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sábado, 23 de outubro de 2021

LITERARIZANDO O NANISMO

Nanismo é o tema da nova obra de literatura infantil inclusiva de Celina Bezerra
O pequeno grande Tião, o menino com nanismo integra a série Amigos Especiais da Editora InVerso


Viver diferente do padrão é para os grandes. Em uma sociedade que ainda precisa avançar muito nos quesitos inclusão e respeito à diversidade, quem nasce com nanismo ou alguma outra condição que compromete o crescimento tem que aprender desde cedo a se enxergar além dos olhares curiosos e chacotas. O pequeno Tião, protagonista do mais novo livro de literatura inclusiva de Celina Bezerra, aprendeu rápido a lição.



Foto: Ana Ribas

“Gosto de, através das minhas histórias, quebrar paradigmas e contribuir para que as pessoas olhem, não para as deficiências, mas sim para as potencialidades do outro”, explica a autora convidando para o lançamento da obra, que acontece no próximo dia 23 de outubro, às 11 horas, no canal do Youtube da Editora InVerso.

O pequeno grande Tião, o menino com nanismo integra a série Amigos Especiais da Editora InVerso e tem ilustrações assinadas por Kitty Yoshioka. A baixa estatura não comprometia a felicidade de Tião, que vivia em uma cidade do interior com sua família. As peraltices eram as mesmas de toda criança, com a vantagem de que ele podia se esconder nos lugares mais inusitados onde mais ninguém cabia.

Nada o impedia de fazer o que queria. Em casa, seus pais adaptaram sua cama, os móveis, a pia e até o vaso do banheiro. Todos adoravam o pequeno amigo de coração enorme. Ninguém o tratava diferente por conta da sua altura.

Tião não sabia o que era Bullying até que precisou se mudar com a família para uma outra cidade, onde foi recepcionado por olhares curiosos, gargalhadas e até piadas. “Por ter sido criado em uma comunidade que o aceitava, Tião conseguiu enfrentar a situação. Se não fosse seguro de si, poderia se fechar para o mundo como acontece com muita gente”, avalia a autora.

Formada em Letras e pós-graduada em Educação Inclusiva e em Educação da infância com Ludicidade, Celina tem se destacado na cena literária pela escrita necessária dedicada às temáticas da diversidade e inclusão.

Tião, Bruna, Sabrina, Charles... Personagens até bem pouco tempo invisíveis na literatura infantil, protagonizam histórias de inclusão que brotam do imaginário da escritora Celina Bezerra. O livro de estreia foi Bruna, uma amiga Down mais que especial, lançado em 2017. Dois anos depois, Sabrina, a menina albina ganhava os holofotes. Em 2021, Charles, a estrela autista chegava ao mercado.

“Tenho 12 temáticas listadas para escrever. Estou lançando a quarta. Ainda pretendo lançar livros com personagens que representem crianças com deficiência auditiva, visual, paralisia cerebral”, lista a autora que já está finalizando a próxima obra que abordará a alopecia areata, uma doença autoimune que também pode estar ligada à genética, que causa a queda total ou parcial de pelos e cabelos. “A personagem não tem sobrancelhas, pelos, cílios. Também não tem livros, ainda”, conclui Bezerra.

Sobre a autora:

Educadora e escritora, Celina Bezerra é carioca mas mora na Bahia há mais de duas décadas. A inclusão é sua marca no universo literário infantil. Bruna, uma amiga Down mais que especial, Sabrina, a menina albina e Charles, a estrela autista são livros já lançados pela série Amigos Especiais, da Editora InVerso. Palestrante e idealizadora do curso Cultura e Literatura Infantil em uma Perspectiva Inclusiva, Celina Bezerra destaca a importância da representatividade. “A criança deve aprender a conviver com a diversidade, desde muito pequena. Quando ela aprende que o mundo é diverso, ela compreende o valor do respeito e, ao crescer, não praticará Bullying. Entenderá que zombar de um amigo por suas características individuais específicas não é engraçado e pode causar sofrimento. Com essa compreensão, a criança crescerá com o valor da inclusão”.

Serviço:
O quê? Livro “O pequeno grande Tião, o menino com nanismo”
Quem? Autora Celina Bezerra com ilustrações de Kitty Yoshioka
Quando? Lançamento dia 23 de outubro de 2021, sábado, às 11 horas
Onde? No Facebook (www.facebook.com/editorainverso) e Youtube (https://www.youtube.com/channel/UCYt-xbPvUGyMS37MIB22omA) da Editora Inverso
Como? Evento gratuito
Quanto? Os livros podem ser adquiridos por R$ 42,00 no site da editora (www.editorainverso.com.br).

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

JURISPRUDÊNCIA ALBINA

No final da manhã, recebi email do Flávio da Silva Azevedo Junior, advogado pós-graduando em Direito da Seguridade Social, contando que seu artigo intitulado "Albinos: uma reflexão sob o prisma do estigma social e consequente incapacidade laborativa frente ao benefício de prestação continuada", foi publicado na revista online Âmbito Jurídico.

Vocês não fazem ideia de quão feliz me sinto com o crescente interesse pelo albinismo e seus temas correlatos dentro da área acadêmica das Humanidades, onde somos ainda quase tão invisíveis quanto no Censo que nos desconsidera. Mas, aos poucos essa situação vai mudando e é mais rejubilador ainda saber que o trabalho do blog tem contribuído pra isso.

Muito obrigado, Flávio, por mais essa contribuição à causa albina. 

Eis o resumo do artigo:

O artigo apresenta o estigma sofrido pelos albinos e suas consequências frente as possibilidades laborativas. Destaca-se ainda, as dificuldades enfrentadas quanto a qualificação profissional, bem como os requisitos exigidos para a concessão de benefício de prestação continuada, com a apresentação de precedente importante quanto a concessão do beneficio de prestação continuada ao albino, bem como, um paralelo com a decisão proferida no processo n° PEDILEF 200783005052586, que concedeu a um portador de HIV, a aposentadoria por invalidez frente a incapacidade social gerada pela patologia.

Albinos: uma reflexão sob o prisma do estigma social e consequente incapacidade laborativa frente ao benefício de prestação continuada está disponível no link abaixo:

  

terça-feira, 24 de março de 2015

TEMPERATURA ACESSÍVEL

UERR desenvolve termômetro para alunos com deficiência visual e auditiva


O aparelho emite som e vibra a medida que a temperatura aumenta. Equipamento ajudará alunos nos laboratórios das escolas públicas.

Um termômetro que ajudará alunos cegos e surdos em laboratórios das escolas da rede pública de ensino de Roraima foi apresentando por professores do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pidib) da Universidade Estadual de Roraima (UERR). O equipamento, que emite som e vibra, foi desenvolvimento em parceria com acadêmico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Uma das idealizadoras do projeto, a professora Régia Chacon, contou ao G1 que três professoras desenvolveram o termômetro com base na realidade já existente entre alunos com deficiência. “Tínhamos um problema”, referindo-se aos alunos cegos ou surdos que ficavam prejudicados nas experiências de laboratório por não disporem de equipamentos adaptados.
“O termômetro, de acordo com a escala, emite sons em código morse, vibra e emite um sinal luminoso na medida que a temperatura vai aumentando. Com isso o aluno tem o controle do material que está trabalhando”, explicou.
Segundo Régia, o projeto começou a ser desenvolvido em maio de 2014. “Entramos em contato com o aluno de engenharia de automação da UFMG e ele fez a parte que nós não sabíamos fazer, a programação. Depois que tínhamos todo o material em mãos o equipamento ficou pronto em uma semana”.
O valor para produzir cada termômetro é baixo, conforme informou a professora. “Ele custa em torno de R$ 50. É bem acessível”, disse Régia. Após a fase de testes, o protótipo será patenteado e ainda deve demorar um tempo para chegar às escolas.
Pidid
O Pibid é desenvolvido na UERR e, desde 2010, conta com 39 subprojetos já implementados. Neste período já foram concedidas 721 bolsas para acadêmicos e supervisores.
Segundo o coordenador institucional do programa, Wanderley Almeida, 21.630 alunos já foram acompanhados no processo de escolarização nas mais diversas atividades na rede pública estadual de educação básica nos campi de Alto Alegre, Boa Vista, Pacaraima e Rorainópolis.
https://assistivaitsbrasil.wordpress.com/2015/03/21/uerr-desenvolve-termometro-para-alunos-com-deficiencia-visual-e-auditiva/

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

CADEIRA MINEIRA

Cadeira permite que pessoas com deficiência física possam ficar de pé e se locomover (Foto: Daniela Ayres)


Inspirado pelo pai, estudante cria cadeira especial no Sul de Minas

Daniela Ayres
Os olhos de Walef Ivo Carvalho, de 18 anos, brilham ao mostrar a evolução de seu famoso invento na garagem no Centro de Santa Rita do Sapucaí (MG), na casa onde mora pai, parte importante nesse trabalho. Walef mesmo testa o aparelho. Arruma os cintos em volta das pernas e do corpo, simulando estar preso a uma cadeira de rodas. Aos poucos, o projeto de nome complicado, “cadeira ortostática dinâmica”, o deixa em pé de novo. Com o toque em um botão, o aparelho vai para frente, para trás, para os lados. Promete o movimento que um acidente tirou da vida de muitos.
“Você tem uma vida sem dificuldades e, de uma hora para outra, você se vê limitado”, comenta em um tom reflexivo. “A minha ideia é ver isso aqui em um supermercado, para que o cadeirante tenha liberdade de pegar um produto em uma prateleira mais alta se ele quiser. Um professor nessas condições poderia se levantar para escrever no quadro. Essas pequenas conquistas mudam a qualidade de vida, fazem diferença para a autoestima”, diz e abre um sorriso de canto a canto do rosto novamente.
Walef sabe do que está falando. Há oito anos, o pai, Leandro Aparecido de Carvalho, chegou a perder todos os movimentos do corpo. Quem vê o serralheiro de 35 anos mal acredita que ele teve a tetraplegia como prognóstico.
Walef simula como cadeira seria usada por um deficiente físico (Foto: Daniela Ayres)
“Era véspera do Natal de 2006”, recorda-se Leandro, hoje com 35 anos. “A gente tinha chegado da missa. Estava quente e eu fui dar um mergulho na piscina. Caí de cabeça e daí por diante não me lembro de mais nada.”
Segundo o pai de Walef, o acidente lhe deixou apenas os movimentos da cabeça. Os médicos pareciam pouco otimistas. Depois de uma semana internado, a possibilidade de uma cirurgia lhe trouxe a chance de, pelo menos, conseguir se sentar. “O médico disse que minhas chances eram de 3% a 10%. Eu decidi lutar para ficar muito além disso. Coloquei na cabeça que se quisesse voltar a andar, teria que ficar de pé”, conta.
Na época, ajudado pelos três irmãos, também serralheiros, uma estrutura com roldanas foi improvisada para que Leandro conseguisse ficar alguns momentos fora da cadeira. Na sequência vieram as sessões de fisioterapia no Centro de Desenvolvimento e Transferência de Tecnologia Assistiva (CDTTA), pertencente ao Inatel, em Santa Rita do Sapucaí (MG), e a recuperação gradativa dos movimentos que hoje lhe permitem circular pela cidade com a ajuda de um andador.
Projeto em evolução 
Estudante pretende tornar cadeira independente de botões (Foto: Daniela Ayres)
A cadeira ortostática, construída em 2012, lembra uma balança daquelas de inox usadas para pesar sacos de batata. A estrutura rústica, no entanto, se mostrou bastante eficiente para o propósito inicial do estudante: garantir uma postura ereta para o cadeirante. Mas, a exemplo do pai, Walef queria vencer novos limites.
No projeto apresentado em uma feira da ETE, Walef trabalhou com uma equipe de colegas de sala. A proposta rendeu prêmios ao grupo durante todo o ano seguinte e preparou o terreno criativo para os avanços que chegariam em 2014.
“No Inatel, eu tive acesso ao CDTTA e comecei a investir em melhorias na cadeira ortostática até chegar na cadeira ortostática dinâmica, que permite que o paraplégico se levante e se movimente”, explica.
Essa segunda etapa do projeto foi desenvolvida a partir de junho deste ano e chegou a ser apresentada ao Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica. Com a inovação, Walef também obteve reconhecimento internacional e da Sociedade Brasileira com Deficiência.
Mesmo sem a equipe que o auxiliou na primeira versão da cadeira, não foi uma conquista solitária. “Eu entendo muito pouco da parte mecânica. Quem me ajuda mesmo nessa parte é meu tio Luciano, é ele que encontra as soluções para as ideias que eu tenho e me ajuda a por em prática”, revela o estudante, que já se prepara para uma terceira evolução da cadeira. “Agora eu quero que ela acompanhe o movimento da cabeça, o que vai ajudar as pessoas tetraplégicas”, imagina o futuro engenheiro de biomedicina.
Se um provável tetraplégico não acreditou em limites, por que Walef acreditaria? É esse sentimento que move as pesquisas do jovem. “Eu fui para a ETE (escola com ensino profissionalizante da cidade) mais para conhecer. Lá, a gente tem que desenvolver algum projeto na área tecnológica e foi nesse momento que pensei na primeira versão dessa cadeira”, conta o hoje estudante de Engenharia Biomédica.
Walef, em primeiro plano, com o pai: troca de experiência para inovação na biomedicina (Foto: Daniela Ayres)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

ALBINISMO NO CANAL FUTURA

O Jornal Futura, do canal homônimo, exibiu esclarecedora reportagem sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com albinismo. A matéria contou com a participação de membros do grupo de albinos do Rio de Janeiro, como Nereida Santos e Mirian Dias.  

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ÓCULOS FALANTES

Os óculos que dão voz

Tecnologia desenvolvida por investigadores portugueses pretende melhorar a comunicação de pessoas com doenças incapacitantes.

Carolina Rico
Uma equipa portuguesa de investigadores desenvolveu o EyeSpeak: uns óculos especiais que permitem a pessoas com doenças incapacitantes comunicarem com os olhos.
Como? Esta tecnologia criada pela LusoVU /LusoSpace projecta um teclado virtual no campo de visão do paciente. Depois, uma microcâmara apontada aos olhos permite monitorizar a sua posição e perceber qual a tecla seleccionada, isto é, aquela para onde o paciente está a olhar. Após escrever uma palavra ou conjunto de palavras, o paciente poderá seleccionar o botão “falar” que irá traduzir em fala o que foi escrito através do altifalante integrado.
A análise do movimento ocular, mas também pode ser utilizada como um rato virtual para, por exemplo, aceder à internet.
A LusoVU /LusoSpace, empresa ligada à indústria aeroespacial, lançou uma campanha de crowdfunding (financiamento colectivo online) para conseguir colocar no mercado o EyeSpeak.
Este é o primeiro sistema móvel e autónomo de comunicação com o olhar, ou seja, ao contrário de outras tecnologias semelhantes, não precisa de estar ligado a um computador para funcionar, nem de ser calibrado.
100 letras por minuto
O presidente executivo da LusoVU /LusoSpace conhece bem as dificuldades em lidar com doenças que impedem a comunicação. O pai de Ivo Vieira sofre de esclerose lateral amiotrófica, a mesma condição do físico Stephen Hawking, que afecta a mobilidade, o impede de se mexer, falar, escrever, mantendo a capacidade cognitiva.
“Além do conhecimento elevado que temos deste tipo de tecnologia, o facto de eu viver a situação do meu pai ajuda-me perceber a dificuldade que é comunicar com ele”, justifica.
“Quando uso uma tabela, a escrita faz-se a quatro letras por minuto, e com este sistema prevejo que possa fazer-se a cem letras por minuto, portanto estou confiante na capacidade deste produto melhorar a qualidade de vida das pessoas que têm estas limitações.”
Cerca de dois milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de esclerose lateral amiotrófica, distrofia muscular, tetraplegia, lesão cerebral traumática, e outras doenças que impactam de forma drástica a comunicação.
A campanha de crowdfindng já angariou 18.871,14 euros, tem agora 22 dias para atingir o total pedido de 110.269,27 euros.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

CONCEITOS ASSISTIVOS



Automação Residencial Assistiva


A Tecnologia Assistiva lida com dispositivos e serviços criados para amenizar as dificuldades de quem tem deficiências ou fragilidades pela idade.
A terminologia Tecnologia Assistiva começou a tomar vulto inicialmente em 1988, dentro de uma legislação norte-americana criada para “promover a provisão de assistência tecnológica para indivíduos com deficiências e para outros propósitos”, a Public Law 100-407. [1]
A Tecnologia Assistiva pode ser definida como “uma ampla gama de dispositivos, serviços, estratégias e práticas que são concebidas e aplicadas para amenizar os problemas encontrados pelos indivíduos com deficiências” (Cook & Hussey, Assistive Technologies: Principles and Practices,1995). O intuito final é aumentar a autonomia, segurança e conforto de quem a utiliza, gerando mais confiança para as tarefas no dia a dia o que, como consequência, diminui também as dificuldades psicológicas destas pessoas.
A partir das características das deficiências do usuário (deficiência de mobilidade, visual, audição, fala, cognitiva ou fragilidades devidas à idade avançada) e do universo no qual está situado (tipo de residência, dimensão da família, rotinas e outros aspectos), traçam-se os parâmetros para definir o tipo de assistência que terá de ser implantada.
Há de se notar que este planejamento tende a atingir cada vez mais idosos, devido ao aumento da expectativa de vida e à diminuição do tamanho das famílias, com mais e mais idosos passando a residir sozinhos e com pouco suporte familiar.
Controles
Monitorando-se atividades cotidianas e detectando-se diferenças no comportamento esperado do usuário, pode-se suspeitar de algo de errado ocorrendo na residência. Por exemplo, se o morador deixa de apertar um botão ou executar uma outra ação pré-determinada qualquer, dispara-se um alarme numa central de assistência remota e/ou na casa de um parente.
E esse mesmo sistema de Automação Assistiva vai regular a iluminação e climatização dos ambientes de acordo com o horário, a temperatura externa ou outros parâmetros quaisquer que se desejem.
Mais ainda, o sistema automatizado pode detectar a movimentação do usuário à noite e provê-lo de iluminação suave mas suficiente para que ele se desloque para a cozinha ou banheiro.
Benefícios e Custos
Se os gastos com Automação Residencial Assistiva implicam num acréscimo de valor no custo da construção ou no retrofitting de uma residência, este valor certamente será inferior ao de se manter deficientes ou idosos em estabelecimentos especializados. Em outras palavras, a Tecnologia Assistiva é conveniente e econômica para o Estado por prover deficientes e idosos de todos os meios necessários para que possam ter em suas residências a estrutura adequada para usufruírem de todos os cuidados necessários, sem ter que recorrer a estruturas exteriores, poupando o Estado de ter que criar e manter tais estruturas (de saúde e suporte terapêutico, essencialmente), que tendem a ser onerosas.
Além disso, há as melhoras físicas e psicológicas proporcionadas por pela autossuficiência ao usuário, que é privilegiado quando tem maior independência e pode viver num espaço que é só seu.
E não são somente os ganhos para o Estado e os usuários diretos da Automação Assistiva que devem ser considerados, mas também o que todas as partes interessadas ganharão com estas tecnologias em termos de tranquilidade e conforto.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

EXEMPLO INGLÊS

The Cure entra em campanha para aumentar acessibilidade em shows

A organização Attitude Is Everything foi fundada no ano 2000 como um projeto piloto para aumentar o acesso à música ao vivo para pessoas surdas e portadoras de deficiência através de parcerias com músicos, estabelecimentos e a indústria em geral.

Quase quinze anos depois, já com reconhecimento do Conselho de Artes da Inglaterra, a organização lança a campanha #MusicWithoutBarriers, que conta com a participação de nomes como Robert Smith (The Cure) e Alex Kapranos (Franz Ferdinand) para incentivar mais estabelecimentos a aderirem à Carta de Boas Práticas do projeto.

A mensagem principal da campanha é divida em quatro pontos: melhorar a acessibilidade não precisa ser caro, há vantagens para os negócios em aumentar o acesso, divulgar com antecedência as informações a respeito de acessibilidade é crucial, e nem todas as pessoas portadoras de deficiência são cadeirantes.

Além de Franz Ferdinand e The Cure, Frank Turner e bandas como Alt-J, Slow Club, Summer Camp e Mystery Jets aderiram à campanha, que divulgarão através de suas redes sociais utilizando a hashtag que a batiza. O Musicians Union e a Featured Artists Coalition, organizações que representam os músicos da Inglaterra, também estão participando.

O porta-voz da campanha é Blaine Harrison, líder do Mystery Jets, que é portador de uma malformação congênita da coluna vertebral:

“Não importa se é assistir a banda de um amigo numa casa local ou assistir o Radiohead na plataforma para deficientes do Glastonbury, shows deviam ser acessíveis a todos. Eu gostaria de ver mais estabelecimentos analisando cuidadosamente o que podem fazer para acomodar um público mais diversificado”.

Até o momento mais de 90 estabelecimentos e festivais assumiram um compromisso com a Carta de Boas Práticas.

http://www.territoriodamusica.com/noticias/?c=36245

quarta-feira, 11 de junho de 2014

SOBRE PEDRAS NO CAMINHO E CAPACITISMO

Pessoas com deficiência e o mundo ao seu redor

Dificuldades enfrentadas no cotidiano revelam a necessidade de se promover um ambiente plural.

Ariane Alves

Possuir algum tipo de deficiência (motora, visual, auditiva, intelectual o múltipla) sempre foi visto como fonte de problemas de interação, seja com as pessoas que não vivem uma realidade semelhante, seja com os elementos e ferramentas presentes em um mundo que parece não estar preparado para que todos e todas possam nele conviver em harmonia.
Ainda que seja difícil para muitos a aceitação de que nem todos conseguem usufruir de tudo o que se encontra disponível em uma sociedade voltada para pessoas sem nenhum tipo de deficiência, o cenário vem mudando. A criação de leis e estatutos deliberando a aplicação de políticas públicas específicas, bem como a presença de ONGs e órgãos públicos que atuam fortemente na área, são iniciativas que caminham para tornar possível um ambiente mais inclusivo - que possa ser usufruído por todas as pessoas.
Para que essas mudanças ocorram, é necessário vencer certas barreiras. A primeira delas é a acessibilidade. Eliminar as dificuldades de acesso tem sido uma preocupação constante principalmente no campo do transporte, da informática e das construções. Maria Isabel Silva, jornalista e gestora da Assessoria de Comunicação Institucional da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo, define: “Quando se criam atividades, eventos, produtos e serviços que não são pensados para todos, sempre alguém fica de fora. E, se não há acessibilidade, as pessoas com deficiência ficam excluídas. É como se uma parte da sociedade estivesse ‘fechada’ para esse segmento.”
A segunda barreira, mais importante que a primeira para Maria Isabel, é o preconceito atitudinal, também chamado de capacitismo. O termo é usado para definir a lógica de ação que exclui, subordina e inferioriza as pessoas com deficiência. Equivale ao racismo para as pessoas negras e ao machismo para as mulheres. Muitas vezes, utiliza-se o pretexto de as estar ajudando, mas sempre com uma visão paternalista e hierárquica, como se quem não possuísse deficiência fosse “superior” a quem possui. “Não se deve reduzir a pessoa à sua limitação”, aponta a jornalista.
Por último, há a barreira da comunicação, que se forma quando jornais, revistas, programas de televisão e sites da internet não se fazem acessíveis. Na era da informação, ser impedido de chegar até as notícias de forma autônoma é um problema muito grave. Como exemplo de ações inclusivas, há as opções de legendas em vídeos ou tradução em LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais), além de versões em áudios para textos da internet.
“A maior minoria do mundo”
Modelo Viktoria Modesta usando perna mecânica desenhada artisticamente por Sophie de Oliveira Barata, idealizadora do “The Alternative Limb Project” (O Projeto do Membro Alternativo) <http://www.thealternativelimbproject.com/#>. Foto: Jon Enoch
Segundo a ONU, as pessoas com deficiência constituem 10% da população mundial (aproximadamente 650 milhões de indivíduos). Isso as torna “a maior minoria do mundo”, pois, em vários momentos, sofrem marginalização e exclusão por grande parte da sociedade, seja por desinformação ou sentimento de superioridade.
A segregação é percebida em vários momentos. No ambiente de trabalho, quando não se tem a falsa impressão de que as pessoas com deficiência são incapazes de realizar suas funções, utiliza-se o subterfúgio dos custos altos para a adaptação. No Brasil, há a Lei de Cotas (Lei 8.213 de 24 de julho 1991), que define, entre outras coisas, uma porcentagem mínima de trabalhadores com deficiência dentro de toda empresa privada. Porém, mesmo a Lei não garante o acesso pleno ao mercado de trabalho. “Se uma pessoa é contratada por uma empresa e não encontra um ambiente receptivo, pessoas dispostas a dar oportunidade a ela de aprender e desenvolver seu trabalho, terá aí um obstáculo”, comenta Maria Isabel. “A empresa estará cumprindo a Lei, mas não vai acontecer inclusão”.
Possuir algum tipo de deficiência também é um fator potencializador da exclusão de pessoas com baixa renda, pois cumprir uma rotina comum se torna algo muito mais difícil. Lugares que permitem acesso total são raros e a maior parte está localizada em bairros de classe alta. Bares, restaurantes, shoppings, teatros, cinemas, etc. não são, na maioria das vezes, pensados de forma inclusiva, e devem fazer as adaptações sob altos custos posteriormente.
Desenho Universal
Cozinha com desenho universal planejada pela marca italiana Snaidero. Foto: Divulgação/Snaidero
O termo Desenho Universal (ou ainda Desenho Total/Inclusivo), conforme o Decreto 5296/04, é a “concepção de espaços, artefatos e produtos que visam atender simultaneamente todas as pessoas, com diferentes características antropométricas (relativas às medidas do corpo humano) e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável, constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a acessibilidade”. Entre os exemplos, podemos citar portas com sensor de movimento, cadeiras e poltronas de tamanhos grandes e a utilização de Braille e letras em relevo para informativos.
Além disso, há formas muito positivas de aceitar a condição de possuir deficiência. É o caso do “The Alternative Limb Project” (O Projeto do Membro Alternativo), idealizado pela designer de próteses Sophie de Oliveira Barata e que cria membros artificiais customizados e artisticamente elaborados. Entre os modelos, que variam de pernas cristalizadas a braços em formato de serpentes, há também a opção de membros realistas, para quem deseja algo com a aparência similar aos membros biológicos.
Todas essas alternativas caminham para promover um ambiente inclusivo e eliminar a lógica capacitista. Para a jornalista Flávia Vital, que usa cadeira de rodas há 10 anos, as cidades não estão preparadas como deveriam para receber todas as pessoas de forma não conflituosa. Em sua visão, é o ambiente em si que não promove a inclusão. “Quando você tem um planejamento na cidade que prioriza não só a acessibilidade, mas toda a mobilidade urbana, onde todo mundo que usa a cidade possa participar em igualdade de condições, a inclusão é feita naturalmente”, afirma.
Pedras no meio do caminho
Trecho rebaixado na calçada da Rua Itapeva com sérios problemas de acesso. Foto: Projeto “Guardiões das Calçadas”
A rotina estressante de São Paulo contribui para que as falhas no sistema de acessibilidade seja prejudicial para os dois lados. Flávia coordena o setor de Transportes da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e critica a presença de ônibus com elevadores, que demandam um tempo longo de operação, habilidade por parte do cobrador ou motorista, e possuem um sistema complexo e facilmente danificável. A melhor opção é o piso baixo, de fácil operação e que demanda um tempo curto para concluir a entrada da pessoa com cadeira de rodas no veículo. Quando um ônibus com elevador para no período da manhã e inicia sua operação, exemplifica Flávia, acaba gerando um mal estar tanto nos passageiros que aguardam, quanto na pessoa que se vê adentrando um ambiente constrangedor. “É uma série de incômodos que geram um descontamento de estar próximo a uma pessoa com cadeira de rodas”, comenta. Além disso, há as calçadas com rebaixamento, que são feitas de pedra portuguesa, um material de difícil manutenção e que frequentemente se encontra danificado. Flávia chama este tipo de calçada de “liquidificador de cadeirante”, pois torna o acesso à calçada extremamente difícil e prejudicial.
A jornalista cita ainda pequenas cenas do cotidiano que se tornam verdadeiros fardos para as pessoas com deficiência. O simples fato de entrar em um restaurante torna-se um constrangimento por ter que mobilizar muitas vezes tanto os funcionários quanto alguns clientes para que todos se acomodem. Além disso, o fato de serem poucos os ambientes privados com as adaptações adequadas limita ainda mais seu o cotidiano. “Em São Paulo, há trilhões de restaurantes. A gente sempre vai nos mesmos”, aponta. Flávia cita a Pinacoteca, o Centro Cultural São Paulo e as unidades do Sesc como lugares acessíveis, aonde a pessoa pode “ir sem medo”.
À exceção de casos de negligência na adaptação e falhas em aplicações práticas de certos projetos, grande parte das iniciativas de inclusão já existentes vêm mostrando resultados positivos e servem de exemplo para o futuro. Flávia comenta que, quando víamos personagens com deficiência em filmes e novelas, sempre aconteciam “milagres” que os faziam andar, enxergar, escutar, etc. Mas, hoje, já estamos nos acostumando a ver trajetórias mostrando que “a deficiência não é a melhor, mas também não é a pior coisa do mundo. Ninguém deixa de viver por conta da sua deficiência”.

“Evite o Capacitismo! - Terminologias para promover um ambiente inclusivo e não discriminatório”
- “Especial”, “excepcional”, “dito-normal” e “anormal” não devem ser utilizados, pois, se todos somos diferentes, como designar os “especiais”?
- Deficiência não é doença e, muito menos, “transmissível”
- A palavra “deficiente” não deve ser utilizada como substantivo, pois passa a impressão de que a pessoa inteira é deficiente, e não que apenas possui a condição
- Evite generalizações para se referis às pessoas com deficiência. Elas são, acima de tudo, pessoas, com talentos aptidões e falhas de caráter como qualquer outra.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

ACESSIBILIDADE E MOBILIDADE URBANA

Desafios contemporâneos para Pessoas com Deficiência
Wiliam Machado


Embora bastante freqüente nos noticiários veiculados pela atual mídia, a acessibilidade como elemento essencial da mobilidade urbana não evolui e pouco se pode comemorar como favoráveis os resultados práticos no plano objetivo das cidades brasileiras, confirmando-se barreira repleta de significados determinantes da ineficácia e conveniência institucionais. A percepção das inadequadas condições urbanas para pleno exercício do direito de ir e vir das PcD, assegurado pela nossa Carta Magna, até nos constrange, mas não nos intimida, acovarda, porque temos consciência do campo a ser conquistado em termos de mobilização pacífica, ordeira, capaz de despertar corações e mentes inertes daqueles que de fato podem transformar o estabelecido.

Ademais, é imperativo lembrar que estamos tão-somente reivindicando o deliberado pelo congresso brasileiro que acatou a reivindicação das pessoas com deficiência no sentido de outorgar status constitucional ao ato de ratificação da Convenção da ONU sobre direitos da PcD. A Convenção é clara e deve ser aplicada, sob pena de entendermos que existe no sistema legal norma sem eficácia. Sendo aprovada por quórum qualificado, estando afinada com toda a política inclusiva do Texto Constitucional, não podemos falar em permissão de legislações que retroagem no dever de incluir.

É humanamente inconcebível, porém politicamente previsível, que maioria da frota que transporta a população da região metropolitana das grandes cidades brasileiras, não assegure acesso digno para cadeirantes, idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Humanamente inconcebível pelo que representa no plano da exclusão, discriminação e preconceito para com cidadãos que apresentam performance corporal física diferente. Politicamente previsível, pela confortável e conveniente postura adotada por aqueles que creditamos legítimos representantes e defensores em esferas superiores, e nada fazem para corresponder.

Pleitear acesso digno em sistemas de transporte de massa como o das nossas grandes cidades, nos quais não se observam menores padrões civilizáveis, pode parecer absurdo, mas fundamental para quem não se enquadra nos parâmetros de funcionalidade da maioria. Nossa base e fundamento parte do orientado pelo paradigma dos direitos humanos, em que emergem os direitos à inclusão social, com ênfase na relação da PcD e do meio em que ela se insere, bem como na necessidade de eliminar obstáculos e barreiras superáveis, sejam elas culturais, físicas ou sociais, que impeçam o pleno exercício de direitos humanos.

Quantos relatos de cadeirantes que “mofam” a espera de ônibus para embarcar, quando maioria dos motoristas sequer os percebam e seguem viagem, inclusive, no Rio de Janeiro, onde serão realizados Jogos Paraolímpicos de 2016. Quando algum motorista para, o cadeirante não pode embarcar, pois a plataforma não funciona, enquanto os demais passageiros reclamam de suposto atraso, etc. O mesmo transtorno e humilhações para embarcar e seguir viagem, se optar pelo uso do transporte ferroviário convencional ou do Metrô.

Para complicar, as guias de acesso das calçadas para a pista de rolamento e vice versa representam elementos de significativos riscos para quedas de cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, não somente pelo precário estado de conservação, mas potencializado pela largura e inclinação. A NBR 9050 é clara e estabelece 80 cm para vãos de acesso à cadeira de rodas, até 20º de inclinação, e por se tratar de superfície côncava, o bom senso sugere que, fora bordas, os 80 cm devem ser lineares.

Tudo isso se complica ainda mais devido às péssimas condições de conservação das calçadas, dever dos proprietários dos imóveis e competência de fiscalização das prefeituras, sem que sejam tomadas medidas políticas norteadoras. Basta que sejam respeitadas normas de padronização estabelecidas na NBR 9050:2004, o determinado no Decreto Nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, que promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007, suficientes para mudanças na Lei Orgânica Municipal (LOM) de cada cidade.

Mobilidade urbana em tempo de Copa do Mundo e vésperas das Olimpíadas requer pensar em grandes fluxos humanos, nos estádios e demais ambientes que sediarão as competições. Nesse aspecto, há que se atentar para a largura das rampas que deve ser estabelecida de acordo com o fluxo de pessoas. A largura livre mínima recomendável para as rampas em rotas acessíveis é de 1,50 m, sendo o mínimo admissível 1,20 m. Entretanto, em edificações existentes, quando a construção de rampas nas larguras indicadas ou a adaptação da largura das rampas for impraticável, podem ser executadas rampas com largura mínima de 0,90 m com segmentos de no máximo 4,00 m, medidos na sua projeção horizontal.

É importante destacar que os pisos devem ter superfície regular, firme, estável e antiderrapante sob qualquer condição, que não provoque trepidação em dispositivos com rodas (cadeiras de rodas ou carrinhos de bebê). Admite-se inclinação transversal da superfície até 2% para pisos internos e 3% para pisos externos e inclinação longitudinal máxima de 5%. Inclinações superiores a 5% são consideradas rampas. Recomenda-se evitar a utilização de padronagem na superfície do piso que possa causar sensação de insegurança (por exemplo, estampas que pelo contraste de cores possam causar a impressão de tridimensionalidade).
Nas edificações e equipamentos urbanos todas as entradas devem ser acessíveis, bem como as rotas de interligação às principais funções do edifício.

Na adaptação de edificações e equipamentos urbanos existentes deve ser previsto no mínimo um acesso, vinculado através de rota acessível à circulação principal e às circulações de emergência, quando existirem. Nestes casos a distância entre cada entrada acessível e as demais não pode ser superior a 50 m. Quando existirem catracas ou cancelas, pelo menos uma em cada conjunto deve ser acessível. Quando existir porta giratória ou outro dispositivo de segurança de ingresso que não seja acessível, deve ser prevista junto a este outra entrada que garanta condições de acessibilidade. Além de ser prevista a sinalização informativa, indicativa e direcional da localização das entradas acessíveis.
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sexta-feira, 23 de maio de 2014

OPORTUNIDADES PRA TODOS

Em defesa da Lei de Cotas

A Lei de Cotas é boa, atual, eficaz e aplicável *Artigo de Francisco Izidoro, presidente da Associação de Deficientes e Familiares (Asdef)

Francisco Izidoro

A Lei nº 8.213/91 - também denominada Lei de Cotas, que dispõe sobre a contratação de pessoas com deficiência e visa superar o processo de exclusão historicamente imposto a este parcela da sociedade no mercado de trabalho e conscientizar a sociedade acerca das potencialidades desses indivíduos. Como sempre acontece no Brasil, as leis que garantem direitos aos segmentos mais vulneráveis da sociedade são postas na geladeira e tratadas com inércia ou omissão pelo poder público. Sancionada em 1991, o art. 93 da Lei de Cotas só foi regulamentado oito anos depois pelo Decreto nº 3.298 de 1999, posteriormente alterado pelo Decreto nº 5.296 de 2004, que definiu os conceitos de deficiência indispensáveis para a aplicação da lei. Na prática a Lei de Cotas só passou a existir em 2001, dez anos após a sua aprovação, quando foram iniciados os procedimentos de fiscalização e multas por parte do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Se hoje, diante da possibilidade de multa, muitos empregadores deixam de cumprir a lei, imagine antes de 2001, quando não havia sequer fiscalização. Com essas breves considerações, podemos afirmar que é um equívoco dizer que a política de cotas existe há 23 anos, como temos visto em alguns artigos que analisam a eficácia da referida lei. De fato o sistema de cotas passou a existir a partir do Decreto 3.298 e das normas de fiscalização do MTE. Até então, quem cumpria a lei, o fazia por mera liberalidade, pois não havia ainda os parâmetros legais definidores das deficiências. Em 13 anos de efetiva aplicabilidade da Lei de Cotas atingimos a marca de 325 mil trabalhadores com deficiência regularmente contratados, segundo dados da RAIS de 2011 (Relação Anual de Informações Sociais). É pouco, se considerarmos que este número representa menos de 1% da força de trabalho brasileira e menos de um terço do total de vagas que deveriam estar ocupadas por pessoas com deficiência, se a lei fosse fielmente cumprida. Todavia, se considerarmos as circunstâncias concretas e os obstáculos para a inserção da pessoa com deficiência no mercado de trabalho, veremos que os números estimulam-nos a continuar a caminhada. A lei, por si só, não muda uma realidade histórica de exclusão. Nesses 13 ou 23 anos de lei de cota, como queiram, pouco ou quase nada foi pelo poder público para criar as condições para que as cotas saíssem do papel para vida real. As empresas também não fizeram a sua parte. No Brasil é comum se defender a alteração de uma lei quando ela não cumpre plenamente seus objetivos. E os que defendem a mudança são exatamente aqueles que poderiam ou deveriam criar as condições para tornar a norma uma realidade. Boicotam ou dificultam a sua aplicação, para depois pedirem a mudança, com a falsa alegação de que a lei é inaplicável. A Lei de Cotas é boa, atual, eficaz e aplicável. A ASDEF defende a manutenção integral da sua redação e combate qualquer tentativa de flexibilizá-la ou esquarteja-la para atender a interesses de grupos econômicos. O problema não está na lei, mas sim na falta de políticas públicas que facilitem o ingresso da pessoa com deficiência na vida produtiva e na passividade das empresas que se apegam às dificuldades para justificarem a omissão em relação a lei e o desrespeito ao princípio constitucional da função social da propriedade. Dificuldades com falta de profissionais qualificados, obstáculos arquitetônicos e falta de acessibilidade não são desculpas para o não cumprimento da lei. Reconhecemos que elas existem, em maior ou menor grau, mas não são insuperáveis. Diversas experiências pelo país afora demonstram que, com vontade e determinação, é possível contornar os obstáculos e incluir a pessoa com deficiência, com respeito e dignidade. É possível que haja necessidade de uma legislação que contemple situações específicas, ou que possibilite estímulos às empresas que investirem em acessibilidade, em qualificação profissional e contratação de pessoas com deficiência. Estamos dispostos a enfrentar este debate e até apoiar estes pleitos, mas sem desfigurar a Lei de Cotas, pois representa uma conquista na luta pela inserção social da pessoa com deficiência.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

IFRS INCLUSIVO

A Pró-reitoria de Extensão do Instituto Federal do Rio Grande do Sul lança o livro "Soluções Acessíveis: experiências inclusivas no IFRS", que engloba artigos nas áreas de inclusão, tecnologia assistiva e acessibilidade.Os organizadores do livro são Andréa P. Sonza, Bruna P. Salton e Jair A. Strapazzon.

Artigos e autores:
Checklist de Averiguação da Acessibilidade no IFRS (Ana Sara Castaman, Andréa P. Sonza, Ivanir N. Pigozzo, Jair A. Strapazzon, Luiza L. Loder, Milene G. Liska, Vinícius Lousada);

Avaliação Manual de Acessibilidade no Projeto de Acessibilidade Virtual do IFRS (Anderson Dall'Agnol, Everaldo Carniel, Lael Nervis);

Criação de Documentos Digitais Acessíveis (Bruna P. Salton);

Dedução de Área das Figuras Geométricas Planas – Uma Forma Inclusiva (Érick Scopel, Franciele Lorenço, Kelen B. de Mello, Naiara Dal Zotto);

Material Tátil-visual para o Ensino de Física (Marina Dal Ponte, Tamara Salvatori, Andréa P. Sonza);

Paralisia Cerebral – Comunicação Alternativa (Josiane P. Ferreira, Sirlei Bortolini, Jair A. Strapazzon);

Educação de Surdos (Fabíola Féo, Sirlei Bortolini);

Em Busca de Soluções Acessíveis para a Comunidade da Restinga, Porto Alegre, RS (Hernanda Tonini, Pedro C. da Rocha);

Inclusão Educacional, Informacional e Profissional da Pessoa com Deficiência no IFRS: o case AC (Lizandra B. Estabel, Clarice M. Escott, Maria Cristina C. de Castilhos França, Rodrigo P. Machado);

Descobertas de um Aluno com Deficiência Visual e suas Primeiras Experiências com o Computador (Nádia Maia, Sirlei Bortolini);

O Papel do Psicopedagogo na Educação Inclusiva e o Uso das TICs (Maria Isabel Accorsi);

Tutorial para Conversão de Arquivos para o Formato Daisy (Tamara Salvatori, Marina Dal Ponte, Andréa P. Sonza);

ACALM – Assistente de Comunicação Alternativa e Aumentativa Móvel (Lisiane C. de Oliveira, Maria Inês Simon, Fabrício K. Brenner);

Produção de um Acionador Capacitivo de Baixo Custo (Juliano Gatto);

Produção de uma Colmeia de Teclado de Baixo Custo (Juliano Gatto);

Desenvolvimento de Tecnologia Social Assistiva de Baixo Custo (Rodrigo Cainelli).

O livro pode ser baixado no link:

terça-feira, 6 de maio de 2014

TROCA DE IDENTIDADE

O que aprendi quando fechei meus olhos

Nossa repórter topou ficar vendada para mergulhar no universo da irmã, que tem deficiência visual. A tarefa trouxe à tona suas fragilidades e algumas lembranças antigas



Cristiana Felippe e Silva

Tudo ficou escuro naquele início de tarde ensolarada. E eu só escutava uma voz me dizendo: "Vai, Cristiana!". E agora? Vendada com uma máscara para dormir e acompanhada de uma bengala, pensava por que queria vivenciar a rotina de um deficiente visual. A resposta era clara, só eu não enxergava: queria saber o que minha irmã mais nova, Glenda, de 37 anos, sentia. Glenda, mãe do Jonas, de 13, parou de enxergar há 20 anos, por causa da diabete, problema que a acompanha desde a infância. Eu xingava Deus naquela época e me perguntava por que Ele não levava um olho de cada uma - assim poderíamos continuar vendo a vida juntas.

Os meus primeiros passos foram no Centro de Apoio ao Deficiente Visual (cadevi), em São Paulo. Com muita precisão e sensibilidade, a instrutora Tânia Antero me deu as noções básicas sobre como usar os diferentes tipos de bengala. A dificuldade inicial foi não usar a mão esquerda para antecipar as barreiras.

Minha cabeça pesava. E não eram só os pensamentos. Eu me dava conta do quanto era incrível se movimentar carregando cinco quilos sobre o pescoço. Andava com os ombros arqueados e o bumbum empinado (foi engraçado, porque só tive noção mais tarde, quando me mostraram uma foto). Era como se eu tivesse que dominar um corpo desconhecido. Como só fecho os olhos para dormir, senti sonolência. Estava ainda assimilando o "marzão" profundo de sentimentos ao qual eu havia sido despejada.

Quando passei a andar sozinha (no início, com Tânia ao lado ou mais à frente, dando dicas quando eu me perdia), percebi como a bengala vira uma extensão do corpo, fundamental para a independência. Veio a lembrança de quando eu ficava sem jeito se a Glenda saía de bengala comigo. Primeiro, pelo meu próprio preconceito, porque vinha o constrangimento de todo mundo nos olhando. Também me sentia impotente e interpretava seu uso como falta de confiança dela em mim como guia.

Tive dificuldade no início para rastrear os degraus: eu os reconhecia, mas me imaginava rolando e isso me bloqueava. Outro flashback: muitas vezes fiz minha irmã tropeçar, porque me empolgava papeando e esquecia de avisá-la sobre os obstáculos.

Antes de sair para a rua, fui ao banheiro. Perdi alguns minutos reconhecendo o local até entender onde ficava a privada e encontrar o papel higiênico. Xii, mas e depois, como jogar o papel sem tocar no lixo? Santa bengala! Hábitos mecânicos e rotineiros eram novidade. Ao lavar as mãos, estranhei não olhar para o espelho, mas ao mesmo tempo comecei a ver meu retrato mais nítido: perdia o medo de enxergar a vida, enfrentando meu orgulho, meu preconceito e meu medo do desconhecido.

PRIMEIROS PASSOSJá na rua, senti o ar fresco, um odor diferente e o barulho dos carros se aproximando. Se as calçadas paulistanas já são ruins para quem enxerga, imagine o que representam os obstáculos das muretas, postes, pisos irregulares, buracos e tantos outros empecilhos para pessoas com deficiência. O odor do combustível das motos me confundia - achava que estava próxima a um posto. Garagens sem sinal sonoro para avisar a saída de carros são apenas um dos perigos. Por isso, eu tinha que prestar atenção dobrada quando passava perto de uma. Fiquei feliz quando percebi a esquina e comecei a entender como me desviar. No começo, foi difícil manter o foco e prestar atenção em barulhos diferentes. Os pisos táteis (com bolinhas e traços em relevo) ajudavam um pouco, mas nem sempre os reconhecia. Sentia-me frágil e dependente - ao mesmo tempo, mais forte à medida que vencia cada pequena barreira.

Um moço mexeu comigo na rua, perguntou meu nome e queria saber se eu precisava de ajuda - apenas agradeci. Dá para notar a intenção de uma pessoa pelo tom de voz. Quando você não enxerga, é necessário desenvolver os outros sentidos. Pedi para a Tânia me acompanhar até uma drogaria. É quase impossível achar o produto sem ajuda: poucas embalagens estão em braile e é muito difícil circular nos corredores estreitos, esbarrando em tudo. Fiquei envergonhada na hora de pagar com cartão, porque pensava que era muito simples digitar os números, mas fiz isso várias vezes e minha senha foi negada. Ao pagar em dinheiro, percebi que é preciso ter as notas muito organizadas na carteira, lembrar da ordem e confiar que as pessoas darão o troco correto.

Nessa hora, apareceu uma lágrima escondida. Lembrei do dia em que precisei tomar consciência de que minha irmã não iria mais enxergar, depois de dezenas de aplicações a laser e muitas cirurgias. E, quando ela me disse que queria aprender braile, porque não ia parar no tempo esperando a medicina. Fizemos o curso juntas e, a partir de então, passamos a trocar cartas e letras de música.
Saindo de lá, Tânia deve ter percebido que eu estava me sentindo diferente e perguntou se eu queria parar. Mas, estimulada pelo cheirinho delicioso de pão que vinha da rua, decidi ir sozinha à padaria de um supermercado. É uma sensação muito estranha depender dos outros, e o atendente percebeu meu nervosismo, porque puxou conversa dizendo que muitas pessoas com deficiência compravam ali. Pedi apenas três pães, mas fiquei imaginando o quanto é difícil fazer a compra inteira. Glenda até hoje vai com a nossa mãe.

Alívio ao pagar em dinheiro no caixa e sentir que a missão estava parcialmente cumprida. Tânia me recebeu lá fora e disse que já era suficiente para um dia. Minha cabeça doía muito, mas ao abrir os olhos recebo um presente do Universo. Não percebi que tinha anoitecido e uma linda lua cheia me esperava. Ver deixa-nos acomodados: estamos tão acostumados a ter os olhos à disposição que agimos mecanicamente e nos esquecemos de apreciar ao nosso redor - ligamos o botão do automático e lá vamos nós, mas para onde? Passei a perceber a cor da vida de forma mais intensa e seus contrastes. Glenda me contou que, até hoje, sonha colorido.

CINCO DIAS DEPOIS
Fiz a experiência em várias etapas, por recomendação de Tânia. Ela já havia passado por esse processo para conseguir trabalhar com isso e, assim, sabia que é um choque emocional muito grande. Foram cinco dias não consecutivos para terminar o que pensava fazer em apenas uma tarde. Em casa, tentei ter outras experiências. Lavei louça de olhos vendados e até que o resultado não foi tão mal: não quebrei nenhum copo, mas, quando abri os olhos, tinha um prato ainda bem sujo. O mais engraçado foi a perda do celular, porque costumo acordar com o despertador dele na minha cabeceira. Ao arrumar a cama sem enxergar, nem percebi que tinha caído entre os travesseiros. Descobri pelo som quando liguei do fixo e foi uma ótima oportunidade para rir de mim mesma, o que preciso fazer mais vezes em outras situações.

Como parte da experiência, convidei Glenda para ir comigo a um teatro com audiodescrição. A cena que mais chamou a atenção não foi a da peça, mas a que contracenamos. De olhos vendados, falei alto demais com ela, que me chamou a atenção. Quase chorei naquele momento, mas logo acabamos rindo juntas, porque ela me serviu uma bala e eu não peguei, porque não percebi. "Esqueci que você está cega!", disse ela.

PARA TERMINAR
A parte final desta reportagem seria escrever a matéria utilizando um software especial. Como não tenho o hábito de olhar para o teclado enquanto escrevo, achei que isso seria fácil. Mas não foi bem assim. Quando o computador falava uma espécie de japonês robótico, eu tinha que repetir muitas vezes para entender. Também me dispersava completamente caso alguém viesse conversar. Era horrível começar tudo de novo. Exercícios simples do "asdfg" (para tentar pegar mais prática e escrever pelo menos o primeiro parágrafo) me deixavam irritada: fada, afaga, safada. Mal consegui escrever o meu nome sem mouse, em uma hora e meia.

E, de tudo o que fiz vendada, uma das coisas mais difíceis foi me deixar ser conduzida por minha irmã da casa dela até o metrô. Fiquei insegura: será que ela daria conta do trajeto? Nesse instante, lá veio a memória funcionar de novo, com a cena do dia em que segui Glenda escondida, com medo de deixá-la pegar o ônibus sozinha pela primeira vez. E agora, vendada, tive dificuldade para descer escadas. Eu segurava a Glenda pelo braço e também usava a bengala. Pedi para que fosse mais devagar. Quase abortei a operação, mas persisti. Uma mulher nos ajudou a atravessar a rua e, como ela foi muito rápida, quase tropecei. Um tempo depois, Glenda me confessou que essa inversão de papéis havia feito ela se sentir insegura, sem saber o que fazer, querendo me pegar no colo. Isso a ajudou a ter uma pequena noção do que eu senti, tantas vezes, ao tentar superprotegê-la. Glenda então se despediu e me deixou só. Tomei coragem e fui até o fim, esperando algum segurança do metrô me ajudar a comprar um bilhete e embarcar na plataforma. No trem, fui ajudada e logo pude me sentar. A mesma pessoa depois me ajudou a chegar ao meu destino.

Passei por várias fases com a perda de visão da Glenda: da revolta e descrença à superproteção. Mas, com o tempo, compreendi que ela precisava seguir seu caminho sozinha. E também já me culpei, em momentos difíceis, por ficar mal ou triste - depois que minha irmã perdeu a visão, passei a achar que deveria superar tudo, porque eu tinha os olhos perfeitos e ela não. Mas vendar os olhos me fez enxergar que todos nós temos as nossas dificuldades a superar. Hoje, consigo ver minha irmã como uma vencedora, a quem admiro muito - a propósito, Glenda é campeã brasileira de xadrez para pessoas com deficiência visual. Sei que ainda vamos aprender mais lições uma com a outra, compartilhar vitórias e derrotas. E, principalmente, o nosso olhar para o mundo.

 http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/o-que-aprendi-quando-fechei-meus-olhos-deficiencia-visual-780853.shtml?func=2

sexta-feira, 2 de maio de 2014

POR HOTÉIS ACESSÍVEIS

A acessibilidade em hotéis para deficientes visuais, geralmente está relacionado à cegos, quase nunca se pensa em pessoas com baixa visão

Eu sempre gostei muito de viajar, principalmente depois de adolescente quando pude passar a escolher para onde eu iria. Faço isso menos do que gostaria, devido ao tempo curto e às vezes por questões financeiras. Contudo, minhas incursões por terras nunca antes visitadas – pelo menos por mim – são cada vez maiores. Isso me causa muita alegria, e ao mesmo tempo tenho a necessidade de aumentar a minha dose de paciência. Afinal, muitas instalações como hotéis, bares e restaurantes ainda carecem muito de acessibilidade, o que me causa certos embaraços.

É sobre a falta de acessibilidade que eu pretendo falar, pois não creio que seja de interesse coletivo minhas aventuras turísticas pelos cantos do mundo. Quando a viagem é feita com alguma companhia as coisas ficam mais fáceis, já que aquela pessoa que está comigo pode ajudar a evitar algumas dificuldades com relação à acessibilidade. Mas as coisas pioram quando estou sozinho por alguma eventualidade ou por se tratar de uma viagem de trabalho, por exemplo. O assunto é sério e grave, e ainda nos causa dificuldade, mas muitas situações acabam sendo cômicas por serem trágicas – ou vice versa.

Vou contar duas delas antes de analisar a situação dos hotéis que já encontrei por esse Brasil afora.

Lembro da vez em que estava fazendo meu check-in e estava um tanto… apertado para usar o sanitário. Como todo o processo demorou muito, comecei a verificar onde eu poderia encontrar um desses ambientes no hall do hotel, e como os funcionários estavam ocupados eu não poderia contar com eles. Em um ato um tanto desesperado, vi que havia uma porta que para mim – o que não significa que de fato parecesse a todos – era semelhante a uma porta de banheiro. Entrei rápido pois a situação estava crítica, e em ato continuo fui já tomando “providencias iniciais” quando de repente percebi que entrei na cozinha e não no banheiro. Fui veloz em contornar o fato e solicitar que me indicassem o wc, usado a tempo, felizmente.

Outra vez, estava no restaurante do hotel e como sempre faço, perguntei se havia cardápio em braile – eu sei que não há mas sempre pergunto -, eis que quando perguntei ao garçom ele sai sem que eu possa continuar a conversa. Retorna rapidamente com uma expressão de regozijo e felicidade:

- O senhor vai ser o primeiro a usar nosso cardápio em braile.

Com uma certa dose de surpresa e achando a situação engraçada, disse:

- Desculpe, não vou não. Eu não sei ler em braile, eu só perguntei se tinha o cardápio adaptado, não disse que eu queria usar…

Cheguei a ficar com pena do sujeito quando vi seu semblante de frustração, mas fazer o que, eu tenho baixa visão e se ele tivesse um cardápio com fontes ampliadas eu usaria. Acabei fazendo como sempre e pedindo uma A la minuta, afinal como a gente não consegue ler os cardápios sempre pede os pratos que são comuns e existem em todos os lugares.

Bem, eu devo dizer que na maioria dos hotéis em que estive os funcionários foram sempre solícitos. Mas, nem sempre a solidariedade e o bom tratamento resolvem as coisas. Eu tenho a mania de querer fazer tudo que for possível sozinho, e por mais tempo que eu leve para conseguir algo, pelo menos terei feito de modo autônomo. Então, acessibilidade não é apenas ter um funcionário que faça as coisas por mim, mas ser um local em que eu possa fazer tudo por conta própria sem precisar de auxilio extra estando ao sabor da boa vontade ou da disponibilidade de um colaborador do hotel.

Assim, sempre dispenso ajuda para encontrar o quarto onde eu devo me hospedar, mesmo que seja no 19º andar como já ocorreu. Por mais que as normas técnicas (NBR9050) estabeleçam regras de sinalização acessível, a maioria delas é ignorada pelos hotéis. As sinalizações nos andares são precárias com letras pequenas e tão fora do campo visual adequado e sem contraste, que se essas informações não estivessem ali daria no mesmo.

A iluminação nos andares são sempre mais fracas que o ideal, o que dificulta ainda mais a leitura de informações importantes. Encontrar o próprio quarto é uma aventura muitas vezes estressante, pois na imensa maioria, a numeração dos quartos são em tamanho muito pequeno e sem contraste, ou como dito antes em uma altura que torna impossível a leitura. Eu sempre tento achar sozinho até o último instante de paciência e até hoje eu nunca deixei de encontrar, por mais tempo que demorasse.

Entrando no quarto…

Os quartos são outras “pérolas” em termos de acessibilidade. Muitos deles são pequenos o que até facilita encontrar as coisas pois o universo espacial é menor. Contudo, a dificuldade é grande em conseguir achar uma tomada, travesseiros e cobertas, o controle da TV ou mesmo a própria TV. Quando há ar-condicionado então… nem tente ligar. Primeiro porque não há instruções claras, segundo que as letras são muito pequenas e se você não deseja ficar em uma sauna ou em um frigorifico, é melhor deixar quieto.

A luminosidade de TODOS os quartos em que me hospedei me fizeram sentir como se estivesse em uma boate, pois a maioria delas é fraca e não são com foco direto. Ou seja, para quem tem baixa visão a iluminação que é fator fundamental, torna-se uma das maiores dificuldades, pois a simples atividade de usar o computador ou ler algo torna-se uma tarefa epopéica. É um pouco complicado para mim que lido justamente com a leitura como minha ferramenta de trabalho ficar esse tempo sem estudar. Gostaria tanto de encontrar quartos mais iluminados e que me ajudasse e não me atrapalhassem em tarefas simples mas fundamentais como usar meu notebook, por exemplo.

Outra dificuldade agravada pela situação relatada acima, são os folhetos, cardápios e folders disponibilizados pelos hotéis. Sejam materiais de boas-vindas, de instrução de funcionamento do estabelecimento, cardápio do room service ou informações turísticas, todas elas escritas com fontes pequenas e sem muito contraste.

Isso significa que na maioria das vezes nós ficamos sem as informações que poderíamos e que gostaríamos de ter por falta de acessibilidade. Não creio que seja tão difícil disponibilizar exemplares dos materiais em braile ou em fontes ampliadas. Sempre pergunto se existem, mas em nenhum local consegui encontrar.

Como poderei saber os pontos turísticos, telefones úteis ou se no meio da madrugada der fome, o que eu posso pedir? Mais que isso, estando a trabalho, se tiver que lavar ou passar roupa no hotel, como proceder? quanto pagar? Como usar o telefone para ligar para casa ou sabe-se lá para onde?. Seja como for, estamos mal nesse quesito.

Apesar disso tudo eu continuo gostando de viajar, mesmo sabendo que a hospedagem é sempre uma aventura com grande dificuldade na acessibilidade. Eu continuarei tentando até que eu consiga encontrar um hotel plenamente acessível, ou mesmo ajudar a colocar a questão para reflexão de gestores e proprietários desse tipo de estabelecimento. Por fim eu proporia aqui uma reflexão: imaginem se  um hotel investisse maciçamente em acessibilidade de todos os modos, talvez fosse um “gasto” grande no principio, mas… se pensado a longo prazo, usando os instrumentos midiáticos e divulgando às pessoas com deficiência que em tal cidade existe um hotel acessível, será que deixariam de se hospedar em um hotel como esse? Será que se pensassem nas pessoas com deficiência visual como um grande público consumidor a ser conquistado e fidelizado a acessibilidade não seria entendida como custo, mas como investimento? Eis perguntas que carecem de respostas.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

VIAJAR É TÃO BOM

Descobrindo o mundo de muletas. O turismo acessível para deficientes andantes.

Marcos Bauch já foi mochileiro na Nova Zelândia, viajou de carro até Machu Picchu, mergulhou em Bonito e saltou de paraquedas em Boituva 
Marcos Bauch já foi mochileiro na Nova Zelândia, viajou de carro até Machu Picchu, mergulhou em Bonito e saltou de paraquedas em Boituva

O engenheiro agrônomo Marcos Bauch, 31 anos, nunca deixou que as muletas que usa desde criança – necessárias devido a uma artropatia nos dois joelhos – o prendessem em casa. Dificuldades existem. Das mais prosaicas, como os pisos escorregadios que já o derrubaram várias vezes, às mais inusitadas, como saltar de paraquedas sem pousar com os pés no chão. “Eu e o instrutor tivemos que bolar uma estratégia para o pouso. Treinamos uma descida sentados e deu certo”, conta o engenheiro.

Mas os desafios que enfrentou jamais o fizeram pensar em desistir das viagens. “São apenas percalços e aumentam o número de histórias para contar aos amigos”, diz ele. A exemplo de Marcos, há muito mais gente disposta a superar limites físicos para colecionar histórias e experiências.

O Brasil possui, atualmente, cerca de 46 milhões de brasileiros (24% da população) com deficiência intelectual, motora, visual e auditiva, conforme o Censo realizado em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E, dentre eles, há muitos viajantes frequentes, segundo constatou o Ministério do Turismo, numa pesquisa realizada em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos, entre os dias 13 a 20 de maio de 2013, nas cinco maiores cidades emissoras de turismo doméstico brasileiro – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte Curitiba e Porto Alegre. A pesquisa apontou que o sentimento de superação, a liberdade e a autonomia são alguns dos principais elementos motivadores dos viajantes. Mas eles não querem só acessibilidade. Como qualquer outro turista, também buscam preços competitivos, belas paisagens, boas condições de transporte e aspectos históricos e sociais interessantes.

A cidade de Socorro, no interior de São Paulo, foi apontada pelos entrevistados como um modelo de turismo acessível, pois é a que oferece a melhor adaptação para pessoas com deficiência. Além de Socorro, Fortaleza (CE), Ilhabela (SP) e Maceió (AL) foram citadas por apresentar passeios, atividades esportivas e ecoturismo para as pessoas com mobilidade reduzida, deficiência auditiva ou visual. Atualmente, o Ministério do Turismo está financiando 14 projetos que envolvem acessibilidade, com investimentos na ordem de R$ 109 milhões.
Só rampa não basta

Mas investir em acessibilidade não é apenas construir rampas para cadeiras de rodas. “É um equívoco achar que tornar uma cidade acessível é só desobstruir barreiras arquitetônicas. É preciso eliminar as barreiras físicas para cadeirantes, mas também ter pessoas habilitadas a se comunicar com deficientes auditivos, disponibilizar material turístico acessível para deficientes visuais e treinar funcionários para atender a essas pessoas”, explica a psicóloga Adriana da Silva Souza, do Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Específicas do IFRJ (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia).

“Ao escolher onde se hospedar, a primeira providência é checar se o local vai ajudá-lo nas suas dificuldades individuais. Porque mesmo com perfis parecidos, cada pessoa tem uma necessidade”, diz o turismólogo e cadeirante Ricardo Shimosakai, diretor da empresa Turismo Adaptado, que elabora roteiros de viagens para pessoas com necessidades especiais. A recomendação aqui é ser o mais detalhista possível, já que, muitas vezes, as empresas não entendem o conceito de acessibilidade. “Se você precisa de uma cadeira de banho, por exemplo, tem que ligar e verificar com o hotel se eles têm e explicar que cadeira de banho não é uma cadeira de piscina”, diz Shimosakai.

Uma vez escolhido o hotel, vale checar informações por telefone e até pedir fotos do local. As dimensões são importantes, especialmente se o turista for cadeirante. “Muitas vezes é preciso solucionar problemas e exigir os direitos antes de aproveitar a viagem. Ao chegar a um lugar, a pessoa com limitações motoras vai gastar tempo para saber quem tem a chave para abrir o elevador, com quem é preciso falar para poder estacionar mais perto ou, ainda, como encontrar alguém que possa ajudar a subir e a descer uma escada”, explica o engenheiro Marcos Bauch, que hoje compartilha as experiências acumuladas no blog “De muletas pelo mundo”. Já o portador de deficiência visual precisará de alguém que o acompanhe até o quarto de hotel e lhe mostre a localização de cada objeto. O deficiente auditivo, por sua vez, terá mais facilidade de se comunicar ao contar com o apoio de funcionários aptos em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

Além disso, os passeios que serão feitos no destino também precisam levar em conta as limitações. Para o deficiente visual, por exemplo, no lugar de um museu em que apenas o título da obra está escrito em braile, será muito mais prazeroso visitar um jardim sensorial, disponível em alguns parques botânicos de cidades brasileiras, ou uma galeria tátil, como a existente na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A 134 quilômetros da capital paulista, a cidade atrai cada vez mais pessoas com mobilidade reduzida ou necessidades especiais, por conta do projeto Socorro Acessível, iniciado em 2005

Viagem inclusiva e os custos

Não necessariamente um deficiente gastará mais dinheiro para viajar. Os estabelecimentos não cobram mais caro por serem acessíveis, mas os custos podem aumentar conforme as adaptações que o turista precise fazer para usufruir de maneira prazerosa da viagem. “Quando fui para Machu Picchu contratei uma agência capacitada para levar pessoas com deficiência, mas tive que pagar por três guias para carregarem minha cadeira de rodas em uma parte do percurso”, explica Ricardo Shimosakai.

Como não são todos os locais que oferecem acessibilidade, a oportunidade de escolha é menor. Por isso, o deficiente nem sempre pode optar pelo hotel mais barato para se hospedar, o menor carro para alugar ou ainda, o restaurante mais econômico da região. É preciso escolher aquele que ofereça soluções para as necessidades individuais.