quinta-feira, 31 de julho de 2014

TELONA QUENTE 96


A partir de 1991, a Iugoslávia começou a desmoronar, tornando a península balcânica uma colcha ensanguentada de retalhos. Muitas etnias, religiões, idiomas e recalques, esses últimos materializados em tiro, porrada e bomba na Bósnia e adjacências.
O diretor sérvio Srdan Golubovic explorou os efeitos do conflito na vida de pessoas “comuns”, 12 anos após seu término, no solene Krugovi (2013). O filme baseou-se num fato pra exibir como ações funcionam como círculos concêntricos formados na água a partir do lançamento duma pedra.
Em 1993, um jovem soldado sérvio de licença na Bósnia salva um muçulmano de ser linchado por 2 soldados sérvios. Corte pra 12 anos adiante sem que saibamos o que aconteceu com o soldado salvador.
O muçulmano vive agora na Alemanha e é procurado por uma compatriota que quer salvar o filho do pai abusivo. Na Bósnia, o pai do soldado sérvio dedica-se à construção duma igreja e recusa violentamente um jovem que procura emprego. Em Belgrado, o muçulmano agredido é cirurgião de sucesso e é jogado no dilema de ter que salvar (ou não) a vida do chefe de seus agressores.
Revelando apenas no final o que aconteceu com o soldado sérvio ao salvar o vendedor muçulmano, Krugovi desvela aos poucos as inter-relações entre os diversos núcleos dramáticos. Não demora pra conjecturarmos o que passou com o soldado Marku e as relações, mas isso não importa: Krugovi não é suspense; é drama sobre consequências das ações e a possibilidade de perdão.
Lento, sem apelações de cine comercial, Krugovi é sério sem ser sombrio e o final deixa esperança no ar.  

quarta-feira, 30 de julho de 2014

ALBINO INCOERENTE NA CULTURA FM

Há pouco fui entrevistado por telefone pela repórter Cirley Ribeiro, da Cultura FM. 
Falei sobre o livro Albinos, do fotógrafo Gustavo Lacerda, que será lançado amanhã, em São Paulo. Também conversamos sobre superação, preconceito e albinismo de forma geral.
A entrevista irá ao ar no programa RadioMetrópolis, que começa às 9:00.
Você pode escutar a Cultura FM pela internet no endereço:
 http://culturafm.cmais.com.br/radiometropolis

GATO

Homem que sofreu transplante de rosto está 'inegavelmente atraente', diz revista


Richard Norris (Dan Winters/GQ)
Richard Norris estampa a capa da edição de agosto da publicação de moda GQ
Richard Lee Norris escondeu seu rosto desfigurado por 15 anos, até passar por um transplante facial que substituiu seu nariz, dentes e mandíbula. Dois anos depois, seu novo rosto estampa a capa de uma das revistas de moda masculina mais importantes do mundo.
Ele é o principal entrevistado da edição de agosto da GQ, revista sobre estilo e cultura que é conhecida por ter rostos bonitos nas capas.
Norris, de 39 anos, vivia em reclusão após ter sido gravemente ferido por um acidente com uma arma de fogo em 1997. Até o transplante, ele só saía à rua usando máscara.
Ele havia perdido seus lábios e seu nariz no acidente e tinha movimentos limitados na boca.
Agora, Norris, segundo a GQ, é "inegavelmente atraente". "Barbeado, jovem, o tipo de cara que você contrataria para ser o garoto-propaganda da sua empresa".
O transplante gerou polêmica, à época, porque a chance de sobreviver era de apenas 50% --e, ao contrário de outros tipos de transplantes, ele não precisava passar pelo procedimento para continuar vivo.
BBC
Norris antes e logo após a cirurgia
A revista afirma que, atualmente, ele não pode se queimar no sol, pegar um resfriado, beber, cair ou arriscar seu sistema imunológico de forma alguma.
Ele precisará tomar medicamento para não rejeitar o rosto pelo resto da vida. Até agora, já foi internado duas vezes devido a rejeições - que podem ser fatais.
À revista, Norris disse que tudo sobre seu novo rosto era ótimo. "Ele recebeu milhares de cartas de fãs. Uma das fãs agora é sua namorada. Ela mora em Nova Orleans. Ele disse que planeja conhecê-la pessoalmente", diz a publicação.

terça-feira, 29 de julho de 2014

TELINHA QUENTE 129


Ano passado, enfureci-me e frustrei-me com a série espanhola Imperium (saiba o motivo, aqui). Sabendo que a razão não se repetiria com Hispania, vi os 20 capítulos, exibidos entre 2010-12.
Hispania é derivada mais pobre do sucesso Roma (resenha aqui). Os produtores aproveitaram a figura de Viriato, lusitano que lutou contra os invasores romanos no século II AC, e esbanjaram imaginação folhetinesca numa série que ressalta o nacionalismo espanhol. Hispania deve ser encarada como diversão, jamais como aula de História.
O Pretor Galba é enviado à Península Ibérica pra manter e supervisionar a paz com seus habitantes, mas ao invés disso, comete descalabros, não apenas contra os hispanos, mas mesmo entre seus comandados. A ferocidade do comandante faz com que o pastor Viriato (fontes indicam que ele era de classe bem mais elevada) se subleve e aos poucos arregimente um exército que dá muito trabalho aos invasores.
Repleta de incongruências espaço-temporais (Roma parece situar-se a apenas algumas horas da Espanha; as personagens vão e vem duma cena pra outra) e situacionais (imagine que a esposa do pretor, uma patrícia, ficaria no acampamento durante o período de conquista), Hispania agradará apenas os dispostos a suspender a descrença a alturas siderais e curtir as traições e reviravoltas que acabam sempre no mesmo lugar.
Irava-me a constante música melodramática pra bombar emoção onde em realidade não havia e também os constantes açoites de chibata pra deixar costas em carne viva e meia hora depois a personagem estar vestida, lampeira ou deitada de barriga pra cima.
Mas, meus leitores sabem como me encantam emoções bem baratas e gente malvada na ficção. Como não amar a pérfida Claudia e, sobretudo, o delicioso Pretor Galba, interpretado por Lluis Homar (El Dia Más Dificil Del Rey). Sendo a série uma patriotada conveniente quando a Espanha chafurda em pântanos recessivos, a vilania de Galba quase sempre dá errado, mas é possível se se divertir muito com o malvado. Quem curte mocinhos e mocinhas, Hispania os oferece de sobra do lado hispano.

Novelão, sinta-se alertado quem não gosta!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

CAIXA DE MÚSICA 134

5 anos de ausência no mundo pop pode custar caro a um artista, que corre sério risco de ser soterrado pelas areias do tempo, sempre em movimento de tempestade nesse ambiente onde a descartabilidade e a novidade imperam.
La Roux demorou essa eternidade pra lançar Trouble in Paradise. Elogiei sem reservas o revivalismo anos 80 do duo britânico, em resenha que pode ser conferida aqui. O referencial oitentista permanece na sonoridade, capa do álbum e no cabelão. A diferença é que agora La Roux é apenas Elly Jackson.
O synth pop continua dando as cartas, como atesta a viciante Uptight Downtown, que abre o álbum. Kiss and Not Tell e Sexotheque dão vontade de fazer coreografia com as mãos e sair saltitando; delícias cheias de barulhinhos e bugigangas oitentistas.
Silent Partner- aparentada a Shock the Monkey, de Peter Gabriel – tem mais de 7 minutos e não pode ser coincidência que duração e diversos cacoetes sejam os dos tão populares extended mixes de minha década favorita.
Em Let Me Down Gently o ritmo diminui dando lugar a uma melodia mid tempo acarpetada com sintetizadores, culminando numa explosão saxofônica, instrumento de sopro símbolo dos 80’s.
O único deslize é Paradise is You, balada sintetizada bem sem graça. Se alguém me dissesse que sou o paraíso homenageando-me com essa canção, ficaria desapontado achando ser ironia.
Evocando Prince, Bananarama (argh!) e um caleidoscópio liquidificado e atualizado de lugares-comuns dos anos 80, Trouble in Paradise está longe de ser um problema; é solução.

domingo, 27 de julho de 2014

ALBINOS CATARINENSES

O jornal catarinense Notícias do Dia publicou extensa reportagem com albinos do estado, discutindo seus problemas e realizações. Não pude copiar o texto, que pode ser acessado no link:

http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/186037-albinos-precisam-driblar-os-problemas-de-saude-e-o-preconceito.html

A SUPERAÇÃO DE REGINA

Em terra de quem quer viver, ser cego não é obstáculo

 A professora Regina Célia Ribeiro, de 46 anos, é uma assídua frequentadora da biblioteca Louis Braille, localizada no Centro Cultural São Paulo. Aos cinco anos de idade perdeu a visão decorrente do glaucoma, mas nunca desistiu de estudar e aproveitar a vida ao máximo.

Regina é formada em psicologia, pós-graduada em psicanálise e está cursando outra pós-graduação em filosofia. Conseguiu concluir todos estes cursos com ajuda dos materiais da biblioteca, tais como os livros em braille, leitura de voluntários e recentemente, o scanner que reproduz em áudio o texto escrito. “Aqui na biblioteca tenho a maior autonomia, faço tudo sozinha. Trago minhas revistas e fico aqui escutando quase o dia inteiro.”, falou Regina.
Alfabetizada em escola regular, Regina sempre foi a única da turma com deficiência visual, e por esse motivo, sempre precisou batalhar para ter acesso aos textos e conteúdos ministrados nas aulas. “Existem diversos recursos para tornar acessíveis os livros e textos, basta a pessoa querer aprender”, disse sorridente.
Apesar de ser cega, Regina tem uma vida muito ativa e não se incomoda em possuir esta deficiência. Adora sair para shows de música, barzinhos e até em ensaios de escola de samba. “Minha rotina é agitada, tenho a agenda mais ativa que diversos amigos que não possuem deficiência. Claro que tenho minhas adaptações, mas a deficiência não me atrapalha em nada, pelo contrario, me dá outras oportunidades”, fala com alegria.
Regina trabalha como professora readaptada em uma escola pública estadual há 22 anos. Adora seu trabalho, mas seu sonho é montar um consultório de psicologia. “Quero atuar na minha área de formação, sou apaixonada por psicologia. Quero ajudar pessoas com deficiência como eu, já que sempre superei e briguei para ter autonomia”, completa.

sábado, 26 de julho de 2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

PAPIRO VIRTUAL 76

Formada em letras conta em livro sua história de prostituição; leia trechos

'O prazer é todo nosso', de Lola Benvenutti, sai no dia 11 de agosto.
Prévia exclusiva ao G1 fala de 'cura gay' e casal de meia idade em crise.


Literatura e sexo foram as atividades principais de Gabriela Natalia Silva, 22 anos, durante a graduação em letras. Ela se dividia entre o curso na Universidade Federal de São Carlos (SP), e a atividade de garota de programa. Ao se formar, começou a escrever na web sobre a experiência de prostituição, com o pseudônimo Lola Benvenutti. É assim que a garota de programa assina o livro em que volta a unir as duas atividades. "O prazer é todo nosso" (Editora MosArte) sai no dia 11 de agosto.
Em entrevista ao G1, Lola defendeu a escolha pela prostituição. "Tem uma categoria nos sites de acompanhantes de universitárias e fazem isso porque fazem faculdade particular e precisam pagar, mas eu nunca precisei disso, sou inteligente, fiz faculdade, optei por isso, qual o problema?". Ela rejeitou comparação com Bruna Surfistinha, que narrou a experiência em blog e livro. “Ela teve uma vida diferente da minha, com outras oportunidades."
No novo livro, a jovem nascida em Pirassununga (SP) conta sobre "momentos marcantes de sua vida como garota de programa, incluindo suas experiências com a alta sociedade", ela diz ao G1. A pré-venda começa no dia 30 de julho, no site da editora.
Leia abaixo trechos exclusivos de "O prazer é todo nosso":
'O prazer é todo nosso', livro de Lola Benvenutti (Foto: Divulgação)'O prazer é todo nosso', livro de Lola Benvenutti
(Foto: Divulgação)
'Nossa essência não tem 'cura''
"Em função de minha profissão, dia a dia sou colocada diante de questões que me fazem pensar cada vez mais sobre as barreiras fortíssimas de nossa sociedade em relação à sexualidade e, sobretudo, em relação à liberdade sexual dos indivíduos.
Embora eu não seja formada em psicologia, o fato é que muitas pessoas me procuram crendo que eu posso ajudá-las. Um desses casos aconteceu com Juno. Ele me ligou tímido, a voz triste quase não saía e eu mal podia escutar o que ele me dizia. Explicou-me que era gay, como se isso devesse ser justificado de alguma maneira, e logo demonstrou que não se conformava com isso. Em linhas gerais, ele queria sair comigo para ver se gostava de mulheres, queria sair com uma puta para tentar provar que era “macho”.

Sua súplica fez com que eu me compadecesse e cedi ao seu pedido. Foi um dos atendimentos em que fiquei mais tensa, pois eu queria realmente ajudá-lo, mas não acredito que se possa exorcizar o lado gay de uma pessoa, justamente porque esse dado não é uma doença, embora “psicólogos” sem ética vendam “curas” por aí, principalmente nas portas das igrejas

O que eu queria era que Juno percebesse que viveria em conflito até que conseguisse enfrentar seus medos, seus anseios e seus desejos. [...] Conversamos muito e percebi que se ele não entendesse e aceitasse sua orientação sexual, em um esforço de se enganar, ele seria muito infeliz.
Como não podia deixar de ser, embora haja exceções, Juno vinha de uma família ultraconservadora: o pai era um médico tradicional e a mãe uma dona de casa voltada exclusivamente às vontades do marido. O pai exaltou seu primeiro filho homem e determinou que o criariam para que fosse um macho capaz de “comer” uma menina por dia. Para isso não faltavam rituais: o doutor o levava a puteiros constantemente e, quando Juno finalmente ia para o quarto com uma garota, ficava tão inquieto e sem jeito que as garotas, entendendo sua situação, simplesmente se deixavam ficar no quarto, apenas esperando a hora combinada terminar.
O jeito como ele falava sobre as garotas evidenciava certa aversão em relação ao ambiente e ao próprio corpo feminino. Era um bloqueio e eu percebi isso quando tentei me insinuar algumas vezes. Juno fingia não me ver diante dele. Seu olhar fugia de mim, direcionando-se para o teto, os móveis, o quadro na parede... [...] Cada vez que ele se dava conta de que estava “fugindo” de mim, seus olhos começavam a lacrimejar [...] Então bolei uma estratégia [...]"

Gabriela Natália da Silva, ou Lola Benvenutti, se formou no curso de letras em São Carlos, SP (Foto: Felipe Turioni/G1)Lola Benvenutti se formou no curso de letras em São
Carlos, SP (Foto: Felipe Turioni/G1)
'A reinvenção dos prazeres'
"O número de homens de meia idade, e casados, que vêm até mim com a queixa de que suas mulheres não os desejam mais, ou que eles não as desejam mais, é realmente elevado. Mas nem todos estão dispostos a ouvir o que tenho a dizer: que devem conversar com suas parceiras, que um casamento pode ser renovado apesar do tempo e que contratar uma prostituta para “amenizar” uma frustração – embora me renda lucros – não vai resolver o problema conjugal que eles têm. Assim como os corpos mudam com o tempo, também os desejos seguem esse movimento de transformação e precisam ser redescobertos a todo o momento.
Nossos desejos são subjetivos e dizem respeito a cada um [...] Em uma relação conjugal, se o casal for realmente sincero entre si, os parceiros conhecerão as necessidades e os desejos sexuais um do outro na medida em que se relacionam sexualmente. Tenho prazer em descobrir nos corpos com que me deito o que lhes dá prazer e o que neles me dá tesão. Sexo é, portanto, sempre um ato de constante aprendizado já que os corpos se transformam diariamente, natural ou artificialmente, havendo sempre algo por se desvendar e experimentar.
Numa manhã de sexta-feira, recebi a ligação de Lúcia.
— Você é a Lola que é... – Tentava perguntar com uma insegurança que lhe fazia tremer a voz.
— Garota de Programa? Puta? Sou eu sim.
— ...
— Posso ajudar?
— É que... Acho que meu marido não sente mais tesão por mim. E eu até entendo, porque já não tenho mais 20 anos, não tenho mais um corpo lindo e jovem como o seu... Mas estamos casados há um bom tempo e... Desculpa por te falar essas coisas!
— O que é isso, querida. Fale mais, vai que posso ajudar vocês.
— Eu já tentei de tudo, Lola. Até o que eu não gosto, que é aquilo por trás, já deixei meu marido fazer, mas acho que ele quer se separar porque não tem mais desejo por mim. Mas a gente se ama, sabe? Ou se acostumou a se amar assim.
— O que acha de combinarmos um dia para conversarmos pessoalmente. Se você está me ligando é porque acho que deseja fazer alguma surpresa para ele...
— Você pode almoçar comigo hoje?
E lá fui eu, Lola, almoçar com essa mulher misteriosa. Conversamos muito e a estranheza que ela sentia diante de algumas coisas que eu falava era nítida, afinal, sexshops, sextoys, ménage à trois, etc. não eram expressões comuns para ela. O legal é que a curiosidade persistia e ela concordou em experimentar coisas novas com seu parceiro. No início, ela queria me “dar de presente” para seu marido, mas depois de horas de conversas resolveu que eu seria a encarregada de presentear os dois com uma noite inesquecível e renovadora.
Na noite esperada, o casal chegou ao quarto do motel. Ele mostrava-se sisudo e muito desconfiado de tudo e a Lúcia estava em nervos. Chamei-os para perto da cama, servi-lhes vinho, petisco com queijos e torradinhas temperadas, e me dediquei a conhecê-los melhor.
Alguns casais que atendo são verdadeiramente safados, não há descrição melhor. Alguns acabam comigo em poucas horas e se divertem horrores, já outros ficam assim, tímidos, receosos com a forma como seu parceiro reagirá caso toque o meu corpo.
Depois de algumas taças de vinho comecei a puxar assunto sobre sexo e aí a coisa foi ficando interessante [...]"

quinta-feira, 24 de julho de 2014

NÃO PASSANDO EM BRANCO!

Série de fotografias sobre albinos brasileiros vira livro

Trabalho do fotógrafo Gustavo Lacerda teve início em 2009.
Ensaio 'Albinos' recebeu os principais prêmios de foto do país.


O trabalho "Albinos" do fotógrafo Gustavo Lacerda, vencedor de prêmios como Conrado Wessel, em 2011, e parte do acervo do MASP ganha agora o formato de livro. O lançamento acontece dia 31 de julho, com uma projeção de imagens e a presença de protagonistas, no Madalena CEI, em São Paulo

Apesar de manter seu trabalho comercial, Gustavo sempre foi fascinado por fotografar quem não costuma ser "o escolhido para a foto". Há tempos, ele viu um albino no Parque do Ibirapuera e ficou observando os traços físicos, a delicadeza e a timidez do rapaz; era como se fosse alguém invisível ali. “A ideia de iniciar o trabalho só veio em 2009, quando percebi que além da riqueza estética havia questões importantes, como a invisibilidade social, a fotofobia, sendo que a fotografia é essencialmente luz. Fui me envolvendo e o projeto foi crescendo, não imaginava aprofundar tanto”, conta Gustavo.

Foram fotografados cerca de 50 albinos durante cinco anos. No livro, são 35 imagens. As fotografias foram feitas no estúdio do artista, em São Paulo, e também no Rio de Janeiro e no Maranhão, em lugarejos próximos à ilha de Lençóis, conhecida pela alta concentração de albinos.

Sobre as fotografias feitas fora do contexto onde vivem estas pessoas Gustavo revela, “no início cheguei a experimentar esse caminho, mas logo percebi que, ao convidá-los para um ambiente formal de estúdio, eu mexia diretamente com a autoestima, já que estava lidando com pessoas que normalmente não vivem a posição de protagonistas”, daí a opção por intervir nos figurinos, nos cabelos, na maquiagem e nos fundos de tecido cenográfico. “Além de me oferecer mais controle estético, a produção tornava o momento especial para eles. Acredito que venham daí os sentimentos tão presentes nesses retratos: misto de orgulho e vaidade, desconforto e incômodo”.

Em uma das páginas do livro, o leitor pode manusear uma carta, escrita pela mãe de duas irmãs gêmeas albinas. “Ela conheceu meu trabalho pela internet, enquanto pesquisava informações sobre albinismo, pois não havia casos em sua família. Mandou um email para mim, agradecendo, porque viu um lado poético nas imagens. As meninas eram muito pequenas ainda e ela não estava segura se seria uma escolha delas serem fotografadas. Mas quando tinham quase dois anos, fui ao Rio pela primeira vez clicá-las. Mantivemos contato. Em uma exposição em Tiradentes, tive a ideia de incluir uma carta desta mãe contando sobre a experiência ao perceber que as filhas eram albinas."
Livro "Albinos"
Fotografias e textos: Gustavo Lacerda
Editora Madalena, Editora Terceiro Nome
Preço: R$ 90
Thifany, fotografia do livro Albinos (Foto: Gustavo Lacerda/Divulgação)Thifany, fotografia do livro Albinos (Foto: Gustavo Lacerda/Divulgação)
Fotografia das gêmeas Helena e Mariana (Foto: Gustavo Lacerda/Divulgação)Fotografia das gêmeas Helena e Mariana (Foto: Gustavo Lacerda/Divulgação)http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2014/07/serie-de-fotografias-sobre-albinos-brasileiros-vira-livro.html

TELONA QUENTE 95

Jeitinho Romeno

A Romênia vive sua Nova Onda cinematográfica. Em 2007, por exemplo, Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro por seu realista e deprimente 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, sobre uma garota que tenta um aborto na era Ceuasescu. Resenhei o filme de estreia do diretor, Occident (2002), texto que você pode ler aqui.
Ano passado, o Urso de Prata do Festival de Berlim foi pra Poziția Copilului (Institnto Materno, em nossos cinemas),  drama dirigido por Călin Peter Netzer. A trama se passa na atualidade e apresenta um setor da classe-média que age de modo muito semelhante ao dum país latino-americano famoso pelo decantado “jeitinho”.
Cornelia é cenógrafa e loira oxigenada, mãe superprotetora de Dinu. Quando o filho se envolve em um atropelamento fatal, que vitima um adolescente pobre, ela ativa sua rede de contatos pra fazer de tudo pra livrar o trintão das consequências.
O tema do sufocamento materno salta aos olhos, porque o roteiro insiste – um tanto exageradamente – na vontade ditatorial de Cornelia, que apenas conseguiu criar um filho tão insensível ao outro, inclusive à própria mãe, como ela. A atriz Luminita Gheorghiu dá um banho de interpretação, seja transmitindo a antipática soberba de quem se acha no direito de levar vantagem em tudo, seja desabando em frente ao pai do garoto atropelado. Mas, sem a condução emocional de trilha sonora incidental e com atuações sóbrias, Poziția Copilului transmite todo o calculismo frio das relações humanas reificadas.
A dimensão social penetra no relacionamento paternalista com a empregada, a qual Cornelia presenteia com um sapato usado e chama pra tomar café juntas apenas pra poder reclamar do filho ou na relação com os policiais, que não demoram a querer tirar casquinha das possíveis conexões sociais de Cornelia. Enfim, Poziția Copilului trata de níveis de corrupção que permeiam desde o relacionamento familiar até as instituições.

terça-feira, 22 de julho de 2014

INCENTIVO MATERNO

Mãe incentiva filho cego a caminhar, filma e vídeo repercute na internet

Objetivo era achar pessoas nas redes sociais com o mesmo diagnóstico. 'Crio como se enxergasse', diz mãe em Juiz de Fora.

Roberta Oliveira


Muito surpresa e feliz. É assim se sente a dona de casa Josiane Almeida Santos Dias, de 31 anos, depois da repercussão de um vídeo que postou na internet mostrando o filho de 3 anos que é cego. Ela conta que, em abril, publicou na rede social um vídeo de Miguel indo buscar uma vasilha na casa da avó. O objetivo da postagem era achar outra mãe de criança cega para trocar experiências. No entanto, o caminho do menino cego pelo terreno desnivelado do quintal, chamou a atenção dos internautas e já supera os 52 mil compartilhamentos.


No vídeo de quase sete minutos, a criança fala que vai até a casa da avó buscar uma panela. A mãe incentiva o garoto a caminhar sozinho, mesmo sem enxergar, por um terreno cheio de obstáculos. Ela filma todo o percurso sem a criança saber que a mãe está por perto. Ele consegue subir escadas, pega a panela e volta para a casa. “Publiquei o vídeo para achar uma mãe com história parecida e achei várias outras pessoas. Algumas me disseram que já assistiram ao vídeo e não conseguiram tirar o Miguel da cabeça”, destacou.

A todos que entraram em contato, Josiane conta o que está funcionando na criação do filho. “Eu fico feliz porque quando estava desorientada, Deus me mostrou o que fazer e me 'disse': cria ele como se enxergasse. Você vai ter que levar ele, para que aprenda a ver com as mãos. É isso que eu digo a quem me pergunta”, afirmou Josiane.

Diante da repercussão, nesta semana, Josiane, o marido Paulo Fernando e Miguel participaram do programa Encontro, da apresentadora Fátima Bernardes, na TV Globo.

Doença
A cegueira de Miguel foi descoberta após o “teste do olhinho” , feito dias depois do nascimento dele, em fevereiro de 2011. “Ele nasceu com glaucoma, catarata e descolamento da retina. Fez vários exames, ressonância, tomografia, ultrassom, para poder ver se tinha como fazer alguma coisa. Eu fiz consultas até chegar à conclusão de que não tinha jeito. Com um ano a gente parou de levar ele em médico”, contou Josiane.

Saber da deficiência do filho foi um susto. “Fiquei pensando como vou criá-lo, mãe de primeira viagem, não tinha quem me ensinasse como fazer. Eu gosto de ver coisas bonitas, céu azul, folhas verdes, céu todo cheio de estrelas. Quando recebi a notícia que ele não enxergava, fiquei chocada e pensei ‘meu filho vai viver na escuridão’”, disse. No entanto, a resposta ao susto veio através da fé. “Deus dá força. Se tirasse a presença Dele na minha vida, eu desistiria, entraria em depressão. Eu acredito que Ele me dá força para ajudar a cumprir o plano Dele na vida do Miguel”, afirmou.

O vídeo mostra algo rotineiro na vida de Miguel: brincar no quintal e ir à casa da avó paterna, no terreno onde mora a família, no Bairro Jardim Cachoeira, na região Norte de Juiz de Fora. “Ele vai lá desde os dois anos. No começo eu sempre ia atrás, quietinha, porque queria ver como ele se saía sozinho. Agora, confio, ele quer brincar, quer correr, fica lá fora”, contou Josiane.

Nesta jornada de aprendizado de mãe e filho, Josiane descobriu o incentivo que motivou a cena registrada em vídeo. “O que eu aprendi é que o deficiente visual gosta de se sentir útil. Eu vi que ele estava tristinho e pedi para ele buscar a vasilha na avó. Tanto que no início ele nem queria ir, mas, com o pedido, animou e foi”, contou.

O vídeo realizou o desejo de Josiane, de encontrar outras famílias na mesma situação. E agora, através das redes sociais, ela compartilha a experiência com mães de crianças cegas de diferentes idades. “A mãe de um menino de um ano que também não enxerga e começou a andar me contou que está com medo de ele cair. E eu disse a ela que o mesmo tombo que uma criança que enxerga leva, o nosso vai levar. O Miguel cai, levanta, nem chora mais. Para ele é normal”, comentou Josiane.

Como toda criança pequena, por enquanto, na rua Miguel só vai com os pais. Josiane conta que não se descuida do filho quando saem. No entanto, a repercussão do vídeo trouxe um presente que vai ampliar o mundo de Miguel. “Um amigo das redes sociais mandou uma bengala de presente para ele. Eu fiquei muito feliz porque é a primeira bengala dele e, com ela, Miguel vai poder andar sozinho do meu lado”, comemorou a mãe. Josiane pretende procurar a Associação dos Cegos para ter umas dicas de como orientar o filho nesta etapa. “Ele é muito brincalhão, acho que ele vai ter que ficar um pouquinho mais sério para usar a bengala. No entanto, eu acho isso muito legal e ele vai conseguir”, disse, confiante.

E as novidades vão continuar com a realização de um desejo de Miguel. “Ele é doido para ir para a escola. Eu cuido de uma menininha de 5 ano e desde que ela começou a estudar ele quer ir também, para aprender a escrever, quer mochila nas costas e lanche”, afirmou. Josiane já se informou e a rede pública só aceita crianças a partir dos quatro anos. Então, vai inscrever o filho na rede pública de ensino no ano que vem.

As redes sociais também vão mudar a rotina da família em breve. Por causa do vídeo, amigos virtuais e reais se ofereceram para contribuir para melhorar o quintal da família. “Desde que o Miguel nasceu, eu parei de trabalhar fora, cuido dele e da casa. Por isso, com apenas o salário do meu marido, não tem como a gente fazer melhorias”, comentou. A campanha Ajude o Miguel já arrecadou, segundo informação publicada na rede social da mãe, R$ 2.853,12. “Com estes recursos, na próxima semana, os pedreiros vão começar os trabalhos para melhorar o quintal para ele”, disse Josiane.
http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2014/07/mae-incentiva-filho-cego-caminhar-filma-e-video-repercute-na-internet.html

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ZOOFILIA EUROPEIA

crocodilo-albino

Crocodilo albino num zoológico da República Tcheca.

domingo, 20 de julho de 2014

A SUPERAÇÃO DE ALEX GARCIA

Alex Garcia é o 1º surdocego a cursar uma universidade no Brasil

Harlen Félix
O gaúcho Alex Garcia, 38 anos, é hoje uma das principais vozes na luta pelos direitos da pessoa com deficiência no Brasil. Portador de uma doença rara, popularmente conhecida como “ossos de cristal”, ele convive desde a infância com a perda gradativa da audição e da visão, o que lhe exigiu meios e tecnologias específicas para poder se comunicar com outras pessoas. Os ouvidos de Garcia são as palmas de suas mãos. “As pessoas escrevem com letras de forma na palma da minha mão, uma letra sobre a outra, dando uma pausa para a separação de palavras”, explica.
Além disso, ele conta com notebook com um potente ampliador de palavras, pois ainda consegue ver as letras quando elas estão bem grandes e com bastante contraste. E foi por meio desta tecnologia que ele concedeu esta entrevista para o Diário da Região. Primeiro surdocego a cursar uma universidade no Brasil, Garcia não poupa críticas quando avalia a inclusão do surdocego e de outras pessoas com deficiência na educação brasileira. “Já estive em mais de 30 países e ficou óbvio que o Brasil está mais de 150 anos atrasado no quesito educação. Este quesito poderia ser de alto nível, mas falta vontade de fazer acontecer”, dispara. À frente da Associação Gaúcha de Pais e Amigos dos Surdocegos e Multideficientes (Agapasm), ele viaja todo o Brasil informando e orientando pais, educadores e outros profissionais sobre a realidade da surdocegueira.
Em maio, ele esteve em Rio Preto, quando realizou palestra para universitários da Faculdade de Medicina e Enfermagem (Famerp) e participou da Conferência Municipal de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência. Indagado sobre os principais obstáculos enfrentados pelas pessoas surdocegas no Brasil e no mundo, Garcia aponta o distanciamento e a falta de paciência das outras pessoas. “Por mais que tenhamos habilidades, nenhum ser humano é perfeito a ponto de não precisar de algum apoio”, enfatiza o gaúcho de Santa Rosa (RS). “Na sociedade de hoje, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras. A distância tem efeitos negativos para qualquer pessoa com deficiência, mas, para a pessoa surdocega, ela é bombástica.”

Diário da Região - Alex, você nasceu surdocego? Qual é sua doença e como ela afeta o organismo?
Alex Garcia - Nasci com as deficiências de audição e de visão, mas elas não eram tão severas como hoje. Nasci com uma doença rara, chamada osteogeneses imperfecta, também conhecida como “ossos de cristal”. Esta doença caracteriza-se basicamente por anormalidades do colágeno, podendo afetar muitos tecidos de nosso corpo. No meu caso, a doença afetou fortemente a audição, a visão, os tendões, os músculos, as articulações e a pele. Meus ossos foram afetados de forma mais moderada. Também tenho hidrocefalia.
Diário - Quais obstáculos você teve de enfrentar por conta de sua surdocegueira?
Garcia - Os maiores obstáculos foram, e ainda são, a impaciência e a distância das outras pessoas. Pense no mundo que nos cerca. Por certo, observará que tudo a nossa volta se conecta aos sentidos da visão e da audição. Assim, a falta destes sentidos representa enormes dificuldades para o desenvolvimento. Nós, pessoas surdocegas, temos meios e formas para nos comunicar.
A comunicação é imprescindível, mas todas as formas de comunicação para uma pessoa surdocega somente podem ser desenvolvidas por meio do contato, da proximidade com outras pessoas. Por outro lado, na sociedade de hoje, as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras. A distância tem efeitos negativos para qualquer pessoa com deficiência, mas, para a pessoa surdocega, ela é bombástica, pois ela não possui, parcialmente ou totalmente, os sentidos da visão e da audição.
Diário - E a impaciência?
Garcia - Todos os meios de comunicação usados por pessoas surdocegas possuem uma característica particular, além do contato e da proximidade: a lentidão. Cada meio é um meio e cada surdocego é um surdocego, ou seja, temos modelos que se diferem no quesito lentidão e rapidez, mas nenhum deles alcança a rapidez da fala, por exemplo. Desta forma, a impaciência do ser humano surge avassaladora e, consequentemente, não se aproximar ou se afastar rapidamente é a tônica do processo. Pode parecer impressão minha, mas a cada dia as pessoas estão mais impacientes. E isso é um tsunami para uma pessoa surdocega.
Diário - Quais os meios que você encontrou para superar estes obstáculos?
Garcia - Criei os meus “passos” para o desenvolvimento, que busco exercitar e transmitir para as outras pessoas. Conhecer a si mesmo. Aqui temos o primeiro passo. Conhecer a si mesmo, as nossas necessidades e habilidades, leva certo tempo, portanto, não cabe no tempo de uma novela. O segundo passo é controlar as emoções. Para controlar as emoções, devemos nos conhecer. Exatamente. Somente é possível dar um novo passo com segurança se o anterior estiver sólido. Planejar as ações é o terceiro passo. Para planejar ações, devemos nos conhecer e controlar as emoções.
Fato! O planejamento é a mola mestra do desenvolvimento, mas um mau planejamento pode colocar tudo a perder em pouco tempo. Orientar o meio. Aqui temos o quarto passo. Conhecendo a si mesmo, controla-se as emoções. Emoção sob controle, planeja-se ações e, então, por fim, orientar o meio torna-se possível. Orientar o meio é o ápice, pois vivemos em sociedade e, por mais que tenhamos habilidades, nenhum ser humano é perfeito a ponto de não precisar de algum apoio.
Diário - Como foi a convivência com uma criança e um adolescente surdocego para sua família? Faltava informação a seus pais? Como eles foram buscar essas informações?
Garcia - Sempre moramos no interior do Rio Grande do Sul, em uma cidade de apenas 33 mil habitantes. Meus pais, quando nasci, eram dois adolescentes (o pai com 19, e a mãe, 17 anos) com um bebê com deficiência nos braços. Minha mãe era dona de casa, e meu pai, caminhoneiro. Nada de saberes sobre a questão. Há 38 anos, pouco ou quase nada existia para o meu caso.
Mas o amor move montanhas. Eles buscaram ajuda em Porto Alegre e outras cidades maiores. A peregrinação foi constante durante muitos anos, mas nunca eles me abandonaram. Meus pais venderam tudo que tinham. Reconquistaram e venderam novamente. Tudo para custear minha atenção e recuperação constantes. A frase de minha mãe, dita para meu pai, é célebre: “O Alex é nosso e nós vamos cuidar dele.”
Diário - Como você se comunica no cotidiano?
Garcia - Sobre a comunicação do surdocego, é sempre bom recordar que existem dois grupos de surdocegos: os pré-simbólicos, aqueles que adquiriram as deficiências audiovisuais antes da estruturação da linguagem, da comunicação e de uma língua; e os pós-simbólicos, que são aqueles que adquiriram as deficiências audiovisuais depois da estruturação da linguagem, da comunicação e de uma língua. A surdez que vai delinear o modelo de comunicação.
Se a pessoa surdocega nasceu surda e depois perde a visão, é provável que sua comunicação terá como base sua língua materna, ou seja, a de sinais. A língua de sinais, nestes casos, será adaptada para a inexistência ou déficit visual do surdocego, adaptando-a para ser recebida por este pelo movimento ou pela proximidade. Já para aqueles que não nasceram surdos, como é o meu caso, a comunicação, provavelmente, terá como base o português. Assim sendo, tenho um modelo de comunicação e faço uso de uma tecnologia.
O modelo de comunicação seria a escrita na palma da mão. As pessoas escrevem com letras de forma na palma da minha mão, uma letra sobre a outra, dando uma pausa para a separação de palavras. Como tecnologia, faço uso de um notebook com um potente ampliador de caracteres. Ainda posso ver as letras quando estão bem grandes e com bastante contraste. Conhecer as formas de comunicação da pessoa surdocega é de fundamental importância para sua inclusão.
Diário - Você foi o primeiro surdocego a frequentar uma universidade no Brasil. Como fazia para aprender o conhecimento? Como era a relação com professores e companheiros de sala de aula?
Garcia - Com os colegas, foi excelente, mas, ao chegar na universidade, em 1997, percebi que teria inúmeros problemas com alguns docentes. Falta de acessibilidadade e de vontade para mudar este quadro, além da gritante disparidade de saberes práticos entre minha pessoa e o ambiente. Muitos docentes sentiram-se desconfortáveis em ter em sala de aula uma pessoa com enorme bagagem, mas com uma deficiência que quebra com a normalidade do ambiente universitário.
Já estou convencido de que a educação brasileira é péssima como um todo; e, para surdocegos, não há o que falar. Já estive em mais de 30 países e ficou óbvio que o Brasil está mais de 150 anos atrasado no quesito educação. Este quesito poderia ser de alto nível, mas falta vontade de fazer acontecer. Se a educação brasileira atingisse o surdocego, nós teríamos mais casos de sucesso, mas isso não acontece.
Eu consegui me desenvolver porque tive apoio familiar e aprendi a lutar pelos meus direitos, mas a maioria dos surdocegos não tem essas oportunidades. Nós, surdocegos, somos muito invisíveis, este é o nosso principal problema. Invisíveis até mesmo para as políticas sociais e de educação. A educação brasileira vive abortando o desenvolvimento pleno das pessoas surdocegas.
Diário - Há números sobre a população de surdocegos no Brasil? Como você avalia a inserção dessas pessoas em segmentos sociais como a escola e o mercado de trabalho?
Garcia - Não há números confiáveis, porque ainda não foi feita nenhuma pesquisa nacional. No Brasil, estimo cerca de 1,5 milhão de pessoas surdocegas. Segundo pesquisas, cerca de 8% da população com Síndrome de Down tem surdocegueira. Nos Estados Unidos, é a principal causa dos cerca de 50 mil casos de surdocegueira do País. No Brasil, estima-se que venha ao mundo uma criança com Síndrome de Down a cada 600 mil nascimentos, segundo o Ministério da Saúde.
Esta média é muito superior a de outros países, onde o percentual de aborto de crianças com esta síndrome chega a 90%. Tomando a estimativa do Ministério da Saúde como base, nascem mais de 23 mil surdocegos no Brasil todos os anos, oriundos apenas da Síndrome de Down, e pelo menos mais 30 mil são afetados pela surdocegueira de outras origens. Podemos contar nos dedos os surdocegos que estão no mercado de trabalho. Uma vez, nos Estados Unidos, alguém me disse que as pessoas têm medo dos surdocegos.
Não creio que tenham medo dos surdocegos, mas acredito, sim, que o medo está em não conseguir se comunicar com um surdocego. As empresas e os empregadores se questionam a todo momento sobre a comunicação desse público. Acho que o surdocego irá fazer parte do mercado de trabalho quando a sociedade acreditar que pode, sim, haver comunicação sem escutar e enxergar. Esse é mais um paradigma a ser rompido, mas rompe-lo é bastante complicado justamente pela invisibilidade do surdocego.
Para mostrar à sociedade que nós podemos nos comunicar, antes de tudo precisamos de apoio para sermos visíveis. Outro aspecto importante é entender a palavra empregabilidade. Toda palavra que termina em “bilidade” remete a meios, ou seja, são os meios entre as pessoas surdocegas e o emprego em si. Os meios são educação de qualidade, saúde de qualidade, transporte acessível, etc. Ou seja, os problemas brasileiros. Toda essa questão centra-se na negligência governamental de insistir em não enxergar os surdocegos.
Em 2013, fui o proponente da primeira audiência pública para tratar da inclusão social da pessoa com surdocegueira na Câmara dos Deputados. E o que observei? Os representantes da Secretaria dos Direitos Humanos e do MEC fogem do tema. Reflexionam tudo sobre pessoas com deficiência, menos sobre o tema específico: pesssoa surdocega. O MEC vem afirmando que estão cursando a universidade 148 pessoas com surdocegueira. Ora, números e mais números, porém, nada se atesta das condições de ensino-aprendizagem destas pessoas.
Na audiência que acabo de destacar, depois de eu mesmo levantar a questão o MEC firmou compromisso de organizar GT (Grupo de Trabalho) para a surdocegueira, mas até agora nada. Assim, desenvolvi uma petição para pressionar. A petição pode ser acessada na página principal do site da Agapasm (www.agapasm.com.br). Por favor, assinem e compartilhem.
Diário - Quais são as principais questões apontadas por pais e familiares de surdocegos com relação à convivência social? Quais aspectos você busca trabalhar em seu projeto de orientação?
Garcia - Busco trabalhar todos os aspectos da vida em minhas orientações. Não apenas com familiares, mas com todos. A pessoa surdocega é distinta uma da outra, mas a invisibilidade é similar. Para os educadores, busco desenvolver cursos de formação, ou seja, eles devem aprender aspectos metodológicos para atuarem educacionalmente com pessoas surdocegas. Para a família, minha colaboração é vasta. Vão desde conhecimentos sobre como é o surdocego até as questões sociais.
Muitas famílias não conseguem alimentar como deveriam o filho surdocego. Quase sempre os surdocegos que nascem assim fazem uso de forte medicação, em geral para controlar estados de autoagressão; e deveriam receber alimentação balanceada, mas tudo se complica para uma família sem recursos financeiros. Para estes casos mais graves, a proposta correta seria receber pensão especial do governo para manter suas necessidades com mais qualidade.
Diário - Na sua avaliação, enquanto pessoa com deficiência e usuário de serviços públicos, o País precisa evoluir em quais aspectos para atender as pessoas com deficiência com dignidade e qualidade?
Garcia - Em nosso país, devemos evoluir a ponto de romper com a histórica hierarquização do ser humano, ou seja, alguns seres humanos valem mais do que os outros. A hierarquização, para quem não sabe, tem essência eugênica, de eugenia, e foi esta mesma eugenia que fundamentou o holocausto. Será que um dia essa hierarquização do ser humano no Brasil terá fim? Será que um dia o “modelo médico” que fundamentou a cultura do corpo normalizado (onde apenas tem valor aqueles que podem ser consertados) terá fim? Será que o modelo social onde todos possuem valor a ponto de não precisarem ser consertados será uma realidade no Brasil?
Diário - Gostaria que falasse como nasceu a Agapasm, que você fundou, e do Instituto Baresi, do qual você é responsável pelo núcleo regional no Rio Grande do Sul?
Garcia - A Agapasm, em um passado não muito distante, se chamava e era conhecida como o “Contexto Surdocego e Multideficiente do Rio Grande do Sul”, trabalho este pioneiro que organizei e desenvolvi. Conhecei a dura realidade que afetava os surdocegos e multideficientes de nosso Estado. Questionamentos nasceram em minha mente e desejos de igualdade e desenvolvimento pleno a todos os surdocegos e multideficientes começaram a mover minha razão e emoção.
Sendo um líder na área da surdocegueira no mundo, e compartilhando experiências e valores com outros líderes mundiais, comecei fazer avançar rapidamente o “Contexto Surdocego e Multideficiente”. Esses avanços se refletiram na modificação da qualidade de vida deles. Assim, me tornei o pai de uma das mais significativas políticas públicas para surdocegos na história do Rio Grande do Sul e, porque não dizer, do Brasil e do mundo.
Demonstrei ser possível mudar a realidade e o destino deles. Com tantos avanços, eu e o “Contexto Surdocego e Multideficiente” começamos a sofrer pressões por parte de pessoas ligadas a governos. O Contexto começou a sofrer interferências partidárias e a ser usado como ferramenta política, perdendo sua identidade. Tentei de todas as formas defender o Contexto, lutando até a exaustão da saúde física. Vencido, observei com grande dor tudo se perder.
Observei os surdocegos e multideficientes permanecerem estáticos, porém, tive o desejo de justiça fortalecido. Irmanado com as famílias dos surdocegos e multideficientes, com amigos e colaboradores, deu-se a fundação da Agapasm. Ela nasce do desejo de justiça ao nosso povo. Já o Instituto Baresi é um fórum nacional para associações de pessoas com doenças raras, deficiências e outros grupos de minoria, buscando melhorar a qualidade de vida e a inclusão social.
Nossa missão é melhorar a qualidade de vida de pessoas com doenças raras e facilitar o acesso a informações a respeito deste tema. O nome do Instituto Baresi é uma homenagem ao padre italiano Giampietro Baresi, missionário comboniano, por seu importante trabalho dedicado à cidadania e a justiça social.
Diário - Você é casado? Tem ou já teve namorada? Como é a vida afetiva e sexual de uma pessoa surdocega?
Garcia - Sou solteiro. Em minha vida, tive apenas três namoradas. A vida afetiva e sexual de uma pessoa surdocega está diretamente relacionada à distância e à impaciência das pessoas. Sentimos atração e afeto por uma mulher - e o mesmo acontece com a mulher surdocega -, mas não recebemos uma chance. Claro que há surdocegos casados. Para se ter ideia, em 2013 foi desenvolvida pesquisa em Portugal sobre este tema e, se não me falha a memória, 85% dos homens surdocegos são solteiros. Creio que este alto índice seria o mesmo no Brasil. O alto índice de solteiros deixa claro que a surdocegueira é uma enorme barreira e alimenta a tese de que a pessoa com deficiência está fadada à solidão.
Diário - Você viaja muito pelo País, realiza palestras e participa de programas de televisão. Sente o peso da responsabilidade em representar um movimento social importante no Brasil, que é o da pessoa com deficiência?
Garcia - Apesar de meus 38 anos, já estou há muitos anos nesta estrada, e as vivências me fazem agir com naturalidade. Este é o meu chão. É o meu jogo. Tenho personalidade forte. Sou uma pessoa de posição. E isso também colabora, e muito, para ter segurança nas ações. Numa viajem, devo antes de tudo me dedicar ao meu fazer específico e, se sobrar tempo, poderei passear. Verdadeiramente, recebi poucas oportunidades da televisão. Seria muito bom receber tais oportunidades.
Mas gostaria de receber estas oportunidades da grande mídia, para ser de fato útil, e não fazer como aconteceu certa vez no Faustão: uma pessoa surdocega mostrando imagens de seu casamento e saltando de paraquedas. Realmente isso em nada colabora com os surdocegos de nosso País. Gostaria de participar em rede nacional para desenvolver campanhas para doação de medicamentos e alimentos para pessoas surdocegas, estar em programas de debates, desenvolver um documentário para levar à sociedade nossas potencialidades.
Diário - Você se sente uma pessoa autônoma? Se não, o que faltaria para ter essa autonomia?
Garcia - Refletir sobre autonomia para uma pessoa com deficiência, e esta sendo surdocega, é realmente complexo. Este tema está conectado às impressões e valores de cada um do que é ser autônomo. A minha autonomia está nas orientações às pessoas do meio. Recordem dos passos para o desenvolvimento destacados anteriormente. Está é a minha visão de autonomia e tem dado certo até agora. Mas, claro, sempre buscando ser melhor. O que nos falta são tecnologias. Tecnologias para nós, surdocegos, são bastante escassas e custosas. Para citar um exemplo: uma linha Braile pode custar entre R$ 15 mil e R$ 40 mil.