segunda-feira, 30 de abril de 2018

CAIXA DE MÚSICA 312


Roberto Rillo Bíscaro

“Aceita que dói menos” é um dos lugares-comuns do momento, mas que pode ser lema da carreira-solo de Steve Hackett. Ao invés de negar seu legado junto ao Genesis, o guitarrista tem reinventado as canções de seu passado setentista em álbuns e turnês muito bem-sucedidas, como seus Genesis Revisited.
Ano passado, Wind and Wuthering fez 40 anos. O álbum foi o último de Hackett com Banks-Collins-Rutherford e tem substanciais contribuições de Steve, então o inglês decidiu que generosa porção de seu show mais recente – cuja turnê passou por cidades brasileiras este ano – traria diversas faixas daquele trabalho, assim como clássicos ainda mais antigos. Isso, claro, sem esquecer de sua produção-solo que incluiu faixas de seu aclamado álbum do ano passado, The Night Siren.
Dia 26 de janeiro, a Inside Out Music colocou no mercado o CD/DVD/Blu-Ray Wuthering Nights: Live in Birmingham, registro de um show de maio de 2017, no Birmingham Symphony Hall. Esta resenha é sobre o CD duplo apenas.
O nível técnico e artístico é perfeito. Hackett está com feras entrosadas de tanto tocar junto: Roger King (teclados), Gary O'Toole (bateria e percussão), Rob Townsend (saxes/flautas), Nick Beggs (baixo e outras cordas). Jamais se poderia acusar Hackett de primadonismo; todos os instrumentistas têm chance de brilhar e a guitarra do Mestre resplandece, não porque precise forçar a barra por ser o chefe, mas, porque tem aquele diferencial que separa o bom músico do genial. Steve Hackett influenciou Eddie Van Halen, for Christ’s sake!.
O CD 1 é apanhadão da longa carreira-solo do ex-Genesis. Traz inescapáveis como Every Day, presente em tudo quanto é show e ao vivo e que não pode ter arranjos muito alterados: fãs esperam o delirante solo de Steve, tornando a faixa perfeita para abrir um álbum. Do catálogo perene ao vivo, digamos, há também a caravana centro-asiática de The Steppes, que forma bloco com bastantes inflexões orientais com canções de The Night Siren, como El Niño, Behind the Smoke e In The Skeleton Gallery. Não dá pra reduzir a diversidade dessas canções a apenas seus elementos “árabes”, mas há fio condutor entre elas, e Hackett enfileirá-las em enfiada de 4 deu senhora homogeneidade ao miolo desse CD. Dos álbuns Darktown (1999) e To Watch the Storms (2003) foram pinçadas Rise Again e Serpentine Song, respectivamente e para encerrar a primeira parte do espetáculo, Steve reviveu os quase 11 minutos de Shadow Of The Hierophant, de seu longínquo primeiro álbum, Voyage Of The Acolyte (1975), quando ainda era do Genesis.  Amanda Lehmann preenche a vaga de voz, originalmente ocupada por Sally Oldfield, provavelmente a cantora mais injustiçada da música britânica.
O segundo CD foca no trabalho do Genesis. Para os vocais, entra Nad Sylvan, na estrada com Hackett há anos. Ainda há quem desperdice tempo e energia reclamando que Sylvan não se compara a Peter Gabriel ou Phil Collins. Cansativo isso. Não se trata do Genesis, mas de um de seus ex-membros homenageando-o, então, qual é o ponto para mimimizar? As vozes são parecidas, Nad tenta imitar, claro, mas é mais pra compor um clima, como o Yes faz quando contrata vocalistas-clones de Jon Anderson. Quase óbvio que nós fãs preferiremos Phil e/ou Peter, mas de que adianta reclamar de Sylvan, que, acima de tudo, faz ótimo trabalho dentro de seus limites de não ser Phil/Peter? Aceita que dói menos. Ou não ouça nada que não seja cantado por Gabriel/Collins, e pare de encher o saco!
Wuthering Nights é trocadilho com o clássico de Emily Brontë, que informou títulos em Wind & Wuthering. E como esse é o álbum homenageado, cinco de suas canções abrem a parte dedicada ao Genesis. Desde a manjada Afterglow, até as bem mais raras em ao vivo oficial, como Eleventh Earl Of Mar. Com arranjos o mais fiel possível aos originais – Hackett sabe que seu público é maduro; queremos o que nos embalou a juventude -, Wuthering Nights traz a subestimada One For The Vine e Inside and Out, que, vergonhosamente, ficou de fora de W&W e acabou sendo a única coisa que presta no EP Spot The Pigeon.
Fora do território de seu álbum-despedida do Genesis, há a versão delirante de Dance On a Vulcano; a máquina demolidora de The Musical Box e a melhor versão ao vivo oficial do solo magnífico de guitarra de Firth of Fifth.
Impecavelmente feito por um artista que entende visceralmente de Genesis e que tem carreira-solo monumental, além de perícia inconteste, Wuthering Nights: Live In Birmingham pode ser o melhor ao vivo de Hackett, que já lançou diversos.

domingo, 29 de abril de 2018

MENTINDO EM MOÇAMBIQUE

PGR ignora cidadãos albinos raptados e um deles morto em 2017

A Procuradora-Geral da República (PGR), Beatriz Buchili, faltou à verdade ao Parlamento, na quarta-feira (25), ao afirmar que, no ano passado, não houve tráfico e assassinato de albinos. Todavia, sabe-se que em Janeiro de 2017, no distrito de Ngaúma, província do Niassa, indivíduos desconhecidos raptaram uma criança albina de sete anos de idade. Em Setembro do mesmo ano, um jovem albino de 17 anos foi morto e extraído alguns órgãos, em Benga, Tete, onde em Maio tinha sido detido um casal quando pretendia vender o filho albino. Em Outubro um homem ficou privado de liberdade, acusado de tentativa de venda da sua própria filha, de 13 anos de idade.

No caso do Niassa, os malfeitores arrombaram a porta da casa da família do miúdo enquanto todos estavam a dormir. Na altura, Alves Mate, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) naquele ponto do país, disse que havia esforços no sentido de resgatar a vítima. Mas, nunca mais se soube qual foi o paradeiro da vítima.

Em Tete, o cidadão foi assassinado por indivíduos desconhecidos, no povoado de Nhambaluwalu, e extraíram do seu corpo o cabelo, o cérebro, os membros inferiores e superiores.

Um líder comunitário daquela localidade disse à AIM que o finado “respondia por Chinguirai João. Foi raptado de dia e morto no período da noite”.

Na mesma província, um homem que responde pelo nome de Estefânio Máquina caiu nas mãos da Polícia por tentativa de venda da própria filha, de 13 anos de idade, por pouco mais de 2.360.000 meticais a indivíduos não identificados.

Ainda em Tete, um casal caiu nas mãos das autoridades da lei e ordem por suposta tentativa de venda do próprio filho de dois anos de idade, com problemas de albinismo, por quatro milhões de meticais, em conluio com cinco indivíduos, supostamente por si contactados, e que receberiam cada 50 mil meticais de gratificação.

Segundo a corporação, o casal viajou do distrito de Dôa para o de Moatize, para concretizar o negócio, pois acreditava que era onde se encontravam possíveis e potenciais compradores.

Lurdes Ferreira, porta-voz do Comando Provincial da PRM em Tete, disse que caso o negócio tivesse saído conforme o planeado, os progenitores da criança pretendiam mudar-se para a cidade da Beira.

Estes são apenas alguns exemplos publicados na imprensa e nenhum deles foi mencionado no informe anual da PGR, como também não houve, publicamente, esclarecimento por parte da Polícia e do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC).

Beatriz Buchili disse aos deputados que em 2017 “não registámos casos de tráfico de envolvendo albino, contra sete de 2016”.

Ela apelou para a necessidade de aprovação de um plano nacional de prevenção e combate ao tráfico de pessoas, o qual deverá ainda viabilizar a materialização dos mecanismos de atendimento e acolhimento das vítimas.

sábado, 28 de abril de 2018

sexta-feira, 27 de abril de 2018

PAPIRO VIRTUAL 125


Roberto Rillo Bíscaro

O primeiro contato com Milton Nascimento foi quando o Fantástico apresentou Ponta de Areia, provavelmente em 1975, ano do lançamento do álbum Minas, contêiner da canção. Pode ser truque mnemônico, mas recordo direitinho do narrador explicando que Minas Gerais já tivera saída pro mar, contextualizando a letra e também da belezura do coro infantil e daquela vocalização inicial de Milton, que me extasia até hoje. Se tudo ocorreu assim, tinha então oito anos de idade (mas já era fã(nático) pela gritaria psicodélica de Gal Costa e tinha disco dos Secos & Molhados).
Embora sem comprar seus discos, a “turma de Minas” sempre me agradou mais do que a da Bahia ou qualquer outra invencionice mercadológica pra criar grupos e movimentos. Como amo Genesis e Yes acima de tudo, não estranha a preferência pelos beatlemaníacos do Clube da Esquina (embora eu mesmo nunca tenha amado Lennon e Cia.; sou pós-Liverpool).
Logo depois da remasterização do álbum Minas, no Abbey Road, um aluno de inglês me o emprestou. Conhecedor de canções soltas ou coletâneas, quase enfartei de emoção; que sofisticação, que coisa mais progressiva de viver. Não me surpreendeu, porque isso só ocorre quando não esperamos nada de algo/alguém. Desde 1975 sabia que Nascimento era muso, só não tinha condições de comprar os álbuns, porque tinha prioridades muito bem definidas e orçamento apertado. A internet democratizou acesso e hoje conheço muitos discos do povo do Clube da Esquina.
Tinha minhas assunções sobre essa formação cultural mineiro-cosmopolita, mas jamais lera estudo até deparar-me com Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980), tese de doutoramento de Luiz Henrique Assis Garcia, defendida em 2007, na UFMG.
Por se tratar de texto acadêmico, o historiador tem que brecar a História a fim de esmiuçar conceitos e justificar ideias, mediante uso de teóricos como Raymond Williams, Nestor García-Canclini, Angel Rama e Renato Ortiz. Mas, isso só torna seu trabalho mais útil, porque fazemos um 2 em 1: aprendemos ideias sobre cultura e as vemos aplicadas na história recente de nossa música popular, que em algum momento dos anos 60 teve parte chamada de MPB e outra porção bem maior, desqualificada de várias maneiras.
O trabalho de Assis Garcia identifica o processo de internacionalização da música popular com o avanço dos mass media ao redor do globo e identifica os efeitos que isso teve num Brasil que nos anos 60 estava polarizado em debates calorosos entre o “nacional” e o “estrangeiro”; o “popular” e o “erudito”; o “engajado” e o “alienado”. Havia canção de protesto com personagem-pescador, cujo autor sequer sabia pegar numa vara; havia a galera do Tropicalismo, que começara mansa e certinha, mas radicalizou usando psicodelia e guitarras como elementos de choque. Mas, que “enfrentava” o sistema amando aparecer nele o mais possível.
Enquanto isso, na provinciana-cosmopolita Belo Horizonte, grupo de jovens da classe-média usava todas as referências com as quais crescera, que ia desde música sacra à psicodelia e as sintetizava num som que, no começo rotulado de “misterioso”, passaria a ser bússola e compasso da hibridez de “bom gosto” que caracterizaria o pico comercial da MPB, que duraria a segunda metade dos 70’s até o advento do “rock” brasileiro dos anos 80. 
A tese não é uma história do Clube da Esquina, até porque a ideia duma confraria é mais conveniente constructo midiático do que realidade de “movimento”. A galera era amiga, gravava junta, mas cada um na sua, especialmente Milton, que bombou internacionalmente. Seria interessante ler algo sobre o lado B disso, ou seja, fricções internas, exclusões (será que não ficou alguém de fora do compadrio endêmico brasuca?), mas a colocada nos trilhos que proporciona o trabalho do fã confesso Garcia (não se pode perder isso de vista) é muito eficiente, eficaz, oportuna e interessante.
E olha que legal: Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980) pode ser lida/baixada gratuitamente, no site


quinta-feira, 26 de abril de 2018

TELONA QUENTE 233


Roberto Rillo Bíscaro

Embora estrelado por Emilia Clarke (a Dull- nerys Targaryen, de Game Of Thrones), Voice From The Stone não foi visto sequer por todos os familiares dos envolvidos. A Netflix brasileira apostou tão baixo na produção do ano passado, que a incorporou na sua grade, sem título brasileiro ou dublagem, num país que maciçamente prefere ouvir português a ler legendas (nada de errado nisso, aliás – legenda não é sinônimo de mais cultura).
Não deixa de ser uma pena, porque embora esteja longe de possuir grandes méritos, Voice From The Stone pode agradar a plateias mais velhas, acostumadas com lentos filmes antigos de terror psicológico da Hammer ou Amicus, desde que partindo do princípio que o filme de Andrew Shaw não acrescenta nada a esse cânone. Pelo contrário, falta-lhe espessura.
Nos anos 50, jovem preceptora inglesa que vai de casa em casa cuidando de crianças problemáticas, é contratada pra curar menino de 8 anos, que perdera a mãe e emudecera. A minúscula família vive num castelo enevoado na Toscana e sua fortuna viera duma pedreira, ora desativada. O pequeno vive com a orelha grudada nas paredes e rochas e logo Verena começa a suspeitar que algo de sobrenatural entranha-se nas pedras. Ela também passa a viver situações estranhas.
Voice From the Stone é desavergonhada rapinagem de todos os lugares-comuns da literatura e cine góticos e derivados. A protagonista de país protestante enrascada numa nação católica; serviçal de cara amarrada; velhinha misteriosamente afável (não precisei terminar sua primeira cena pra sacar o que era). Enfim, tem Mr. Rochester misturado com Edgar Alan Poe, acasalado com Os Inocentes (1961) rondando pelo Castelo de Udolpho.
O problema crucial é que nada tem profundidade, especialmente a protagonista Verena, que não possui nuanças e Clarke não é Nicole Kidman, é Dull-nerys. Isso, acoplado à morosidade da trama afugenta gente mais moça e fãs mais típicos de GoT.
Mesmo assim, continuo achando uma pena a falta de divulgação, porque Voice From The Stone é satisfatório pra quem gosta de filmes em locações velhas e lindas. Parece aquelas sessões de televisão que nós 50tões víamos nos anos 70, 80.
Se você não esperar muito além de passatempo e belas imagens chapadas e estiver com síndrome de abstinência por isso, Voice From the Stone merece chance. Não me entediei.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

CONTANDO A VIDA 230

SEGREDOS OCULTOS DA REPÚBLICA JUDICIÁRIA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Cansei! Juro, estou cansado. E não é só pela corrupção, pelos envios de mensagens odiosas, pelas piadinhas tolas e esgotadas na chave do humor, nem pela já rotineira continuidade do “mais do mesmo”. Não. A par das infâmias que temos que engolir diariamente, das animosidades explícitas e das perplexidades derivadas do equivocado caminho proposto pela judicialização da nossa frágil (consolidada?) democracia, o que assistimos é um show de exibição de egos perpetrados pelo conjunto narcisista do Supremo Tribunal de Justiça (STJ). Olhando o que temos, analisando a representação do time de magistrados na Corte, é difícil dizer se antes veio o ovo ou a galinha. Mais dificultoso ainda é a definição da ausência do galo nessa equação. Mas tudo fica ainda mais misterioso quando convocamos o equilíbrio dos poderes, os mesmos que Montesquieu em sua obra máxima, no tratado político intitulado O Espírito das Leis, de 1748, defendia um sistema de governo constitucional, onde haveria espaço para a separação dos poderes, a preservação das liberdades civis, manutenção da lei. Com isso definiam-se as regras das modernas Democracias, baseadas no equilíbrio e diálogo das partes constituídas. No papel tudo lindo, maravilhoso, digno. A transposição disso para a prática brasileira, no entanto, tem sido um desastre. Àqueles que se acostumaram com a discrição do Judiciário resta o espanto e a certeza da antevéspera de um caos que se anuncia. A beira do abismo nos aterroriza. A suspeita contra alguns dos componentes do Supremo Tribunal é suficiente para nos colocar no bloco dos desesperados. Temos razões de sobra para não crer. E até para chorar de tristeza. Esse arco espetaculoso, no entanto, tem uma história mal contada. Mesmo ante a certeza de que não se chegará a um veredito, cabe o esforço em denunciar um processo perverso e venenoso, muito composto. A famosa teoria da conspiração nos sugere algo que se articula na noite escura do encaminhamento para fechamentos políticos consequentes. Antes desbastou-se o Executivo. Depois o Legislativo. Agora é a vez do Judiciário. No primeiro caso, as denúncias contra um ex-presidente que se deixou corromper deram base para uma campanha que se vale de incautos, palha inflamável, para sugerir que todo e qualquer mandatário é um corrupto potencial. Depois o encaminhamento generalizador do compadrio legislativo possibilitou, em nome da governabilidade, estreitamento de um tecido contaminado por acordos escusos, trocas de favores e verticalização do poder pessoal em currais eleitorais. Tudo muito teatral e transmitido ao vivo e a cores por empresas interessadíssimas na defesa do que Jessé de Souza tem chamado de “elite do atraso”. Incentivar uma população embraveada é fácil, inda mais quando se coloca em suas mãos instrumentos eletrônicos que tudo aceitam. 

Na sequência mais ou menos histórica dos acontecimentos, no momento que atravessamos, temos o Judiciário cumprindo seu papel de preposto absoluto, quase exclusivo, da ordem política. Apoiado em supostos legítimos que consagram o Direito como base dos pactos sociais, juízes, promotores, desembargadores e demais entes togados são autenticados como filtros de processos capazes de promover epifanias redentoras do desastre governamental em que estamos metidos. E então, as tais entidades de divulgação ou de formação de opinião, se alçam no dever de revelar tudo, não de qualquer jeito, mas da forma que lhes convém. Jogando na lata do lixo mais contaminado que se possa imaginar, o princípio sagrado da máxima “o juiz apenas deve falar nos autos” o princípio é sempre transformado em show público, destinado a uma plateia vulnerável a jargões jurídicos. E tudo vira uma comédia da vida pública nacional. Nem é preciso grande esforço para lembrar que a discrição e privacidade dos juízes são sagrados. Pelo contrário, o que se vê é a projeção alardeada de egos incontidos. Como pop stars, hoje os tais membros do Judiciário dão entrevistas, são convidados para talk shows, são aplaudidos e/ou vaiados em andanças por aí. Suas opiniões, imaginem, chegam às casas de apostas e mesmo antes de suas manifestações em Plenário, têm os votos revelados e difundidos. Isso, para os cultores da democracia é um acinte, uma vergonha, uma afronta.

Frente ao frenesi que toma conta da cena nacional, pensar no Judiciário que temos, vale perguntar: mas qual o fim disto? Ou por que as coisas estão assim? E, mais: onde se quer chegar com essa parafernália? E não há como evitar respostas sugestivas de novos terrores. Se o Executivo não presta, se o Legislativo é corrompido e viciado, se o Judiciário está expondo tantas mazelas ridículas e, assim, se tornando vulnerável, qual o próximo passo? O que resta? É nesta linha que entra outro perigoso argumento: Ah! tudo se resolverá nas próximas eleições. Ou, se soubermos votar, teremos uma saída. É lógico que se saúda o processo eleitoral. Claro. Mas ele não significará muito. E como o prazo de reordenamento do país é um processo lento, longo, penoso, alguns evocam a suspenção dos Três Poderes que, afinal, estão como estão. Para mentes imediatistas e sem memória, para tantos que supõem a ordem pela imposição de regras disciplinares, alternativas autoritárias são mais do que plausíveis, queridas e necessárias. Nada mais antidemocrático. Pensemos...

terça-feira, 24 de abril de 2018

TELINHA QUENTE 306


Roberto Rillo Bíscaro

Não me lembro onde, mas há algumas semanas vi algo do tipo “cinco séries da Netflix pra quem gosta de política” ou algo do gênero. Pode ter sido num feed que assino com os lançamentos do serviço de streaming, que tem as 6 temporadas da criação de Shonda Rhimes. Não importa onde, mas Scandal educa tanto sobre política como postagens do MBL.
Os EUA governados por uma organização secreta paramilitar chamada B613 têm uma Republicana na presidência, vice-presidida por um Democrata abertamente gay e cujo governo luta por agendas socialistas, como controle de armas de fogo e educação superior gratuita. E ainda sobra tempo pra fazerem tanta sujeira que nem cinco Lava Jatos dariam conta e pra deixarem pra trás pilha de defuntos de humilhar qualquer série slasher. Scandal sempre foi escandalosamente soap opera, não tem nada de “seriedade” política. Quem quer isso, veja Borgen.  
Em seus 18 capítulos finais, Scandal mostrou tons de Olivia Pope, que nós que assistimos à série a despeito dela, já sabíamos desde sempre: sua hipocrisia de redentora do mundo não passa de fina casca de autoritarismo. Claro que a heroína afrodescendente não poderia terminar passando essa mensagem, então, ao final, Liv é a luz, é a que conserta tudo. Com forte simbologia no branco, numa série que finge empoderar os negros. Scandal é pra rachar de rir.
Considerando-se toda a tensão e o perigo tentacular que parecia emanar da ubíqua B613, o desfecho é tolo e sem graça, com uma morte injustificável, mas quem disse que Scandal alguma vez foi “cabeça” e não tola?
Tudo isso posto, Scandal fechou com chave de diamante; a temporada foi viciante como de costume e Cyrus chegou a me fazer pensar em torcer contra ele dessa vez, porque foi ruim demais. Ainda mais quando Mellie está na outra ponta. E não é que a situação da primeira presidenta norte-americana pode guardar paralelos com certa nação sul-americana, pra qual a “política” de Scandal não é tão ficcional assim, afinal? Coitado desse país bananeiro; que parece folhetim farsesco. Mas, em Scandal, que é ficção, é uma delícia!

segunda-feira, 23 de abril de 2018

CAIXA DE MÚSICA 311


Roberto Rillo Bíscaro

Duas de minhas canções pop brasileiras favoritas são Superafim e Meeting Paris Hilton, do Cansei de Ser Sexy. Antenados devem se lembrar de quando a banda paulistana era hipster, tendo seus álbuns resenhados em publicações como Pitchfork e Consequence Of Sound, excursionando pelo mundo e até entrando no Top 100 da Billboard.
Tudo ia colorido no mundo new rave até que Adriano Cintra anunciou sua saída, em 2011, e abriu a boca do esgoto: não suportava mais o estrelismo e falta de perícia musical das companheiras do CSS, além de lembrar aos sabe-nada-inocentes que banda é empresa, com salário e até licença-saúde, que o empresário pode encasquetar de não pagar, daí tem que ir pro pau, como qualquer trabalhador mortal.
Não é segredo pros leitores que meu mundo é mais de rock progressivo e soul music, então, sei que Cintra formou o Madrid, mas perdi tudo de vista. Pra escrever isso, descobri que o CSS parece congelado no âmbar, mas Madri continua sendo a capital espanhola.
Encontrei-me com a carreira-solo de Cintra, quando baixei o álbum Nine Times, lançado em agosto do ano passado. Li que havia alguma influência anos 80 e isso me interessou, porque leitores também sabem o que representa pra mim aquela década.
Embora não soe datado, pois Adriano deve beber em fontes eletro euroianques de sua geração, o homogêneo Nine Times não é nada alienígena a ouvidos oitentistas. Há sonoros quês de The Cure e Depeche Mode nos arranjos sóbrios e discretos dum álbum que prioriza lentas (Collateral Damage) e midtempos. A única dançável é o encerramento Mouth, cuja vibe agradará tanto à geração pós-rave, quanto dinossauros fãs da boa e velha New Order.
Cintra tem ouvido ótimo pra compor pops grudentos, como a deliciosa faixa-título e a maior parte do álbum. Ele meio que faz um mea culpa pelo bafão armado com suas ex-amigas, em So Sorry e em Your Crazy Eyes contrasta o gelo de teclados com a brasa lúgubre dum baixo gótico. Mesmo lá pelo final do álbum, que tem 13 faixas, quando a mesmice ameaça, as canções são simpáticas, como Nevermind Me e Backfiring.
Não há maus momentos em Nine Times, outra de muitas provas de que a música do Brasil (mesmo que toda cantada em inglês) está longe de se restringir à sofrência ou arroubos de macheza alcoolizada, que toca nas rádios.
E também não tem como dizê-la inacessível, posto estar disponível de graça, no site de Adriano Cintra.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

ESPINHO NO CAMINHO ALBINO

Um ESPINHO cravado na história
Adoro filmes sobre vampiros. E não estou falando apenas da Saga Crepúsculo. Atualmente eles são retratados com charme, elegância e muito, muito poderosos. Na vida real, de fato não existem, mas, uma mutação genética totalmente inofensiva para quem não a possui, ainda causa muitos danos ao portador, por alguém, em um passado longínquo, ter associado as características físicas de um albino com os hábitos de um vampiro, ou de seres mágicos. São um espinho cravado na história.

Apesar da tecnologia parecer ter transformado o mundo em uma aldeia global, infelizmente, são só aparências.

A intolerância, filha do preconceito, ainda é uma nódoa na história passada e recente da humanidade. Aliada às superstições gera os comportamentos mais bizarros e cruéis, como a situação dos albinos em aldeias da África, especialmente, nas seguintes localidades: Tanzânia, Malawi, Moçambique, República Democrática do Congo, Quênia, Nigéria e Burundi.

A superstição local diz que os albinos devem ser mortos e seus corpos divididos em partes para servir de amuleto, pois, sendo seres mágicos, cheios de poderes sobrenaturais, confeririam proteção e fortuna a quem os usasse como talismãs. As partes mais valorizadas são: dedos, língua, braços, pernas e genitais.

Aparentemente, os poderes sobrenaturais não protegem seu dono.

São caçados como animais valiosos, o que torna a situação mais cruel ainda, pois, esses países situam-se nos primeiros lugares da escala de miserabilidade, tornando esse comércio tão lucrativo e bizarro ao mesmo tempo.

Por coincidência macabra, nessas regiões a ocorrência de albinismo é cinco vezes maior que a média mundial. É muito comum, logo após o nascimento, os pais não assumirem as crianças albinas, deixando-as entregue às mães ou ao abandono precoce. Muitos pensam que se a mulher der à luz um filho albino, foi porque dormiu com um branco. Muita gente associa o albinismo com uma doença contagiosa. Outros juram que a AIDS se cura praticando sexo com uma albina.

A única coisa que eles têm que adquirir rapidamente, diferente de quem não possui o albinismo, é aprender a correr do sol. Fora isso, são pessoas absolutamente normais.

Falando sobre sol, Peter Ash, albino e canadense, há tempos vem lutando para que a vida dessas pessoas, especialmente na África, onde é grande o índice de superstição e de pessoas inocentes sendo brutalmente assassinadas, seja preservada. Ele possui uma ONG intitulada Debaixo do Mesmo Sol que luta para garantir o direito de viver dos albinos em situações de risco.

Fato: é mais fácil encontrar um albino do que uma pessoa bem informada sobre essa anomalia.

O albinismo ocorre pela ausência parcial ou total de uma enzima, a tirosinase, envolvida na síntese da melanina. A capacidade de produzir melanina é determinada geneticamente. Quando há mutação, os olhos, a pele e os cabelos são afetados. Por isso, os albinos têm cabelos loiros ou brancos, pele e olhos claros. É uma condição hereditária que aparece com a combinação de genes, podendo manifestar-se nas seguintes formas:autossômica recessiva, autossômica dominante, ou ligado ao cromossomo X (quando afeta apenas indivíduos do sexo masculino).

Essa condição, que pode provocar problemas na pele e deficiência visual, afeta todas as etnias (veja o blog http://paporeto2017.blogspot.com.br/2016/10/albinismo-curiosidades-e-belas-imagens.html com fotos de pessoas albinas de diversas partes do mundo), animais e plantas (nesse caso é a ausência de clorofila). A prevalência dos diferentes tipos de albinismo varia conforme a população.

Os principais tipos de albinismo são: Oculocutâneo (completo ou total) – em que todo o corpo é afetado; Ocular – somente os olhos sofrem da despigmentação;Parcial – o organismo produz melanina (ou corantes, se no vegetal) na maior parte do corpo, enquanto em outras partes isto não ocorre como, por exemplo, nas extremidades superiores (não confundir com vitiligo).

Os portadores sofrem de transtornos visuais, fotofobia, movimento involuntário dos olhos (nistagmus) ou estrabismo e, em casos mais severos, podem chegar à cegueira. A exposição ao sol não produz o bronzeamento, provoca queimaduras de graus variados.

No albinismo ocular, uma versão menos severa desta mutação, apenas os olhos são afetados. Nesta variedade do albinismo a cor da íris pode variar de azul a verde e, em alguns casos, castanho-claro, cuja detecção se dá mediante exame médico. Nestes casos a fóvea (responsável pela acuidade visual no olho) tende a desenvolver-se menos pela falta da melanina, que cumpre um papel central no desenvolvimento do olho nos fetos.

Os albinos sofrem consequências devido a falta de proteção contra a luz solar, particularmente, na pele e nos olhos. Isto posto, muitos preferem a noite para desenvolvimento de suas atividades, daí o nome “filhos da lua” e a triste associação, no passado, a vampiros. Muitos albinos humanos sofrem dificuldades de adaptação social e emocional.

Os albinos envelhecem precocemente e, quase sempre, morrem pela incidência de câncer de pele, que lhes obriga cercar-se de alguns cuidados, dentre os quais, a exposição ao sol. Se receberem orientação desde tenra idade, sobre a importância dos cuidados especiais com a pele, o albino pode aumentar a perspectiva de vida.

O albinismo é um problema de saúde pública negligenciado no Brasil. Embora não seja uma doença, se não cuidar, pode reduzir drasticamente a expectativa de vida do portador. Não existe nenhuma estatística no país que aponte o número de albinos na nossa população. Sabemos quantas geladeiras ou televisores os lares brasileiros comportam, quantas pessoas assinam TV a cabo, mas, não sabemos quantos albinos existem, o que seria possível através do senso praticado anualmente. Ou seja, são invisíveis.

No Brasil, Marcus Maia, coordenador do Programa Nacional de Controle do Câncer da Pele, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), estima que existam entre 10 e 12 mil albinos, embora não haja estatísticas oficiais (o IBGE claudica neste assunto). Ele é idealizador do Pró-Albino, um projeto-piloto de assistência e tratamento de albinos.

No Estado do Maranhão, na Ilha dos Lençóis Maranhenses, um pequeno e afastado lugarejo é conhecido pela alta densidade de habitantes albinos. Populações isoladas e altamente desassistidas tendem a manter relações consanguíneas, o que favorece o aparecimento de genes recessivos, caso de um dos tipos de albinismo.

É, também, o caso de índios guaranis e caigangues que habitam reservas no norte do Rio Grande do Sul. De acordo com a Funai (Fundação Nacional do Índio), a prática de perseguição aos albinos não foi observada na comunidade indígena brasileira. Atualmente, com verba da Funasa, a comunidade conta com suprimento de filtro solar e óculos anuais, consultas periódicas com oftalmologistas em Passo Fundo e exames pré-natais entre as gestantes.

É de extrema importância o conhecimento para evitar superstições e perseguições a pessoas inocentes, que tiveram o infortúnio de nascer com uma mutação que pode ser observada por qualquer um, pois, todos nós possuímos mutações, mas apenas nós sabemos. Ou, AINDA, não sabemos, porém, quando descobrirmos, ficará circunscrito a um universo restrito de pessoas.

O albino não tem essa opção.

Esse artigo me fez lembrar uma pessoa muito importante. Negra como a maioria dos albinos: Martin Luther King. Ele disse coisas fantásticas, mas uma frase em especial serve para tantos momentos, inclusive esse:

“Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos.Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.” 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

TELONA QUENTE 232


Roberto Rillo Biscaro

Fazia tempo que não rolava dobradinha na seção, né? Então, vamos de filmes chilenos, ligados não apenas pela nacionalidade, mas pela questão da paternidade e por estarem no catálogo da Netflix.
As semelhanças acabam aí, porém, porque um é suspense trash, com cena que dá até pra ver a câmera refletida num quadro, enquanto o segundo é delicado e comovente comentário sobre a vida após a perda dum filho.


Madre (2017) é a contribuição chilena pras narrativas exploitation, que colocam o estrangeiro/imigrante como ameaça à tradicional família. A América Latina sempre exotizada em filmes euronorteamericanos se vinga, colocando as Filipinas nessa posição. Vingança colonial ou briga de comadres colonial?
Diana está grávida e não dá conta de tantos afazeres, além de cuidar do agressivo filho autista, nada parecido com os de séries inclusivas norte-americanas tipo Parenthood e Atypical. Martin parte pra porrada e cospe sopa quente na fuça da mãe.
Num casual encontro no supermercado, a dona-de-casa desesperada conhece Luz, que acalma a fúria de Martin. Contratada como babá e faz-tudo o mais, bem ao estilo latino-americano de relacionamento patroa-empregada, logo Diana começa a suspeitar que está sendo caçada pela friamente submissa filipina, que insiste em conversar com Martin no idioma de sua terra natal.
Madre não é nenhuma obra-prima original, mas tem cheiro de trama de pactos demoníacos da virada dos 60’s até meados dos 70’s. Faltaram grana e roteiro mais azeitado, mas do jeito que tá, dá pra se divertir, e o final é bem do tipo que geraria e-mails de advertência, tipo daqueles que contavam que alguém acordara numa banheira cheia de gelo, mas sem os rins ou fígado ou pleura, quem se importa?

Excomungar-me-ão por colocar Madre ao lado do profundo e sensível La Memoria del Agua (2015), mas as dobradinhas não se propõem a equivaler produções.
Javier e Amanda separadamente lidam com o luto pela morte do filho, até que se encontram após uma nevada, evento favorito do finado Pedro.
O filme consiste das (inter)ações cotidianas das 2 personagens e provavelmente só agradará aos acostumados a roteiros que não se baseiam no efeito dominó do drama. Mas, sabemos que tudo é informado pelo desespero agônico de haver perdido um rebento; segundo muitos, a dor mais devastadora pela qual pode passar um ser humano. Daí que quando Javier dança numa discoteca, a música que ouvimos é triste e não o bate-estaca que motiva seus movimentos. La Memoria del Agua nos chama pra entender o casal e pode ser lancinante, quando a pobre Amanda inadvertidamente tem que começar a fazer tradução simultânea duma conferência, onde uma seção descreve como o corpo reage durante um afogamento.
Elena Anaya e Benjamin Vicuña estão impecáveis, num filme quieto e brutal, no diálogo final entre o ex-casal. O argumento de Amanda é duma dor descomunal, mas faz todo o sentido.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

CONTANDO A VIDA 229



SOMOS TODOS SACIS... SOMOS?...

José Carlos Sebe Bom Meihy
Muitos acompanham o esforço de grupos que valorizam a originalidade do chamado folclore nacional. Os mais entusiasmados preferem até dizer “mitologia brasílica”, evocando diretamente Monteiro Lobato no arguto empenho de caracterizar algumas tradições como fundamento do nosso nacionalismo. Desde a publicação do primeiro livro do escritor taubateano “Sacy –pererê: resultado de um Inquérito” (anterior a “Urupês” que saiu no mesmo ano, em 1918), ficou estabelecido o uso de comemorações folclóricas como referência identitária. Essa prática, aliás, foi comum a vários estados nacionais no século XIX, e teve seu auge no nazismo, momento em que Hitler exponenciou as lendas como base da autenticidade cultural germânica. É conveniente lembrar que diversos países, à época, escolheram seus tipos padrões e em locais como o México, o sombrero foi eleito como marca, assim como na Espanha a dançarina de flamenco e o touro, e, em Portugal o bigode e a Torre de Belém. Por lógico, os ritmos musicais também acompanharam a tendência e assim como o samba, a rumba, a cúmbia, o tango, o fado, se apresentaram como atestados icônicos de “nações”. Ao mesmo tempo, os símbolos nacionais como bandeiras, brasões, cores combinadas e hinos passaram a ser cultivados como prova de amor à pátria. Até hoje tal tradição vigora, e as raízes autoritárias insistem nas mesmas práticas ditas “patrióticas”. É fácil perceber posicionamentos políticos autoritários apoiados no uso dos símbolos nacionais com exaltação à bandeira, ao hino, às cores verde e amarelo.   
Entre nós, o funcionamento destas tradições inventadas teve sequência histórica original. De largada, o Saci virou moeda de troca de tradições reaquecidas no projeto modernista brasileiro, em particular da década de 1910 e seguinte. Autores como Lobato, Mario e Oswald de Andrade, entre outros, trataram de caracterizar o que seria nacional/brasileiro, ainda que segundo orientações ideológicas diferentes. E nesse arco se deu o constructo da identificação de “coisas nossas”. Com o passar do tempo, o Saci advindo de lendas difusas, abstratas, foi se reorientando até se transformar em uma espécie de atestado do que somos: bonzinhos, gentis, meio malandros, dóceis. Esse sutil ponto gregário teve, contudo, longa estrada, pavimentada por situações que levaram a uma orientação cultural capaz de dar sentido e forma a figuras que passaram a nos representar. E foi por ocasião do “Inquérito sobre o Saci” (1917/18) que tais condições se materializaram. Lobato ao reunir narrativas contadas por leitores do Jornal O Estado de São Paulo, assinalou um ponto de inflexão entre a oralidade e a escrita, apresando nesta as variações do “diabrete”. Publicado o “Inquérito”, em 1921 outro livro, dessa feita, para crianças “O Saci” no qual estavam caracterizadas as imagens figuradas do Saci com algumas marcas que permaneceram: uma perna só, negro, com um pito na boca e gorro vermelho.
Também foi Monteiro Lobato o primeiro a adocicar o Saci que, de diabólico, foi logo tratado como malandrinho e, de mau, perverso, sinistro, virou arteiro, traquinas, enfim, brasileiro como todos nós. Mas, desde o início e promovido pelo próprio criador da figura do Saci moderno, as transformações continuaram até que ele acabasse por ser um dos recursos pedagógicos, lúdicos, mais usados em escolas para crianças. Fica claro, pois, que a maneira política de apropriação do Saci foi das estratégias mais eficientes de nossa cultura, e o uso do ente simpático virou questão pedagógica, postas à mesa da manipulação ideológica da sociedade que, afinal, deveria ser guardiã das transformações. Juntamente com a simplificação para crianças, no universo adulto, o Saci continuou sua trajetória, chegando mesmo a ser adotado como mascote de time de futebol (Grêmio). Convém, aliás, lembrar que tal estratégia ganhou foros de debate público nacional quando Mouzar Benedito, em 2014, o propôs como símbolo da Copa do Mundo e Juca Kfouri o refutou. Isso sem falar de referência a escolas de samba, nome do foguete interplanetário brasileiro, marcas de furadeiras, e de alimentos e bebidas, denominação de estabelecimentos comerciais.
Mas há outro ângulo interessante colado nessa reflexão. Ao mesmo tempo em que Lobato colocava na cena nacional tais situações, alguns dos ensaios fundamentais da brasilidade ganhavam respeitabilidade acadêmica. Duas propostas, ou mitos, vigiram preferências: a democracia racial (Gilberto Freyre) e o homem cordial (Sérgio Buarque de Holanda). Desdobramento natural desses pressupostos, o tal do jeitinho brasileiro de ser (Roberto DaMatta) ganhava corpo explicativo de nossas alternativas comportamentais. Nesse sentido, é cabível a pergunta: mas como o Saci figurou nessa história? E a resposta caminha pela identificação com os atributos que, hipoteticamente, nos distinguem: uma sociedade sem luta de classes, com aceitação racial transitável, bem como cruzamentos de gênero e religião. E vejamos que o Saci serve para tudo, em particular por mostrar que de negro ele se torna mulato, de violento ou ruim, vira bonzinho, de feio ou apavorante, se transforma principalmente em bonequinho feito para crianças. Como se vivêssemos em uma democracia racial, cordialmente teríamos fatores para negociações que, afinal, nos exibem como sem lutas, guerras, conflitos. Pensando nas metamorfoses do perneta cabe perguntar: Saci nos representa? Somos todos Sacis?

terça-feira, 17 de abril de 2018

TELINHA QUENTE 305


Roberto Rillo Bíscaro

Celtic Noir surgiu na esteira do sucesso do Nordic Noir. Climática, geográfica e até étnica/culturalmente, o norte britânico é bem similar à Escandinávia. O caso do arquipélago de Shetland é exemplar: pertinho da Noruega, as ilhas pertenciam àquele país, antes da anexação pela Escócia no século 15.
A quarta temporada de Shetland (2018) paga o tributo merecido que o Celtic tem que prestar ao Nordic Noir, através da inclusão de radicais de extrema direita noruegueses. A coisa deve estar fermentando por lá, porque duas recentes séries suecas também ressaltam neonazis/reaças. Tempos sombrios como a belíssima cinematografia gélida e cinzenta desses Noirs nortistas. Se bem que, com a espécie humana no comando, qual tempo não tem sido sombrio?
Acertadamente, a série da BBC manteve o formato adotado na terceira temporada: meia dúzia de episódios dedicados a um só caso, então há pistas falsas e becos sem-saída.
Imediatamente após Thomas Malone ter sido liberto depois de cumprir 23 anos por um assassinato que talvez não tenha cometido, uma jornalista local é encontrada morta no mesmo local e de forma similar ao crime pelo qual Malone fora condenado. Será que foi ele mesmo que estrangulou Lizzie e Sally ou há segredo enterrado na pequena capital de Shetland, Lerwick?
Amo diversos DIs, tipo DI Chandler, DI River, DI Hardy, DI Mathias, sem contar os internacionais que têm funções símiles, mas denominações às vezes distintas, tipo Sara Lund, Saga Norén, Wallander, MartinRohde. São tantos, mas DI Jimmy Perez pode ser meu predileto. Sem nenhum dado externo que lhe confira certa doideira/patologia, Perez é precisamente o sujeito que não tem quase vida fora do trabalho. Deve ser frustrado e faminto sexualmente, porque nas 4 temporadas nem esboço de interesse romântico apresenta; sua vida emocional parece ser inóspita e gelada como a das Shetland. E Douglas Henshall interpreta isso de modo que de vez em quando dá vontade de abraçar DI Perez, apenas porque ele se apoiou numa parede e disse OK.
Não há perspectiva de alegria em Shetland, a série. O sexto capítulo também paga um tributo: a também britânica Broadchurch é uma das grandes séries da década, especialmente sua temporada um e o final de Shetland ensaia rota de colisão com sua colega da ITV. É de despedaçar o coração e molhar os olhos, e quando você acha que a justiça foi feita, o roteiro te joga na fuça que aquilo não é policial procedural pra fazer digestão; aquilo é sombrio.
E enquanto você deixa os créditos finais rolarem, porque ainda não está em condições físico-psicológicas sequer pra segurar o controle-remoto, o narrador da BBC anuncia que Shetland voltará ano que vem pruma quinta temporada. Quem conseguir explicar/nomear a sensação misturada de tristeza, alívio, felicidade, hipnose e êxtase que esse alegre anuncio desperta depois da exaustão emocional do fim, me ajude a compreender o masoquismo de amar tanto um show tão devastador. 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

GASPAR CONTA SUA HISTÓRIA

Gaspar ZL é uma das pessoas com albinismo mais "exibidas" do Brasil, tendo vídeo de rap no Youtube, participado de programas de TV e do internacional livro de fotógrafo Gustavo Lacerda. 
Seu mais recente projeto é um documentário onde conta experiências de como é ser albino. Como ele diz, sem coitadismo.
Muito legal, assistam!

CAIXA DE MÚSICA 310


Roberto Rillo Bíscaro

Filha do roqueiro cinquentista/sessentista Marty Wilde, Kim Wilde estreou em 1981, com o single Kids In America e daí em diante tem tido carreira com altos e baixos. Nunca foi estrela de primeira grandeza global, mas alcançou altas posições em paradas euro-nipo-australianas e já abriu turnês pra majors como Michael Jackson e David Bowie.
A britânica expandiu suas atividades e tem se mantido na mídia B não apenas porque de vez em quando lança música, mas também como autora de livros de jardinagem e apresentadora de programas sobre. Há uns cinco anos, um vídeo viralizou no Youtube, mostrando Kim meio inebriada no metrô londrino cantando Kids In America.
Não me lembro de conhecê-la nos anos 80, a não ser ter ouvido nalguma FM, em 87/88, sua versão pro clássico das Supremes, You Keep Me Hanging On, mas sem saber de sua história. Herege por vocação, prefiro sua versão à de Diana Ross e amigas e no século XXI me inteirei de sua produção pré-87, quando Blondie era a influência mor, depois substituída por Madonna (o que não deixa de ter DNA Debbie Harry). Canções como You Came passaram a integrar minha memória afetiva dos 80’s, como se eu as tivesse amado na época.
Alguns brasileiros reclamam que o país não tem memória, não valoriza seus artistas mais antigos (as mesmas pessoas que também não buscam informação sobre, só mimimizam). Parece que o Reino Unido é igual: há décadas os álbuns de Kim Wilde não saem em sua terra natal.
A exceção fica por conta do lançamento de março deste ano. Porém, não vi resenha/crítica do eficiente Here Come the Aliens em nenhum órgão noticioso maior, tipo BBC ou The Guardian. Pelo menos este último trouxe entrevista onde Kim afirma que talvez os ETs do título a estejam usando pra lançarem um álbum. Querida, eles usariam alguma estrela atual, com verdadeira penetração midiática global, acredite.
Zoação a parte, isso é frase de efeito pra tentar aparecer mais, especialmente porque precisava divulgar sua primeira turnê-solo britânica em 3 décadas. Além disso, Wilde é tão simpática e o álbum tão gostoso, que pode dizer (quase) o que quiser.
Com capa-homenagem aos filmes de ficção-científica dos anos 1950, Here Come The Aliens traz uma dúzia de canções pop, quase unanimemente eficazes e até pegajosas, cantadas por uma voz que ou está preservada em formol ou foi tratada em estúdio. Parece a mesma dos 80’s!
Sem perder o pé na década que a pariu e à qual pertence sua base de fãs, o power pop de Wilde e seu irmão Ricky é mais enraizado na fase Blondie do que na Madge e as guitarras de vez em quando comem soltas, como na abertura 1969 ou em A Different Story. E não é porque o público restante de Kim deva ser prioritariamente cinquentão que não posso balançar o traseiro com popões com temática atual como Kandy Krush, referindo-se ao popular jogo e a Cyber Nation War, meio industrial carmina-burânica, sobre recalcados que se aproveitam da internet pra destilar seu ódio.
Pop Don’t Stop é dueto com o mano Ricky, cujos acordes de abertura farão os mais idosos se lembrarem de Video Killed The Radio Star, antes de se transformar no que sugere o título: pop viciante. Yours Till The End tem reconfortante clima Duran Duran, com baixo gordíssimo à The Promisse, do Arcadia e um lalala que você pode tentar substituir por ‘the reflex” de vez em quando pra se divertir. Stereo Shot remete ao Johnny Marr, de How Soon Is Now. Solstice é o tipo de balada que iluminaria estádios com isqueiros, em 1987, mas soa contemporânea pela produção. Here Come the Aliens enfileira delícias po(l)pudas como Birthday e Addicted To You, que imploram pra serem dançadas.
O único defeito é Rosetta, a faixa de encerramento. São quase 5 minutos de sensaboria pseudo-etérea que acaba anestesiando a sensação de um álbum até então tão bom, competente e vibrante. Minha versão de Here Come the Alien ficou sem, porque assim termina com Rock the Paradiso, que chega até a ensaiar abertura meio neopsicodélica à The Mission/The Cult.

domingo, 15 de abril de 2018

“NOSSA BEBÊ NASCEU COM O CABELO BRANCO COMO A NEVE”


Veja a seguir o emocionante relato dos pais de uma bebê que nasceu albina

A mãe Taylor Dunnavant ficou bem surpresa assim que sua bebê nasceu. Isto porque a pequena Noralynn Kay nasceu bem cabeluda, mas seus fios eram brancos como a neve! A bebê é albina, mas o diagnóstico demorou um pouco para ser feito. “Após 15 horas de trabalho de parto, eu estava exausta, mas eu sabia que ainda tinha que dar à luz. Nossa menininha estava vindo! A enfermeira me assegurou que se eu fizesse mais uma força por 5 minutos, minha filha iria nascer. Então assim foi, eu fiz força e então a enfermeira olhou para mim e disse: ‘Ela tem bastante cabelo!’. Eu já imaginava, afinal, nossa primeira filha nasceu com uma vasta cabeleira preta. Quando a enfermeira me disse isso, eu fiquei muito animada e pensei: ‘Será que o cabelo dela será preto como o do pai ou ruivo como o meu?’”, contou Taylor em entrevista ao portal Love What Matters.

Então a pequena nasceu! “Chegou a hora e após uma última força, minha filha nasceu e ela foi para meu colo. Noralynn Kay havia nascido! E quando colocaram ela no meu colo, tudo que eu consegui notar foi que ela de fato tinha muito cabelo, mas seu cabelo era branco como a neve!”, recorda-se Taylor.

Após ficar um pouco no colo de Talyor, a bebê ficou sob os cuidados da enfermeira para ser limpa. “Então, todos os pensamentos começaram a vir na minha cabeça: Como ela tinha cabelo branco? O que causa cabelo branco? Minha bebê é albina? Será que ela está bem? Eu comecei a tremer muito. A enfermeira disse que era por causa do parto, mas eu acho que foi de nervoso mesmo, eu estava muito preocupada com minha filha”, contou Taylor.

O cabelo da pequena Noralynn se tornou o assunto da maternidade. “As enfermeiras vinham para nosso quarto só para vê-la. E então as pessoas começaram a perguntar: ‘De onde veio o cabelo branco?’ ‘Ela é albina?’ ‘Alguém na sua família é albino?’. Eu não estava preparada para todas essas perguntas e toda essa atenção. Até então, tudo que nosso pediatra havia nos dito é que precisávamos ver um especialista para saber se nossa filha era albina ou não. E essa resposta dele me deixou bem irritada. Eu queria respostas! Eu queria saber se minha filha teria algum problema de saúde, se ela estava bem…”

Outra preocupação de Taylor era como explicar para sua filha mais velha, de 5 anos, o cabelo da irmã. “Mas quando ela conheceu a irmã, vi que esta preocupação não fazia sentido nenhum. Assim que olhou para a irmãzinha minha filha disse que ela era parente da princesa Elsa do Frozen! E pronto! Crianças realmente não julgam as diferenças!”.

Então, algumas semanas após o parto, Taylor e seu marido se consultaram com um médico especialista. “O médico examinou o cabelo, os olhos e a pele da nossa filha. E então nos disse: ‘Eu suspeito de albinismo, mas teremos que fazer um exame de sangue para descobrir qual tipo ela tem’”.

Esta informação deixou Taylor ainda mais preocupada. “Meu coração disparou: como assim um tipo? E eu não sabia nada sobre albinismo! O que significa ter albinismo? Mas então a especialista nos explicou muita coisa. Ela disse que o cabelo de nossa filha provavelmente ficaria branco pela vida toda, podendo ganhar algum pouco pigmento com o passar do tempo. Seus olhos continuariam prateados e um pouco vermelhos e ela provavelmente precisaria usar óculos, pois sua visão não deve ser muito boa. Ela também pode ter alguns problemas de audição e teremos que ter MUITO cuidado com o sol. Porém, tudo isso pode ser cuidado e minha filha poderá ter uma vida muito saudável! Esta informação me deixou tão tranquila! Minha filha é saudável, só é um pouco diferente”, recorda-se Taylor.

Desde o nascimento da pequena Noralynn, Taylor e seu marido estão aprendendo muito sobre albinismo. “Hoje eu fico chateada por ter ficado tão preocupada sem necessidade nenhuma. Hoje eu sei que tudo vai ficar bem! E eu, meu marido e minha filha nos sentimos muito abençoados por ter Noralynn em nossas vidas. Ter uma filha albina abriu meus olhos de maneiras muito diferentes. Ela traz alegria a todos”, concluiu Taylor.





https://www.google.com/url?rct=j&sa=t&url=https://bebemamae.com/mamae/nossa-bebe-nasceu-com-o-cabelo-branco-como-a-neve&ct=ga&cd=CAEYACoTNzk0OTI2MjkxODU5ODg2Njk2MzIaNTdiYTc5NjE1MGVlMDRiNDpjb206cHQ6QlI&usg=AFQjCNEs9fZbhNBPKBw4qTd3l1mL5rFlaQ

quinta-feira, 12 de abril de 2018

TELONA QUENTE 231


Roberto Rillo Bíscaro

Produções artísticas de toda sorte ambientadas em mundo pós-apocalipse nuclear estão longe de ser novidade. Mas, no início dos anos 1950, quando o mundo ocidental ainda estava meio maravilhado com as potencialidades atômicas, um filme que acenasse com essa possibilidade de fim de mundo era novidade.
Possivelmente, o primeiro filme ambientado no pós-holocausto foi o semiesquecido Five (1951), escrito, produzido e dirigido pelo veterano do rádio Arch Oboler, que depois o vendeu pra Columbia Pictures distribuir.
O torvelinho de produções indie da década é um dos resultados do fim do monopólio dos grandes estúdios sobre o exibido nos cinemas, que no fim dos anos 40 não necessitavam mais depender apenas do mandado/ditado pelas MGMs da vida. Com ótima infraestrutura, bastante gente com dinheiro pra investir e circuito de exibição cada vez mais abrangente, produções de parcos 75 mil dólares como Five abundavam. Claro que vender pra grande estúdio era vantajoso pras indies, porque algum lucro era garantido. Era aquela coisa: os cinemas não mais eram obrigados a exibir o que os grandes estúdios queriam, mas se o sujeito não tivesse como distribuir, quem veria seu filme?
Five possui mais valor como precursor do que como filme; na verdade mais teatro pretensioso - e meio enfadonho - filmado. Seu conteúdo de ficção-científica quase inexiste, diluído pelo drama pseudoexistencialista das personagens falando, falando e agindo imbecilmente a ponto de se concluir que o planeta estaria mesmo bem melhor sem a espécie humana.
Após a guerra nuclear que fulminou maciça parcela da espécie humana, o planeta continua como antes, só sem gente. O céu segue azul (pelo menos intui-se no preto e branco de Five), nascentes despejam de íngremes montes, estradas estão intactas. De vez em quando uma placa entortada ou esqueleto dentro dum veículo com vidro quebrado, mas nada demais. Parece até que foi uma guerra com bombas H que dizimou o planeta, mas sem deixar fedentina de apodrecimento nas cidades.
Numa casa à beira dum penhasco (o detetive Bosch amaria!) 4 homens e uma mulher convivem após se encontrarem por acaso. Five é bem mais sobre relacionamentos humanos do que o fim do mundo. Tem personagem afro-americana (digno de nota praquela época esse protagonismo) que sofre racismo sem que este seja nomeado; tem a mulher songa-monga que dá medo de pensá-la uma nova Eva. Do jeito que são essas pessoas, qualquer recomeço de humanidade resultará em extermínio novamente, podem apostar.
Apesar da lentidão e pretensão dos diálogos, dá pra se divertir. Casal entra numa loja abandonada e ele comenta ”escute, não há sequer um rato!” pra reforçar a esterilidade terráquea. Na cena anterior os pássaros gorjeavam feito doidos! Quando plantam milho, celebram emocionados a primeira muda. Em meio a um deslumbrante campo coberto de grama e frondosas árvores. Claro que o maldito milho ou qualquer outra coisa brotaria ali!
Five usou o cenário pós-apocalíptico como ferramenta de marketing, porque poderia se passar numa ilha deserta ou numa cabana num pico de montanha isolado pela neve. O que Oboler queria mesmo era fazer draminha psicológico burguês.