terça-feira, 7 de novembro de 2017

TELINHA QUENTE 284


Roberto Rillo Bíscaro

Vivo advogando a importância que teria uma personagem com albinismo representada de forma mais realista do que o usual papel de vilão ou portador (de propósito o termo) de poderes especiais. É ótimo ver diversidade nas telinhas, com gente de várias etnias e estilos de vida sendo retratados. Mas há que se tomar cuidado pra não transferir a programas de TV a capacidade de educar e alterar consciências por si sós. Senão, também estamos abrindo pro argumento de que psicopatas ou gays são criados vendo séries.
Por mais legais e importantes que sejam, séries têm o objetivo primordial de entreter; não dá pra transferir toda a responsabilidade da educação pra empresas que, no fim, por melhores que sejam as intenções, precisam de produtos lucrativos. Assim, é legítimo reclamar quando alguma representação seja daninha – como a insistência na figura do albino malvado, revoltado e esquisito – mas não seria correto esperar que um programa de TV pra entreter cumprisse o papel de documentário ou aula de biologia.
Creio que essa postura seja uma das mais sanas pra se assistir aos adoráveis 8 capítulos de Atypical, série da Netflix, estreada em agosto. A produção tem defeitos e trilha caminho já percorrido por tantas, mas passa alguma informação sobre o autismo de sua personagem central, Sam, que aos 18 anos quer arrumar namorada e transar, provavelmente nesta ordem, porque regras são muito importantes pra ele.
Atypical é típica dramédia chamada em inglês de coming of age drama, porque dramatiza o amadurecimento de jovens. Cinema e TV estão coalhados disso. O semidiferencial de Atypical é que seu protagonista está dentro do espectro autista; nada tão grave que complique sua representação dramática. Usei semi, porque já vi diversos nerds ou geeks representados perigosamente como Sam. Uma das armadilhas de representar rupturas mentais e comportamentais de modo fofinho-cuti-cuti-miguxo é abrandar demais o lado hardcore deles. Sam já está bem avançado em seu desenvolvimento social, porque é acompanhado por psicóloga, mas seu surto no ônibus no capítulo derradeiro não é nada divertido, ainda que edulcorado pela produção.
Alertado quanto a isso – o que parece utópico, uma vez que ainda há quem confunda ator com personagem, em 2017! – Atypical é deliciosa e vi em maratona de fim de semana. Gostei especialmente do relacionamento entre Sam e a irmã atleta, que trata o irmão bem “naturalmente”, dando peteleco, zuando, mas vira onça quando alguém de fora tenta fazer o mesmo. Irmão briga mesmo e no caso de um autista deve ser inevitável a existência de sentimento de ter sido deixada em segundo plano, o que efetivamente ocorre com a menina e não escapa ao roteiro.
As formas oriundas do drama burguês são melhores pra tratar de pessoas “normais”, ou seja, com maior autonomia de ação, por isso essas são mais eficientemente representadas. É o que tem pra hoje, então celebremos o que dá pra fazer. Que lindo ver o pai finalmente tentando estabelecer relação com o filho que não conseguia aceitar. Que boa discussão dá a mãe que após se anular por tantos anos, sem poder confiar no maridão, acaba achando válvula bem musculosa pra escapar.
Atypical meio que domestica e romantiza o autismo – a comunidade autista deve já estar reclamando de ser representada tão frequentemente como alivio cômico – mas a história prende, as pessoas são simpáticas e de carne e osso e, por menor que seja, é ponto positivo na divulgação do tema autismo e na representação da diversidade nas telinhas.

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