quinta-feira, 30 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 251


Roberto Rillo Bíscaro

Numa pequena cidade colombiana - presumivelmente na década de 1970, devido à intromissão dos militares um par de vezes - o padre pensa que manda e desmanda. Substituto dum pároco mais leniente, o grisalho se recusa a rezar missa pro suicida Aimer, apesar desse pertencer à tradicional família católica. Intransigente, o reverendo ordena que o corpo de Aimer seja retirado do cemitério religioso. Se a família Zapata não o fizer em 24 horas, o vigário suspenderá a realização de todos os sacramentos (batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio).
Essa é a premissa de O Suborno do Céu, (2016), do roteirista/diretor Lisandro Duque Naranjo, constante do catálogo de nossa Netflix.
Diante do autoritarismo do prelado, o ateu Allfer Zapata o desafia e não remove o corpo do irmão. Quando os sacramentos são cancelados – às vésperas da lucrativa Semana Santa – a cidade se divide e o roteiro explora diversos desdobramentos da rixa, como o desenvolvimento dum comércio paralelo e até mesmo a abertura do terreno pros evangélicos, que se aproveitam da inflexibilidade católica de se adequar a novos tempos.
Com simpatia claramente pendendo pro lado contestador, O Suborno do Céu também é a luta pelo poder entre um homem velho e um novo, ambos bastante inflexíveis em suas posições, a ponto de em nenhum momento questionarem porque diabos há tantos suicídios naquele lugar, que permite que longa lista seja elaborada.
O filme tem algumas cenas desnecessárias à trama central, cujo tempo poderia ter sido utilizado pra aprofundar questões que deveriam importar mais ao roteiro.
Mesmo assim, O Suborno do Céu tem o mérito de desencadear discussões, fazer refletir sobre hipocrisias e miopias dogmáticas, além de apresentar aos brasileiros, exemplar da filmografia colombiana, tão alienígena à maioria do público.
E já que o assunto é denúncia de abuso religioso em filmografias não tão populares entre nós, a Netflix também tem o poderoso El Bosque de Karadima, produção chilena, de 2015.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

CONTANDO A VIDA 246

NEM SÓ DA CORRUPÇÃO VIVE A POLÍTICA BRASILEIRA

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Para Paulo Pereira 

Estamos fartos de ouvir sobre o andamento deste ano como exceção. O curto tempo para as campanhas, espremidas entre a Copa do Mundo e a proximidade da agenda de final de ano, condensou tensões naturais de qualquer processo eleitoral. Os novidadeiros buscam atualizar temas na tentativa de mostrar que muito mais que nas disputas anteriores, certos assuntos respondem ao presente e ao imediato, como se fossem desafios inéditos. Entre tantas pautas, duas merecem cuidados especiais: a corrupção e a falta de perspectivas. Falemos de ambas, tentando uma saída para o panorama geral e para a esperança que precisa ser, mais que nunca, a última que morre. 

Certamente, o tema da corrupção é impactante. Manifestação asquerosa da vida social, a contrafação é convite irrecusável à descrença. A ela, aliás, se atribuem dois predicados que, contudo, se suplementam. Ao afirmar que a corrupção é “histórica”, garantem-se duas situações: uma que ela sempre existiu, e que é inerente à condição humana desde os tempos bíblicos; outra que é “sistêmica”, ou seja está instalada culturalmente em todos os setores da vida, sem deixar campo livre. Prefiro esta segunda explicação, pois percebo que a corrupção é parte do sistema de exploração capitalista sem o qual não temos como sobreviver no atual estágio da vida globalizada. Em sociedades em que o progresso e o lucro se fazem faróis que guiam a política, não há como deixar por menos o sentido do lucro. Do lucro à ganância, os passos são mecânicos e apressados. Já a garantia do acompanhamento “histórico” exigiria coerência com a aceitação processual que sempre viu, no caso brasileiro, a implacável emergência do papel das empreiteiras participando das gigantescas obras operadas no país e fora dele. Desde a construção de Brasília, passando pela ditadura - que até o presente não revela suas contas, deixando assim odor desconfiado -, seguindo dos governos da abertura democrática até as decepcionantes mostras do petismo, aceita-se com mais lógica a constatação da corrupção moderna, recente e desafiante. A abordagem desse mal, contudo, carrega mais enigmas do que se pensa. Não é segredo que ela existe aqui ou alhures. Em países progressistas economicamente e com economias consolidadas, como Estados Unidos, Japão ou Reino Unido, ela existe e se expressa com a mesma sordidez. O caso da América Latina assusta pela proximidade, e assim vemos sem surpresa o que se passa na Argentina, Peru, México. Há alentos, é verdade, e nessa linha o Chile a Colômbia se apresentam na vizinhança. Em termos oficiais, é bom que se reconheça, ocupamos o 96º lugar entre 180 países segundo a Transparência Internacional, no mesmo nível, portanto, da Índia, China e Kuwait que se apresentam como fenômenos de emergência e superação de passados de penúria. 

A abordagem da corrupção merece outras companhias, pois não é a única senhora dona do caos que vivemos. Sou daqueles que creditam à inexperiência eleitoral a grande razão de nossa vacilaria político-eleitoral. É lógico que não concordo com a frase infeliz pronunciada por Pelé em 1972, quando em defesa da ditadura dizia que “povo não sabe votar”. Em correção, garanto que povo não pôde manter o aprendizado por ter um espaço de 21 anos de ditadura onde o voto livre e universal tinha regras exclusivas dadas aos chamados colégios, sem participação popular. Desde então, os direitos têm sido exercitados com titubeios de aprendizado. Não há, contudo, regime melhor que o democrático. É nesse sentido que se advoga o direito de todos. E temos que aprender custe o que custar. No cenário presente, devemos destacar a indigência dos argumentos mais expostos. Há aqueles que defendem o não diálogo e a ordem imposta à bala, à castração química de estupradores, à pena de morte, à militarização das escolas, ao fechamento das fronteiras e, claramente, são contrários ao direito de equiparação das mulheres aos homens e a todas as diferenças, em particular contra os negros e homossexuais. Isso, porém, por sofrido que seja, é legítimo num espaço de discussão pública. Vai da maioria do eleitorado querer ou não. O que se torna difícil, é admitir que os contrários não têm se contraposto com programas minimamente sólidos, baseados em princípios e compromissos partidários coerentes. O que temos no plantel disponível é uma individualização dos candidatos. Cada um falando por si, e poucos replicam os mandos arbitrários que sim estão mais claramente colocados. Nessa perspectiva, os debates não têm servido para muita coisa. Aberrações como o Pastor-Cabo-candidato oferece a sugestiva URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) como tópico de debate ganham proeminência. Em complemento, uma ladainha de promessas sem cabimento se alinha às falas que se esgotam em números estatísticos e promessas desarticuladas. Mas é o que temos... É exatamente sobre o vazio de propostas e ideias que haveremos que decidir. Decidir e pagar para ver. Dói dizer que não temos outro caminho, e que caminhando, mesmo com eventuais tombos, haveremos de aprender a dura lição da democracia. Estamos juntos. Estamos? Vejamos...

terça-feira, 28 de agosto de 2018

TELINHA QUENTE 324



Roberto Rillo Bíscaro

Succession foi a coisa mais mordaz que vi este ano na TV e a melhor sátira familiar que conheço, desde Sopranos. Tenho sua atenção? Comecemos, ora pois.

Quando li o nome Succession em um site, me deu comichão. Parecia novelão, tipo DALLAS, Revenge, Deception, que dinossauramente amo. Até à flopada reedição de Dynasty, que passa na Netflix,, eu vejo.
Só que Succession é da HBO, então não poderia ser soap. Mas, a premissa era uma família bilionária, cujo pai ensaiava deixar a chefia do megaconglomerado midiático pro filho mais velho, até que se decidia por outra coisa e a guerra civil começava. Rei Lear.
Próximo passo: ver quem interpretava o patriarca. Quando li que o shakespeariano Brian Cox seria Logan Roy, Succession se tornou obrigação. Além disso, havia ainda Hiam Abbass, a atriz palestina de preciosidades como A Noiva Siria, The Lemmon Tree e O Visitante. Sem contar Matthew Macfadyen, que já foi Mr. Darcy, e até cameo do James Cromwell. Como escapar de tantas sinas?
Criada pelo britânico Jesse Armstrong, a dezena de capítulos de Succession foi exibida entre 3 de junho e 5 de agosto, pra audiências muito reduzidas. Não pertença a essa maioria.
Claramente paralelizando o infame clã do magnata midiático Rupert Murdoch, Logan Roy e seus quatro filhos - mais agregados – descortinam corrosiva moralidade esvaziada, onde cada detalhe conta pra entendermos esse grupo de sociopatas, com os quais é difícil se identificar, porque são todos amorais passivo-agressivos. Bem, Logan é agressivo só, mas a antológica cena final é digna dum Poderoso Chefão sem sangue (pelo menos não dos Roy) ou gritos.
Com memorável e grandiloquente tema de abertura, que sugere mundo de fausto febril, Succession é sucessão de brutais ironias dramáticas, que mostra que apesar dos helicópteros, carros com chofer e casamentos em castelos britânicos, essa gente tem bem pouco de épico.
Uma das chaves pra desfrutar dos diálogos lotados de palavrões e trocas muitas vezes beirando o nonsense, é entender Succession como comédia de erros de humor negro.
A despeito da baixa audiência, a HBO renovou o show pruma segunda temporada, embora a primeira não tenha propriamente um cliffhanger. Caso a rede desistisse de Succession, não restaria nenhuma pendência. Ficamos curiosos pra saber o desenrolar, mas praticamente todo mundo atinge situação de “equilíbrio”. Curioso pra ver o que Armstrong aprontará ano que vem.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 329


Roberto Rillo Bíscaro

Deve ser sonho de muito músico ter a foto de seu CD segurada por Chico Buarque de Holanda, que ao mesmo tempo o recomenda em seu Istagram. O álbum Cabaça D’Água (2017) conseguiu tal distinção e deve ter enchido Alberto Salgado de merecido orgulho. Reconhecimento dos pares sempre envaidece, ainda mais quando vem dum monstro sagrado.
Há quase duas décadas na cena, Salgado começou na sua nativa Brasília e seu contato inicial com o mundo da música deu-se através da capoeira, daí o berimbau ser tempero frequente de sua modalidade de MPB. Multi-instrumentista, Salgado é músico, intérprete, compositor, arranjador e professor de violão.
Cabaça D’Água é seu segundo álbum e ao ouvi-lo entende-se a recomendação baurquiana: ótima instrumentação casada com letras inteligentes e poéticas. No tenso baião de Ói, onde as cordas são plena ansiedade, a letra recorre ao popular zóio e ói, corruptela de olha, pra logo depois usar o pronome correto na construção “pra eu viver”, conforme dita a norma culta. Poesia boa, que não descarta o popular, mas não precisa ser funcionalmente analfabeta pra isso. A latinidad de Oferenda tem até aquela predileção por proparoxítonas, como o Chico, de Construção. E o arretado xaxado de Pele Debaixo da Unha, expele  um puta que pariu. Palavrões são palavras, porque não usá-los em letras de boa MPB? Quem não solta nome feio quando caceta dedo do pé?
Cabaça D’Água não pretende passar sequinho pelo avesso pelo qual passa a nação. Na abertura afro, Da Jangada em Pleno Mar, o poeta canta que seu peito está como jangada em pleno mar, a mercê de ondas colossais, em meio às injustiças sociais. A solução é povoar o mundo de poesia. Inocente – criminosos nazistas gostavam de Goethe também – mas bonito. Utopia reinventada, como pede a letra.
A faixa-título é bem mais direta e muito sincrética. A letra é referência à tragédia ambiental de Mariana (alguém já foi punido?), inclusive com clipe sonoro de notícia de telejornal, numa faixa em que o berimbau convive com climão lúgubre de triphop.
Ainda há espaço pro afrojazz djavanesco Histórias do Vento; pra toada-oração campesina de Ave de Mim e pra fofura twee  de Força da Fé. Delícia como essa nova geração sempre incorpora alguma coisa indie pop pra estalar dedidnhos, em seus álbuns. Força da Fé tem voz de moça, assobio e rabeca, violoncelo ou algo parecido. Pra ouvir batendo palma ou de maria-chiquinha.
Unindo tradição musical e poética com laivos de modernidade, Alberto Salgado mereceu os prêmios que ganhou com o álbum.

domingo, 26 de agosto de 2018

SUPERAÇÃO NÁUTICA


Emílio sofreu oito cânceres.  Em um deles perdeu a perna, mas isso não  o impediu de se tornar um dos velejadores de cruzeiro mais conhecidos, queridos e experientes do Rio Grande do Sul. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 250

Roberto Rillo Bíscaro

O documentário Watch The Skies - onde diretores cultuados, como Spielberg e George Lucas falam sobre os filmes de ficção-científica cinquetistas que os inspiraram – tirou seu nome duma das produções mais respeitadas dos “anos dourados”: The Thing From Another World (1951), no Brasil conhecido como O Monstro do Ártico. A fala final é dum jornalista, advertindo o público a ficar sempre olhando pro céu, em busca de sinais de possíveis invasores. Pobres americanos, dominavam o mundo, mas não tinham sossego, né? Mas, quem disse que paranoia não gera muita grana e permite melhor controle?
The Thing, como é mais conhecido, é um dos marcos da década, porque introduz os elementos usados até hoje em produções de monstros atacando. Baseado numa novela de 1938, incorreto afirmar que John Carpenter o refilmou em 1982, quando no Brasil se chamou O Enigma de Outro Mundo. Ele refilmou o livro, não o filme. Ou alguém diz que o diretor tal refilmou a primeira versão cinematográfica de Jane Eyre? Não; diz-se que é nova interpretação do livro de Charlotte Bronté. Então, apliquemos a mesma regra pra tudo.
Numa base científica no Ártico, um OVNI caído é encontrado. A operação pra desenterrá-lo é tão estúpida e não-planejada que culmina em sua destruição. Mas, um bloco de gelo com um tripulante congelado é resgatado e levado pra estação. Ocorre que ao derreter, o gelo liberta criatura vegetal, que se alimenta de sangue e começa a matar pessoas e catiorros até ser destruído por eletricidade.
A sorte de The Thing é que o baixo orçamento estava nas mãos de estúdio renomado, o RKO, e a produção (maldosos dizem que boa parte da direção também) a cargo de Howard Hawks, que sabia o que fazia. O cara foi responsável por pérolas noir e de western; não era qualquer zé-ruela querendo ganhar trocados fáceis fazendo filme pra drive-in, um dos grandes consumidores da produção B sci fi de então.
Diálogos crispados e frequentemente sobrepostos, além de competente direção de atores, não deixam o baixo orçamento tornar The Thing a comum falação tediosa pra comer tempo diegético e não mostrar o que não se tem grana para. Óbvio que você não vai compará-lo com a velocidade pós-moderna, mas The Thing é tão tenso e bem feito que dá até pra esquecer que tudo foi gravado num galpão com algumas portas e escada, com cenário bem modesto.
Soluções cênicas pra driblar falta de bufunfa são igualmente criativas: como não havia pra construir um disco-voador, que apareceria por menos de 10 minutos, anyway, os caras colocaram uma espécie de barbatana metálica enterrada na neve e o tamanho da circunferência do UFO pode ser intuído quando vemos a quantidade necessária de homens pra circular a área.
The Thing também introduz convenções, como apresentar a criatura só depois que bastante suspense foi criado e, mesmo assim, não muito de perto ou claro (pra driblar a mambembice da produção). E a personagem bobona que acha que pode fazer amizade com o ET? Também está em The Thing. E também se ferra.
Capitalizando em cima da histeria dos discos-voadores e do perigo soviético, The Thing não se poupa em justificar a pressa de enviar equipe militar pra verificar a veracidade do relato da queda do OVNI em função da presença russa no local. Alguém aventa que possa ser um objeto soviético, afinal, eles voam pelo polo Norte, “feito moscas”.
Também tendência nos anos pós-Segunda Guerra e pré-Vietnã, os militares são os salvadores da pátria e do dia, ao passo que para com os cientistas, a relação é dúbia. Se gênios essenciais pra que as casas tivessem suas TVs e geladeiras, homens da ciência também eram responsáveis por se meter em territórios melhor deixados sem explorar. Daí, The Thing ter um doutor que parece ficar maluquete e dizer que o conhecimento é mais importante do que algumas vidas.
Essa louvação dos militares “esquece” que a decisão de jogar as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki foi deles e que o Japão já estava vencido praticamente, tendo as 2 cidades sido escolhidas bastante como teste pra ver quanto estrago a bomba atômica causava, já que no contexto japonês, eram urbes relativamente pouco afetadas pelos bombardeios. 
Mas, levantar essa lebre não era tarefa de The Thing, cuja função era apenas divertir e, sabendo ou não, fustigar a paranoia contra invasores de toda espécie que assombrariam a década (como se já não existisse isso; basta lembrar do primeiro Red Scare, logo após a Revolução Russa, de 1917).
Mas, em qual outro filme da época você verá uma moça dando bebida alcoólica na boquinha dum capitão que tem as mãos amarradas pra trás, numa cadeira? E tudo de brincadeirinha; fetchichy, gentchy! E claro que o bofe se livra sozinho, tá? Pode fazer bondage, mas militar continua macho e não tem mulher que prenda, não, qual é? 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CONTANDO A VIDA 245

A MULHER ELEITORA E A SAÚDE POLÍTICA NACIONAL: direito de resposta.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Poucas vezes em minha produção de crônicas – e olhe que a lista é longa, passa de 500 – falo de política no sentido estrito do termo. Acontece que a coleção de tensões acumuladas ao longo dos últimos anos tem posto em questão o uso de espaços que precisam ser exercitados e exibidos como urgentes. Foi nesse sentido que resolvi aproveitar minhas colunas semanais para ousar um pouco mais, sempre na busca de acertos. Depois de duas investidas recentes, recebi comentários de alguns leitores amigos. E não foram bons... A primeira crítica veio de uma ex-aluna que dizia “professor, não gostei dos seus comentários sobre política... seu estilo não combina com o conteúdo e a leitura não foi agradável”. Outra, mais contundente, revela que “suas opiniões não parecem sinceras porque se diz neutro, mas os comentários não disfarçam”. Confesso que fiquei cabreiro. Pensei em agradecer, pegar o chapéu (ou pendurar a chuteira) e voltar para as temáticas de sempre, para os acarinhados assuntos culturais ou de comportamento, menos políticas no sentido das opiniões eleitorais próximas. Não foram poucas as meditações sobre isso, e nem faltaram temas oportunos fora da agenda corrente. Mas... mas, resolvi insistir ainda um pouco, e assim dar vasão ao conteúdo represado em comportas de silêncio, decepções e alienação. Por lógico, considerei as duas opiniões francas e procedidas na direção do diálogo. Frente ao primeiro caso, devo concordar, pois meu estilo (se é que posso dizer assim) é menos sóbrio ou neutro, sutilmente mais ameno e sempre tendente a sensibilizar os leitores. Gosto do jeito meio manso de explanar e. sei bem, isso não condiz com o conteúdo analítico que pretendi dar ao escolher tópicos. A outra observação remete à minha incapacidade de traduzir posições que se esgotam na imparcialidade. Esta doeu mais, pois atingia em cheio minha boa vontade em ponderar sobre a necessidade de falar de temas sem tomar partido. É claro que a contradição emergiu, pois me declaro publicamente contra a besteira que é indicada em posições como “escola sem partido”. Vesti a carapuça. E agora?

Somando e dividindo, acabei por fazer um exame de consciência e emoldurar tudo no quadro atual. Creio que achei uma resposta: continuar, mas sem me esconder. Meu impulso para alvejar o tema político se deve a dois fenômenos novos: a individualização da política e à mídia, ou seja, às soluções de divulgação das propostas dos candidatos. Antes de avançar, convém reconhecer que nenhuma das apresentações até o presente permitiu profundidade no exame de programas. Duvida-se mesmo que eles existam. Talvez o novo modelo de controle dos gastos eleitorais, o empobrecimento das participações, sempre comprometidas com o dinheiro privado, seja um dos responsáveis mais diretos pelo formato dos debates televisivos. Sem dúvida, isso aliado ao pouco tempo de campanha, tem produzido exposições aberrantes do caráter de cada candidato. A identificação dos prepostos com dizeres rápidos e demais personalizados tem produzido efeitos que valorizam pessoas e não questões político-partidárias, nem causas sociais de implicações continuadas e amplas. Tudo é muito tópico, a favor ou contra (uso de armas, aborto, igualdade de gênero, cancelamento de dívidas no serviço de proteção ao crédito, indicação apresada de ministros). Desdobramento imediato dessa individualização remete a reprodução também em flashes fugidios nas redes sociais. Tudo é muito instantâneo e convida à polarização indesejável. Por certo há novidades promissoras e entre algumas, seguramente, o papel das mulheres merece destaque. A mera constatação de que mais de 50% do eleitorado é feminino alenta muito.

A questão da mulher eleitora se torna vital não apenas pelo reconhecimento do papel social delas no conjunto da vida nacional, mas também, e até porque, representam elos fundamentais na problemática nacional. Veja-se sob esta chave a questão da saúde. Sendo que o ventre materno é o primeiro meio ambiente, gestacionário da vida, implica a mãe em situações como cuidado com a gravidez, parto, cuidados neonatais, vacinas. A multiplicação desses fatores eleva a relevância da mulher com ser político que tem protagonismo essencial. A educação formal, o acompanhamento dos filhos na infância e adolescência, o encaminhamento do trabalho pelo primeiro emprego, o zelo familiar até a senilidade, tudo, passa pela mulher. Nessa linha, a meditação sobre o voto feminino convoca posicionamentos que vão além de preconceitos e da moralidade cínica do mercado de trabalho. A igualdade de direitos é um dever, não pauta temática isolada.

Em termos práticos, sabe-se que mais de 40 % dos lares brasileiros são conduzidos por mães de baixa renda e são elas que decidirão os resultados. É fácil ficar pasmado ao se ouvir que o grande contingente de intenções de votos nulos ou brancos é dessas mulheres. Acredita-se, contudo, que isso mude. E há de se transformar na medida em que os argumentos sejam expressos. Neste sentido, muito além de estilo de redação, tentativa de neutralidade, vale-se do diálogo para descer do muro e se posicionar claramente. A primeira certeza que tenho encaminha minha decisão pública a candidaturas que centralizem o papel da mulher como ser dotado de direitos políticos compatíveis com os homens. E que além de tudo são responsáveis pelos destinos políticos do nosso estado.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

TELINHA QUENTE 323


Roberto Rillo Bíscaro

Na dramaturgia de Henrik Ibsen, amiúde uma personagem retornava ao lar, onde a situação estava aparentemente sob controle, e sua volta trazia à tona problemas do passado não-resolvidos e tudo acabava muito mal. Também era frequente no teatro do norueguês que algum problema social fosse responsável ou servisse de desculpa pra tragédia pessoal sequente.
As 2 temporadas de Frikjent (2015-16), produção da pátria de Ibsen, têm muito desse antecessor ilustre e também flerta com elementos trágicos, devidamente contemporanizados com um espectro de Nordic Noir e migalhas melodramáticas, vestidas de drama familiar complexo, denso, com personagens martirizadas pelo passado, obstinadas em seus objetivos e bastante nuançadas, bem ao gosto da TV moderna de boa qualidade.
Lifjord é linda cidadezinha incrustrada num espetacular fiorde no noroeste da rica Noruega. Encravada entre a água e a montanha, a vida econômica do local depende da Solar Tech, gerida pelos Hansteen, ou melhor, por Eva, a matriarca que domina a família e a aldeia.
O motorzinho do drama começa a funcionar aloprado, quando a empresa entra em bancarrota e passa ao controle dos chineses. Incentivado pelo marido de Eva, William Hansteen, originalmente o dono do dinheiro, quem vem a Lifjord tratar da aquisição da Solar Tech é Aksel Borgen, nativo da vila, mas, que há 20 anos não punha os pés ali.
Aksel se exilara voluntariamente da Noruega, porque nos 90’s fora condenado, mas depois absolvido (título em inglês para o mercado internacional, Acquitted) pelo assassinato da adolescente Karine. Mesmo absolto, a cidade jamais acreditou na inocência de Aksel, que é dado a crises de violência cega e quando jovem, a black outs. Às vezes, até ele duvida da inocência. Para piorar, complicar e dramatizar mais a situação, Karine era filha do casal Eva e William Hansteen.
Imagine um cara odiado pela cidade, que volta pra tirar dela sua fonte de renda, mantida pela família cuja filha podia ter morrido em suas mãos. Quando Aksel retorna, as portas do inferno se abrem e os vikings demonstram como sabem ser dramáticos e contar uma história profundamente triste, cheia de reviravoltas, revelações, segredos que vem à tona, ditos e desditos, incesto, alcoolismo, traição.
Os arquétipos do injustamente condenado que retorna à casa para limpar seu nome e o do filho pródigo que reaparece bem-sucedido se coadunam – às vezes, se cancelam -  numa narrativa em que, como na trágica, tudo acontece como o estouro de um dique. O mundo isolado, autocontido e claustrofóbico de Lijfurd funciona como imã mortal que prende e atrai de volta seus habitantes e parece existir quase que com regras próprias, por isso há repetições de julgamentos, tudo meio acelerado demais, mas a trama fascina tanto que nem nos damos conta quase.
A natureza tem papel metafórico fundamental, uma vez que cumpre pelo menos duas funções. Primeiro, a velha noção do Nordic Noir de nos perguntarmos como tanta miséria humana pode ocorrer em cenário tão deslumbrante. Segundo, a vastidão da montanha e os grandes corpos aquáticos reforçam o isolamento de Lifjurd, mesmo em nossa era globalizada.
Se Frikjent funciona espetacularmente como drama familiar, a tentativa de abordar o social se sufoca perante tanta angústia individual. Há sufocada subtrama que pretende a remunicipalização da Solar Tech. Para acadêmicos materialistas é passaporte pra comunicações em congressos, pois dá tranquilamente origem a dissertação ou tese, mas pros espectadores apenas desvia do que realmente interessa ao roteiro: botar aquelas personagens pra se autodestruírem pra nossa diversão.
Com elenco estelar pros escandinavos (ou pra nós fãs deles); correlação com caso policial real que sacudiu a Noruega nos anos 90; produção esmerada, Frikjent é mais uma série que posiciona a terra do A-Ha no mesmo patamar de suas irmãs Suécia e Dinamarca. Que bom pra nós escandinófilos!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 328


Roberto Rillo Bíscaro

Semana passada, a soul music perdeu sua Rainha, Aretha Franklin. Felizmente, divas negras do gênero continuam aparecendo, como atestam dois ótimos álbuns canadenses. 

Tradição no fim/começo de anos é eu buscando listas de melhores álbuns de rock progressivo e R’n’B/soul. Especialmente de publicações mais especializadas – embora não descarte Rolling Stones ou The Guardian. Sites específicos ou hipster sempre trazem artistas que não conhecia e que não teriam espaço em listas mais mainstream.
Nem lembro em que lista vi o álbum Soul Run, de Tanika Charles, mas como cantoras sempre têm minha preferência, fui atrás no Bandcamp, na hora, enquanto lia as demais entradas do ranque. A faixa-título quase me derrubou da cadeira, de tanto que pulei de frenesi rebolante e embora não tenha visto o álbum em nenhuma outra listagem – hipster ou mainstream – sei de coração que foi um dos grandes de 2017.
A canadense vem trabalhando no circuito musical independente de Toronto, desde 2010 e em abril do ano passado estreou em álbum com Soul Run. Depois da dispensável Intro vem a faixa-título, dínamo com letra empoderada, que aliás, abundam por todo o álbum.
Quem diria que uma judia inglesa abriria público e influenciaria negras do “Novo Mundo”? De modo algum Tanika Charles imita Amy Winehouse, mas ambas navegam na mesma tradição do R’n’B/soul sessentista/setentista popificado, com letras mal-criadas se necessário, pra marcar território. Em More Than a Man esse parentesco aparece mais vividamente do que em qualquer outra faixa, seja em alguns maneirismos vocais, seja na letra que reclama do bofe que não sabe a hora de desgrudar (mas isso é dito com um palavrão, à Amy, que repousa na glória eterna, amém!).
Soul Run é conciso coquetel midtempo, que remeterá aos áureos tempos da Motown/Atlantic/Stax, mas sem soar antiquado, muito pelo contrário: perceba como algumas harmonias e progressões de Darkness & The Dawn são de hip hop, mas estão ressignificadas como vintage. Formalmente, a mais inteligente do álbum e ainda por cima com vocal inacreditável.
Quero ver fã roxo de soul conseguir deixar de estalar os dedos, quando começar a percussão de Love Fool. Heavy investe no B de rhythm’n’blues, enquanto Endless Chain é lufada de primavera, com coro que parece saído de Why Should I Love You, aquela subestimada colaboração entre Prince e Kate Bush, na geração passada.
Soul Run é um grande álbum, e não há desculpa de inacessibilidade, porque ei-lo, no Bandcamp:

Também do Canadá, mas de Montreal, vem o trabalho de Dominique Fils-Aimé, que, apesar do nome e da cidade ser a segunda maior do mundo a falar francês, canta em inglês.
Seu segundo álbum, Nameless - cujo título foi inspirado pelo poema Still I Rise, de Maya Angelou – saiu em fevereiro. Dada sua fonte inspiratória, não surpreende o caráter ativista de algumas letras e o mergulho em e influência de modos vocais e artistas negros da primeira metade do século 20.
Já que a opressão é uma preocupação do conciso álbum, Dominique o abre atrevidamente fazendo cover apenas vocal de Strange Fruit, clássico sobre os linchamentos de negros, no sul dos EUA. A canção já passou por bocas de Billie Holiday à Siouxsie Sioux e a canadense escolheu abordá-la como todo o resto de Nameless, de forma esparsa e minimalista. O resultado sumariza o álbum: impressionante.
Ao escolher que menos é mais, Fils-Aimé tinha que ter gogó e isso não lhe falta. Não se trata de trabalho jazzístico/Neo Soul de diva gritona, pelo contrário. O momento mais primal é durante a quase sexy Sleepy, mas nesse álbum significa que pode passar despercebido pro ouvinte menos atento.
Nameless de jeito nenhum dá sono ou é frouxo. Com vocal que de vez em quando lembra influência também de Sade, além das grandes mais antigas, Dominique intercala interpretações vindas discretamente da alma, com silêncios que assombram, como em Home. E como dissociar a experiência afro-diaspórica dos convenientes, sonoros e assassinos silêncios ao longo de séculos?
Mesmo quando opta por apenas murmurar, como na integridade de Unstated (olha esse título!), Dominique cria uma senhora faixa: além da metáfora do abafamento, em termos sonoros os instrumentos não deixam de se referenciar a certo tipo de hip hop mais agressivo, mas sem sê-lo; ouça pra crer.
É tudo muito delicado e discreto. Em Birds, basicamente há um obeso contrabaixo e sons percussivos recriando rufares de asas. Na faixa-título, o violino flutuará por seus ouvidos feito aparição.
Em época de tanta ostentação de terceira categoria e  rival imaginada barulhentamente combatida com tiro, porrada e bomba, Dominique Fils-Aimé se destaca, porque dá tapa na cara de inimigo bem real, mas com luva de pelica cravejada de pregos.

domingo, 19 de agosto de 2018

KARATÊ DA SUPERAÇÃO


Gabriel nasceu com mielomeningocele, também conhecida como espinha bífida aberta, malformação congênita da coluna vertebral da criança em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. Depois de operado, ainda no dia do nascimento, o menino começou longa jornada de superação, bastante facilitada pelo karatê. 

sábado, 18 de agosto de 2018

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 249


Roberto Rillo Bíscaro

No último decênio, têm aparecido bons filmes referenciando o horror/suspense dos anos 1970. Fugindo do ritmo aloprado, barulhões estridentes e recursos digitais da contemporaneidade (nada contra!), produções como Ainda Estamos Aqui, A Casa do Demônio e Corra! acabam se destacando. Isso pra lembrar aquelas resenhadas no blog.

Este ano, já saíram dois bons exemplos dessa reciclagem de formas setentistas de contar histórias. Um deles vai muito atrás. Ghost Stories pode ter seu DNA traçado ainda em 1945, quando o brasileiro Alberto Cavalcanti dirigiu Dead Of Night, na mesma Inglaterra do filme de 2018.
Ambos são antologias, formato muito em voga nos anos 60 e 70, nas veneráveis Hammer e Amicus. Na verdade, o desfecho de Ghost Stories está em uma antologia predecessora, mas, obviamente, não direi qual.
Philip Goodman é professor universitário, que também tem show de TV dedicado a denunciar fraudes paranormais. Crê prestar grande serviço à causa da racionalidade, até que seu mentor o contata pra desafiá-lo com 3 casos de histórias fantasmagóricas inexplicáveis. Entremeando cada caso e no final explicativo, seguimos a trajetória de Phil, cada vez mais em dúvida sobre a inexistência do sobrenatural.
Ghost Stories não apenas resgata o consagrado formato de trinca de historietas fantasmagóricas, mas usa alguns recursos típicos dos filmes de antanho. Tudo se passa numa Inglaterra aparentemente deserta e opaca, sem nojeira ou ruídos pra assustar. Ghost Stories é mais atmosfera arrepiante do que orgia gore. E não é que mesmo assim, conseguiu me dar um susto da maneira mais óbvia possível?

E não é que o Cannesnizado Steven Soderbergh conseguiu transformar a reprimida e esnobe Elizabeth II numa norte-americana de boca suja, que não tem medo de partir pra porrada? Claire Foy, de The Crown, dá show em Unsane, cuja filmagem usando um iPhone deixou-o ainda mais parecido com os inspiradores exploitation films setentistas.
A trama sensacionalista (mulher trancafiada num manicômio contra a vontade), que objetifica a protagonista pra depois torna-la agente (de mentirinha, claro); o amigo bonzinho que vive pra mocinha e até final em freeze frame (há anos não via isso!); é tudo puro anos 70. Só que com nomes consagrados. Então, fica cool gostar! Mas, essa tradição da mulher engaiolada, especialmente em presídios, bombou nos 70’s e vem até nos uniformes laranja considerados como os novos negros. Unsane é a junção dessa vibe com a de gente injustamente trancafiada como louca, ”denúncia” social e o clássico mulher-perseguida. É tudo muito divertido, mas não tem nada de original, por isso o diretor tratou de chamar a atenção para a forma como filmou e chamou Foy. Espertinho.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ZOOFILIA COM JIBOIA

Jiboia 100% albina é filmada em Michigan, nos EUA

Um réptil de origem colombiana foi encontrado numa loja de répteis, "BHB Reptiles", no estado de Michigan, EUA. A peculiaridade é que este animal é albino, o que lhe confere uma fisionomia única!

Veja o vídeo, através do link:

CONTANDO A VIDA 244


À BEIRA DO ABISMO: apocalipse e redenção.



O título é proposital. O alarme se faz necessário e urgente. O motivo remete às próximas eleições. E não poderia ser diferente, pois vivenciamos o resultado de alguns desastres políticos. É logico que o próximo pleito não será a solução, mas pode ser a porta para mudanças que precisam ser ventiladas. Como nunca é preciso discutir e apresentar ideias; ouvir e pensar são medidas capazes de nos mover do simplismo do “acho X não acho”. Por favor, acalmemos o radicalismo que existe em cada um de nós. Saiamos das cavernas tenebrosas dos extremos e saibamos promover debates. Por lógico, não se espera que haja abandono de posicionamentos filosóficos, de descomprometimentos com ideais que nos definem, mas daí à intolerância vai um abismo de distância. Como elemento mediador de diálogos, se fala em temas que podem perpassar reflexões de esquerda ou direita. 

Os primeiros debates, as apresentações iniciais estão postas. Ainda que nenhum candidato tenha exposto projetos consistentes, as linhas gerais estão esboçadas e nelas os assuntos preferentes do eleitorado. Uma primeira leva de medidas remete às reformas. Além da reforma política, a trabalhista ou previdenciária se faz notável pelos acontecimentos recentes, em particular pelo aumento de mais de 16% dos vencimentos do Judiciário. Em vista disso, parece premente que pensemos nesse instituto como ponto de partida para outras considerações. Lembrando que o equilíbrio dos três poderes é condição para a democracia, parte-se da premissa que coloque o Judiciário na condição do ordenamento que o justifica, ou seja, como instancia de poder decisório sobre o andamento do Executivo e do Legislativo. 

De regra, o Poder Judiciário deve ser discreto, sóbrio e sempre falar nos autos e por escrito. Esta regra é pétrea e funciona em grande parte dos países ditos civilizados. Em outras plagas, mal se sabe o nome das autoridades supremas da ordem jurídica. Pouco aparecem, raramente se expressam em público e tem seus salários publicados com prestações de contas transparentes. É assim em quase toda a Europa, nos Estados Unidos, Canadá, Japão. Na América Latina, mais precisamente os estados que passaram por traumas ditatoriais, exatamente para a superação de desmandos cultivados nas casernas governamentais, o ajuste libertário tem demandado exposições muitas vezes danosas ao convívio público, condição essencial em repúblicas maduras. Nesse conjunto, o caso brasileiro é exemplar do que não deveria ser. Pela projeção nada inocente dos órgãos de divulgação, em particular pelos canais televisivos, os juízes da Suprema Corte viraram pop stars. Os destaques nos noticiários os fazem centro de atenções e frequentadores de shows e entrevistas onde suas vidas aparecem como de celebridades.

Falando a torto e a direito, dando opinião aberta, vão cultivando aspectos pouco cabíveis a togados erigidos à condição de ministros. É de se tomar cuidado em não vazar opiniões que maltratem o órgão a ponto de negar sua relevância. Ele é essencial e seu bom desempenho mais do que desejável. É exatamente por isso que se apedreja o aumento de salário que se mostra afrontador da condição pública. O efeito cascata da elevação desses proventos supera quatro bilhões de reais, dinheiro a ser descontado do orçamento geral da nação. É demais. Demais não apenas pelas cifras (as maiores do país), mas também e principalmente pelo descaramento apresentado a um país com mais de 13 milhões de desempregados e com um salário mínimo ridículo.

Superando as constatações, convém lembrar que os cargos são de escolha do Executivo, portanto do Presidente da República. Este é um ponto a ser ferido. Não há de se tratar o assunto como se fosse opção de um mandatário, ainda que derivado de lista tríplice. A promoção deveria ser feita por sequência e progressão de carreira, avaliada por comitê jurídico competente. 

Outro ponto importante remete ao número de seus participantes. No momento são onze membros que funcionam em regime de circulação de cargos de comando. Fala-se, contudo em aumento, e os argumentos se assentam em número excessivo de processos que chegam ao julgamento do Supremo. Seria plausível pensar na manutenção da mesma ordem numérica, mas com filtros capazes de reduzir as remessas para a instância máxima. Bastaria propor um reordenamento de apelos e um rigor maior nas instancias menores. 

Mas não é só em atenção do STF que se pensa quando se fala de reforma do Judiciário. O cargo da Procuradoria Geral da República passaria pelo mesmo crivo e o mesmo se diz da Polícia Federal, contando aqui iguais reflexões sobre salários, nomeações e desempenho público. A complicar tudo temos ainda as instâncias de decisões das eventuais mudanças. Nossa Constituição determina regras favoráveis a manutenção das coisas como estão. É lógico que cabem emendas, mas como estamos distantes delas. Talvez, a mera nomeação de possibilidades seja um primeiro passo. Vamos, juntos, tentar caminhos. Independentemente de partidos, o enunciado do problema pode ser um critério a ser conferido na política dos candidatos.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

ANISTIA INTERNACIONAL APELA

Amnistia apela aos países da África Austral para protegerem os albinos

A organização Amnistia Internacional exortou hoje os países da África Austral para que os seus sistemas judiciais protejam os albinos, que são mortos na região devido à crença de que partes do seu corpo têm poderes mágicos.


A Amnistia Internacional (IA, na sigla inglesa) relembrou num comunicado, citado pela agência de notícias espanhola EFE, que em países como Maláui, Moçambique ou a Tanzânia é comum "a impunidade" por esses crimes, o que agrava o problema.

Segundo a IA, as pessoas com albinismo são mortas devido à crença de que as partes do seu corpo têm poderes mágicos que dão boa sorte e riqueza.

"A realidade é que as pessoas com albinismo vivem com o medo constante de serem capturadas ou mortas por partes do seu corpo em toda a região", frisou Deprose Muchena, diretor regional da organzazção para a África Austral.

O responsável frisou que os albinos "vivem à mercê de gangues criminosos organizados que clamam pelo seu sangue na crença de que farão fortuna".

Entre sexta-feira e sábado decorrerá uma cimeira da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa), na Namíbia e, neste contexto, a AI solicitou à SADC a promessa de "dar prioridade" e tomar "as medidas necessárias para garantir o direito à vida, segurança e salvaguarda de pessoas com albinismo".

Segundo o comunicado da organização divulgado pela EFE, a situação dos albinos é particularmente grave em países como o Maláui ou Moçambique.

No Maláui, de acordo com dados da Amnistia, houve cerca de 150 casos de violência contra albinos desde o final de 2014, incluindo 14 assassínios.

Em junho do ano passado, apenas o processo judicial para 30% desses casos tinha sido concluído.

Partes dos corpos dos albinos são vendidos em países da África Austral, incluindo a República Democrática do Congo (RDCongo), a África do Sul, a Suazilândia, a Tanzânia e sobretudo Moçambique.

TELINHA QUENTE 322


Roberto Rillo Bíscaro

Celebro acesso a séries de países menos centrais, como quando descobri a delícia ucraniana The Sniffer. Talvez ingenuamente, apresso-me a ver - e se possível avaliar positivamente – algumas das adições não anglofalantes ao catálogo da Netflix. Fantasio que se notarem público que curta, colocarão mais opções. Como não há isonomia na divulgação das novidades, assino newsletter que traz todos lançamentos, diariamente. Chama-se, inclusive, Lançamentos da Netflix. Desinformação é escolha na era da internet.
Foi por ela que descobri O Jornal (2016), primeira série da Croácia comprada pela empresa. A temporada inicial consiste de dúzia de capítulos, numa trama que mostra a encruzilhada em que se encontra o fictício jornal Novine (nome original da série), quando é adquirido por inescrupuloso capo da construção civil. Mario Kardum obviamente nada entende e nem se importa com ética jornalística, e só quer usar o diário pra atacar seus desafetos, dentre os quais o prefeito Ludvig Tomasevic, moralista sem moral presidenciável. The Paper vai na toada “político nenhum presta” e concorda com Frank Underwood, que na temporada inicial de House Of Cards afirmou que poder é mais importante que dinheiro.
O Jornal poderia ser mais enxuta e ágil. Em seu passo desnecessariamente detalhista e reiterativo, espantará espectadores menos pacientes. Não precisava ser alucinada feito Scandal, mas daria pra contar a história em meia dúzia de capítulos, caso dispensasse cenas supérfluas e longas, como cruzamento de túneis, estendidas miradas pro nada e um sem número de cenas que não acrescentam à história. O roteiro preocupou-se tanto em dar destinos, backgrounds e explicações sobre todos, que tem um monte de desnecessidades. A tal da Dijana Mitrovic é um exemplo típico da falha de Novine: a personagem tem a bola enchida no início, pensamos que mitará, mas, na maior parte da série, nada faz.
Outro defeito d’O Jornal é que ficamos confusos com personagens demais, meio indistintos, vários sem função ou que poderiam aparecer bem menos, que mais falam do que fazem. O vilão Mario Kardum é exemplar: além de esbravejar, não vemos mostra de seu tão decantado poder, talvez no fundo porque o roteiro insista que dinheiro e poder não são o mesmo. Mas, mesmo assim, Mario só esbraveja e fala grosso com sua editora-fantoche no jornal. Também fica claro que é dominado pela mãe, mas toda vez em que contracenam, ele a contradiz e faz o que quer.
Alguém me explica se mergulhar a cara n’água com a câmera filmando por baixo é algum novo fetiche? Quem viu as duas temporadas de 3% deve lembrar que o personagem de João Miguel faz isso. Em Novine, todo mundo tem direito a uma cena assim.
Mesmo com defeitos e passo de tartaruga, O Jornal me interessou, porque histórias de intriga me agradam. Também aquele monte de gente fumando como nas produções ianques dos anos 40/50; com peles não consertadas com massa corrida e o simples fato de poder ver atores que não conhecia e as ruas duma cidade croata.
Claro que esses últimos quesitos não servem pra motivar audiência, assim, O Jornal só será lido inteiro por quem souber fechar os olhos pros defeitos e não dormir com lerdeza.
A segunda temporada encerrou filmagens há pouco e está em pós-produção. A Netflix também a adquiriu, então, se for lançada por aqui, verei. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 327


Roberto Rillo Bíscaro

Em entrevista para O Globo, Cesar Lacerda afirmou que tencionava fazer pop em seu quarto álbum, Tudo Tudo Tudo Tudo (2017). Associado ao mundinho descolado indie, o mineiro desejava romper a bolha. Conseguiu, pelo menos no caso deste blogueiro cinquentão. Deu vontade de escrever sobre o delicado trabalho que une BossaNova na música com referência jovenguardista de que tudo mais vá pro inferno na letra.
Tudo Tudo Tudo Tudo abre mão de qualquer complicação indie por arranjos despojados, diretos, assobiáveis, serenos, memorizáveis. É tipo MPB pop, então pode agradar moçada mais jovem e nós coroas, pelo menos os menos ranzinzas em relação ao “novo”.
Sempre achei Me Adora, da Pitty, meio com clima de Jovem Guarda atualizada. Lacerda regravou-a em batida Bossa, ou seja, acabou dando curto circuito nos dois movimentos rivais nos distantes anos sessenta.
Esse caráter despretensiosamente canibal e iconoclasta do pop  permeia Tudo, sem fazer alarde. Sei Lá, Mil Coisas tem guitarrinha country easy listening; O Homem Nu é suingue funkeado pra deslizar pelo calçadão em Copacabana. O Marrom Da Sua Cor é sambinha, mas algumas cordas remetem à moda de viola do interior paulista.
Tudo suave, com destaque pra voz branda de César, como na linda balada pop Por Que Você Mora Assim Tão Longe? ou na trompetada melancolia elegante de O Fim da Linha, ápice da performance vocal no álbum.
Voz cândida sobre melodias lindas. Que fã de Everything But The Girl resiste à batida Fascination do violão de Isso Também Vai Passar? Introspecção maciçamente expressa em cordas, Percebi Seus Olhos em Mim é a exceção, porque enfatiza o piano jazzístico.
Difícil não fazer owwwwn pro clima twee de Quando Alguém. Tem escaleta, assobios (um dos assobiadores é Flávio Tris), estalos de dedo e vozinha do moça (Maria Gadú). Outro owwwwn quando percebemos que o fugaz casal da linda Por Um Segundo é homoafetivo. Bem discreto, como tudo no álbum, apenas um “ele” na letra. Claro que não haveria nada de errado se a homoafetividade da letra não fosse discreta.
Escuta só que fofura é Tudo Tudo Tudo Tudo. Na página do Youtube, há link para baixá-lo/ouvi-lo/adquiri-lo em diversas plataformas.

domingo, 12 de agosto de 2018

GROOVE DA SUPERAÇÃO


Roberto Rillo Bíscaro

Difundido a partir dos anos 1930, época do Swing jazzístico, o uso da palavra groove (sulco) como gíria para ritmo popularizou-se com a eclosão do funk nos anos 1950 e consolidou-se no léxico da música dançável até hoje.

Groove Nights (The U-Nam Mixes), lançado dia 9 de julho, é paulada dançante, com um par de midtempos pra descansar a coluna. Mas, quando se trata de James Day é irresistível contextualizar os não-iniciados à sua extraordinária história de tragédia e superação.

O norte-americano sempre quis se dedicar ao canto e à dança, por isso mudou-se para Nova York, onde estudaria na American Academy of Dramatic Arts. Não demorou muito e Day foi diagnosticado com a Síndrome de Ménière, espécie de pressão alta no ouvido, que provoca, entre outras coisas, comprometimento do equilíbrio e zumbido perene, atrapalhando a audição. A doença acertou em cheio as funções de que James mais necessitava para ser bailarino e cantor.

Tendo que voltar para cidade-natal e submeter-se a cirurgias/tratamento, além de viver com o temor constante de que o outro ouvido seja acometido pela doença, no início, James Day não quis saber de música. Felizmente, superou a aversão e já há uns dez anos lança material muito bom.

Groove Nights (The U-Nam Mixes) tem esse nome, porque resulta de colaboração com o DJ francês U-Nam, que remixou 8 faixas do som retrô de Day, em um álbum que basicamente celebra a dança, a despeito de tempos sombrios Trumposos, segundo a letra de We Dance, que começa com riff de guitarra funk, um coro dizendo “this is not a dress rehersal”, uma voz feminina que vai como “when we get a cha...”, interrompida por MC meio na vibe do antigo Turbo B, do alemão Snap!, que fala algo, tem mais um trechinho instrumental funkoso pra voltar a voz de mulher, que não contei ainda, mas é de ninguém menos que Maysa Leak, a chanteusse solo, do Incognito e de tantos projetos de outrem. Como resistir aos vocais de fogo sedoso sobre batida funk-Snapeana? Não dá: we dance!

Groove Nights (The U-Nam Mixes) também dança nostálgica e luxuosamente por estilos de outrora, como eletrofunk (Can’t Stop This Dance), new swing jack (He’s a Hurricane), funk 70’s (Outta Da Funk) e disco (a impiedosamente sacolejante Love Is My Bible). Para deixar tudo ainda mais “autêntico”, os vocalistas convidados em todas as faixas são dos subgêneros homenageados. É uma festa de cantor(a) bom/boa: Cheryl Pepsii Riley, Audrey Wheeler, Glenn Jones, D-Train, Sandra St. Victor e mais. Quando não é vocal “vintage”, é algum dado ou maneirismo de produção, como a guitarrinha Nile Rodgers e vocais femininos típicos do Chic, na infecciosa D.U.I, que significa Dance Under the Influence. Com essas referências sônicas, esse título e vocal principal da Audrey, resta o quê ao ouvinte senão o descadeiramento?



Os dois números deslizantemente midtempo têm cheirinho de urban soul e new jack swing e nada me tira do ouvido que Who Can Tell the Heart tem quês de Careless Whispers, de George Michael e True, do Spandau Ballet. Considerando-se o período que James Day ama e os britânicos serem blue-eyed soul, tem tudo a ver a desconfiança. Ouçam e me contem.




Ah, e não esqueçam de me dizer se James Day tem groove ou não tem, mesmo fazendo música com apenas um ouvido bom!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 248

Roberto Rillo Bíscaro

Quem passou pelos anos 80, enfrentou a possibilidade de ser exterminado por chuva de bombas atômicas, seguida de inverno nuclear e radioatividade milenares, que sepultariam a vida no planeta, exceto talvez a das baratas. Filmes como Threads retrataram isso, conforme postagem de 2010, conferível aqui. Passados tantos anos, deu pra retomar o tema, dessa vez sob o viés da animação pra adultos.

Se mesmo no desarmado Brasil, o perigo de catástrofe nuclear foi tema de textos acadêmicos e canções, imagine no protagonista, rico e mais diretamente atingido Hemisfério Norte. Inúteis cartilhas de sobrevivência durante e pós-ataque nuclear eram confeccionados por governos. Ineficazes como proteção, mas eficientes pra institucionalizar o pânico contra o inimigo e justificar exorbitantes gastos militares.
A animação When The Wind Blows (1986) retira parte de seu amargo sarcasmo das informações dúbias, conflitantes ou mal-compreendidas desses panfletos educacionais. De quebrar o coração, o longa apresenta casal superfofo de aposentados, vivendo no idílico campo inglês, que tenta seguir as instruções obtidas na biblioteca pública local, após um míssil atômico cair perto de onde residem.
James e Hilda Bloggs são, falam e vivem de modo explicitamente paródico Arquétipos do que seriam dois adoráveis velhinhos ingleses que haviam passado pela Segunda Guerra e confiavam plenamente nos líderes e nas táticas de proteção, então eficazes pros anos 40. Dublados pelos britânicos da gema John Mills e Peggy Ashcroft, os rechonchudos bebem chá, usam gírias datadas e simplesmente não compreendem nada do que se passa.
O cativante de When The Wind Blows é arquetipificar irônica, mas carinhosamente, os pais ou avós de quase todos nós do mundo ocidentalizado. A senhora que muda o assunto pras cortinas, quando não entende a platitude geopolítica/científica repetida incorretamente pelo marido ou a negação de que estão mortalmente doentes pela radiação, pra não preocupar o outro. 
Com música de abertura cantada por David Bowie e trilha composta por Roger Waters, do Pink Floyd, When The Wind Blows apresenta a lenta agonia e morte de dois simpáticos velhinhos indefesos, por isso é duro de assistir.

Se o sofrimento dum casal idoso corta o coração, o que dizer de duas crianças, que, desde o princípio, você sabe que morrerão? A cena de abertura do poderoso Grave Of the Fireflies (1988) - escrito e dirigido por Isao Takahata, falecido abril passado – mostra o jovenzinho Seita morrendo de inanição numa ferroviária e logo depois, seu espírito juntando-se ao de sua irmãzinha Setsuko. 
Mesmo sabendo – ou precisamente por isso - do trágico destino das crianças, nada realmente prepara o espectador pra drenagem emocional d’O Túmulo dos Vagalumes. Depois que sua cidade é devastada por ataque aéreo, Seita e Setsuko perdem a mãe e tem que ir morar com uma parenta, que logo os começa a maltratar. A escassez – seja da guerra, seja de greve de caminhoneiro – traz o pior das pessoas à tona. Então, os dois irmãos tentam sobreviver sós.
A animação é belíssima, com seus fundos de aquarela, mostrando um mundo lindo, mas indiferente ao padecimento das crianças, que, sem entender nada do que passa, têm ternos momentos de camaradagem infantil e esperança. Isso dói demais: a confiança de Seita, típica dos muitos jovens, de nada adianta num tempo em que sequer dinheiro serve pra muita coisa, porque não há o que comprar.