quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

TELONA QUENTE 140

Roberto Rillo Bíscaro

Passamos cada vez mais tempo em frente a telas de PC e/ou smartphones, fazendo com que as interações sociais assumam outros contornos; certamente sociólogos e filósofos têm se ocupado em discutir isso. A migração das mais tradicionais telonas cinematográficas e telinhas televisivas pros monitores computacionais e celulares não passa despercebida pelo cine e pela TV. Ano passado um dos melhores episódios de Modern Family foi todo em conversas num chat e o slahser The Den uniu o sub-gênero dos found footage films ao mundo cibernético.
Este ano, Amizade Desfeita juntou os found footage films e slasher de fantasma numa narrativa bastante rigorosa formalmente, que utiliza apenas a tela dum computador. Criatividade nota 9, mas o resultado padece um pouco porque o medo jamais se concretiza por estarmos numa mediação de terceiro grau: estamos vendo através duma câmera algo gravado por outra(s) e isso dilui o bom do horror.
Há um ano, Laura Barns cometera suicídio depois que alguém postou um vídeo, onde a adolescente aparecia em situações vexatórias. Incitada a se matar em tudo quanto é rede social, ela seguiu os conselhos e o fez também pro mundo ver. Amizade Desfeita trata do lado mais destruidor do cyberbullying numa idade tão insegura, numa era quando se vive o risco, mas também o fascínio, de que nossa intimidade seja exposta. A rigor, trata-se duma fábula sobre a extinção da privacidade.
Na noite de aniversário de seu passamento, 5 de seus amigos estão sozinhos em casa – slashers basicamente são sobre os perigos de jovens sem supervisão/proteção adulta -, mas online, conversando eletronicamente entre si. Via Skype, alguém começa a ameaçar, chantagear, revelar segredos, jogar um contra o outro, à medida que os elimina. Será o fantasma de Laura? Lógico que é. 
Como sabemos que é found footage film, que tudo se passará na frente das câmeras de PCs - restritivas de movimento e escopo – e que a não ser que o roteirista tenha se drogado em demasia, a única entidade lógica pra causar toda a comoção só podia ser o espírito de Laura se vingando via cyberspace, Amizade Desfeita carece de suspense pra saber o que vai acontecer.
Sobra o como acontece, mas nesse quesito o enredo também não é tão interessante, devido à restrição imposta pelas regras de filmagem que queriam tudo registrado pelas câmeras dos notebooks. Sendo assim, a atenção recai quase toda na forma, trunfo de Amizade Desfeita.
O roteiro de Nelson Greaves e a direção de Levan Gabriadze utiliza os ruídos, interfaces e possibilidades de sites onipresentes nas vidas de bilhões: Facebook, Youtube, Instagram, Google. São múltiplas janelas abertas, conversas paralelas, que exigem do espectador atenção e vista boa pra ler muito chat, nessa história que também se autoimpõe ser mostrada em tempo real. Tudo interessante, mas não dá pra criar muito pavor com tanto tempo gasto com transferência de arquivos ou vídeos preenchendo.
Amizade Desfeita ficará datado tão celeremente quanto muda a rede, mas mesmo que não seja uma grande história de horror, sempre valerá a pena: agora pra constatar a perícia formal dos realizadores e num futuro qualquer, como curiosidade arqueológica sobre como aqueles primitivos seres de 2014 se comunicavam. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

CONTANDO A VIDA 134

Nosso historiador-cronista sempre foi muito chegado em literatura, especialmente poesia. Para encerrar o ano que tal "ouvi-lo" falar lindamente sobre Drummond e Fernando Pessoa?  

FERNANDO PESSOA E MEU DESASSOSSEGO.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Quando mais jovem, gostava de poesia. Exigente, colecionava autores e com o mesmo entusiasmo desprezava outros tantos. Cheguei a fazer uma espécie de antologia e elenquei autores diversos, muitos estrangeiros. Logo descobri que havia um segredo capaz de me introduzir no estranho mundo dos poemas: a história dos autores. Sim, sou daqueles que acreditam que vida e obra se fundem e que é impossível gostar da produção de alguém como se nada houve com a experiência autoral. Continuo assim, e, aliás, não é só com poesia. Curiosamente, sempre gostei mais da produção poética estrangeira do que da nacional. Tenho uma explicação para tanto, pois eu queria aprender alguma outra língua e a surdina da leitura de versos em francês ou inglês me supria. Guardo ainda alguns ensaios de tradução e até acho graça do solitário e mudo esforço. Sem exagero, o que aprendi da língua de Cervantes derivou dos versos toscamente vertidos para o meu português. Dos poetas que versejavam em nossa língua, com certeza, Drummond tinha primazia. Cedo aprendi a gostar de “Rosa do povo”, e tratei de decorar versos que sei dizer até hoje. Escrito entre 1943 e 45, o conjunto de versos políticos traduzia a angústia da produção escrita durante a guerra. Havia para mim, exatamente por ter nascido naqueles anos, uma espécie de mensagem visceral, fator explicativo do tom vital de minha geração. Assim, posso dizer que os poemas da fase "eu menor que o mundo", se compuseram como meu primeiro convite à suposição de uma literatura comprometida. A devoção política, a crítica à guerra e ao sofrimento humano perante tiranias, coloriam meu nascente ideal social. E me comovia com o "sentimento do mundo", que mostrava nossa fraqueza mediante um mundo materializado em máquinas, poderios enormes.
Confesso que Drummond assumiu papel tão importante que os demais poetas brasileiros ou portugueses e mesmo alguns africanos ficaram de lado. Houve, contudo, sempre uma exceção perturbadora, Fernando Pessoa. Na altura da maturidade, me cabe retomar esse sentimento ambíguo e tentar alguma explicação que escape do simplismo “gosto X não gosto”. A história pessoal de Fernando Pessoa me é cativante. Chave importante para o entendimento de sua poesia, os heterônimos são intrigantes e por isso apresadores do gosto que convoca pensar a fatalidade da vida expressa na obra. Não tenho como negar, contudo, que há aspectos da produção desse autor que me afastam da apreciação pura e simples. A vulgarização de certas passagens que caíram no domínio popularesco me arreda do refinamento que exijo da poesia (“tudo vale a pena se a alma não é pequena”, por exemplo). De igual monta os trocadilhos ou jogos de palavras assustam e me diminuem em entendimento. Mas pendularmente, há o que me atrai de maneira cativante, ainda que não sejam poemas. Entre tantos conjuntos de escritos o “livro do desassossego” me diz muito e particularmente uma passagem onde ele faz uma contestação ontológica. Sobretudo, há uma passagem apaixonante: “a renúncia é a libertação. Não querer é poder”. Contrariando o senso comum que advoga que o poder está na vontade, Pessoa nega a premissa e progride afirmando “que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele” e arremata com o seguinte dizer “transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu”. Não preciso dizer que estas citações me “desassossegam”, pois formulam o grande dilema da humanidade: o autoconhecimento e a responsabilidade de fugir do mundo esterno. “Desassosseguemo-nos”.  

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

TELINHA QUENTE 192


Fim Duma Paixão Anunciada

Roberto Rillo Bíscaro
Parafraseei Gabriel Garcia Marques, quando escrevi sobreas primeiras temporadas de Downton Abbey, porque tinha todos os elementos pra me agradar. Não estive só. A presidenta Dilma é fã de comprar box sets e nos EUA o show da ITV virou fenômeno de audiência da PBS, que nunca competiu com as grandonas como ABC, CBS e NBC. De uma hora pra outra, referências a Mr. Bates ou Lord Gratham começaram a pipocar em sitcoms, dramas e até filme de horror. Downton a propriedade inglesa, virou hotel pra lucrar com a febre; Downton, a série, virou referência cultural obrigatória desta segunda década do XXI.
Aproveitando a crista da onda, o escritor Julian Fellowes decidiu encerrar as atividades com o episódio de Natal exibido dia 25 na Inglaterra, seguindo os 8 capítulos da sexta temporada, exibidos entre setembro e outubro. Irregularidade marcou Downton, intercalando temporadas deliciosas, com desinteressantes e até chatas. Sorte que a saideira nos brindou com o que de melhor sabe oferecer: novela das 18:00 às antigas, só que mais bem atuada e produzida.
Em sua melhor bisbilhotice das vidas de aristocratas e seus serventes, Downton Abbey consegue ser cativante a ponto de nem percebermos/nos importarmos muito que certas personagens quase não têm função. E esta temporada-despedida foi assim: quem liga realmente que Mr. Bates não tenha mais nenhuma serventia pra trama? Ele é fofo e simpático, e pronto.
Tudo se encaminha prum final “suficientemente feliz” pra usar as palavras da Dowager Countess of Gratham, que quase nunca tinha função importante, mas tem a língua ferina, é irônica e é Dame Maggie Smith, então amamos, precisa mais?
Impressionante como The Walking Dead abocanha não apenas Game of Thrones, mas também o gentil mundo de Downton. Só isso explica o espetacular jorro de sangue causado pelo estouro duma úlcera à mesa do jantar. Alguém faça um Downton Abbey & Zombies, djá!
E os marxistas culturais gritarão Jameson e Williams em incontáveis orgasmos nos departamentos de Letras/cinema/TV ao analisarem a simbologia dos momentos finais, no que diz respeito a onde estão os personagens. Provavelmente também espumarão de ódio, por simpatizarmos tanto com Lady Mary e Lord Grantham, fazer o quê? Eles são tudo!
E depois de anos com essa gente que aprendi a amar mesmo com seus defeitos, garanto que todos tiveram o destino que mereceram, afinal, novela das 6 tinha que ter final pra cima e sacarinado.
Toca achar tempo pra ver Upstairs, Downstairs, uma das inspirações de Downton. Você não achava que Fellowes descobrira a roda, né?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CAIXA DE MÚSICA 198


Roberto Rillo Bíscaro

Redutoramente rotulada como a nova Karen Carpenter, Rumer é muito mais do que mera cópia, como a alcunha pode sugerir. A cantora dos ótimos Seasons of My Soul e Into Colour voltou em meados de dezembro com o EP Love is the Answer, onde tasca 4 excelentes releituras.
A faixa-título é soft rock à Hall and Oates, que deixa o original de Todd Rundgren pra trás. Por falar em Hall & Oates, eles são relidos em I Can’t Go For That (No Can Do). Impossível não comparar com a também fofa regravação pelo The Bird and The Bee. A diferença é que a tônica do grupo de Los Angeles foi numa sonoridade synth começo dos 80’s, e Rumer invoca o easy listening setentista. Dá pra amar as 2 igualmente. A leveza de Being At War With Each Other, de Carole King, fará a empostada e gritada versão de Barbra Streisand parecer alguma variante do metal e Be Thankful for What You Got continua o R’n’B deslizante como o original de William de Vaughn, mas menos enjoativa no final, porque no arranjo de Rumer mais coisas acontecem. 
Já que Rumer está na roda, falemos de B Sides & Rarities, lançado há alguns meses. Como o nome indica é material que normalmente fica de fora de álbuns oficiais, mas que fãs dedicados vendem rim pra conseguir. A despeito do caráter “feito pra completistas”, o álbum satisfará qualquer um que amar música suave de matriz anos 70, estilo easy listening. Rumer tem a incrível capacidade de transformar em seu e relevante canções de distintas eras, mesmo que já gravadas trocentas vezes, caso de Here Comes the Sun, que põe até resenhista albino saudando o astro-rei! E Moonriver fica mais delicada ainda sem orquestra.
A anglo-paquistanesa pegou estandartes da música romântica oitentista e apropriou-se deles, com sua voz cristalina e articulação límpida das letras. E tem que amar muito easy listening pra cantar sem ironia pós-moderna versos tipo “the canvas can do miracles” ou “I’ve been passing time watching trains go by”, respectivamente de Sailing e It Might Be You, respectivamente de Christopher Cross e Stephen Bishop. Cada um aparece 2 vezes no álbum; Bishop inclusive dueta com Rumer em Separate Lives, que no original tinha Phil Collins no vocal masculino. Cross aparece também em Arthur’s Theme, cocriada com Mestre Burt Bacharach.
Burt...meu teste de fogo com qualquer cantor(a) que se aventure no sagrado. Não restou dúvida; Rumer devia urgentemente organizar um álbum só de regravações do Mestre. Ela reapropriou Arthur’s Theme, mas, manteve arranjos tipicamente bacharachianos em Alfie e Halsbrook Highs, esta até com discreta participação sussurrada de Dione Warwick, e em ambas as modalidades a moça emociona.
Até a material próprio Rumer deu roupagem nova, como na disco Dangerous, que virou bossa nova super Basia. No caso de outros artistas as transformações são notáveis. O reggae de Soul Rebel (Bob Marley and the Wailers) ganhou inflexões country de trilha de western; o blues rasgado de Long Long Day (Paul Simon) só manteve a bluezice no pistão. Tudo vira soft rock ou easy listening quando cai nas mãos de Rumer. E fica tudo muito bom.

Rumer não é a nova Karen Carpenter; é Rumer mesmo, mas duma coisa tenhamos certeza: lá do Paraíso, Karen entoa hosanas pra ela. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

SUPERAÇÃO JUDOCA

Devido a uma contaminação hospitalar, o promissor judoca Paulo Duarte perdeu a perna esquerda nos idos dos anos 1960. Ele não se deixou abater, tornando treinador de campeões olímpicos, autor de livros e ministrador de oficinas e cursos por todo  o país. 


Um amigo participou de um de seus cursos, chamado Princípios Metodológicos do Judô, veja o que ele relatou no Facebook: Participando do Curso "Princípios Metodológicos do Judô" cujo conteúdo envolveu comportamento, postura, movimentação, pegadas, utikomis (tati e ne waza), e outros fundamentos básicos que na rotina do dia a dia passamos batidos. Quero externar a honra de ter passado estas horas com o competentíssimo Sensei Paulo Duarte que além de demonstrar domínio do assunto, eficiência total para fazer o que propôs, nos levou a viagens fantásticas de um passado riquíssimo sobre nossas passagens no Judô. Emoção sem fim, obrigado Deus! Obrigado Sensei Paulo Duarte!
Obrigado ao amigo Eder Granato pela indicação da história do Sensei Paulo Duarte.

sábado, 26 de dezembro de 2015

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

TELONA QUENTE 139

Roberto Rillo Bíscaro

O material principal das resenhas de tele e cine é bastante taciturno, porque assisto muito a drama, policial noir, horror, sci fi distópico e outras depressividades. Outro dia deu vontade de ver comédia – raro, raríssimo – mas não queria essas sucesso de bilheteria, então fui vasculhar o Google. Se há torrent, usemo-lo pra fugir do local comum; esse é meu lema. Li sobre uma comédia adolescente gay, chamada GBF (2013), no Brasil, Melhor Amigo Gay. Desconheço se foi exitosa ou largamente popular, mas o tema me chamou a atenção pela potencial inversão de alguns estereótipos. Dei-lhe chance e o filme é bem simpático.
GBF abrevia a expressão Gay Best Friend, aquele melhor amigo homossexual que diversas mulheres têm. Antigamente usavam-se termos como fag hag pras que andavam com gays; em termos semânticos as coisas estão melhorando. O filme centra-se num grupo de secundaristas prestes a se formar. A escola é socialmente dominada por 3 beldades, que vivem em paz armada; aquela velha narrativa que cansamos de ver em produções ianques: a escola é dominada e dividida por garotas populares e capitães dos times de futebol e quem não se encaixa fica no ostracismo e/ou sofre pra burro.
Só que em GBF, as 3 princesinhas buscam por um melhor amigo gay, porque está na moda ter um. Graças a uma confusão devido a um app de paquera em celulares, elas – e consequentemente a escola toda – descobrem Tanner, que não atende a quase nenhum estereótipo comumente atribuído a gays: não entende de moda, não curte divar ou holofotagem, enfim, é um garoto “normal”. Quem ama tudo isso é seu melhor amigo, Brent Van Camp, que se melindra, porque repentinamente Tanner passa a ser o centro das atenções e, sob a proteção das 3 meninas, navega razoavelmente tranquilo pelo agitado mar da High School. Mas, a tensão aumenta, porque ao mesmo tempo que a rivalidade entre os 2 ex-amigos cresce, Tanner saca que por trás da guerra das meninas, pode não residir aceitação de sua sexualidade, mas apenas a obtenção de uma bichinha de estimação.
GBF está longe de se tornar comédia clássica; há várias piadas bem fracas, aliás, mas a graça reside na colocação de algumas situações sob a chave da quase paródia, questionando-as e revelando sua falta de sentido, como quando por puro despeito o pintoso Brent se coliga com um grupo antigay pra realizar um baile de formatura “livre de homossexuais” ou quando a facção “inclusiva” de Tanner recusa admissão na formatura aos alunos não fashionistas.
O filme é social e tematicamente relevante sem ser elaborado; o tema fala muito por si só. A fórmula é a mesma de tantas comédias teens, onde no final – referência morna à Carrie, a Estranha (1976) – tudo acaba em aceitação e inclusão. Quem vê esses filmes ou certas séries imagina que nos EUA os gays podem sair divando sem problema. Choque de realidade: embora GBF só apresente beijos gays – coisa que qualquer filme infantil hétero pode ter – ganhou um R, de Restrito, pela “censura” ianque. Não há nudez, não há “fuck” ou derivados; acho que nem “shit”, mesmo assim não é pro “público geral”.
Também nem todo o elenco é tão bom, mas a música é uma delícia. Quem curtiu synth pop oitentista não deverá ter problema com o electro ou as divas bem pós-Madonna da trilha, que tem o brasileiro Cansei de Ser Sexy, lá fora conhecido como CSS. E embora não esteja no CD lançado pela Lakeshore Records, atente pro cover de True, do Spandau Ballet que toca na formatura.
Já matei minha vontade de ver comédia e até recomendo pruns 90 minutos de diversão e até reflexão, mas já volvi a meu usual planeta cinzento com filmes de possessão demoníaca e serial killer belga, porque doçura demais dá cárie.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

TELINHA QUENTE 191

Roberto Rillo Bíscaro

Ano passado, fanáticos por Nordic Noir vimos nosso mundo cair com a notícia de que o ator Kim Bodnia não voltaria pra 3ª temporada de Bron III Broen. Não faltou quem previsse o apocalipse: como sobreviver sem o simpático Martin Rohde, contraponto pra lógica Asperger de Saga Norén? Alta expectativa pra exibição na Escandinávia, iniciada em setembro e no Reino Unido, começada em 21 de novembro. Quem tem que esperar legenda (confiável e “oficial”) em inglês teve que seguir a transmissão dos 10 episódios pela BBC, que acabou no último sábado.
Foi o que fiz, mas antes revi as 2 temporadas (resenhadas aqui e aqui), porque queria estar bem municiado pra analisar os caminhos adotados pelos roteiristas de Bron III Broen (BIIIB). Que show bom! Mesmo vendo pela segunda vez, teve noite que enfileirei 3 episódios duma vez, indo dormir às 2 da manhã. E me dei conta de que Martin não era tão diferente de Saga; a relação das 2 personagens é especular e projetiva.
Pra evitar agonizantes esperas, comecei BIIIB, uns 2 dias antes de a BBC exibir a dupla final, assim, quando terminasse o oitavo, o 9 e o 10 já estariam disponíveis. Acertada decisão, porque o negócio fica tenso. Mas, os defeitos de composição já começam a atingir a superfície.
BIIIB inicia com assassinatos elaborados, supondo crimes de homofobia. Como nas demais temporadas, o que pareciam declarações políticas tomam rumos inesperados com a adição de novos personagens e sub-tramas que aristotelicamente se conectam à central, mas requerem paciência. Descontando que o roteiro teve que ser reescrito meio às pressas devido à saída de Bodnia, dessa vez há um par de buracos-negros na lógica e na trama. A pessoa que cometeu os crimes teria que ser bem riquinha pra logística requerida. A argentina Epitáfios resolveu isso bem melhor na sua primeira temporada.
Seria o caso de apelar pra suspensão de descrédito, mas A Ponte já pede que aceitemos que alguém com Síndrome de Asperger seja detetive interativa com público (mesmo a polícia sueca afirmou que Saga jamais poderia desempenhar essa função) e que ninguém no departamento pareça sacar que ela é aspergeriana. Aliás, falam em ser “estranha”. Cadê a correção política escandinava? Assim, a trama policial de BIIIB é boa e prende, mas, não desce tão redonda mais.
Talvez também porque o foco na incrível personagem Saga Norén tenha se intensificado. Junto com o também sueco River, ela é uma das criações mais estelares da TV desta década. BIIIB é extremamente difícil pra Saga, atacada e confrontada em diversos setores. A ausência do único amigo, a volta da mãe detestável/detestada, problemas na chefatura. Difícil pra personagem e pro espectador, que a vê perdendo cada vez mais referenciais, mas um caldeirão lotado pra atriz Sofia Helin, que provavelmente não tem um segundo de má atuação. Rimos e choramos com ela, numa tour de force. Mas isso deve ser levado em conta: um show policial onde a parte pessoal desperta mais interesse que a investigação?
Como ninguém é insubstituível, Henrik, o novo parceiro, preenche a vaga de Martin, embora eu tenha sentido falta da risada de Bodnia. Essa temporada não tem nem sorriso! Henrik tem seus demônios e levei capítulos pra sacar um recurso concidentemente usado por outra ótima série deste ano. Não falarei qual pra não estragar a surpresa; mas não se trata de cópia, é sincronicidade mesmo. Afirmo isso não por xodó pela Escandinávia, mas, pelas datas de produção/exibição mesmo.
BIIIB é ótima e abre possibilidade pruma 4ª temporada com configurações bem diferentes, mas como Forbrydelsen e Borgen provaram, não seria melhor parar na terceira, quando ainda se está na dianteira, mas os primeiros tênues sinais de desgaste já podem ser detectados?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CAIXA DE MÚSICA 197

Roberto Rillo Bíscaro

Jean Luc Ponty é um violinista francês que nos anos 70 ajudou a popularizar o jazz rock, fusão entre os 2 gêneros, que teve importante marco com o álbum Miles in the Sky (1968), de Miles Davis, embora registros já existissem na Inglaterra sessentista. Jon Anderson foi vocalista do Yes em suas melhores encarnações. Os 2 tencionavam trabalhar juntos desde os anos 80, mas a parceria concretizou-se apenas ano passado com a The Anderson-Ponty Band.
Distantes do interesse de mercado das grandes gravadoras, os 70tões apresentaram o projeto à Kickstarter, empresa norte-americana especializada em crowdfunding, e o resultado pudemos comprovar em setembro, com o lançamento do CD/DVD Better Late Than Never. Quem compareceu à Wheeler Opera House, na chique Aspen, Colorado, em setembro do ano passado, comprovou antes a boa qualidade do trabalho dos veteranos e da experta banda que reuniram. O CD (esta resenha é sobre ele apenas) foi gravado ao vivo na ocasião.
Não é incomum decepcionar-se, quando artistas de alto calibre se reúnem, porque expectativas irrealistas são construídas. Não é o caso de Better Late Than Never. Só se desapontará quem esperar uma orgia prog sinfônica: o álbum tem forte influência jazzística, mas não é prog no sentido do que menos avisados esperariam de um ex-Yes. Também não é jazz. Trata-se de música com várias influências, que agradará até a fãs de MPB estilo Milton Nascimento. É uma festa de boa música.
O álbum tem canções de Ponty, do Yes, de Anderson-solo e composições da dupla para o projeto. No caso das do instrumental Ponty, Anderson acrescentou suas letras New Age de autoconhecimento e poder do amor e do indivíduo. É o caso de One in the Rhythm of Hope e de Mirage, que nos 80’s servia de música de fundo para quase qualquer coisa. Ela se transformou em Infinity Mirage e está mais orgânica do que o sintetizado original, e, emendada com Soul Eternal, que tem uma levada bastante comum em alguns ritmos nordestinos, reiterando que matrizes culturais viajam e purismos são bobagem.
Uma das diversões é identificar o que é de quem, como na Intro, com suas citações a Infinite Pursuit, do francês e And You and I, do ex-grupo do inglês. E a faixa do perfeito Close to the Edge volta mais tarde, bem concisa, folk e com lindo piano granulado.
As releituras das canções do Yes não desrespeitam a majestade dos originais. Talvez puristas reclamem da transformação de Time and a Word em reggae rasgado, mas embora esteja garantido o direito de se preferir a versão do LP de 1970, a levada Bob Marley ficou boa e mais apropriada ao tipo de trabalho e aos tempos de hoje. Owner of a Lonely Heart colocou o violino no papel da guitarra e Ponty esmerilha, como também em Roundabout, tão delirante quanto a versão de Fragile, mas distinta.
Ainda em excelente forma, Anderson e Ponty lograram um excelente trabalho. Como reza o título, Antes Tarde do que Nunca. 

domingo, 20 de dezembro de 2015

CANOA DA SUPERAÇÃO

Luis Carlos Cardoso era dançarino. Ficou paraplégico. E em cinco anos se tornou o maior atleta paralímpico do país no caiaque.

sábado, 19 de dezembro de 2015

ALBINO GOURMET 191

Na seção de hoje, o destaque vai pra receitas encontradas no canal Na Cozinha do Politi, que tem receitas e dicas de culinária, que te manterão ocupado/a por dias. 

VILEZA MOÇAMBICANA

Casal assassinado no Niassa, uma das vítimas era albino e teve os membros amputados

Um casal de cidadãos nacionais, identificados pelos nomes de Rosário Juriasse e Anuna Simione, de 70 e 45 anos de idade respectivamente, foram assassinados na sua residência no povoado de Manhungua, no distrito de Mecanhelas, na província do Niassa, na madrugada da passada quarta-feira(02). Os criminosos amputaram um braço e uma perna da vítima do sexo masculino que sofria de albinismo.
O crime hediondo aconteceu enquanto o casal dormia e um dos malfeitores já foi detido segundo o porta-voz da Polícia da República de Moçambique(PRM) na província do Niassa, Alves Mate, citado pelo jornal Diário de Moçambique.
De acordo com a fonte policial o criminosos detido confessou o assassinato e revelou que cometeu o crime na companhia de dois comparsas.
Não foi revelado o destino dado aos membros, superior e inferior, amputados ao cidadão assassinado e que sofria de falta de pigmentação na pele.
Raptado menor albino
Entretanto um cidadão de 77 anos de idade, cuja identidade não foi revelada, foi detido pela PRM no distrito da Macia, na província de Gaza, por alegadamente ter raptado um menor de dez anos de idade que sofre de albinismo.
Segundo o porta-voz da Polícia da República de Moçambique naquela província, Jeremias Langa, citado pelo jornal Diário de Moçambique, o raptor terá aliciado o menor, que é órfão, com bens não especificados e levou-lhe da província de Nampula para o sul do país sem o consentimento da sua tia com que residia.
Desde os finais de 2014 que regista uma onda de “caça” aos cidadãos que sofrem de albinismo em Moçambique para o uso de partes dos seus corpos em rituais de feitiçaria de pessoas que acreditam que isso lhe pode trazer sorte, amor ou riqueza.
Dezenas de cidadãos foram detidos pela PRM acusados pelo rapto e outros pela morte de pessoas com albinismo, em várias província do país, alguns foram julgados e condenados mas as autoridades não encontraram apresentaram ainda nenhum mandante destes crimes.
Recentemente o Governo aprovou um plano de acção de curto, médio e longo prazo, para a protecção de pessoas com albinismo porém, além de apelos, não são conhecidas medidas concretas para travar esta onda de crimes hediondos que atingiram já proporções alarmantes.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PAPIRO VIRTUAL 99

Encontrei um texto no site do jornal Diário da Manhã, que narra o encontro com uma criança indígena albina. Como a história está contada em tom literário, inseri-a em nosso Papiro Virtual.

A indiazinha albina do Itacajá
Uma experiência inovadora

POR SALATIEL SOARES CORREIA

Loira, completamente loira, ou melhor, albina, com a pele branca como a neve. Não tinha mais que uns 14 anos. Lá estava ela sob aquele sol de rachar, na rua principal, na porta do maior supermercado do município. Para quem não conhece a localidade, vai aqui a informação: trata-se de uma pequena cidade incrustada no sertão, onde convivem pacificamente lado a lado cerca de três mil índios kraos com a população branca de identidade nordestina. Falo de Itacajá, no estado do Tocantins. A pequena criança de que vos falo é uma indiazinha krao.Seus pais, índios normais típicos, fisicamente, em nada se diferenciam dos outros índios: morenos, de olhos rasgados e cabelos longos.
“Vem cá para dentro, o sol quente faz mal para sua pele”, alertou o zeloso funcionário do supermercado, designado pelo proprietário do estabelecimento para cuidar única e exclusivamente de atender aos índios. Estes, subsidiados pelo governo, movimentam, com suas rendas mensais,grande parte do comércio local.
A indiazinha, de dentes  encravados, sorria inocentemente um sorriso irregular. A inocência brilhava em seu olhar.
– Você quer um picolé ou um refrigerante para espantar o calor?, indaguei à pequena albina.
– Um picolé, respondeu a mãe que estava bem ao seu lado.
– A senhora quer também um?, indaguei a índia mãe.
– Quero!
Nisso, mãe e filha saborearam os picolés na calçada do supermercado. Pouco tempo depois, a índia mãe retorna para concluir o diálogo interrompido pela degustação.
– O senhor sabe que minha filha já é aposentada?
– Então, a senhora tem de colocar um aparelho nos dentes dela. Vai melhorar muito a mastigação da garota. Além de mudar a face de seu rosto – respondi.
Conversa vai, conversa vem, e a índia veio com mais um pedido: – O senhor pode pagar uma cerveja pra mim? – “Pega lá na geladeira”, respondi.
Nisso, a krao sai na calçada com a cerveja na mão e entrega no destino que originou o pedido: o marido que estava lá fora.
A cena me fez voltar em meados dos anos de 1960, quando, ainda criança, vivia na vizinha Pedro Afonso. Para lá iam muitos índios. Se você desse uma coisa, eles pediam outra e mais outra. A demanda é de fato infinita.
O saudoso indigenista e senador pelo Rio de Janeiro, o grande Darci Ribeiro, colocou o brilho da sua inteligência na defesa da causa indígena. Aliás, o grande sociólogo e fundador da Universidade de Brasília escreveu brilhantes tratados sobre os índios e viveu entre eles com sua mulher. Descontada a esperteza, os índios têm de ter sua cultura protegida. É a tradição incrustada num mundo repleto de modernidades.
De resto, conhecer a indiazinha albina do Itacajá foi uma experiência, para mim, interessante. Ela é a expressão mais viva de que a inocência e a pureza se sobressaem num mundo tão cheio de dificuldades como é ainda o do sertão do Tocantins.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético, autor, entre outras obras, do livro A Energia na Região do Agronegócio)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

TELONA QUENTE 138

Roberto Rillo Bíscaro

Um casal que perde um filho e decide se mudar da cidade grande pra recomeçar numa grande casa remota e de preço baixo demais, num vilarejo onde os residentes têm cara hostil é uma daquelas clássicas péssimas ideias de protagonistas de filmes de horror, que alimenta o gênero há décadas. Largar empregos, rede de amigos, possibilidade de apoio profissional pra se isolar do mundo certamente deve ajudar muito no processo de luto e sua superação. Asneira ou não, fãs de filmes de casa mal assombrada vibram com essa escolha, porque resulta em sustos e diversão.
É o caso de We Are Still Here (2015), roteirizado e dirigido pelo estreante Ted Geoghegan, outro nome em que precisamos prestar atenção. O filme retrô – recomendo pra quem curtiu The House of Devil – padece dalguma irregularidade no ritmo e um par de circunstâncias nebulosas, mas deveria constar de qualquer lista dos melhores do ano, pelo clima e pela criação de potencial nova mitologia, que pode render sequência(s).
A casa situada na Nova Inglaterra – carregada simbolicamente com o peso do puritanismo, intolerância religiosa, repressão sexual, caça às bruxas – tem um passado asqueroso, revelado ao casal protagonista por um vizinho, que de cara, sabemos ter envolvimento com o negócio. De início, a esposa pensa que o filho falecido acompanhou-os à nova casa, mas a verdade provará ser (literalmente) bem mais abrasadora.
We Are Still Here usa diversas convenções dos antigos filmes de casa mal assombrada/possessão demoníaca. Ambientado em 1979 -  daí a ausência de celulares e Google pra pesquisar sobre o passado do imóvel – até a escolha temporal é meio referência a produções citadas, como O Iluminado, The Changeling, O Bebê de Rosemary e, claro, O Exorcista, pra nomear apenas alguns norte-americanos.
Mas, o filme não é mera masturbação de caça às referências. Os 2 primeiros atos lentos e silenciosos realçam o estouro gore do terceiro. É tudo tão bem feito que dá pra não perceber o desnível de ritmo e alguns “vazios” narrativos e de lógica.
As locações invernais, os filtros utilizados na filmagem a até o elenco contribuem pro charme setentista. Nada de desconhecidos 20/30tões se passando por adolescentes. O elenco de We Are Still Here é predominantemente de meia-idade e seus rostos são perenes em fitas de horror, então, a sensação é estar vendo uma daquelas velhas produções. Nada contra palavrões, mas nesse caso, as n variações de “fuck” destoam do clima vintage. Não que no passado as pessoas tivessem as bocas mais limpas; mas o diálogo de cine não registrava o baixo calão.
E que grata surpresa ver o octogenário Monte Markham como o vizinho “do diabo”! Ele foi um dos amantes de Sue Ellen Ewing em DALLAS e o irmão gay de Blanche Deverroux, em Super Gatas, isso pra mencionar apenas o que tenho certeza já ter apontado no blog.
Se você procura uma produção que cozinha ao fogo lento como muitos horrores de outrora, We Are Still Here foi feito pra você. Gostei demais. 

:(

A TRISTE VIDA DOS ALBINOS DA TANZÂNIA

A Tanzânia é o país que tem mais albinos em todo o mundo. Ali, as pessoas portadoras deste problema de pele são bastante discriminadas.

Albinos da Tanzânia são discriminados
Estima-se que em todo o mundo existam entre uma entre 17 mil e uma em 20 mil pessoas que sejam albinas. A Tanzânia é o país que detém um maior número (não existem números oficiais, mas crê-se que existam cerca de 16 mil albinos, o que significa que é 0,04% da população). Naquele país africano eles não são bem vistos. Muitos são agredidos, são raptados, têm dificuldades em encontrar emprego, sendo também frequente serem sacrificados em rituais. Na perspetiva deinfluentes empresários da Tanzânia, de alguns pescadores e de mineiros, o sangue daquelas pessoas atrai fortuna e sorte.
De acordo com os dados oficiais das forças de segurança daquele país, desde 2000, nas regiões dos Grandes Lagos, foram assassinados 76 albinos e houve 100 agredidos. Vale a pena frisar: estes são apenas os números conhecidos e poderão existir muito mais vítimas! 
Segundo a revista Além Mar, na Tanzânia "chamam-lhes habitualmente Zeruzeru (fantasma), dili (oferta) e mzengu (europeu, pessoa de pele branca). Termos ofensivos, testemunho directo do estigma e da discriminação directa de que são vítimas". 
Infelizmente, este problema social é já muito antigo. Em meios rurais e urbanos na Tanzânia várias pessoas mostram constantemente a sua revolta contra os albinos. Emtempos não muito distantes, em aldeias na zona de Kilolo, muitos habitantes acreditavam que uma criança nascia albina como punição dos pecados de um dos familiares. Este era um castigo enviado por Deus ou por algum antepassado. 
Atualmente, muitas  pessoas acreditam que a culpa do albinismo é da mãe. Este problema só surge porque ela olha para outros albinos ou come alimentos que foram por eles confecionados. Uma mulher que dê à luz um albino é, ainda nos nossos dias, considerada não só pela comunidade, mas como também muitas vezes pelo próprio marido, como frágil.
Um albino adulto sofre também em termos profissionais. Embora tenha maiores chances de encontrar emprego no meio urbano, corre sempre o risco de lidar com empresas preconceituosas. Nessas situações, é comum que as instituições utilizarem um ridículo argumento: os albinos não reúnem as capacidades psicológicas suficientes para concretizar qualquer tarefa.

As medidas de combate ao flagelo

Nos últimos anos têm sido tomadas várias atitudes de forma a tentar terminar com o sofrimento dos albinos. A internet tem sido um meio muito importante para alertar o mundo sobre estes trágicos acontecimentos ocorridos na Tanzânia.
Várias organizações tentam criar condições para o bem-estar dos albinos e tentam chamar a atenção do mundo através de várias campanhas. O Exército de Salvação e uma organização canadiana (A Under The Same Sun) possibilitam bolsas de estudo a muitos alunos com albinismo na Tanzânia. Instituições cristãs e muçulmanas oferecem vários medicamentos e cremes solares aos albinos, existindo até mesmo, para casos mais graves, a possibilidade de os albinos serem submetidos a tratamentos para o cancro de pele
Quem também está a agir (desde 2008) é o Governo da Tanzânia, que tem recebido constantes apelos para tomar uma posição. Já foram atualizados os registos de curandeiros tradicionais do país e este ano foram condenadas à morte quatro pessoas pelo assassinato de uma rapariga albina. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CONTANDO A VIDA 133

Fim de ano, época de presentes, agradecimentos, votos. Nosso historiador-cronista escreve sobre aquelas palavrinhas mágicas "obrigado" e "por favor", além de outras pequenas regras de convívio social, tão importantes, quanto humanizadoras. 

SOBRE AGRADECIMENTOS, PRESENTES E OUTRAS COISAS.

José Carlos Sebe Bom Meihy
Sempre me comovo com gestos de gentileza. Aliás, acho até que na delicadeza reside a condição essencial da elegância e do bom viver. Por lógico, não me refiro aos atos mecânicos, ensinados protocolarmente, mas do tipo de sentimento que decorre da naturalidade do reconhecimento. Falo de grandiosidade, de graça e alegrias frente aos acontecimentos da vida. São Tomás dizia que só existe um pecado e uma única virtude. O pecado seria o orgulho, visto como ato soberano que se vale de toda e qualquer forma de anulação dos outros. A virtude seria a generosidade, mãe de todas as equidades. Aprendi com a vida que a generosidade não é filha única, tem irmãs e é aparentada de benesses correlatas. O “por favor”, por exemplo, é seu guardião inseparável, como se fosse um anjo da guarda da gentileza. Aliás, lembro-me de um debate antigo onde se discutia se o tal “por favor” ficava melhor antes ou depois de qualquer pedido. Tal contenda, diga-se, remetia ao fato do pedido ser emitido por mulher ou homem. Não interessava o receptor, mas sim o emissor. Outra pendência interessante endereçava-se ao fato de superiores pedirem ou não, aos subalternos, “por favor”. De maneira autoritária, ficava claro que ordem era ordem e dispensava os tais requintes de delicadeza. O argumento é que um general, por exemplo, ao mandar não deveria se valer de qualquer complemento, pois fazia parte da hierarquia determinar.
Em relação aos agradecimentos o debate fica ainda mais fermentado, pois o reconhecimento, quase sempre, demanda certa cerimônia e ritual. É lógico que existem os obrigados mecânicos, aqueles que acontecem só por costume ou boa educação, mas há também aqueles que impõem certo ritual, são acompanhados de sorrisos ou mesmo de lágrimas. Se o “por favor” pode ser calibrado por tom de voz, o agradecimento demanda cerimônias decorrentes, algo do tipo, beijinhos, abraços e afagos que vão do aperto de mão aos tapinhas nas costas. Interessante como o agradecimento se difere do “por favor” em termos de gênero. Sempre fiquei intrigado com o fato de existir “obrigada” e “obrigado”. Isto, diga-se, só acontece na língua portuguesa, pois em inglês, alemão, japonês ou árabe, tal não ocorre.
Dos trejeitos ditos civilizados o mais cativante para mim é o gesto presenteador. Dar presente parece-me a síntese e o limite das boas maneiras. Estou valorizando o presente espontâneo, generoso, feito com afeto. Em contraste perfeito, condeno o presente compulsório, forçado, obrigatório. Gosto, inclusive, da palavra “presente” que qualifica o ato de presença no mino ofertado. Isso é lindo, diga-se. Mas, as regras de etiqueta não dão conta de tudo o que ocorre nas relações. O que dizer, por exemplo, quando depois dos agradecimentos expressos pelo recebimento de um presente a gente ouve algo do tipo “não precisava”, “imagine, você adivinhou”, ou “nossa, é exatamente o que eu queria”. Sei que é difícil avaliar tais procedimentos e calibrar a carga de realidade ou de exagero, mas não há como garantir que é melhor pecar pelo excesso do que pela falta dele.
Em referência às formalidades de convívio, há uma que intriga mais que todas: o tal do “muito prazer em ‘te’ conhecer”. Ah... a essa não me rendo mesmo. É claro que expresso contentamento em ser apresentado a alguém que, pelo menos em termos de possibilidade, pode vir a significar algo em minhas relações, mas daí ao “muito prazer” vai uma distância razoável. Nessas horas me basta um “olá” e se for o caso um sorriso.
Pois é, mas o leitor deve estar pensando no fundamento de toda essa minha reflexão: teria motivo? Sim, vivemos em uma época de trocas de presentes e o preparo de tudo isso exige compra, embalagem, cartões, pois afinal o comércio exige disfarces e eles implicam regras de convívio adequadas. É exatamente esse o ponto central desta mensagem. Por favor, recebam meu abraço como presente e obrigado pela leitura de um ano de crônicas. E, por favor, não digam “não precisava”. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TELINHA QUENTE 190

Roberto Rillo Bíscaro

O sucesso do Nordic Noir abriu os olhos de parte do mundo pra produção televisiva escandinava. Claro que a Escandinávia produzira TV de boa qualidade antes de Forbrydelsen – leia resenha sobre Matador, por exemplo – mas foi a detetive-inspetora Sara Lund que nos escancarou essa porta perceptiva. O termo mostrou-se inepto pra descrever produtos como Borgen. Assim, também passou a usar-se o bem mais amplo Scandi Drama. Pra não me confinar ao Nordic Noir, tenho tentado Scandi Dramas também.
A minissérie em 8 capítulos Halvbroren (2013) baseia-se no romance homônimo de Lars Saabye Christensen e é sobre questões de identidade pessoal e familiar atravessando décadas, desde os anos 30 até meus amados 80’s. A Globosat exibe nesse momento a minissérie, aos sábados à noite, sob o nome O Bastardo.
No dia da libertação nazista, a linda e loiríssima Vera sobe ao sótão pra estender roupas e é abusada sexualmente, resultando no filho Fred. Eventualmente, a moça se casa com um tipo misterioso, que quer dar uma de ianque, e tem outro rebento, Barnum. O relacionamento dos meio-irmãos (daí o título) ocupa boa parte da trama, que flutua entre as diversas décadas, iluminando as trajetórias de todas as personagens principais. Bastante complexo e muito bem produzido, um primor de figurino, iluminação, caracterizações. O ator-mirim que faz Barnum me lembrou o Kevin Arnold, de Anos Incríveis.
Como diversas idades e ambos os gêneros ganham destaque, a riqueza de experiências e pontos de vista torna Halvbroren bastante interessante e há um pouco pra quase todos os gostos do espectro do drama: (meio-) irmão desaparecido, intriga familiar e bastante do que se chama em inglês Coming of Age film, narrativas que abordam a passagem da infância pra maturidade. Há até laivos cômicos, mas bem parcimoniosos, porque é uma produção norueguesa, afinal. De qualquer modo, o drama também não é lacrimejante; alguns até o acusariam de formal demais.
Nos capítulos finais, o roteiro comete 2 ou 3 arbitrariedades irritantes, especialmente pelo modo como a revelação final é resolvida, confiando demais numa espécie de “telepatia” das personagens, que sacam a verdade meio do nada. Sem contar numa visita a uma cabana quase destelhada, mas que provou ser ambiente propício prum antigo bilhete permanecer quase intacto sobre uma mesa. Duro de engolir e tira alguma credibilidade da minissérie, que, mesmo assim, serve pra quem quer alargar seu painel televisivo. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

CAIXA DE MÚSICA 196

The Clockwork Universe cover art
Roberto Rillo Bíscaro

Juro que de vez em quando não premedito milimétrica e maquiavelicamente meu “consumo” cultural. Claro que há um padrão de repetição e semi-obsessão nas postagens de música, cine e TV: divas negras, 80’s e progrock; cine de horror/sci fi e europeu; policiais noir de países escandinavos, sitcoms e séries “clássicas”.
Quando decidi comentar sobre The Clockwork Universe, lançado em setembro pelos ingleses do Thieves’ Kitchen (TK), não pensava em quebrar nenhum padrão, afinal, trata-se duma banda prog britânica e ser britânico ganha pontos neste blog. Mas, qual não foi minha surpresa ao descobrir que 2 membros do sueco Änglagård participaram das gravações e um terço do TK, o tecladista Thomas Johnson, era membro do grupo prog escandinavo. Desse modo, dá a impressão de que ao escrever sobre um trio binacional, deixei meu gosto nórdico falar mais alto também na seção de música. Nada; mera coincidência.
The Clockwork Universe já é o sexto álbum, mas como a classificação deles era prog eclético ou Neo Prog, nunca me animava a escutá-los. Fã de prog sinfônico, jamais consegui aceitar a “simplicidade” instrumental e a sonoridade de Pallas, IQ, Marillion e toda uma leva de bandas, que liquefaziam monumentos sinfônicos 70’s, mormente o Genesis. Como também por acaso li que o álbum estava bem complexo e pouco Neo Prog e dava pra ouvir grátis no Bandcamp, dei-lhes uma chance e não me arrependo.
É um trabalho muito bom, que em linhas gerais, combina elementos de bandas sinfônicas, como o Yes, com elementos jazzísticos da cena setentista de Canterbury, que, se não comercialmente tão bem sucedida, produziu combos ótimos, como Caravan, Camel, The Soft Machine e Hatfield and the North. O agradável é que o TK não soa como desfiguração de nenhum estilo; antes, combina elementos com suas próprias características pra produzir um som só deles.
Library Song abre o álbum com uma orgia de baixo, guitarra ótima de jazz e órgão nervoso; tudo muito bem executado, intrincado e com uma dinâmica fluída. Pena que o vocal de Amy Darby seja meio mortiço e dê a impressão de desconexão com o instrumental, resultando em estranheza negativa. A vocalista e a mixagem se redimem em Railway Time, onde a melodia é conduzida pela voz em mais de um trecho.
Há 2 faixas instrumentais. Astrolabe é delicada valsinha de ninar, onde fios de guitarra e teclado se enlaçam e Orrery traz um tapete de órgão e a doce flauta de Anna Holmgren realçando uma melodia circular, ou melhor, elíptica como a órbita planetária sugerida pelo título. As 6 canções de The Clockwork Universe têm ligação com ciência ou tecnologia.  
Prodigy inicia com delirante diálogo entre teclado Hammond e guitarra e baixo, que exclamam amor por Steve Howe e Chris Squire, mas logo entra a flauta que dilui a ideia de possível cópia. É que o som das grandes bandas prog da fase áurea virou fitas de DNA musical do sub-gênero. Fãs do Genesis notarão ecos de Tony Banks e Steve Hackett também.
Os quase 20 minutos de The Scientist’s Wife apresentam os trechos mais Canterbury, especialmente na alentada introdução de uns 5 minutos. Com diversas mudanças de andamento, poderia ser o centro do trabalho, mas, embora o casamento de Yes com Soft Machine não deixe de ser interessante, o TK não mantém o gás o tempo todo. 
Vale constatar a vitalidade desse rock progressivo de boa qualidade no Bandcamp:

domingo, 13 de dezembro de 2015

DANÇA DA SUPERAÇÃO

Gabriela nasceu com paralisia cerebral e venceu todos os desafios. Mesmo numa cadeira de rodas, ela realiza o sonho de fazer parte de um espetáculo de dança.

sábado, 12 de dezembro de 2015

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

IRMÃOS ALBINOS DE OLINDA: ESQUECIDOS

Sem assistência, irmãos albinos não conseguem sair de casa e estudar


Seis anos após terem suas vidas expostas na mídia mundial, os irmãos albinos de Rio Doce, em Olinda, sofrem com a falta de assistência. A família ficou conhecida em 2009, com a reportagem À Flor da Pele, do Jornal do Commercio. Na época, Estefani, Ruth e Kauan, filhos de negros, moravam na Comunidade do V8, também em Olinda, e ficavam trancados em casa pela falta de protetor solar.

Com a repercussão da reportagem, a família mudou de residência, os meninos passaram a ter roupas especiais, chapéus,  óculos, tiveram a chance de se consultar nos melhores dermatologistas da cidade e receberam a promessa de pegar o protetor solar de graça todos os meses no posto de saúde do bairro.

Essa mudança de vida dos garotos não durou muito. Os auxílios, aos poucos, sumiram. Hoje, a família enfrenta dificuldades financeiras. O protetor solar fator 100, que os irmãos precisam usar todos os dias, independente de estar fazendo sol ou chuva, deixou de ser doado. Segundo a Secretaria de Saúde de Olinda, a marca indicada pelos médicos dos garotos não é mais fabricada. O órgão pediu para os meninos passarem por uma reavaliação.

Enquanto esperam, os irmãos mais uma vez sofrem sem poder sair de casa. “Meu medo é que eles peguem câncer de pele. Quero ver eles estudando, por isso a necessidade do protetor solar e do óculos”, contou a mãe dos irmãos albinos, Rosimere Fernandes.

Estefani, Ruth e Kauan têm problemas de visão e utilizam óculos com grau elevado. Para ler, utilizam lupas e se esforçam mais do que o normal para poder enxergar as palavras embaçadas. Ruth, em um acidente, perdeu os óculos e enfrenta muita dificuldade para estudar.

Quem puder ajudar os irmãos albinos, pode ligar para o telefone de Rosimere Fernandes, mãe das crianças, no (81) 98727-8041.


http://tvjornal.ne10.uol.com.br/noticia/programa/o-povo-na-tv/2015/12/08/sem-assistencia-irmaos-albinos-nao-conseguem-sair-de-casa-e-estudar-22207.php

NOTA DO DR. ALBEE:  Há um vídeo na reportagem, mas não consegui adicioná-lo à postagem. Acesse o link acima, caso queira assistir.