quarta-feira, 8 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 305


UMA LÁGRIMA PARA A CASA ABRAHÃO. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Para Manuela, Gabriel e Anna. 

Difícil dizer alguma coisa sobre a loja de meus pais, a Casa Abrahão. Sei pouco da origem familiar do lado paterno; na surdina, fala-se que meu avô havia morrido de fome no Líbano durante a Primeira Guerra Mundial. Há alguma documentação referente ao local de origem do ramo Bom Meihy, Djbeil, na lindíssima costa mediterrânea. Órfão, restava a meu pai um tio, Habib, boêmio conhecido na Lapa carioca. Aos 13 anos, sozinho, Abrahão foi trazido para o Brasil. O Rio de Janeiro foi cenário adequado para o “turquinho”, que logo ficou conhecido pela bela estampa e prosa sempre decantada... 

O lado materno era mais exposto, pois compunha a leva de libaneses vindos do Vale do Bekaa, depois de 1880, motivados pela visita do Imperador Dom Pedro II. É segura a afirmativa que, sendo cristãos, iriam dar início ao comércio religioso em Aparecida do Norte, SP. Juntamente com outros ramos oriundos da mesma área: Abdalla, Samaha, Chad, em conjunto, esses “turcos” deram vida a um rosário de barraquinhas que, mais tarde, se foram adaptadas à dinâmica da proposta e viraram lojas, depois hotéis, restaurantes. 

Papai era filho único, contraste absoluto de minha mãe, que tinha mais 17 irmãos. Não bastasse, meus avós ainda cuidaram de mais 4 netos. Complicado imaginar como em uma casa, sobrado com três quartos e dois banheiros, conviviam 24 pessoas. O deslocamento de Aparecida para Guaratinguetá, logo ao lado, foi resultado da necessidade de variação dos negócios aproveitando o momento em que os armazéns de secos e molhados se apresentavam como alternativa promissora. Decisão de meu avô Felipe: seria conveniente espalhar filhos por diferentes localidades do Vale, e assim temos Sebe por algumas praças vizinhas, sempre com lojas. 

Reza a lenda que meus pais se viram apenas uma vez antes do casamento. Arranjo comum entre os árabes, minha mãe, filha do meio, deveria se casar logo, pois sua irmã menor imediata estava com tudo arranjado para matrimônio. Mas, havia de se cumprir um preceito respeitado: a ordem por idade. A julgar por ditado que minha avó Sarah repetia - primeiro case, depois ame - este mantra teve fundamento. Sou testemunho de uma dedicação amorosa incontestável: nunca vi e sequer suponho, alguém amar mais o cônjuge do que minha mãe. Meu pai, sempre dedicado à família, era muito (mas muito mesmo) cobiçados pelas freguesas que o conheciam como “turco dos olhos verdes” - soube de uma que “tomou veneno” por causa dele. 

Delego obediência à tradição o fato de minha mãe levar dote no ato do casório. E, imaginem, era uma bolsa com contornos em ouro. Soube depois que tal lastro foi vendido para o proeminente médico Dr Cembranelli que presenteara sua esposa. Com o produto, em 1931, surgiu a primeira loja, no Largo do Mercado, na esquina da rua Dr Silva Barros. Sem qualquer arrogância devo dizer que esperteza e determinação para o trabalho foram sempre os eixos familiares dos Sebe Bom Meihy. E em 1932, com o dinheiro advindo do dote, meu pai abasteceu sua loja, deixando de ser mascate em Bananal, virando dono de loja. E veio 1932... A Revolução Paulista surpreendeu os comerciantes sem mercadorias, mas a Casa Abrahão... 

A família haveria de crescer e isto se deu depois de algumas tentativas frustradas, após a morte do primogênito em 1935; em 39 nascia minha irmã Mirna. Dimensionando a expectativa de um homem, eu vim em 1943, e meu irmão Marcelo em 45. Outro momento marcante nesta saga se deu na retomada da economia depois do fim da Segunda Guerra; foi quando, em 1948 meu tio Nicolau, irmão mais velho de minha mãe, e que também tinha também loja no Largo do Mercado, resolveu abrir uma fábrica de tecidos no bairro da Estiva. Pronto: a Casa Abrahão mudava para seu segundo endereço, agora em frente ao Mercado, num sobrado novo que, em meus sonhos, era um castelo. E o sucesso continuava pelas mãos laboriosas da família. Trabalho, trabalho, trabalho... 

No novo endereço, meu pai optou por mudar a vocação do estoque que até então se destinava a roceiros. Aliás, devo dizer que meu pai sempre acreditou no progresso do Vale, e apostou no surgimento de uma classe média local dinâmica. E deu certo. Incrível, em 1950 ele adivinhou que Taubaté se vincularia a Ubatuba e imaginou lá um hotel moderno. Precisaria de muito espaço para contar a façanha que foi construir o São Charbel, sob aquelas condições. Hercúleo... 

“Adão não se vestia, porque a Casa Abrahão não existia” cantava o palhaço Pimentinha aos sábados à porta da loja sempre muito frequentada. Aconteceu que em 1975, papai se aproveitou da herança dos Sebe e partiu para a construção da sede dos negócios na Praça Dom Epaminondas. E se fez a terceira Casa Abrahão. Os negócios de meu pai se diversificaram, e com eles afastava-se o passado de pobreza. Papai sempre gostou de carro, mas nunca aprendeu a dirigir; sempre gostou de esportes, mas nunca praticou algum; sempre gostou de dançar, mas nunca levava minha mãe a bailes. Viva cantarolando, adorava Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira... Ninguém gostava mais da vida do que ele! As risadas de meu pai eram contagiantes; contava causos hilários, e como poucos amou o Esporte Clube Taubaté. Com tantas conquistas os olhos de papai irradiavam luz ao ver a tabuleta da Casa Abrahão... Quantas vezes eu o surpreendi na calçada olhando a placa: Casa Abrahão... 

O tempo passou, meus pais morreram, meu irmão também. Mirna vive momento difícil, e eu tenho que cumprir o destino. São poucas as costureiras, a roupa feita teve sucesso decisivo, os shoppings estão aí, e meus filhos têm outras prioridades. E a pandemia selou o destino. O que resta? Estão aí as lembranças, a memória apreendida na canção do amigo Renato Teixeira “O turco do mercado” que, aliás, serve, de trilha sonora ao trajeto de um sonho... 

Corre uma lágrima de adeus. Adeus Casa Abrão... Adeus... O sonho foi bem sonhado, diria Drummond...
  

sexta-feira, 3 de julho de 2020

MELHORES DE 2020 – PARTE I



Que difícil este 2020, não? Mesmo assim – ou, por isso mesmo – nada melhor que conferir o que resenhei de melhor nas áreas de cinema, literatura, música e TV.

Não importa ano de lançamento; para constar na lista de melhores do ano, basta ter aparecido no blog.

CINEMA
Vastidão da Noite - No período da Guerra Fria, dois adolescentes descobrem uma estranha frequência de ondas aéreas. Suas vidas e o mundo inteiro podem estar prestes a mudar drasticamente.
O Incrível Homem que Encolheu – O clássico da ficção-científica resiste bravamente ao tempo e ainda empolga e faz pensar.
Os Brutos Também Amam - Neste faroeste clássico, um ex-pistoleiro determinado a evitar confusão enfrenta barões do gado que ameaçam um grupo de pequenos produtores rurais.
O Planeta Proibido – Outro clássico da ficção-científica, que resiste bem ao tempo. http://www.albinoincoerente.com/2020/02/telona-quente-321.html

LIVROS
Belgravia - O criador de Downton Abbey escreveu um romance com tons de século XIX, mas totalmente legível para nosso gosto por velocidade narrativa do século XXI.
Le Freak - Nile Rodgers compôs e produziu canções e discos que transformaram a música pop e estão entre os maiores sucessos de todos os tempos. Le Freak narra a incrível história de como um dos grandes gênios do pop transformou sua vida dramática - de garoto negro, magricelo e asmático nascido no gueto - na brilhante e alegre playlist de várias gerações.
Unknown Pleasures - O baixista da banda mais influente do pós-punk inglês, conta sua infância, a formação da Joy Division, rixas internas e o suicídio de Ian Curtis.

MÚSICA
Shea Butter Baby, de Ari Lennox - O álbum de estreia da norte-americana é esfuziante coquetel de Neo-Soul, que vai de sexy a Paulo Coelho.
Gathering Swans, de Choir Boy - Em seu segundo álbum, os norte-americanos estão mais mergulhados nos anos 80 e os vocais sensíveis e dramáticos de Adam Klopp se destacam.
Il Velo Dei Riflessi, de Quel Che Disse Il Tuono - O quarteto de rock progressivo italiano estreia em alto estilo sinfônico, resgatando o melhor dos anos 70, mas com produção excelente.
Shlon, de Omar Souleyman - O sírio usa instrumentos tradicionais para fazer dabke delirantemente dançante.
Seeking Thrills, de Georgia - Em seu segundo álbum, a britânica apresenta boas melodias, emolduradas em sons eletrônicos provenientes do eletropop, house, techno e synthpop.
Hotspot, de Pet Shop Boys - A dupla britânica se mantém relevante e criativa, mesmo após décadas de carreira.
Chaos and a Dancing Star, de Marc Almond - O veterano reaparece com linda coleção de canções cheias de temas "góticos".


TV
Prime Suspect (temporada 1) - Em 1991, a TV britânica lançou Prime Suspect, série estrelada por Helen Mirren, que alterou o cenário das produções policiais e influencia até hoje.
Unforgotten - Casos policiais não-resolvidos são reabertos e provocam terríveis consequências nas vidas de todos os envolvidos.
Der Pass/Pagan Peak - Crimes brutais na fronteira entre a Alemanha e a Áustria colocam dois detetives em busca de um assassino em série.
The Missing (temporada 2) - Depois de ano desaparecida, Alice Webster reaparece e inicia-se um drama policial complexo, desenvolvido em mais de um local e tempo.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 304

O QUE APRENDI NA QUARENTENA?! 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Fiquei pensando na perversidade de estar só, confinado por opção e obediência ao bom senso. Pensei e logo entendi que pensar é um ato soberano e que se coroa quando nos distanciamos das coisas ditas corriqueiras. Estranho. Sobretudo estranho porque tudo que nos é corriqueiro ganha o vigor inverso, de algo novo ou pelo menos reinaugurado. As coisas, os objetos, estão no mesmo ambiente, mas o olhar interior exige requalificação. Acho o termo “ressignificar” que tanto tem sido gasto faz algum sentido nestas situações. O livro esteve no mesmo lugar há tempo, e lá continua, mas de repente dou uma olhada na lombada e acho o vermelho bonito, o título em branco se destaca e lembro-me das cores do Salgueiro. Viro o rosto e olho a modesta garrafa de água mineral, a mesma de sempre que acompanha minhas noites solitárias, e me pergunto de sua forma acinturada, da cor da tampinha “amarelada” (não seria melhor que fosse verde?). E o silêncio da casa que combina melhor com a noite que com o dia? As panelas da cozinha experimentaram minhas mãos limpando-as como nunca e sabe, até passei as achá-las mais simpáticas, dignas de certo brilho que nunca leguei. 

Resolvi dar uma limpada nos CDs. Pois é, ainda há poucas semanas pensava em como me livrar deles, agora que têm substitutos tão competentes. Mas, quando os acariciei em nome da liberdade do pó, me comovi. Lembrei-me de quando comprei uns, da circunstância do presente de outro. Sabe que cheguei, imagine, a me ver dançando nos salões do passado quando peguei em um azul, orquestrado. Nem precisei tomar a decisão de não os doar tão logo. Fui mais longe, cheguei a pensar que alguns não sairiam jamais de minhas paradas saudosistas e nem das prateleiras em que estavam silentes e condenadas. 

Converso com plantas. Sempre foi assim e não tenho pejo em reafirmar. Mas eram conversas rápidas coisa do momento de molhá-las e nada mais. Agora?! Agora confidencio intimidades, desabafo mágoas políticas irremediáveis, faço-as interlocutoras de sonhos libertários, de vagos planos futuros. E não é que suas folhas estão mais brilhantes, mais vistosas. Tenho certeza de que a fotossíntese partilhada agora purifica mais meu ar. 

Nunca tinha imaginado que os lenços dobrados, na gaveta, pudessem parecer quadros ou instalações artística. Nunquinha, mas não é que ontem imaginei Matisse, confesso, contudo, que como estavam tão espontâneas e à vontade, achei que iam mais para Braque. E meu Deus, não tenho só lenços brancos, ou com discretas listas azuis ou marrons. Não, tenho alguns bem coloridos que sequer sei de onde vieram. E aquele com minhas iniciais, nossa, que lindos! 

Acreditem: que beleza me pareceu o suporte do abajur da sala. Que contornos sensuais, delicados e sugestivo da languidez do objeto que deixar vazar luz. Entendi a diferença do erótico e do pornográfico quando supus outra leitura do prosaico detalhe, disposto no canto da sala. Nem preciso dizer que a banqueta de madeira, a mesma que me acompanha desde a primeira casa que tive como minha, me pareceu peça de museu. E de um museu especialíssimo, objeto biográfico capaz de conter narrativas de minha história pessoal. 

Os quadros das paredes!... Gente, que coisa mais bonita! Ajeitei um que estava tortinho e pensei na combinação deles. Acertei quando os coloquei lado a lado, e até saudei meu bom gosto e sensibilidade decorativa. Se é verdade que a casa da gente tem que se parecer conosco, aquelas pinturas legitimam minha história. Tentei dar enredo à composição das telas que juntei em diferentes momentos, e fui entendendo melhor minha história pessoal, um depois do outro, alternados na parede, do jeito que me sinto agora. Foi como ordenar as memórias não pelo tempo de aquisição, mas pelos ajustes temáticos. 

Criei coragem e fui lá. Sim, mexi na caixa de cartas. Sabia que ia doer, mas sabia também que eram dores de cura. E foram. Fui descobrindo que não restaram só cartas escritas aqui e ali, sempre com amor devoto, mas havia também cartões, cardápios de restaurantes, invólucros de balas, programas de cinema. Enfim, retalhos de um amor que precisou aprender a ser só. 

Foi triste mexer na caixa de joias. O roubo surpreendente do ladrão deixou algumas poucas peças que gritavam de solidão. Ouvi atentamente cada lamento: a medalha que ficou sem o cordão, o velho relógio que certamente não enriqueceria o assaltante, as três pérolas soltas do colar debulhado de minha mãe, a velha carteira sem os poucos dólares e euros que a valorizavam. Restos. Restos sim, mas tão ricos em cernes. 

Sentei-me para escrever sobre estas minudências e me perguntei dos próximos dias de quarentena. Que vou fazer? Quais os novos acontecimentos emocionais? Que eu sairá deste meu convívio pessoal? Poderia desdobrar perguntas mil, mas amedrontado me questionei sobre o limite desta condição de confinamento. Será que estou com medo? Medo do quê?

terça-feira, 30 de junho de 2020

TELINHA QUENTE 411

Roberto Rillo Bíscaro

Um crime abala a comunidade anglo-caribenha de Londres e a detetive Jane Tennison enfrenta o racismo estrutural da Grã-Bretanha, na segunda temporada de Prime Suspect.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 417


Roberto Rillo Bíscaro

O álbum de estreia da norte-americana Ari Lennox é esfuziante coquetel de Neo-Soul, que vai de sexy a Paulo Coelho.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

PAPIRO VIRTUAL 166

Roberto Rillo Bíscaro

Quando a polícia reabre a investigação sobre o desaparecimento de Amanda Mallory, a vida e algumas certezas de Isla colapsam. Além disso, um grande trauma da história australiana desempenha papel importante nesse drama.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

TELONA QUENTE 329



No período da Guerra Fria, dois adolescentes descobrem uma estranha frequência de ondas aéreas. Suas vidas e o mundo inteiro podem estar prestes a mudar drasticamente.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

CONTANDO A VIDA 303

DERRUBAR ESTÁTUAS, DESTRUIR MONUMENTOS, QUEBRAR IMAGENS. 



José Carlos Sebe Bom Meihy 

Esta história é mais velha do que se pensa. Muito mais. E tem nome: iconoclastia. A raiz etimológica mostra que este termo vem do grego eikon (imagem), kasten (quebrar). Pesquisas históricas registram um movimento ocorrido no século VIII, em pleno Império Bizantino. Tratava-se de contestação religiosa que pregava contra o culto às imagens ou idolatria. Com fôlego no âmbito religioso, a sanha contra a adoração de imagens, ao longo de séculos, foi ganhando outras pautas, estendendo-se às artes e a homenageados distintos por feitos tidos como polêmicos e condenáveis. Estranho este mimetismo psicológico que tanto se expressa individualmente como no âmbito coletivo. De um ou de outro jeito, a violência e a agressão são sempre componentes à contrapelo da história. 

Um dos aspectos mais tenebrosos desta prática culmina na destruição de símbolos que afetam, direta ou por tangência, o sentido público materializado em peças postas em praças, museus, igrejas. Em termos religiosos, no Brasil, por exemplo, tivemos episódios marcantes que nos trazem a amarga lembrança da ação empreendida por um jovem, em maio de 1978, quando então retirou do altar-mor da Basílica Nacional de Aparecida a imagem da Padroeira do Brasil. No atropelo do ato, descuidado, deixou cair a imagem que restou partida em pedaços. Alguns anos depois, o bispo neopentecostal Sérgio von Helder, em 1995, em uma apresentação televisiva, chutou outra imagem de Nossa Senhora manifestando teatralmente sua posição anticatólica. Na mesma linha, muito recentemente temos assistido ataques a terreiros de umbanda e de candomblé, também dimensionando grave preconceito religioso. No exterior essas manifestações ocorrem com certa frequência, sendo que, em alguns casos com destaque e indignação internacional, como aliás aconteceu com a destruição das duas maiores estátuas de Buda (55 e 38 metros de altura) no Afeganistão em março de 2001. 

No campo das artes o fenômeno é bastante comum e alarmante. Há situações memoráveis como o da pintura “Mona Lisa” roubada em 1911 por um italiano, atingida por pedra em 1956, colorida por spray vermelho no Japão em 1974, seriamente danificada por uma dose de ácido em 1956, e agredida com uma caneca de cerâmica em 2009. De forma bizarra “Vênus no Espelho”, de Velásquez foi esfaqueada em Londres, em 1914, e, em 1974 “Guernica”, de Picasso, também sofreu pichação por spray, quando ainda estava em exposição, em Nova York. Rembrandt teve sua “Dânae”, esfaqueada em 1975 na Rússia, e a “Ronda Noturna” igualmente agredida em Amsterdã, em 1976. A sequência é grande, mas chama atenção atentados contra imagens e instalações. São vários registos de ataques à estátuas famosas como a Pietá de Miguelangelo (Vaticano), ao dedo de Davi arrancado do pé, à martelada (Florença), mas nenhum foi tão estranho como a insistência nos ataques à “Pequena Sereia”, estátua esculpida por Edvard Eriksen em 1913 e situada na entrada do porto de Copenhague, na Dinamarca – no caso foram, de diferentes formas, desfechados 12 ataques. Num rápido inventário, cabe listar no ano de 2016, mais de mil ataques, em 76 países. 

Convém não ver isoladamente este comportamento que além de ser dimensionado como prática exercia ao longo dos tempos, merece ser considerado em seus aspectos constelares. Agressões assim eclodem por algum motivo explícito e extremado. De toda forma, não é justo reduzir o significado do fenômeno diagnosticado como hiperculturemia. Este termo aliás, foi reconhecido a partir da famosa reação - um desmaio longo, sofrido por Stendhal na Catedral de Florença, ante o conjunto de obras de arte e túmulos famosos, em 1817. Os efeitos de peças artísticas, de homenagem ou religiosas são muito sutiis e mexem com valores complexos pouco percebidos na lógica cotidiana. 

Recentemente, um fenômeno tem chamado a atenção: as manifestações antirracistas que incidem em derrubadas de estátuas expostas em locais significativos. O mais recente, a derrocada da homenagem feita a Edward Colton, traficante de escravos, em Bristol, no Reino Unido, tem chamado atenção de todos. O movimento antirracista tem alertado o mundo para a atualização de manifestações que mudam seu sentido na medida em que os acontecimentos ganham novos protagonistas. O tema é grave e não cabe reduzi-lo a “vandalismo”. É muito mais. O importante é considerar a gravidade do caso e encontrar alternativas que não sejam a mera destruição, pois não se apaga a história simplesmente supondo eliminar documentos. Lembre-se da gravidade da destruição dos registros sobre a escravidão, proposto no Brasil por Rui Barbosa. Tão consequente é este tipo de atitude que, no Rio de Janeiro, há quem fale da destruição do monumento a Zumbi, pois no Quilombo de Palmares vigiam regras escravistas. 

Mas, que fazer? Vale simplesmente mudar de lugar? Como a história não se apaga, por lógico, a medida indicada é a propositura de explicações em diálogo. É difícil, mas não dá para destruir também a possibilidade de se pensar em esclarecimentos, em elucidações que ao invés de recalcar mágoas, deem espaços para debates sobre as consequências de atos e movimentos que deixam marcas que precisam ser levadas em conta. Este debate, se não esgotado em polarizações, traz outra virtude fundamental: medidas de reparação e direito de ofendidos. É hora de pensar isto além das raivas – ainda que muitas vezes justificadas.

terça-feira, 23 de junho de 2020

TELINHA QUENTE 410

Roberto Rillo Bíscaro

Em 1991, a TV britânica lançou Prime Suspect, série estrelada por Helen Mirren, que alterou o cenário das produções policiais e influencia até hoje.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 416

Em seu terceiro álbum, Gabi Buarque apresenta um trabalho engajado e lírico, cheio de boas canções.

sábado, 20 de junho de 2020

REDUÇÃO PRA MELHOR

Moçambique: Reduzem casos de rapto e perseguição a pessoas com albinismo

Hermínio José – Maputo, Moçambique

De acordo com Albachir Macassare, em Moçambique, o pico dos casos de perseguição, raptos e assassinatos de pessoas com albinsimo, foi em 2015/16.

Clique no link para ouvir o áudio da matéria.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

PRECONCEITO NO JORNAL DA GLOBO

Moradores do Rio de Janeiro, Mycilene e Misael estão juntos há nove anos e já tiveram três filhos. Mas parentes, amigos e desconhecidos já ofenderam Mycilene por seu albinismo. O vídeo faz parte da série "Amor e Preconceito". 

CONTANDO A VIDA 302

TARZAN E GEORGE FLOYD: vamos abordar o racismo estrutural? 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Lembro-me aluno do colégio interno São Joaquim, em Lorena, interior de São Paulo. Um entre centenas de adolescentes, havia certa liberdade para os que preferiam usar de forma diferente a hora do recreio: em vez dos esportes, conversas, correrias, optava por ir à biblioteca. Exceção. Era o que precisava: exercitar mais minha curiosidade do que os músculos. Os livros que compunham o acervo da Sala de Leitura Dom Bosco, como seria de se esperar, tratavam da vida de santos, heróis religiosos, mártires, fatos notáveis do cristianismo. Havia também, em complemento, uma seleção de obras clássicas, quase sempre de autores portugueses - no caso de Eça de Queiroz, hoje fico em dúvida se constava “O crime do Padre Amaro”. Mas para surpresa, à gauche, constava uma série que fazia minhas delícias e permitia soltar a imaginação. Devorava a coleção de histórias do “Tarzan, o Rei das Selvas”. 

Sei lá por que, mas dos 24 livros da série escrita pelo americano Edgar Rice Burroughs entre 1912 e 1965, havia os 18 publicados no Brasil, pela Companhia Editora Nacional, alguns com tradução de Monteiro Lobato. Fico pensando no significado dessas leituras para o menino que fui. Emoções. Encerrado entre paredes que se me afiguravam monumentais, sentindo-me confinado, o suposto desbravado e valente Tarzan me era o próprio emblema da liberdade. A lembrança deste episódio me veio à cabeça quando me deparei com o desafio de entendimento do crudelíssimo assassinato do negro norte-americano George Floyd, há algumas semanas. Haveria alguma conexão entre uma coisa e outra? Foi então quando lembrei-me que o nome Tarzan significava “pele branca”, e que o hipotético sobrevivente do naufrágio dos pais, lordes ingleses que foram atacados em algum lugar da África em 1888, foi adotado por uma macaca de nome Kala que cuidou do menino que, afinal, liderou um bando de símios. O “pele branca”, que mal falava, era também amigo de alguns outros animais, elefantes, pássaros, mas feroz inimigo dos leões, leopardos, cobras e crocodilos. 

O tempo passou. Continuei arrebatado pelo personagem Tarzan, que ganhou o cinema, quadrinhos, peças teatrais. A imagem que sempre me vem à mente o mostra enfrentando inimigos, quebrando o pescoço de feras e conduzindo negros obedientes e indefesos. Demorou para que procedesse uma leitura mais armada do fenômeno e a aproximasse das críticas feitas ao nosso Monteiro Lobato. Instado pelo pretenso investigador que cultivo em mim, primeiro me perguntei se haveria alguma ligação entre o Tarzan e o nosso Pedrinho, aquele das “Caçadas”, que via Tia Anastácia assustada, subindo em árvore como macaca. Deixei de lado a meditação genético-analítica dos personagens e sondei comentários a respeito do anacronismo, ou do tempo de produção de cada uma dessas obras. Sei que é errado julgar manifestações do passado filtradas por preceitos de nosso tempo. Erro grave, aliás, verdadeira afronta à historiadores que respeitam condicionantes das reflexões propostas. Os paralelos, contudo, são inevitáveis e reclamam explicações que não podem padecer de simplismos ou chavões que anulam espaço, tempo e circunstâncias. Assumir o produto sem definição das parcelas é um equívoco até em aritmética, sabe-se bem. 

No caso de Floyd, um guarda branco, sufocando por oito minutos, um cidadão negro por pequeno delito é algo a ser seriamente avaliado em termos de limites. Insuportável. Alguma coisa precisa ser corrigida e logo, mas, baseado em que diagnóstico? Quais as parcelas desta conta? E no caso dos dois polos haveria nexo em aproximar a leitura de Tarzan e Floyd? Em termos de homologia, é erro fatal transpor uma situação e vinculá-la a outra sem mediações instruídas. E lembrei-me de Mohamed Ali, o lutador militante antirracista, perguntando à mãe, frente a uma pintura da Santa Ceia, se os negros não estavam sentados ao lado de Cristo porque estariam na cozinha. Precisei pensar mais um pouco, e juntando os pontos, pude compreender que a memória histórica é sutil e muito mais potente que os indivíduos em seu tempo. Frente a tais premissas me perguntei mais severamente sobre a importância de recomendar a leitura de Tarzan hoje, e reforço a afirmativa garantindo que, com os elementos que temos no presente, é possível fazer uma leitura crítica dos enredos e analisar posições que nos parecem condenáveis por cargas de preconceito atuais, mas não o eram antes. Condenar ou censurar, jamais. Jamais. Estudar, sim. 

Assistimos no mundo todo a manifestações iconoclastas. Derrubam-se estátuas de personagens que foram considerados ilustres no passado – até Colombo foi atacado – mas não seria o caso de aproveitar exatamente estas situações para motivar exames novos, feitos agora à luz dos produtos somados. Vale despreza-los ou “desconstrui-los” sem critérios claros? Creio que a melhor abordagem para o racismo estrutural é o aprendizado dos fragmentos que propõem a correção da fatalidade que nos compete refutar. Vamos ler Tarzan para compreender melhor nossa desgraça racista.

terça-feira, 16 de junho de 2020

CARLOS ALBERTO DE NÓBREGA ALBINO


Carlos Alberto de Nóbrega e esposa criam instituto em prol de albinos
O casal criou o Instituto Nóbrega

Carlos Alberto de Nóbrega e a esposa, Renata Domingues, criaram um instituto em prol de albinos. Batizado de ‘Instituto Nóbrega’, a organização é sem fins lucrativos em prol de causas sociais. O principal projeto do Instituto é o ‘Visibilidade aos Albinos do Brasil’.

Renata, que é médica, explica a missão da organização “O Instituto Nóbrega nasceu com a missão de ajudar os albinos e dar visibilidade aos albinos no Brasil. É um grupo de pessoas esquecidas, que sofrem muitos preconceitos e não são inseridas no grupo social, na sociedade, falta muita assistência médica”

Carlos Alberto completa dizendo que o albinismo não é uma doença “O Instituto Nóbrega nasceu para levantar a bandeira dos albinos e falar também o que é o albinismo, que muita gente pensa que é uma doença. Não é uma doença, é um problema de pigmentação. A única ‘deficiência’ que ele tem é a visão, que é um pouco mais fraca e o risco maior de ter câncer de pele. O que existe é um preconceito muito grande. Esse movimento não é meu e nem dela, é de todos nós”

O Instituto era um sonho para Renata que se mostra motivada com a nova empreitada “Em meio a toda essa pandemia e instabilidade, nasceu o Instituto Nóbrega. Vamos transformar a vida dos albinos do Brasil, e já amo todos eles!! Iremos trabalhar para que tudo saia grandioso…mais um sonho realizado com transparência”

O Instituto atua através de: mobilização, informação, capacitação, transformação e sensibilização. O trabalho é gratuito para os beneficiários mas não é voluntário. Eles contam com a doação de empresas e de pessoas para sustentar seus projetos.

A luta de Carlos Alberto de Nóbrega e da esposa em prol dos albinos é louvável. O albinismo é uma condição genética não contagiosa, que pode provocar deficiência visual e deixar as pessoas com pele muito vulnerável ao sol devido à ausência de melanina.

Para essas pessoas, o acesso a protetor solar é de vital importância, já que é a principal medida preventiva contra câncer de pele. Pessoas com albinismo são 1.000 vezes mais suscetíveis à doença do que a população em geral, segundo a especialista. Em algumas áreas do país a expectativa de vida para esse grupo pode ser de apenas 33 anos, em função do câncer de pele, e destacou que a prevenção é relativamente simples.

Ignorada pelo Censo, pouco se sabe sobre a população albina brasileira. A invisibilidade social os fazia, até pouco tempo, desconhecidos inclusive por si mesmos. No entanto, a luta por reconhecimento hoje tem forma, e já atingiu importantes conquistas. Os albinos passam, contraditoriamente, à completa invisibilidade aos olhos do poder público brasileiro.

Não existe no país, por exemplo, nenhuma política pública em vigor que lhes auxilie, diretamente. Eles também nunca constaram em quaisquer pesquisas demográficas realizadas por aqui.

MAIS APOIO PARA OS ALBINOS ANGOLANOS


Angola: Albinos querem mais apoios do Estado
Ainda que em Angola os albinos não sejam perseguidos ou mortos, como acontece em outros países, a sua vida tem também muitos desafios. A discriminação social e o preço dos medicamentos são os que mais os afetam.


O mundo assinala, este sábado (13.06), o Dia Internacional para a Consciencialização do Albinismo. E ainda que, em Angola, os albinos não sejam perseguidos ou mortos, como acontece em muitos países do continente africano, a sua vida tem também muitos desafios - desde o preconceito à discriminação social e pobreza, fatores que, segundo o Presidente da mesa da Assembleia Geral da Associação de Apoio dos Albinos de Angola (4AS), José Cariato, acabam por condicionar o acesso aos serviços médicos especializados. 

José Cariato defende por isso a criação de um plano nacional de saúde "concreto" dirigido a estas pessoas, para que a aquisição de protetores solares ou uma ida a uma consulta de oftalmologia não continuem a ser um problema.

Por outro lado, frisa José Cariato, existe também a necessidade da inclusão social dos albinos na sociedade. É que apesar do princípio da igualdade consagrado na Constituição, muitos albinos vivem à margem dos seus direitos. As dificuldade começam, por exemplo, no acesso à escola.

"São poucos aqueles que conseguem obter uma formação média ou superior, são poucos os que conseguem um emprego. Ao olharmos para Angola, vemos que há poucas pessoas com albinismo nos órgãos de decisão. Já tivemos um secretário de estado para a Comunicação Social, mas no geral, a maior parte das pessoas albinas continua a passar por dificuldades".

Auto-estima

Isabel Malheiro é albina. E em entrevista à DW fala da discriminação social de que é alvo. Algo que, diz, só se ultrapassa com muita auto-estima. "Precisamos de nos aceitar, porque se nós nos rejeitarmos, o mundo vai nos rejeitar também", afirma.

Aos 21 anos, esta jovem conta que foi graças ao apoio de uma organização não-governamental que conseguiu recuperar a sua auto-estima.

À sociedade, a jovem pede maior tolerância com as pessoas albinas que são diferentes das demais apenas porque não possuem melanina para a coloração da pele. Já aos albinos, Isabel Malheiro apela a que se aceitem e se abram ao mundo em busca de outras experiências.

Já o apelo de Adriano Madaleno, também albino, vai para o governo. No entender deste jovem de 27 anos, têm existido muitos obstáculos para a observação de determinadas garantias constitucionais aos albinos, muitas vezes sem razão aparente.

"Têm havido, por exemplo, muitas dificuldades em permitir que uma pessoa albina frequente uma escola de condução e obtenha a carta de condução sob alegação de que os albinos não podem conduzir. Isso não é verdade porque existem pessoas não albinas também com dificuldades de visão", afirma.

Preços dos medicamentos
Outro dos problemas em Angola, acrescenta Adriano Madaleno, são os preços dos produtos de proteção de pele. Por isso, este jovem apela a que o Estado passe a subvencionar alguns produtos de higiene, tais como os cremes e protetores solares ou até mesmo consultas de oftalmologia. O mesmo jovem dá conta que "grande parte das famílias de pessoas com albinismo são de renda baixa e por isso têm dificuldades em adquirir estes produtos".

"Se o Estado providenciasse estes produtos, muitos albinos não teriam os problemas de saúde que têm hoje, como cancros da pele ou dificuldades acentuadas de visão", acrescenta.

Assim como já referido por Isabel Malheiro, também o médico José Mendes, começa por frisar que "o albino é uma pessoa como qualquer outra, tendo apenas a falta de melanina para a coloração da pele". 

Ainda assim, explica José Mendes, os albinos devem ser acompanhados por um médico desde cedo, pois há alguns cuidados que devem ter, especialmente relacionados com a proteção dos raios solares. “É importante o uso de protetores solares desde tenra idade. Para isso, os pais devem acompanharem as crianças para garantir que estas não se expõem ao sol e que se protegem".

Para este especialista, é fundamental que os governos, principalmente do continente africano, façam junto das famílias um trabalho de sensibilização e informação pois há muitas famílias que não sabem como lidar com o albinismo e que acabam por tratá-lo como uma maldição.

No caso específico de Angola, acrescenta, "é necessário que haja uma abertura nos concursos públicos para os albinos, porque muitos deles são desempregados e deste modo não conseguem fazer nada. Isso dificulta ainda mais a sua condição social, já para não falar do bullying nas escolas".

O mesmo médico apela também ao governo de João Lourenço para que crie um programa de apoio às consultas médicas para as famílias com filhos albinos e que agilize políticas de subvenção dos medicamentos, pois estes são demasiado caros para a realidade social da maioria desta famílias, explica. 

13 de junho

O Dia Mundial de Consciencialização do Albinismo foi instituído pelas Nações Unidas, em 2015, com o objetivo de divulgar informação sobre o albinismo e para evitar a discriminação aos albinos, combatendo ao mesmo tempo a sua perseguição. A efeméride visa igualmente celebrar as conquistas das pessoas com albinismo.

TELINHA QUENTE 409

Marcella tem uma nova identidade em Belfast e convive com uma família de criminosos, como agente infiltrada.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

CONTANDO A VIDA 301

SOLIDÃO, SOLITUDE E SOZINHEZ 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Sou do tipo que se apaixona por palavras. Volúvel, namoro dizeres novos, expressões criativas, mesmo gírias amorosas, metáforas afetivas e até trocadilhos cabíveis. Às vezes, são frisons rápidos, calafrios passantes, mas há casos em que reivindicam permanências e se apropriam de licenças que transitórias. Algumas dão trabalho, parasitas se esquecem em meus ramos narrativos, mas, de um ou de outro jeito, sempre passam. Pois bem, em pleno confinamento causado pelo coronavírus o termo da hora é “sozinhez”. Como todo amor que surpreende, primeiro veio o olhar variante da dura matriz “solidão”. Devo logo dizer que jamais abdiquei o entendimento dos poetas românticos, daquela geração que morria jovem, sob a sentença de amores não correspondidos, incompreensões arrebatadas que, em tantos casos, se pontuava na tuberculose. A solidão era semente de tudo... 

“Solidão”, palavra fatal, cola impregnante que de tanto insistir, acabou por provocar complexas variantes. Sim, houve refinamento de sua brutalidade e, epidêmica, a solidão precisou ganhar nuanças menos tenebrosas como: desalento, ansiedade, e sutil se mutar em raison d’être do espetaculoso “mal do século”, a depressão crônica. Convém ainda lembrar que antes de tornar-se vilã-mor, foi chamada de melancolia, depois travestida de “nostalgia”. E deu no que deu. Sem se abdicar da vida, galgada à condição de doença, a solidão demandou remédios e os laboratórios químicos cuidaram de mitigar sofrimentos. A transparência do fado maldito, do sentimento de vazio insano, sugeriu abrandamentos, alívios, e nessa mutação, cedeu lugar à poética expressão “solitude”. 

A solitude ganhou espaço novo ao ser considerada como uma solidão domada, algo alternativo, sem as maldições do termo mãe. Muito além de questão médica que logra vantagem, consideremos o teor cultural que o termo assumiu. Sim, é elegante sentir-se em “estado de solitude” em vez de ser vítima da condenada solidão. Isto, porém, merece revisão posto que a solitude não deixa de ser filha conformada, um ajeite levemente antissocial. E sua expressão é o isolamento voluntário. Não é de todo possível desmentir simpatias pelo termo solitude, mas confesso que às vezes mais me parece um anticorpo natural que se fez em reação à tragicidade de destinos que se perdem em regiões fora do controle pessoal. Ninguém aceita a solidão. Já a solitude mostra-se alternativa plausível. Irônica escolha, diga-se. 

Vejo, contudo, o reino da solitude ameaçado pelo acatamento que progressivamente o vulgariza. Então eis que surge novo termo “sozinhez”... “Sozinhez”... E tão enfeitiçado fiquei com a melodia da vocalização – so-zi-nhez – que dispensei considerá-lo em sua expressão gráfica, com “z” em vez de “s” (sozinhês”) com acento ou não. Foi tudo súbito, ardor mesmo. Avassaladora. Frequente leitor de Guimarães Rosa, ousei desconfiar que fosse invencionice dele. Errei. Busquei sua etimologia e tudo que logrei foi o título de uma composição de Chico Nogueira, aberta com anúncio desconcertante “a angústia é o esquecimento do centro”. Por lógico, cavei mais fundo, acreditando que acharia algo revelador. Consegui: Paulo Mendes Campos. Sim em crônica (sempre elas) de 1965, publicada em livro intitulado “O colunista do morro”, o mineiro autor deixou marcado o termo ao explicar um presente dado à Maria da Graça, adolescente de 15 anos. Era um exemplar do livro “Alice no país das maravilhas”. E, de passagem na dedicatória declinou: “esquece esta palavra que inventei agora sem querer”. 

Talvez a consagração recente da sozinhez tenha outro momento. O crítico Flávio Viegas Amoreira escreveu uma carta, aos 22 julho de 2000 e, na exaltação à Hilda Hilst deixava patente que a “sozinhez” lhe era “solitude específica”, estava dado o sinal da diferenciação. 

Na moldura do confinamento pandêmico (outra vez o covid19) penso na responsabilidade de me assumir um ser solitário, mas sem as doenças da solidão ou os melindres da solitude. Há níveis de recolhimento e de todos o mais severo é que aquele que isola o indivíduo em si mesmo. Não tendo com quem conversar diretamente, sem comunicação que não seja por meio mecânico, como me entender comigo? Que invenção dialógica poderia dar conta de convívio tão íntimo, exclusivo, tão intenso e incapaz de mentiras, subterfúgios, metáforas disfarçastes? Creio ser esta circunstância daquelas inescapáveis do shakespeariano “ser ou não ser”. E a resposta demanda aceitar-se ou não se aceitar. Se o mergulho pessoal for feito no mar profundo da busca do enigmático “conhece-te a ti mesmo”, mesmo sem definição da autoria do enunciado, temos o caminho para perscrutar nossa eventual “sozinhez”. Se nos desamamos, se não nos entendemos na reclusão pessoal e última, restaria ressuscitar a solidão. Em reverso, se aprendemos a nos respeitar no acalanto de nosso eu mais intenso e irrecusável, aí vivemos a “sozinhez”. 

´´Minha sozinhes , Hilda , é solitude específica: as anatomias dum corpo já tão somente só me trazem vazio sem Alma: 

Encontrei uma estranha crônica da não menos esquisita – mas adorável – Hilda Hilst

terça-feira, 9 de junho de 2020

TELINHA QUENTE 408


Roberto Rillo Bíscaro


Numa pequena cidade da Nova Zelândia, um detetive de origem Maori começa ter visões, enquanto investiga um assassinato. Essa é a premissa de One Lane Bridge.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 415

Em seu segundo álbum, os norte-americanos do Choir Boy estão mais mergulhados nos anos 80 e os vocais sensíveis e dramáticos de Adam Klopp.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

PAPIRO VIRTUAL 165

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O ministro das relações exteriores da Suécia é assassinado com requintes de crueldade. Terrorismo? Vingança?

terça-feira, 2 de junho de 2020

TELINHA QUENTE 407


Andy Barber é um promotor de justiça que recebe a difícil missão de solucionar o assassinato de um jovem de 14 anos. Para piorar, o caso ganha uma reviravolta inesperada quando Jacob, o filho de Barber, é apontado como um dos principais suspeitos.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 414


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sexta-feira, 29 de maio de 2020

PAPIRO VIRTUAL 164



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Parecia uma família sueca perfeita, de propaganda de margarina, até que a jovem Stella é acusada de assassinato Vamos conhecer a história, através dos pontos de vista dos membros do miniclã.


terça-feira, 26 de maio de 2020

TELINHA QUENTE 406


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Oldenheim é uma cidadezinha nos Países Baixos. Tudo parece calmo, até que pessoas começam a desaparecer. O que será? Sobrenatural? Ets? Ou...

segunda-feira, 25 de maio de 2020

CAIXA DE MÚSICA 413



Roberto Rillo Bíscaro

Através de arranjos propositivos e fina expressão vocal, Giovanni Iasi e Luísa Lacerda transitam entre a delicadeza de uma valsa camerística até a frenética dança de um frevo.