Adolescente cria creme solar após perder o pai para o câncer de pele
Desenvolvido apenas com ingredientes orgânicos, como mel, banana, cúrcuma e leite, o produto terá um preço acessível
Maria Clara Pinheiro
Depois de perder o pai para o câncer de pele, aos 15 anos, a adolescente com albinismo Mwape Chimpampa, da Zâmbia, na África, desenvolveu um inovador creme solar orgânico. Com um baixo custo, o produto pode proteger mais de 30 mil pessoas com a condição no país.
Desenvolvido apenas com ingredientes orgânicos, como mel, banana, cúrcuma e leite, o protetor terá um preço acessível
Foto: Reprodução/Youtube / Bons Fluidos
"Assumi a responsabilidade de mudar a narrativa e criar este protetor para que ele seja acessível até mesmo para aqueles que não têm dinheiro para comprar cremes caros", disse a jovem em entrevista à 'ICU TV Zâmbia'.
Protetor inovador
O albinismo, condição comum na região da Zâmbia, é caracterizado pela baixa ou nenhuma produção de melanina, o que aumenta o risco de câncer de pele. Isso ocorre devido à maior sensibilidade à radiação solar. Estudos indicam que, sem o uso diário de protetor solar, a expectativa de vida das pessoas albinas é reduzida, podendo não passar dos 40 anos.
Em decorrência dos altos preços dos cremes, o familiar de Chimpampa foi um dos afetados pela doença. "Como minha irmã mais nova e eu, meu pai tinha albinismo. Ele, contudo, cresceu em uma família muito pobre, sem condições de comprar filtros solares", contou a jovem.
Assim, após o falecimento do ente querido em 2017, a menina encontrou forças, mesmo em um momento de luto, para desenvolver um filtro mais acessível não somente para a população do seu país, mas para indivíduos em todo o mundo. Mwape iniciou analisando fórmulas dos produtos disponíveis no mercado, a fim de encontrar substitutos para os componentes químicos.
A adolescente, então, a partir de ingredientes locais, como mel, banana, cúrcuma e leite, conseguiu criar o The Organic Sunscreen. Em seguida, Chimpampa, sua irmã e seis amigos testaram o creme, com Fator de Proteção Solar (FPS) 22, e comprovaram a eficácia contra os raios UV. O sucesso fez com que ela chamasse a atenção do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Zâmbia, que passou a financiar o projeto.
Próximos passos
Desta forma, atualmente, a organização negocia com investidores e fabricantes para viabilizar a produção em massa do o protetor até o final deste ano. Além disso, autoridades, como a especialista independente em albinismo da ONU Muluka-Anne Miti Drummond, defendem que o creme entre na lista de remédios essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).
"Este projeto representa um passo enorme para a saúde pública na Zâmbia. Além de ser acessível, é local e sustentável. Vai salvar vidas, criar empregos e inspirar outros jovens inovadores", ressaltou o Dr. Chisala Bwalya, do ZRDC, à emissora de televisão.
Perfil do paciente albino com visão subnormal e melhoria da acuidade visual com a adaptação de recursos ópticos e/ou eletrônicos
Objetivo: Determinar o perfil do paciente albino no departamento de visão subnormal do Instituto Benjamin Constant. Ressaltar o tempo de acompanhamento, a frequência do seguimento, e a melhora visual com a adaptação de recursos ópticos e/ou eletrônicos. Métodos: Estudo retrospectivo com dados de 77 pacientes albinos com idade entre 1 a 53 anos de idade atendidos no Instituto Benjamin Constant, entre 2003 e 2014. Resultados: O recurso óptico mais adaptado foi o telescópio de Galilleu 2.8x. Todos os pacientes referiram ganho de visão com os equipamentos. A maioria dos pacientes apresentaram acuidade visual com recursos ópticos entre 20/25 e 20/160. Conclusão: Os recursos ópticos auxiliaram na melhora da função visual e na qualidade de vida dos pacientes com albinismo ocular.
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Lenin – The Lion retrata a depressão de um leão albino em emocionante game nacional
A depressão se tornou a principal causa de problemas de saúde e incapacidade ao redor do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com o transtorno. Ainda há muito o que se compreender, aprender e discutir sobre a depressão, e é esta a proposta de Lenin – The Lion: game desenvolvido por uma equipe brasileira independente liderada por João Bueno.
“Lenin – The Lion conta a história do Lenin, um leão albino que, por conta dessa característica física, não é tão bem aceito socialmente – nem por parte da família e nem por parte dos colegas de escola. De tanto sofrer bullying, acaba desenvolvendo um quadro de depressão“, contextualiza o membro da equipe Rodolfo Davoglio em uma conversa com o A Casa do Cogumelodurante a BGS 2018.
Para conscientizar sobre a depressão, o game propõe jogadores a tomar suas próprias decisões quanto ao quadro de Lenin, podendo ocasionar desfechos narrativos diferentes a partir das escolhas feitas. “Com o passar do jogo, você poderá escolher tratar ou não desses sintomas. Cada uma dessas decisões irá alterar o meio e o final do jogo“, afirma Davoglio.
Também é nas questões de jogabilidade que Lenin – The Lion se mostra um ponto fora da curva. Mesmo se tratando de um RPG, o jogo não apresenta batalhas e prefere focar em puzzles e escolhas dos jogadores para concluir a jornada do leão albino. Há ainda muito espaço para “referências à depressão, seus efeitos e tratamentos, itens para superar situações desconfortáveis e conversas para encontrar novas formas de agir“.
Inspirado por clássicos como Earthbound, João cumpre as principais camadas do game design de Lenin – The Lion sozinho, incluindo programação, roteiro, ilustração, pixel art e animação. O desenvolvedor iniciou um projeto de financiamento coletivo em setembro de 2017 e atingiu a meta proposta em apenas dois meses, totalizando R$ 13.485 para finalizar o game.
Por tratar de um assunto delicado, João e sua equipe foram atrás de psicólogos para buscar recursos que não comprometam o estado psicológico e emocional dos jogadores, focando somente na conscientização e na elevação de espírito dos mesmos. “Não que exista uma diretriz real da OMS, mas eles sugeriram evitar determinadas coisas, como citar o suicídio. A gente quer que o jogador tenha uma boa sensação, ao invés de sofrer com um gatilho pesado“, explicou.
Davoglio também salienta que não se trata de um game medicinal, mas sim uma obra lúdica que oferece conscientização sobre o transtorno. “Serve para criar empatia para aqueles que não sofrem de depressão. Se você não tem depressão, que o jogo te traga um pouco de empatia. Se você tem, que ele te deixe um pouco mais aliviado ao saber que pessoas estão falando do tópico, que ainda é um tabu.”
Visualmente belo, o game também consegue resgatar nostalgia em jogadores mais familiarizados com RPG’s que fizeram sucesso nos anos 90, como Chrono Trigger e The Legend of Zelda – além do mencionado Earthbound. A falta de batalhas dão espaço para escolhas morais e éticas, sempre priorizando ou não o estado emocional do protagonista.
A trilha sonora composta por Alan e Jon Shárper é outro fator que eleva a experiência proposta por Lenin – The Lion. Ao invés de focar em tons melancólicos, a dupla prefere guiar jogadores com notas suaves, mas não menos enérgicas – fator que também evita gatilhos emocionais negativos.
Com inúmeras referências à depressão, conscientização, quebra-cabeças e escolhas que determinam futuros eventos na vida de Lenin, o mundo antropomórfico do game consegue engolir jogadores em uma experiência emocionante e pessoal, seja para quem sofre ou sofreu de depressão, assim como para os que desejam uma obra lúdica com poderes de conscientização sobre o transtorno.
Uma demo do game está disponível no Game Jolt, e você também pode ajudar o projeto a ganhar conteúdos adicionais sendo um apoiador no Patreon.
Muito se tem falado sobre avanços da medicina e não são poucos os que se encantam como a chamada robótica médica. A tecnologia empregada a favor das ciências tem produzido milagres surpreendentes. Basta termos alguém que necessite de amparo clínico para que se note os passos grandes dados em favor de bons diagnósticos, monitoramentos precisos e possibilidades ampliadas de recuperação. Uma coisa leva a outra e o mesmo se diz do aparato eletrônico empregado em escalas crescentes também em outras áreas como nos serviços domésticos, nas atividades de recreação e esportes. É claro que temos que saudar a tecnologia como virtude, mas, exatamente para que se a legitime como conquista é de se considerar também seu avesso, ou seja, os malefícios que pode produzir. É aí que a medicina volta a significar.
Como mercadoria, os celulares têm cumprido a tarefa de democratizar a comunicação em geral e, nessa linha, os preços a cada dia mais acessíveis facilitam contatos e podem promover aproximações variadas. Assim, progressivamente somando possibilidades, de tal forma os celulares se tornaram usáveis que não se consegue pensar o mundo sem eles. Os tais aparelhinhos, por sua vez, sorrateiramente se integraram no cotidiano como se fossem órgãos ou componentes inerentes ao nosso corpo. “São como parte da gente”, há quem diga. Dia desses, ouvi uma colega dizer, sem muito pudor, que sem o celular, esquecido em casa, ela se sentia como que mastectomizada. Fiquei chocado, quis explorar mais a figura de linguagem empregada e de volta ouvi algo ainda mais estarrecedor “ué, com você não é assim? Se fosse homem, sem celular eu me sentiria capado”. Calei. Não respondi... Não respondi, mas levei para pensar.
Não há dúvidas que o mundo ficou inimaginável sem os tais dispositivos eletrônicos. A existência de um profícuo ramo de negócios voltados a isso nem mais espanta. Onde quer que se vá, lá estão pessoas “passando o tempo” com as telinhas brilhantes, iluminadas e latejantes. Seja no metrô, ônibus, no mercado ou nos consultórios, é imediato constatar pessoas entretidas, mergulhadas em informações e contatos. Parece feitiço... Confesso que já vi pessoas em igrejas, cemitérios, teatro e cinemas como os equipamentos em funcionamento sem nenhum constrangimento. Nas escolas o celular virou tema de conflitos entre professores e alunos, e a linha divisória entre poder ou não ingressar com esses aparelhos tornou-se objeto de pesquisas educacionais e muita discussão. Dentre tantas experiências recentes, uma me impactou bastante. Indo para a Universidade de Stanford, na Califórnia, entre as mais reputadas do mundo, fiquei pasmado em saber que os alunos não podem usar máquinas – celulares ou computadores – durante as aulas regulares, em muitos cursos. Nem mesmo para as tais consultas suplementares ou para registros e anotações são permitidas tais presenças que, segundo explicações competentes, se formulam como forma de derivação da concentração.
Pois é, o grau de gravidade da situação tornou-se tamanho que o fenômeno virou doença já descrita por especialistas. Sob o nome de Nomophobia, termo derivado de no-mobile-phobia, ou seja, pavor de ficar sem acesso às redes sociais e à comunicação imediata, a situação já é tratada como doença. Os dramáticos efeitos são próximos da conhecida síndrome de pânico, e decorrem de casos corriqueiros como a falta de energia elétrica, pane no aparelho ou mesmo o prosaico fim das cargas de baterias ou dos vazios de cobertura. De modo geral, nosso cérebro vai ficando dependente a tal ponto que há pessoas que acordam a noite com a sensação irresistível de verificar o que chegou. Sabe-se de casos de tipos que ouvem sinais de chamada mesmo quando o aparelho não está ativado. De tal forma a privação eletrônica se manifesta que as crises de ansiedade levam a depressão mais ou menos prolongada, fato que ameaça a vulgarização desses casos tidos já como epidêmicos. Em conjunto, a expressão desses tiques se constitui no que tem sido reconhecido com “Reação FOMO” (Fear of missing out) ou, em tradução livre: medo de estar perdendo algo. O pior é que tudo tende a se agravar posto que ao mesmo tempo em que se diagnosticam casos e se descrevem detalhes dessa manifestação, novos avanços colocam no mercado de consumo aparelhos cada vez mais sofisticados. O grande paradoxo notado, porém, é que exatamente a medicina, uma das áreas mais beneficiadas pela eletrônica é ela mesma a denunciadora de malefícios. Médicos atentos ao agravamento da situação já prenunciam que as doenças nomofóbicas serão o mal do século XXI. Temendo, desliguei o meu aparelho... Vou ficar assim uns quinze minutos. Depois conto o resultado.
Sem dúvida e merecidamente, Iuri Gagarin desfruta do
status de herói da humanidade, afinal, foi o primeiro homem a viajar pelo
espaço, em abril de 1961, a bordo da Vostok 1.
À época, porém, o mundo vivia a tensão da Guerra Fria
entre capitalistas e comunistas e a façanha soviética incomodou ainda mais os
norte-americanos, já mordidos de raiva e assustados, porque seus inimigos
Vermelhos havia posto o primeiro satélite artificial a orbitar nosso planeta,
em 1957.
A faceta de corrida e de batida no peito pra mostrar
macheza ao rival não passa batido em Gagarin: o Primeiro no Espaço (2013),
disponível na Netflix.
O filme intercala sequências preparatórias, da execução
e do desfecho do histórico voo com episódios da infância e juventude do
cosmonauta. Muito rapidamente, alude-se à gambiarrice do programa espacial
soviético, que, seis anos mais tarde marcaria novo recorde pro país: Vladimir Komarov tornar-se-ia a primeira vítima de programas espaciais, quando seus
restos carbonizados espatifaram-se na tundra, após missão fadada ao fracasso,
na qual supostamente Gagarin seria escalado não fosse a voluntariedade de
Komarov. Não adiantou muito poupar o herói nacional, porque no ano seguinte ele
morreu, quando o avião que pilotava caiu.
O filme é bem-feito e consegue prender, mas não se pode
esquecer por nenhum segundo que foi parcialmente financiado pelo estado russo e
aprovado pela seletiva e protetora família do cosmonauta. Isso implica na
descrição de Iuri como ser especial, meio ingênuo. É o herói apolíneo; um Homem
Com Uma Missão, como cantava o Kid Abelha, há 35 anos. Nada que o cinema
norte-americano já não tenha feito zilhões de vezes.
Assim, Gagarin faz sorrindo o duro exercício de cabo de
guerra no treinamento; meio que salva seu irmão Boriska dum soldado alemão
pirado e, quando resiste sem esforço aparente a um duro teste de pressão gravitacional,
ouve-se a técnica soltar um “esse é um homem de verdade”. Difícil segurar a
gargalhada.
Igualmente difícil não se
contagiar com a alegria do povo nas ruas celebrando e se entusiasmar com a
aventura. Pena que não seja um Gagarin empatizável, porque distante demais. Se
não soubéssemos que a missão daria certo, tenho dúvidas de que nos
importaríamos com o ser-humano dentro da capsula. Culpa do roteiro que o
desumaniza, mesmo que o mostre brincando com o filho ou dando flores pra esposa.
Mas, é por demais evidente que é mais personagem de propaganda e não um homem
com o qual possamos nos identificar.
Em Gana, albinos encontram conforto nas redes sociais
Alguns ganenses acreditam que os albinos são um sinal de azar, então muitos pais não os reconhecem ou tentam matá-los
ACCRA, GANA - Quando Bernice Agboada tinha 15 anos, abandonou a escola porque não enxergava a lousa. A humilhação de ter de passar na frente dos colegas para poder ver o que estava escrito era maior ainda porque eles zombavam dela constantemente. Dois anos mais tarde, voltou para a escola, pagando alguém para tomar notas para ela.
Agora com 19 anos, Bernice sonha em fazer a faculdade de Direito, cantar e desfilar, mas ela precisa antes concluir o colegial, o que significa ter de pegar uma condução. Quando ela entra em um ônibus em Accra, os passageiros olham para ela espantados e sussurram “obroni” ou “ofri”, o que significa estrangeira, ou branca. “Ninguém quer sentar ao meu lado”, ela disse.
Bernice tem a pele clara e marcas provocadas por anos de exposição ao sol. Ela faz parte de um grupo de ganenses que têm albinismo, uma doença recessiva que reduz drasticamente a quantidade de melanina na pele e pode causar perda de visão e câncer de pele.
Alguns ganenses acreditam que a sua presença é um sinal de azar, levando os pais a evitar reconhecê-los, ou mesmo a tentar matá-los. Outros acreditam que seus corpos dão sorte, e alguns chegam a assassiná-los para os traficantes venderem partes dos corpos.
Em uma população de aproximadamente 28 milhões de habitantes, cerca de 2 mil deles em Gana têm albinismo.
As pessoas com albinismo são isoladas e se tornam incapazes de conseguir recursos para se proteger do sol e enfrentar um mundo que as considera seres descartáveis.
Mas, nos últimos anos, elas se conectaram com plataformas como Facebook e WhatsApp, transformando um estigma social em vínculos sociais e amizades físicas.
Para as pessoas que vivem com albinismo, as experiências variam de acordo com a classe, a idade e a extensão da doença no corpo, mas para as que vivem em Accra, a capital, e nas aldeias, o estigma frequentemente acarreta uma grave negligência e o deboche.
“Meu pai tentou várias vezes me matar porque nasci com albinismo”, disse Adam Abdul Wahab, editor de um jornal que nasceu em uma aldeia perto de Tamale, no norte do país. “Minha família achava que eu era de outro mundo, e algumas pessoas espiritualistas queriam acabar com a minha vida”.
O avô de Wahab conseguiu deter os possíveis assassinos, mas ele ainda lembra que quase morreu.
Nos últimos anos, em Accra, organizações como a Associação Ganense das Pessoas com Albinismo possibilitaram a pesquisa e a defesa destes cidadãos nas instâncias políticas. Mas nas aldeias rurais governadas por chefes, quem tem albinismo está particularmente sujeito à violência, afirma Sylvia Ansah, 34, administradora do programa Engage Now Africa Albinism.
O medo do sequestro é uma preocupação diária para Nancy Darkoa, 20, mãe solteira de uma aldeia rural cuja filha Francisca, 4, nasceu com albinismo. Seu marido não quis reconhecer a filha do casal quando descobriu que ela tinha albinismo, alegando que ninguém na sua família tinha esta doença.
“Criar minha filha na aldeia é muito mais difícil do que na cidade”, disse Nancy segurando Francisca e carregando o filho de 8 meses nas costas.
Sampson Amekoe, 39, que tem uma plantação de bananas e é pai de três filhos, teve experiências semelhantes. “Não importa o que eu faça, as pessoas comentam sempre alguma coisa sobre a minha pele quando passo por elas”.
Poder comprar produtos para a pele, protetores solares e ter acesso a dermatologistas é um problema para os albinos, que vivem com risco permanente de queimaduras do sol. E a situação econômica frequentemente determina este acesso.
“As pessoas com albinismo têm a tendência a ter câncer de pele em taxas extremamente elevadas por causa do clima aqui”, disse a dra. Jeannette Aryee-Boi, dermatologista, que trabalha como voluntária para grupos com albinismo.
A médica explicou que o albinismo pode levar ao nistagmo, uma doença que faz com que o olho tenha movimentos descontrolados, prejudicando a visão.
A formação de uma comunidade tem ajudado pessoas como Bernice a criar autoconsciência.
“Quando conheci outras pessoas com o meu problema, me senti motivada para acreditar que posso sobreviver, e isto me ajudou a não ter piedade de mim mesma”, ela afirmou. “Eu sei que, mesmo com a minha doença, sou bonita e posso fazer qualquer coisa”.
Falta muito para que possamos assimilar os efeitos da eletrônica na rotina de nossos dias. Quando olhamos pelo retrovisor, torna-se fantástica a admiração de como era a vida. Imaginemos, por exemplo o que aconteceu com o telefone. Lembremos que existiam “profissionais da telefônica”, que mediavam contatos entre as partes. Ligar para qualquer pessoa era quase um cerimonial e muitas vezes implicava demora, retornos e custava muito. Depois veio a fase dos sinais que muitas vezes nos fazia torcer para que não tardassem muito. E os fios telefônicos que nos aprisionavam em distâncias curtas?! Aliás, perto dos aparelhos sempre havia um banquinho ou cadeira. Isso não deixa de ser intrigante, pois as falas deveriam ser curtas. O custo dos aparelhos era enorme e demorava-se muito para chegar a oportunidade nas longas filas. De tal forma o problema da telefonia era expressivo que o estado interveio colocando os aparelhos na rua. Dia desses, um amigo chamava atenção em esclarecimento ao filho adolescente, explicando a expressão “cair a ficha”, pois as novas gerações sequer têm noção. O mesmo se diz dos cartões em desuso pela superação do sistema.
Quando surgiram os primeiros aparelhos sem fios, as mudanças foram muito bem recebidas, graças a mobilidade tida como libertadora. Outra decorrência desse avanço pode ser medida pela simultaneidade: falava-se ao telefone ao mesmo tempo que se cozinhava, arrumava-se alguma coisa ou se vestia. Foi dessa época a mania de apoiar o fone no pescoço, e, falando nisso, não há como deixar de lado a capacidade feminina em repartir atividades paralelas. Os celulares significaram verdadeira revolução em todo processo. De repente, de uma hora para outra, uma síntese acelerada de tudo: espaço, tempo, mobilidade, tamanho, tudo se somou em uma maquininha que se tornou essencial. A tal ponto a dependência dos aparelhos se fez imperiosa que esquecê-lo em casa, dizia uma amiga, é como sair sem um dos braços. Em termos técnicos, o celular foi permitindo outras possibilidades que não apenas ser telefone. A internet talvez tenha sido a mais consequente decorrência e dela as redes sociais.
Alastrando-se como rastilho, começaram-se a multiplicar as redes sociais. Virando brinquedinho de adultos, como garotos em visita a um parque de diversão. E são legiões de adultos que rearticulam contatos e desdobraram-se em saudações, notícias e fofocas. Na surdina do progresso dos contatos, todos viram protagonistas, se assumem como divulgadores de suas causas e na sutileza da dualidade emissora, as fake news se fizeram personagens venenosas na intenção de confundir incautos. Semeando desavenças, certas invencionices foram ganhando tons políticos e consequentes. O fator multiplicação, sem dúvida, se responsabiliza pelo risco e pela popularização dos eventos criados para confundir. Sobre esta matéria, poderíamos alongar discursos que tenderiam ao infinito, mas interessa explorar outro lance que causa incômodos e exige cuidados. Por mexer em temas sensíveis, cabe inclusive lances de tangência filosófica ou pelo menos moral.
Dia desse foi postada a imagem de uma criança de uns três anos, abrindo a bolsa da mãe e tirando dinheiro que escondia na própria roupa. Com o título de “filho de deputado”, houve compartilhamentos bem-humorados como que saudando a atitude malandrinha da criança. Em outra ocasião, a cena remetia a um cão sendo estraçalhado por um jacaré. Sobre cães e gatos há vasto repertório explorando, por exemplo, o medo dos animais que se apavoram com fogos. Sobre mulheres, loiras e mulatas principalmente, aquelas piadas que pretendem se situar no limite do pitoresco com o preconceituoso, tornam-se perigosas. O mesmo se diz de gays, gordos, anões, mendigos e religiões não bem aceitas. Todos esses procedimentos são discutíveis, mas um me atinge e convoca reflexões éticas mais consequentes: a exposição de crianças. Ora usadas como argumento sutil que reproduz defeitos sociais, são também evocadas como campo de experiências toleradas. Como que delegando falta de controle, crianças são mostradas fazendo coisas condenáveis, mas com condescendência. Entre a malandragem e a candura, se misturam usos impróprios de menores. E nem percebemos o mal que isso propaga.
Convém assinalar que dois fatores se trançam de forma a complicar tudo: o engraçado e o interdito. No campo do humor, parece que vale tudo pelo riso ou malícia. O silêncio também atua como fator agravante, pois não se discute a gravidade do problema, e assim tudo rola na naturalidade do fluxo das postagens, que se sucedem vertiginosamente. Integram o mesmo pacote os cansativos desatinos ao que se convencionou chamar de “politicamente correto”. Como consciência culpada, é comum depois de um achaque desses, alguém falar mal do propósito ético que questiona o valor da brincadeira.
Frente a tudo isso, a questão que se coloca é: que fazer? Além de provocar o debate, sem apoios argumentativos coletivos, tenho tomado outra atitude: não reproduzir ou sequer comentar os casos. Considerando a necessidade de se discutir ética, cabe motivar discussões e saudar o respeito. Por certo, muito dos que enviam tais piadas ou comentários não têm intenção maldosa, mas intuitivamente atingem alvos frágeis. É chegada a hora de trocarmos ideias sobre essas coisas, pois a moral de história consagra do respeito além do riso.
Em 1946, a Suécia experimentou surto de relatos sobre
objetos não identificados sobrevoando superssonicamente seus céus. A ideia de
que fossem discos-voadores tripulados por ETs sequer passou pela cabeça dos
observadores e da imprensa. O termo flying
saucer, na verdade, só seria inventado no ano seguinte, nos EUA e nem então
se cogitaria tripulação alienígena. Suspeitaram de arma soviética desenvolvida
a partir de pesquisas nazistas. A Segunda Guerra mal acabara, então os alemães
ainda eram vilões (nem pra todos na colaboracionista Suécia, mas isso é outra
história) e a Guerra Fria já começara, ou alguém acha que as bombas atômicas
sobre um já derrotado Japão não foram também, demonstração de força pelos
norte-americanos?
Fato é que aparições que fogem ao registro cognitivo
são interpretadas à luz do que é culturalmente possível de imaginar. Num
primeiro momento, a torrente de avistamentos aéreos no mundo todo não foi
associado a ETs. Até na indústria cultural pode-se atestar isso, víde o filme The Flying Saucer (1950), que rapidamente usou a sensação dos discos-voadores
no roteiro, mas articulou-o como possível arma do inimigo vermelho. Com mais de 22 milhões de quilômetros quadrados de território, os soviéticos arriscariam queda e detecção em céus
capitalistas; realmente muito esperto...
Com a crescente certeza de que o homem se lançaria à
exploração espacial – no mesmo 1950 já houve dois clássicos sci fi com esse tema – o raciocínio
inverso não tardou: se o homem pode, por que não haveria civilizações mais
adiantadas que já estivessem singrando o espaço sideral? Poucos anos após a
febre de discos voadores de 1947, os ETs venceram a batalha pelo imaginário da
mídia e do público em geral e qualquer luzinha não identificada no céu era marciano
(na época achavam que poderia haver vegetação lá) nos fiscalizando.
No Brasil, o processo foi bem parecido, guardadas as
especificidades locais, muito bem elencadas na dissertação de mestrado A invenção dos discos voadores. Guerra Fria,
imprensa e ciência no Brasil (1947-1958), defendida na UNCAMP, em 2009, por
Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos.
O historiador traça painel muito interessante das ondas
de avistamentos no período estudado, destacando como a mídia impressa
insuflava, mas também se alimentava do candente tema das supostas naves
espaciais. Gente importante como Rachel de Queiroz escreveu crônica apavorada
sobre possível invasão. Gauthier também relata as falcatruas da imprensa na
fabricação do que ora se chama fake news,
que garantiram fama de publicações como O Cruzeiro.
Embora reconheça o poder da indústria cultural (termo
polêmico que acertadamente problematizado), o autor prova que as pessoas não
eram simples marionetes na mão da mídia ou das ideias vindas do Tio Sam. Por exemplo,
as teorias conspiratórias de lá, nunca colaram aqui, porque nossos militares
foram mais abertos do que os estadunidenses (porque mais despreparados, por
outro lado) e porque que segredo teríamos pra esconder em termos de armas e
pesquisas secretas, pobres de nós?
Gauthier não deixa de perceber, por exemplo, que após o
estrondoso sucesso do filme O Dia Em Que a Terra Parou (1951), afloraram
inúmeros relatos de gente afirmando ter recebido mensagens de advertência aos
perigos do uso de armas atômicas. Exatamente como no filme. Engraçado como
civilizações altamente tecnologizadas perderiam tempo e energia vindo pra cá
pra dar o recado prum zé-ruela qualquer no meio do nada. É como digo sobre as
possessões demoníacas: ao invés de pegar um presidente norte-americano, o demo prefere uma menina suburbana. Xô Cão, burro!
A questão nem é acreditar ou não na existências dos
OVNIS, porque o trabalho nem se propõe tal missão impossível. O mais fascinante
é aprender como nossos antepassados foram afetados por questões como o
holocausto nuclear e a corrida espacial, que, com a suposta aparição dos
discos-voadores deixavam de ser temas remotos. E no caso brasuca, a
popularidade de teorias espíritas (nem sempre bem entendidas) entre a classe
média pra cima facilitou a aceitação dos discos como naves extraterrenas. Isso
mereceria estudo a parte, porque Gauthier não tem como se aprofundar no tema,
porque seu recorte é outro.
A invenção dos discos voadores. Guerra Fria, imprensa e ciência no Brasil (1947-1958) pode ser acessada no link abaixo:
Embora goste de alguns filmes de ficção-científica, não
me denomino geek ou nerd, porque me desinteressam
aprofundamentos científico-tecnológicos; nem tenho saco pra fuçar além do 1%
que sei fazer no PC ou smartphone. Não
busco/baixo aplicativos, não me interessa nem remotamente saber sobre eclipses
ou órbitas. Pra se ter ideia, soube que o Homem conseguiu fazer foguete
aterrissar verticalmente em um site chamado Classic Sci Fi Movies!
Mas, curto o planeta Marte, porque tantos filmes dos
anos 1950 eram sobre e pelo poder que exerce na imaginação terráquea há tanto
tempo. Houve época não muito remota em que se tinha como fato científico de que
havia vida por lá; só faltava alcançá-la ou que viesse até nós. Uma dessas
visões de visita marciana distópica foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells,
que alimentou a ficção cinematográfica cinquentista, até porque o planeta é
vermelho, como os comunistas que essas produções podiam metaforizar.
Sondas norte-americanas e soviéticas demoliram o
castelo no espaço construído pela imaginação de vida inteligente marciana, mas
o sonho de visitar e até colonizar o Planeta Vermelho persiste, embora a Lua
tenha tomado seu holofote por uns poucos anos.
Toda essa tradição marciana aliada ao fato de que era
docudrama, animou-me a ver os seis capítulos de Marte (2016), produzidos pela
National Geographic, que pousaram sem alarde no catálogo da Netflix, no ocaso
de novembro. Docudrama é neologismo anglófono que designa obra cujo gênero se situa
entre a ficção e o documentário.
Dirigido pelo badalado Ron Howard e baseado em best-seller, Marte balanceia muito bem
suas porções real e fictícia. Em poucos minutos, o espectador entende a
convenção: Marte paraleliza 2 tempos; o real 2016 e o ficcional, 2033. Isso é
marcado mediante números gigantescos na tela; não tem como se confundir.
A parte documental de 2016 é recheada de superestrelas
do mundo científico e do comercial que (quer) lucra(r) com aquele, embora o
significado para pesquisas e possíveis consequências de enxergar Marte como “produto”
jamais sejam discutidos. Marte nem cogita se a recessão capitalista dos anos
70/80 possa ter influenciado no esfriamento do interesse por missões à lua e a
adoção do projeto do ônibus espacial em detrimento de possível programa de
exploração marciana. É tudo na base do idealismo científico, da vontade e do
sonho, embora a questão monetária esteja presente o tempo todo devido ao custo
extraordinário que tais programas teriam.
Com relação à parte técnica e científica, porém, Marte
fala tudo que um leigo interessado precisa saber. O programa mostra alguns dos
principais tópicos a se considerar pruma expedição de colonização. A empreita
marciana seria hercúlea e envolveria preocupações que vão desde a possibilidade
de se pousar na vertical pra permitir o retorno de foguetes, até possíveis e
potenciais sequelas psicológicas, decorrentes do confinamento prolongado em
grupo minúsculo de pessoas, sem possiblidade de abandonar esse habitat. Tudo
abordado de modo simples, objetivo, pra nós que não somos astrofísicos e temos
saco raso.
O programa não deixa de cair na armadilha da
idealização negativa, a saber, chamar Marte de cruel e por aí afora. Marte é bola
gelada e poeirenta de rocha, nada mais, não é malvado, é apenas uma maldita
coisa! Com o histórico das aventuras colonizadoras e civilizatórias da espécie
humana, azar do planeta que tiver vida e nós pousarmos nele. Ainda mais com
todas essas empresas querendo abocanhar mercados. Pena que Marte é bom moço (é
nada!) demais pra dar essas espetadas.
A parte ficcional, de 2033, dramatiza (mas nem sempre)
e dialoga (nem sempre) com a parte documental e as 2 se intercalam durante toda
a duração do episódio, fazendo com que o fluxo do programa não aborreça com a
parte potencialmente mais devagar do documentário.
Na ficção, grupo de cientistas internacionais vão pra
Marte iniciar colônia. As agruras da viagem não são o foco e a gente se
pergunta como os astronautas estavam tão elásticos depois de 7 meses dentro da
nave, perdendo massa muscular (repare que da segunda leva em diante, isso passa
a ser um desconforto) e quem faz os penteados das moças, mas isso não desabona
a dramatização, que logra, inclusive, proporcionar momentos de genuíno
suspense.
Marte pode ser desfrutado
por múltiplos nichos de interesse e idade, pena que a Netflix não tenha
destinado verba de divulgação. Mas, isso, podemos fazer nós.
Diria que em termos de calendário, o ano corrente (que envelheceu
sem dar mostras que há de cair de podre), lentamente mudará em ideias,
assinalando apenas a variação cronológica de 2017 para 2018. As expectativas
são sombreadas de pessimismos, e não convém afastar os gravames de um ano
eleitoral que não se enxuga de falcatruas, escândalos, e lances escusos.
Certamente, teremos expostas diferenças assustadoras que, infelizmente,
dimensionam ódios incontidos, recalques arraigados, achaques agressivos, porque
não conseguem se renovar em essência. Não basta, contudo, identificar os
sintomas em suas planuras reveladas por manifestações que percorrem redes
sociais, notícias de jornais e até afetam convívios íntimos. Qualquer
diagnóstico mais consequente demanda combinar causas arcaicas com novos modos
de expressão. Ainda não assimilamos o impacto das tecnologias e, quase sempre,
aproveitando facilidades, consagramos enfermidades incrustradas em insatisfações
que, sinceramente, não dizem muito de projetos que precisam nascer. E a voz no
coletivo, o tal semianonimato, sem mostrar o rosto ou a responsabilidade da
interlocução argumentativa, faz amanhecer o pão nutritivo da troca de ideias,
da ventilação de opiniões e mobilidades. E como é resistente, petulante,
inflexível a firmeza da raiva política! Dói muito dizer, mas o mundo está
dividido e o que é pior, sob o fado de extremar-se ainda mais.
E não vale apenas dizer que a corrupção é sistêmica,
que os maus políticos são históricos, ou que as eleições resolverão o problema
se votarmos “certo” (entendendo como “certo” os nossos candidatos). Junto com a
resistência dos problemas, há recursos que merecem cuidados conceituais que, se
compreendidos, podem favorecer entendimentos. Por lógico, não se almeja saudar
consensos, mas é desejável o favorecimento de diálogos mais inteligentes do que
o ataque cego e polarizado. Partamos do suposto que reza virtudes na alteração
de posicionamentos. Por que não mudar? Por que não pensar nos argumentos
contrários, se expostos de maneira outra que não o ataque? Ah! que saudade da
metamorfose ambulante. Ambulante, porque variada, conformada com as demandas do
mundo moderno.
O discurso racional está saturado e não mais se sustenta.
A lógica construída em argumentos esticados do passado padece de furos
consequentes e ocasiona vazios. É exatamente aí que se abrigam os argumentos
carcomidos pelo passadismo. Sem admitir mudanças nos meios de comunicação, por
exemplo, corre-se o risco de se manterem binarismos que não mais se explicam. A
sociedade é dinâmica e reclama por consciência disso. O mundo se organiza, com
os novos modelos de comunicação, em redes, mas, de que elas valem se
insistirmos nos mesmos pregões? O plural é o desejo maior da democracia que
precisa trocar ideias e permitir pertencimentos, integração, participação
amplíssima. Não vale mais o “certo/errado”, “bonito/feio”, “bom/mau”. Basta um
giro rápido pelas redes sociais para ver como, sob o jugo da modernização, se
colocam em causas velhas proclamações que, aliás, assumem os fatigados supostos
passados como critérios para futuros. A velocidade alucinante permitida pelos
trilhos da internet (e agora da realidade ampliada) ainda conduzem as cargas azaradas
pelos argumentos pretéritos. O mundo mudou e precisamos mudar com ele. E que
sejam o diálogo e a instrução livre os ponteiros de bússolas navegantes. Chega
de dogmas e fundamentalismos.
Mas, haveria esperança? Pode-se admitir algum otimismo?
Ou, pelo contrário, há de prevalecer a eletrônica atualizada em uso nas mãos de
velhos que não se renovam e não a entendem, por embrutecidos que se tornaram?
Creio no porvir. Com força, acredito que a nova geração saberá lidar com o
mundo em rede e promoverá os avanços necessários para uma vida social mais
justa. A noção de “novo mundo” se anuncia por meio de concepções libertárias da
padronagem que ainda insiste em grassar nos segmentos que não aprenderam com a
realidade horrível que nos cerca. Que fiquem avisados, diga-se, que alguns
direitos humanos são irreversíveis. As mulheres, os racialmente segregados, os
gêneros sexualmente reconhecidos, são arautos de um novo tempo, melhor, porque
mais tolerante e flexível. Democrático. Em conjunto, grupos silenciados emergem
e, tomara, que eles saibam lidar com o atraso e resistência da grande parte da
“ velha” classe média brasileira. E que as redes sociais se constituam em reais
teias de solidariedade e respeito.
Vivemos uma era de
mudanças. Tudo parece ruir. Caem os tais “valores” antes fixos, estáveis e
acomodados em cinismos e hipocrisias. Paradoxo das mudanças, é bom que assim
seja. É bom que tenhamos ciência de que por mais insistentes que sejam os
teores odientos, na medida da inexorável conexão do mundo, aprenderemos a lição
fatal: os jovens estão em rede. Bem-vindos os não jovens que fiam nessa trama.
Sinceramente, do fundo do meu coração: não tenho certeza
se gosto ou não do andamento das novas tecnologias e do impacto na vida social
moderna. Como professor, pesquisador, ou mesmo curioso, não há como desprezar
os avanços permitidos pela eletrônica. Nossa!... O que o Google facilita a
vida! E os GPSs e o Faceook? Os chamados telefônicos gratuitos e os efeitos do
WhatsApp, então, nem se fala. Isso sem falar da internet e dos desdobramentos
permitidos por ferramentas insondáveis que facilitam a vida, cortam caminhos.
Tudo é fantástico e parece perfeitamente integrado aos hábitos modernos. Entre
os jovens, um novo grupo surge e está circulando por todos os cantos se
reconhecendo como “geração digital” e nem imaginam como era o mundo antes. Dia
desses, visitava uma amiga que tem uma filhinha de dois anos de idade e que,
frente a um supercelular, já deslizava o dedinho pela tela como se buscasse
contatos. Fiquei inquieto e assustado com o ato mecânico da fedelha. A
realidade é que não há como deixar de lado essa parafernália toda, mas...
Mas, na altura de meus dias, não tenho como deixar de
lado algumas inquietações que andam me enlouquecendo. Confesso que há momentos
em que penso que estou fora do mundo, que sou ser de outro planeta ou pelo
menos de outras eras. Explico-me: não troco os contatos humanos por facilidades
maquinadas. Não mesmo. Gosto de gente, do tom de vozes audíveis, de troca de
olhares expressivos, de gestos, ruídos familiares. Sinto falta de toques, de
insinuações verbais, da oralidade expressa na navegação da fala livre.
Mesmo aposentado, o prazer de dar aulas me é vital.
Gostaria de morrer ensinando, ainda que saiba ser isso aterrador para os
eventuais alunos, para a direção da escola e mesmo para familiares. Mas nada
compensa o olhar atento dos estudantes, sentir efeitos de interações
construídas em torno do conhecimento. Perceber os resultados de aulas
preparadas é algo de dimensão inestimável, é como entrar no céu rodeado de
anjos. Acontece que atualmente, tem doído muito entrar em sala com todo o
script arrumadinho e... e deparar com alunos que trocam a dedicação do preparo pela
telinha, fria e quase sempre convidativa de distâncias. Por lógico, sou
daqueles professores que exercitam broncas. Não deixo de protestar e até
negociei alguma abertura, permitindo que os alunos/digitadores saiam da aula,
para resolver contatos fora da classe.
O pior, porém, é quando isso afeta o andamento familiar.
Não suporto ver pessoas à mesa deixando o prazer do convívio, e mesmo da comida,
em favor do desligamento exigido pela maquininha eletrizante. Nem menciono o
que sinto ao ver crianças à mesa com tablets,
vendo desenhos animados. Devo dizer que sou incontrolável quando me submeto a tais
situações. Peço atenção, fecho a cara, chamo à realidade da experiência direta,
enfim, aconteço até que se reestabeleça a base da pura e simples troca humana.
É verdade que às vezes, de retorno, não consigo muito mais do que caras feias,
mas elas são intensamente mais queridas do que as fugas virtuais.
Preocupa-me o futuro. Devo
dizer que estou alerta para ver o que há de acontecer. Vejo-me ameaçado como
professor pelos ameaçadores cursos ditos “à distância”, os tais EaD. Tomara que
ainda em vida eu nunca perca a alegria presencial da relação aluno-professor-sala
de aula. Tomara. Enquanto aguardo o futuro mediado pelas máquinas espero que
saiam novos manuais de boas maneiras, algo que fale de ética do convívio nos
dias atuais. Sim, acho que há de haver alguém mais que trate da mediação
eletrônica como caso de educação ou mesmo de saúde pública, pois, afinal, quem
será o doente? Os internautas ou eu?...
O Domingo Espetacular visitou o menino que nasceu sem a maior parte do braço direito e emocionou a internet ao ganhar uma prótese. O vídeo já foi visto mais de cinco milhões de vezes. Nele, o menino Vanclever, de 13 anos, ganha um braço de super-herói. Conheça essa história de superação e aventura.
‘Como virei consultor de tecnologia na Europa com o que aprendi na escola pública’
Mona Lisa Dourado
Imagine uma escola pública com um dia assim: aula de biologia, depois design e português. Pausa para o lanche. Multimídia, geografia e fotografia. Almoço no colégio e mais atividades: química, programação de games e história. Quando o sinal toca, às 17h, ainda há monitoria de mídia, oficina de artes e robótica para quem tiver disposição.
Foi em um ambiente como esse que o pernambucano Arthur Pessoa cursou o ensino médio, garantindo uma boa nota no vestibular de Sistemas da Informação e logo o carimbo no passaporte para o mercado internacional: hoje, aos 21 anos, é consultor de tecnologia da informação em Praga, na República Tcheca.
"Atribuo grande parte do meu êxito à escola. Aprendi, por exemplo, a programar jogos em terceira dimensão, algo que às vezes não é ensinado nem na graduação e foi essencial para minha carreira fora do país", afirma.
Pessoa é um dos 1.119 alunos formados na Escola Técnica Estadual Cícero Dias/Nave, ou apenas Nave (Núcleo Avançado em Educação) Recife. Com metodologia inovadora, a instituição acabou se tornando referência em ensino médio profissionalizante no país.Quem entra na escola pode escolher cursar, além do currículo tradicional, programação de jogos ou multimídia. Ao final de três anos, o aluno costuma sair com bagagem para encarar desafios do século 21 em áreas como design e inteligência artificial.
Filho de um professor e uma enfermeira, Pessoa tentou a vaga por sugestão dos pais. Levava jeito para computação e lógica e viu uma oportunidade de aprofundar o conhecimento.
"No curso desenvolvi softwares para dispositivos móveis. Por esse conhecimento prévio consegui estágio no primeiro período da faculdade e tive facilidade na busca por oportunidades internacionais", conta.
Também foi útil, afirma, aprender a ter uma rotina de trabalho desde o colégio. "Como a escola era integral, passávamos cerca de nove horas lá todos os dias úteis. Aprendi ainda ensinamentos profissionais como data de entrega de tarefa e documentação de projetos."
O recifense hoje divide um apartamento com dois amigos franceses, trabalha oito horas por dia e ganha o equivalente a R$ 5,3 mil mensais. Nas horas livres, faz bicos em publicidade. Para o futuro, planeja voltar ao Brasil e contribuir de alguma forma para a educação no país.
Autonomia
Mães, pais, empresários ou repórteres - seja quem for o visitante, na Escola Cícero Dias os alunos são os anfitriões.
"Ouvi nos primeiros dias aqui que aprenderia a ser protagonista da minha própria vida. Foi o que mais me marcou. Da forma criativa como o conteúdo é mostrado, a cabeça da gente se abre para um monte de possibilidades", diz Pedro Gomes, de 15 anos, aluno do 1º ano.
Com orgulho e desenvoltura, ele apresenta a estrutura da escola: salas temáticas, laboratórios de mídia-educação e estúdio de produção audiovisual, entre outros espaços.
A proposta é desde cedo incentivar os estudantes, de 14 a 17 anos, a desenvolver raciocínio lógico e senso crítico, criando soluções para problemas atuais com o uso de ferramentas tecnológicas.
A ex-aluna Jacqueline Alves, de 18 anos, hoje estudante de Engenharia da Computação na UFPE, aplicou esse conhecimento ao participar, no ano passado, de um desafio de inovação para meninas em São Francisco, nos EUA.
"Eu e outras quatro amigas recebemos a tarefa de resolver um problema na nossa comunidade. Lembramos da falta de água e criamos um jogo que ensina crianças a economizar", conta. No aplicativo, o usuário leva a personagem Vitória a desligar torneiras e apagar luzes de apartamentos.
Para Acássia de Santos, de 17 anos aluna do 3º ano, a oportunidade de aprofundar o conteúdo das disciplinas regulares com o desenvolvimento de produtos digitais é o que mais motiva os alunos.
Ela cita como exemplo a animação sobre adoção de animais que criou. "Estudamos características físicas, hábitos e a relação dos bichos com o homem para discutir a questão do abandono. Quando aplicamos na prática, os conceitos deixam de ser abstratos", diz a jovem, que pretende cursar engenharia e sonha em abrir uma empresa.
Na hora de avaliar o desempenho dos alunos, prova de múltipla escolha é peça de museu na Cícero Dias - o foco é voltado a projetos e questões discursivas.
"Em vez de lidar com disciplinas como biologia, matemática, física e português de forma isolada, visando somente o vestibular, os estudantes enxergam na prática o reflexo dos conteúdos no cotidiano", resume o professor de programação e design Maurício Taumaturgo, de 23 anos.
As soluções desenvolvidas pelos alunos, muitas com potencial para se transformarem em start-ups, também passam pelo crivo de empresários da indústria criativa em um evento anual.
Funcionamento
A escola é fruto de uma parceria público-privada firmada em 2006. Integra um programa do Oi Futuro, braço social da operadora de telefonia, com a Secretaria de Educação de Pernambuco. Nasceu como projeto de responsabilidade social e qualificação profissional e ganhou status de escola técnica integrada em 2010.
A empresa banca professores, funcionários e laboratórios dos cursos técnicos. O governo responde por docentes de disciplinas regulares, alimentação, laboratórios de ciências e uniformes. O material escolar vem do Ministério da Educação.
"O Nave se baseia em três pilares: escola, centro de pesquisa para estudo e qualificação dos professores e disseminação, compromisso com a replicação das metodologias", descreve o coordenador do Centro de Pesquisa do Oi Futuro, Júlio Magno Horta.
A coordenadora do Nave, Mariana Christovam, diz que o pedido de recuperação judicial que a Oi fez em junho deste ano não ameaça a continuidade do projeto. Por dificuldades financeiras, a operadora chegou a fechar uma escola livre de arte e tecnologia que mantinha na cidade para jovens de baixa renda.
Perspectiva
Aluna do 2º ano, Talyta Pacheco, de 17 anos, participou da criação de um aplicativo para direcionar sobras de alimentos de restaurantes para instituições de caridade. A partir desse tipo de experiência, conta, definiu o seu futuro profissional.
"Nunca tinha mexido com programação antes e não sabia o que queria. Agora decidi fazer vestibular para Sistemas da Informação, que lida com gerenciamento de projetos", afirma.
Estimular os alunos a trabalhar em grupo ainda contribui para o desenvolvimento das habilidades de relacionamento interpessoal, explica o coordenador de multimídia dos cursos técnicos, Luiz Araújo.
"Queremos que entendam todo o ciclo, do nascimento de uma ideia até sua publicação como produto. Buscamos simular as situações que irão encontrar na vida pessoal e profissional, em qualquer área", diz.
Falar em público com segurança também entra no pacote, como revela Isabela Vasconcelos, de 16 anos, aluna do 2º ano. "Saber se apresentar bem dá credibilidade ao que você está dizendo", destaca.
A rotina na escola pode parecer cansativa - grade obrigatória de 7h30 às 17h e atividades extraclasse na hora do almoço e no pós-aula -, mas a rotina com disciplinas regulares e técnicas intercaladas faz o tempo correr, diz a ex-aluna Jacqueline Alves.
"A relação dos alunos com os professores é muito bacana. Como passamos o dia inteiro na escola, acabamos tendo muito contato com os professores. Se temos qualquer dúvida, podemos ir atrás deles a qualquer momento na sala dos professores", lembra.
Hoje estagiária da escola, Juliane Travassos, de 20 anos, deixou aos 16 anos a casa da avó, na Ilha de Itamaracá, a 45 km do Recife, e foi morar na capital com a irmã mais velha para poder estudar na Cícero Dias. "Valeu cada sacrifício", relata.
"Cheguei ao curso superior (de Cinema) sabendo fazer roteiro, storyboard e distribuir tarefas, coisas que meus colegas nem conheciam. Era a mais disputada para trabalhos em equipe."
O coordenador de mídia-educação Roan Saraiva, de 24 anos, é outro ex-aluno que hoje trabalha na escola. "Desde que cheguei aqui, em 2007, me envolvi em tudo. Fui monitor e participava das oficinas extras", diz. Para ele, o engajamento dos alunos é a chave do sucesso do colégio.
Reconhecimento
Aplicativos, animações e games idealizados pelos alunos da Cícero Dias/Nave Recife têm competido e vencido em concursos nacionais e internacionais, como Anima Mundi, Pequeno Cineasta, SB Games, Global Game Jam e Technovation.
Desde 2012, a escola é primeiro lugar no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) entre os cursos técnicos estaduais. Em média, 80% dos alunos são aprovados em cursos superiores, e 20% deles continuam na área de tecnologia. Em 2013, o colégio recebeu o título de escola inovadora da Microsoft, entre 80 escolhidas pelo mundo.
Apesar do sucesso da iniciativa, o instituto Oi Futuro diz não ter perspectivas de abrir novas escolas. Afirma, contudo, que trabalha para replicar metodologias criadas por professores do Nave Recife, como a do "educador-orientador", de acompanhamento personalizado do aluno.
O governo de Pernambuco afirma que quer ampliar parcerias com o setor privado na educação no Estado, e cita um caso no interior em que uma indústria de baterias automotivas financiou laboratórios e projetos de pesquisa em uma escola técnica da cidade.
Ainda neste ano, a gestão prevê lançar um projeto para incentivar estudantes da rede estadual a desenvolver atividades de programação. O objetivo, diz o secretário da Educação, Fred Amâncio, é estimular o aprendizado de matemática e física e despertar o interesse em carreiras de tecnologia. Tudo inspirado nas práticas da Cícero Dias.