuscarão os debates políticos. As ruas começarão a se colorir com bandeirinhas e embalos exagerados, mas explicáveis pela lei da compensação psicológica. O técnico Tite será o nome mais citado em todas as mídias. O frio não afugentará as torcidas organizadas e as acusações políticas serão trocadas por cenas de apoio esportivos;

JUNHO: o país vestido de verde e amarelo encarnará uma identidade fantasiosa e como nunca se cantará “sou brasileiro, com muito orgulho”... Os temas ligados ao preconceito racial, machismo, distâncias sociais e demais mazelas ficarão encolhidos ante a euforia do campeonato do mundo. Apesar do bom desempenho, o Brasil que tão bonita campanha fará, não se sagrará, mais uma vez, campeão. No dia 18, alguns jornais noticiarão o centenário do nascimento de Nelson Mandela e as festas juninas se estenderão pelos meses seguintes;

JULHO: mês de férias escolares e pleno envolvimento do país na crítica à seleção de futebol que foi modestamente recebida nos aeroportos. Denúncias políticas ocuparão os noticiários fartos de explicações pelo fracasso esportivo.

AGOSTO: a disputa eleitoral retomará fôlego, e as agressões dos candidatos refletirão na população que, como nunca, mostrará os riscos dos extremos. Como se tivéssemos uma esquerda, os “direitistas” abusarão do palavreado de terror para amedrontar a todos. O típico pessimismo do “mês dos cachorros loucos” se revelará nas pesquisas que apontarão a “vitória da oposição”, como se existisse alguma. Apologistas do apocalipse político acenarão com possibilidade de intervenção militar. Os fundamentalistas religiosos começarão a movimentar seus fieis, orientando formas dogmáticas de votação;

SETEMBRO: a velha lenga de que podemos virar uma Venezuela chegará às páginas dos jornais, que serão preenchidas com alusões quase terroristas. Alguns temas aventados ao longo do ano, contudo, permitirão que novos nomes sejam apontados como promessas políticas, mas para futuro pleito. Cá e lá repontarão artigos lembrando que o avassalador surto de Gripe Espanhola grassara o Brasil há cem anos;

OUTUBRO: sempre o mês mais difícil do ano, nessa oportunidade exibirá ainda mais complicado. As eleições ocorrerão com as usuais reclamações, e mesmo com as urnas eletrônicas denunciadas por fraudes, os resultados serão comemorados como “novo tempo”. A “vitória da oposição” não explicitará grandes mudanças. O cansaço do primeiro turno será intensificado imediatamente com novas/velhas alianças;

NOVEMBRO: já cansado, o ano mostrará sinais de fadiga. A segunda fase eleitoral, cumprirá o enredo das repetições que iludem o eleitorado que votará como sempre. No dia 4, depois do anuncio do novo presidente, o horário de verão vai começar. Aos poucos, se iniciarão as musiquinhas de Natal e as campanhas de vendas mudarão os temas sociais gastos pelo teor exaustivo do ano. “Então é Natal” começará a ser ouvida progressivamente. Os ódios levemente aplacados terão teores trocados, evidenciando mais do mesmo;

DEZEMBRO: num esforço para esquecer as agruras do ano, amaldiçoando o andamento do “ano velho”, renovando o estoque de votos de felicidades, o último mês do ano revigorará a mania de desejar “feliz ano novo”... E novo horóscopo será feito na certeza de que o melhor do ano foi a garantia que teremos para depois de 2019 uma nova geração de políticos.


De toda forma, vale pensar que os horóscopos sempre são contrariados. Tomara que este acerte na esperança e erre nos titubeios ilusórios que garantem que “este é um país que vai pra frente”.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

TELINHA QUENTE 291


Roberto Rillo Bíscaro

O primeiro conto estrelado pelo sempre popular Sherlock Holmes foi A Scandal in Bohemia, em 1891, na The Strand Magazine. O rei de fictício país germânico procura o detetive pra recuperar foto comprometedora: o monarca estava prestes a se casar, mas sua ex possuía registro a seu lado. Mais dum século adiante, tal preocupação soaria ridícula; até tetinha da Realeza britânica saiu em jornal e Charles manifestou desejo de ser Tampax.
Há que modernizar enredos e tramas. TV mira especialmente pro público até 40 e poucos anos; esta é a faixa que mais consome a montoeira de bobagens anunciada. Difícil querer que uma garota contemporânea não caia na gargalhada e mande à merda uma donzelinha do século XIX, cujo “problema” é ser chamada ou não pelo nome cristão pelo pretendente (leia Rachel Ray, do Trollope) E quem poderia culpa-la por não se importar com esse “dilema”? Não tem mais nada a ver com a experiência do século XXI, quando (parte (d)a mulherada ameaça com porrada e bomba.
Isso veio à cabeça, quando soube das muitas críticas à Anne With An E (2017), da Netflix. Muitos fãs da ruivinha esbravejaram que os 7 capítulos da coprodução com a TV canadense CBC acrescentaram faceta psicológica ausente nos livros. A despeito do rebuliço, a produção foi renovada, significando que deu audiência.
Senhor 50tão, entendo a reclamação. Houve versão anterior na TV canadense, então é essa que vive no coração da geração mais antiga. Senti o mesmo quando vi a malfadada reedição de DALLAS e experimento de novo o sentimento de dessacralização com a nova leitura de Dynasty. Embora não esteja ruim e até seja bem fiel à original, Blake sempre será John Forsythe, esbravejando “what the devil, Alexis!”
Não vi a Anne antiga, nem tenciono, mas só a sentimentalismo água com açúcar de Anne Shirley provavelmente não segurasse essa moçada em frente à telinhona.
Anne With An E é mais uma adaptação do romance Anne of Green Gables (1908) da canadense L. M. Montgomery. Narra o crescimento e as aventuras de Anne Shirley, órfã enviada por engano à fazenda dos irmãos Mathew e Marilla Cuthbert, na Ilha do Príncipe Eduardo. Eles queriam um menino pra ajudar no serviço, mas recebem a loquaz sardenta, que, aos poucos conquista a todos, vencendo o preconceito inicial por sua orfandade. O sentimentalismo de 119 anos atrás não se sustentaria perante o público jovem. Na verdade, nem nós 50tões mais cínicos aguentaríamos tanta sacarina, provavelmente.
Pra tornar Anne mais profunda, a versão Netflix/CBC mostra cenas de flashback, onde vemos o pão amassado pelo diabo que a menina comeu sob forma de pesado bullying físico e psicológico. A Anne da era em que setembro é dedicado à prevenção do suicídio, é uma garota profundamente traumatizada e insegura. Isso explica muito seus delírios, simpáticos, sim, mas surtos; fugas pra idealizados mundos onde não sofra. Único estranhamento é que as cenas do passado são com a mesma atriz – a perfeita Amybeth McNulty – dando a sensação de que Anne vive preservada em formol.
Anne Shirley é a clássica outsider, a alma especial em meio aos comuns. Sonhadora de devanear, a garota usa palavras difíceis, é obcecada por drama e romance e cita Jane Eyre à profusão. Realmente, a personagem de Charlote Brontë é o molde do qual nasceu Anne. Considerando-se o tanto de trabalho, a aparente não-permanência por longo período com família alguma e a quase inexistência de educação formal, a erudição de Anne é bastante improvável. Não que sem escolaridade não se possa desenvolver rico vocabulário, mas imaginamos onde ela arrumava tempo entre tantas surras e faxinas, pra obter os volumes literários que lhe permitiam decorar passagens que a transportassem pra dimensões onde não sofresse tanto.
Anne With An E só funciona pra quem suspende o descrédito e o cinismo pós-moderno. Pra mim foi bem fácil, porque adoro produções “de época” (ugh!) e porque Anne é tão verborrágica, louca e brilhante, que se torna irresistível. A gente não quer que ninguém sofra, mas pruma alma tão vivaz e gentil como a da sardenta, não dá pra querer nada mais que um destino esfuziantemente maravilhoso (ela gostaria dessas palavras). Às vezes a tagarelice irrita, mas até nisso o show acerta: quem conviveu com criança que de vez em quando temos que mandar calar a boca, entenderá. Isso quando não me pegava com os olhos marejados, mas de repente gargalhava com algum delicioso disparate de devaneio metralhado por Anne.
A “Princesa Cordélia” ganhou segunda temporada de 10 capítulos. Não duvido que a atualização da personagem tenha contribuído pra que nos conquistasse os corações aos milhares. Saber da pavorosa infância de Anne só nos fez querê-la ainda melhor. 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 297


Roberto Rillo Bíscaro

Lá por 2009, 10, uma aluna teen particular de inglês, muito conectada e musical, perguntou-me: “Robert (em Penápolis, muitos assim me chamam pela profissão), um tal de George Michael: ele foi famoso?” Talvez tenha sido então que finalmente percebi como os referenciais da década que mais amo já nada significavam pruma geração. Respondi a Natália, que mais ou menos uns 20 anos antes de sua questão, George era um dos astros pop mais famosos do planeta, se não o mais.
Não adotei a coroca postura de lamentar “essa mocidade que não sabe nada”. Imagine se em 1988 eu sabia algo sobre o povo que fizera sucesso nos 60’s, a não ser os inevitáveis Beatles, Stones e um punhadinho de gente mais. A vida pop é assim. A fila não anda, destrambelha. E está correto, se não estaríamos ainda recitando ditirambos.
Eu mesmo abandonei o ex-Wham!; sequer ouvi Older (1996) inteiro e o hit Fastlove nunca está entre as que boto pra tocar no Youtube; até curto, mas foco nos 80’s. Nem sabia que duetou com Mary J. Blige ou Whitney Houston. Ou esquecera?
(Re)descobri vendo o documentário Freedom, que George Michael apenas finalizara, quando surpreendeu com sua morte, no Natal do ano passado. Daí que me dei conta de como só sabia dele mais recentemente, através de pequenas notas sobre escândalos ou doença.
Os 90 minutos são recheados de estrelas da música e da moda, elogiando-o. Como em The Story Of Kate Bush, entrevistados ouvem canções e as comentam e reagem. Freedom usa recurso mais de varanda gourmet, mas ainda assim é esquisito ver as caras do pessoal ouvindo as canções. Nile Rodgers chora; Liam Galagher simula karaokê, enquanto compara Michael a John Lennon e pragueja; Elton John confessa inveja por não ter composto a abertura de Freedom.
Muito competente e elegantemente controlado pelo artista, Freedom não revela “podres”, como a prisão por solicitação sexual em Hollywood. George saiu do armário porque estava pronto, não porque foi puxado por um escândalo. Sei.
Também discorre muito sobre o processo movido contra a Sony, porque o artista se considerava escravo (bilhões discordariam de você, Georgy Porgy!). Há que se notar a eloquente ausência da outra metade do Wham!, Andrew Ridgeley. Será que o “melhor amigo” não é tão A-lister como Mark Ronson ou Steve Wonder? One wonders.
Mas, no que foca, Freedom o faz com gosto e sensibilidade, confessando sem pudor que George Michael sempre sonhou em ser superestrela, mas quando isso ocorreu, não imaginava que seria em proporções de supernova. Faith, seu torpedo pop soul, de 1988, papou até os mais cobiçados prêmios da música negra e isso não passa impune. O cara tinha talento, isso não dá para negar: ele duetou com Aretha Franklin ainda nos 80’s!
George Michael escolheu a estrutura narrativa da diva solitária, abatida por tragédias e descontente com a fama, que resolve afastar-se dos holofotes, daí a ausência de promoção do álbum Freedom.
Essa escolha narrativa possibilita a tocante sinceridade de Freedom, porque o músico dedica generosa porção a seu namorado brasileiro Anselmo Feleppa, falecido em 93 devido a complicações pelo HIV. Admitido como o amor de sua vida, Michael sequer pôde expressar sua dor publicamente, porque ainda faltavam anos pra que assumisse publicamente sua homossexualidade. Sua raiva então foi canalizada para o processo contra a Sony e rendeu uma de suas performances ao vivo mais reconhecidas, o tributo a Fred Mercury, também morto devido ao HIV. Imagine saber que você pode ser portador de um vírus letal, perder o namorado e depois a mãe, de câncer.
Eu nem me lembrava da rusga entre George e a Sony e não creio que faça muita questão de visitar o trabalho pós-Freedom, o álbum, do qual esquecera até de faixas. Provável que nem Freedom o álbum, eu revisite pra re-relembrar das canções olvidadas.
A dor e a delícia do pop talvez seja a de ser tão fugaz que deixa apenas algumas marcas, essas indeléveis; jamais viverei sem Careless Whispers. Mas, depois que passa a bola de fogo do cometa, a gente realmente não se interessa mais tanto pela cauda.

Seja como for, Freedom, o documentário, serve muito pra novas gerações conhecerem o auge desse superastro falecido há um ano. Também faz quem acompanhou seu apogeu rememorar. Certamente haverá quem terá curiosidade de conhecer o que veio depois de Freedom, o álbum, ou Older. Tomara.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

TELONA QUENTE 216


Roberto Rillo Bíscaro

A primeira onda de horror cinematográfico da era sonora foram os filmes da Universal (mas, não apenas), estrelando Frankenstein, Drácula, a Múmia, o Homem Invisível, Dr. Jeckyl & Mr. Hyde. O denominador comum dessa galera gótica é a origem inglesa. A múmia entra na lista, porque os britânicos encetaram a febre egiptológica do século XIX e início do XX com sua pilhagem, oops, expedições arqueológicas, em plagas faraônicas.
Os britânicos não se restringiram ao terror em celulose. Sua contribuição em celuloide é muito importante, vide a influência perene das produções da Hammer e da Amicus (fundada por ianques). Embora difuso, bom começo pra se familiarizar com essa produção é o documentário Magic, Murder and Monsters: The Story of British Horror and Fantasy (2007), da BBC.
Sem conceituar o que vem a ser fantasia, o programa abre afirmando que Shaun Of The Dead (2004) marcava renascimento do terror inglês. Essa ideia de que a produção de horror feneceu a partir dos anos 80 torna Magic, Murder and Monsters (MMM) razoavelmente bom para conhecer o filmado entre as décadas de 1930 e 70.
Com depoimentos de gente como Mark Gatiss, John Landis e Danny Boyle, não analisa quase nada e em sua proposta abrangente falha em perceber a produção de fantasia sci fi dos 50’s, que não se resumiu a The Quatermass Experiment. Mas é instrutivo saber que o percurso britânico tenha sido tão distinto do norte-americano em alguns aspectos. Quatermass começou como serial televisivo pra depois ser lançado no cine, fenômeno bem mais raro de ocorrer na América do Norte, onde cine e TV fingiam viver em universos distintos.
Quando passa pra fase Hammer-Amicus o documentário não acrescentará muito a conhecedores da “História Geral” do horror e meio que desconsola a falta de crítica pra apelação das produções setentistas em comparação com as cultuadas produções góticas estreladas por gigantes, como Peter Cushing e Christopher Lee (se bem que esses caras merecem documentários-solo, amo, amo, amo!) Mas, pra quem apenas sabe da Hammer em sua fase áurea, poderá ser interessante ver clipes e ouvir falar da nudez lésbica das vampiras anos 70. Mas, mesmo assim pode interessar até pra estudiosos de cultura pop ou queer studies escutar uma atriz falando que não fazia ideia do que fazia uma lésbica, isso em plenos anos 70! Não a taxemos de estúpida, entendamos que a homossexualidade feminina durante séculos foi invisiblizada e edulcorada sob forma de “amizades muito bonitas”.
Depois dessa parte o material fica difuso demais, porque fantasia se mistura com horror a ponto de dar a entender que Harry Potter tenha alguma responsabilidade no tal ressurgimento do horror inglês no século XXI. Além disso, é difícil crer que nada tenha sido produzido nos anos 90.

Com suas limitações e falta de recorte, MMM está no Youtube.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

ALBINISMO OCULAR

Albinismo ocular: uma condição genética que pode trazer problemas

Uma condição genética rara e muitas vezes celebrada e compartilhada nas redes sociais pode trazer graves consequências a seu portador. O albinismo ocular, ao contrário do albinismo oculocutâneo, afeta apenas a pigmentação dos olhos.
De acordo com o site do doutor Dráuzio Varella, na maior parte dos casos, os portadores do transtorno apresentam problemas graves de visão, enquanto a cor da pele e dos cabelos se mantém semelhante à dos membros da família sem a doença.
Há, também, o albinismo ocular ligado a cromossoma X, quando uma mutação genética ocorre no cromossoma X. As mulheres são portadoras do distúrbio, mas só os homens manifestam a condição.




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

TELINHA QUENTE 290


Roberto Rillo Bíscaro

Embora goste de alguns filmes de ficção-científica, não me denomino geek ou nerd, porque me desinteressam aprofundamentos científico-tecnológicos; nem tenho saco pra fuçar além do 1% que sei fazer no PC ou smartphone. Não busco/baixo aplicativos, não me interessa nem remotamente saber sobre eclipses ou órbitas. Pra se ter ideia, soube que o Homem conseguiu fazer foguete aterrissar verticalmente em um site chamado Classic Sci Fi Movies!
Mas, curto o planeta Marte, porque tantos filmes dos anos 1950 eram sobre e pelo poder que exerce na imaginação terráquea há tanto tempo. Houve época não muito remota em que se tinha como fato científico de que havia vida por lá; só faltava alcançá-la ou que viesse até nós. Uma dessas visões de visita marciana distópica foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, que alimentou a ficção cinematográfica cinquentista, até porque o planeta é vermelho, como os comunistas que essas produções podiam metaforizar.
Sondas norte-americanas e soviéticas demoliram o castelo no espaço construído pela imaginação de vida inteligente marciana, mas o sonho de visitar e até colonizar o Planeta Vermelho persiste, embora a Lua tenha tomado seu holofote por uns poucos anos.
Toda essa tradição marciana aliada ao fato de que era docudrama, animou-me a ver os seis capítulos de Marte (2016), produzidos pela National Geographic, que pousaram sem alarde no catálogo da Netflix, no ocaso de novembro. Docudrama é neologismo anglófono que designa obra cujo gênero se situa entre a ficção e o documentário.
Dirigido pelo badalado Ron Howard e baseado em best-seller, Marte balanceia muito bem suas porções real e fictícia. Em poucos minutos, o espectador entende a convenção: Marte paraleliza 2 tempos; o real 2016 e o ficcional, 2033. Isso é marcado mediante números gigantescos na tela; não tem como se confundir.
A parte documental de 2016 é recheada de superestrelas do mundo científico e do comercial que (quer) lucra(r) com aquele, embora o significado para pesquisas e possíveis consequências de enxergar Marte como “produto” jamais sejam discutidos. Marte nem cogita se a recessão capitalista dos anos 70/80 possa ter influenciado no esfriamento do interesse por missões à lua e a adoção do projeto do ônibus espacial em detrimento de possível programa de exploração marciana. É tudo na base do idealismo científico, da vontade e do sonho, embora a questão monetária esteja presente o tempo todo devido ao custo extraordinário que tais programas teriam.
Com relação à parte técnica e científica, porém, Marte fala tudo que um leigo interessado precisa saber. O programa mostra alguns dos principais tópicos a se considerar pruma expedição de colonização. A empreita marciana seria hercúlea e envolveria preocupações que vão desde a possibilidade de se pousar na vertical pra permitir o retorno de foguetes, até possíveis e potenciais sequelas psicológicas, decorrentes do confinamento prolongado em grupo minúsculo de pessoas, sem possiblidade de abandonar esse habitat. Tudo abordado de modo simples, objetivo, pra nós que não somos astrofísicos e temos saco raso.
O programa não deixa de cair na armadilha da idealização negativa, a saber, chamar Marte de cruel e por aí afora. Marte é bola gelada e poeirenta de rocha, nada mais, não é malvado, é apenas uma maldita coisa! Com o histórico das aventuras colonizadoras e civilizatórias da espécie humana, azar do planeta que tiver vida e nós pousarmos nele. Ainda mais com todas essas empresas querendo abocanhar mercados. Pena que Marte é bom moço (é nada!) demais pra dar essas espetadas.
A parte ficcional, de 2033, dramatiza (mas nem sempre) e dialoga (nem sempre) com a parte documental e as 2 se intercalam durante toda a duração do episódio, fazendo com que o fluxo do programa não aborreça com a parte potencialmente mais devagar do documentário.
Na ficção, grupo de cientistas internacionais vão pra Marte iniciar colônia. As agruras da viagem não são o foco e a gente se pergunta como os astronautas estavam tão elásticos depois de 7 meses dentro da nave, perdendo massa muscular (repare que da segunda leva em diante, isso passa a ser um desconforto) e quem faz os penteados das moças, mas isso não desabona a dramatização, que logra, inclusive, proporcionar momentos de genuíno suspense.
Marte pode ser desfrutado por múltiplos nichos de interesse e idade, pena que a Netflix não tenha destinado verba de divulgação. Mas, isso, podemos fazer nós.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA ALBINA

#perseguidos. Albino não morre, só desaparece

O cunhado de Electerio João, então com 22 anos, ligou-lhe numa manhã de outubro de 2015. Tinha um trabalho para ele, podia ganhar algum dinheiro. O jovem, então, com 22 anos, não hesitou. O dinheiro fazia-lhe falta, vivia com a mãe numa casa de argila em Namina, uma pequena aldeia no norte de Moçambique. Quando se encontrou com o cunhado naquele dia, Electerio foi amarrado por este e por três cúmplices, que pretendiam vendê-lo a traficantes que lucram com o comércio de órgãos humanos.

Electerio teve sorte. Depois dos captores esperarem várias horas com ele na berma da estrada, os alegados traficantes chegaram. Eram da polícia. O jovem foi libertado, o cunhado e o cúmplice acabaram presos. Elidia, a irmã de Ricardo Carlitos, um professor primário em Nampula, não teve a mesma sorte: foi raptada e assassinada um mês antes. Um dos seus sequestradores foi detido três dias mais tarde com uma parte de um osso dela. Ricardo acredita que o cunhado está por trás do crime. Chimwemwe Austin, quatro anos, vive com os pais em Lilongwe, a capital do Malawi. Desde que um vizinho sugeriu que a vendessem, a família não quer mandá-la para a escola.

O azar de Electerio, Elidia, Chimwemwe e milhares de outras pessoas em Moçambique, Malawi e Tanzânia é serem albinos. São perseguidos porque se acredita que um pedaço de albinismo – seja um osso ou um pouco de pele – pode trazer sorte e dinheiro à pessoa quem o tenha consigo. Desde o final de 2014, dezenas de albinos em Moçambique foram raptados ou assassinados, muitas vezes por familiares, para que os seus órgãos e partes dos seus corpos fossem vendidos. Em alguns casos, são profanados cadáveres para se retirarem restos mortais para rituais de curandeiros.

"Somos perseguidos como animais", contou Ricardo ao fotógrafo português Daniel Rodrigues, que no outono de 2015 partiu para África para contar estas histórias. O trabalho deu origem à reportagem "The Hunted", publicada este ano no prestigiado diário "The New York Times", e já lhe valeu várias distinções internacionais. Depois, tornou-se uma exposição que está patente até ao dia 20 de janeiro na Galeria Colorfoto no Porto, com o apoio da Fuji. Vale a pena visitá-la, para que o problema dos albinos não seja esquecido.





CAIXA DE MÚSICA 296


Roberto Rillo Bíscaro

Entre 26 de agosto e primeiro de outubro de 2014, Kate Bush fez 22 shows no Apollo Hammersmith, em Londres. Os ingressos – que chegavam a custar 750 dólares – esgotaram-se em menos de 20 minutos. Um dos motivos para tamanho assanhamento do público era que Bush não se apresentava ao vivo desde sua única turnê de início de carreira, em 1978. Na manhã seguinte ao primeiro espetáculo, o crítico musical da BBC não conseguia esconder a estupefação de tê-la visto ao vivo.
Kate Bush é tesouro nacional britânico, então não foi coincidência, que, às vésperas da estreia no Apollo, a estatal BBC4 tenha exibido os 59 minutos do documentário The Kate Bush Story: Running Up That Hill, que cobre competentemente sua carreira, desde sua gênese, até seu mais recente álbum de inéditas de estúdio, 50 Words For Snow (2011). Ainda que não saiba direito o que fazer com LPs pouco compreendidos ou populares, como o áspero The Dreaming (1982) ou o lírico duplo Aerial (2005), o programa analisa faixas e ensaia possíveis explicações inspiratórias e influências.
Tudo de modo a manter intacta a pristina imagem de reclusa inacessível e autônoma, construída ao longo de décadas de carreira até meio esparsa, mas influente de assombrar, conforme atesta a diversidade de gente que topou comentar sobre o impacto de La Bush. Desde óbvios, como seu incentivador na adolescência, David Gilmour, passando por quadrinistas como Neil Gaiman; o punk de margarina, John Lydon e chegado ao rapper Boi Boi, do Outkast. Elton John conta que na festa de seu casamento, os convidados estavam mais interessados em conhecer Kate do que nos noivos. Tricky, um dos inventores do trip hop, revela como a despeito de origens sociais diametralmente opostas, um verso de Breathing lhe serve como lema a vida toda. Peter Gabriel relata como seu dueto em Don’t Give Up tem sido reinterpretado para diversos contextos e ajudado tanta gente na lona. O que não conta é que originalmente pensara em Dolly Parton e Bush só entrou na jogada, quando a country norte-americana não quis gravar com alguém que não conhecia.
Ao enfatizar a produção de algumas faixas, o documentário ensina às novas gerações ou relembra os mais velhos sobre como pioneiros no uso de softwares, como Peter Gabriel e Bush, ajudaram a inventar o que hoje qualquer moleque faz com apps no celular. Preste atenção nos vidros estilhaçando-se de Babooshka.
Kate Bush não contribuiu com qualquer material ou depoimento para The Kate Bush Story: Running Up That Hill. Se a emissora pediu ou não, vai saber, mas há interesse mútuo em manter a imagem distante. De Bush para ter paz, da mídia para ter pauta que contraponha esse tipo de artista, cada vez mais raro, às Spears, que arrotam perante câmeras. 

domingo, 17 de dezembro de 2017

LOCUTOR DA SUPERAÇÃO

Deficiente visual, o locutor da Rádio ABC Anderson Dilkin leva vida totalmente independente em Novo Hamburgo.

sábado, 16 de dezembro de 2017

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

TELONA QUENTE 215


Roberto Rillo Bíscaro

Grosso modo, os anos 1950 foram marcados pela explosão de consumo da abundância norte-americana do pós-guerra e pelo crescente pavor anticomunista e nuclear. A malvada e ateia URSS poderia facilmente destruir o modo ianque de vida e por isso as escolas repetiam com frequência táticas de proteção em caso de ataque atômico. Um vídeo hilariante aconselhava as pessoas a se encolherem como tartaruga; duck and cover!


Esse ambiente foi propício e fundamental para o florescimento da ficção-científica, já bem estabelecida na pulp fiction. Houve explosão de filmes sobre missões intergalácticas, invasões alienígenas e monstros agigantados atomicamente. O documentário Watch the Skies!: Science Fiction, the 1950’s and Us saiu em 2005, ano em que Steven Spielberg lançava refilmagem dum desses clássicos B: A Guerra dos Mundos, baseado no livro do britânico H. G. Wells. O título Watch The Skies foi tirado do solilóquio final do jornalista em The Thing From Another World (1951), um dos mais respeitados filmes do subgênero produzidos na década. Vencido o alienígena que ameaçava os habitantes dum centro de pesquisas no Ártico, o repórter passa pelo rádio a história a seu editor. Ele diz que a batalha foi vencida, mas a guerra, não e admoestava os ouvintes a sempre olharem pro céu, em busca de invasores.  
Não foi coincidência que no ano em que um dos diretores contemporâneos mais adorados e poderosos lançou releitura de obra cinquentista, Watch The Skies (WTS) tenha conseguido reunir George Lucas, Ridley Scott, James Cameron, além de Spielberg, claro, para analisarem os filmes sci fi dos “anos doirados” que mais lhe influenciaram. E como narrador, Luke Skywalker em pessoa, ou seja, Mark Hamill.
Peça ou não de potente marketing, isso não deve afugentar curiosos pelo tema: Watch The Skies é competente e informativa cartilha comentada, que chega a informalmente tipificar as manifestações cinematográficas. De vez em quando, um diretor ou outro localiza na infância conclusões difíceis de crer que sacadas por um garoto, mas isso pouco importa também. Independentemente de quando as metaforizações foram feitas, são sempre pertinentes, adicionando camadas interpretativas às tramas. O comadrismo dos diretores só derrapa, quando Spielberg se pergunta (claro que ele sabia que Lucas responderia!) se um dos robozinhos de Guerra Nas Estrelas era baseado no autômato de Planeta Proibido (1956). Ah, me poupe, né Steven! Qualquer fã mínimo sabe que Robby, The Robot modelou o de Perdidos no Espaço, porque projetados pelo mesmo cara, Robert Kinoshita. Você deveria ter perguntado se foi “acaso” que os hoje icônicos créditos iniciais subindo pela tela em direção ao infinito, sejam iguais aos usados em Destination Mooon, de 1950.  
Mas, isso é perdoável, porque o documentário cobre bastantes filmes, com informações de produção, além de comentários certeiros, tipo, como os militares estavam em alta, porque haviam surrado os alemães, os vilões mais frequentes da ficção-científica da década eram os cientistas. A relação dúbia com a ciência não escapa aos inteligentes comentadores: ao mesmo tempo que era capaz de produzir maravilhas, seus efeitos colaterais podiam gerar aranhas ou escorpiões gigantes.
Se você entende inglês não deixe de ver; é muito elucidativo. Não apresentou nenhum filme que eu não conhecesse (mas daí, escavei tanto essa década que acho não sobrou muito pra descobrir), mas despertou desejo de rever vários, além de apresentar possibilidades interpretativas não pensadas.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CONTANDO A VIDA 215

MINHA CARTA NATALINA: 2018





Jose Carlos Sebe Bom Meihy


Antes, rezava-se diante dos presépios singelos, em casa, invocando Deus-menino. 

Suplicava-se por graças domésticas, coisa pequena, restrita ao âmbito do lar. Parece que o mundo cresceu em ordem progressiva, e assim os negócios se alargaram, e, então passou-se a escrever cartas para o Papai Noel. Sim, os natais mudaram – já anunciava Machado de Assis – mas não se esperava tanto. Na largura dos novos tempos, ainda se pede paz, harmonia, felicidade, mas, menos esperançosos, acabamos por detalhar medos. Reparem que ao evocar qualquer qualidade, o fazemos pensando em possíveis temores próximos. 

Comecemos pelos convencionais votos correntes nesta época: Feliz Natal, Boas Festas, Próspero Ano Novo... Ups, Próspero Ano Novo?! Há alguma perspectiva desse último pregão? Próspero Ano Novo?! Em que sentido?! Qualquer resposta a tal questão implica explanações. Vivemos dias difíceis, sabe-se. Entre tantas arestas a serem arredondadas no circuito da vida contemporânea, algumas ganham destaques: no panorama internacional, além dos ameaçadores temas ambientais, dos apocalíticos dizeres de guerra nuclear, temos um temerário líder, Kim Jong-Woon lançando misseis de longo alcance. Do outro lado, um rival, Trump, ironiza a situação, pondo em riscos uma guerra intercontinental. O mesmo presidente dos Estados Unidos, aliás, joga o mundo árabe em possível guerra ao mudar a capital de Telavive para Jerusalém, apenas para manter promessa de campanha. As notícias de leilão, na Líbia, de homens foragidos à caminho da Europa se completam com a divulgação de casos como das mulheres mauritanas, duas irmãs, Magboula e Sahida Mohamed, contratadas como empregadas domésticas na Arábia Saudita, mas que acabaram escravizadas e barbarizadas em torturas.

Nem é preciso ir longe para diagnosticar a barbárie em que se vive. No Brasil, dói admitir que balas perdidas atingem até fetos em ventre maternos e que 132 policiais foram mortos este ano no Rio de Janeiro, motivados pelas guerras aos bandidos organizados em bandos. E o que dizer do aumento do número de moradores de rua que, em seis meses, na capital carioca, passou de 8 para 15 mil? Isso ao mesmo tempo em que um governo venal anuncia aumento da economia e dos níveis de emprego. Por certo os bancos, as grandes empresas, os safados do alto comando estão sorrindo, mas os vitimados pelas reformas trabalhista e ameaçados pela previdenciária... O inventário seria longo e trágico demais para caber numa carta natalina. Vale contudo, enumerar algumas urgências que precisam ser filtradas. Depois de muito pensar, a questão da divisão do pais em dois blocos que se odeiam, coloca entre as prioridades o pacto político. O ano que avança trará como prioridade o tema sucessório. O lado bom dessa oportunidade, a renovação desejável, convive com a ameaça cada vez mais gigantesca de acirramentos e discórdias. À complicar tudo, o piadismo nas redes sociais, as ironias e apontamentos grotescos de personagens públicos, garante combustível para agregações ameaçadoras. Isso, por sua vez, extrema diferenças que anulam diálogos mais que necessários. O risco imediato é que tenhamos uma campanha sem diálogo. A decantada unidade nacional, a tal fala que nos distinguia como cultura da alegria e da concórdia, está muito longe de ser exercitada.

Mas, é fim de ano, tempo de “boas festas”. Para exercitar isso, para não perder o fôlego em anúncio negativo, resta reverter em nível pessoal o caminho andado em direção da velha tradição. Temos que voltar a rezar. Como crença ou não, com ardor ou sem ele, vale recobrar a postura antiga que colocava os pressupostos do cristianismo como ponto de partida para novos começos. Assim, minha carta natalina perde o sentido comercial e num gesto de boa vontade, humildemente, volta a ser uma oração quase religiosa. Sinto-me aliviado, pois, para desejar a todos FELIZ NATAL.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

TELINHA QUENTE 289


Roberto Rillo Bíscaro

Walter Presents é um programa que apresenta séries estrangeiras – mormente policiais - ao público britânico acostumado a ler legendas após o sucesso de Forbrydelsen. Exibido na plataforma de streaming do classudo Channel 4, o nome deriva de seu curador e apresentador Walter Iuzzolino.
A ideia é que os espectadores estão assistindo ao que passou pelo sofisticado crivo de Walter, que afirma ter como parâmetros o sucesso de público e crítica das séries, representativas do melhor que seu país tem a oferecer em termos de escrita, direção e atuação. Convenientemente se “esquece” que o conteúdo exibido depende de licenças de exibição, preços etc. Não se trata apenas do refinado gosto de Iuzzolino – não me agrada a ideia de ter alguém tão ostensivamente pontificando o que é de bom gosto, bem questionável, diga-se, quando pegamos Nordic Noirs zicados, tipo a primeira temporada de Mammon (dizem que a segunda melhorou bem!).
Seja o que for, o programa é muito louvável, porque já trouxe até séries brasileiras, tchecas e chilenas, países dificilmente exibidos na TV fora de seus domínios (claro que descontadas nossas novelas, mas daí o público é distinto). Enquanto via a meia dúzia de capítulos da francesa Le Passager (2014) não pude deixar de me divertir com a incongruência de promovê-lo como o que há de melhor da teledramaturgia dalgum país ou a pretensão de curador querendo me fazer crer que seja “inteligente”, “sofisticado” ou sei lá quê. Não que seja ruim, longe disso, mas é só diversão, não tem pé nem cabeça. É só bobagem com boas referências.
Capitã Chatelet investiga uma série de assassinatos na nortista Bordeaux. Algum maluco está matando homens (geralmente são mulheres; ponto pra Le Passager!) em sofisticadas reproduções de mitos gregos, então, a primeira vítima é encontrada decapitada e no lugar da cabeça, uma de boi, simbolizando o Minotauro. Convenientemente entra em cena Mathias Freire, psiquiatra que explica os mitos a todo mundo. Ele passa a auxiliar Anais na investigação, que se adensa, porque envolverá megacorporação, a ditadura pinocheteana e multíplices identidades de uma personagem. É tudo envernizado com explicações psicanalíticas superssimbólicas pra aparentar minissérie mais “cabeça”, digna de ser apresentada prum público culturetchy.
A meia dúzia de capítulos exibidos pelo canal France 2 entretém, mas são tão ilógicos quanto, sei lá, Revenge ou Whitechapel (mas essa é beeeem mais divertida). Parece não haver burocracia na polícia francesa: quer um civil como parça na investigação? Fácil. Os 2 assassinos carecas e silentes acertam todo mundo menos o principal, enfim, parece que nunca lhes ocorre atirar primeiro em quem querem matar prioritariamente. Mocinha vai de carro a Marselha pra depois aparecer saindo da estação de trem ou busão em Bordeaux. Daí estão em Paris; daí em Bordeaux, sem muita transição.
Le Passager está a anos luz de ter a alta qualidade pretendida por Walter Presents. Tendo isso em mente, até que é assistível.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 295


Roberto Rillo Bíscaro

Na primeira década deste milênio, o Lucky Soul chamou atenção dos fãs de retro e sophistipop, de pop soul, mas não apenas, porque sua modernização de blue-eyed e northern soul conquistou paradas de sucesso. Singles viciantes, como Lips Are Unhappy, não prejudicaram em nada a escalada de popularidade dos britânicos, que chegaram a abrir a turnê de Bryan Ferry pra promover Dylanesque.
Formado em 2005, o Lucky Soul lançou CDs em 2007 e 2010, antes de silenciar por 7 anos, o equivalente a diversos períodos geológicos na cronologia pop. Dia 11 de agosto, o Lucky Soul retornou com Hard Lines e como sexteto. A formação atual tem Andrew Laidlaw e Ivor Sims, nas guitarras; Ali Howard (en)canta; Russell Grooms, no baixo; Paul Atkins, na bateria e a adição de Art Terry, nos teclados. O grupo se metamorfoseou de revivalistas e modernizadores dos aspectos mais pop do soul em campeões ingleses da disco music. Antes eles juravam que viviam numa espécie de eternos anos 60; agora se instalaram na segunda metade dos 70’s.
Hard Lines tem 10 faixas, mais uma versão editada do primeiro single pra tocar em rádios. Os momentos mais sensacionais são as 2 primeiras faixas: More Like Mavis é descomunal paulada disco funk e No Ti Amo – o primeiro single – um pouco mais eletronizada na linha ítalo-disco. A diversidade do álbum reside nas diversas facetas da disco music. Livin’ On a Question Mark tem pegada meio reggae, meio numa vibe Ottawan, ao passo que Too Much bebe da mesma fonte disco-soul que Madonna se banhou pro LP de estreia. O resto de Hard Lines é composto por midtempos como a faixa-título e baladas, como a Rose royciana Stonewashed.
Todos os músicos têm tempo pra brilhar, mas o destaque é a voz de ninfeta sapeca de Ali Howard, espécie de cruza entre Tina Charles (dance, little lady, dance) e Kylie Minogue. E é pela interação entre essa voz e o instrumental dance pop, que Hard Lines agradará a fãs de Bananarama, Little Boots, Sophie Ellis Baxter, Saint Etienne e tantas moças mais.

No atacado, Hard Lines não condensa tantas delícias juntas como os álbuns anteriores (recomendados), mas contém algumas peças no varejo que são irresistíveis.