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segunda-feira, 23 de junho de 2025

INVENTORA ALBINA

Adolescente cria creme solar após perder o pai para o câncer de pele

Desenvolvido apenas com ingredientes orgânicos, como mel, banana, cúrcuma e leite, o produto terá um preço acessível
Maria Clara Pinheiro

Depois de perder o pai para o câncer de pele, aos 15 anos, a adolescente com albinismo Mwape Chimpampa, da Zâmbia, na África, desenvolveu um inovador creme solar orgânico. Com um baixo custo, o produto pode proteger mais de 30 mil pessoas com a condição no país.

Desenvolvido apenas com ingredientes orgânicos, como mel, banana, cúrcuma e leite, o protetor terá um preço acessível
Foto: Reprodução/Youtube / Bons Fluidos

"Assumi a responsabilidade de mudar a narrativa e criar este protetor para que ele seja acessível até mesmo para aqueles que não têm dinheiro para comprar cremes caros", disse a jovem em entrevista à 'ICU TV Zâmbia'.

Protetor inovador
O albinismo, condição comum na região da Zâmbia, é caracterizado pela baixa ou nenhuma produção de melanina, o que aumenta o risco de câncer de pele. Isso ocorre devido à maior sensibilidade à radiação solar. Estudos indicam que, sem o uso diário de protetor solar, a expectativa de vida das pessoas albinas é reduzida, podendo não passar dos 40 anos.

Em decorrência dos altos preços dos cremes, o familiar de Chimpampa foi um dos afetados pela doença. "Como minha irmã mais nova e eu, meu pai tinha albinismo. Ele, contudo, cresceu em uma família muito pobre, sem condições de comprar filtros solares", contou a jovem.

Assim, após o falecimento do ente querido em 2017, a menina encontrou forças, mesmo em um momento de luto, para desenvolver um filtro mais acessível não somente para a população do seu país, mas para indivíduos em todo o mundo. Mwape iniciou analisando fórmulas dos produtos disponíveis no mercado, a fim de encontrar substitutos para os componentes químicos.

A adolescente, então, a partir de ingredientes locais, como mel, banana, cúrcuma e leite, conseguiu criar o The Organic Sunscreen. Em seguida, Chimpampa, sua irmã e seis amigos testaram o creme, com Fator de Proteção Solar (FPS) 22, e comprovaram a eficácia contra os raios UV. O sucesso fez com que ela chamasse a atenção do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Zâmbia, que passou a financiar o projeto.

Próximos passos
Desta forma, atualmente, a organização negocia com investidores e fabricantes para viabilizar a produção em massa do o protetor até o final deste ano. Além disso, autoridades, como a especialista independente em albinismo da ONU Muluka-Anne Miti Drummond, defendem que o creme entre na lista de remédios essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Este projeto representa um passo enorme para a saúde pública na Zâmbia. Além de ser acessível, é local e sustentável. Vai salvar vidas, criar empregos e inspirar outros jovens inovadores", ressaltou o Dr. Chisala Bwalya, do ZRDC, à emissora de televisão.

domingo, 25 de julho de 2021

ARTIGO CIENTIFICO SOBRE OFTALMOLOGIA ALBINA

Perfil do paciente albino com visão subnormal e melhoria da acuidade visual com a adaptação de recursos ópticos e/ou eletrônicos

Objetivo: Determinar o perfil do paciente albino no departamento de visão subnormal do Instituto Benjamin Constant. Ressaltar o tempo de acompanhamento, a frequência do seguimento, e a melhora visual com a adaptação de recursos ópticos e/ou eletrônicos. Métodos: Estudo retrospectivo com dados de 77 pacientes albinos com idade entre 1 a 53 anos de idade atendidos no Instituto Benjamin Constant, entre 2003 e 2014. Resultados: O recurso óptico mais adaptado foi o telescópio de Galilleu 2.8x. Todos os pacientes referiram ganho de visão com os equipamentos. A maioria dos pacientes apresentaram acuidade visual com recursos ópticos entre 20/25 e 20/160. Conclusão: Os recursos ópticos auxiliaram na melhora da função visual e na qualidade de vida dos pacientes com albinismo ocular.

CLIQUE NO LINK PARA ACESSAR O ARTIGO EM VERSÃO PDF ONLINE


domingo, 4 de novembro de 2018

GAME ALBINO

Lenin – The Lion retrata a depressão de um leão albino em emocionante game nacional


A depressão se tornou a principal causa de problemas de saúde e incapacidade ao redor do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com o transtorno. Ainda há muito o que se compreender, aprender e discutir sobre a depressão, e é esta a proposta de Lenin – The Lion: game desenvolvido por uma equipe brasileira independente liderada por João Bueno.

“Lenin – The Lion conta a história do Lenin, um leão albino que, por conta dessa característica física, não é tão bem aceito socialmente – nem por parte da família e nem por parte dos colegas de escola. De tanto sofrer bullying, acaba desenvolvendo um quadro de depressão“, contextualiza o membro da equipe Rodolfo Davoglio em uma conversa com o A Casa do Cogumelodurante a BGS 2018.

Para conscientizar sobre a depressão, o game propõe jogadores a tomar suas próprias decisões quanto ao quadro de Lenin, podendo ocasionar desfechos narrativos diferentes a partir das escolhas feitas. “Com o passar do jogo, você poderá escolher tratar ou não desses sintomas. Cada uma dessas decisões irá alterar o meio e o final do jogo“, afirma Davoglio.

Também é nas questões de jogabilidade que Lenin – The Lion se mostra um ponto fora da curva. Mesmo se tratando de um RPG, o jogo não apresenta batalhas e prefere focar em puzzles e escolhas dos jogadores para concluir a jornada do leão albino. Há ainda muito espaço para “referências à depressão, seus efeitos e tratamentos, itens para superar situações desconfortáveis e conversas para encontrar novas formas de agir“.

Inspirado por clássicos como Earthbound, João cumpre as principais camadas do game design de Lenin – The Lion sozinho, incluindo programação, roteiro, ilustração, pixel art e animação. O desenvolvedor iniciou um projeto de financiamento coletivo em setembro de 2017 e atingiu a meta proposta em apenas dois meses, totalizando R$ 13.485 para finalizar o game.

Por tratar de um assunto delicado, João e sua equipe foram atrás de psicólogos para buscar recursos que não comprometam o estado psicológico e emocional dos jogadores, focando somente na conscientização e na elevação de espírito dos mesmos. “Não que exista uma diretriz real da OMS, mas eles sugeriram evitar determinadas coisas, como citar o suicídio. A gente quer que o jogador tenha uma boa sensação, ao invés de sofrer com um gatilho pesado“, explicou.

Davoglio também salienta que não se trata de um game medicinal, mas sim uma obra lúdica que oferece conscientização sobre o transtorno. “Serve para criar empatia para aqueles que não sofrem de depressão. Se você não tem depressão, que o jogo te traga um pouco de empatia. Se você tem, que ele te deixe um pouco mais aliviado ao saber que pessoas estão falando do tópico, que ainda é um tabu.”

Visualmente belo, o game também consegue resgatar nostalgia em jogadores mais familiarizados com RPG’s que fizeram sucesso nos anos 90, como Chrono Trigger e The Legend of Zelda – além do mencionado Earthbound. A falta de batalhas dão espaço para escolhas morais e éticas, sempre priorizando ou não o estado emocional do protagonista.

A trilha sonora composta por Alan e Jon Shárper é outro fator que eleva a experiência proposta por Lenin – The Lion. Ao invés de focar em tons melancólicos, a dupla prefere guiar jogadores com notas suaves, mas não menos enérgicas – fator que também evita gatilhos emocionais negativos.

Com inúmeras referências à depressão, conscientização, quebra-cabeças e escolhas que determinam futuros eventos na vida de Lenin, o mundo antropomórfico do game consegue engolir jogadores em uma experiência emocionante e pessoal, seja para quem sofre ou sofreu de depressão, assim como para os que desejam uma obra lúdica com poderes de conscientização sobre o transtorno.

Uma demo do game está disponível no Game Jolt, e você também pode ajudar o projeto a ganhar conteúdos adicionais sendo um apoiador no Patreon.

Vencedor do Big Festival 2018 na categoria “Questões Sociais” e considerado o melhor game independente da BGS 2018 pelo GameSpot Brasil, Lenin – The Lion tem lançamento previsto na plataforma Steam durante o primeiro semestre de 2019. Versões para o Nintendo Switch, PlayStation 4 e Xbox Onetambém são cogitadas pela equipe.
http://www.acasadocogumelo.com/2018/10/bgs-2018-lenin-the-lion-retrata-a-depressao-de-um-leao-albino-em-emocionante-game-nacional.html

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

CONTANDO A VIDA 249

UM MUNDO SEM CELULARES: riscos da Nomophobia 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Muito se tem falado sobre avanços da medicina e não são poucos os que se encantam como a chamada robótica médica. A tecnologia empregada a favor das ciências tem produzido milagres surpreendentes. Basta termos alguém que necessite de amparo clínico para que se note os passos grandes dados em favor de bons diagnósticos, monitoramentos precisos e possibilidades ampliadas de recuperação. Uma coisa leva a outra e o mesmo se diz do aparato eletrônico empregado em escalas crescentes também em outras áreas como nos serviços domésticos, nas atividades de recreação e esportes. É claro que temos que saudar a tecnologia como virtude, mas, exatamente para que se a legitime como conquista é de se considerar também seu avesso, ou seja, os malefícios que pode produzir. É aí que a medicina volta a significar. 

Como mercadoria, os celulares têm cumprido a tarefa de democratizar a comunicação em geral e, nessa linha, os preços a cada dia mais acessíveis facilitam contatos e podem promover aproximações variadas. Assim, progressivamente somando possibilidades, de tal forma os celulares se tornaram usáveis que não se consegue pensar o mundo sem eles. Os tais aparelhinhos, por sua vez, sorrateiramente se integraram no cotidiano como se fossem órgãos ou componentes inerentes ao nosso corpo. “São como parte da gente”, há quem diga. Dia desses, ouvi uma colega dizer, sem muito pudor, que sem o celular, esquecido em casa, ela se sentia como que mastectomizada. Fiquei chocado, quis explorar mais a figura de linguagem empregada e de volta ouvi algo ainda mais estarrecedor “ué, com você não é assim? Se fosse homem, sem celular eu me sentiria capado”. Calei. Não respondi... Não respondi, mas levei para pensar. 

Não há dúvidas que o mundo ficou inimaginável sem os tais dispositivos eletrônicos. A existência de um profícuo ramo de negócios voltados a isso nem mais espanta. Onde quer que se vá, lá estão pessoas “passando o tempo” com as telinhas brilhantes, iluminadas e latejantes. Seja no metrô, ônibus, no mercado ou nos consultórios, é imediato constatar pessoas entretidas, mergulhadas em informações e contatos. Parece feitiço... Confesso que já vi pessoas em igrejas, cemitérios, teatro e cinemas como os equipamentos em funcionamento sem nenhum constrangimento. Nas escolas o celular virou tema de conflitos entre professores e alunos, e a linha divisória entre poder ou não ingressar com esses aparelhos tornou-se objeto de pesquisas educacionais e muita discussão. Dentre tantas experiências recentes, uma me impactou bastante. Indo para a Universidade de Stanford, na Califórnia, entre as mais reputadas do mundo, fiquei pasmado em saber que os alunos não podem usar máquinas – celulares ou computadores – durante as aulas regulares, em muitos cursos. Nem mesmo para as tais consultas suplementares ou para registros e anotações são permitidas tais presenças que, segundo explicações competentes, se formulam como forma de derivação da concentração. 

Pois é, o grau de gravidade da situação tornou-se tamanho que o fenômeno virou doença já descrita por especialistas. Sob o nome de Nomophobia, termo derivado de no-mobile-phobia, ou seja, pavor de ficar sem acesso às redes sociais e à comunicação imediata, a situação já é tratada como doença. Os dramáticos efeitos são próximos da conhecida síndrome de pânico, e decorrem de casos corriqueiros como a falta de energia elétrica, pane no aparelho ou mesmo o prosaico fim das cargas de baterias ou dos vazios de cobertura. De modo geral, nosso cérebro vai ficando dependente a tal ponto que há pessoas que acordam a noite com a sensação irresistível de verificar o que chegou. Sabe-se de casos de tipos que ouvem sinais de chamada mesmo quando o aparelho não está ativado. De tal forma a privação eletrônica se manifesta que as crises de ansiedade levam a depressão mais ou menos prolongada, fato que ameaça a vulgarização desses casos tidos já como epidêmicos. Em conjunto, a expressão desses tiques se constitui no que tem sido reconhecido com “Reação FOMO” (Fear of missing out) ou, em tradução livre: medo de estar perdendo algo. O pior é que tudo tende a se agravar posto que ao mesmo tempo em que se diagnosticam casos e se descrevem detalhes dessa manifestação, novos avanços colocam no mercado de consumo aparelhos cada vez mais sofisticados. O grande paradoxo notado, porém, é que exatamente a medicina, uma das áreas mais beneficiadas pela eletrônica é ela mesma a denunciadora de malefícios. Médicos atentos ao agravamento da situação já prenunciam que as doenças nomofóbicas serão o mal do século XXI. Temendo, desliguei o meu aparelho... Vou ficar assim uns quinze minutos. Depois conto o resultado.    

quinta-feira, 5 de julho de 2018

TELONA QUENTE 243


Roberto Rillo Bíscaro

Sem dúvida e merecidamente, Iuri Gagarin desfruta do status de herói da humanidade, afinal, foi o primeiro homem a viajar pelo espaço, em abril de 1961, a bordo da Vostok 1.
À época, porém, o mundo vivia a tensão da Guerra Fria entre capitalistas e comunistas e a façanha soviética incomodou ainda mais os norte-americanos, já mordidos de raiva e assustados, porque seus inimigos Vermelhos havia posto o primeiro satélite artificial a orbitar nosso planeta, em 1957.
A faceta de corrida e de batida no peito pra mostrar macheza ao rival não passa batido em Gagarin: o Primeiro no Espaço (2013), disponível na Netflix.
O filme intercala sequências preparatórias, da execução e do desfecho do histórico voo com episódios da infância e juventude do cosmonauta. Muito rapidamente, alude-se à gambiarrice do programa espacial soviético, que, seis anos mais tarde marcaria novo recorde pro país: Vladimir Komarov tornar-se-ia a primeira vítima de programas espaciais, quando seus restos carbonizados espatifaram-se na tundra, após missão fadada ao fracasso, na qual supostamente Gagarin seria escalado não fosse a voluntariedade de Komarov. Não adiantou muito poupar o herói nacional, porque no ano seguinte ele morreu, quando o avião que pilotava caiu.
O filme é bem-feito e consegue prender, mas não se pode esquecer por nenhum segundo que foi parcialmente financiado pelo estado russo e aprovado pela seletiva e protetora família do cosmonauta. Isso implica na descrição de Iuri como ser especial, meio ingênuo. É o herói apolíneo; um Homem Com Uma Missão, como cantava o Kid Abelha, há 35 anos. Nada que o cinema norte-americano já não tenha feito zilhões de vezes.  
Assim, Gagarin faz sorrindo o duro exercício de cabo de guerra no treinamento; meio que salva seu irmão Boriska dum soldado alemão pirado e, quando resiste sem esforço aparente a um duro teste de pressão gravitacional, ouve-se a técnica soltar um “esse é um homem de verdade”. Difícil segurar a gargalhada.
Igualmente difícil não se contagiar com a alegria do povo nas ruas celebrando e se entusiasmar com a aventura. Pena que não seja um Gagarin empatizável, porque distante demais. Se não soubéssemos que a missão daria certo, tenho dúvidas de que nos importaríamos com o ser-humano dentro da capsula. Culpa do roteiro que o desumaniza, mesmo que o mostre brincando com o filho ou dando flores pra esposa. Mas, é por demais evidente que é mais personagem de propaganda e não um homem com o qual possamos nos identificar.

sábado, 23 de junho de 2018

REDES SOCIAIS A SERVIÇO DO BEM

Em Gana, albinos encontram conforto nas redes sociais


Alguns ganenses acreditam que os albinos são um sinal de azar, então muitos pais não os reconhecem ou tentam matá-los



ACCRA, GANA - Quando Bernice Agboada tinha 15 anos, abandonou a escola porque não enxergava a lousa. A humilhação de ter de passar na frente dos colegas para poder ver o que estava escrito era maior ainda porque eles zombavam dela constantemente. Dois anos mais tarde, voltou para a escola, pagando alguém para tomar notas para ela.

Agora com 19 anos, Bernice sonha em fazer a faculdade de Direito, cantar e desfilar, mas ela precisa antes concluir o colegial, o que significa ter de pegar uma condução. Quando ela entra em um ônibus em Accra, os passageiros olham para ela espantados e sussurram “obroni” ou “ofri”, o que significa estrangeira, ou branca. “Ninguém quer sentar ao meu lado”, ela disse.

Bernice tem a pele clara e marcas provocadas por anos de exposição ao sol. Ela faz parte de um grupo de ganenses que têm albinismo, uma doença recessiva que reduz drasticamente a quantidade de melanina na pele e pode causar perda de visão e câncer de pele.

Alguns ganenses acreditam que a sua presença é um sinal de azar, levando os pais a evitar reconhecê-los, ou mesmo a tentar matá-los. Outros acreditam que seus corpos dão sorte, e alguns chegam a assassiná-los para os traficantes venderem partes dos corpos.

Em uma população de aproximadamente 28 milhões de habitantes, cerca de 2 mil deles em Gana têm albinismo.

As pessoas com albinismo são isoladas e se tornam incapazes de conseguir recursos para se proteger do sol e enfrentar um mundo que as considera seres descartáveis.

Mas, nos últimos anos, elas se conectaram com plataformas como Facebook e WhatsApp, transformando um estigma social em vínculos sociais e amizades físicas.

Para as pessoas que vivem com albinismo, as experiências variam de acordo com a classe, a idade e a extensão da doença no corpo, mas para as que vivem em Accra, a capital, e nas aldeias, o estigma frequentemente acarreta uma grave negligência e o deboche.

“Meu pai tentou várias vezes me matar porque nasci com albinismo”, disse Adam Abdul Wahab, editor de um jornal que nasceu em uma aldeia perto de Tamale, no norte do país. “Minha família achava que eu era de outro mundo, e algumas pessoas espiritualistas queriam acabar com a minha vida”.


O avô de Wahab conseguiu deter os possíveis assassinos, mas ele ainda lembra que quase morreu.

Nos últimos anos, em Accra, organizações como a Associação Ganense das Pessoas com Albinismo possibilitaram a pesquisa e a defesa destes cidadãos nas instâncias políticas. Mas nas aldeias rurais governadas por chefes, quem tem albinismo está particularmente sujeito à violência, afirma Sylvia Ansah, 34, administradora do programa Engage Now Africa Albinism.

O medo do sequestro é uma preocupação diária para Nancy Darkoa, 20, mãe solteira de uma aldeia rural cuja filha Francisca, 4, nasceu com albinismo. Seu marido não quis reconhecer a filha do casal quando descobriu que ela tinha albinismo, alegando que ninguém na sua família tinha esta doença.

“Criar minha filha na aldeia é muito mais difícil do que na cidade”, disse Nancy segurando Francisca e carregando o filho de 8 meses nas costas.

Sampson Amekoe, 39, que tem uma plantação de bananas e é pai de três filhos, teve experiências semelhantes. “Não importa o que eu faça, as pessoas comentam sempre alguma coisa sobre a minha pele quando passo por elas”.

Poder comprar produtos para a pele, protetores solares e ter acesso a dermatologistas é um problema para os albinos, que vivem com risco permanente de queimaduras do sol. E a situação econômica frequentemente determina este acesso.

“As pessoas com albinismo têm a tendência a ter câncer de pele em taxas extremamente elevadas por causa do clima aqui”, disse a dra. Jeannette Aryee-Boi, dermatologista, que trabalha como voluntária para grupos com albinismo.

A médica explicou que o albinismo pode levar ao nistagmo, uma doença que faz com que o olho tenha movimentos descontrolados, prejudicando a visão.

A formação de uma comunidade tem ajudado pessoas como Bernice a criar autoconsciência.

“Quando conheci outras pessoas com o meu problema, me senti motivada para acreditar que posso sobreviver, e isto me ajudou a não ter piedade de mim mesma”, ela afirmou. “Eu sei que, mesmo com a minha doença, sou bonita e posso fazer qualquer coisa”.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

CONTANDO A VIDA 236

ÉTICA NAS REDES SOCIAIS

José Carlos Sebe Bom Meihy

Falta muito para que possamos assimilar os efeitos da eletrônica na rotina de nossos dias. Quando olhamos pelo retrovisor, torna-se fantástica a admiração de como era a vida. Imaginemos, por exemplo o que aconteceu com o telefone. Lembremos que existiam “profissionais da telefônica”, que mediavam contatos entre as partes. Ligar para qualquer pessoa era quase um cerimonial e muitas vezes implicava demora, retornos e custava muito. Depois veio a fase dos sinais que muitas vezes nos fazia torcer para que não tardassem muito. E os fios telefônicos que nos aprisionavam em distâncias curtas?! Aliás, perto dos aparelhos sempre havia um banquinho ou cadeira. Isso não deixa de ser intrigante, pois as falas deveriam ser curtas. O custo dos aparelhos era enorme e demorava-se muito para chegar a oportunidade nas longas filas. De tal forma o problema da telefonia era expressivo que o estado interveio colocando os aparelhos na rua. Dia desses, um amigo chamava atenção em esclarecimento ao filho adolescente, explicando a expressão “cair a ficha”, pois as novas gerações sequer têm noção. O mesmo se diz dos cartões em desuso pela superação do sistema. 

Quando surgiram os primeiros aparelhos sem fios, as mudanças foram muito bem recebidas, graças a mobilidade tida como libertadora. Outra decorrência desse avanço pode ser medida pela simultaneidade: falava-se ao telefone ao mesmo tempo que se cozinhava, arrumava-se alguma coisa ou se vestia. Foi dessa época a mania de apoiar o fone no pescoço, e, falando nisso, não há como deixar de lado a capacidade feminina em repartir atividades paralelas. Os celulares significaram verdadeira revolução em todo processo. De repente, de uma hora para outra, uma síntese acelerada de tudo: espaço, tempo, mobilidade, tamanho, tudo se somou em uma maquininha que se tornou essencial. A tal ponto a dependência dos aparelhos se fez imperiosa que esquecê-lo em casa, dizia uma amiga, é como sair sem um dos braços. Em termos técnicos, o celular foi permitindo outras possibilidades que não apenas ser telefone. A internet talvez tenha sido a mais consequente decorrência e dela as redes sociais.

Alastrando-se como rastilho, começaram-se a multiplicar as redes sociais. Virando brinquedinho de adultos, como garotos em visita a um parque de diversão. E são legiões de adultos que rearticulam contatos e desdobraram-se em saudações, notícias e fofocas. Na surdina do progresso dos contatos, todos viram protagonistas, se assumem como divulgadores de suas causas e na sutileza da dualidade emissora, as fake news se fizeram personagens venenosas na intenção de confundir incautos. Semeando desavenças, certas invencionices foram ganhando tons políticos e consequentes. O fator multiplicação, sem dúvida, se responsabiliza pelo risco e pela popularização dos eventos criados para confundir. Sobre esta matéria, poderíamos alongar discursos que tenderiam ao infinito, mas interessa explorar outro lance que causa incômodos e exige cuidados. Por mexer em temas sensíveis, cabe inclusive lances de tangência filosófica ou pelo menos moral. 

Dia desse foi postada a imagem de uma criança de uns três anos, abrindo a bolsa da mãe e tirando dinheiro que escondia na própria roupa. Com o título de “filho de deputado”, houve compartilhamentos bem-humorados como que saudando a atitude malandrinha da criança. Em outra ocasião, a cena remetia a um cão sendo estraçalhado por um jacaré. Sobre cães e gatos há vasto repertório explorando, por exemplo, o medo dos animais que se apavoram com fogos. Sobre mulheres, loiras e mulatas principalmente, aquelas piadas que pretendem se situar no limite do pitoresco com o preconceituoso, tornam-se perigosas. O mesmo se diz de gays, gordos, anões, mendigos e religiões não bem aceitas. Todos esses procedimentos são discutíveis, mas um me atinge e convoca reflexões éticas mais consequentes: a exposição de crianças. Ora usadas como argumento sutil que reproduz defeitos sociais, são também evocadas como campo de experiências toleradas. Como que delegando falta de controle, crianças são mostradas fazendo coisas condenáveis, mas com condescendência. Entre a malandragem e a candura, se misturam usos impróprios de menores. E nem percebemos o mal que isso propaga. 

Convém assinalar que dois fatores se trançam de forma a complicar tudo: o engraçado e o interdito. No campo do humor, parece que vale tudo pelo riso ou malícia. O silêncio também atua como fator agravante, pois não se discute a gravidade do problema, e assim tudo rola na naturalidade do fluxo das postagens, que se sucedem vertiginosamente. Integram o mesmo pacote os cansativos desatinos ao que se convencionou chamar de “politicamente correto”. Como consciência culpada, é comum depois de um achaque desses, alguém falar mal do propósito ético que questiona o valor da brincadeira.

Frente a tudo isso, a questão que se coloca é: que fazer? Além de provocar o debate, sem apoios argumentativos coletivos, tenho tomado outra atitude: não reproduzir ou sequer comentar os casos. Considerando a necessidade de se discutir ética, cabe motivar discussões e saudar o respeito. Por certo, muito dos que enviam tais piadas ou comentários não têm intenção maldosa, mas intuitivamente atingem alvos frágeis. É chegada a hora de trocarmos ideias sobre essas coisas, pois a moral de história consagra do respeito além do riso.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PAPIRO VIRTUAL 120


Roberto Rillo Bíscaro

Em 1946, a Suécia experimentou surto de relatos sobre objetos não identificados sobrevoando superssonicamente seus céus. A ideia de que fossem discos-voadores tripulados por ETs sequer passou pela cabeça dos observadores e da imprensa. O termo flying saucer, na verdade, só seria inventado no ano seguinte, nos EUA e nem então se cogitaria tripulação alienígena. Suspeitaram de arma soviética desenvolvida a partir de pesquisas nazistas. A Segunda Guerra mal acabara, então os alemães ainda eram vilões (nem pra todos na colaboracionista Suécia, mas isso é outra história) e a Guerra Fria já começara, ou alguém acha que as bombas atômicas sobre um já derrotado Japão não foram também, demonstração de força pelos norte-americanos?
Fato é que aparições que fogem ao registro cognitivo são interpretadas à luz do que é culturalmente possível de imaginar. Num primeiro momento, a torrente de avistamentos aéreos no mundo todo não foi associado a ETs. Até na indústria cultural pode-se atestar isso, víde o filme The Flying Saucer (1950), que rapidamente usou a sensação dos discos-voadores no roteiro, mas articulou-o como possível arma do inimigo vermelho. Com mais de 22 milhões de quilômetros quadrados de território, os soviéticos arriscariam queda e detecção em céus capitalistas; realmente muito esperto...
Com a crescente certeza de que o homem se lançaria à exploração espacial – no mesmo 1950 já houve dois clássicos sci fi com esse tema – o raciocínio inverso não tardou: se o homem pode, por que não haveria civilizações mais adiantadas que já estivessem singrando o espaço sideral? Poucos anos após a febre de discos voadores de 1947, os ETs venceram a batalha pelo imaginário da mídia e do público em geral e qualquer luzinha não identificada no céu era marciano (na época achavam que poderia haver vegetação lá) nos fiscalizando.
No Brasil, o processo foi bem parecido, guardadas as especificidades locais, muito bem elencadas na dissertação de mestrado A invenção dos discos voadores. Guerra Fria, imprensa e ciência no Brasil (1947-1958), defendida na UNCAMP, em 2009, por Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos.
O historiador traça painel muito interessante das ondas de avistamentos no período estudado, destacando como a mídia impressa insuflava, mas também se alimentava do candente tema das supostas naves espaciais. Gente importante como Rachel de Queiroz escreveu crônica apavorada sobre possível invasão. Gauthier também relata as falcatruas da imprensa na fabricação do que ora se chama fake news, que garantiram fama de publicações como O Cruzeiro.
Embora reconheça o poder da indústria cultural (termo polêmico que acertadamente problematizado), o autor prova que as pessoas não eram simples marionetes na mão da mídia ou das ideias vindas do Tio Sam. Por exemplo, as teorias conspiratórias de lá, nunca colaram aqui, porque nossos militares foram mais abertos do que os estadunidenses (porque mais despreparados, por outro lado) e porque que segredo teríamos pra esconder em termos de armas e pesquisas secretas, pobres de nós?
Gauthier não deixa de perceber, por exemplo, que após o estrondoso sucesso do filme O Dia Em Que a Terra Parou (1951), afloraram inúmeros relatos de gente afirmando ter recebido mensagens de advertência aos perigos do uso de armas atômicas. Exatamente como no filme. Engraçado como civilizações altamente tecnologizadas perderiam tempo e energia vindo pra cá pra dar o recado prum zé-ruela qualquer no meio do nada. É como digo sobre as possessões demoníacas: ao invés de pegar um presidente norte-americano, o demo prefere uma menina suburbana. Xô Cão, burro!
A questão nem é acreditar ou não na existências dos OVNIS, porque o trabalho nem se propõe tal missão impossível. O mais fascinante é aprender como nossos antepassados foram afetados por questões como o holocausto nuclear e a corrida espacial, que, com a suposta aparição dos discos-voadores deixavam de ser temas remotos. E no caso brasuca, a popularidade de teorias espíritas (nem sempre bem entendidas) entre a classe média pra cima facilitou a aceitação dos discos como naves extraterrenas. Isso mereceria estudo a parte, porque Gauthier não tem como se aprofundar no tema, porque seu recorte é outro.

A invenção dos discos voadores. Guerra Fria, imprensa e ciência no Brasil (1947-1958) pode ser acessada no link abaixo:


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

TELINHA QUENTE 290


Roberto Rillo Bíscaro

Embora goste de alguns filmes de ficção-científica, não me denomino geek ou nerd, porque me desinteressam aprofundamentos científico-tecnológicos; nem tenho saco pra fuçar além do 1% que sei fazer no PC ou smartphone. Não busco/baixo aplicativos, não me interessa nem remotamente saber sobre eclipses ou órbitas. Pra se ter ideia, soube que o Homem conseguiu fazer foguete aterrissar verticalmente em um site chamado Classic Sci Fi Movies!
Mas, curto o planeta Marte, porque tantos filmes dos anos 1950 eram sobre e pelo poder que exerce na imaginação terráquea há tanto tempo. Houve época não muito remota em que se tinha como fato científico de que havia vida por lá; só faltava alcançá-la ou que viesse até nós. Uma dessas visões de visita marciana distópica foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, que alimentou a ficção cinematográfica cinquentista, até porque o planeta é vermelho, como os comunistas que essas produções podiam metaforizar.
Sondas norte-americanas e soviéticas demoliram o castelo no espaço construído pela imaginação de vida inteligente marciana, mas o sonho de visitar e até colonizar o Planeta Vermelho persiste, embora a Lua tenha tomado seu holofote por uns poucos anos.
Toda essa tradição marciana aliada ao fato de que era docudrama, animou-me a ver os seis capítulos de Marte (2016), produzidos pela National Geographic, que pousaram sem alarde no catálogo da Netflix, no ocaso de novembro. Docudrama é neologismo anglófono que designa obra cujo gênero se situa entre a ficção e o documentário.
Dirigido pelo badalado Ron Howard e baseado em best-seller, Marte balanceia muito bem suas porções real e fictícia. Em poucos minutos, o espectador entende a convenção: Marte paraleliza 2 tempos; o real 2016 e o ficcional, 2033. Isso é marcado mediante números gigantescos na tela; não tem como se confundir.
A parte documental de 2016 é recheada de superestrelas do mundo científico e do comercial que (quer) lucra(r) com aquele, embora o significado para pesquisas e possíveis consequências de enxergar Marte como “produto” jamais sejam discutidos. Marte nem cogita se a recessão capitalista dos anos 70/80 possa ter influenciado no esfriamento do interesse por missões à lua e a adoção do projeto do ônibus espacial em detrimento de possível programa de exploração marciana. É tudo na base do idealismo científico, da vontade e do sonho, embora a questão monetária esteja presente o tempo todo devido ao custo extraordinário que tais programas teriam.
Com relação à parte técnica e científica, porém, Marte fala tudo que um leigo interessado precisa saber. O programa mostra alguns dos principais tópicos a se considerar pruma expedição de colonização. A empreita marciana seria hercúlea e envolveria preocupações que vão desde a possibilidade de se pousar na vertical pra permitir o retorno de foguetes, até possíveis e potenciais sequelas psicológicas, decorrentes do confinamento prolongado em grupo minúsculo de pessoas, sem possiblidade de abandonar esse habitat. Tudo abordado de modo simples, objetivo, pra nós que não somos astrofísicos e temos saco raso.
O programa não deixa de cair na armadilha da idealização negativa, a saber, chamar Marte de cruel e por aí afora. Marte é bola gelada e poeirenta de rocha, nada mais, não é malvado, é apenas uma maldita coisa! Com o histórico das aventuras colonizadoras e civilizatórias da espécie humana, azar do planeta que tiver vida e nós pousarmos nele. Ainda mais com todas essas empresas querendo abocanhar mercados. Pena que Marte é bom moço (é nada!) demais pra dar essas espetadas.
A parte ficcional, de 2033, dramatiza (mas nem sempre) e dialoga (nem sempre) com a parte documental e as 2 se intercalam durante toda a duração do episódio, fazendo com que o fluxo do programa não aborreça com a parte potencialmente mais devagar do documentário.
Na ficção, grupo de cientistas internacionais vão pra Marte iniciar colônia. As agruras da viagem não são o foco e a gente se pergunta como os astronautas estavam tão elásticos depois de 7 meses dentro da nave, perdendo massa muscular (repare que da segunda leva em diante, isso passa a ser um desconforto) e quem faz os penteados das moças, mas isso não desabona a dramatização, que logra, inclusive, proporcionar momentos de genuíno suspense.
Marte pode ser desfrutado por múltiplos nichos de interesse e idade, pena que a Netflix não tenha destinado verba de divulgação. Mas, isso, podemos fazer nós.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CONTANDO A VIDA 214

REDES SOCIAIS: velhos e jovens.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Diria que em termos de calendário, o ano corrente (que envelheceu sem dar mostras que há de cair de podre), lentamente mudará em ideias, assinalando apenas a variação cronológica de 2017 para 2018. As expectativas são sombreadas de pessimismos, e não convém afastar os gravames de um ano eleitoral que não se enxuga de falcatruas, escândalos, e lances escusos. Certamente, teremos expostas diferenças assustadoras que, infelizmente, dimensionam ódios incontidos, recalques arraigados, achaques agressivos, porque não conseguem se renovar em essência. Não basta, contudo, identificar os sintomas em suas planuras reveladas por manifestações que percorrem redes sociais, notícias de jornais e até afetam convívios íntimos. Qualquer diagnóstico mais consequente demanda combinar causas arcaicas com novos modos de expressão. Ainda não assimilamos o impacto das tecnologias e, quase sempre, aproveitando facilidades, consagramos enfermidades incrustradas em insatisfações que, sinceramente, não dizem muito de projetos que precisam nascer. E a voz no coletivo, o tal semianonimato, sem mostrar o rosto ou a responsabilidade da interlocução argumentativa, faz amanhecer o pão nutritivo da troca de ideias, da ventilação de opiniões e mobilidades. E como é resistente, petulante, inflexível a firmeza da raiva política! Dói muito dizer, mas o mundo está dividido e o que é pior, sob o fado de extremar-se ainda mais.
E não vale apenas dizer que a corrupção é sistêmica, que os maus políticos são históricos, ou que as eleições resolverão o problema se votarmos “certo” (entendendo como “certo” os nossos candidatos). Junto com a resistência dos problemas, há recursos que merecem cuidados conceituais que, se compreendidos, podem favorecer entendimentos. Por lógico, não se almeja saudar consensos, mas é desejável o favorecimento de diálogos mais inteligentes do que o ataque cego e polarizado. Partamos do suposto que reza virtudes na alteração de posicionamentos. Por que não mudar? Por que não pensar nos argumentos contrários, se expostos de maneira outra que não o ataque? Ah! que saudade da metamorfose ambulante. Ambulante, porque variada, conformada com as demandas do mundo moderno.
O discurso racional está saturado e não mais se sustenta. A lógica construída em argumentos esticados do passado padece de furos consequentes e ocasiona vazios. É exatamente aí que se abrigam os argumentos carcomidos pelo passadismo. Sem admitir mudanças nos meios de comunicação, por exemplo, corre-se o risco de se manterem binarismos que não mais se explicam. A sociedade é dinâmica e reclama por consciência disso. O mundo se organiza, com os novos modelos de comunicação, em redes, mas, de que elas valem se insistirmos nos mesmos pregões? O plural é o desejo maior da democracia que precisa trocar ideias e permitir pertencimentos, integração, participação amplíssima. Não vale mais o “certo/errado”, “bonito/feio”, “bom/mau”. Basta um giro rápido pelas redes sociais para ver como, sob o jugo da modernização, se colocam em causas velhas proclamações que, aliás, assumem os fatigados supostos passados como critérios para futuros. A velocidade alucinante permitida pelos trilhos da internet (e agora da realidade ampliada) ainda conduzem as cargas azaradas pelos argumentos pretéritos. O mundo mudou e precisamos mudar com ele. E que sejam o diálogo e a instrução livre os ponteiros de bússolas navegantes. Chega de dogmas e fundamentalismos.   
Mas, haveria esperança? Pode-se admitir algum otimismo? Ou, pelo contrário, há de prevalecer a eletrônica atualizada em uso nas mãos de velhos que não se renovam e não a entendem, por embrutecidos que se tornaram? Creio no porvir. Com força, acredito que a nova geração saberá lidar com o mundo em rede e promoverá os avanços necessários para uma vida social mais justa. A noção de “novo mundo” se anuncia por meio de concepções libertárias da padronagem que ainda insiste em grassar nos segmentos que não aprenderam com a realidade horrível que nos cerca. Que fiquem avisados, diga-se, que alguns direitos humanos são irreversíveis. As mulheres, os racialmente segregados, os gêneros sexualmente reconhecidos, são arautos de um novo tempo, melhor, porque mais tolerante e flexível. Democrático. Em conjunto, grupos silenciados emergem e, tomara, que eles saibam lidar com o atraso e resistência da grande parte da “ velha” classe média brasileira. E que as redes sociais se constituam em reais teias de solidariedade e respeito.
Vivemos uma era de mudanças. Tudo parece ruir. Caem os tais “valores” antes fixos, estáveis e acomodados em cinismos e hipocrisias. Paradoxo das mudanças, é bom que assim seja. É bom que tenhamos ciência de que por mais insistentes que sejam os teores odientos, na medida da inexorável conexão do mundo, aprenderemos a lição fatal: os jovens estão em rede. Bem-vindos os não jovens que fiam nessa trama. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

CONTANDO A VIDA 181

ENCONTROS E DESENCONTROS ELETRÔNICOS

José Carlos Sebe Bom Meihy
Sinceramente, do fundo do meu coração: não tenho certeza se gosto ou não do andamento das novas tecnologias e do impacto na vida social moderna. Como professor, pesquisador, ou mesmo curioso, não há como desprezar os avanços permitidos pela eletrônica. Nossa!... O que o Google facilita a vida! E os GPSs e o Faceook? Os chamados telefônicos gratuitos e os efeitos do WhatsApp, então, nem se fala. Isso sem falar da internet e dos desdobramentos permitidos por ferramentas insondáveis que facilitam a vida, cortam caminhos. Tudo é fantástico e parece perfeitamente integrado aos hábitos modernos. Entre os jovens, um novo grupo surge e está circulando por todos os cantos se reconhecendo como “geração digital” e nem imaginam como era o mundo antes. Dia desses, visitava uma amiga que tem uma filhinha de dois anos de idade e que, frente a um supercelular, já deslizava o dedinho pela tela como se buscasse contatos. Fiquei inquieto e assustado com o ato mecânico da fedelha. A realidade é que não há como deixar de lado essa parafernália toda, mas...
Mas, na altura de meus dias, não tenho como deixar de lado algumas inquietações que andam me enlouquecendo. Confesso que há momentos em que penso que estou fora do mundo, que sou ser de outro planeta ou pelo menos de outras eras. Explico-me: não troco os contatos humanos por facilidades maquinadas. Não mesmo. Gosto de gente, do tom de vozes audíveis, de troca de olhares expressivos, de gestos, ruídos familiares. Sinto falta de toques, de insinuações verbais, da oralidade expressa na navegação da fala livre.
Mesmo aposentado, o prazer de dar aulas me é vital. Gostaria de morrer ensinando, ainda que saiba ser isso aterrador para os eventuais alunos, para a direção da escola e mesmo para familiares. Mas nada compensa o olhar atento dos estudantes, sentir efeitos de interações construídas em torno do conhecimento. Perceber os resultados de aulas preparadas é algo de dimensão inestimável, é como entrar no céu rodeado de anjos. Acontece que atualmente, tem doído muito entrar em sala com todo o script arrumadinho e... e deparar com alunos que trocam a dedicação do preparo pela telinha, fria e quase sempre convidativa de distâncias. Por lógico, sou daqueles professores que exercitam broncas. Não deixo de protestar e até negociei alguma abertura, permitindo que os alunos/digitadores saiam da aula, para resolver contatos fora da classe.
O pior, porém, é quando isso afeta o andamento familiar. Não suporto ver pessoas à mesa deixando o prazer do convívio, e mesmo da comida, em favor do desligamento exigido pela maquininha eletrizante. Nem menciono o que sinto ao ver crianças à mesa com tablets, vendo desenhos animados. Devo dizer que sou incontrolável quando me submeto a tais situações. Peço atenção, fecho a cara, chamo à realidade da experiência direta, enfim, aconteço até que se reestabeleça a base da pura e simples troca humana. É verdade que às vezes, de retorno, não consigo muito mais do que caras feias, mas elas são intensamente mais queridas do que as fugas virtuais.
Preocupa-me o futuro. Devo dizer que estou alerta para ver o que há de acontecer. Vejo-me ameaçado como professor pelos ameaçadores cursos ditos “à distância”, os tais EaD. Tomara que ainda em vida eu nunca perca a alegria presencial da relação aluno-professor-sala de aula. Tomara. Enquanto aguardo o futuro mediado pelas máquinas espero que saiam novos manuais de boas maneiras, algo que fale de ética do convívio nos dias atuais. Sim, acho que há de haver alguém mais que trate da mediação eletrônica como caso de educação ou mesmo de saúde pública, pois, afinal, quem será o doente? Os internautas ou eu?... 

domingo, 20 de novembro de 2016

SUPERAÇÃO SUPER-HERÓICA

O Domingo Espetacular visitou o menino que nasceu sem a maior parte do braço direito e emocionou a internet ao ganhar uma prótese. O vídeo já foi visto mais de cinco milhões de vezes. Nele, o menino Vanclever, de 13 anos, ganha um braço de super-herói. Conheça essa história de superação e aventura.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

PRA TER QUALIDADE TEM QUE INVESTIR

‘Como virei consultor de tecnologia na Europa com o que aprendi na escola pública’