terça-feira, 31 de março de 2015

TELINHA QUENTE 157

Roberto Rillo Bíscaro


Tenho vaga lembrança dum programa global de quando pirralho, nos anos 70. Nome marcante como Rhoda (imagine prum menino brasileiro, ouvir isso!) e um senhor grisalho meio bobão com voz empostada. Emocionalmente é só isso que recordo, porque acho que nem gostava – adulto demais pros meus menos de 10 anos. Racionalmente sei que se tratava do influente The Mary Tyler Moore Show, exibido pela CBS entre 1970-77.
4 décadas após essas parcas memorias em branco e preto (só tive TV colorida a partir de 1986), vi os 168 episódios. Amei e compreendi o porquê de sua constância em listas de shows mais influentes. Desbravador, definidor de convenções do formato usadas até hoje, bem atuado, MTM (vamos abreviar) é um prazer que funciona mesmo hoje, quando as insinuações sexuais dos 70’s não chocariam nem um prè-silábico e os preços considerados absurdos em alguns episódios são de graça na segunda década do século XXI, mesmo no Brasil do dólar a 3 reais. O público talvez boiasse com alusões a Nixon; mas a recessão econômica é tão atual!
Algumas situações resultam desconfortáveis pra era das denúncias de assédio moral/sexual, como quando Ted espalha que estava tendo um relacionamento com Mary – sugerindo mesmo coito – e o conselho que ela recebe do chefe Lou é  ”não ligar pra opinião alheia” e a própria não toma atitude, resolve (perdoa) tudo na conversa.  

Típico de sitcoms: tudo se resolve na prosa. Murray encasqueta que quer um filho, a mulher não quer mais engravidar depois de 3 meninas, eles brigam, Murray sai de casa, ele percebe que está sendo irredutível e tolo, o casal decide adotar e aparece com um garoto vietnamita já bem grandinho que uma família não pôde adotar. Tudo em menos de 25 minutos; é a mágica liberal da resolução dos problemas mediante diálogo!
Mary Richards é uma trintona que vem a Minneapolis trabalhar como produtora dum telejornal. A novidade – na década da Liberação Feminina – era o protagonismo feminino nessa faixa etária numa personagem que colocava a carreira antes dos relacionamentos pessoais. Não que Mary fosse virginal – ela possuía encontros e namorados – mas não ambicionava arrumar marido, como sua melhor amiga, Rhoda, que apesar do gênio forte e da independência, tinha em sua mente apenas arrumar um homem pra chamar de seu.
MTM discutiu temas importantes como desigualdade salarial devido ao gênero, greves e sindicatos (isso ocorreria hoje?), relacionar-se com mulheres com bastante “experiência”, a possibilidade de amizade entre uma mulher casada e um homem, um homem ir ao casamento de sua ex-esposa, além duma personagem ser reconhecida como gay sem polêmica, juízo negativo ou cômico atrelado. O próprio uso do termo gay era novidade na época. MTM fez muita coisa.

MTM aperfeiçoou o conceito da personagem secundaria com traços próprios e gostável ou que o expectador ama não gostar ou odeia adorar. Rhoda, Phylis e Lou Grant ganharam séries individuais, as 2 primeiras ainda durante a exibição bem sucedida de MTM. Quando as 2 amigas de Mary ganharam seus programas os roteiros passaram a salientar as vidas e ações ao redor da WJM, pequena estação de TV onde Mary trabalha com o rabugento Lou Grant, o piadista simpático Murray, o âncora canastrão vaidoso e burro Ted Baxter e a ninfomaníaca Sue Ann Nivens (Betty White interpretando o oposto de Rose Nylund, incrível!)
E que elenco pra encarnar essas e outras personagens! Todos dão banho de interpretação e paparam diversos Emmys, além de terem permanecido em evidência mesmo após o término de MTM. A única a jamais emplacar outro sucesso foi Mary Tyler Moore, que tentou diversos shows sem passar da primeira temporada. Betty White brilhou em Super Gatas e ainda hoje nonagenária está em Hot in Cleveland; Gavin McLeod foi ser capitão no Barco do Amor e assim por diante.
Como em toda sitcom que não segue história com desenvolvimento das personagens, de vez em quando há incongruências entre o que personagens fizeram e o que estamos vendo. Isso porque os episódios são independentes, mas quem vê tudo percebe. Exemplo é Ted falar pra Mary ler sua autobiografia e ela afirmar que não a lera. Mentira, porque numa temporada anterior, a própria Mary ganha dindim extra datilografando o texto de Ted.

Até no derradeiro capítulo, MTM iniciou tendência seguida por tantos shows, vide The Golden Girls. É o padrão da vitória do menos provável a se dar bem.
A abertura ficou tão icônica que a cidade de Minneapolis dedicou estátua à Mary Tyler Moore atirando a boina pra cima. Agora, além de ser a terra natal de Prince, há outro motivo pra eu conhecer a fria cidade. Sem contar que fica em Minnesota, estado de Saint Olaf, de onde veio Rose Nylund, né gente?
Praticando meu hobby de detectar faces conhecidas, ao longo das 7 temporadas destaquei as seguintes:
- Monte Markhan, amante de Sue Ellen, em DALLAS e irmão gay de Blanche em Super Gatas.
- Harold Gold, o Miles, namorado de Rose Nylund, é o pai de Rhoda.
- Bill Daily, o Major Healey, como um político burraldo, pra quem Ted votara e é convidado a participar dum talk show mediado pelo âncora.
- A primeira-dama Betty Ford fez ponta provando a popularidade do show. Ironicamente, anos depois Moore se internaria na Betty Ford Foundation, na época o local in pra celebridades querendo se livrar do álcool.
- Lembram da Helen Hunt, de Mad About You e Twister? Aparece pré-adolescente como filha de Murray; uma graça loira.
Tirando o exagero da letra da deliciosa música-tema – que afirma que Mary poderia conquistar a cidade, mas ela passa o show todo trabalhando numa TV de terceira – há poucos defeitos em MTM.
Clássico que pretendo rever na velhice. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

CAIXA DE MÚSICA 163

Roberto Rillo Bíscaro

Mayer Hawthorne é produtor, arranjador, DJ, cantor e compositor em cujas veias corre o pop da Motown, de Daryl Hall, da disco music. Desde 2009 lançando álbuns e concorrendo a Grammys, não precisa ser perito pra sacar suas influências. Ouçam isso e me digam se Holland-Dozier-Holland não ficariam orgulhosos, a não ser talvez pelo “shitty fucking atitude”...

Jake One é mais envolvido com rap e hip hop e merece atenção especial das pessoas com albinismo porque seu álbum de estreia White Van Music (2008) gerou o single The Truth, petardo old school com o rapper albino Brother Ali

Esses 2 branquelos norte-americanos se juntaram no duo Tuxedo e lançaram álbum homônimo na primeira semana doe março. Sem qualquer traço de rap/hip hop, o trabalho é puro eletrofunk de início dos anos 80.
Jamais poder-se-á acusar o Tuxedo de original, mas também não deixam a festa retrô desanimar. As 12 faixas pulsam com milhares de beats acompanhados de palmas e todos os truques e barulhinhos de quando Klymaxx, Shalamar, Earth, Wind and Fire e Kool & The Gang abundavam nas rádios.
R U Ready, I Got U e Get U Home batem os pés em continência ao gênio de Minneapolis até mesmo na ortografia. Quero ver um oitentista ficar imune ao baixo gordo e a guitarra funkeada a la Evelyn Champagne King de Number One.
Tuxedo não contém baladas, o mais lento que se chega é o mid-tempo deslizante de Two Wrongs (e dá-lhe mais palmas, dessa vez mais devagar) ou o sincopado instrumental de Tuxedo Groove.
Não há faixa ruim, mas o forte de Tuxedo é nas em(baladeiras) de festas. Como resistir ao nananana de The Right Time ou à jam de Watch The Dance?
Junto com o também revivalista Chromeo (resenha aqui), Tuxedo anima qualquer qualquer hora, celebrando a diversão, independentemente de o ouvinte ser oitentista. Basta amar um agito e uma boa vibe negra.

domingo, 29 de março de 2015

A SUPERAÇÃO DE KATHERINE

Conheça a história de Katherine Soares, cadeirante após acidente automobilístico, que superou barreiras, passando em concursos e querendo mais!

sábado, 28 de março de 2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

ALBINO NO BANHEIRO

Raro texugo albino é visto 'encolhido' em banheiro no Reino Unido

Um raro texugo albino foi encontrado "encolhido" em um banheiro em Beaminster, no Reino Unido, no último sábado (21). O animal foi resgatado por agentes da RSPCA (Sociedade Real para a Prevenção da Crueldade aos Animais).
Raro texugo albino foi encontrado 'encolhido' em banheiro no Reino Unido (Foto: RSPCA)

quinta-feira, 26 de março de 2015

MAIS E MAIS INCLUSÃO!

Dados do Censo Escolar indicam aumento de alunos com deficiência

Em 2014, mais de 698 mil estudantes especiais estavam matriculados em classes comuns. Percentual sobe para 93% em escolas públicas

Dados do Censo Escolar indicam crescimento expressivo em relação às matrículas de alunos com deficiência na educação básica regular. Estatísticas indicam que no ano de 2014, 698.768 estudantes especiais estavam matriculados em classes comuns.
Em 1998, cerca de 200 mil pessoas estavam matriculadas na educação básica, sendo apenas 13% em classes comuns. Em 2014, eram quase 900 mil matrículas e 79% delas em turmas comuns.
“Se considerarmos somente as escolas públicas, o percentual de inclusão sobe para 93% em classes comuns”, explicou a diretora de Políticas de Educação Especial da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação, Martinha Clarete dos Santos.
Os números reafirmam a importância da inclusão social celebrada no último dia 21 de março: "Dia Internacional da Síndrome de Down". A data remete à luta para a inclusão das pessoas com a deficiência nas escolas, no mercado de trabalho e nas relações sociais.
Inclusão social
A jovem Jéssika Figueiredo, 22 anos, é a prova de que incluir pessoas com a síndrome no ensino regular aumenta as oportunidades de seu desenvolvimento. Durante toda a vida, Jéssica estudou em escolas regulares. Hoje, ela atua como fotógrafa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e é, também, relações públicas da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down.
“Eu, como pessoa com Síndrome de Down, acredito que aprendi mais estudando no ensino regular. Aprendi com as pessoas, com os professores. Passei a acreditar no meu potencial. Se tivesse sido em uma escola de ensino especial talvez não fosse assim”, opinou Jéssica.
De acordo com diretora de Políticas de Educação Especial, a luta para que crianças e jovens com Síndrome de Down ou qualquer outra deficiência se mantenha na escola é grande.
“Hoje o MEC apoia técnica e financeiramente estados e municípios na formação de professores e oferecendo recursos tecnológicos de suporte aos deficientes”, afirma Martinha.
Segundo a diretora, 42 mil escolas já receberam recursos multifuncionais para acessibilidade e 57 mil escolas tiveram verbas para adequação da estrutura de forma que atenda melhor às necessidades das crianças.
Formação
Dados do Ministério da Educação (MEC) revelam que também houve um aumento de 198% no número de professores com formação em educação especial. Em 2003, eram 3.691 docentes com esse tipo de especialização. Em 2014, esse número chegou a 97.459.
Na outra ponta, está o pequeno Ylan Mateus, seis anos. Portador da Síndrome de Down, ele acabou de ser matriculado na Escola Classe 413 Sul, em Brasília. A escola, que é regular, já atende a outras seis crianças com necessidades especiais.
Para a diretora da escola, Vera Lúcia Ribeiro, esse tipo de convivência entre as crianças tem trazido resultados relevantes para todos na escola. “Essa interação entre as crianças faz com que aprendam a lidar com as diferenças. Elas se envolvem tanto que acabam protegendo umas às outras. Isso é muito bonito”, disse a professora.
Política afirmativa
Em nota técnica de 18 de março, a Diretoria de Políticas de Educação Especial da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) do MEC orienta os sistemas públicos e privados de ensino sobre a negativa de matrícula a estudante com deficiência. De acordo com o documento, esses estudantes têm direito constitucional à educação.
O direito das pessoas com deficiência à matrícula em classes comuns do ensino regular é amparado no artigo 205 da Constituição Federal, que prevê “a educação como direito de todos, dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
A Carta Magna também garante, no artigo 208, o direito ao atendimento educacional especializado.
A nota técnica afirma que compete ao MEC reconhecer, credenciar e autorizar as instituições privadas de educação superior e toda rede federal, e que fica sob a responsabilidade da Diretoria de Políticas de Educação Especial, juntamente com o Ministério Público Federal, o acompanhamento dos procedimentos relativos à recusa de matrícula nessas instituições.
Nas esferas municipal, estadual e distrital, esta competência é das secretarias de educação, que devem fazer a análise e emissão de parecer sobre processos alusivos à recusa de matrícula em instituições escolares, públicas e privadas, sob sua regulação.
As instituições públicas e privadas que se negarem a matricular os estudantes com deficiência estarão sujeitas a multa.
http://www.brasil.gov.br/educacao/2015/03/dados-do-censo-escolar-indicam-aumento-de-matriculas-de-alunos-com-deficiencia

quarta-feira, 25 de março de 2015

CONTANDO A VIDA 103

Nosso historiador-cronista está mesmo filosófico esta temporada. Agora ele nos escreve sobre tempo, a cooptação do sono pela tecnologia e nos apresenta ideias de um teórico norte-americano chamado Jonathan Crary. 

É PROIBIDO DORMIR.

José Carlos Sebe Bom Meihy
Até que ponto o sistema global consegue definir nossas sensações individuais e coletivas? Mesmo sabendo das dificuldades de respostas objetivas, vale a pena exercitar alternativas possíveis. Paradoxalmente, é exatamente este limite que excita a imaginação e inflama reflexões atentas a pensar a espessura do tempo e as implicações essenciais que mexem sutilmente no comportamento humano. Jonathan Crary, ensaísta norte-americano, professor de Teoria da Arte Moderna em Columbia, NYC, tem proposto críticas contra o “olhar continuista”, acumulador de pressupostos firmados por superposições que se superam e indicam “alvos atualizadores”. Em três textos complementares, o autor propõe a retomada do chamado “olhar ativo”, atitude crítica e de resistência que busca furar a barreira do determinismo que decreta a fragmentação dos sujeitos, a pulverização da atenção humana que perde a centralidade dos focos, a falência da auto-imagem positiva e a relativização dos esquemas referenciais. A colagem trágica dessas condições resulta no que Crary chama de “industrialização dos regimes de contemplação”.
Engrossando a linhagem dos seguidores de Nietzsche, como Foucault, Debord e Deleuze, Crary desafia o entendimento das armadilhas temporais lineares e as contrapõem com noção de tempos múltiplos, variados, de convívios concomitantes. Por entender a transvariação de temporalidades – fato que implicaria a quebra das historizações lineares, horizontais e mecanicamente sucessivas – o autor indica a oportunidade da fratura das percepções evolutivas. Um dos mecanismos legitimadores do “etapismo geométrico” e sequencial seria o uso acrítico da tecnologia que desenvolveria sempre uma perspectiva triunfante, “presencista”, de fácil explicação e por isso mesmo inconsequente. Contra o sequencialismo automático propugna-se rompimentos capazes de fomentar invenções de novas perguntas ou “rupturas projetadas”, meditações que quebrariam a prática do desdobramento linear. Uma das consequencias mais notáveis dessa operação seria o comprometimento do simplismo casuísta que funcionaria na base de “causas e conseqüências”.

Em “Técnicas do observador – visão e modernidade no século XIX” o autor advoga a necessidade de olhares aptos à desnaturalização da lógica continuista. Como quem duvida, Crary valoriza a pergunta pertinente, motivadora de desafios e de mudanças. Circunscrevendo o avanço da tecnologia a partir do século XIX, o autor insiste na perda da crítica filosófica e humanística trocadas pela dominação da parafernália eletrônica e das máquinas. Em outro texto “Suspensões da Percepção – Atenção, espetáculo e cultura moderna”, Crary diagnostica o comportamento contemporâneo já identificando o peso da instalação dos aparelhos em nossa percepção cultural. Seguramente, contudo, em “Capitalismo tardio e dos fins do sono” o autor conclui sobre os impactos mais importantes desse processo refletido no coletivo. Qualificando o sono como a última reserva de exploração capitalista, a demonstração do ataque a esse recurso natural e biológico é feita por meio de mecanismos que investem na manutenção das pessoas acordadas. Não apenas para o consumo, mas também e principalmente para a produção temos sido convidados a não mais dormir. Criando a expressão 24/7, Crary agrava a tendência taylorista que investe na exploração racionalizada da produção. Segundo essa lógica, manter as pessoas acordadas é um recurso ideal para que funcione 24 horas por dia, 7 dias por semana como personagem que atua no sistema de forma coerente com o ideal do capitalismo. Os recursos usados pela sociedade para nos manter produtivos investem em práticas que anulam o ciclo do dia. Marcando o surgimento da luz elétrica como expediente para alongar o dia e multiplicar o tempo de produção e consumo, o autor demonstra os esforços para que nos mantenhamos despertados. E não se trata apenas de meios médicos, mas também psicológicos. A exemplificação de pessoas que de tal forma se vêem ligadas aos computadores e celulares e assim dependem das redes sociais é eloquente prova de como estamos ficando a cada dia mais limitados em termos de tempo para dormir. Dói perguntar, mas será que caminhamos para a proibição do sono, e o que é pior, dos sonhos? 

terça-feira, 24 de março de 2015

TEMPERATURA ACESSÍVEL

UERR desenvolve termômetro para alunos com deficiência visual e auditiva


O aparelho emite som e vibra a medida que a temperatura aumenta. Equipamento ajudará alunos nos laboratórios das escolas públicas.

Um termômetro que ajudará alunos cegos e surdos em laboratórios das escolas da rede pública de ensino de Roraima foi apresentando por professores do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pidib) da Universidade Estadual de Roraima (UERR). O equipamento, que emite som e vibra, foi desenvolvimento em parceria com acadêmico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Uma das idealizadoras do projeto, a professora Régia Chacon, contou ao G1 que três professoras desenvolveram o termômetro com base na realidade já existente entre alunos com deficiência. “Tínhamos um problema”, referindo-se aos alunos cegos ou surdos que ficavam prejudicados nas experiências de laboratório por não disporem de equipamentos adaptados.
“O termômetro, de acordo com a escala, emite sons em código morse, vibra e emite um sinal luminoso na medida que a temperatura vai aumentando. Com isso o aluno tem o controle do material que está trabalhando”, explicou.
Segundo Régia, o projeto começou a ser desenvolvido em maio de 2014. “Entramos em contato com o aluno de engenharia de automação da UFMG e ele fez a parte que nós não sabíamos fazer, a programação. Depois que tínhamos todo o material em mãos o equipamento ficou pronto em uma semana”.
O valor para produzir cada termômetro é baixo, conforme informou a professora. “Ele custa em torno de R$ 50. É bem acessível”, disse Régia. Após a fase de testes, o protótipo será patenteado e ainda deve demorar um tempo para chegar às escolas.
Pidid
O Pibid é desenvolvido na UERR e, desde 2010, conta com 39 subprojetos já implementados. Neste período já foram concedidas 721 bolsas para acadêmicos e supervisores.
Segundo o coordenador institucional do programa, Wanderley Almeida, 21.630 alunos já foram acompanhados no processo de escolarização nas mais diversas atividades na rede pública estadual de educação básica nos campi de Alto Alegre, Boa Vista, Pacaraima e Rorainópolis.
https://assistivaitsbrasil.wordpress.com/2015/03/21/uerr-desenvolve-termometro-para-alunos-com-deficiencia-visual-e-auditiva/

ANTA ALBINA

tapir albino

TELINHA QUENTE 156


Roberto Rillo Bíscaro

Dia 27 de fevereiro, a Netflix disponibilizou a trezena de episódios da terceira temporada do absurdo político com pretensos tons shakespearianos House of Cards (aqui e aqui resenhas das anteriores e aqui o comentário sobre a versão britânica).
A grande diversão era acompanhar as falcatruas de Frank Underwood – espécie de JR Ewing deste início de século – em sua escalada ao poder. Maquiavélico e brutal, o enrustido sulista chegou ao topo. Com a renúncia do presidente, Underwood começa a temporada cumprindo o resto de mandato. Se não havia mais progressão vertical na carreira, esperava-se que ele subornaria/destruiria meia Washington pra granjear apoio e ganhar a eleição de 2016.
Ele tenta conquistar suporte e roubar a simpatia da população, mas, passa a temporada praticamente na defensiva e perdendo batalha após batalha. Em sua encarnação mais fraca, restam as apelações do roteiro com o presidente urinando no túmulo do pai e cuspindo na cruz. Que ele é endemoninhado como um Ricardo do Bardo já sabemos. Essas ações pueris pra chocar não somam à personagem, que queremos odiar pelo estrago que faz ao redor e potencialmente ao mundo caso permaneça presidente.
As sub-tramas não são sequer dignas de comentário; quem liga pra recuperação de Doug ou pro que foi feito de Fred? O destaque de House of Cards 3 é o presidente russo Victor Petrov, paródia nada camuflada do real Putin. Até as Pussy Riots fazem participação especial pra detonar o homofóbico Petrov, que infelizmente aparece em 3 ou 4 episódios. Digna de nota é a escalação do dinamarquês Lars Mikkelsen pro papel. Ele é o Troels Hartmann, de Forbrydelsen. Não falo que Nordic Noir é tendência?
Pro final deixei a insidiosa, sinuosa e elegante Claire, a grande personagem de House of Cards. A simbiose com o marido pra compartilhar o poder fazia dela um dos papeis mais instigantes da atualidade. Mas, tal qual (First) Lady Macbeth, ela começa a ter crise de consciência e boa parte dos episódios foca na deterioração do relacionamento com Frank. Esse comportamento mostra desenvolvimento da personagem – coisa que Frank não teve – mas oblitera um dos pilares da série.
O que os roteiristas farão na quarta temporada? Um dos caminhos abertos pela season finale é Claire duelando com Frank pela presidência. Seja o que/como for, verei a quarta vinda de House of Cards apenas por Claire. Como o eleitorado que na ficção a adora, ela tem meu voto. 

segunda-feira, 23 de março de 2015

CAIXA DE MÚSICA 162

Roberto Rillo Bíscaro


Em 1987, o guitarrista Dean Wareham, o baterista Damon Krukowski e a baixista Naomi Yang formaram o Galaxie 500 na prestigiosa Harvard University. A sonoridade lânguida, lenta, onírica, influenciada por Velvet Underground, por sua vez prenunciou/influenciou os movimentos shoegazer e slowcore. Antes da dissolução, em 1991, o trio deixou uma trindade de álbuns:

Krukowski e Yang – envolvidos também com publicação de textos surrealistas – seguiram fazendo música sob o nome Damon & Naomi. À fantasmagoria do Galaxie 500, a dupla adicionou porções de dream pop, folk e uma pitadinha de twee. Diversas vezes colaborando com o guitarrista Michio Kurihara, da banda japa Ghost, eles vêm lançando delícias sonhadoras e acústicas desde então.
Em fevereiro, saiu Fortune, que também funciona como trilha sonora prum curta-metragem dirigido por Naomi. A vantagem é que o álbum se sustenta sozinho; a desvantagem é que pra se adequar à breve duração da película, algumas canções, como a abertura The Seeker, parecem incompletas. Fortune, porém, é tão homogêneo em seus menos de 30 minutos, que essa sensação de insaciedade é completada pelas demais 10 canções.
Violão, piano elétrico e percussão muito discreta compõem um álbum contemplativo, tranquilo e bastante emotivo. Damon e Naomi se revezam nos vocais, em algumas faixas compartilhados. O agudo de anjo sonado de Yang e o cantar embrumado de Krukowski só contribuem pro clima de imersão emocional de Fortune, confira It’s Over e Amnesia como respectivos exemplos. Mas também parece estarmos ouvindo uma melodia dentro dum sonho, como melhor definir The North Light?
Tematizando os efeitos da perda dum ente amado, Fortune termina com Time Won’t Own me, a mais longa com mais de 5 minutos, onde gotas de piano enredam-se com a malha de violão e percussão pra em dueto declarar a vitória de Damon & Naomi sobre a dor e concluir a jornada emocional e outro álbum maduro.

domingo, 22 de março de 2015

A SUPERAÇÃO DE JACKIE CHAN

Conheça a história de superação de "Jackie Chan", ou melhor Luiz Carlos, das dificuldades da vida conseguiu se erguer. De um mundo dos vícios para os tatames, um verdadeiro resgate através do esporte.

sábado, 21 de março de 2015

TELEFÉRICO

Calafate é o nome duma fruta vermelha típica da região patagônica. Também é o nome da pequena cidade onde se localiza a geleira Perito Moreno (veja fotos de meu passei lá), na Argentina. Além das geleiras, o que há pra se fazer em Calafate é comer iguarias feitas com a fruta e visitar uma montanha que chamam de Balcón. Você pode contratar uma excursão e subir num caminhãozão ou onibusão, sei lá o que é aquilo. Pra dizer, sugiro o teleférico (aerosilla), muito delícia!
Outra atração de Calafate é o Glacio Bar, todo feito de gelo por dentro. A estrutura é bem legal, não fica devendo nada ao similar visitado em Oslo (veja aqui), mas o europeu levou vantagem por eu ter ido no verão, então o choque térmico entre dentro e fora é muito mais gostoso e intenso do que o experienciado na fresca e eólica Calafate. O Glacio Bar fica fora da cidade, mas há transporte grátis de uma praça. Cuidado: eles não aceitavam cartão de crédito quando fui em janeiro (tempo da Era do Gelo mesmo, heim hermanitos?) 










ALBINO GOURMET 172

sexta-feira, 20 de março de 2015

ALBINO INCOERENTE OPINA

Há alguns dias a repórter Mariana Mauro, do site Opinião & Notícia escreveu-me para colaborar com uma entrevista sobre a situação das pessoas com albinismo brasileiras e  minha experiência, para uma matéria que estava redigindo. Respondi as perguntas via email e o resultado do trabalho - que foca a situação dos albinos em partes da África - você confere abaixo.
Ficou ótimo, parabéns e obrigado à Mariana e à equipe do Opinião & Notícias pela divulgação da causa albina no Brasil. 



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Peter Ash, fundador e CEO da Under the Same Sun, e Vicky Ntetema, diretora executiva na Tanzânia, com algumas crianças em um dos colégios internos do governo, que sofrem com superlotação e condições desumanas, na cidade tanzaniana de Shinyanga (Divulgação/UTSS)

TENDÊNCIAS E DEBATES

Por que os albinos são perseguidos em muitos países africanos?

Mitos fazem com que albinos sofram com perseguição, mutilação e assassinatos

por Mariana Mauro
Na última semana, um grupo de feiticeiros foi preso, na Tanzânia, por matar albinos. Mas na última quarta-feira, 18, o comissário regional de Simiyu, Eraston Mbwilo, mandou soltar os suspeitos, segundo o jornal tanzaniano The GuardianSerá que estes feiticeiros foram realmente presos por matar albinos? Como é a situação no Brasil? E, afinal de contas, o que faz com que uma pessoa nasça albina?

A instituição Under the Same Sun (Sob o Mesmo Sol. UTSS, na sigla em inglês) visa incluir socialmente e combater a discriminação muitas vezes fatal contra pessoas albinas. O diretor de operações da ONG canadense, com sucursal na Tanzânia, Don Sawatzky, explicou ao O&N que há centenas de feiticeiros na Tanzânia com licença para trabalhar lá. No entanto, a palavra “feiticeiro” na língua swahili, idioma falado em algumas regiões da África, tem dois significados: a dos tradicionais curandeiros e feiticeiros, e a dos adivinhos e videntes. “O segundo grupo não tem licença na Tanzânia e são eles que costumam ser os alvos das prisões, até onde sabemos. Eles podem simplesmente ser presos por estarem praticando sem licença, mas o governo, através da mídia, está espalhando para a comunidade internacional que isso significa algo mais. O tempo irá dizer”, diz Sawatzky.
Na África, há muitos mitos sobre albinos, mas a ciência já provou que nenhum deles é verdadeiro. Os mitos são: o albinismo é uma maldição dos deuses ou de ancestrais. Logo, entrar em contato com um albino traria má sorte, doença e até morte; pessoas albinas nunca morrem, porque elas não são humanas, mas fantasmas; ter relações sexuais com uma mulher albina pode curar a Aids; um encanto ou uma poção feita com parte do corpo de albinos tem poderes mágicos, que podem trazer saúde, sucesso e sorte; albinos só existem na África; a culpa é da mãe se o bebê nasce albino; pessoas albinas têm visão normal.
Por esses mitos, os albinos são perseguidos, mutilados e assassinados, mas a situação não ocorre só na Tanzânia. “Estigmatização e discriminação contra pessoas com albinismo é endêmico na cultura africana, não apenas na Tanzânia. Albinos são mal compreendidos e deturpados em todo o mundo. A discriminação contra albinos é comum em muitos países, mas de longe a ‘discriminação fatal’  só foi relatada em 25 países africanos”, diz Sawatzky. Essa discriminação ocorre em países como Egito, Moçambique e África do Sul.
Segundo ele, ninguém realmente sabe a origem destes mitos, já que a documentação na África não costuma ser outra além da tradição oral. Enquanto a assistência médica está se desenvolvendo devagar na Tanzânia, alguns profissionais da saúde ainda acreditam em mitos sobre albinos e eles mesmos têm medo de tocar nos albinos ou são indiferentes à situação deles.  Para Sawatzky, os ataques e o tráfico [de partes do corpo dos albinos] só vão chegar ao fim quando os consumidores forem identificados, presos e processados. Afinal, segundo ele, sempre vai ter outro adivinho, traficante e manejador de machete (pessoas que mutilam os albinos com uma espécie de facão) desde que exista uma procura.
O diretor explica que a reação usual de uma família que dá à luz a um bebê albino é o choque. “Além do choque, em muitos países africanos, o pai vai culpar a mãe e vai abandoná-la junto com a criança, já que eles acreditam que o bebê é uma maldição, e/ou que ela é produto de um fantasma europeu, e/ou que a mãe fez sexo com um homem branco.”, explica.
As reações são diversas, já que há muitas tribos diferentes na Tanzânia e em outros países africanos. “A UTSS já ouviu muitos casos na Tanzânia e em outros países africanos, onde a família escondeu a criança com albinismo da aldeia ou a aldeia escondeu a criança das pessoas de fora. Às vezes, isso é feito por vergonha e por uma crença em mitos falsos (é uma maldição). Outras vezes, a criança é escondida por medo de que vá se tornar um alvo de ataque ritual. Ocasionalmente (o que não é comum) a criança é aceita e integrada na família como qualquer outro membro da família”, conta Sawatzky.
A UTSS conta com dois programas, um de ativismo e outro de educação. “Nosso programa de ativismo educa a sociedade sobre a compreensão e aceitação de albinismo, e nosso programa de educação oferece formação acadêmica e profissional. A UTSS já colocou e patrocinou financeiramente mais de 300 alunos com albinismo em escolas de alta qualidade totalmente inclusivas, do jardim de infância até a graduação. A cada ano que passa há mais graduados que entram no mercado de trabalho na convencional sociedade da Tanzânia. Estes estudantes e graduados albinos são a voz mais forte contra a discriminação e a mensagem mais poderosa sobre sua humanidade, dignidade e capacidade”, explica. Em 2014, 326 pessoas com albinismo participaram do programa de educação da UTSS. Neste número estão incluídas matrículas em escolas primárias, secundárias e faculdades. Muitas já estão empregadas e estão assumindo seu papel na sociedade tanzaniana.
O albinismo e a situação brasileira
Segundo a dermatologista Carolina Marçon, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o albinismo é uma doença genética rara, que ocorre devido à mutação de um gene. Hoje, já há vários genes descritos, mas há quatro principais. “Na Europa, o gene predominante é do tipo 2, na Ásia é do tipo 1 e aqui no Brasil, a gente não sabe qual é o gene que predomina. De acordo com as características clínicas, a gente pode supor, mas para ter certeza, a gente tem que fazer a biologia molecular”, explica.
Apesar de ser hereditário, um albino não vai ter necessariamente um filho albino.  “É uma doença recessiva, ou seja, o albino tem que ter dois genes recessivos. Então tem que herdar da família do pai e da família da mãe”, explica. “Se um albino tiver um filho com uma albina, provavelmente, eles vão ter um filho albino. Mas se os tipos de mutações dos pais forem diferentes, eles podem não ter um filho albino. Mas é muito raro acontecer”, comenta.
O albinismo afeta apenas a pele e os olhos. A alteração genética faz com que eles produzam uma quantidade muito pequena de melanina ou então, impede totalmente essa produção. A melanina é o pigmento que dá cor à pele e é o que a protege da radiação ultravioleta solar. A alteração genética também afeta os olhos com problemas como a fotofobia (sensibilidade à luz) e as deficiências visuais.
A dermatologista afirma que os dados sobre albinismo no Brasil são muito escassos, mas que a estimativa é de que haja dez mil albinos no país. Segundo a UTSS, foi relatado, apesar das poucas pesquisas, que na América do Norte e na Europa, a estimativa seja de um albino para 17 a 20 mil pessoas. Na África, a estimativa sobe para um para cada cinco mil a 15 mil, e que em algumas áreas africanas, a estimativa é de um para mil. Na Tanzânia, onde fica a UTSS, a estimativa é de um para 1400.
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Roberto Bíscaro, editor do Blog do Albino Incoerente (Foto: arquivo pessoal)
O preconceito não é exclusivo dos países africanos. No Brasil, Roberto Bíscaro, doutor em dramaturgia norte-americana e editor do Blog do Albino Incoerente, conta um pouco ao O&N sobre sua experiência. “Mais do que as limitações impostas pela falta de pigmentação e baixa visão, que podem ser contornadas pela tecnologia, o grande problema é a falta de preparo que a sociedade de modo geral apresenta para com as pessoas com albinismo”, diz. “Pouca informação sobre o assunto nas escolas faz com que nossas especificidades sejam desconhecidas pela maioria. Acredite, há médicos que não conhecem suficientemente o albinismo. Certa vez um me perguntou há quanto tempo sou albino. Desinformação anda de mãos dadas com preconceito, então outro problema é esse, manifesto através de bullying, baixa oferta de empregos e invisibilidade em políticas públicas”.
Bíscaro lançou o livro Escolhi ser albino em 2012. “Achei que contar minha história poderia inspirar os leitores. Afinal, venho de família muito modesta economicamente e também possuo as limitações inerentes à condição genética, mas isso não me impediu de me doutorar, viajar e levar uma vida muito produtiva. Acho importante falar do preconceito e dos problemas, mas é igualmente fundamental apontar as potencialidades humanas, algo na linha ‘se eu posso, por que você não vai à luta e tenta também? ’”

PAPIRO VIRTUAL 91

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História Oral é uma ferramenta acadêmica muito importante pra dar voz a quem não tem muita. Trabalhos com os mais diversos grupos minoritários – mas não apenas – têm produzido registros corretores da “História Oficial” e/ou capazes de motivar adoção de políticas públicas e no mínimo discussão sobre temas por vezes pouco discutidos.
Resenhei Prostituição à Brasileira, de nosso cronista das quartas-feiras, o Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy (leia aqui). Fiz disciplinas ministradas por ele na USP e participei dum par de reuniões do Núcleo deEstudos em História Oral (NEHO), onde a função social da HO sempre era martelada. Mas, acabei de ler um livro escrito por jornalistas que a usam pra assumidamente entreter. E como conseguem!
Mad World – An Oral History of New Wave Artists and Songs that Defined the 1980’s (2014) foi concebido e executado pelo escocês Jonathan Bernstein e pela norte-americana duranie assumida Lori Majewski. Prefaciado por Nick Rhodes (Duran Duran, Arcadia) e pósfaciado pelo não tão mais contemporâneo Moby, o livro traz 36 entrevistas com artistas New Wave falando sobre suas carreiras e o processo de composição das canções, que, segundo os autores, definiram uma época.
New Wave é um termo guarda-chuva pra caracterizar a fragmentação de estilos da música pop após o esvanecimento da explosão punk. Bernstein e Makewski consideram que o período foi de fins dos 70’s até a gravação do single inglês Do They Know It’s Christmas? pra angariar fundos pros famintos etíopes. A partir daí, a festa e o glamour acabaram e o pop passou a ser mais planejado e com pretensões a sério. A segunda metade dos 80’s caracterizou-se na Inglaterra pela enxurrada de pré-fabricados pela usina de hits de Stock, Aitken and Waterman e a Segunda Invasão Britânica nos EUA cedeu lugar ao predomínio do rap e de artistas locais (globais, porque os EUA têm o poder, claro).
Os curtos prefácios dos autores e de Nick elencam fatores que levaram à explosão oitentista, dentre outros o barateamento da tecnologia; a influência de David Bowie, tido como pai da década; a MTV que possibilitou a Segunda Invasão Britânica nos EUA, porque como não possuíam vídeos pra rodar as 24 horas da programação, tiveram que ir atrás das “estranhas” bandas europeias. No caso da Inglaterra, a fusão de glam, disco, punk, electronica (Kraftwerk na cabeça!) possibilitou uma mistura muito maior do que comumente aconteceu nos EUA.
Claro que essas são as visões dos prefaciadores, que pintam a metade inicial dos 80s como a última era dourada de criatividade pop em contraste com o hoje pré-fabricado mundo dos artistas que já vem prontos da gravadora, escolhidos em programas de talentos, gratos e humildes por haverem sido escolhidos, por isso, menos ousados. Além disso, o autotune permite que qualquer um cante. Por outro lado, Rhodes destaca o papel da internet como possibilitadora e facilitadora da exposição de novos talentos e criação de nichos de gosto e consumo. Os autores reconhecem defeitos da década como bizarrice e exagero nos cabelos, maquiagem e roupas, predominância da forma sobre conteúdo e até a estupidez de clássicos do período, mas transformam tudo em positividade alegando que era sinônimo duma época independente e de personalidade, quando rádio e público estavam mais abertos pra se aventurarem em abraçar coisas bizarras, diferentes.

A ideia de entrevistar membros das bandas a partir de canções selecionadas como fundamentais causará polêmica entre oitentistas mais renhidos. Alegações contra a ausência de clássicos como Karma Kameleon, do Culture Club, podem ser contemporizadas com a promessa reiterada de segundo volume. Mas, há a inclusão de delícias tão fabricadas como as detratadas canções atuais, como no caso de Obsession, do Animotion. Ou de canções com as quais não concordemos, como na que emprestou título ao livro. O Tears for Fears deveria estar ali com Everybody Wants to Rule the World ou Shout (cujos processos de composição são explicados) e não Mad World.
Unanimidade é difícil, mas como discordar de canções tão fundamentais como The Killing Moon (Echo & The Bunnymen), How Soon is Now (The Smiths), Blue Monday (New Order) ou Love Will Tear Us Apart (JoyDivision)? Ultravox, Spandau Ballet, Gary Numan, The Human League, Mad World – o livro – passa em (ent)revista todos esses artistas que nos proporcionaram a trilha sonora duma década nada perdida em canções executadas/regravadas até hoje. E ainda dá pra descobrir coisas como The Waitresses; alguém lembra/conhece I Know What Boys Like? Sem contar que em cada capítulo há um box com canções ligadas de alguma maneira à tematizada na seção. Volta e meia aparece “novidade”. Os 80’s são um saco sem fundo.
Curioso constatar que a criação das canções quase sempre é contada como obra do acaso ou que tomou muito pouco tempo, como se produzir um hit fosse superfácil (por que tantas produziram apenas um se é tão simples?). Cada capítulo tem um box relatando o que os artistas fazem na atualidade; então, os entrevistados sempre fazem questão de esclarecer que a reunião deles não é por dinheiro ou falta de opção, mas sobram alfinetadas em rivais em turnê por grana. Esse pessoal já foi estrela de primeira grandeza em sua maioria, por isso não espantam resquícios de arrogância.
Na verdade, isso que torna tão divertido Mad World – An Oral History of New Wave Artists and Songs that Defined the 1980’s. Traições, alfinetadas, arrependimentos e a crônica de fatos de bastidores que deram forma a bandas e canções componentes da memória afetiva de uma geração.
Talvez a função social desse trabalho de História Oral seja precisamente alimentar nosso banco de memória, traçar elos de solidariedade entre diversos fãs em distintas partes do globo. Gente que como eu ama(va) Yazoo, Depeche Mode e A-Ha. Essa sonoridade, visual e atitude nos representam.

Jayme, obrigado pelo presente de aniversário. Devorei-o com ardor.