quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

TELONA QUENTE 343

 


Roberto Rillo Bíscaro

No sensível filme Sabor da Vida, Sentaro dirige um pequeno negócio que serve dorayakis - bolos recheados com pasta doce de feijão vermelho. Uma senhora de idade, Tokue, oferece-se para ajudar na cozinha, e ele relutantemente aceita. Graças à sua receita secreta, o pequeno negócio logo floresce e com o tempo, Sentaro e Tokue abrem seus corações revelando velhas feridas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

CONTANDO A VIDA 326

 CARLOS ZÉFIRO, O SACANA PERTINENTE. 


José Carlos Sebe Bom Meihy 

para Sílvio Tendler, leitor atento. 



Sempre me questiono sobre personagens perturbadores da nossa história tão comportada. Quando a intensidade aperta, com meus botões, indago daqueles tipos que caberiam numa caixinha diferenciada, composta por personagens que não se ajeitariam no figurino apertado do bom-mocismo nacional. Não falo, portanto, de heróis oficializados por um tipo de conhecimento carimbado na exclusividade conveniente do “ordem e progresso”. Não. Na listinha secreta de meus (des)amados – no padrão literário ocidental Georges Bataille os chamou de “malditos” – não faltam indicações que variam de acordo com o momento em que a questão é apresentada. 

O arco de possibilidades de meus delirantes cobre tipos plurais que vão de Madame Satã a Raul Seixas, passando por referências femininas como Chiquinha Gonzaga até Ângela Rô-rô. No contexto em que vivemos, é claro que o panteão masculino é bem mais frequentado e inclui tipos históricos como os polêmicos Calabar, Joaquim Silvério dos Reis ou mesmo alguns contemporâneos que causam controvérsia como Simonal, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos. Mas, a par desses exemplos mais exibidos temos outros que vistos em suas singularidades dão trabalho à nossa imaginação insatisfeita. Entre tantos, tem um sujeito discreto, senhor de aparência assisada, pouco notado, mas que visto pelo avesso da seriedade moralista ganha dimensões surpreendentes: Alcides Aguiar Caminha. 

Devo dizer antes de tudo que este meu personagem escolhido na oportunidade do agora foi um fulano sobretudo camuflado, liso, capaz de disfarces eficientes, e, mais do que isso, soube dignificar o “não tô nem aí”. Pois é, por anos a fio, ele fez questão de viver em seu delicioso anonimato, longe de olhos ajuizados ou da sedução dos notáveis. Não que não fosse merecedor de todas as atenções, mas por determinação própria preferiu não aparecer, ainda que tenha sido um dos principais influenciadores da moderna cultura urbana brasileira. 

Mas quem foi o tal “seu Alcides”? Projetando-se como modesto funcionário público do Ministério do Trabalho no Rio de Janeiro, quem o via sempre sério, conhecido como bom pai de cinco filhos, casado por mais de 25 anos, nunca poderia supor que se tratava do mais importante pornógrafo popular brasileiro. Escondido como soube se fazer, seus leitores jamais imaginariam a complexa personalidade inernada naquele senhor suburbano, classe média, “normal demais”. Vivendo entre 1921 e 1992, o tal anônimo Caminha se escondia sob o pseudônimo Carlos Zéfiro, autor dos aclamadíssimos “Catecismos”, ou seja, das revistinhas de sacanagem que atravessaram décadas, e até hoje causam frisson. 

Tudo interessa no caso de Zéfiro. Supostamente inspirado em um conhecido pornógrafo mexicano que lhe serviu de impulso, dele assumiu o tipo de histórias curtas, ainda que diferenciasse nos traços e demais detalhes. Cenas de sacanagem explicitas, com palavreado chulo, enxuto, mas objetivo e provocador, as transas eram resolvidas em parcas sequências de até, no máximo, 32 páginas ilustradas. Das primeiras publicações às derradeiras, há alguma evolução nas soluções gráficas, e até nos desenhos, mas nada que revolucionasse a proposta matriz. O que realmente interessava era o exagero das formas anatômicas grosseiras, tanto das mulheres como dos homens. Com sequências simples, predizíeis, os personagens multiplicavam tipos identificáveis no cotidiano. Normalistas, enfermeiras, primas, vizinhas, virgens ou casadas infelizes, elas se compunham com pares sempre potentes e sedutores. E nas tramas, valia tudo. Tudo. Ah, havia lugar também para feias, velhos e velhas, religiosos pedreiros, viajantes, deficientes físicos. E muitas vezes as sessões eram de mais de dois. 

Enfim, as revistinhas – sempre mencionadas no singular – tornaram-se famosas e uma depois da outra, sem marcar nexos narrativos, compuseram leituras constantes de pelo menos duas gerações de nossos jovens – homens e mulheres. No formato aproximado de 14 x 24, com poucas exceções, os exemplares eram distribuídos por um sebo no centro do Rio e vendidos em bancas de jornais em todo país. Chama muito a atenção essa prática ter atravessado todo regime militar, mesmo os anos da censura mais acentuada. Cabe, então a pergunta que não merece mais ser evitada: como e por que isto se deu? E a resposta vem pelo alentado público consumidor, curiosos aprendizes e sacanas reprimidos. Zéfiro educava, compensando interditos moralistas tão evidentes no Brasil. Zéfiro motivava, ilustrando fantasias reprimidas. Zéfiro libertava a imaginação sexual contida. 

A história das aventuras de Zéfiro – aliás do “seu Alcides” – poderia ter passado sem destaque não fosse a audácia de Juca Kfouri que, em 1991, publicou na Revista Playboy (edição 196) o resultado de uma investigação intrincada. Antes, alguma coisa repontava aqui e ali: Geraldo Galvão Ferraz o revelou e em seguida o cartunista Ota somou-se a novos como Joaquim Marinho, e depois Otacílio D’Assunção, Arnaldo Jabor, Erika Cardoso, Roberto DaMatta e principalmente Gonçalo Júnior que o sugeriu como simpático liberador da libido nacional. Na sequência da consagração pública de Zéfiro, destaque desafiador deve ser dado ao documentarista Silvio Tendler que produziu um filme, “Em busca de Carlos Zéfiro”, dando luz à trajetória do senhor pornógrafo. Aliás, mais do que isso, pelo cinema, Tendler desnudou um moralismo crônico entre nós, evidenciando o impacto inegável dos “Catecismos” na formação de influentes personalidades da nossa cultura. 

Zéfiro faria 100 no próximo setembro e isto permite que repensemos o papel da censura no Brasil recente. As repetidas interdições da divulgação da trajetória de Caminha revelam a resistência do conservadorismo de nossa sociedade que ainda se aquieta na hipocrisia expressa no não reconhecimento da expressão de Zéfiro como tipo histórico, aqui saudado como nosso “sacana pertinente”.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

TELINHA QUENTE 432

 

Uma psicóloga cética e um padre em formação investigam mistérios que envolvem a Igreja Católica, dentre eles posses demoníacas, espíritos e supostos milagres.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

CAIXA DE MÚSICA 438

 


Roberto Rillo Bíscaro

Durand Jones & The Indications faz soul music como se estivesse no ano de 1970, confira o álbum American Love Call

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

PAPIRO VIRTUAL 170

 

Roberto Rillo Bíscaro

Em Death in the East, quarta aventura do Capitão Sam Wyndham na Índia do início do século 20, ainda colonizada pelos britânicos, duas histórias paralelas se encontram, trazendo de volta o passado do detetive, mas também envolvendo racismo, vício em ópio e váris crimes.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

TELONA QUENTE 342

 

Em Pieces of a Woman (Netflix), o triste resultado de um parto em casa deixa uma mulher emocionalmente destruída. Isolada do parceiro e da família, ela vive um profundo luto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

CONTANDO A VIDA 325

MEU MELHOR AMIGO DESCONHECIDO: Eric Nepomuceno. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Quando era criança, bem menino ainda, tinha um amigo invisível. Alfredo era o nome dele. E com o tal Alfredo confidenciava minhas infelicidades mal brotadas. Cresci um pouco e fui parar num colégio interno. Aluno por demais comportado, por mim adentro soltava iras revoltadas. Alfredo me ouvia cumplice, impávido, fiel, presente. E eu reclamando chorava, maldizia a vida mapeando labirintos futuros. Com os anos fui esquecendo e não mais soube do Alfredo. Desapareceu. Sumiu. Lembrei-me dessa passagem pouco tempo atrás, precisamente dia 20 de setembro de 2020. Confesso que tanto 20 me assustava, seria prenúncio? Li no jornal um artigo intitulado “Eduardo Galeano, um homem de dúvidas” assinado por Eric Nepomuceno. As palavras do texto, letra por letra, frase por frase, me exigiram um certo passado. Mais do que Galeano – que por si só bastaria – me indagava sobre o recado dado pela referência ao uruguaio fraterno que adotou como seu o dono do artigo. E dei estrada para a figura do jornalista, tradutor, escritor, sobretudo para o memorialista Eric Nepomuceno. Profícuo senhor de extensa obra, de um jeito ou de outro minha sombra sempre acompanhou seus retraços críticos, seus contos e reportagem. Eric me trazia de volta o agora velho Alfredo. 

Sabe aquela flor discreta desapercebida num canteiro de rosas expostas? Para mim Eric sempre foi assim. Mais complexo e brilhante que muito outros exemplares da flora literária, ele sempre esteve presente, sem nunca se afigurar com pares competitivos tais Guimarães, Jorges, Clarices ou Caios. Discreto, talvez tenha se disfarçado atrás do incômodo cigarro, da barba que me faz imaginar sua cara lisa, dos óculos arredondados, ou mesmo perdido nas fronteiras de textos indecisos na determinação formal. E que dizer do som de sua voz calma na aparência, diabólica nos elogios sempre fundamentados. Soube outro dia que ele morou em São José dos Campos e imaginei nisso alguma misteriosa tangência – sou do mesmo Vale. Ilusão, ilusão tola, não era por aí. Na verdade, uma sonda breve bastou para garantir que fora pela escrita que Eric se tornou o meu Nepomuceno iluminado, aquele que volta e meia dialoga comigo e me faz pensar na oportunidade da escrita. Tanto ele usa a própria geração como fator explicativo de um tônus cultural que o imagino síntese de tudo e de todos que viveram os anos lagrimados em ditaduras excludentes. Eric Nepomuceno, vida afora, perseguidor de setentões distópicos navegantes de inexplicadas histórias. 

Frente o texto do artigo sobre Galeno, resolvi dar alguma satisfação a esse meu relacionamento unilateral; unilateral, mas suficiente para conferir alma à essa estranha maneira de sentir alguém que exerce poder sobre minha vontade de cultura. Diria que foi pelo culto à memória que o me expliquei. Como poucos Eric Nepomuceno conta, fala de si e redesenha seus amigos mais que amados. Leitor sinto-me parte dessas conversas e amo todos num fogaréu lenhado por Garcia Marques, Rulfo, Certázar, Borges, Lygia, Hatoum, Salem. E não faltam livrarias, restaurantes bares e confidências, muitas confidências, despedidas fatais. E tudo é tão suave em Eric, tão redondo que me deixo perder nas curvas de um pretérito que me converte, a cada vez mais, em latino-americano. E narrativas somadas convergem para uma autenticidade que não se melindra na consideração de Hemingway, Baldwin, Ondjaki. 

Com contação feita de saudade e bom gosto, seus os textos Nepumiceneados são bastantes e suas falas mais parecem suplemento de tantas, incríveis, aventuras literárias. E fala também de cozinha, de guiar automóveis, de bebidas, e assim pouco escapa de sua escrita despontada lá atrás, na adolescência de leitor continuado. É verdade que não há como se referir a Eric sem mencionar suas traduções. Premiado, faz do reconhecimento objeto de valor indicativo, mas nada que corrija a rota de novos céus. Tenho comigo, porém que a tradução – ele garante que faz “tradução afetiva” – resulta de finezas raras, doação total, um colocar-se no lugar do autor de maneira a se trançar-se além da técnica ou do domínio da língua. 

A mim, em sua ficção, particularmente chama a atenção as histórias de linhagens familiares. É aí que saindo da escrita, o pai real surge e dele emerge o filho Felipe, cineasta que o reinventa como comunicador. Mas isso é destilado. Ao contar, por exemplo, os encontros de seu pai cientista com Darcy Ribeiro faz vibrar nos leitores a imagem de compromissos sociais cumpridos na moldura única da democracia. Eric se exilou e consigo levou o Brasil para sua América Latina, e, então Montevidéu, Buenos Aires, a Cidade do México tornam-se cenários esparramados de uma ternura política quase infantil. Não satisfeito em escrever – e contar como faz bendizendo as papelarias, o lápis e o papel – precisou da imagem e então, como na ficção agora faz pequenos clips que posta nas redes sociais e estão disponíveis no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=P6dK2Acsq4k). 

Devo dizer que estive pessoalmente com Eric apenas uma vez. E foi em situação confusa. Renato Teixeira se apresentaria um show no Rio e me senti convidado. Fui. Chorei muito e ao final fui abraçar meu menestrel cumplice de vida. Surpresa absoluta, Eric estava lá. Eu o reconheci, disse ser seu leitor e me intimidei ao mencionar que por vezes fui seu vizinho nas páginas do Contato, reunido por editor comum. Foi assim, algo sem muita graça e com toda a disfarçável naturalidade que o momento impunha que o vi pessoalmente uma única vez. Estrela cadente que além de tudo me faz pensar no velho Alfredo, meu amigo invisível.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

TELINHA QUENTE 431

 


Roberto Rillo Bíscaro

A série Lupin, da Netflix, é nspirada pelas aventuras de Arsène Lupin, o ladrão gentil. Assane Diop quer se vingar de uma família rica por uma injustiça cometida contra o pai dele e assume os métodos do ladrão de casaca e mete em disfarces. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

CAIXA DE MÚSICA 437

 



Roberto Rillo Bíscaro

Obra-prima da MPB, infelizmente ainda pouco conhecida do grande público, o álbum de estreia de Arthur Verocai cria excitante universo particular. Um dos álbuns que mais ouço da MPB da década de 1970.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

TELONA QUENTE 341

 

Na trama, ambientada em Nova York, entre os anos 50 e 60, Sylvie é uma jovem que trabalha na loja de discos de seu pai, no Harlem. Ela se apaixona intensamente quando conhece Robert, um aspirante a saxofonista que consegue um emprego na mesma loja em que ela trabalha.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

CONTANDO A VIDA 324

 SE EU VIRAR JACARÉ! 


José Carlos Sebe Bom Meihy. 

Antes de mais nada, Bom Ano Novo! Que 2021 quebre a redondeza do 20+20 e permita que retomemos a normalidade; às favas o tal de “novo normal”. É cabível na rotina das saudações de viradas bendizer momentos redentores e por isto fiz uma ladainha: um viva para a ciência que se mostrou eficiente no avanço da vacina; abraços para os que se puseram na linha de frente do atendimento hospitalar, e não posso me esquecer dos garis, coveiros, motoristas de ambulância e equipes de recepção em postos de atendimento público. Todos esses fatores se relacionam com a presença do coronavírus, mas a pandemia explicaria tudo? 

Para início de conversa formulemos um problema analítico: o vírus representou alguma novidade no andamento nacional? Ou foi ele causador e responsável pelo desastre que vivemos no presente? A centralidade do tema pandemia tem ofuscado sequências inflamadas desde 2018, mas não nos esqueçamos de um pretérito fatídico. Nada é espontâneo nesse compósito. É verdade que há um antes e um depois da covid19, mas não nos iludamos com recortes. O tônus discursivo já estava dado proposto segundo uma fórmula maquiavélica, sutil por diluída no dia a dia, e expressa em recursos retóricos que beiram o inacreditável. Sendo mais claro, desmistifico o caráter espontâneo do presidente, não acredito em sua verve vomitada ao acaso, e nem aceito justificar tudo pelo (mau) temperamento. Nada disso. 

Analisando o perfil do presidente, não é difícil perceber uma articulação diabólica, engendrada no intestino de seu caráter indisfarçavelmente autoritário. E instruo meus argumentos retomando a carreira do capitão reformado, depois sua exclusão do quadro do Exército Nacional. Desde que eleito vereador em 1988 no Rio – em seguida deputado federal pela primeira vez em 1990 com seis confirmações - soube se insinuar no chamado “baixo clero”. Por 27 anos, gradativamente, foi abrindo atalhos que lhe permitiram subir a rampa do Alvorada. Nada de errado nisso, pois todos têm direitos. O que empeçonha são os meios usados, como se tudo justificasse o fim claramente antidemocrático. Estratagemas a parte, cabe definir o objetivo maléfico: a formulação de um discurso midiático antipovo, pronunciado em nome da ordem e do combate à corrupção. Aí, aliás, se escondem as razões do tóxico verborrágico que marca o repetido show presidencial: depreciar a visão do povo e fazê-lo algoz de si mesmo. O exagero, o alarde, a falta de pudor, o palavreado chulo, fermentado de erros, matizam seus chiliques teatrais. 

Recuemos para 2008 quando se deu um dos atos fundadores do que teríamos hoje como marca do abate da autoestima popular. Naquele então, frente ao indígena Jacinaldo Barbosa que lhe jogou um copo de água durante discussão sobre demarcação de terras, o magistrado cunhou uma frase demolidora da reputação do povo indígena, aos berros afirmou “você devia ir (sic) comer capim ali fora para manter suas origens”. Daí em diante, dos indígenas aos negros, todo tipo de rebaixamento da brasilidade popular foi exercitado. Frente aos descendentes de escravos, talvez a mais contundente afirmativa tenha sido pronunciada em 2017 “fui num quilombola (sic) em Eldorado Paulista e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Acho que nem para procriadores servem mais”. Este arco contundente – que poderia ser recheado com menções às mulheres, gays, nordestinos, sem terra e sem teto - se fundamenta em pressupostos de um neoliberalismo elitista de vocacionado ao favorecimento de uma economia individualista. Nessa intenção aliás diluidora da reputação marginalizada, reside o propósito da desqualificação dos grupos subalternizados. 

Na altura do tempo presente, quando patinamos no lodo das políticas de saúde pública, pode-se pensar em juntar os pontos: não se trata de frases soltas, ditas aqui e ali. Nada. Tudo é pensado e se explica na intenção de permanência no poder. Ainda que chocado, valho-me de exemplo capaz de constelar tudo. Do alto de sua estrelar ojeriza à ciência, já na pandemia, a despeito das maiores autoridades especializadas, o capitão reformado se isenta de pressões sobre o uso de vacinas sugerindo que os efeitos colaterais de uma determinada podem ser fatais e nessa senda deixou evidente sua preocupação frente ao risco de os usuários virarem “jacaré”. E olha como ele é claro “se você virar super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí, ou algum homem começar falar fino, eles (fabricantes) não têm nada a ver com isso. Engrossando a lista de negacionistas desde logo o mandatário soltou pérolas surpreendentes, agredindo interlocutores que questionavam o número de cadáveres. A guisa de pálido exemplo vale lembrar que não foi sutil ao dizer “eu não sou coveiro” (20/04). E tudo para ele virou “uma gripezinha” que aliás se alonga no “está passando”. E choremos 200 mil mortos... 

É dispensável declinar as barbaridades presidenciais. Vale, contudo afiançar que ele canta em coro e se compõem com figuras como Damares Alves, Sérgio Camargo, Regina Duarte, Ricardo Salles, Ernesto Araujo, o vice presidente Hamiltom Mourão (“não há racismo no Brasil”), Eduardo Pazuelo... A lista é longa e para abreviar tudo deixo patente minha ansiedade para tomar a vacina. Com certeza, acato o risco de virar jacaré e, sinceramente, até prefiro virar bicho que suportar essa fauna desalmada. E por falar em animais de verdade, devo dizer que sou grato às emas dos jardins do palácio. As que bicaram o presidente em julho me representam.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

TELINHA QUENTE 430

 


Roberto Rillo Bíscaro

!990: o sucesso da canção Vogue, de Madonna, enche de esperança alguns membros da comunidade dos bailes gays de Nova York. Finalmente, sua cultura estava na mídia. Será? A AIDS matava cada vez mais. E nossas queridas Blanca, Candy, Elektra continuam suas aventuras entre divertidas e tocantes.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

CAIXA DE MÚSICA 436

 


Roberto Rillo Bíscaro

O guitarrista Guilherme Held estreia em álbum-solo com um caleidoscópio de convidados e ritmos, que mostra o melhor da MPB atual.


domingo, 3 de janeiro de 2021

O DESAFIO DO VERÃO

Verão é mais um desafio a albinos 


Aline Melo


Um guerreiro mítico, filho da lua, que tem o poder de defendê-la de ataques de um dragão que tenta devorá-la, sempre que há um eclipse lunar. A lenda panamenha explica a grande incidência de albinos na província de Guna Yala, que tem entre 5% a 10% da população com essa condição genética. Um jeito bonito de explicar por que crianças de pais brancos, pardos ou negros nascem com a pele muito clara, pelos e cabelos loiros, e assim vão permanecer pelo resto da vida. Não tão bonita é a falta de informação sobre os albinos, que no Brasil são estimados em 21 mil pessoas, e que com a chegada do verão e o fato de não terem melanina no corpo, enfrentam dificuldades e desafios.

A empresária Shirlene Regina Angotti da Silva, 45 anos, é mãe da pequena Lorena, 5. A criança é albina e a família, que mora em Santo André, tem grande dificuldade para encontrar óculos com lentes que a protejam efetivamente, já que tem fotofobia, condição comum aos albinos. Também são altos os gastos com protetor solar. “No começo do ano estive nos Estados Unidos e já trouxe um estoque, porque aqui são muito caros”, explicou Shirlene.


Bem resolvida, Lorena é incentivada pelos pais a se ver como diferente das outras pessoas, mas sem que isso a faça se sentir inferior. “Ela sabe da condição dela e não negamos isso, nem sonegamos informação. Sabe que é diferente por não fabricar melanina, que não enxerga como as outras pessoas. Ensinamos que ela é imagem e semelhança de Deus”, pontuou a mãe. “Que ela veio diferente, mas que é somente isso. Por desde sempre a tratarmos dessa forma, não sentimos nenhum problema de aceitação ou autoestima”, concluiu.

O preconceito, no entanto, é bastante presente na vida dos albinos. Moradora de São Bernardo, Liliane dos Reis Oliveira, 23, relatou ocasião em que estava viajando com o marido, que também é albino, e viu uma pessoa se afastar dele, nitidamente desconfortável. “A gente às vezes ouve algumas coisas desagradáveis”, pontuou. Além desses aborrecimentos, sair de casa em dias de calor é um grande desafio, pela dificuldade em manter os olhos abertos.

Outro desafio é encontrar profissionais que estejam preparados para cuidar desse público. Liliane afirmou que já passou em dermatologistas que não sabiam como atendê-la adequadamente, e o mesmo já ocorreu com oftalmologistas. Somente há dois anos, quando passou a integrar um programa especializado para albinos, conseguiu atendimento adequado.

A estudante Dayane Nascimento Galdino, 20, moradora de Diadema, define bem o sentimento de albinos brasileiros. “É muito cansativo ser albina em um país tropical como o Brasil. As pessoas têm uma ideia errada, de que a gente não gosta ou não pode tomar sol, e a gente só tem que ter mais cuidado por causa da sensibilidade da pele”, explicou.

“O sol pode afetar a nossa pele e no verão a gente tem que fazer tudo mais cedo, e mesmo dentro de casa a gente tem que usar protetor solar, boné, óculos escuros”, citou a estudante.

Dayane também não conseguiu atendimento de saúde adequado na rede do município, e há cerca de dois anos faz parte de programa específico para albinos. “Nos médicos que passei sentia que eles faziam coisas mais paliativas, como falar da importância do uso do protetor solar e sobre prevenir a exposição ao sol, sempre se referindo ao cuidado dermatológico”, relatou. “Mas foram poucas as vezes que cheguei a fazer exames de sangue, por exemplo, para verificar se a vitamina D estava adequada, porque é muito comum a deficiência entre albinos, e a gente precisa fazer reposição”, concluiu.

Condição genética afeta um em cada 20 mil bebês em todo o mundo

O albinismo é uma condição genética recessiva que afeta um a cada 20 mil bebês nascidos no mundo. Não existe levantamento no Brasil de quantas pessoas apresentam essa condição, e esse é um dos fatores apontados por especialistas como problema no atendimento dessa população. Apesar de não transmissível de uma pessoa a outra, é classificada como genodermatose, doença de pele ocasionada por alteração genética que pode ser herdada da família, mas também pode aparecer como casos únicos, explica a professora de dermatologia da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) Cristina Laczynski.

“É uma das que chamamos como doença estigmatizante, porque existe muito preconceito, que temos que combater com informação”, destacou.
A especialista pontuou que os albinos precisam fazer acompanhamento médico, especialmente com dermatologistas e oftalmologistas, o mais precocemente possível. “Não é transmissível, não afeta de maneira muito importante a vida da pessoa, e dentro dos cuidados que se possa ter, o albino pode levar vida normal”, concluiu.

Médica especializada em nutrologia, Renata Domingues de Nóbrega é a idealizadora do Instituto Nóbrega, organização em prol dos albinos. Localizado na Zona Sul de São Paulo, o instituto tem como missão conhecer iniciativas no Brasil e impulsionar ações em benefício dessa população. Renata explicou que existem 19 tipos diferentes de albinismo e que o mais comum no Brasil é óculocutâneo, que afeta olhos e pele.

Mapeamentos genéticos podem identificar qual tipo de albinismo a pessoa tem e ajudar a evitar doenças como câncer de pele, mas é um exame ainda inacessível para a maioria, relatou a médica. “Faltam informações tanto para os profissionais de diferentes áreas, como saúde, educação, trabalho, para lidar com essas pessoas, quanto falta informação sobre os albinos, sobre quantos são, por exemplo”, afirmou Renata.

Entre os poucos estudos, já identificou-se que a maioria dos albinos no País tem entre 18 e 60 anos, são do sexo feminino, entre outras informações, como a que mulheres pardas têm mais filhos albinos que negras e brancas, enquanto os pais brancos têm mais herdeiros albinos que os negros e pardos. “É importante falarmos sobre isso, lembrar que eles têm totais condições de se formar, estar no mercado de trabalho e muitos não conseguem por causa do preconceito”. 

União vai enviar R$ 43 mil para a região

O Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos vai enviar para quatro cidades da região R$ 43 mil, para que os municípios de Santo André, São Bernardo, Diadema e Ribeirão Pires possam mapear, cadastrar e conhecer os brasileiros com albinismo. Ribeirão vai receber R$ 13 mil e as outras, R$ 10 mil cada. Em todo o País, serão destinados R$ 7,1 milhões para 504 cidades. Foram contemplados os municípios que registraram atendimento de pessoas albinas em serviços da atenção primária nos últimos quatro anos

Entre as cidades que vão receber os recursos, poucas têm dados sobre a população. São Bernardo informou que conta com 16 registros de pacientes albinos nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) do município, desde o início da atual gestão. A despeito do que alegaram os especialistas, a administração afirmou que não há necessidade de assistência específica para este público, devido à baixa demanda, e que os cuidados de saúde recomendados para os albinos são iguais ao de qualquer outra pessoa, com exceção do uso de protetor solar contínuo, independentemente de exposição ao sol, conforme orientação do dermatologista. O recurso será aplicado na atenção básica, junto deste público.

Diadema não informou quantos pacientes albinos são acompanhados pelas UBSs e afirmou que as necessidades são identificadas e atendidas, para cada indivíduo, conforme a oferta de serviços municipais ou estaduais referenciados. O recurso será utilizado no financiamento de ações e serviços de saúde. Ribeirão Pires também não informou o número de pacientes, mas destacou que eles podem buscar atendimento e orientações na rede municipal de saúde. A cidade conta com três profissionais dermatologistas na rede, que atendem no Centro de Especialidades Médicas, localizado na Rua Aurora, 61, no Centro Alto. Quanto ao repasse, a Prefeitura aguarda notificação do governo federal, para que sejam definidas ações de trabalho junto à equipe técnica.

São Caetano informou que não consta registro de atendimentos a pacientes albinos, e que a cidade mantém profissionais especializados em todas as áreas, como dermatologia, oftalmologia e cardio, entre outras, para realizar acompanhamento trimestral. Santo André, Mauá e Rio Grande da Serra não responderam até o fechamento desta edição.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

MELHORES DE 2020 – PARTE II

 


Que difícil este 2020, não? Mesmo assim – ou, por isso mesmo – nada melhor que conferir o que resenhei de melhor nas áreas de cinema, literatura, música e TV.

Não importa ano de lançamento; para constar na lista de melhores, basta ter aparecido no blog.

Antes, vamos relembrar os melhores do primeiro semestre?

 http://www.albinoincoerente.com/2020/07/melhores-de-2020-parte-i.html

Beleza, vejamos minhas escolhas para o segundo semestre, daí, vocês juntam com as do primeiro e ficam com os Melhores de 2020 do Blog do Albino Incoerente!

 

CINEMA

Rent-a-Pal - Em 1990, um solteirão solitário, chamado David, procura uma forma de escapar da labuta diária de cuidar de sua mãe idosa. Enquanto procurava uma parceira por meio de um serviço de namoro por vídeo, ele descobre uma fita VHS estranha chamada Rent-A-Pal. Apresentada pelo carismático Andy, a fita oferece a ele a tão necessária companhia. Mas a amizade de Andy tem um custo, e David luta desesperadamente para pagar o preço da admissão.

http://www.albinoincoerente.com/2020/10/telona-quente-333.html

The Beach House – Um refúgio romântico para dois namorados se transforma em uma luta pela sobrevivência quando o ambiente ao redor exibe sinais de uma infecção misteriosa.

http://www.albinoincoerente.com/2020/08/telona-quente-3300.html

 LIVROS

Minha Irmã, a Serial Killer - Korede está acostumada a limpar os traços deixados por sua irmã-serial-killer, Ayoola. Mas, o que pode acontecer quando ambas se interessam pelo mesmo homem? Sarcástica estreia da autora nigeriana.

http://www.albinoincoerente.com/2020/10/papiro-virtual-167.html

 MÚSICA

Em seu quarto álbum, os italianos do Homunculus Res trazem seu suave e altamente elaborado rock progressivo, influenciado pelo jazz, pela psicodelia e pela cena de Canterbury.

http://www.albinoincoerente.com/2020/12/caixa-de-musica-435.html

Em seu quarto álbum, os italianos do LogoS usam um mar de tecladaria sinfônica para contar a história de uma menininha, que sobreviveu à bomba de Hiroshima.

http://www.albinoincoerente.com/2020/11/caixa-de-musica-430_9.html

A dupla Young Gun Silverfox faz pop, que parece saído de 1980.

http://www.albinoincoerente.com/2020/10/caixa-de-musica-428.html

O compositor paulistano Rodrigo Campos apresenta seus sambas desafiadores e complexos.

http://www.albinoincoerente.com/2020/09/caixa-de-musica-422.html

Promissora estreia do rock progressivo sinfônico italiano, o I Modium chegou com grande guitarrista, belas melodias e vocais dramáticos.

http://www.albinoincoerente.com/2020/08/caixa-de-musica-420.html

Melódico e empolgante prog italiano com toques hard. O álbum A piedi nudi sull'arcobaleno, do Sintonia Distorta traz emoção em altas doses.

http://www.albinoincoerente.com/2020/07/caixa-de-musica-418.html

TV

Na quarta temporada de The Crown, os explosivos e recessivos anos 80, com a Princesa Diana e Margaret Thatcher causando muito!

http://www.albinoincoerente.com/2020/11/telinha-quente-425.html

No anime The Primissed Neverland, três crianças descobrem que o orfanato onde vivem não é nada do que pensavam. Agora, têm que liderar o grupo todo num arriscado plano de fuga.

http://www.albinoincoerente.com/2020/10/telinha-quente-420.html

Na série israelense O Juiz, com a carreira em ascensão, o juiz Micha Alkoby vê tudo se complicar quando seu filho se envolve em um acidente, cuja vítima pertence a uma família criminosa.

http://www.albinoincoerente.com/2020/09/telinha-quente-414.html

Qualquer temporada da aclamada série Line of Duty, centrada nas atividades do esquadrão anticorrupção da polícia britânica.

http://www.albinoincoerente.com/2020/08/telinha-quente-412.html