segunda-feira, 30 de junho de 2014

CAIXA DE MÚSICA 132


Roberto Rillo Bíscaro

Pelo que lembro, comentei sobre 2 documentários de rock nacional: um sobre o punk paulista e outro sobre o rock brasilense dos anos 80. Ambos com recorte bem definido e que, mesmo assim, tiveram que deixar coisa de fora. Imagine um que se proponha a contar a história do rock deste país maior do que a Europa!
Idealizado por Marcelo Rossi e financiado com recursos do governo paulista mais patrocinadores, 50 Anos de Rock Brasileiro entrevista mais de 50 músicos e críticos pra traçar um painel do que tem rolado por aqui desde os anos 50. A amplitude da proposta e a escassez da verba pra dar conta de tamanha empreitada frustram um pouco, mas quem curte rock deveria assistir ao resultado, disponível no You Tube.   
A primeira parte destaca o nascimento do rock brasuca em fins de 1950 e a década de 1960, quando a Jovem Guarda explodiu. O primeiro rock nacional foi Rock Around de Clock, gravada por Nora Ney. Embora artistas como Cauby Peixoto e Lana Bittencourt tivessem gravado canções no emergente estilo, eles eram artistas de samba-canção e boleros que se aventuravam em lados B meio roqueiros, tenteando o possível novo mercado jovem.
O estouro mesmo veio em 58 com os irmãos Tony e Cely Campello, mais com a segunda, que, no país que tanto ansiava em se modernizar 50 anos em 5, estourou com seu Estúpido Cupido e Banho de Lua, agradando desde o netinho à vovó.
Nos 60’s, bandas como Os Incríveis venderam respeitáveis 200 mil cópias e, pasmem, um milhão de compactos em japonês! O legal do programa é conhecer essas histórias da boca de quem as viveu.
Fica de lado o grande embate entre Jovem Guarda, acusada de alienada e colonizada, e os defensores da Bossa Nova/MPB, que resultou até em passeata contra a guitarra elétrica. No lugar, aparece Ronnie Von corretamente desmentindo ter pertencido à Jovem Guarda. Ronnie e os Mutantes eram de turma mais influenciada por Beatles e psicodelismo inglês, vide a tríade de álbuns psicodélicos do Príncipe (não da Jovem Guarda), infelizmente pouco divulgados (pra não dizer esquecidos).
Por mais legal que sejam as entrevistas, fica aquela danada vontade de que mais atenção e pesquisa mais detalhada e ampla seja feita pra conhecermos bem mais sobre esse período que periga ficar soterrado no tempo se não resgatarmos logo os relatos dos partícipes.


O segundo grupo de entrevistas abrange os anos 70, os Anos de Chumbo, em referência à repressão da ditadura militar, que também perseguiu roqueiros não apenas por letras, mas pela simples intolerância ao visual cabeludo, como relata uma dos membros do Made in Brasil.
Um monte de artistas é citado, não apenas medalhões como Raul Seixas ou Secos & Molhados. Ponto pro documentário. O cenário de rock progressivo tem destaque e é interessante/instrutivo perceber como a quase totalidade dos roqueiros operava no underground, posto não receberem atenção da grande mídia, exceção dos Secos & Molhados ou de pessoas que popearam a sonoridade, tipo Guilherme Arantes, que abandonou o Moto Perpétuo pra emplacar sucesso atrás de sucesso em trilha de novela global (nada contra). A invisibilidade desses artistas roqueiros só piorou com o sucesso da novela Dancin’ Days e o estouro da disco music fabricada (em todos os sentidos) no país.
Tirando a prolongada história de como o guitarrista do Tutti Frutti descolou a guitarra que o acompanha até hoje, é muito legal ver essa abordagem setentista e alguns de seus protagonistas.


Assistindo à terceira parte de 50 Anos do Rock Brasileiro, sobre os frutíferos anos 80, ocorreu-me que o diretor poderia usar dos auspícios do fomento cultural paulista pra verticalizar sua pesquisa e criar uma série dedicada ao rock produzido em nosso estado. Isso daria mais profundidade e evitaria ausências de bandas como o Fellini, Mercenárias, Maria Angélica Não Mais Mais Aqui e o sorocabano Vzyadoq Moe, pra citar apenas algumas.
Os entrevistados corretamente atestam que nos 80’s o rock virou moda, porque veio encarnado em pop, tipo Blitz, Kid Abelha e tantos outros. Como moda, as gravadoras investiram em muita bobagem, mesmo que hoje nós oitentistas morramos de saudade e alguns se autoenganem dizendo que antigamente se fazia música melhor ou as coisas eram mais inocentes.
Mesmo tentando cobrir cenas como a brasiliense, gaúcha e a baiana – Marcelo Nova participa – fica faltando relevo à importante carioca e mesmo à mineira com grupos como Último Número.  
Muito legal desse documentário é não deixar de fora o metal, hard rock e vertentes que não tiveram sucesso comercial nos anos 1980, daí, conheci bandas, anotei nomes e vou procurar.

Apesar do problema da falação estendida que às vezes cansa, a derradeira parte, que trata dos anos 90 e 2000, foi-me deveras instrutiva. Depois da geração 80, conheci pouca coisa de ouvir, mais mesmo de nome (e olha lá!). Segundo os depoentes, o sucesso do Sepultura no exterior fez as bandas nacionais quererem gravar em inglês pra repetirem o êxito. Isso mudou um pouco no meio dos 90’s com o sucesso dos Raimundos, originário de vasta cena cantada em português. Muita gente falando dos defeitos e fragilidades das bandas tipo NX Zero e Fresno, mas ninguém tentando convencer de sua qualidade; será mesmo que não possuem?

domingo, 29 de junho de 2014

AS IRMÃS SUPERAÇÃO



Em livro, a história de superação das irmãs que andam sobre rodas

Foto por Leonardo Zanin
(Foto: Leonardo Zanin)

Superação. Essa foi a palavra que Safira Monteiro Stefanes usou para definir a história tratada no livro “Viver Sobre Rodas”, de sua autoria, contando sobre a vida das duas enteadas, Sandra Aparecida de Bem Stefanes e Andreia de Bem Stefanes. Pronta há mais de três anos, a obra foi lançada nesta quinta-feira, na Biblioteca Municipal de Criciúma Donatila Borba.
Conforme o pai das personagens, Walter Rogério Stefanes, as irmãs sofrem de uma doença congênita chamada atrofia espinhal progressiva. “É assim, a pessoa nasce andando bem e de repente só consegue ficar sentada ou deitada, e isso vai piorando com o passar do tempo”, explica.
Dificuldades enfrentadas e superadas
A convivência e o testemunho das dificuldades enfrentadas e superadas pelas irmãs motivou Safira a contar um pouco a trajetória de vida, desde a infância até os dias atuais. “Acho que a história de vida delas pode servir como exemplo se superação para aquelas pessoas que não tem tantos problemas e os deixam ainda maior”, comenta a autora.
O livro está pronto desde 2010, no entanto, somente este ano a família conseguiu recursos para o lançamento. Sandra, uma das personagens, hoje com 43 anos, é psicóloga, apoiou o livro desde quando Safira lançou a ideia. “A história inclusive começa com a minha formatura da faculdade”, diz orgulhosa. Andreia, 41 anos, é vendedora de cosméticos e afirma que no começo achou estranho. “O fato de me expor assustou um pouco, mas depois concordei com a ideia”.
O pai delas acredita que o livro será uma mensagem de vida para a sociedade. “Acho que pela história é um exemplo para muitas pessoas e pode ajudar os outros a levar uma vida melhor, com mais esperança e dignidade”, enfatiza.
Estudantes da Escola Básica Jarbas Passarinho, do 7º e 9º ano, foram os primeiros a prestigiar o lançamento. 
Como obter a obra:
Quem quiser adquirir o livro dele ligar para o (48) 3462-2796. O valor é R$ 20.

sábado, 28 de junho de 2014

quinta-feira, 26 de junho de 2014

TELONA QUENTE 91

Roberto Rillo Bíscaro

Quando cinema era mais popular do que TV, o público seguia os serials como hoje viciamos em séries. Se você não está familiarizado com os serials, leia a postagem sobre Zombies From the Stratosphere, aqui.
Vi os 12 capítulos de Radar Men from the Moon (1952), da produtora Republic, que sucedeu Zombies e apresentou o mesmo protagonista, Comando Cody e seu traje-foguete e máscara que devia ser desconfortável demais pra usar. O seriado virou cult a ponto de banda de space rock holandesa se apropriar do nome.


A atmosfera lunar definhou e a população não pode mais cultivar ou ficar ao ar livre, por isso, o comandante selenita decide invadir a Terra. Pra enfraquecer nossas defesas, envia pra cá incrível força-tarefa de homem só, que contrata 2 criminosos pra ajudá-lo. A Terra restringe-se a uma região perto de deserto nos EUA. Deserto era bom pra filmar porque não se necessitava pagar locação.
O baixo orçamento determina quase tudo. A lua é o mesmo deserto. Nosso satélite tem gravidade similar a nossa e o imperador deve fazer quase tudo sozinho, porque só vemos ele e um par de outros. Quando Cody e seus camaradas visitam a lua são perseguidos por apenas um veículo e olha que a lua tem poderio e tecnologia superiores às da Terra!
Essas e outras coisas emprestam tanto charme a produções como Radar Men from the Moon, que não passam de histórias de aventura e perseguição disfarçadas de ficção científica. Em todo capítulo há brigas onde ninguém se machuca em dar/levar soco e o chapéu não cai de jeito nenhum! Segundo consta, tudo sem dublê, porque não havia verba. Daí também dizerem que o pobre Comando Cody quebrou o nariz durante as filmagens.  
E dá-lhe perseguição de automóvel, acrobacias com e em aviões, muita imagem reciclada de outros serials e de dentro do próprio e a deliciosa explicação da única personagem feminina sobre o porquê deve participar do voo à lua: “vocês vão gostar de ter alguém pra cozinhar pra vocês, não vão?”
A versão que vi foi baixada via torrente, mas no You Tube parece que existem os 12 capítulos com legendas em português. Não dá pra perder, gente!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

PAPA ALBINO

Papa participa de audiolivro contra perseguição a albinos na África

Papa narra trechos de longo poema escrito por milhares de pessoas.
Considerados amaldiçoados na África, albinos são mutiladas e mortos.


Papa Francisco anunciou nesta quarta-feira (25) que doou a sua voz a um audiolivro participativo que denuncia o massacre e perseguição dos albinos na África.
O autor de "Ombra bianca" (Sombra branca), Cristiano Gentili, agradeceu o Papa na audiência geral semanal no Vaticano, durante a qual lançou uma campanha mundial para sensibilizar o público sobre a situação dos albinos, os negros nascidos brancos, no continente africano.
A campanha internacional foi lançada nas redes sociais com a hastag #HelpAfricanAlbinos e está acessível em www.ombrabianca.com. Uma petição em seis línguas também foi lançada para expressar solidariedade e solicitar uma ajuda concreta aos albinos africanos, que será gerenciada pela organização Médicos com África (CUAMM).
Na obra, o Papa narra trechos de um longo poema escrito por milhares de pessoas sobre o preconceito para com essas pessoas, consideradas amaldiçoadas e que, por isso, são muitas vezes mutiladas e mortas.
Em muitos países da África, as pessoas afetadas pelo albinismo são discriminadas pela cor de sua pele. Vivem em meio à pobreza e são alvos comuns de ataques, inclusive de mutilações de seus membros e órgãos genitais para uso em rituais primitivos.
Dos quatro mil e-mails enviados por Gentili no ano passado a líderes mundiais, apenas uma pessoa respondeu: o Papa Francisco.
"Eles são os alvos da África. São rejeitados pela sociedade. Doe sua voz. O Papa foi o primeiro. É grátis, simples e rápido. É uma causa justa", disse Gentili nesta quarta-feira.
As frases que compõem o livro podem ser lidas, cantadas, lidas por uma criança e são livremente escolhidas pelo leitor.

EXEMPLO INGLÊS

The Cure entra em campanha para aumentar acessibilidade em shows

A organização Attitude Is Everything foi fundada no ano 2000 como um projeto piloto para aumentar o acesso à música ao vivo para pessoas surdas e portadoras de deficiência através de parcerias com músicos, estabelecimentos e a indústria em geral.

Quase quinze anos depois, já com reconhecimento do Conselho de Artes da Inglaterra, a organização lança a campanha #MusicWithoutBarriers, que conta com a participação de nomes como Robert Smith (The Cure) e Alex Kapranos (Franz Ferdinand) para incentivar mais estabelecimentos a aderirem à Carta de Boas Práticas do projeto.

A mensagem principal da campanha é divida em quatro pontos: melhorar a acessibilidade não precisa ser caro, há vantagens para os negócios em aumentar o acesso, divulgar com antecedência as informações a respeito de acessibilidade é crucial, e nem todas as pessoas portadoras de deficiência são cadeirantes.

Além de Franz Ferdinand e The Cure, Frank Turner e bandas como Alt-J, Slow Club, Summer Camp e Mystery Jets aderiram à campanha, que divulgarão através de suas redes sociais utilizando a hashtag que a batiza. O Musicians Union e a Featured Artists Coalition, organizações que representam os músicos da Inglaterra, também estão participando.

O porta-voz da campanha é Blaine Harrison, líder do Mystery Jets, que é portador de uma malformação congênita da coluna vertebral:

“Não importa se é assistir a banda de um amigo numa casa local ou assistir o Radiohead na plataforma para deficientes do Glastonbury, shows deviam ser acessíveis a todos. Eu gostaria de ver mais estabelecimentos analisando cuidadosamente o que podem fazer para acomodar um público mais diversificado”.

Até o momento mais de 90 estabelecimentos e festivais assumiram um compromisso com a Carta de Boas Práticas.

http://www.territoriodamusica.com/noticias/?c=36245

terça-feira, 24 de junho de 2014

OLHO MÁGICO

Desenvolvimento de ‘olhos biônicos’ abre novos horizontes para cegos


Os “olhos biônicos”, sistemas eletrônicos implantados diretamente na retina, deixaram de ser ficção científica e já estão ajudando os cegos de todo o mundo a recuperar parcialmente a visão. Graças a este sistema, as pessoas cegas percebem novamente “formas e contrastes luminosos, objetos de médio porte” e podem, inclusive, ler “cartas e palavras em tamanho grande”, explicou o médico francês José-Alain Sahel.
“Não se trata de uma visão natural, mas de uma percepção visual útil”, segundo este especialista que chefia o Instituto da Visão em Paris, um centro de pesquisas do hospital oftalmológico Quinze-Vingts. Atualmente, uma centena de pessoas no mundo usa ‘retinas artificiais’, criadas por três empresas diferentes de Estados Unidos, Alemanha e França.
“Minha vida mudou”, explica um paciente francês operado por Sahel e que teve implantado um sistema Argus II, da empresa americana Second Sight. “Quando uso este sistema nos olhos, ele vira indispensável. Eu o uso o dia todo e as baterias acabam”, conta o paciente em um vídeo do fabricante.
O sistema é formado por óculos de sol, equipados com uma microcâmera, um aparelho eletrônico que trata os dados visuais captados pela câmera e um sistema que os transmite para o implante ocular. Mediante impulsos elétricos, o implante estimula artificialmente retinas afetadas por retinose pigmentar, uma doença genética e degenerativa.
Na Europa e nos Estados Unidos, 86 pessoas usam o sistema Argus II, vendido por 115.000 euros, segundo Grégoire Cosendai, vice-presidente europeu da Second Sight.
Novos caminhos de pesquisa
Embora este sistema tenha aberto o caminho, o especialista francês José-Alain Sahel está trabalhando em outro sistema similar chamado Iris, em colaboração com a start-up Pixium Vision. Até agora, cinco pacientes receberam este olho eletrônico fabricado na França “com resultados animadores”, segundo o especialista.
Outra fabricante, a alemã Retina Implant, está começando a comercializar na Europa seu próprio sistema de implantes que funciona sem câmera externa. Neste caso, o implante, situado abaixo da retina, capta diretamente a imagem e estimula o olho. Os 40 cegos que utilizam o sistema, vendido por 100.000 euros, veem “diferentes matizes de cinza”, explica o presidente da empresa, Walter G. Wrobel.
A vantagem é que “o chip-câmera eletrônica se move com o olho, não há câmara externa, e a sensação visual é estável e corresponde à visão real”, segundo Wrobel. As três companhias confiam agora na expansão deste mercado. “Na Europa e nos Estados Unidos há entre 350.000 e 400.000 pessoas que sofrem de retinose pigmentar”, segundo o presidente da Pixium.
Além disso, os implantes também poderiam ajudar as pessoas que sofrem de degeneração macular associada à idade (DMAE). Em paralelo, a pesquisa médica está explorando duas novas vias, a terapia genética – com a modificação direta dos genes que causam a doença – e a terapia celular, que consiste em injetar células-tronco na retina para substituir células defeituosas.
São duas alternativas que podem ser “complementares” aos implantes eletrônicos, segundo Gérard Dupeyron, chefe do serviço de oftalmologia do hospital francês de Nimes. Na Universidade Johns Hopkins de Baltimore (Estados Unidos), a pesquisadora argentina Valeria Canto-Soler tinha se especializado na pesquisa de células-tronco aplicada às doenças da retina. “A pesquisa avança a um ritmo incrivelmente rápido. O que há alguns anos achávamos que era impossível agora é realidade”, explicou.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

CAIXA DE MÚSICA 131



Poucos artistas são capazes de definir uma época em suas múltiplas facetas. Blondie consegue. Se eu fosse artista teria inveja letal. Os anos 70 são Blondie, que sintetizou punk, disco, pop e o crescente rap e ainda desenhou a Caminho Suave visual-comportamental copiado/adaptado/adotado por tantas. Leia mais sobre o grupo aqui
Tamanha importância resulta em fardo pesado e expectativa alta quando se lança um álbum, especialmente agora, quando Debbie Harry tá quase 70tona. Blondie teria alguma relevância à altura de seu quadragésimo aniversário? Não estaria coroca pro universo tão jovem do pop?
No começo de maio, os norte-americanos lançaram CD duplo, que tenta responder às perguntas anteriores. Blondie 4(0)Ever é dividido em 2 seções: Greatest Hits Deluxe Redux e Ghosts of Download.
O primeiro disco traz regravações dalguns sucessos do grupo. A ideia deve ter sido aproveitar as condições superiores de produção de hoje pra aprimorar as faixas, porque os arranjos estão iguais e os vocais são imitados dos originais. Debbie Harry jamais foi Adele; seu poder e carisma não estão em ter voz magnífica. A regravação também deve ter pretendido “melhorar” os vocais. Mas, refazer vocais imperfeitos por uma cantora perto dos 70 anos, que perdeu alguma capacidade pra agudos, como se nota em Heart of Glass? Certamente mais limada, a produção perde, porém, o charme de rudeza punk dos originais. E pra que reler Maria, de 99, deixando-a virtualmente idêntica? Greatest Hits Deluxe Redux funciona como curiosidade pra ouvir vez só e continuar escutando os originais.
Ghosts of Download é mais interessante: traz 15 canções novas e uma cover. Blondie deixou o rock de lado e orientou seu trabalho prum prisma mais pop dançável. O grupo teria cacife pra recrutar colaboradores de primeira linha, mas trabalhou com artistas latinos bem menos populares no hemisfério norte. O resultado é gostosa infusão de latinidad eletrônica como na brejeirice de I Screwed Up ou na discreta cumbia villera de Sugar on the Side. Euphoria abre com repique a la Olodum, antes de dar uma cumbiada. Take it Back é deliciosa cavalgada dance e Rave palpita de pulsação pulante. A Rose by Any Name me lembrou Good Boys, do álbum The Curse of Blondie (2003), mas um tiquinho desacelerada.
A regravação do clássico oitentista Relax, do Frankie Goes to Hollywood sintetiza Blondie 4(0)Ever. A primeira parte da canção a despe dos teclados dos britânicos pra fazer a melodia aparecer só no piano, mas aos poucos Debbie e seus companheiros aproximam a cover do vibrante original, claro que sem alcançar o esplendor orgásmico dos jorros eletrônicos de Holly Johnson e asseclas.
Mesmo que não alcancem as alturas do seu auge criativo e de popularidade, Blondie alegra ao demonstrar que esse pessoal já na terceira idade ainda busca novidade. 

domingo, 22 de junho de 2014

ESCRITA DA SUPERAÇÃO

Jovem supera deficiência e escreve livro para contar sua história

Messias Fernandes tinha apenas 14 anos quando, após bater a cabeça no fundo de um rio, perdeu o movimento dos braços e das pernas. Da experiência nasceu o livro “Renascendo de um mergulho. Uma história de luta e fé”.


A obra, editada pela Nitpress, traz a trajetória do autor pernambucano desde o acidente, ocorrido quando passava férias no Rio de Janeiro, até sua recuperação e suas conquistas profissionais. A apresentação é do médico ortopedista Deusdeth Gomes do Nascimento, especializado em cirurgia de coluna vertebral e atual presidente da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR).
Nascimento foi o médico que acreditou na recuperação de Messias e decidiu operá-lo, contrariando os prognósticos. E foi na instituição que o autor iniciou sua reabilitação, voltando um ano e meio depois para Pernambuco.
Em uma narrativa emocionante, Messias Fernandes detalha os sentimentos e acontecimentos que envolveram o acidente, e relata como conseguiu dar a volta por cima.

Livro: Renascendo de Um Mergulho – Uma história de luta e fé
Editora: Nitpress
À venda: http://www.renascendomergulho.com.br/ 
Preço: R$ 29,90

Sobre o autor: Messias Fernandes de Oliveira nasceu em 10 de fevereiro de 1981, na cidade de Limoeiro, interior de Pernambuco, e viveu grande parte de sua vida em Bom Jardim. É o caçula de uma família de 12 irmãos, sendo oito deles por parte de pai. Tem no cavalo a sua grande paixão. Após o acidente, ficou internado na ABBR por um ano e meio, retornando depois para o nordeste. Voltou ao Rio anos mais tarde, formando-se em Psicologia em dezembro de 2009. Trabalha hoje atendendo pacientes na instituição que o reabilitou.

sábado, 21 de junho de 2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

NOSSO DIA ATRASADO

Por pura falta de tempo pra sentar e traduzir/escrever, não noticiei a criação e comemoração do Dia Internacional do Albinismo, instituído pra 13 de junho.
A data foi escolhida em reconhecimento à primeira resolução da ONU sobre albinismo (Resolução L25), adotada em Genebra no Conselho dos direitos Humanos, em 13 de junho de 2013.
A criação da data foi marcada por um almoço em Genebra, onde estiveram presentes autoridades e organizações preocupadas com a questão do albinismo. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

INTELIGÊNCIA OCULAR

Óculos inteligentes ajudam deficientes visuais a enxergar

BBC
Pesquisadores da Universidade de Oxford anunciaram ter conseguido grandes avanços no uso de óculos inteligentes para ajudar deficientes visuais a enxergar.
Os óculos melhoram as imagens de pessoas e objetos que estejam próximos das lentes, o que dá ao usuário uma ideia mais clara do que o cerca.
O aparelho permitiu, por exemplo, que os deficientes visuais vissem seus cães-guias pela primeira vez.
Os óculos ainda são grandes e conectados a um laptop dentro de uma mochila. Mas os pesquisadores acreditam que poderão diminuir o tamanho até conseguir óculos de tamanho normal.
Até o final de 2014, os pesquisadores vão produzir um lote inicial de cem aparelhos, que serão oferecidos a pessoas cegas ou parcialmente cegas. Se este período de testes for bem-sucedido, os cientistas vão produzir mais equipamentos nos próximos anos.
E, no futuro, eles esperam até diminuir o preço do aparelho para os britânicos, fazendo com que o kit todo custe o equivalente a um telefone celular.

Câmera 3D

Uma das pessoas que testou o dispositivo foi a britânica Lyn Oliver, que tem uma doença progressiva que faz com que ela tenha uma visão muito limitada.
Agora com 70 anos, ela foi diagnosticada com retinite pigmentosa aos 20 anos. Ela pode ver movimentos, mas descreve a própria visão como "manchada".
O cão-guia Jess ajuda Lyn a se movimentar, evitando a maior parte dos obstáculos e ameaças, mas eles geralmente não conseguem transmitir muitas informações sobre o ambiente onde estão.
Mas agora Lyn começou a usar os óculos inteligentes, um aparelho que tem uma câmera 3D especialmente adaptada para ajudar a melhorar a visão.
As imagens captadas pelos óculos são processadas em um computador e projetadas em tempo real nas lentes. Com isso, as pessoas e objetos próximos ganham mais brilho e definição.

Independência

Lyn Oliver tentou usar alguns dos protótipos mais antigos, mas o modelo mais recente marca um momento importante no projeto dos cientistas britânicos, pois oferece uma clareza e detalhe que nunca tinham sido vistos antes.
BBC
Usuários dos primeiros óculos produzidos relataram clareza e detalhe nunca vistos antes
Stephen Hicks, que liderou o projeto na Universidade de Oxford, afirmou que agora eles estão prontos para sair da fase de pesquisa e levar o dispositivo para ser usado pelos deficientes.
"Se você você andar por aí, vai poder navegar através de portas e ver os perigos no chão nos quais você pode tropeçar. Então você poderá ser mais independente e andar com mais tranquilidade", disse.
O cientista disse que houve uma boa resposta dos que já usaram o aparelho.
"As pessoas adoraram. Eles destacaram o quanto conseguem ver agora. Podem ver os detalhes nos rostos, podem ver as próprias mãos. E comentaram como conseguiram ver o cão-guia pela primeira vez", afirmou.

Teste

BBC
Ao usar os óculos em um mercado, Lyn Oliver disse que não precisou pensar para enxergar
A reportagem da BBC levou Lyn Oliver para testar os óculos em um mercado de Oxford, um espaço fechado e movimentado com muitos obstáculos em potencial.
"Posso ver você! Estou parada aqui, conversando e nem pensando. Estou olhando!", disse a britânica.
Segundo Lyn os óculos podem ajudar os deficientes visuais de várias maneiras.
"Desta forma posso encontrar meu caminho para uma porta, em volta das mesas e para fora. Encontrar as escadas e subir", afirmou.

TELONA QUENTE 90

 
Roberto Rillo Bíscaro

No final dos anos 70, surgiram rumores de que alguns gays morriam duma doença brutalmente fatal: a taxa obituária era de 100%. No início dos 80, São Francisco e Nova York sentiram o poder da misteriosa enfermidade. Aos poucos, a comunidade gay sucumbia. 3 décadas depois, sabemos que a demora da mídia e do governo em noticiar ou lutar contra o caos deve-se ao fato de as primeiras vítimas serem homossexuais, latinos e negros, os então chamados grupos de risco.
How To Survive a Plague (2012) poderosamente documenta a resposta dos gays norte-americanos à homofobia, que levava ao descaso, que culminava em mortes. Fartos de esperar por medicamentos pesquisados e liberados pelo governo, ativistas se instruíram sobre a AIDS e formaram grupos como o ACT UP, que utilizava métodos pouco ortodoxos pra chamar a atenção da mídia e das autoridades governamentais e científicas. Desobediência civil como invasão de catedrais e congressos científicos, organização de marchas e protestos com atitudes chocantes, como despejar no gramado da Casa Branca urnas e urnas de cinzas de mortos pelas complicações do HIV.  Essa sequência, aliás, é inesquecível. 
O diretor David France reuniu incrível quantidade de material de época, que somados a entrevistas com remanescentes dos anos Reagan e Bush Pai, fazem de How to Survive a Plague fonte de inspiração pra qualquer ativista contemporâneo.
O documentário evita apresentar os ativistas gays e aliados como perfeitos. Eles reconhecem perda de tempo em disputas internas e até falta de foco ou desperdício de energia em algumas lutas quixotescas ou apressadas.  
A ausência de narrador pode desnortear quem não tem qualquer familiaridade com o tema e as legendas pequenas desconcertam nós com baixa visão, mas How to Survive a Plague não perde seu caráter obrigatório por isso.

terça-feira, 17 de junho de 2014

TELINHA QUENTE 125

Roberto Rillo Bíscaro

No ocaso de 2011, anunciei que o canal SyFy lançaria Arachnoquake, onde aranhas gigantes albinas sairiam das entranhas da Terra pra aterrorizar.; 
Outro dia vi e era bem o que se pode esperar. Bastante efeito especial barato gerado por computador num daqueles filmes de animais agigantados, que remetem aos dos anos 50. Mas, acho aqueles bem mais charmosos, talvez pela fotografia em branco e preto, sei lá. 
Devido a um desacerto ecológico provocado pelo homem, as aranhas subterrâneas se agigantam, enlouquecem e saem pra dominar o mundo exterior. Além de serem mutadas pelo homem, depois são demonizadas e exterminadas por ele. 
As monstrengas jamais são denominadas albinas, mas têm todas as características. Mais branquelas pra lista de vilões ou seres do mal.
Sem a vantagem de apresentar celebridades em decadência, como Mega Shark Vs. Giant Octopus  ou  Jersey Shore Shark Attack, Arachnoquake é apenas mais um dentre zilhares de fimes mal feitos de ação. 
Ou será que tem sub-celeb no chão, mas não conheço?
Confira se estiver curioso. 

WHATSAPP ALBINO

Cada vez mais as pessoas com albinismo de todo o Brasil interagem pelas redes sociais e blogs. Depois de grupos numerosos no Orkut e Facebook, o aplicativo pra celular WhatsApp é o mais recente instrumento de socialização entre as pessoas com albinismo.
Administrado pelo baiano Diego Oliveira, o grupo Só Albinos foi criado em 13 de junho e já conta com 50 inscritos, dentre os quais 27 são atuantes na troca de informações e bate-papos descontraídos sobre assuntos diversos.
Para quem tem baixa visão, o WhatsApp pode ser vantajoso, porque permite a gravação de áudio, que pode ser enviado ao grupo via celular. É fácil, até eu aprendi!
Para participar, é necessário passar o número do celular pro Diego, que ele cadastra no grupo. Diego Oliveira pode ser encontrado no Facebook, na comunidade Albinos do meu Brasil e do Mundo.

Vamos participar, nos divertir e trocar informações!

segunda-feira, 16 de junho de 2014

IMPERFEIÇÃO

Bloqueador não oferece proteção total contra câncer de pele, diz estudo
Helen Briggs

Um estudo britânico recém-publicado faz um alerta para quem acha que, usando protetor solar, está totalmente protegido do câncer de pele.
Segundo pesquisadores da Universidade de Manchester, não se deve confiar apenas no bloqueador como forma de prevenção de melanomas – um tipo maligno de câncer de pele.
"Os resultados ressaltam a importância de combinar o uso do protetor solar com outras medidas para proteger a cútis, como o ato de usar chapéus e roupas folgadas, além de ficar na sombra nos horários de sol forte”, afirma o professor Richard Marais, principal responsável pelo estudo.
Publicada na revista Nature, a pesquisa feita em animais revelou detalhes sobre como os raios UV deixam as células epiteliais mais suscetíveis ao câncer.
É sabido que a exposição ao sol é um dos principais fatores de risco desse tipo de câncer de pele.
Mas ainda havia poucos detalhes sobre o mecanismo molecular pelo qual os raios UV prejudicam o DNA em células da pele.

Perigo

No estudo, os cientistas investigaram os efeitos dos raios UV na pele de camundongos para verificar a ação do protetor contra o câncer.
“Os raios UV atacam os mesmos genes que nos protegem contra seus efeitos nocivos, mostrando o quanto esse agente causador do câncer é perigoso ”, disse Marais.
“Acima de tudo, esse estudo traz provas de que os bloqueadores solares não nos oferecem uma proteção completa contra os efeitos prejudiciais dos raios UV.”
Os pesquisadores descobriram que os raios UV causaram problemas no gene p53, que normalmente ajuda a proteger o corpo contra os efeitos de um DNA com falhas.
O estudo também mostra que o protetor pode reduzir a quantidade de falhas no DNA causadas pelos raios UV, atrasando o desenvolvimento do melanoma nos camundongos.
Julie Sharp, chefe de informação do instituto britânico de pesquisa sobre o câncer, disse que as pessoas tendem a achar que são “invencíveis” a partir do momento que passam a usar bloqueador solar e por isso ficam mais tempo sob o sol, ampliando a exposição aos raios UV.
“É essencial adquirir hábitos seguros para se proteger do sol e não se deixar queimar – queimaduras de sol são, aliás, um claro sinal de que o DNA das suas células epiteliais foi danificado e, a longo prazo, isso pode levar ao câncer de pele”, disse.
O melanoma é o quinto câncer mais comum no Reino Unido, com mais de 13 mil pessoas diagnosticadas com a doença por ano.
No Brasil, o Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima que houve 6.230 novos casos deste tipo de tumor em 2012, sendo 170 homens e 3.060 mulheres (2012).
 http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/06/140611_cancer_pele_protetor_mdb.shtml?print=1

WEB CELEB ALBINA EM ANGOLA

Fábio vs Lombadas, o kilombo mais famoso de Angola

Luandense, 19 anos, dançarino, cantor e humorista. Fábio de Lima é o jovem que, embora inconscientemente, se tornou numa personalidade pública para mudar mentalidades.
Tudo começou com um vídeo caseiro, feito para um grupo do “Whatsapp”, em que Fábio, vestido com um roupão, exemplifica o que é “ter vida”. 
“Bons lençóis, net ligada, estou a acordar agora. Isso é que é vida pah”, foi a frase que o levou à fama. Qualquer outra pessoa que tivesse protagonizado o vídeo, provavelmente, não teria tido a projecção nas redes sociais que Fábio teve. Mas Fábio é albino, e as pessoas ainda não estão habituadas a ver a “normalidade” dentro da diferença.
Fábio acredita que ser albino não é a mesma coisa que ser “kilombo”, contudo ambas as palavras, uma em português e a segunda em kimbundo, significam pessoa que sofre de albinismo, que por sua vez é um distúrbio congénito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmentação na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina. 
Diferenças à parte, para “Lombadas, o kilombo mais famoso de Angola”, o que interessa é que as pessoas começam a olhar para todos os “kilombos” de forma diferente. Agora, já não é tão mau ser-se diferente. Até já tem alguma graça, e quando se passa na rua não há que ter vergonha e levantar a cabeça. Isto, porque nas redes sociais, há o ”Lombadas” que faz com que ser “kilombo” seja ser normal como qualquer outra pessoa.
Assista ao vídeo, em que “Lombadas” se entrevista a si próprio e fale um pouco mais de si para além do que demonstra em público.

CAIXA DE MÚSICA 130




Roberto Rillo Bíscaro

Pelos idos de 83,84, a New Wave chegou ao interior de São Paulo. Basicamente era ter gel no cabelo, usar roupas multicoloridas (laranja, verde-limão e roxo) e soar como B 52’, Go Go’s ou Talking Heads.
Nos programas do Chacrinha, Barros de Alencar e Raul Gil uma banda de 8 integrantes vestidos de terninhos berrantes e gravatinha nos conquistava com Toda Cor e Sonífera Ilha. Até 86 os Titãs foram relativamente mansos, mas daí veio Cabeça Dinossauro, que os levou ao estrelato e à fama de mais pesados e adultos.
Nos 90’s, mergulhei de vez em Genesis e seus (ex-)membros e me desinformei sobre os lançamentos. Li que o álbum lançado em maio último estava novamente pesado e contundente. Por isso, fui atrás.
Nheengatu – nome duma variante das línguas do tronco Tupi – retoma a crueza e a polêmica, que por anos me encantaram nos Titãs, agora resumidos a um quarteto.
Bazucadas contra a polícia (Fardado), religião (Senhor), a miséria urbana (Mensageiro da Desgraça) somam-se a temas incômodos como pedofilia (em canção homônima) racismo e homofobia (Quem São os Animais?). Se a crítica à polícia liga Nheengatu a Cabeça Dinossauro, Chegada ao Brasil conecta o grupo sônica e tematicamente ao Ultraje a Rigor de Nós Vamos Invadir sua Praia. Ainda bem que os Titãs não falam tontices como o Roger Moreira.
Os titânicos cinquentões não estão amedrontados de pesar nas canções, mas inserem brasilidade em Baião de Dois e Fala, Renata tem clima meio de banda de pífanos tocada em guitarra.
Nheengatu ratifica o que sabemos há 3 décadas: os Titãs são uma de nossas melhores bandas de rock. Devia tocar muito no rádio e aparecer em tudo que é programa de TV, como nos meados oitentistas.

domingo, 15 de junho de 2014

GALILEU ALBINO II

A revista Galileu destacou o Programa Pró-Albino em reportagem cujas personagens foram contatadas a partir do blog. Parabeno a jornalista Patrícia Ikeda pelo bom trabalho e fico feliz que o blog esteja servindo de ponte e fonte pra coisas boas como divulgação, novos contatos e geração de ideias.

Para não passar em branco 
Pela primeira vez um programa médico para albinos começa a ser implantado em 74 hospitais do Brasil. A ideia é levar tratamento e informação sobre essa alteração genética ainda pouco conhecida no paí 

  Patrícia Ikeda
Paulo, 30 anos; Luciana, 32 anos; Odair, 63 anos (Foto: Victor Affaro)
INFORMAÇÃO E TRATAMENTO > “Quando vi que o bebê era albino, fiz vasectomia, não quis mais ter filhos”, diz Odair Gonçalez. Seu Odair, pai de Luciana, também tem albinismo — alteração genética que torna o corpo incapaz de produzir parcial ou totalmente a melanina, pigmento que dá cor à pele, cabelos e olhos. “Meus pais me rejeitavam quando era criança.” Grande parte do trauma sofrido por ele na infância foi consequência da falta de informação na época. Décadas depois, Luciana já está casada com Paulo, também albino, mas o tema continua pouco discutido. É com a intenção de mudar esse cenário que foi criado o Pró-Albino, uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Santa Casa de São Paulo. Durante dois anos, 120 albinos foram atendidos por dermatologistas e oftalmologistas num projeto-piloto na capital paulista. Os pacientes receberam informação e tratamento, enquanto os médicos conheceram de perto as suas necessidades. Agora, o programa está sendo levado para 74 hospitais em todo o Brasil. “Eles precisam de orientações especiais e há poucos profissionais capacitados para atendê-los”, diz Marcus Maia, dermatologista e coordenador do projeto.
Sabrina, 1 ano e 5 meses, e Maria Clara, 1 ano e 1 mês (Foto: Victor Affaro)
MAPA DOS DESCONHECIDOS > Sabrina e Maria Clara, as garotinhas da foto acima, são pacientes do programa Pró-Albino. Elas fazem parte de um grupo estatisticamente desconhecido no Brasil. Estima-se que haja entre 10 mil e 12 mil albinos no país. É apenas um chute, que tem como referência as pesquisas internacionais. Quando nasceram, suas mães procuraram ajuda médica. Ou voltavam para casa frustradas, aconselhadas a procurar outro profissional, ou com informação errada. “Mesmo sabendo que a Sabrina era albina, o médico recomendou que ela tomasse 15 minutos de sol por dia”, afirma a mãe, Paola Perrotta. Como os albinos não têm melanina, são incapazes de se proteger dos raios ultravioletas. Por isso, devem se expor o mínimo possível ao sol e usar protetor solar e roupas que cobrem o corpo. “Passei por sete médicos até achar atendimento adequado”, diz Bruna Vicente, mãe de Maria Clara.
Remane, 50 anos (Foto: Victor Affaro)
PREVENÇÃO > O moçambicano Remane Selimane faz mestrado no Brasil e é paciente do Pró-Albino. Já tratou de quatro cânceres da pele. “É preciso fazer um trabalho preventivo. Quando eles procuram tratamento, a pele já está com lesões e envelhecida precocemente", diz Maia, o coordenador do projeto. Na África, em especial na Tanzânia, muitos albinos são perseguidos por uma crença de que trariam prosperidade. “Era considerado uma pessoa de sorte no meu país”, diz Selimane.
Andreza, 34 anos (Foto: Victor Affaro)
CURTIR E COMPARTILHAR > Só com o boom do Orkut, em 2004, que Andreza Cavalli conseguiu contato com outros albinos. “Antes, meus dois irmãos e eu achávamos que éramos os únicos”, diz. Na época, ao procurar informações sobre albinismo na rede social, encontrou apenas comunidades que abordavam o tema com um caráter depreciativo, como “Tenho medo e nojo de albinos”.  Foi então que a paulistana decidiu criar o grupo “Albinos do meu Brasil”, que hoje pode ser encontrado no Facebook. Com mais de 600 integrantes, eles dividem experiências, promovem encontros e compartilham informações recebidas no programa da Santa Casa. “Antes era muito tímida, falava pouco e me revoltava com apelidos como gasparzinho e leite-moça”, diz. “Hoje, acho importante contar para as pessoas as dificuldades pelas quais passei.”
Rafaela, 25 anos (Foto: Victor Affaro)
VISÃO LIMITADA > O que mais incomodou a baiana Rafaela Rosário durante o colégio foi a visão ruim. “Mesmo sentando na frente, não enxergava a lousa e tinha vergonha de pedir ajuda”, conta. “Antes de ir pra faculdade, fiquei quatro anos parada. Estava tão traumatizada que nunca mais queria entrar numa sala de aula.” É raro encontrar um albino que enxerga bem. Eles apresentam uma série de problemas visuais: a íris e a retina sofrem alterações porque têm pouca ou nenhuma pigmentação ocular — daí os olhos claros ou vermelhos. Somado a isso, o nervo óptico possui uma anormalidade. A maioria também tem um alto grau de miopia, astigmatismo ou hipermetropia. E muitos possuem nistagmo, movimentos oculares de alta frequência. Dos 120 pacientes do programa Pró-Albino, apenas três têm mais do que 30% da visão. O uso de óculos não é suficiente para corrigir a deficiência visual.
Gabriel, 14 anos (Foto: Victor Affaro)
SUPERAÇÃO > “Os albinos têm muita dificuldade de aprendizado escolar”, diz o oftalmologista Roberto Sano, do programa. “Não pela capacidade intelectual, mas pelo problema de visão.” Apesar dos percalços, o adolescente Gabriel Santos, de 14 anos, ganhou um mérito neste ano por estar entre os três melhores alunos da sala. “Uso boné para evitar a claridade e recebo material especial do governo, com letras maiores”, diz Santos, que quer ser desenhista de mangás quando crescer.
 http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/06/para-nao-passar-em-branco.html