sexta-feira, 31 de março de 2017

MAU PASTOR

Moçambique prende pastor da Universal por tráfico de albinos

UM pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, sediada no distrito da  Maxixe, em Inhambane, cuja identidade ainda não foi apurada, está detido, acusado de tentativa de tráfico de seres humanos no distrito de Massinga.
As vítimas eram pessoas portadoras de albinismo, um anão, uma mulher de olhos azuis e outra de cabelos compridos.
Em conexão com o caso estão igualmente detidos uma obreira da igreja e dois crentes, estes últimos mandatados para executar o crime.
A Polícia de República de Moçambique disse que a detenção dos arguidos foi possível graças à denúncia popular.
http://www.paulopes.com.br/2017/03/mocambique-prende-pastor-da-universal-por-trafico-de-gente.html#.WN5dM_krLIW

quinta-feira, 30 de março de 2017

TELONA QUENTE 185

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Roberto Rillo Bíscaro
Múltiplo déjà vu invadiu-me enquanto via o divertido From a House on Willow Street (2017). Quando assisti ao mexicano Km. 31 entendi de vez a asserção de Fredric Jameson de que globalização é na verdade (norte-)americanização: tudo me pareceu genérico, como se pudesse ter sido produzido em qualquer país, o que em si já era falso, porque tal generalidade é calcada em imagens recebidas e acostumadas a partir de produções dos EUA.
From a House on Willow Street é da África do Sul, porém africanistas têm pouco a celebrar: a não ser por se poder mencionar o país numa resenha, não há nada na produção que a particularize. A origem da fortuna da família é a mineração diamantina, mas daí a eleger isso como elemento particularizante de cor local é atingir nível pollyannico impensável pra este resenhista. Até o sotaque é ianque – ou de atores se passando por; não pesquisei a nacionalidade do elenco.
O filme é uma espécie de Don’t Breathe da possessão demoníaca: 4 sequestradores raptam uma jovem herdeira. Com o que eles não contavam é ela estar com um diabo no corpo. Quando descobrem é tarde demais pra salvarem suas peles, mas é o começo de nossa diversão.
Nada de novo no front: o diabo canta musiquinha de criança, baba preto, esbugalha olho e sabe tudo do passado de cada um, pra usar contra e desestabilizar. Dividir (literalmente) pra conquistar a alma. Não é original, mas as mortes são legaizinhas, e a cinematografia caprichada, grande conquista numa produção independente. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

CONTANDO A VIDA 184

LÁ ONDE DEIXEI MEU CORAÇÃO DE MENINO...
Ou
UM CLUBE ENTRE OS ANOS DOURADOS E OS ANOS DE CHUMBO.

 José Carlos Sebe Bom Meihy

Lembro-me de uns versos que sempre me vêm à cabeça em situações especiais. O poeta então parece me dizer baixinho, quase murmurando: Entre devagar/ quieto, leve, manso/ deixe apagadas as luzes/ dos cantos do passado/ desmonte a bússola/ para aprender a não retornar/ Entre, mas uma vez só, e não volte nunca mais”. Essas palavras, confesso, rondaram minhas noites e dias recentes, tomaram conta de mim, e se infiltram em meus dedos ao escrever esta crônica anunciada. Diria mesmo que não fui o autor do enunciado que segue, foi o poema. Tudo isso porque me comprometi a falar sobre um lugar especial de minha juventude, um clube da minha interiorana Taubaté. Da minha Taubaté que um dia foi inventariada como uma das cidades mortas. Morta? Morta Taubaté?... Que nada! Rebelde, renasce em cada coração que viu crescer e, assim vive assombrando a memória de eternos exilados, errantes do que naquele espaço aprenderam a ser o que hoje são. Adultos, acabamos por aprender mirar o passado que para uns pode ser até mera lembrança, mas para outros – eu entre eles – chega a doer demais.

Sempre achei que saudade é dos melhores sentimentos. Há certa altivez em ultrapassar o limite do raso “sentir falta”. A solenidade da saudade é progressiva, pois remete a boas experiências - às melhores - mas pode ser tão avassaladora que temos que domesticá-la para que não nos adoeça de nostalgias. Talvez, por isso insista em deixá-la latejando no meu coração que envelhece sem conseguir negar a meninice. Aqui cabe um segredo: nem sempre quero voltar aos lugares mais marcantes de minha trajetória. Algo covarde, tenho medos. Medo, por exemplo, de quebrar o encanto de momentos que ganharam a perfeição no correr dos anos. Sim, a saudade maquia, enfeita, arredonda, enfeitiça. E me é prazeroso deixar que isso tudo se faça.

Sei que pode parecer estranho eleger um clube como espaço central de reflexões memorativas. Poderia ser uma escola, igreja, uma praça talvez, mas um clube?! Sim, o Taubaté Country Club – assim mesmo, pretencioso, metido a inglês, lugar que nem ficava no campo – nada, era bem perto do centro da cidade. Mas o adotamos como TCC, e para a gente funcionava como uma espécie de paraíso urbano, uma miniatura de tudo de bom. Lá, inversão do espaço doméstico, podíamos muito. E como exercitamos esses poderes. Mas porque um clube marcaria tanto uma geração inteira? A resposta a esta questão remete a buscas de plurais explicativos que comungam bailinhos, jogos esportivos variados, espaços para encontros e, para os adultos, até corria um carteado, algo meio clandestino, mas... mas acontecia.

Vendo de hoje, o TCC era como um laboratório, um ensaio para rapazes e moças que exercitavam lá os passos da vida adulta. O prédio era levemente cinza e guardava a discrição de um estilo que evocava ao colonial brasileiro, mas isso pouco importava. E havia então outros espaços, internos, onde a circulação permitia os primeiros olhares namoradores, as aproximações mais calorosas em danças que podiam ocorrer nas matinés ou com certa cerimônia no Salão Nobre. Aliás, de vez em quando havia teatro, com peças vindas de fora, e cá e lá uma ousadia da dramaturgia local, récitas de jograis e até canto lírico. E tinha festivais de músicas que, de tão concorridos, aconteciam no Ginásio ou, como estava escrito no alto frontal, Gymnasium. Bem, a simples menção da praça de esportes implica evocar os jogos de basquete, vôlei e principalmente de futebol de salão. E como torcíamos! Tinha também a piscina que tanto divertia como revelava campeões, craques lembrados até hoje. As duas quadras de tênis funcionavam com ares mais exclusivos, mas não menos integradas. E bem mais ao fundo tinha um modesto campo. Mas o Clube era tudo isso junto.

Vendo sociologicamente, era no TCC que a classe média se media. Havia restrição para associados, mas isso não perturbava os frequentadores que, bem de acordo com os protocolos do tempo, pouco se importavam com os “não sócios”. Havia certo respeito por tantos que lutavam para integrar o corpo de associados que, afinal, insistia em pertencer ao que se tinha como ideal ou padrão urbano para o Vale do Paraíba.

Para a minha juventude houve um momento de corte na vida do Clube e nossa. Foi na vigência dos anos dourados, do período democrático do governo de Juscelino Kubistchek, de 1956 a 1964.  Pronto: está dada a chave explicativa de tudo. Como um verdadeiro laboratório social, os jovens também exercitavam participações na diretoria do TCC. Foi assim que entre 1963 e 1967, cheguei – entre outros colegas – a integrar a direção. Fui primeiro diretor cultural e depois diretor social. Diria sem medo de errar que foi a fase áurea de nossa geração. O vigor do iê iê iê, do rock, do twist, competia com a bossa nova e, então, de Trini Lopez ao Fino da Bossa (com Elis Regina e Jair Rodrigues), de Elza Soares a Juca Chaves, muitos passaram por nossos palcos. E tinha o Baile das Debutantes, dos Casados, Azul e Branco. Dentre tantos convidados de fora, porém, a lembrança que mais me faz feliz foi ajudar o show de dois taubateanos que se lançavam para nossa eternidade, os irmãos Roberto e Renato Teixeira. Sim, o “Samba em três tempos” marcou a passagem deles pelo TCC. E minha vida também.

Mas, os tempos mudaram. E muito. A começar pela política e isso fez com que nossa juventude inteira tivesse que aprender a viver debaixo de uma ditadura que, afinal, nos convocava para outras vivências, bem menos divertidas ou cidadãs. Na medida em que a censura, o cerceamento das liberdades, o exercício das escolhas e todos os desdobramentos dos anos de chumbo aconteciam, fomos perdendo a alegria, ficando mais sisudos, tristes. Corria no inventário das carências crescentes a vontade de participar em grupo, de atuar no conjunto de possibilidades dignas do ideal de uma geração. Fomos ficando mais quietos, mais sozinhos, mais atentos aos nossos planos individuais de sucesso profissional. E viramos a página. Diria sem medo de errar que houve um marco na participação geracional daquele tempo, no TCC. A queda do Gymnasium. A forte ventania de 1982 derrubou o prédio. Caiu o nosso sonho que parece ter durado até a Abertura política. Derrubado o majestoso espaço de tantas alegrias passadas, ruiu também o sonho de uma geração que era feliz e não sabia. Desculpem-me, mas não tenho coragem de voltar ao TCC. Imaginando hoje o Clube e minha geração, pergunto-me se o sonho acabou.

terça-feira, 28 de março de 2017

TELINHA QUENTE 252

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Roberto Rillo Bíscaro

Em setembro de 2015, ao resenhar Sharknado (2013), inesperado sucesso cult da produtora The Asylum, disse que me cansara após ver a sequência e então queria novidade. Como uma função deste blog é pagar minha maldita língua (lembram quando afirmei que jamais leria algum Nordic Noir, apenas pra, meses depois, resenhar mais de um?), cá estou comentando os Sharknados de 2015 e 2016. Essa sandice fez tanto sucesso, que o canal SyFy lança as sequências na Shark Week, semana apenas com filmes de tubarões e animais devoradores, todo julho. É evento e é tendência entre fãs de filmes B, C, D...

Sharknado 3: Oh Hell, No! Começa com a destruição de Washington por uma chuva de pobres tubarões, que além de serem retirados de seu habitat pelos ventos, ainda são demonizados como culpados. Cai tubarão no colo de Lincoln, aparece congressista de verdade dando entrevista sobre a catástrofe (a Republicana Michele Bachmann), mas é meio rápido, embora totalmente divertido. O foco é muito mais amplo: a tempestade em DC foi apenas um evento; o real perigo era que uma muralha tubarônica estava se formando por toda a costa leste, desde o Canadá à Flórida. Quando o megatornado trouxesse os predadores, milhões pereceriam. Cabe a Fin (sacou? LOL) Shepard, sua esposa, filha e a ex-garçonete Nova deterem a hecatombe, muitas vezes munidos de serras-elétricas, no melhor estilo Ash Williams. O grosso da ação se passa no parque temático da Universal Studios, na Flórida, então há chuva de barbatanas na tradicional corrida de Daytona, o autor de Game Of Thrones sendo abocanhado, ônibus espacial e tubarão no espaço. Isso mesmo, tubarão no espaço. Percebendo-se como piada, a película não perde a chance de se autorridicularizar. Tara Reid pergunta a Ian Ziering: ‘como é possível tubarões no espaço?” A resposta vem certeira: “como é possível um tornado de tubarões?”
Não supera o frescor com cheiro de peixe do primeiro Sharknado, mas algumas sequências e diálogos são impagáveis. Outra diversão é localizar as diversas (sub-)celebridades, que aparecem como elas mesmas, não identificadas ou em micropapéis. A outrora Mulher Nota 10, Bo Derek, e o motorista da Super Máquina, David Hasselhoff, já são escalados pra papéis de avós, embora o beberrão Hasselhorf continue sendo herói macho. A lista de aparições tem Lorenzo Lamas, Lou Ferrigno (o Hulk dos anos 70), os trash-gêmeos irlandeses Jedward (num carrinho de montanha-russa, tem que prestar atenção!) e mais uma porção de âncoras televisivos e esportistas, que aparecem como eles mesmos. Até a octogenária Jackie Collins apareceu, antes de falecer em setembro de 2015. Embarcar na moda tubarônica é conveniente, porque sempre se pode camuflar o semi-esquecimento dizendo que participou por ser divertido.


O Sharknado 2016 recebeu o subtítulo The Fourth Awakens, pra zoar Star Wars: The Force Awakens, de 2015. A abertura segue o mesmo estilo tornado clássico por George Lucas, em 77. Mas, não se trata de aprofundar o tema dos tubarões espaciais, é apenas uma num mar de citações despejadas ao longo dos 90 minutos. Será que muitos jovens espectadores do SyFy entendem porque o conversível vermelho chama-se Christine ou a inevitável piadinha a respeito de não se estar mais em Kansas, quando saem do estado? Não importa, também não devo ter entendido trocadilhos e referências a coisas mais contemporâneas. 
Uma megacorporação pôs fim às chuvas de predadores, até que recomeçam indiscriminadamente e sem necessidade de água pros tubarões. É sandnado, lightnado e até uma potencialmente hecatômbica nukenado, mas todas contêm os animais aquáticos, mesmo quando atingem áreas desérticas como Vegas ou Salt Lake City. Fin volta e com ele sua família – Sharknado é celebração à célula mater da ordem social – incluindo Vô Hasselhorf (que no 3 estava na lua!) e uma versão semibiônica de Mama Tara Reid, que pode voar e produzir sabre de luz no lugar de onde era sua mão. É tudo maluco e cada vez mais generalizado, tanto que o final sinaliza a possibilidade de os sharknados atingirem a Europa, afinal, não há muitas cidades icônicas ianques a detonar.
A lista de pontas de “famosos” segue alentada. Jedward devem estar no desespero, porque há outra ponta de segundos (felizmente, eles não lançam álbuns desde 2012, acho que estamos livres!), assim como David Faustino, outra vez nomeado Bud, como jogador num cassino. Tem de tudo, de médico-celebridade, tipo Dr. Drew até roqueiros como Vince Neil (Motley Crue) ou Corey Taylor (Slipknot). Assim como ocorrera no 3, Steve Guttemberg, o Colton West, de Lavalantula, aparece em Sharknado – Corra Para o Quarto (no Brasil tem esse nome). Será que eventualmente os 2 heróis se encontrarão?, porque Fin apareceu em Lavalantula também e os diálogos sempre dão a entender que as catástrofes ocorrem coetaneamente.
Conforme essas franquias vão aumentado a numeração, o charme diminui, mas pra ver um por ano com amigos ainda funciona, embora gente engolida por tubarão e sendo resgatada mediante corte com serra elétrica já esteja dando no saco. Desta vez, a “diferença” foi que se tratou de um monte de tutubas; assista pra entender. É divertidinho, mas evite ver em seguida.

segunda-feira, 27 de março de 2017

CAIXA DE MÚSICA 258

Roberto Rillo Bíscaro

Ibibio é a língua do povo de mesmo nome que vive na Nigéria. Entre 1,5 e 2 milhões de pessoas falam ibibio, dentre elas Eno Williams, cantora nascida em Londres, mas de origem nigeriana. Quando criança, na Nigéria, sua família contava-lhe estórias do folclore ibibio, as quais Williams usa nas letras do Ibibio Sound Machine, cantadas em sua maioria na língua de seus ancestrais.
Em época de radicalização nacionalista, o Ibibio Sound Machine é tapa na cara utópico na torpeza Trump. Trata-se dum coletivo multinacional formado por Eno Williams (vocais); Alfred Kari Bannerman (guitarra), de Gana; Anselmo Netto (percussão), do Brasil; Jose Joyette (bateria), de Trindade; Max Grunhard (saxofone e sintetizadores), da Austrália e pelos britânicos John McKenzie (baixo), Tony Hayden (trombone e sintetizadores) e Scott Baylis (trompete e sintetizadores).
Lotados na pós-colonial Londres Brexitosa, o Ibibio Sound Machine (ISM, daqui em diante) estreou com álbum homônimo, em 2014 e no início de março chegou Uyai, dúzia de canções que seguem a tônica de filtrar diversos ritmos e estilos africanos pelo prisma da música eletrônica e da New Wave ou pós-punk. Note a piscada para os anos 80 no nome, muito parecido ao Miami Sound Machine, de Gloria Estefan, que também fundia: pop com ritmos caribenhos. Uyai não soará alienígena nem para fãs da atual M.I.A. nem para veteranos da era do A Certain Ratio ou Quando Quango, porque os rigorosos elementos retrofuturistas são produzidos contemporaneamente.
Give Me A Reason abre Uyai e é súmula de sua beleza (uyai, em ibibio). Gélidos teclados Gary Numan, guitarra que oscila entre funk e rock e base afroeletro pós-punk angulosa. Batuque balouçante da moléstia; África sintética mesclada com diversos subgêneros ocidentais, que, na verdade, vieram de lá. Power Of 3 desloca cadeiras com sua mistura de disco music. Em Joy, a mistura vem com doideira techno, mas o baixo é soturnamente pós-punk; é Joy, mas Division. E é hora do mea culpa do resenhista, que, como tantos brancos ocidentais, percebe mínimas subdivisões de grime e prog rock, mas desconhece o nome de ritmos africanos, prevalentes em seu próprio país.
Em Guide You, brasileiras cuícas coexistem com trompete anárquico de free jazz, teclado de som de videogame e coro e base afroelétricos. Trance Dance tem samba, rock e alguma subdivisão grime. Um dos encantos de Uyai é como instrumentos coincidentes estão operando em convenções dessemelhantes, mas o resultado é convívio animado. Sunray é afro-progressive house com toda a repetição estrutural tanto de música tribal quanto do subgênero eletrônico. Dizem que a música ritual era repetitiva pra se alcançar o êxtase, com a ajuda dalguma substância alucinógena. Techno seria pra alcançar o Ecstasy. E eis que The Pot Is On Fire transporta o ouvinte pralguma rua nova-iorquina ou londrina nos anos 80 com meninos multicoloridos dançando break ao som de Afrika Bambaataa influenciado por Kraftwerk (Telephone Call, do LP Electric Café). E não soa datado, porque repaginado em electro, uma das reencarnações da electronica oitentista.
O forte do ISM são as pauladas dançantes, mas as 3 ou 4 menos rápidas têm produção ambient-etérea e ritmos que as sustentam, mas é inegável que se for pra festar, quebram o clima. Ou, pode-se encará-las como oportunidade de retomar o fôlego. O curioso é que a canção de ninar do LP – literalmente, Lullaby – é midtempo: mamãe dá balançadinha de leve pra fazer nenê nanar.
Acostumados a países onde a música africana predomina, certamente sentirão falta de certa malemolência, mascarada pela marcialidade gelo-angulosa do pós-punk ou pela artificialidade da electronica. Mas quem cresceu ao som dos anos 80 e do que veio depois, vai amar.
O Ibibio Sound Machine está no Bandcamp. Nunca foi tão fácil ser o mais hip da turma; acesse!

domingo, 26 de março de 2017

A SUPERAÇÃO DE MARIANA

21 de março foi o Dia Internacional da Síndrome de Down. Essa característica genética não impede que quem convive com a síndrome leve uma vida normal, como Mariana Cavalcante Ferreira. A deficiência nunca a impediu de correr atrás dos sonhos e ter uma rotina como a de qualquer um, com trabalho, lazer, amigos, namorados.

sábado, 25 de março de 2017

QUARTETO FANTÁSTICO ALBINO

Quarteto albino brilha no Parapan de SP e renova esperanças do judô para 2020


"Irmãos" por ocasião, Thiego, Gabriel, Luan e João brincam com o fato de a maior parte dos judocas da seleção juvenil terem albinismo: "Fundamos a Associação Albina de Judô"

Quarteto albino brilha no Parapan de SP e renova esperanças do judô para 2020

Por Flávio Dilascio, São Paulo

25/03/2017 08h00 



A Sociedade Brasileira de Dermatologia estima que existam de 10 a 12 mil albinos no Brasil. O albinismo é uma mutação genética que inibe a produção de melanina, proteína responsável pela cor da pele e dos cabelos. Uma das consequências do distúrbio é a deficiência visual, característica que enquadra os albinos como deficientes de baixa visão. Thiego Marques, Luan Pimentel, Gabriel Nascimento e João Sousa não são parentes. Entretanto, nos últimos dias, o quarteto formou a "Família Albina" da seleção brasileira de judô para jovens. A união deu certo. Todos os quatro foram campeões em suas respectivas categorias nos Jogos Parapan-Americanos de São Paulo. Mais um motivo para as brincadeiras entre os próprios atletas.

- Achei engraçado essa coincidência de termos quatro albinos entre os sete judocas convocados para o Parapan. Brincamos que nós fundamos aqui a Associação Albina de Judô do Brasil - disse o sul-matogrossense Luan Pimentel, ouro na categoria até 83kg.
Luan Pimentel em ação contra o chileno Ignacio Antillanca no Parapan de Jovens (Foto: Cleber Mendes/CPB/MPIX)


Do quarteto albino, apenas Gabriel e João já se conheciam de antes do Parapan de Jovens. Ambos são do Rio e frequentam o Instituto Benjamin Constant, escola voltada para cegos. Foi na instituição que os dois começaram a praticar o judô paralímpico, que é disputado apenas por deficientes visuais. Os resultados foram aparecendo de forma gradativa e hoje ambos gozam de prestígio na seleção brasileira juvenil, renovando as esperanças da modalidade para os Jogos de Tóquio 2020.

- Sempre gostei de lutas, já fazia jiu-jítsu e passei a praticar judô paralímpico no Benjamin Constant. Minha primeira convocação foi em dezembro do ano passado. Estou muito feliz em ter conquistado o ouro no Parapan, mesmo só tendo brasileiros na minha categoria - comentou João, que mora em Maricá, na Região Oceânica de Niterói, e lutou os Jogos Parapan-Americanos de Jovens na categoria acima de 90kg.

Nascido e criado no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio, Gabriel tem 17 anos, um a menos que João. Campeão parapan-americano na categoria até 66kg, ele começou a praticar judô em 2010. Com experiência em competições internacionais, ele acredita que tem de tudo para estar na seleção principal em breve.
Joao Sousa domina o compatriota Sergio Fernandes em duelo da categoria acima de 90kg (Foto: Cleber Mendes/MPIX/CPB)


- Lutei o Grand Prix e o Parapan e medalhei nas duas competições, então tenho certeza de que se continuar lutando bem e treinando forte eu vou encontrar o meu lugar - destacou Gabriel, que já jogou goalball e fez natação antes de decidir seguir carreira no judô.


Natural de Parauapebas, quinto município mais populoso do Pará, Thiego herdou o albinismo da avó paterna. Vencedor na categoria até 60kg dos Jogos de São Paulo, ele - que entrou para o judô motivado pelo sucesso do multicampeão Antônio Tenório - revelou que o ouro no Parapan de Jovens foi uma surpresa não só para ele como para todos os integrantes da "Família Albina".


- Para falar a verdade, nenhum de nós imaginava ser campeão aqui. Foi uma experiência muito bacana e uma coincidência enorme. Nós quatro ficamos muito unidos porque temos muita coisa em comum. Por exemplo, treinamento no sol nós não podemos fazer, então vamos os quatro para a sombra. Andamos sempre juntos pelo CT, um auxiliando o outro. Me senti como se fôssemos parentes mesmo - finalizou.

sexta-feira, 24 de março de 2017

BLOQUEADOR SOLAR GRÁTIS EM MACEIÓ


No dia 22 de março de 2017, a Câmara de Vereadores de Maceió aprovou o projeto de lei da vereadora Tereza Nelma, que garante a distribuição de protetor solar para as pessoas albinas Essa conquista é o reconhecimento do trabalho realizado pela Gerência de Atenção à Pessoa com Deficiência, da Secretaria Municipal de Saúde, desde 2010 com o grupo de pessoas albinas e com baixa visão, e que desde julho/2012 concede o protetor solar com regularidade, entre outras ações de interesse comum aos Albinos.
O Albino Incoerente não poderia de citar o trabalho incansável da assistente social Luciana Ferreira, figura fundamental nessa luta.
Em nome de todas as pessoas com albinismo do Brasil, agradeço. E torço para que o serviço seja estendido para todo o país!



quarta-feira, 22 de março de 2017

CONTANDO A VIDA 183

MEMÓRIAS CAIPIRAS: ensaio de uma geração

José Carlos Sebe Bom Meihy
Para Evaldo.

Muito se tem falado em memória. Como tema de conversas corriqueiras, se evocam lembranças, reminiscências, recordações, tudo emblemado no conforto dessa palavra, memória. Mais solene, vezes há em que se apela para a memória como reverência aos mortos e, então, um latinzinho nos socorre para significar saudade: in memoriam... Gosto do composto internado na alusão aos antepassados, pois, no caso, memória é a extensão do tempo, das sensações que existem quando fisicamente o ente amado não está mais junto de nós. E sou, posso dizer, um colecionador de saudade. A complicar tudo, porém, repontam os estudos acadêmicos sobre “memória”, e então os conteúdos se complicam, exigindo desde definições biológicas do que é memória, até suas intrincadas acepções sociológicas, tão em voga nas ciências sociais. Nesse caso, aliás, são replicados estudos sobre memória: individual, coletiva, social, cultural, política. Sinceramente, precisei deste introito todo para falar de algo que me comove. Explico-me...

Não sou exatamente dado a participar ativamente de redes sociais. Por lógico, como pessoa do meu tempo, não tenho como deixar de compor listas de parentes, amigos, profissionais, e até de partido político. Tenho enorme orgulho de dizer que não sou viciado nisso, não integro a relação de quantos não conseguem viver sem suas maquininhas ligadas. Faço uso parcimonioso e permito-me, orgulhosamente, situar-me entre os comedidos. Uma das lições que tenho exercitado na posse de um smartphone (sim, é dessa forma que se escreve corretamente, caso contrário, aportuguesado, seria “esmartefone”) é, ironicamente, algo decorrente dos multiplicados “estudos sobre memória”, ou seja, a seletividade. Aprendi, por exemplo, a relativizar mensagens de ódio político, resignar-me frente a amigos amados que têm percepções extremadas sobre personagens que me são relevantes. Os ganhos são imensos. Juro. Tudo isso para dizer que um belo dia, faz mais de um ano, fui convidado para ingressar em uma rede de amigos da juventude. Foi o que bastou para se abrir em mim um compartimento enorme, esvaziado pelo corre-corre da vida, pela luta docente, pelas responsabilidades familiares. Foi surpreendente o tamanho do espaço que me permiti internamente. E como foi bom, pois de repente verifiquei que o passado não passou, que tudo está vivo, levemente adormecido na latência explicativa do melhor de mim. E tudo se apresenta com promessas de despertares perfumados. Sim, há algo de poético nessa evocação. Se cabe poesia, há também ambiente para o sentido épico da vida. Ao longo dos dias, a tal lista foi se ampliando e, creio, hoje supera 150 amigos. São 150 detalhes de esquinas de afetos, dobradas em favor do que sou hoje. Ninguém passou ileso na constituição do que me tornei. Ninguém, nem nada.

Meu lado historiador não tem como deixar de lado este fenômeno. O tempo, senhor da razão, como diziam os helênicos, vai dando forma e permitindo explicações sobre tudo. E, de maneira mágica, vamos entendendo os rumos de uma geração toda; da minha geração. Meninos e meninas do interior paulista, integrantes de uma classe média que se inaugurou no Brasil pós Segunda Guerra Mundial, ao longo dos anos fomos nos imiscuindo na vida nacional, cumprindo diferentes papeis, assumindo postos. Grosso modo, pode-se dizer que presidiu uma diferença: os que ficaram e os que saíram. Essa bifurcação prática, angula um vértice fatal: o que significou nosso passado de jovens que tiveram suas trajetórias perpassadas por uma longa ditadura civil/militar? Como nossas experiências de caipiras, interioranos, taubateanos, teriam moldado comportamentos e nos colocado em pautas mais amplas, nacionais?


A identificação geográfica de onde estamos diz muito. Referencial exigente, a mera constatação dos sítios de residências atuais diz muito de nossos destinos. Espalhados pelo Brasil afora, é fácil constatar não apenas os desempenhos profissionais, mas muito mais do que isso, a permanência das fontes que animaram nossas vidas nos tais “anos dourados”. O mais espantoso nesse enredo é que não descuidamos de nossos dias de rapazes que fomos. É quando, então, são recordados velhos professores, personagens das lendas urbanas, parentes queridos, festas e celebrações, jogos esportivos e bailinhos. Tudo iluminado por transparências idílicas, fantasiadas de alegria e conforto. Espantoso: exilam-se os vestígios de dores, de arranhaduras preconceituosas, falhas de rejeições. Tudo vira uma legenda de saudade e ganha a graça que precisamos para sobreviver. É exatamente aí que reside a sedução da lembrança. Quando deixamos de fazer história para dar vivacidade à memória, perdemos o significado do racional, e em troca reinventamos as delícias do que poderia ter sido. Meditando sobre estas coisas todas, entendo agora o teor do termo saudosismo e me deixo levar... Levar e lavar a alma... 

terça-feira, 21 de março de 2017

TELINHA QUENTE 251

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Roberto Rillo Bíscaro

Cada um com sua opinião e gostos, mas não vejo sentido em possuir Netflix apenas pra ver o mesmo velho e batido conteúdo norte-americano das séries de sucesso da moda. Nada contra, mas não é de minha personalidade. Como gracejou um conhecido, aprecio afundar nos “porões da Netflix”. Recentemente, vi 2 séries argentinas disponíveis no serviço de streaming. Se não tentamos o novo, como descobriremos coisas boas, não é vero? Tipo, a catalã Merlí tá lá no catálogo, sem alarde, sem verba de marketing. É só fuçar e dar uma chance. Viu um pouco e não gostou? OK, passa pra outra; tem tanta coisa!

Cheguei a pensar em desistir de Estocolmo (2016), mas acabei vendo a trezena de capítulos da muito bem produzida, mas roteiristicamente mal projetada primeira produção argentina feita pela Netflix.
O excelente primeiro capítulo promete história brilhante. Um lindo e bem-sucedido casal – ele um procurador da República “caça-corruptos” e ela a mais famosa âncora de TV do país – estão em um programa de entrevistas, quando a moça recebe mensagem no celular de que um antigo desafeto está de volta pra pegá-los. Surtada, Rosário sai atirando em rede nacional (nunca sabemos as consequências dessa ação, humph!). Flashback para 3 anos antes, quando vemos a jornalista no ar, fazendo o maior sensacionalismo em cima do sequestro de Larissa Torres. Rosario se interessa pelo caso, mas ao mesmo tempo quer extrair o maior caldo dramático possível e por isso inibe ao vivo o trabalho do investigador Franco Bernal (seu maridón de 3 anos depois). No episódio de estreia, já aprendemos que todo mundo tem algo a esconder, desde Bernal aos pais de Rosário, poderosos proprietários da estação de TV. Intuímos também que por trás do sequestro da jovem Larissa está poderosa organização de tráfico humano. Tudo muito urdido, pra deixar o espectador na ponta do anzol, ansioso pelos capítulos seguintes.
Os 13 episódios seguem a estrutura de cenas iniciais e finais no presente e todo um longo miolo com o ocorrido 3 anos antes. Pena que essa explicação quase nunca ocorra. Na verdade, as ações presentes são bem pouco explicadas (estou sendo gentil). O grande problema de Estocolmo – cujo nome vem da Síndrome de Estocolmo – é que enfiaram tanta coisa no roteiro, que não tem como clarificar ou desatar os nós. Parece que a intenção era chocar e jogar todas as cartas avidamente nessa primeira investida da Netflix em nosso vizinho platino.
O resultado é que se promete muito, mas se entrega pouco. Ameaças, falas bombásticas que não resultam em ação, personagens fazendo coisas sem sentido ou ficando sem rumo (o que fizeram com a pobre Rosarito, no início tão pró-ativa?). Paralela à organização que lucra com a escravidão há um assassino em série, que ao final parece que será (notem o tempo verbal) integrado à história. É coisa demais e lógica/explicação demais de menos.
O elenco bom e a cinematografia linda - apresentando uma Argentina austral superescandinava de Nordic Noir – proporcionam excelente verniz a Estocolmo, mas escrutinado, o roteiro sucumbe a tantos vazios. A Netflix parece que já garantiu segunda temporada, mas não posso recomendar.
Epitáfios, da HBO, é muito melhor.

Na primeira metade dos anos 80, a família Puccio vivia no chique bairro de San Isidro, na grande Buenos Aires. Filhão mais velho era astro do time de rugby do aristocrático clube do bairro, tinha noiva bonita, loira e gostosa. Casona do bem. Um clã vívido e feliz, vivendo o “sonho argentino” de afluência prometido pelos militares. Só que num quarto secreto da grande casa, mantinham sequestrados, a cujas famílias instruíam não contatar a polícia, caso contrário matariam os reféns. Por medo, razões políticas (os Puccios fingiam ser grupo revolucionário) ou discrição, famílias obedeciam a ordem e erravam feio: pago o resgate, as vítimas eram mortas. Até um companheiro de rugby do primogênito Alejandro caiu nas garras dos monstrengos. E morreu.
Essa história pavorosa já foi contada no bem-sucedido e bom filme El Clan e em 2015, nos 11 capítulos da minissérie da Telefe, História de um Clan. Recomendo ambos, mas a minissérie tem muito mais tempo pra detalhes e o roteiro é genial quando se trata de mostrar o quão estranha e doentia era aquela gente. Tudo concorre pra isso, até mesmo a câmara muitas vezes sexualizada, quando, por exemplo, enquadra o rosto de uma das filhas de modo a também passar pelos mamilos de um sexagenário sem camisa. A cara de menina inocente encarando o peito e a barriga do velho são apenas um dos elementos de bizarrice filmados de forma cotidiana. Sem contar as várias cenas com o pai (não só com as meninas, prestem atenção) ou quando as meninas – acompanhadas de uma freira lésbica – simulam um parto, usando uma boneca negra. São tantas cenas reiterando que por trás da normalidade social jaz muita loucura, que talvez desse pra serem 10 capítulos, caso enxugassem um tiquinho. 
O elenco é perfeito, mas o epicentro é a demolidora interpretação de Alejandro Awala, o cunhado antimacrista de Macri. Arquimedes Puccio é um daqueles “papeis da vida” de qualquer ator. Profundamente homofóbico (com problemas de ereção, claro!), com falas de arrepiar de revolta de classe, licenciosidade, carolice, o chefe do clã Puccio chama a esposa de mami pra em seguida admitir a um cúmplice que adoraria chupar a futura nora todinha.
Clichê afirmar que a realidade supera a ficção, mas História de Um Clan - com seus sequestradores mascarados, sem braço ou tarados por menininhas – logra ser estranha pra burro usando quase apenas elementos do dia-a-dia. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

CAIXA DE MÚSICA 257

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A Superação do Tio Charlie

Roberto Rillo Bíscaro
Nada incomum entre artistas negros, a carreira de Charlie Wilson começou na igreja em que seu pai era reverendo, em Tulsa, Oklahoma. Com seus irmãos Ronnie e Robert, Charlie se apresentava no templo, e em 1967 formaram grupo secular, a The Gap Band. Nos 1970’s, faziam funk como de costume na época. O sucesso veio apenas em 1979, quando popificaram a sonoridade. Pelos próximos dez anos, a Gap Band foi presença constante nas paradas de R’n’B da Billboard e mesmo na cobiçada Hot 100. Artistas atuais como R. Kelly se dizem influenciados pelo estilo vocal de Charlie Wilson, que deixou a Gap Band em 1992, quando a banda já fora superada por gerações mais jovens, com outros interesses, sons e referenciais.

You Turn My Life Around, seu LP de estreia, não foi bem nem nas paradas R’n’B, atingindo apenas o 42º posto. O que realmente revirou a vida do músico, porém, foram o álcool e o crack. A queda de Charlie Wilson foi tão funda que não demorou muito para que tivesse perdido tudo – ele diz que durante o auge da Gap Band, não faturara tanto assim, na verdade – e se encontrasse na sarjeta, dormindo no famoso Hollywood Boulevard, em Los Angeles. Com os parcos pertences guardados em um carrinho de supermercado, certo dia recebeu a visita de uma prima na calçada, que lhe segurou um espelho para que visse o estado em que estava, mas se recusava a admitir.  Charlie desatou a chorar, quando viu a devastação que as substâncias químicas causaram em sua pele e rosto.
Inscreveu-se em programa de reabilitação, onde a assistente social Mahin Tat foi fundamental em ajudá-lo a suportar a abstinência e reintegrá-lo à sociedade. Tão importante seu papel, que os dois se casaram em 1995. Aos poucos, colaborações com artistas surgiam e em 2000 Wilson retomou a carreira-solo com o álbum Bridging The Gap. Desde então, Charlie Wilson continua sóbrio, casado com Tat, trabalhando muito com artistas da moda como Kanye West e Justin Timberlake, lançando álbuns, sendo homenageado pela importância de seu trabalho, frequentando as paradas R’n’B e até lançando a autobiografia I Am Charlie Wilson.  
Dia 17 de fevereiro, saiu In It To Win It, seu oitavo trabalho solo, que continua em grande estilo sua história de superação, uma vez que entrou direto na sétima posição da Hot 200 da Billboard. As treze canções não tentam encontrar nova direção para a carreira do sexagenário, nem mergulham numa viagem saudosista audível apenas para fãs dos anos 70/80. In It To Win It é moderna coleção de R’n’Bs e gospels muito bem produzidos, que podem agradar a diversas gerações.
Embora sóbrio há mais de duas décadas, Wilson ainda agradece a Deus como se sua redenção tivesse ocorrido mês passado. Números gospels como Blessed e Amazing God testemunham essa gratidão e a influência religiosa animada de New Addiction secularizam as graças, agora dadas à garota que pode se tornar seu novo vício. In It To Win it é soul autobiográfico, mencionando a infância na igreja, o racismo enfrentado e o professor da faculdade que previu sua queda para a sarjeta. Mas é tudo em clima positivo, de dedos estalando e acreditando que dificuldades podem ser superadas.
Snoop Dogg apelidou Wilson de Uncle Charlie, alcunha que o artista adotou de bom grado. Num LP cheio de convidados, Dogg é um deles na atmosférica Gold Rush, onde faz rap numa canção sobre sexo. E como branquelos  tipo Blondie e Malcolm McLaren ensinaram ouvintes branquelos a aceitarem o hip hop nos distantes 80’s, mesmo fãs da época da Gap Band não estranharão em nada os rapinhos de Pitbull na sassaricante Good Time (puro Charm início dos 80’s, tem até woo uh fininho e palma) ou de Wiz Khalifa, na midtempo deslizante Us Trust (My name’s Uncle Charlie...). Robin Thicke, a versão século XXI de blue-eyed soulman à Paul Young, esvazia os pulmões em Smile for Me.
O pináculo das participações, sem dúvida, é Made For Love, duetaço com Lalah Hathaway, que embora soe moderna, não falhará em lembrar os ouvintes mais idosos às grandes baladas black de fim dos 70’s e começo dos 80’s. E de baladas In It To Win It não se ressente: confira Precious Love e as harmonias incríveis de Chills.
É torcer para que a história de superação do Tio Charlie continue rendendo álbuns eficientes como In It To Win It. Ele continuará agradecendo a Deus e os ouvintes a Charlie Wilson. 

domingo, 19 de março de 2017

SUPERAÇÃO PALESTINA

Determinação e força de vontade são palavras comuns no dia a dia de um fotógrafo palestino. Ele não permitiu que a paralisia, provocada por um tiro, tirasse a esperança e a paixão pela profissão.

sábado, 18 de março de 2017

quinta-feira, 16 de março de 2017

PUNIÇÃO NA ÁFRICA DO SUL

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África do Sul: Curandeiro Matou Pessoa com Albinismo em Ritual

(Tradução e adaptação: Roberto Rillo Bíscaro)

Um curandeiro sul-africano foi condenado a prisão perpétua pelo assassinato de uma mulher com albinismo para utilizar partes de seu corpo em ritual

“Este caso confirma tendências, como a implicação direta de curandeiros tradicionais; crenças práticas de bruxaria e o envolvimento de pessoas que têm relação com a vítima, dado que um dos executores era namorado da vítima”, explica uma perita.
O crime ocorreu em agosto de 2015, depois que o curandeiro Bhekukufa Lindeni Gumede, de 65 anos, contratou três matadores para executar Thandazile Mpunzi, para usar partes de seu corpo na manipulação de um unguento que lhe traria riqueza.
Thandazile, de 20 anos, havia namorado um de seus assassinos. A jovem foi estrangulada e apunhalada pelos três cúmplices de Gumede e depois teve seu corpo desmembrado. Os três assassinos foram capturados meses antes do curandeiro e cumprem penasentre 18 e 20 anos de prisão.

A crença nas propriedades sobrenaturais de ossos e outras partes do corpo é uma ameaça para as pessoas com albinismo em alguns países africanos, onde são assassinados para a fabricação de poções ou para rituais, além de seus túmulos serem profanados para roubar ossos. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

CONTANDO A VIDA 182

ANIVERSÁRIOS: a fila anda...

José Carlos Sebe Bom Meihy

É muito estranho escrever no dia do próprio aniversário. Muito mesmo, diga-se. Sei lá o que significa “apagar as velas”, mas, a cada dia parece algo mais temeroso. “eu dizer dos cumprimentos que apelam para “mais uma primavera”, em particular quando se aniversaria em plenas “águas de  março, fechando o verão”. Seja como for, assumir a idade implica balanços sobre o existir e isso remete a zonas filosóficas conturbadas, obscuras e nem sempre nítidas. Invejo aquelas pessoas que nem ligam para o pretérito e seguem vivendo como se a existência fosse mais presente e futuro do que passado. Mas, sou dos “outros”, dos que acham que o passado é o presente ainda não acabado e que carece de desdobramentos. Engrosso a linha dos que acham que tudo continua e que não há capítulos findos ou desconexos. Sendo assim, viver o aniversário é como mergulhar em si mesmo, no momento mais solene do ano e exposto aos olhos de quantos nos cercam, familiares e amigos. E, desta forma, não há como fugir dos juízos que exigem algumas respostas fundamentais como: tem valido a pena viver?

Por favor, não pensem que estou melancólico, imbuído de pessimismo ou algum mau presságio. Nada disso. Gosto do meu envelhecer. Assim, devo esclarecer de saída que não temo minha morte. Pelo contrário, sem venerá-la, quero sentir seu abraço fatal quando chegar a minha vez. E que seu beijo nos seja consciente, pleno e se possível delicado. Acho que não lutarei pela vida, além do que ela já terá sido. O que me perturba muito é ver a morte alheia cada vez mais frequente. E como elas se multiplicam sem cuidado em ferir os que ficam. Medindo a fila que não cessa de aumentar, fico meditando sobre o sentido da existência em suas marcações impostas pela sina do calendário que vai, do seu jeito, escolhendo quem será o próximo. Pensar em quantos nos deixaram é como medir a vida pelos que se despediram antes e que, em recordações esfumaçadas, vão se distanciando, se deixando esquecer. E assim, não há como legar ao abandono a relação de tudo com o movimento voraz da vida e com o que realmente significa a morte. Sim, morremos de verdade quando ninguém mais sabe de nossa existência. O passado é muito rápido, muito ligeiro, e vai comendo reminiscências que, estas sim, envelhecem sem preocupação com qualquer futuro.

Não vou pôr em discussão a existência ou não de vida depois da morte. Como historiador, sei que deveria estar mais preparado para perceber o declínio de tudo. História é a luta pela legitimação da memória, pelo reconhecimento do sinal das coisas que devem ficar. Mas na seleção do que valeu, obrigatoriamente, mitiga-se o que é fátuo e viramos, no máximo, saudade. Aprendemos nessa lição o sentido de nossa insignificância. E então perguntamos: quem há de se lembrar de nós? Até onde alguém vai saber do sentido que procurei dar à minha experiência? Por quanto tempo perdurará nossa recordação? Quando olho a história de minha família, vejo pálidos vestígios de pessoas que foram heroicas, mas das quais pouco sei, ainda que tenham sido gente brava que atravessou o oceano e plantou a vida no Brasil, pessoas que lutaram contra a pobreza absoluta, que rasgaram estatutos identitários originais e que sobreviveram aprendendo outras línguas e costumes. Por certo, sou-lhes grato e reconhecido, mas, quando medido o desconhecimento que tenho de meus bisavós, fico perplexo e relativizo a vaidade de minhas toscas conquistas. De que valeu a façanha de nossos antepassados, se deles as memórias vão se apagando? Certamente, meus netos terão pálidas lembranças de minha passagem e formação familiar. E é bom que seja assim, pois seria mais difícil viver se as lembranças insistissem em montar praça.

A depuração destas meditações indica algo importante: tenho que amar mais os seres que animam meu viver. Entendo melhor agora, mais velho, o sentido da vida que pulsa no reconhecimento da partilha da vida. Nessa direção respondo a pergunta sobre a força do existir: sim, está valendo a pena, tanto que registro isso nesta crônica escrita em saudação aos parentes, amigos e pacientes leitores. 

terça-feira, 14 de março de 2017

TELINHA QUENTE 250

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Roberto Rillo Bíscaro

Leitores mais assíduos sabem como gosto de notar a presença de queridos velhos atores/atrizes nas séries antigas resenhadas. Virou requisito anotar rostos conhecidos e mencioná-los como exemplos de episódios. Sempre mais ligado no elenco do que em outros aspectos, tenho por hábito checar filmografias no IMDB pra ver se acho o que falta pra assistir dos favoritos.
Nessas pesquisas sempre encontrava participação em episódios de Murder, She Wrote. Astros velhuscos de Hollywood, personalidades da TV; parecia que todo mundo passara pela série. Como dalguns anos pra cá policiais captaram minha atenção, ano passado dediquei-me às 12 temporadas, exibidas entre 1984-96, pela CBS. Ser anos 80 também influenciou muito em eu ter dedicado meu tempo aos 264 episódios.  
Sucesso nos EUA e muitos países, Murder, She Wrote (MSW) passou despercebido no Brasil, onde dizem que foi exibida um pouco pela Globo, com o nome Assassinato Por Escrito, mas não tenho lembrança, embora no Youtube exista o começo dum episódio dublado pela BKS:

Decalque da Miss Marple, de Agatha Christie, a detetive diletante de MSW é Jessica B. Fletcher. Depois de viúva, a ex-professora de inglês começa a escrever histórias de detetives sob o nome J. B. Fletcher. Moradora da pequenina Cabot Cove, no Maine, a senhora Fletcher torna-se êxito comercial, o que lhe proporciona amplas possibilidades de viagem e contatos com gente da alta. Irresistivelmente simpática, penetrantemente observadora, com jeitão de madrinha doce, a Sra. Fletcher, na verdade, é uma ave de mau agouro, porque onde quer que esteja, ocorre(m) assassinato(s), que ela desvendará quase sempre por haver percebido discrepância minúscula. Imagine que em 264 episódios, a pilha de defuntos é himalaica e como sempre parece que a simpática senhora está trabalhando num livro, apenas cogita-se como teria tempo pra tanto. Mas, MSW é daquela categoria onde elucidar um quebra-cabeça detetivesco é pura diversão. É a morte como entretenimento depois dum dia cansativo de trabalho e do jantar, antes de ir pra cama.
A estrutura dos roteiros permaneceu pétrea as 12 temporadas. Praticamente metade dos 50 minutos de exibição são ocupados pela exposição, que ao longo da dúzia de anos se passou em cidades e ambientes bem diversificados, de uma vinícola a um estúdio de gravação ou haras. É nesse tempo que os conflitos são estabelecidos, informações técnicas de cada ambiente fornecidas e a(s) vítima(s) mais ou menos cantadas. Jessica está sempre na hora certa (?) no lugar certo (?) e conhece todo mundo, o crime ocorre, um inocente é erroneamente culpado, Mrs. Fletcher trabalha amigavelmente ou não com o detetive e mediante estímulo desconectado com o crime, deduz o culpado a partir de detalhe, porque a Sra Fletcher não sabe dirigir, mas entende de tudo, desde eletricidade a operações financeiras complexas, então é capaz de deduzir qualquer coisa. No final, sempre confronta o culpado na cena da revelação, onde estão apenas ela e o/a malfeitor/a. Mas, os policiais estão sempre a postos, porque ela combinara a emboscada com eles. Ao final, mesmo após revelações bombásticas de mãe mandando sequestrar filha pequena, tudo acaba em risadas (literalmente). Exceto em uns poucos episódios, onde exigia-se mais exposição, então os créditos finais aparecem imediatamente após a revelação, a imagem congelando na expressão de pesar da detetive, meneando a cabeça.
Em 12 anos nada mudou e o bendito show funciona sempre! Porque Angela Lansbury é um poço de carisma e simpatia, porque é tudo tão absurdo e inconsequente que embarcamos de coração leve e mente aberta e também porque depois de pegar a manha, você começa a atentar pros detalhes que podem levar a prever o assassino. Traquejados, a gente começa a acertar cada vez mais. Se no elenco há um superastro de 15 minutos atrás, há boa chance de ser o culpado (porque a cena da revelação sempre rende holofote!). De meiguice/sonsice muito demais também desconfiamos. Enfim, há marcadores nítidos, porque o roteiro é pura fórmula e vários episódios não cansam de repeti-la, tipo o xerife/inspetor dizer que fulano tinha “motivo, meios e oportunidade” pra cometer o delito.
Os episódios são tão fórmula, a duração de MSW tão longa e o desfile de conhecidos é tão extenso que abri mão de mencionar, porque não daria conta! Era um tal de aparecer gente de DALLAS, Dynasty, The Golden Girls, Batman, Melrose Place e tantos mais que ficaria doido anotando.
Uma das coisas mais fascinantes de ter visto a dúzia de temporadas em ordem cronológica foi perceber a ocupação do dia a dia pela tecnologia que hoje nos é segunda natureza. E olha que falo de série que terminou em 1996! Mas já dá pra notar a inserção de telefones celulares e computadores (laptops, inclusive) no cotidiano e tramas lidando com realidade virtual, internet e programas bugados.
A produção sempre foi caprichada, embora em vários episódios dos 90’s, a trilha-sonora incidental tenha sido violentada por aqueles saxofones e guitarras horripilantes da época. The 90’s suck!
Murder She Wrote está longe da complexidade cinzenta (em mais de um sentido) das séries policiais atuais, mas quem precisa apenas de coisas deprês e pesadas? 

segunda-feira, 13 de março de 2017

CAIXA DE MÚSICA 256

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Roberto Rillo Bíscaro
A maior parte do tempo, desde sua fundação, em 1990, o Big Big Train (BBT) percorreu trilho independente no prog rock, o que significa que tendia a ser ainda menos conhecido do que as já pouquíssimo divulgadas bandas atreladas às pequenas gravadoras que atendem o subgênero. Sorte que há a fiel comunidade progressiva ao redor do globo – cheia de blogs, newsletters, fanzines – mas quem não assina mailing lists ou visita sites especializados regularmente, corre o risco de não os conhecer.
Incluo-me entre esses até o lançamento de Folklore, ano passado, que me tirou do eixo. Se eu tivesse me juntado a alguma newsletter prog antes... Embora tenha meus grupos favoritos de todos os tempos, tipo Genesis, Yes, Smiths (Morrissey odiaria, mas ele que aprenda a lidar com isso), há muito não tenho banda predileta da atualidade. Acho que uma das últimas foi Belle And Sebastian. Canções estupendas de Folklore, como The Transit Of Venus Across The Sun e Brooklands me encheram de esperança de que o BBT viesse a preencher esse lugar. O páreo não era assim tão simples, porque o Farmhouse Odissey igualmente me encantara.
Busquei a discografia e imediatamente antes de Folklore havia os 2 volumes de English Electric, lançados, respectivamente, em 2012-3. Experimente digitar o nome no Google pra ver como o Big Big Train é minusculamente reconhecido. Aparece muita matéria sobre o LP homônimo de 2013, do OMD. Nada contra os synth-poppers oitentistas - amo Enola Gay e Electricity (e não ouvi o English Electric deles) – mas não há quase nada sobre seus conterrâneos progressivos.
O núcleo-duro da parte 1 do English Electric do Big Big Train foi gerado pelo Genesis, mais especificamente por Trespass (1970) e Nursery Cryme (1971). Tamanha minúcia mostra como os ingleses dominam bem o subgênero em que operam e a perícia para operar dentro de escopo bem definido e reduzido de escolhas e mesmo assim não soar caricato ou repetitivo. A abertura, The First Rebreather, põe todas as cartas genesianas à mesa: depois de solo de flauta gabriélico e virada de bateria típica de Collins, entra austero e certeiro solo de guitarra digno de Steve Hackett sentado, lendo partitura. É bem Trespass, mas aí entra o toque de subversão apenas possível pra conhecedor profissional da tradição prog: usar maneirismos do baterista e guitarrista empregando sonoridade de um álbum em que ambos ainda não se haviam juntado ao Genesis. Harmonias vocais, muita coisa lembra o Genesis, só falta na na na na na ao final (ouça Upton Heath, que há!). Mas, como English Electric é pra quem tem paciência pra detalhes de fone de ouvido, o ouvinte também fluente em idioma prog notará arpejos e barulhitos tomados de outros quadrantes.
Quem ama aqueles preciosos anos do início dos 70’s, quando o prog folk gestou pérolas infelizmente quase esquecidas como Amazing Blondel e Gryphon, não deixará de sorrir com a doçura dos banjos de Uncle Jack. Seu tamanho reduzido, lembra banda prog da época tentando fazer single pra encravar no Top Ten.
Britânico, adjetivo inseparável de English Electric. Não é à toa esse título. A sonoridade e as letras recheadas de referências a sebes (o álbum termina com Hedgerow...Sebe!), campinas, ravinas, igrejas, sinos, remetem àquela sonoridade imagética típica do prog lá produzido. Peter Gabriel conta que durante as gravações de Selling England By The Pound – em uma propriedade rural no interior da Inglaterra – a banda parava pra tomar chá. Como não reconhecer esses estereótipos pelo passeio paisagístico de Winchester From St. Giles’ Hill? È nela que está o melancólico madrigal trançado por flauta árcade e piano gotejante, que precede o momento mais rock de guitarra e teclado. Feche os olhos e imagine caminhada colina acima, o atingir o cume e a descida.
Outro estratagema comum pro Genesis eram as historietas sobre gente estranha. O BBT tem falsificadores de obras de arte e garotos na escuridão, além do bucolismo pastoril. A vigorosa e viciante Judas Unrepentant encaixa-se nas categorias de historinha e de grande canção prog de todos os tempos.
Em um álbum repleto de tubas, bandolins, pistões, violinos e trombones – além dos teclados da sonoridade do prog clássico – não se corre perigo de cair no marasmo. Em Summoned By Bells, quando parece que a coisa vai ficar repetitiva, o clima muda, meio que prevendo o caminho de algumas canções mais Genesis anos 90 de Folklore, tudo ganha musculatura, o piano ganha tons jazzy e David Longdon canta pelas estranhas, o que se repete em A Boy In Darkness. Aqui, o BBT prova vez mais que não é mera cópia neo prog do Genesis; a orquestração épica tem umas flautas iradas à Jethro Tull, mas os contemporâneos proggers ingleses não são amadores: usam elementos da tradição pra criar um som só deles.
São 8 faixas de qualidade técnica e artística irretocável:


A parte 1 de English Electric saiu em setembro, de 2012 e a 2, em março do seguinte ano. A homonímia e o reduzido intervalo entre os lançamentos qualificam-nos como álbum duplo, projeto do qual muitos artistas saem chamuscados. Manter a criatividade num LP simples já é barra, imagine preencher dois. Foi nessa brincadeira que o Yes despencou do favor da crítica, com Tales From Topographic Oceans (1973). Mas, o BBT estava num frenesi de ideias, porque as 7 canções mantêm o alto nível da parte 1
Quintessencialmente britânico outra vez, o folk por vezes evoca hinos religiosas em igrejas anglicanas rurais, como em Swan Hunter, mesmo que as letras dessa parte invoquem mais uma Inglaterra pós-Revolução industrial, com suas minas de carvão, estaleiros e ferrovias. Mas, não se preocupem que há agricultores e sebes! Os músicos estavam transbordando de melodias lindas na cabeça, a ponto de rechearem Keeper Of Abbeys com fragmentos de música viciantes, além de um duelo sensacional de cítara, flauta, guitarra e violino. Um dos pontos altos, pra se ouvir repetidamente. E quer coisa mais British que abadia? Downton Abbey gritando, Jane Austen e sua Northanger Abbey imperando. Já sei a letra de cor, de tanto que ouço. A derradeira Curator of Butterflies é pra não dizer que BBT é clone de Genesis. Sua emocionante garota que talvez tenha se jogado do penhasco é prog contemporâneo da melhor qualidade, com DNA próprio.
Tudo muito bom, mas exceto por Keeper Of Abbeys, tudo é ultrapassado pela monumental East Coast Racer, que abre English Electric Pt 2 com seus quase 15 minutos e meio e é uma das grandes canções progressivas da história. Sobre um lorde que bateu um recorde de velocidade em Maria-Fumaça – quer mais britânico do que trem, na terra do Trainspotting? – a canção tem dinâmica e estrutura irretocáveis. Os trechos que representam o ganhar de velocidade do trem são levados por percussão e pianos fluidos; dá pra imaginar o movimento, e vez mais o BBT prova que tem seu próprio estilo de prog rock. Conhecedores sabem que estamos na tradição corrediça de The Cinema Show, mas reprogramada por uma geração contemporânea ao Radiohead.
Recipientes como melhor álbum e banda ano passado do equivalente ao Grammy do rock progressivo (o que significa que pouquíssima gente sabe deles, porque onde esse prêmio é divulgado?) e com data prevista de lançamento do próximo álbum (fim de abril), o Big Big Train é minha banda preferida da atualidade.
Demorou, mas finalmente tenho uma de novo. Com orgulho. E ainda que não cópia, apenas possível devido a minha favorita de todos os tempos: Genesis.
Quer conhecer mais? Acesse a página deles no Bandcamp, tá tudo lá: