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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

NADA SOBRE NÓS, SEM NÓS

“Nada sobre nós, sem nós”: USP realiza gratuitamente o 1º Congresso Internacional sobre Deficiências em outubro

O evento é coordenado por profissionais com e sem deficiência e está dividido em 12 eixos temáticos

A USP realiza de 21 a 24 de outubro de 2025 o seu 1º Congresso Internacional sobre Deficiências da USP. O evento presencial e on-line é organizado pelo Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da USP, o Diversitas, ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). As inscrições gratuitas devem ser realizadas até 30 de setembro na modalidade presencial, mas para o formato on-line permanecerão abertas. Clique aqui!

Com a temática Diversidade, Direitos e Corpos: Participação Social e Barreiras no Mundo Contemporâneo, a iniciativa reúne profissionais de diversas áreas da Universidade e convidados externos de instituições nacionais e internacionais com foco na atuação de acadêmicos, sociedade civil organizada, estudantes e gestores de saúde de diversos países. A programação inclui conferência, mesas redondas e rodas de conversa que também serão transmitidas on-line.

Estão previstas apresentações artísticas e painéis temáticos em 12 eixos a partir dos trabalhos contendo comunicações orais, pôsteres e produções em outras linguagens que serão expostos somente na modalidade presencial.

De acordo com a professora Eucenir Fredini Rocha, sênior do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da Faculdade de Medicina (FM) da USP e uma das coordenadoras do evento, a ação busca “discutir as múltiplas dimensões, porque a deficiência historicamente é muito considerada do ponto de vista biomédico e não é só uma questão biomédica”. Para a coordenadora “é um tema que perpassa todas as áreas das nossas vidas, é uma questão social, histórica e política que precisa ser considerada e por isso vai tratar de barreiras, acessibilidade, questões gerais, participação social, vida na cidade, cultura e esporte”, completa.

A mesa de abertura, que tem como tema Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos, será ministrada pelo mexicano Carlos Ríos Espinosa, especialista em direitos internacionais de pessoas com deficiência e pesquisador da ONG Human Rights Watch, tendo atuado também no Comitê da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU (CRPD) de 2011 a 2014.

O professor Paulo Eduardo Capel Cardoso, da Faculdade de Odontologia (FO) da USP e membro da comissão organizadora, destaca uma questão fundamental do congresso. “Nada sobre nós, sem nós”, quando ressalta que o evento é realizado com a participação de pessoas com e sem deficiência na concepção e realização. “Se você vai discutir sobre deficiência visual, obrigatoriamente tem que ter alguém junto com deficiência visual, não só para fazer a interlocução, mas também para dar feedbacks”, destaca.

“O congresso, assim como a Universidade, tem um papel importantíssimo, e por isso que a gente optou em fazer misto. É todo misturado, nada sobre nós sem nós, nada sem os profissionais, vamos dialogar com a comunidade externa. O diálogo é a principal questão”, complementa a professora Eucenir.

Capel comenta sobre a questão do luto e da luta, o professor foi diagnosticado em 2018, mas há cerca de cinco anos entrou na fase mais severa da perda de acuidade visual. “Quando a doença na minha visão se instalou para valer eu não enxergava mais o rosto das pessoas, não conseguia ler. Eu tive um luto bravo. Sou um professor universitário superativo, foi um choque. Conhecendo outras pessoas com deficiência visual e a tecnologia assistiva, isso me trouxe de volta”, revela.

A tecnologia assistiva tem como intuito promover a autonomia, inclusão e qualidade de vida para pessoas com deficiência a partir de produtos, equipamentos, serviços ou estratégias que facilitem o dia a dia das pessoas. “Eu consigo trabalhar num celular sem enxergar. O meu celular conversa comigo, aliás, não é o meu celular, o seu, o da professora Eucenir, qualquer celular tem um modo chamado acessibilidade e ele vira um instrumento fundamental. Eu posso sair sem dinheiro, sem nada na rua, mas se eu sair sem o meu telefone, eu me perco”, explica Capel.

O professor desenvolveu iniciativas simples e de baixo custo em pesquisas de tecnologia assistiva voltadas para deficientes visuais como um equipamento que auxilia a colocar pasta na escova de dentes impresso em 3D e um dispositivo que auxilia a colocar água no copo sem derramar, ações realizadas em uma parceria da Faculdade de Odontologia da USP com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

De acordo com o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população. Quando se trata do acesso à educação, ao trabalho e à concentração de renda, os dados são mais alarmantes.

Conforme a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do instituto, o índice de analfabetismo foi de 19,5% para as pessoas com deficiência e 4,1% entre os que não deficientes. Quando se trata da força de trabalho 66,4% das pessoas sem deficiência estão empregadas, taxa que cai para 29,2% entre os deficientes, impactando na concentração de renda, com um rendimento médio de R$ 1.860, um valor 44,7% menor do que os não deficientes, com R$ 2.690.

A Constituição Federal do Brasil de 1988 estabelece em seu artigo 205 que a educação é um direito de todos e complementa no parágrafo terceiro do artigo 208 que é dever do Estado garantir o atendimento educacional especializado aos deficientes, preferencialmente na rede regular de ensino.

“Se está escrito que todo mundo tem direito à educação, por que tem que fazer tanta discussão para poder ter a criança com deficiência na escola? Eu posso falar mais da saúde e da educação, que é onde eu atuei mais para inclusão escolar”, ressalta a coordenadora Eucenir.

A professora destaca que muitos avanços foram conseguidos a partir dos movimentos sociais. “A lei por si só não garante, essa é a questão. Tem uma mudança comportamental enorme, cultural, que a gente tem que promover de algum modo, e a universidade tem que pensar nisso”. Para Eucenir é um debate universal. “A questão da deficiência não pertence às pessoas com deficiência, ela pertence ao mundo, como seres humanos. Nós não sabemos o que acontece e como vai ser a vida, e com deficiência também há uma possibilidade de vida plena”, finaliza.

Até o fechamento da reportagem, foram recebidas 1.830 inscrições gerais de 20 estados brasileiros e de outros países como México, Escócia, Canadá e EUA. Cerca de 150 pessoas com deficiência participam presencialmente do evento. Foram submetidos 305 trabalhos de graduandos, pós-graduandos, pesquisadores e docentes de diversas instituições.

Serviço
O 1º Congresso Internacional sobre Deficiências da USP será realizado de 21 a 24 de outubro de 2025. O evento presencial e on-line está com inscrições abertas e gratuitas pelo site do evento. Clique aqui. Para a modalidade presencial os interessados devem se inscrever até 30 de setembro, mas para o formato on-line permanecerão abertas. A organização é do Diversitas, o Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da USP.

domingo, 1 de junho de 2025

PLANTAS ALBINAS

Fotossíntese: saiba como as raras plantas albinas conseguem sobreviver

Plantas albinas são raras e lutam para sobreviver devido à falta de clorofila, mas algumas conseguem se adaptar de formas criativas
Getty Images
As plantas albinas são fenômenos raros e fascinantes no mundo vegetal. A ausência de clorofila, que dá o tom esverdeado às folhas, as torna incapazes de realizar o processo de fotossíntese, a “alimentação” das plantas. Embora o fenômeno coloque em risco sua sobrevivência, algumas conseguem formas de se adaptar e prosperar mesmo sem o pigmento.

As plantas totalmente albinas não conseguem converter a luz solar em energia, um processo vital para a maioria das espécies vegetais. Por isso, na maioria das vezes, elas morrem muito cedo.

De acordo com o biólogo Bruno Henrique Dias, professor da Faculdade Anhanguera, de Brasília, “essas plantas dificilmente sobrevivem por muito tempo”. No entanto, ele esclarece que existem exceções notáveis. “Algumas plantas conseguem sobreviver se forem parasitas de outros vegetais ou se mantiverem uma relação simbiótica com fungos que extraem nutrientes de outras plantas, o que as permite sobreviver”, diz ele.


Exceções: plantas albinas que sobrevivem com ajuda externa
A Monotropa uniflora, conhecida como “planta fantasma”, é um exemplo notável. Em vez de um caso de albinismo pontual em alguns indivíduos da espécie (como costuma ocorrer na maioria dos vegetais), no caso desta planta a ausência de clorofila está em seu DNA.

“Elas têm suas raízes conectadas a um tipo específico de fungo, chamado fungo micorrízico. Não é raro que plantas se conectem com fungos. O que faz a relação das plantas fantasmas especial é que em vez de produzirem seu próprio alimento através da fotossíntese, elas roubam os açúcares produzidos por outras plantas. Os fungos funcionam como uma rede de canais, transportando os nutrientes das raízes das plantas fotossintéticas para a M. uniflora. É como se houvesse um sistema de canos subterrâneo conectando as duas plantas e permitindo que a fantasma se alimente sem precisar fazer fotossíntese”, explica a bióloga Juliane Ishida, professora do departamento de genética da Esalq-USP e pesquisadora apoiada pelo Instituto Serrapilheira.

Variegamento: o caso das plantas parcialmente albinas
Embora as plantas completamente albinas sejam raras na natureza e dependam de outros seres para seu sustento, há algumas plantas que são parcialmente albinas, uma condição chamada variegamento. Nesses casos, apenas algumas partes da planta são albinas, enquanto outras mantêm a clorofila, permitindo que ela realize a fotossíntese, ainda que de forma incompleta.

“As variegadas podem ocorrer naturalmente, mas normalmente são obtidas por seleção humana (seja na agricultura ou no paisagismo). Algumas mutações específicas são selecionadas e podem afetar genes reguladores da produção de clorofila ou da distribuição de cloroplastos nas células, o que acaba conferindo diferentes cores a uma mesma planta”, esclarece botânico Layon Oreste Demarchi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Essas plantas, como a costela-de-adão albina, apresentam áreas brancas nas folhas, mas as regiões verdes continuam desempenhando a fotossíntese. Assim, elas conseguem crescer e se desenvolver de maneira saudável, ao contrário das albinas puras.

Dificuldades das plantas para sobreviverem
Não é fácil, no entanto, para estas plantas garantirem sua sobrevivência. Segundo o biólogo Paulo Teixeira, pesquisador do laboratório de genética e imunologia de plantas da Universidade de São Paulo (USP) e cientista apoiado pelo Instituto Serrapilheira, elas enfrentam muitas vezes um risco aumentado de doenças. Paulo fala por experiência própria: ele tem um laboratório de reprodução de plantas com albinismo.

“A condição pode ser causada por mutações genéticas, deficiências nutricionais, por exemplo, de magnésio, um elemento essencial para a produção de clorofila, e infecções virais. Além disso, pela falta dos pigmentos, elas se tornam muito mais sensíveis à luz”, completa Teixeira.

Além disso, especialistas indicam que o fato de as plantas serem parcialmente albinas pode também afetar sua capacidade de crescer e progredir. “Devido à menor concentração de clorofila nas áreas manchadas, a capacidade fotossintética dessas plantas é geralmente reduzida, o que provavelmente limita seu crescimento em comparação com indivíduos da mesma espécie que não apresentam essas variações”, completa Juliane Ishida, professora do departamento de genética da Esalq-USP e pesquisadora apoiada pelo Instituto Serrapilheira.

Apesar das dificuldades de manutenção, as plantas variegadas, com suas características únicas, são altamente valorizadas no mercado ornamental, sendo muito usadas na decoração de ambientes internos. Assim, as plantas albinas, apesar de sua fragilidade, continuam a ser um enigma fascinante da natureza.

domingo, 23 de março de 2025

MAIS UM ARTIGO ACADÊMICO ONLINE

 Aspectos psicossociais e iniquidades no âmbito da saúde que atingem a população com albinismo

Introdução: O albinismo constitui um conjunto de distúrbios genéticos hereditários onde há produção deficitária de melanina, pigmento responsável pela coloração da pele, do cabelo e dos olhos. Sua incidência global chega a ser de 1:20.000 indivíduos espalhados de forma irregular pelos países. Objetivo: O presente trabalho buscou identificar aspectos psicossociais e iniquidades no âmbito da saúde que atingem a população com albinismo. Método: Foi realizada uma revisão integrativa usando os descritores “Albinism AND Public Health” nas bases de dados PubMed, Web of Science, Scopus, Science Direct e Scielo. Não houve restrição quanto ao período de amostragem, idioma disponível ou localização geográfica. Resultados: Entre os 435 artigos encontrados, doze foram selecionados para compor o escopo deste trabalho que aborda a estigmatização e seu impacto na autopercepção, integração familiar e social, assim como a materialização das questões socioeconômicas e da falta de informação no acesso à saúde e à educação. Conclusão: A revisão verificou diversos aspectos psicossociais e processos de iniquidades na vivência de pessoas com albinismo que trazem impactos diretos no acesso à saúde. Os resultados obtidos evidenciam a insuficiência de dados sobre a população com albinismo em território nacional.

Link para baixar/ler o artigo online

https://www.researchgate.net/publication/389860859_Aspectos_psicossociais_e_iniquidades_no_ambito_da_saude_que_atingem_a_populacao_com_albinismoPsychosocial_aspects_and_health_inequities_that_affect_the_population_with_albinismAspectos_psicosociales_e

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

SUPERAÇÃO ACADÊMICA



Professor da Unicamp, ele investiga o pensamento político brasileiro no contexto latino-americano
Kaysel na Unicamp, onde leciona, acompanhado do cão-guia Jed
Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa Fapesp
Depoimento concedido a Ricardo Balthazar
14:00
22 dez 2024

Quando as pessoas me perguntam se nasci cego ou fiquei assim depois, eu sempre respondo: as duas coisas. Fui diagnosticado com glaucoma congênito bilateral logo que nasci. Enxergava muito pouco, perdi a visão do olho direito aos 9 anos e a do esquerdo aos 22. Como meu pai é oftalmologista, tive acesso a bons médicos e tratamentos. Foram dezenas de cirurgias, que ajudaram a prolongar minha visão, mas sempre soube que um dia iria perdê-la.

Há quase 20 anos não enxergo nada, mas no olho esquerdo vejo borrões de cores variadas. São efeitos visuais provocados por interações físico-químicas no interior do olho. O fenômeno é chamado pelos oftalmologistas de visão entóptica. Certa vez, ouvi um relato do escritor argentino Jorge Luis Borges [1899-1986], que perdeu a visão aos 55 anos, sobre isso. Ele dizia que os cegos não são todos iguais, não veem tudo preto como as pessoas imaginam.

Entrei na Faculdade de Direito da USP [Universidade de São Paulo] em 2002. Mas resolvi sair no meio do segundo ano e pedi transferência para o curso de ciências sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas [FFLCH] da USP. Eu queria uma vida acadêmica dedicada à pesquisa e ao ensino. Minha família tem muitos professores e pesquisadores, e isso me influenciou. Meu pai, Antonio Augusto Velasco e Cruz, e minha mãe, Angela Kaysel Cruz, são professores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, e meu tio paterno Sebastião Carlos Velasco e Cruz foi professor do Departamento de Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas [Unicamp], onde dou aulas atualmente.

O que predominava na ciência política da USP na época era o chamado neoinstitucionalismo, nascido nos Estados Unidos. É a corrente que ainda hoje predomina na área, voltada para o estudo das instituições e das escolhas dos atores políticos, sem muita atenção para a estrutura social em que eles estão inseridos. Aprendi muito, mas me interessava mais pela área de teoria e pensamento político e fui me encaminhando nessa direção, que se tornou minha especialidade.

Dois professores foram muito importantes para mim na USP: Gildo Marçal Brandão [1949-2010] e Bernardo Ricupero, que veio a ser meu orientador na pós-graduação. Quando entrei no mestrado, Brandão estava começando um grande projeto de pesquisa, apoiado pela FAPESP, sobre linhagens do pensamento político brasileiro, e do qual participei desde o início.

Eles me abriram as portas do Departamento de Ciência Política e com eles conheci um grupo de cientistas políticos e sociólogos muito diverso. Nosso objetivo era buscar as linhas de continuidade histórica que organizam o pensamento brasileiro, desenvolvidas no período de quase um século que separa o fim do Império, em 1889, e o fim da ditadura militar [1964-1985]. Foi uma experiência que me fez amadurecer intelectualmente.

No mestrado, desenvolvi um estudo comparado sobre o historiador brasileiro Caio Prado Júnior [1907-1990] e o pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui [1894-1930]. No doutorado, examinei a relação que se estabeleceu entre comunistas e nacionalistas nos dois países, em conjunturas diferentes, para refletir sobre a aliança entre comunistas e populistas no Brasil antes do golpe militar de 1964.
Em 2017, com Bernardo Ricupero durante encontro na USPArquivo pessoal

A comparação foi necessária para examinar a evolução do pensamento político brasileiro no contexto latino-americano. A academia brasileira tende a ser muito ensimesmada, como se o Brasil estivesse isolado do continente do qual faz parte e de outras regiões. Ricupero me fez entender a importância de pensar o Brasil como parte de algo maior.

Concluí o mestrado em 2010 e o doutorado em 2014. Estava perto de defender a tese quando surgiu uma vaga na Universidade Federal da Integração Latino-americana [Unila], em Foz do Iguaçu [PR]. Começar a carreira lá foi marcante. Convivia com alunos e professores de vários países e tive uma experiência internacional muito rica sem sair do Brasil. Além disso, como era uma instituição nova e pequena, todos tinham que fazer de tudo. Eu mal havia entrado na sala de aula quando fui chamado a coordenar um curso. Foi uma loucura, mas aprendi muito.

Em 2016, abriram concurso para uma vaga na Unicamp na área de teoria e pensamento político. Tive a felicidade de ser aprovado em primeiro lugar. Concluí em 2024 um pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, e agora estou me preparando para defender minha tese de livre-docência na Unicamp. Ela é baseada em pesquisas que tenho feito sobre o anticomunismo e a extrema direita na América Latina.

Nada disso foi fácil com a minha deficiência visual, claro. Um cão-guia me acompanha todos os dias no trabalho. Ele se chama Jed, e eu o trouxe de uma fundação de Nova York que treina animais para auxiliar cegos. Só uso o braille para ler placas, rótulos e pouca coisa além disso. A literatura especializada disponível em braille é muito limitada. Então, sempre dependi muito da tecnologia e de pessoas que leram para mim em voz alta, como meus pais, minha avó e colegas na graduação.

O aperfeiçoamento dos sistemas desenvolvidos para deficientes visuais, conhecidos como leitores autônomos, que copiam documentos impressos e convertem os textos em áudio, foi fundamental para que eu pudesse fazer o mestrado e o doutorado. Mas ainda dependo da qualidade da digitalização do material que preciso consultar. Há muita coisa disponível na internet, mas nem sempre num formato legível para os programas de computador que me auxiliam na leitura.

Tive muita dificuldade nas pesquisas sobre anticomunismo, porque trabalhei pela primeira vez com fontes primárias. Os arquivos não têm gente disponível para ajudar a procurar o que você precisa. Em geral, trazem a caixa que você pede, e boa sorte. Só deu certo porque consegui financiamento da FAPESP para contratar assistentes de pesquisa, que digitalizaram e editaram os documentos que estudei.

Viajei duas vezes para consultar um rico acervo preservado no Paraguai, que reúne documentos da Liga Mundial Anticomunista, uma rede de extrema direita que atuou durante a Guerra Fria e tinha um braço na América Latina e uma filial no Brasil. Copiamos quase 2 mil páginas de documentos, das quais só consegui ler uma fração até agora. Mas nunca achei que seria fácil. Sempre soube que, para poder ler e trabalhar, teria que recorrer a todos os meios possíveis e imagináveis.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

UFAL LANÇA LIVRO GRÁTIS SOBRE ALBINISMO

Livro “Introdução ao Estudo do Albinismo” revela desafios e avanços na saúde da população albina.



Foi lançado o livro “Introdução ao Estudo do Albinismo”, fruto de uma pesquisa em Saúde Coletiva realizada pela Faculdade de Medicina (Famed) da Universidade Federal de Alagoas em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O projeto intitulado “Direito à saúde da pessoa albina: perfil e diagnóstico de saúde e a busca por ações de ruptura das iniquidades em municípios alagoanos” foi coordenado pelas professoras Priscila Nunes e Maria Edna Bezerra, com a colaboração da professora Josineide Sampaio.

A pesquisa foi dividida em duas etapas. Na primeira fase, em colaboração com a Gerência de Atenção Primária da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas, foi realizado um levantamento das pessoas com albinismo nos municípios alagoanos, identificadas pelos profissionais de saúde da Atenção Básica. A segunda etapa envolveu entrevistas com pessoas com albinismo residentes em 22 municípios para identificar o perfil sociodemográfico e o diagnóstico situacional de saúde dessa população, como explicou Josineide.

Durante o evento de lançamento do livro, que ocorreu no dia 7 de novembro, participaram online representantes dos Ministérios da Educação, Saúde e Igualdade Racial, além de profissionais, lideranças e pessoas com albinismo que não puderam comparecer pessoalmente. Na ocasião, foram apresentados os produtos e atividades de extensão realizados nos municípios para as pessoas com albinismo, seus familiares, gestores e profissionais de Saúde, Educação e Assistência Social durante a execução do projeto.

O projeto de pesquisa teve início em junho de 2022 com o objetivo de subsidiar a implementação de políticas públicas direcionadas à população albina. As coordenadoras da pesquisa ressaltaram que a maioria dessas pessoas se encontra em situação de grande vulnerabilidade social, com algumas apresentando lesões de pele decorrentes da exposição solar sem proteção adequada, além de uma alta taxa de evasão escolar devido à baixa visão, o que dificulta o desenvolvimento acadêmico.

O livro pode ser acessado gratuitamente no formato de e-book através do link




Com informações e fotos da UFAL

LIVRO GRATUITO SOBRE ALBINISMO

Introdução ao estudo do albinismo

Esta obra é fruto do trabalho coletivo de pesquisadores e pesquisadoras da área de Saúde Coletiva que se dedicaram para contribuir com a produção científica sobre a população com Albinismo. É um tema extremamente importante, porém com poucas publicações e consequentemente muito desconhecimento sobre a gravidade do problema e lacunas nas políticas públicas para assistí-los, o que leva ao aprofundamento das iniquidades que as pessoas com albinismo sofrem no Brasil e no mundo. Ao longo dos capítulos serão abordados diversos temas com foco no albinismo como a perspectiva social, aspectos genéticos, epidemiologia, contextualização em relação às cirurgias plásticas, aspectos oftalmológicos, entre outros. O livro também traz relatos das experiências vivenciadas na pesquisa intitulada “Direito à saúde da pessoa albina: perfil e diagnóstico de saúde e a busca por ações de ruptura das iniquidades em municípios alagoanos”, realizada em parceria entre a Universidade Federal de Alagoas e o Ministério da Igualdade Racial. Parte das autoras e dos autores desta obra são pesquisadores e pesquisadoras responsáveis pelo projeto mencionado. Os relatos apresentados são frutos do estudo do perfil de saúde e do grupo focal realizado com pessoas com albinismo em Alagoas.


ACESSE O LIVRO NO LINK



segunda-feira, 1 de abril de 2024

EDUCAÇÃO SOBRE DIREITOS ALBINOS


Ufal abre vagas para curso on-line sobre direito da pessoa com albinismo

Está disponível, especialmente para profissionais e estudantes de saúde e da educação básica, mas aberto a todo o público interessado, o curso on-line Direito da pessoa com albinismo. São 40 horas de aulas em formato EAD sem tutoria, e as aulas têm início imediato.

O curso é uma iniciativa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Famed/Ufal), com financiamento do Ministério da Igualdade Racial. A ideia é realizar capacitação de gestores e demais profissionais e estudantes da área de saúde e da educação básica dos municípios alagoanos sobre as estratégias de inclusão das pessoas com albinismo nos cuidados de saúde e na educação.

Os interessados em participar podem realizar inscrição no site. Após a inscrição a equipe do projeto entrará em contato com as instruções de acesso no Moodle.

As aulas são gratuitas.

O Projeto

O Projeto "Direito à Saúde da Pessoa com Albinismo: perfil e diagnóstico de saúde e a busca por ações de ruptura das iniquidades em municípios alagoanos” é desenvolvido por pesquisadores da Famed/Ufal que tem como objetivo estudar o perfil e diagnóstico situacional da saúde da pessoa com albinismo no agreste alagoano.

Para alcançar esse objetivo, foram visitados 22 municípios alagoanos, e entrevistados 73 indivíduos. Além disso, o projeto desenvolveu conteúdos e formações para os profissionais de saúde e da educação básica sobre a temática.

Dentro das atividades, já foram ofertadas, além dos cursos EaD, oficinas presenciais em alguns municípios alagoanos, como Arapiraca, Olivença e Traipu. O projeto também mantém um canal no Youtube com uma playlist de Educação Inclusiva para Pessoas com Albinismo.

Dúvidas e mais informações no Whatsapp (82) 9403-6530 ou pelo endereço eletrônico: capacitacaoalbinos@gmail.com .

Veja mais no perfil: @direito_albinismo ou no link.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

UFAL ENSINA ALBINISMO

Medicina abre inscrições para curso sobre saúde das pessoas com Albinismo


A Faculdade de Medicina (Famed) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) reabriu as inscrições para o curso de atualização em Direito à Saúde para pessoas com Albinismo. Com carga-horária de 40 horas, o curso acontece totalmente a distância, pela plataforma virtual da Ufal. Para participar, basta realizar inscrição no site.


As aulas acontecem até 31 de dezembro, e têm o objetivo de capacitar gestores e demais profissionais que atuam nas unidades básicas de saúde e na educação básica dos municípios alagoanos sobre o direito das pessoas com albinismo.

O Projeto Direito à Educação para Pessoa com Albinismo da Faculdade de Medicina é financiado pelo Ministério da Igualdade Racial. É totalmente gratuito e com certificação pela Universidade.

Mais informações pelo telefone: (82) 9403-6530, pelo e-mail: capacitacaoalbinos@gmail.com ou pelo perfil no Instagram: @direito_albinismo

terça-feira, 27 de junho de 2023

MAYARA REIS FALA SOBRE SUAS EXPERIÊNCIAS ALBINAS

Dia 13 de junho é celebrado o Dia Internacional da Conscientização do Albinismo. Uma data importante para promover a conscientização e combater o estigma associado a essa condição genética.

A data foi criada em 18 de dezembro 2014, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou uma resolução histórica reconhecendo o albinismo como uma questão de direitos humanos.


Tornando esta resolução uma resposta aos inúmeros desafios e discriminações enfrentados por indivíduos com albinismo em várias partes do globo.


Para trazer luz a essa questão e compartilhar sua experiência, o Jornal de Brasília conversou com Mayara Reis, estudante de psicologia da Universidade de Brasília (UnB) e uma voz ativa na inclusão das pessoas albinas.

Nesta entrevista exclusiva, Mayara nos conta sobre os desafios enfrentados em viver em uma sociedade que muitas vezes não está preparada para suas necessidades e peculiaridades.

Assista à conversa na íntegra logo abaixo:

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

MAIS UMA DISSERTAÇÃO SOBRE PESSOAS ALBINAS!

Em “’Saia do sol, galego’: o fenômeno do albinismo no Quilombo Filú em Alagoas”, o foco da pesquisadora Sandreana de Melo Silva, da Universidade Federal de Sergipe, é entender o albinismo como marco diferencial na construção da identidade dessa população quilombola, tornando-se inclusive mecanismo de demarcação de fronteiras entre os Filú, em oposição à ideia de fenômeno patológico ou doença.

Para ler o trabalho online ou fazer download (legal), acesse o site:



terça-feira, 11 de outubro de 2022

PROJETO UNIVERSITÁRIO NA PARAÍBA


Faculdade de Medicina lança projeto voltado para a saúde de pessoas albinas

Representantes da comunidade universitária, da comunidade albina e autoridades federais estiveram reunidos no auditório da Faculdade de Medicina (Famed), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), na manhã desta terça-feira (14), para o lançamento do projeto Direito à saúde da pessoa albina: perfil e diagnóstico de saúde e a busca por ações de ruptura das iniquidades em municípios alagoanos. O secretário Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Paulo Roberto, veio para o lançamento das ações do projeto.
A solenidade foi conduzida pela diretora Alessandra Leite. Foram liberados R$ 1,2 milhão para o projeto de Saúde com a população albina, coordenado pela professora Priscila Nunes, e mais R$ 300 mil para o Censo das Ações Afirmativas da Ufal, projeto que será dirigido pelo professor Danilo Marques, coordenador geral do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi-Ufal). “As demandas são muitas, mas vamos dar as respostas científicas e sociais que a população albina precisa”, destacou Priscila Nunes.

Durante o lançamento, foi feita uma homenagem ao professor Jorge Riscado, que faleceu em outubro do ano passado. Foi ele que iniciou o contato com as comunidades de quilombolas albinos de Alagoas, do Quilombo Filús, em Santana do Mundaú. “Jorge era uma pessoa acolhedora e generosa. Ele ensinou que o nosso conhecimento técnico deve levar conforto e bem-estar para as pessoas. Esse é o legado dele”, declarou Edna Bezerra, docente do eixo de Aproximação da Prática Médica e Comunidade.

A vice-reitora Eliane Cavalcanti também destacou a grande contribuição de Jorge Riscado para colocar na pauta a situação da saúde da população albina do interior de Alagoas. “Jorge soube colocar a sua sensibilidade para enfrentar os tabus e preconceitos que cercam as pessoas albinas. Ele sabia evocar essa dignidade dos filhos de Ogum, que no sincretismo religioso é associado com São Jorge. Eu sempre dizia que ele era um autêntico Jorge”, recordou a vice-reitora.

Paulo Roberto recordou que esteve com Jorge Riscado no Quilombo Filús, no início de 2021, pouco depois de assumir a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. “A causa que ele defendia com tanto entusiasmo, também entrou no nosso coração. Nós trabalhamos para que as diferenças não sejam vistas como desigualdades. O dia 13 de junho foi instituído como Dia Mundial de Consciencialização do Albinismo para que sejam eliminadas todas as formas de violência e preconceito sofridas por essa população”, ressaltou o secretário nacional.

Estavam também presentes na solenidade, a deputada federal Tereza Nelma, os pró-reitores Jarman Aderico (Proginst) e Cezar Nonato (Proex); e o gerente administrativo do Hospital Universitário, Anderson Dantas. A comunidade albina de Alagoas foi representada por Maria Verônica e José Passos, presidente da Associação dos Albinos de Alagoas (Albinal). O albinismo é um distúrbio genético caracterizado pela ausência total ou parcial da melanina. Por isso, essas pessoas precisam de proteção diária para a pele e olhos. “A parceria com a Universidade é fundamental para garantirmos nossa saúde”, destacou Passos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

PAPIRO VIRTUAL 211

 


Vejam que noticia ótima: a dissertação de mestrado sobre pessoas albinas, escrita pelo sociólogo Adailton Aragão foi publicada sob forma de livro!

O livro Pessoas albinas, pessoas guerreiras: nas fendas da (in)visibilidade traz novas reflexões sobre a população albina, que vão além dos fatores biológicos/médicos. Por meio dos relatos pessoais de como é ser uma pessoa albina num país onde são “invisíveis” aos olhos do Estado e “visíveis” no convívio social, esta obra debruça-se sobre a (in)visibilidade dessas pessoas, colocando em pauta as formas de estigmas, preconceitos, discriminação a que estão sujeitas. O autor descreve o cotidiano, os modos de vida, os problemas enfrentados, os processos de adaptação e as estratégias para conviver com o albinismo e, principalmente, a superação e a luta por direitos e respeito. Outro fator relevante abordado é a construção da identidade – embora não seja o foco neste volume, deixa brechas para próximas produções. A obra propõe desconstruir ideias equivocadas sobre as pessoas albinas e mostrar esse “outro” (albino/a) desconhecido pela população. O livro tem um conteúdo instigante, intrigante, comovente e com linguagem fluida, dinâmica e envolvente. Foi produzido e pensado para o/a leitor/a, para que todos/as possam ter acesso e disseminar conhecimento sobre o tema, com o objetivo de dar mais visibilidade positiva às pessoas albinas.


Para informações sobre coo adquirir a obra acesse o site:

quarta-feira, 25 de maio de 2022

USP EDUCA SOBRE ALBINISMO

Pesquisadora da USP organiza projeto de assistência a pessoas com albinismo
Iniciativa nasceu a partir de um projeto acadêmico e se tornou um projeto de vida para a pesquisadora, com construção de fortes vínculos emocionais




Quando cientistas deixam as quatro paredes do laboratório e vão a campo, os frutos podem superar os resultados teóricos e surpreender. Uma dessas experiências transformadoras foi vivida pela doutora em Genética pela Universidade de São Paulo (USP), Lilian Kimura, que, após uma viagem de pesquisa, viu suas perspectivas sobre ciência e impacto social mudarem radicalmente.

Em 2003, Lilian se juntou ao projeto Variabilidade molecular em populações brasileiras: um estudo do cromossomo X frágil liderado pela professora Regina Mingroni e vinculado ao Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH). No mesmo ano, Kimura partiu rumo às comunidades tradicionais remanescentes de quilombos do Vale do Ribeira, região localizada no sul do estado de São Paulo.
Nas comunidades, a equipe de pesquisadores coleta amostras para análise genética da população a fim de estabelecer, a partir da ocorrência do cromossomo X frágil, as relações genéticas entre indivíduos de uma mesma comunidade e entre comunidades diferentes. “A minha sorte foi ter me envolvido em um projeto de genética humana em que as viagens de campo ainda estavam acontecendo”, afirma Lilian.
A síndrome do X frágil é uma condição genética e hereditária, na qual um dos genes do cromossomo sexual X deixa de codificar corretamente uma proteína essencial para as conexões entre células nervosas. O mau funcionamento do gene pode resultar em deficiências intelectuais, distúrbios do comportamento e sintomas físicos, como macrocefalia.
A fim de estabelecer uma conexão de confiança com os moradores que participaram das pesquisas, o grupo ia até as comunidades, adentrava na rotina de seus habitantes e procurava sempre esclarecer qual era o intuito da visita e porque era importante a participação deles no projeto, mesmo que o estudo não tivesse uma aplicabilidade direta e imediata. Foi neste contexto que Lilian conheceu pessoas com albinismo que moravam na região.
Nas comunidades quilombolas inseridas na cidade de Eldorado, SP, vivem cinco albinos. A população da cidade é de 15.000 habitantes, segundo o último censo. O albinismo, apesar de ser uma característica rara (afeta 1 a cada 17.000 pessoas no mundo), é considerada frequente nesta população, já que a prevalência aumenta para 1 a cada 3.000 habitantes. “O que mexeu comigo foi perceber que sabia o que era o albinismo e as consequências da falta de melanina, mas não poder fazer nada. Então, este lado além do científico foi tocado.”
Projeto Amor à pele
Foi então que surgiu o projeto que mais tarde passaria a ser chamado de Amor à pele: “Eu comecei a arrecadação de protetor solar, que, por ser um item muito caro, a maioria das famílias não têm condições de manter o uso diário. O item é um elemento mandatório para quem tem albinismo; afinal, não prevenir é muito mais doloroso e pode gerar uma consequência fatal que é o câncer de pele.”
O projeto fornece, desde 2018, itens como protetor solar e vestuários com proteção UV para os cinco moradores albinos de Eldorado, SP. Mais tarde, por meio das redes sociais, a iniciativa ampliou os horizontes e passou a assistir outros dois bebês com albinismo no interior do estado da Bahia. “A gente faz a campanha através das redes sociais, arrecada com apoiadores e eu envio pelo correio da forma que for possível”, conta a pesquisadora.
A pessoa com albinismo demanda cuidados específicos, já que a falta de melanina não prejudica apenas a exposição da pele ao sol, mas afeta também o desenvolvimento visual. “Muitas pessoas com albinismo, se não a maioria, vão ter algum grau de deficiência visual. Isso impacta em muitos aspectos, como o aproveitamento escolar”, explica Lilian.
Em 2020, em meio à pandemia, surgiu um novo desafio: o convite para participar remotamente do projeto de extensão universitária “As pessoas com albinismo e o direito à saúde”, coordenado pela professora Nereida Palko, da Escola de Enfermagem Anna Nery – Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ). Para Lilian, o grande diferencial desse projeto é ir além do DNA, da pele e da visão, e olhar para todas as dimensões da pessoa com albinismo.
“Eu não tinha a dimensão do entendimento de como a pessoa com albinismo é invisibilizada no nosso país e no mundo. […]As próprias pessoas às vezes não conhecem a própria condição, então elas não tomam os devidos cuidados e o sistema de saúde não está preparado para abrigá-las.”
‘Nasci sem melanina, como assim?’
A partir da percepção de Lilian de que, como cientista, deveria consolidar sua contribuição dentro da temática, nasceu a ideia de produzir uma cartilha.
“Nasci sem melanina, como assim?” foi elaborada por Lilian Kimura, Nereida Palko e a equipe do projeto de extensão do qual elas fazem parte. A linguagem da cartilha foi pensada para não demandar extensas habilidades de leitura. O intuito era que crianças ou adultos, lendo ou ouvindo alguém ler, fossem capazes de absorver as palavras e começar a extrair informações sobre o que é ser uma pessoa com albinismo.
https://registro.portaldacidade.com/noticias/saude/pesquisadora-da-usp-organiza-projeto-de-assistencia-a-pessoas-com-albinismo-5546

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

CONTANDO A VIDA 363

 INCLUSIVISMO E EXCLUSIVISMO: Pecados da Educação cívico-militar.


José Carlos Sebe Bom Meihy

Não basta constatar o negacionismo. Não! É preciso denunciar o desprezo à Educação, à Ciência e à Cultura. Mas, não é suficiente combater sem argumentos. A ausência de enfrentamento dessas questões tem permitido avanços de um projeto que já traz consequências no ensino regular.

Formulada sem consulta a autoridades da Educação, juntando um punhado de partidários que não resistiriam a debates especializados, a proposta de implantação de 54 unidades de escolas cívico-militares em três anos, funciona como agência ideológica da extrema direita. E há ainda quem fale em escola sem partido. Resta, quase em silêncio, assistirmos educadores encomendados iludindo a população em nome da qualidade de ensino, de Deus, da família, da moral e bons costumes.

Tudo ganhou forma aos 2 de janeiro de 2019, por meio do Decreto nº 9.665, quando foi criada a Subsecretaria de Fomento às Escolas Cívico-Militares, entidade que tem como uma de suas atribuições desenvolver um “modelo de escola de alto nível, com base nos padrões de ensino e modelos pedagógicos empregados nos Colégios Militares do Exército, das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros”. Dirigida ao ensino fundamental e médio, com apoio de estados e municípios, tais escolas cobrem do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e do 1º ao 3º do ensino médio. Escondem-se na aparência de renovação sutilezas que merecem cuidados, pois comprometem princípios abertos a uma formação libertadora, inteligente e criativa. É necessário que a sociedade civil veja nesses “avanços” parte de um conjunto comprometedor do pensamento crítico, pluralista, integracionista.

E os ataques ao bom senso educacional estabelecido são progressivos. A tal ponto chegamos que o Ministro da Educação, Milton Ribeiro, teve coragem de defender publicamente uma política de exclusão do convívio comum pessoas com deficiência que, segundo ele “atrapalham entre aspas” os demais estudantes. Como tem se tornado vezeiro no atual governo, depois de agressões bárbaras como esta, pede-se desculpas como se elas interrompessem avanços calamitosos como os que se formulam como política ministerial.

Não se trata apenas de impulso reformador do ensino. Ao ver a multiplicação planejada dessas escolas, é importante ter em vista que estamos falando de educação de jovens de baixa renda, aliciados em seus bairros e que, iludidos pela cantilena fácil de uma educação de qualidade e em ambiente sem violência, emprestam seus corpos e mentes a um programa que os limita em que de essencial a educação pode promover: capacidade crítica e criatividade.

Desmerecendo a estrutura que temos estabelecida, em vez de corrigir distorções gerais e favorecer melhoria de infraestrutura e capacitação de professores, as novas investidas acentuam falhas existentes e impõem, sob pretexto de clamor comunitário, alternativa que, sem disfarces, automatizam segmentos pobres e grupos vulneráveis, contingentes sem discernimento do processo educacional livre, plural e aberto a todos.

Sobretudo, sob a capa ilusória de formação de uma elite ordeira e bem formada, exercita-se o verbo excluir, levando ao limite da exclusão os “incapacitados” e mesmo alunos com dificuldades de aprendizado. E o próprio ministro usou a expressão “combate ao inclusivismo”, ou seja, isolamento de pessoas com dificuldades. Nesses postos de preparação para diferenciar cidadãos, não há lugar para pessoas com deficiências de qualquer tipo e que, por sua vez, deviriam ser colocados em qualquer outra escola ou “guetizados” em espaços especiais. Mas há mais a ser comentado.

Como se o Brasil não fosse um caudal racial - como se nossos jovens partissem do mesmo lugar social e tivessem oportunidades semelhantes, sem marcas étnico-raciais, personalidade comunitária - seres selecionados, os escolhidos devem se submeter ao crivo de uma “igualdade imposta”, que anula a personalidade e marcas singulares. E tudo deve ostentar neutralidade derivada de regras que ordenam, por exemplo, o mesmo corte de cabelos, o uso compulsório de uniformes (usa-se inclusive o termo “enfardamento”), proibição de tatuagens expostas. Nesta lógica, é regulamentada a “ordem unida”, cultivados hinos e práticas de cumprimento e saudações. Tais comandos são outorgados como condutas sujeitas a penalidades – inclusive de transferências. E nada de crítica ou descoberta de talentos pessoais. Pelo contrário, o que se propõe é a disciplina indiscutível dos corpos e a obediência contratual, assinada pelos pais no ato da matrícula. Tudo submisso a um “manual de conduta”.

Inscritas num contexto de depreciação da ciência e da cultura, de negacionismo explícito e atrasado, estas escolas mais visam formatar mentes do que promover conhecimento criativo e discussão de valores. É logico que a dotação de 1 milhão de reais para cada unidade instalada é vista com bons olhos por todos diretamente interessados. O problema é que a origem desse dinheiro – que sai dos cofres públicos – tem destinação exclusiva. E também, a presença de militares reformados, dotados de salários complementares, é condenável em nome do contingente de técnicos da área da educação, gente subempregada.

A pergunta que não pode ficar silenciada questiona: e os outros? E os diferentes? E exatamente os que precisam de mais atenção? Serão estes impelidos a sair de seu meio? Será que não é chegada a hora de promover mais a educação integral, inclusiva, que atenda a todos? Não bastam os colégios militares já existentes?

Pois é, um país que produziu alguém como Paulo Freire, modelo mundial de educador digno e respeitado, tem agora um bando de elitistas despreparados para o futuro e assim, a passos largos caminhamos para o futuro menos inclusivo para a cidadania plena e mais exclusivo para sujeitos automatizados. Por fim, como conter a indignação ao ouvir do Ministro da Educação que a “universidade deveria, na verdade, ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade”. Pode?...

terça-feira, 18 de maio de 2021

A SUPERAÇÃO DE ANA BEATRIZ



Negra, albina e com deficiência visual: ex-aluna da rede pública é aprovada em 1º lugar nas cotas para psicologia na USP

Depois de discussões políticas e conflitos de identidade, Ana Beatriz Ferreira entendeu que poderia se declarar negra, mesmo com a baixa produção de melanina na pele. Ela conta como superou a defasagem do ensino público até chegar à universidade.

Por Luiza Tenente, G1



Aos 20 anos, Ana Beatriz Ferreira foi aprovada em 1º lugar no curso de psicologia da Universidade de São Paulo (USP), em uma das modalidades de cotas. Moradora da periferia da capital paulista e ex-aluna da rede pública, a jovem tem uma trajetória marcada pelo diagnóstico tardio de deficiência visual e pela descoberta da própria identidade racial.

Ana nasceu com albinismo, uma desordem genética que prejudica a produção de melanina. Sua mãe, empregada doméstica, é negra. Seu pai, eletricista aposentado, é branco.

“Era algo muito conflitante para mim. Quando era criança, eu via o racismo que minha mãe, minhas tias e minhas amigas enfrentavam”, diz. “Eu não queria ser uma pessoa negra e passar por aquilo. Tentei usar o albinismo para me tornar branca, e alisei meu cabelo.”

Mas, aos poucos, a partir da pré-adolescência, a compreensão de Ana acerca de sua identidade mudou. Por meio de seu irmão e de seus colegas do colégio, ela entrou em contato com discussões políticas e conheceu ideias do feminismo negro.

“A partir dali, fiquei meio confusa. Eu sou uma pessoa branca ou não sou? Eu tenho privilégios ou não tenho? O que eu sou? E aí, decidi que não alisaria mais meu cabelo e que aceitaria minha negritude”, afirma.


“O albinismo pode tirar a melanina, mas existem pessoas albinas que são negras, brancas ou amarelas. Para mim, era importante reivindicar esse lugar.”
Ana Beatriz posa ao lado de seu irmão, Luiz — Foto: Erica Serra/Arquivo pessoal

Depois de “muitas discussões internas e externas”, Ana resolveu se inscrever no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) na modalidade de cotas para pretos, pardos e indígenas que tivessem estudado na rede pública.

“Eu não queria ocupar um espaço que não era meu; não queria ser oportunista. Entendi que meu lugar era o de pessoa negra: o de pessoa negra e albina”, diz.

Descoberta tardia da deficiência visual

Moradora da periferia na Zona Leste de São Paulo, Ana sempre estudou em escolas públicas.

No ensino fundamental, para enxergar a lousa, precisava se levantar e ficar bem perto dela — os óculos de grau não resolviam a dificuldade.

Foi só aos 13 anos que ela entendeu por quê: o albinismo não era apenas cutâneo, e sim ocular, causado por uma baixa síntese de melanina também nos olhos. Isso comprometia significativamente sua visão.

Descobrir, mesmo que tardiamente, que tinha uma deficiência foi determinante para lutar por novos direitos e recursos de acessibilidade. Passou a requisitar adaptações que facilitavam sua vida, como a ampliação nas letras das provas do Enem e dos vestibulares.

Sem luz e com vazamento de água: as dificuldades no ensino público

O diagnóstico tardio fez com que Ana perdesse boa parte do conteúdo ensinado na escola. Conforme crescia, não se sentia mais à vontade para se levantar e andar até a lousa.

“Eu não queria ser vista. Fui desenvolvendo meus métodos, né? Pegava o caderno dos amigos depois. Mas aí já tinha perdido todo o passo a passo da explicação do professor. São barreiras que enfrentei”, diz.

A própria infraestrutura da rede pública também comprometia o processo de aprendizagem da jovem. No ensino médio, de 2015 a 2017, ela se mudou para uma escola estadual no bairro do Tatuapé.

Foram anos turbulentos, com greves de funcionários e escândalos na compra de merendas. “Para mim, foi um momento importante enquanto cidadã. Minha formação política começou ali, quando vi a tentativa de desmantelarem o ensino público. Mas foi muito desafiador”, lembra.

“E a gente ainda tinha problemas com falta de luz — no período da tarde, eu precisava ir embora mais cedo, porque não tinha iluminação natural. Perdia a aula. E também, às vezes, vazava água quando chovia. Enchia tudo: corredor, sala.”

Estudos para o Enem

Quando Ana terminou o ensino médio e foi prestar vestibular, sentiu “que essas questões pesaram bastante”.

“É uma defasagem em vários sentidos: por causa da estrutura da escola, do diagnóstico tardio da minha deficiência, das greves e movimentações políticas para conseguirmos melhorias na educação. Eram muitas dificuldades”, diz.

A jovem ainda não tinha certeza se queria entrar na universidade ou se deveria focar no trabalho. “Na periferia, quando seus recursos são escassos, existe esta questão: você está entrando na vida adulta e vai ficar dependendo dos seus pais? Eu queria me sustentar”, conta.

Ela até entrou em um cursinho popular, voltado para estudantes de baixa renda, mas se dedicou mesmo à carreira de modelo, após ser descoberta por um fotógrafo na rua.

Depois de dois anos, em 2019, ela optou por só estudar e buscar uma vaga na universidade. Teve apoio do cursinho gratuito MedEnsina (2019) e, em 2020, conseguiu uma oportunidade de não pagar as mensalidades do Poliedro.

“Comecei a estudar para valer. Descobri que poderia ter uma bolsa sendo monitora lá. Fazia atividades para a instituição e tinha acesso a toda a estrutura. Pensei: agora, vou brilhar!”, relata.

Mas, semanas depois do início das aulas, começou a pandemia de Covid-19. Ana precisou se adaptar ao formato de ensino remoto e encontrar um espaço para estudar em casa. “Fazer essa transição foi difícil. Eu via a realidade externa no meu bairro, com pessoas morrendo; foi sofredor. Não sei se eu teria conseguido me preparar se não fosse a estrutura do Poliedro”.

No fim de 2020, ela prestou Fuvest e Enem, para tentar uma vaga na USP. Na primeira, não foi aprovada — faltou muito pouco. Mas depois, pelo Sisu, conquistou o primeiro lugar em psicologia em uma das modalidades de cotas.

“Pensei em outros cursos de ciências humanas, porque achava que a psicologia fosse individualizada e não se voltasse às pessoas da periferia. Como eu seguiria uma carreira sem poder me voltar para os meus? Mas aí descobri que existia, sim, uma psicologia mais plural e diversa, articulada com questões de raça, classe e gênero”, afirma Ana.

Ela faz questão de reforçar que seus resultados não foram alcançados apenas por esforço próprio.

“Meu caso não pode ser uma comprovação de que a meritocracia funciona no nosso país. Eu tive uma série de privilégios: apoio da minha família, acesso a cursinhos que me ajudaram, possibilidade de parar de trabalhar por um período para estudar. Claro que existe uma questão de dedicação pessoal, mas também há uma rede de apoio que nem todo mundo tem.”

As aulas na USP já começaram. E a luta política continua: a estudante faz parte do coletivo negro “Escuta Preta”, com outras estudantes de psicologia.

“Sinto que consigo entender e criar minha própria voz, minha própria história, sem precisar de terceiros falando o que sou ou que não sou.”

quinta-feira, 18 de junho de 2020

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

CONTANDO A VIDA 285

SER PROFESSOR NO BRASIL EM TEMPO DE CÓLERA.
J
osé Carlos Sebe Bom Meihy 

Fiquei curioso: qual a origem do dia dos professores? Foi fácil achar a resposta no Google e assim aprendi que existe até um livro publicado pela UNESCO sobre a data (“World Teachers' Day”). Senti-me mais importante, pois pensava que isto seria coisa de brasileiro que inventa data para tudo. Imagine que dia desses achei indicação de que há homenageados todos os dias do ano, e que no mês de outubro, além dos professores existem também algumas referências bem exóticas como: dia nacional do vereador (1), do representante comercial (10), do guarda noturno (19). Há, é claro, destaques mais conhecidos como: dia do dentista (3), do engenheiro agrônomo (12), dia do médico (18) e até dia da dona de casa (31). Desde logo, sem exceção, parabéns a todos, mas com ênfase quero falar do dia dos mestres. 

Aprendi que há um calendário diferente para cada país, pois a aceitação das figuras docentes difere muito de cultura para cultura. Os critérios gerais para a celebração variam, uns optam por natalícios de professores notáveis, outros escolhem segundo a estação do ano. Sempre na primavera – e há requintes como na Coréia do Sul que comemora no dia 15 de maio quando começam a florir os cravos vermelhos. De um modo geral, porém, o 5 de outubro é conhecido, desde 1994, como o dia internacional dos professores pela UNESCO. O Brasil variou. A efeméride foi estabelecida oficialmente sob o governo de João Goulart em 1963. Desde então a data foi oficializada pelo decreto federal nº 52.682, com validade para todo território nacional. Diz o texto em seu art. 3º, “para comemorar condignamente o dia do professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo delas participar os alunos e as famílias”. A origem, porém, é remota, e se deve ao fato de, na data de 15 de outubro de 1827, o imperador D. Pedro I ter instituído um decreto que criou o Ensino Elementar no Brasil, com a instituição das escolas de primeiras letras em todos os vilarejos e cidades do país. O mais notável, porém, é que já ficavam estabelecidas as condições trabalhistas dos professores. 

O tempo passando, as coisas mudam com velocidade assombrosa. No correr dos fatos, porém, repontam questões que precisam de ângulos históricos para explicar o ponto trágico em que chegamos no terreno educacional. Nosso processo de formação foi bem distinto do resto dos países colonizados. No caso da América espanhola, desde logo algumas universidades foram fundadas e já em 1551, em Lima no Peru, a Universidade Nacional de São Marcos figurava como pioneira. A ela seguiram-se, na Nova Espanha, outras que combinavam apoio do estado e zelo eclesial. No Brasil, deu-se algo diferente, não apenas pela vastidão territorial, mas sobretudo pelo conceito de colônia agrícola. Apenas com a vinda da família real, em 1808, surgiram as Faculdades de Cirurgia da Bahia e de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1827, fundaram-se as Faculdades de Direito de Olinda e de São Paulo e em seguida, em Ouro Preto inauguram-se duas instituições, a Faculdade de Farmácia (1839) e Escola de Minas (1876). No final do século XIX, surgiram mais cinco instituições no país: Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro (1891); Faculdade de Direito de Belo Horizonte (1892); Escola Politécnica de São Paulo (1893); Escola de Engenharia Mackenzie de São Paulo (1896); Faculdade de Direito de Goiás (1898). 

O sucesso do nosso sistema universitário primeiro decorreu de avanços localizados, e em função da economia possibilitada pela borracha, surgiu a Escola Universitária Livre de Manaus (1909); em seguida despontou a Universidade Federal do Paraná (1912), que se justificava pelo surto de imigrantes estrangeiros que inflava a população daquele estado. Em seguida, a Universidade Federal do Rio de Janeiro espontou como resposta da Capital Federal (1920). Foi Vargas que, em 1930, unificou o comando das escolas sob o crivo do Ministério da Educação e Saúde Pública. Desde então, centralizou-se o processo de ensino que, no nível superior reconhece três ramos de exercícios: as unidades federais, estaduais e privadas (inclusive as confessionais). Em paralelo à orientação unificada pelo estado, um problema surgiu exigindo autonomia das decisões de gerência de cada unidade, pois o perfil acadêmico demandava governo próprio. No Brasil, pela Constituição Federal de 1988, no art. 207, estabeleceu-se que “as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. § 1º É facultado às universidades admitir professores, técnicos e cientistas estrangeiros, na forma da lei. 2º O disposto neste artigo aplica-se às instituições de pesquisa científica e tecnológica”. 

Foi graças ao ensino público e apoio de entidades privadas que superamos a fase de dependência dos avanços estrangeiros, colocando-nos em condição de diálogo. Crescemos muito e rapidamente, mesmo tendo passado pela ditadura militar que durou 21 anos. Prova disto é que temos oito universidades classificadas pelo World University Ranking entre as 50 melhores do mundo (a USP figura entre as 100 mais pontuadas). Este sucesso, contudo, está seriamente ameaçado. Como uma praga bíblica anunciada, eis que o atual governo infesta com o que pior existe o panorama escolar brasileiro em todos os níveis, traindo inclusive o que ele próprio erigia como prioridade em campanha. E onde situa-se o motor deste desmonte? Exatamente na ignorância combinada com o sequestro da autonomia universitária. A expressão disso é a privatização dos educandários, tidos como inoperantes. Com um Presidente que trata mal o vernáculo, sem domínio elementar de problemas, desaparelhado de conselheiros capazes, o que temos é uma ladainha de malditos, de frases agressivas e ferinas, e um sombreamento de religiões obscuras e moralistas. Resultado dimensionado por um Ministro coerente com a política: cortes de verbas, propostas de ensino militar nas escolas, revisão ideológica de conteúdos. Tempos de cólera. Vamos aceitar isso? Até quando?