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domingo, 14 de setembro de 2025

ADEUS AO BRUXO ALBINO


Aos 89 anos, morre Hermeto Pascoal, um dos mais criativos músicos do planeta

Artista venceu três vezes o Grammy Latino e recebeu títulos de doutor honoris causa de três universidades


Um dos músicos mais originais do planeta, o multi-instrumentista e compositor Hermeto Pascoal morreu na noite deste sábado (13), aos 89 anos. Ele estava internado desde 30 de agosto no Hospital Samaritano Barra, no Rio de Janeiro, para tratar complicações decorrentes de fibrose pulmonar.

Hermeto deixa seis filhos, 13 netos e dez bisnetos. A notícia foi confirmada em sua conta oficial no Instagram, onde a família comunicou que o músico “fez sua passagem para o plano espiritual, cercado por familiares e companheiros de música”.

A publicação destacou ainda que, no momento de sua partida, seu grupo se apresentava no palco, “como ele gostaria: fazendo som e música”. O texto conclui com um convite: “Como ele sempre nos ensinou, não deixemos a tristeza tomar conta. Escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira. A música universal segue viva”.

Em nota, o Hospital Samaritano Barra explicou que o artista foi internado para tratar complicações respiratórias de um quadro avançado de fibrose pulmonar. Apesar do suporte médico, seu estado se agravou nas últimas horas, evoluindo para falência múltipla dos órgãos.

Carreira reconhecida mundialmente

Nascido em Lagoa da Canoa (AL), em 1936, Hermeto se destacou como compositor, arranjador e instrumentista, dominando instrumentos como acordeão, flauta, saxofone e piano. Ficou conhecido como “Bruxo”, apelido inspirado em sua habilidade de transformar qualquer som – de objetos comuns a ruídos inesperados – em música.

Fundador do Quarteto Novo, colaborou com grandes nomes do jazz, incluindo Miles Davis. Sua obra é estimada em milhares de composições, refletindo uma criatividade inesgotável. Reconhecido internacionalmente, conquistou prêmios como o Grammy e foi homenageado com nomes de espécies botânicas.

Hermeto venceu três vezes o Grammy Latino e recebeu títulos de doutor honoris causa da Juilliard School, da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade Federal de Alagoas.

domingo, 13 de abril de 2025

ALBINOS SERTANEJOS

1ª dupla sertaneja albina do Brasil é de Tatuí


Irmãos Silvio e Silvano cresceram na Casa do Bom Menino, após falecimento da mãe

Desde outubro do ano passado, dois irmãos criaram a primeira dupla sertaneja albina do Brasil. Silvio e Silvano cresceram na Casa do Bom Menino, após o falecimento da mãe, e, ao completarem 18 anos, deixaram o local e perderam o contato entre si.

Alguns anos depois, em outubro de 2024, reencontraram-se em São Paulo e decidiram formar a dupla sertaneja. Na verdade, eles se chamam Silvio Flaviano Gaspar, de 43 anos, e Silvano Calazans de Campos Gaspar, 45.

Segundo relatado por Campos Gaspar, mesmo com a separação, os irmãos nunca deixaram de se falar, e, quando se reencontraram, decidiram “tocar para frente o sonho de infância”.

A dupla relata gostar de música desde criança, além de sempre ouvir das professoras que “tinham jeito para música”. No entanto, como moravam em um orfanato, “viam o sonho como distante”.

De acordo com Flaviano Gaspar, ele “nunca deixou o sonho passar”. Após completar 18 anos, começou a trabalhar em outras áreas e a constituir família, mas, sempre que podia, participava de campeonatos de karaokê em barzinhos. Já Campos Gaspar também acabou se afastando da música por um tempo, para estudar e trabalhar.

Desde o reencontro no ano passado, quando decidiram investir na carreira sertaneja, os irmãos passaram a morar em São Paulo — Campos Gaspar já residia na cidade; Flaviano Gaspar se mudou por conta da dupla.

Eles entraram em contato com Eduardo Gomes, que tem ligação com várias duplas sertanejas nacionais, como Rick e Renner, Rio Negro e Solimões e Zé Neto e Cristiano. Com a ajuda de Gomes, os irmãos gravaram clipes em Atibaia (SP).

“Antes de ele assumir o compromisso com a gente, quis ouvir o Silvio cantando. Depois, ele foi me ouvir individualmente, e só então juntou a dupla para ver se dava ‘para fazer alguma coisa’”, comentou Campos Gaspar.

“Ele gostou do timbre, achou bem diferente. O fato de sermos a primeira dupla albina do Brasil e de sermos de Tatuí, a Capital da Música, dá um peso também. Então, tem todo esse aparato”, opinou.

A dupla pretende fazer o lançamento oficial com um show em Tatuí e, para que isso ocorra, informa estar se comunicando com a administração municipal.

Segundo os irmãos, prefeituras de outras cidades, como Sorocaba, Boituva e Itapetininga, já demonstraram interesse, mas o foco, por enquanto, é Tatuí, cidade natal da dupla.

“Fazer o lançamento em Atibaia ‘seria um pulo’, pois já tivemos apoio lá para a gravação, com chácara e tudo, mas o nosso objetivo maior é Tatuí. Queremos gravar um DVD ao vivo em Tatuí”, contou Campos Gaspar. O desejo dos irmãos é iniciar uma turnê no município e, a partir daí, procurar outras cidades para realizar shows.

De acordo com a dupla sertaneja, a turnê se chama “Girassol”, e o show já está “praticamente pronto”. Eles estão ensaiando clássicos sertanejos, além de músicas inéditas e autorais.

“Nós quisemos resgatar todas as raízes do sertanejo. Eu sou sociólogo de formação. Então, fizemos toda uma análise em cima das músicas”, complementou Campos Gaspar.

Ainda segundo o cantor sertanejo, a dupla teve, recentemente, pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, a aprovação do projeto “Raízes do Brasil: Clássicos Sertanejos”, com o objetivo de apresentar grandes clássicos da música pela voz de Silvio e Silvano.

O projeto trata-se de uma mostra de música instrumental caipira sertaneja que “irá resgatar os principais clássicos sertanejos do Brasil”. O evento é voltado a “reviver a música sertaneja raiz, os clássicos e a moda de viola”.

“O projeto propõe dez apresentações musicais envolvendo os clássicos, músicas autorais e independentes interpretados pela primeira dupla sertaneja albina do Brasil”, comentam os irmãos.

A aprovação foi no valor de R$ 283.932 e o projeto agora está na fase de captação de recursos.

“O projeto está todo estruturado. A única coisa que estamos esperando é partir de Tatuí. Nosso sonho é fazer o show na cidade, seja na Concha, no coreto da Praça da Matriz ou em qualquer outro local onde a prefeitura tenha interesse”, finalizaram.

As músicas da dupla sertaneja podem ser ouvidas no YouTube, no canal “Silvio & Silvano”, e no Spotify, com o nome homônimo. Entre as canções disponíveis nas plataformas, estão: “Você se Foi”, “Girassol” e “Amor Bloqueado”.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

ALBINO HERMETO SEMPRE NA ATIVA

Aos 87, Hermeto Pascoal lança ‘Pra você, Ilza’, álbum dedicado à mulher falecida em 2000

Além de voltar aos estúdios, um dos maiores músicos do mundo ganha biografia e vai ser uma das atrações do Rock in Rio

SILVIO ESSINGER
Da Agência Globo — Rio


Foi longe o menino albino nascido numa casinha do povoado de Olho d’Água, localidade próxima a Lagoa da Canoa, município no interior de Alagoas. Riscos até lá, ele enfrentou alguns – bem criança, a mãe teve que pintá-lo de preto, junto com o irmão Zé Neto, também albino, e escondê-los no mato para que o cangaceiro Lampião os não levasse, por exemplo.

Mas a arte foi mais forte que as circunstâncias, e no próximo dia 22 Hermeto Pascoal chega aos 88 anos de idade reconhecido como um dos maiores músicos vivos do mundo (ano passado, recebeu das mãos de Wynton Marsalis o título de doutor honoris causa na Juilliard School, em Nova York). Ele será homenageado com uma exposição e uma biografia e, o que é melhor, ainda em plena atividade: acaba de lançar um álbum de inéditas e segue com uma agenda de shows que o levará ao Rock in Rio.

— Tudo que eu recebo vem do universo. A música não para justamente por isso, por causa dessa liberdade que eu dou para minha própria mente — explicava por telefone um Hermeto em vias de lançar, na última terça-feira, “Pra você, Ilza”, disco feito com seu grupo em fevereiro, no Estúdio Rocinante, em Araras, na região serrana do Rio.

É mais uma coleção de composições dessa verdadeira usina humana, que de 23 de junho de 1996 a 23 de junho de 1997 criou nada menos uma música por dia e deixou tudo registrado em partituras no livro “Calendário do Som”. Desta vez, porém, os temas instrumentais são todos eles dedicados a Ilza Souza Silva, mãe de seus seis filhos e sua companheira de 1954 a 2000 (ano em que faleceu, vítima de câncer).

— Vivemos a vida toda, o tempo todo, até que Deus chamou para lá, estava na hora dela. O presente que eu poderia dar a alguém é a música — justifica-se Hermeto, que conheceu Ilza em Recife, para onde foi aos 14 anos, com Zé Neto, a fim de viver de música. — Eu tocava com o pai de criação dela, o violonista Romualdo Miranda (irmão do bandolinista e mestre do choro Luperce Miranda), e fui morar num quarto quase em frente da casa dele. Um dia eu vi aquela moça bonita, meu tipo mesmo. Noutro dia, o Romualdo convidou a gente para almoçar lá e fiquei esperando ela aparecer. Mas Ilza tinha ido para o Rio. Perguntei quem era a moça e ele só me disse: “Ela vai voltar logo.”

Ilza voltou, reparou naquele menino sanfoneiro e lhe pareceu que ele não abria os olhos.

— Cá comigo eu achei: “Tô lascado!” Mas a simpatia dela de ter perguntado porque os meus olhos não abriam foi o que fez começar o namoro. Eu falei: “se esses olhos não abrem é porque eles estão vendo as coisas mais interessantes.” Ela riu pra caramba e eu já dei a minha cantadinha devagar — recorda-se. — A gente começou a namorar e o Romualdo arrumou um quarto para nós lá, mas disse que não dava para ficar daquele jeito. A gente estava a fim um do outro, e um amigo dele, advogado de cartório, conseguiu fazer documentos que aumentaram a idade para a gente poder se casar.

E o resto é história – que está toda nas 280 páginas de “Quebra tudo! – A arte livre de Hermeto Pascoal” (Kuarup), a primeira biografia do músico, escrita pelo jornalista Vitor Nuzzi. Em 1961, Hermeto se mudou para São Paulo e, tocando piano na boate Stardust, conheceu o guitarrista Heraldo do Monte (que o chamaria para o Quarteto Novo, criado para acompanhar Geraldo Vandré, e que fez fama ao lado de Edu Lobo e Marília Medalha no “Ponteio” do festival de 1967) e o jovem Lanny Gordin (filho do dono da Stardust, com quem integrou o grupo Brazilian Octopus, e que faleceu ano passado).

Percussionista do Quarteto Novo, Airto Moreira, e sua mulher, a cantora Flora Purim, foram os responsáveis por levar Hermeto (que, além da perícia em vários instrumentos, começava a se destacar na composição) para os Estados Unidos. Lá, ele gravou discos e ficou amigo do trompetista e mago do jazz Miles Davis, que lhe surrupiou a autoria de três músicas (“Little church”, “Nem um talvez” e “Selim” – ou seja, Miles ao contrário — gravadas no álbum “Live Evil”, de 1971). Isso tudo, enquanto fazia das suas no Brasil (no Festival Internacional da Canção de 1972, Hermeto criou para a música “Serearei” um coral de porcos que não foi bem visto pela ditadura e acabou sendo censurado).

— A essa altura do campeonato, o Hermeto mais do que merecia uma biografia. Em geral, a nossa bibliografia trata muito dos cantores, a gente tem centenas de livros sobre eles, e muito poucos sobre o os instrumentistas — acusa Vitor Nuzzi. — E dentre os instrumentistas brasileiros, Hermeto é o mais original e criativo. Ele é um homem-instrumento, difícil é saber o quais os instrumentos que ele não toca, dos convencionais aos que ele próprio criou, como o copo d’água e a chaleira, para não falar nos bichos. Em termos de criatividade, o Hermeto está no mesmo patamar de um Tom Jobim.

De volta ao Brasil, Hermeto se radicou com a família no Jabour, bairro do grande Bangu (Zona Oeste da cidade do Rio), área que seu pai começou a desbravar ainda em 1958. A partir dos anos 1980, a sua casa passou a ser ponto de peregrinação de jovens músicos, em busca de orientação do mestre autodidata, que então já tinha cunhado o seu conceito de “música universal” (“o fato de não me preocupar com as chamadas raízes da MPB não se constitui, para mim, num problema, porque se eu fizer o que sinto sai normalmente brasileiro, porque eu sou brasileiro”, dizia Hermeto em 1976). Muitos futuros astros da música instrumental deram seus primeiros passos ali, no Jabour.

— A Ilza ficava tão contente que fazia almoços para os músicos. Ela brincava muito com o Itiberê (Zwarg, até hoje baixista de Hermeto, e pai de Ajurinã, baterista e saxofonista do grupo), chamava ele de Olhão, porque quando servia os pratos, ele ficava de olho, como se estivesse apressado para comer primeiro. A Ilza tinha uma intimidade de mãe com eles. Quando a gente viajava, ela sentia falta — suspira Hermeto, acrescentando que alguns de seus músicos, como o saxofonista Carlos Malta e o baterista Marcio Bahia, chegaram a se mudar para o Jabour, para não se atrasar para os ensaios diários.

Para homenagear Ilza, Hermeto escolheu 13 entre um total de 198 partituras registradas em um caderno dedicado à mulher, e escrito entre 1999 e 2000. Na hora de gravar, ele levou apenas com a partitura bruta indicando melodia e harmonia. Sentado numa poltrona, ele ia dizendo cada nota e ritmo que os músicos devessem executar e, ainda por cima, criou novas partes para as músicas, tudo na hora. Coube aos velhos escudeiros Itiberê, Ajurinã, André Marques (piano), Jota P (saxofone) e Fábio Pascoal (o único filho de Hermeto que seguiu na música, como percussionista) ir atrás dele.

O fato de o estúdio da Rocinante ficar no meio de um pedaço de Mata Atlântica preservada ajudou muito a gravação de “Pra você, Ilza”.

— A impressão foi a de que a gente nem estava num estúdio, foi como se estivesse em casa, fazendo o que você quer fazer. Bem solto, bem livre — observa o Bruxo, que ainda fez questão de incorporar ao disco os ruídos da natureza. — Pedi para gravar os sons da mata, dos bichos, dos passarinhos... tudo o que vinha era registrado!

Diretor artístico da Rocinante, Sylvio Fraga admite que “lançar um disco de inéditas de Hermeto Pascoal é uma honra sem tamanho, ainda mais um disco com significado tão importante e íntimo para ele”.

— A gente pôde presenciar esse gênio imenso, sentadinho numa cadeira, cantando tudo que cada um ia tocar. Depois de 87 anos, ele cria como se fosse um menino descobrindo música pela primeira vez — admira-se Sylvio. — E teve um momento genial em que o Hermeto disse ao músico: “só para sentir que realmente vai funcionar, sai da sala e entra tocando isso, como se fosse o início de um show!” É incrível como ele se coloca sensorialmente dentro daquilo, como ele entra integralmente na criação.

Uma unanimidade na MPB, citado em canções de Caetano Veloso (“Podres poderes”, “O estrangeiro”) a Chico Buarque (“Paratodos”), Hermeto Pascoal ganha ainda, no dia 28, uma exposição no Sesc Bom Retiro (São Paulo) que abarca um outro lado de sua produção, a visual. Ars Sonora (em cartaz até dia 3 de novembro) reúne desenhos, pinturas, vídeos, objetos e “propostas sonoras de instrumentos musicais”.

E a vida nos palcos segue, com um Hermeto na maior parte do tempo sentado, por causa da idade, mas ainda fumegante em suas intervenções instrumentais com o grupo (“os ossos não param de envelhecer, o remédio que eu tomo é música, o que dá para fazer eu faço”, informa). Nos próximos dias 21, 22 (seu aniversário) e 23, ele toca no Sesc Vila Mariana (SP). Em 11 de agosto, estará na primeira edição brasileira do festival uruguaio Medio Y Medio, no Circo Voador (RJ). E em 14 de setembro, abrilhanta o Global Village do Rock in Rio, ao lado do sanfoneiro Mestrinho e do pianista Amaro Freitas.

— A música é que nem o vento, que nem o céu, que nem as estrelas, que nem a água, que nem o chão e as montanhas. Deus deu tudo isso para a gente se inspirar, que é para Ele não ficar tendo trabalho de falar com todo mundo — arremata o filósofo Hermeto.

terça-feira, 14 de maio de 2024

BIOGRAFIA MUSICAL ALBINA

Livro sobre Hermeto Pascoal vê como alagoano virou um dos maiores músicos do país

Biografia de Vitor Nuzzi conta trajetória do multi-instrumentista autodidata dono de uma obra livre e original

ANDRÉ BARCINSKI
Da Folhapress - Paraty (RJ)




Demorou 88 anos, mas um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos —aliás, do mundo— finalmente ganha uma biografia. Em 15 de maio, sai, pela editora Kuarup, "Quebra Tudo! A Arte Livre de Hermeto Pascoal", do jornalista Vitor Nuzzi.

Resultado de seis anos de pesquisa e mais de 50 entrevistas, incluindo um longo depoimento do próprio Hermeto, "Quebra Tudo!" conta a saga de um menino albino e estrábico, com problemas de visão e autodidata em música, que nasceu em 1936 em Olho D’Água, pequeno povoado de Lagoa da Canoa, na região de Arapiraca, em Alagoas, para ganhar o mundo com sua música livre e genial.

Célebre por usar, além de instrumentos tradicionais como teclado, flauta e violão, itens inusitados como água, xícaras, sua própria barba e outras bugigangas que inventa e improvisa, Hermeto se comunicava desde criança com o mundo natural, tendo pássaros, peixes e sapos o primeiro público.

Autor do livro sobre Geraldo Vandré, "Uma Canção Interrompida", finalista do prêmio Jabuti, Nuzzi conta a história de Hermeto desde a infância em Olho D’Água.

"Fui para lá, ainda é um lugar muito ermo", diz o autor. "Conversei com parentes e pessoas que conheceram Hermeto e a família dele, e as histórias são incríveis. O pai de Hermeto tocava sanfona, mas o menino basicamente aprendeu tudo sozinho. E se Olho D’Água ainda é um lugar isolado hoje em dia, imagina em 1936?"

Nuzzi conta que o sobrenome da família era Da Costa, mas o menino ganhou, no cartório, o nome de Hermeto Pascoal porque o pai se chamava Pascoal da Costa. "Não sei se foi um erro do cartório ou uma confusão com os nomes", diz Nuzzi, "mas o fato é que o cartório registrou o nome dele como Hermeto Pascoal. O irmão mais velho de Hermeto, Zé Neto, tem o sobrenome Da Costa".

Aos 14 anos, Hermeto e Zé Neto, também albino, foram tentar a sorte como músicos em Recife e logo atraíram a atenção de outro gênio musical —e também albino—, Sivuca, que disse sobre Hermeto: "Assim que o vi, percebi que ele tinha dentro dele o fogo sagrado da música".

Do Recife, Hermeto foi para o Sudeste, onde tocou em muitas boates e gravou discos no Rio e em São Paulo. Formou vários grupos, sendo um dos mais famosos o Quarteto Novo, ao lado de Airto Moreira, Heraldo do Monte e Theo de Barros.

No Rio de Janeiro, a família se instalou numa casa no então remoto bairro Jabour, na Grande Bangu, zona oeste do Rio. A casa logo se tornou um ponto de encontro para músicos e local de experimentação sonora para Hermeto.

Nuzzi acredita que o grande salto criativo na carreira de Hermeto ocorre na virada dos anos 1960 para os 1970, quando ele passa dois ou três anos nos Estados Unidos, a convite do casal Airto Moreira e Flora Purim e volta com a ideia de libertar cada vez mais a sua música das amarras do comercialismo. "A mudança é nítida", diz Nuzzi.

"Antes desse período nos Estados Unidos, Hermeto usava cabelo curto, parecia tímido. Lá, ele mergulha no jazz, grava com Miles Davis e outros músicos geniais e retorna transformado. Tanto que, em 1973, de volta ao Brasil, grava um disco absolutamente fundamental, ‘A Música Livre de Hermeto Pascoal’. Ali o Hermeto se encontra".

Outros momentos marcantes da carreira do músico no período são, segundo o biógrafo, o show no Festival Internacional de Jazz realizado em 1978, em São Paulo, quando Chick Corea, John McLaughlin e Stan Getz fizeram questão de dar uma "canja", e o concerto em 1979 no Festival de Montreux, na Suíça, que resultou não só no álbum "Hermeto Pascoal Montreux Ao Vivo", como numa participação improvisada e antológica com Elis Regina.

Acompanhada apenas por Hermeto ao piano, Elis interpretou três canções clássicas da música brasileira —"Asa Branca", "Corcovado" e "Garota de Ipanema"— que depois foram incluídas no álbum "Elis Regina: Montreux Jaz Festival", lançado em março de 1982, logo após a morte da cantora.

"Essa noite com a Elis foi um presente que ganhei da vida", diz Hermeto. Nuzzi conta que Hermeto foi literalmente empurrado ao palco por Claude Nobs, organizador do Festival de Montreux.

Além de um relato fascinante sobre a criação do universo musical de Hermeto Pascoal, que resultou em seus memoráveis shows e gravações com sons de animais e da natureza, "Quebra Tudo!" conta a história de vida de um artista que batalhou muito para poder chegar ao estágio de ter total liberdade criativa sobre sua arte.

https://www.diariodecuiaba.com.br/ilustrado/livro-sobre-hermeto-pascoal-ve-como-alagoano-virou-um-dos-maiores-musicos-do-pais/680821

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

CAIXA DE MÚSICA 511

Crítica do álbum Thee Sacred Souls (2022), de Thee Sacred Souls

Produzido pelo cofundador da Daptone Records, Gabriel Roth, Thee Sacred Souls é um disco quente e texturizado, misturando a graça descontraída do doce soul dos anos 60 com a coragem do R&B do início dos anos 70. As apresentações são totalmente inebriantes, com os vocais leves de Lane ancorados pela profunda seção rítmica e pela química contagiante. Insinuações de Chicano, Philly, Chicago, Memphis e até soul panamenho aparecem aqui, e embora seja tentador usar rótulos como “retro” para uma coleção deliberadamente analógica como esta, também há algo distintamente moderno na banda, que desafia qualquer categorização fácil.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

CAIXA DE MÚSICA 510

Em homenagem ao falecimento tão precoce do canto sublime de Roberto Leão. Um repertório de delicadas canções que falam de temas como a tristeza, a saudade, um amor desfeito ou uma desilusão, de compositores de gerações diferentes da música popular brasileira. Assim é o álbum “Alegria”. Gestado como uma homenagem a um século de composições da música brasileira, com obras de Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Dori Caymmi e do próprio Breno Ruiz, o disco fala pela poesia de Paulo César Pinheiro, Vinicius de Moraes e Dolores Duran.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

CAIXA DE MÚSICA 509

A Importância do álbum Low Life (1985), da New Order, para a história da música pop

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 508

 Crítica do álbum The Myth of the Mostrophus (2022), de Ryo Okumoto


O tecladista do Spock’s Beard estava com saudades do som bombástico de sua banda e reuniu quase todos os integrantes em seu explosivo álbum-solo, após décadas sem lançar trabalho individual. Com convidados do calibre de Steve Hackett, o japonês entrega um som que não foca especificamente nos teclados e que aborda o rock progressivo de forma moderna e musculosa, sem perder de vista os anos do ápice setentista. E como resistir a um épico de 22 minutos sobre um monstro destruidor de cidades e gentes?

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 507

 Tributo/Homenagem à Gal Costa – SEM GAL, HAVERIA ESTE CANAL DO JEITO QUE É? PROVAVELMENTE, NÃO!

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 505

Crítica do álbum Fall In Love Not In Line (2022), de Kids On A Crime Spree

"Fall In Love Not In Line" é um álbum com 10 músicas, com breves 25 minutos de duração, e é um conjunto sólido de exuberância noise-pop em todos os aspectos. O cantor e compositor Mario Hernandez, a baterista Becky Barron e o guitarrista Bill Evans escreveram e gravaram "Fall In Love Not In Line" no estúdio analógico de Mario em Oakland, Califórnia

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 504

 Crítica do álbum Once Twice Melody (2022), de Beach House


Em seu oitavo (!) álbum, a dupla Alex Scally e Victoria Legrand decidiu assumir totalmente as rédeas da produção, com uma ajudinha de Alan Moulder, que já mixara álbuns de My Bloody Valentine, Ride, e The Jesus & Mary Chain. O resultado é uma impressionante tapeçaria dream-pop, na qual o ouvinte se perde na riqueza das texturas, mudanças de acordes e nos vocais sussurrados de Legrand.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 503

 Crítica do álbum Ubuntu (2022), de Leila Maria

Enfatizando o lado africano do cancioneiro do alagoano Djavan, Leila Maria saiu-se com um álbum sublime, repleto de instrumentos e músicos africanos, impondo frescor e originalidade a canções clássicas da MPB; Um álbum obrigatório de 2022.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

TELINHA QUENTE 397

Crítica da minissérie Pistol (Star +)

Baseada no livro de memórias do guitarrista Steve Jones, da banda Sex Pistols, “Pistol” é uma minissérie de seis episódios que conta a história de uma banda de garotos da classe trabalhadora instáveis, bagunceiros e “sem futuro”, que mudou a música e a cultura para sempre.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 502

Crítica do álbum Renaissance (2022), de Beyoncé

Após seis anos de seu ótimo Lemonade, Beyoncè lança um álbum “pós-pandemia”, que é uma enciclopédia de black e club music, além de celebrar as comunidades que mais contribuíram para tais gêneros musicais, como a população queer, os negros e latinos, em cidades tão díspares como Berlim, Chicago, Detroit, Kingston, Nova Orleans, Nova York, sem esquecer, claro a mama África, onde tudo começou.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

CAIXA DE MÚSICA 501

Crítica do álbum V (2022), de Maglore

Em seu quinto álbum, o quarteto baiano alcança madura síntese uma sonoridade de indie-rock moderno, encharcado de influências dos anos 70, que vão do rock à Motown e ao reggae ou bossa-nova.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

CAIXA DE MÚSICA 500

Crítica do álbum Done Come Too Far (2022), de Shemekia Copeland

Shemekia Copeland nunca teve problemas para ser ouvida. Com seu poder de fogo, entrega direta, ela transmite sua mensagem em alto e bom som. Embora ela geralmente seja rotulada como uma cantora de blues, Copeland transcende esse rótulo com uma mistura de estilos, incluindo gospel, rock, blues, soul e, em seu trabalho mais recente, americana também, como o zydeco. Pegando pesado em temas sociais como racismo, violência nas escolas devido ao descontrole no armamento, Done Come Too Far ainda tem algum espaço para diversão.

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

CAIXA DE MÚSICA 499

Crítica do álbum Lamento Urbano (2022), de Vitrola Sintética

Grupo criado em 2006 na cidade de São Paulo e formado por Felipe Antunes (voz e guitarra), Otávio Carvalho (baixo e programações) e Rodrigo Fuji (guitarra e piano), Vitrola Sintética lançou em maio, de 2022, seu quarto álbum, Lamento urbano. Produzido por Tó Brandileone, o álbum traz um pop antenado, que vai de MPB a trip hop. Com participações de Josyara, Roberto Mendes, Manoel Cordeiro e Paulo Miklos, o Vitrola Sintética é mais uma prova de que muita música excelente ainda é feita no Brasil.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

CAIXA DE MÚSICA 498

Crítica: Sambas do Absurdo Vol. 2 (2022) de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis.

O volume dois do assombrosamente bom Sambas do Absurdo vem aparentemente mais acessível, mas consegue unir isso à experimentação e lindas melodias.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

CAIXA DE MÚSICA 496

Sofía Campos é cantora e compositora argentina, vivendo no México. Como passou a infância no Brasil, sempre foi apaixonado pela voz e interpretações de Elis Regina, pelas letras e melodias de Caetano Veloso, e pelos discos de tantos grandes nomes, inclusive contemporâneos, como Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

CAIXA DE MÚSICA 495

Autor de dois álbuns geniais na alvorada da década de 1970, em parceria com Ana Maria Bahiana, José Mauro foi dado como morto pela ditadura ou num acidente de carro, por anos, até que uma gravadora gringa ressuscitou seus trabalhos.