terça-feira, 20 de novembro de 2018

UM OUTRO BRANCO

Cantor malinês Salif Keita chama atenção para o sofrimento de albinos africanos

Por Fadima Kontao e Tim Cocks

BAMAKO/DACAR (Reuters) - Como muitas pessoas, o músico malinês Salif Keita percebeu pela primeira vez que era diferente quando entrou na escola – sua pele era branca, e todas as outras crianças eram negras.

"Eu era o único albino", disse ele à Reuters em uma entrevista. "Eu soube imediatamente que era diferente das outras crianças."

Em toda a África, a condição de pele – em que os portadores nascem sem pigmento na pele, nos olhos e nos cabelos – é vista muitas vezes como um sinal de má sorte. Os albinos são evitados, marginalizados, mortos e, em alguns locais, esquartejados para que seus membros possam ser usados em poções mágicas.

Mas quando a menina albina de cinco anos Ramata Diarra foi morta e decapitada durante um ritual na cidade malinesa de Fana, 130 quilômetros a oeste da capital Bamako, em maio deste ano, Keita decidiu agir.

"Fiquei verdadeiramente chocado", contou ele à Reuters antes de fazer uma apresentação em Fana no sábado em homenagem a Ramata.

"Os albinos têm problemas para se integrar na sociedade, o que é algo que queremos expor", disse. "Estamos dizendo que a beleza está na diferença. Temos que sentir orgulho do que somos."

Seu novo disco, "Un Autre Blanc" (Um Outro Branco) – o último antes de o artista de 69 anos se aposentar – procura ressaltar esta mensagem.

Sua música – uma mistura dançante, mas curiosamente melancólica, de música folclórica mandinga com jazz-funk percussivo – encanta plateias da África Ocidental e do Ocidente há décadas.

O novo álbum é mais eclético do que os anteriores, trazendo colaborações de convidados variados como o rapper francês MHD, a cantora nigeriana de afropop Yemi Alade e o grupo coral sul-africano Ladysmith Black Mambazo.

"Foi minha maneira de dizer adeus, fazer isto com meus amigos", disse ele à Reuters.

TELINHA QUENTE 336



Roberto Rillo Bíscaro

Desde que Broadchurch pegou pequena comunidade onde os laços comunitários eram aparentemente fortes e a mergulhou no pesadelo de assassinato cometido por um de seus membros, a prática virou tendência acoplada à influência Nordic Noir de priorizar locais lindíssimos de cartão-postal.
Parece que a Europa é fértil em tais sítios, como demonstrado nas belas paisagens lacustres da minissérie Le Mystère du Lac (2016), ambientada na região de Sainte Croix, nos Alpes provençais. Com tanta gente atraente, bem vestida e falando francês, dá vontade de pegar o primeiro avião com destino àquela felicidade.
A cidadezinha esconde grande perigo, porém. No começo do milênio, 2 jovens desapareceram e jamais foram encontradas. Na atualidade, a adolescente Chloé some, bem na hora em que a policial Marianne Stocker volta de Paris pra decidir o que fazer com a mãe, que tem alzaimer. Marianne era a melhor amiga das sumidas e sua mãe é vizinha de Chloé.
Coincidência é o que não falta em Vainhed By The Lake, em seu nome pra comercialização internacional. O alzaimer é truque conveniente pra senhorinha soltar informação, apenas quando convém ao roteiro. Sempre há alguém em momentos-chave ou quem resgate documentos de anos e anos atrás. Fica-se até cismado sobre como alguém pode ter desaparecido numa comunidade bisbilhoteira assim, imagine três!
Também nos perguntamos porque a polícia francesa não manda grupos de busca pelas montanhas, ao redor do lago, como fazem seus colegas escandinavos. Policiais e voluntários em colunas, fazendo pente-fino em lúgubres e lindas florestas são lugares-comuns em Scandi-Noir e até em irmãos espanhóis, como Bajo Sospecha, temporada 1.
Le Mystère du Lac é pura fórmula: todo mundo tem segredos; o/a malfeitor(a) é tão insuspeito(a), que pode nem fazer muito sentido. Mas é tudo tão bonito, bem feito e urdido, que entretém, prende a atenção e gera suspense e curiosidade. Quer mais? Tá, então: o que dizer do nível de fetiche desencadeado por aquela voz de ninfetinha francesa cantando música de filme de Tarantino na abertura?

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 340


Roberto Rillo Bíscaro

Nos 80’s, falava-se nas cantoras britânicas branquelas que tinham vozes fortes, geralmente associadas a negras. Helen Terry e Alison Moyet são as mais cotadas. Curiosa, mas não acidentalmente, a negra Jaki Graham teve apenas sucesso comercial moderado com os três álbuns lançados pela EMI, na década.
Nascida em Birmingham, em 1956, Graham sempre foi admirada entre os pares pela voz quente, mas nunca esteve nos topos das paradas, embora tenha tido canções populares na Europa, Ásia, Oceania e até na parada dance da Billboard. Como nunca foi de massa, seu nome é (quase) nunca lembrado nos revivalismos oitentistas.
A britânica jamais parou de fazer shows, mas raramente lançava material, até que dia 6 de julho, surgiu When A Woman Loves, pela JNT Music. A miudeza da gravadora não precisa afugentar: descobri o álbum, via Spotify.
Nos idos dos 80’s, ainda adolescentes ou com meros vinte e poucos anos, cantávamos com Kylie Minogue sobre os “old days/remember the O’Jays”. Era puro boca pra fora, porque tanto nós, quanto ela, não vivêramos a época idealizada pela letra dos então já velhuscos Stock, Aitken and Waterman. Agora chegou nossa vez e de Jaki Graham, de rememorar o tempo da juventude há tanto pra trás. As 14 faixas são totalmente oitentistas, felizmente sem os excessos de bateria eletrônica e tecladeira que deixam tão datado tanto do de então.
E é esse saudosismo oitentista que entrega a maior delícia do álbum: o irremediavelmente dançante disco-funk Get It Right. A letra fala sobre retornar aos bons tempos do decênio, quando todas canções eram tão maravilhosas. “Do you remember? I remember.” Outra faixa que celebra a década e voltar a festar é o charm All Night Long (1985); quero ver oitentistas resistirem a dar uns passinhos.
When a Woman Loves remete o tempo todo a tempos há muito escorridos. É o electrosoul midtempo da faixa-título; são os urban souls de News For You e Stop the Ride (super Steve Wonder fase 80s, com gaita e tudo); ou as baladas, como Through the Rain, Someone Like You, Song For Me e Ready For Love. O álbum é tão encharcado do espírito do auge de Jaki, que Leftover Tears soa como os anos oitenta faziam música inspirada no soul deslizante do final dos 60’s. Tem pop soul dançável, como Sometimes e R’n’B domesticado, como em Eye To Eye e sua guitarrinha blues.
Muito bem cantado e produzido, When a Woman Loves não revolverá a carreira de Jaki Graham, mas agradará em cheio quem jamais superará a magia dos anos 80.

Meli'sa Morgan também não foi sucesso de lotar estádios, durante seu período mais fértil: anos 80 até o meio dos 90s. Seja solo, seja com grupos como o High Fashion, a nova-iorquina entrou apenas uma vez na Hot 100, da Billboard, embora tenha frequentado paradas dance, adult contemporary e R’n’B, ou seja, sempre foi conhecida em nichos.
Pena, porque sua voz é incrível e a técnica impecável. Além de ter cantado com grandes como Whitney Houston e Chaka Khan, Morgan estudou na Juliard. Ouça a qualidade dessa cover de Prince, de 1985.
Há 13 anos sem lançar, o silêncio felizmente foi quebrado dia 13 de julho, com Love Demands, álbum que saiu pela Goldenlane Records, pequenina, mas está no Spotify, então não há muito como alegar inacessibilidade.
Love Demands está matematicamente dividido em meia dúzia de números com clima oldie, bem anos 50 e 60 e outras seis faixas com sabor bem mais moderno, quase contemporâneas.
A metade oldie é a primeira. Tem R’n’B, com madrigal vocal arrasante (How Can You Mend a Broken Heart); blues (Never Loved a Man), delícia deslizante à Motown (Love Is Here and Now You’re Gone) e baladas meio cinquentistas R’n’B (I’ve Been Loving You Too Long e Nothing Can Change This Love). Há o clima reggae de It’s Not Unusual. Tudo com vocais irretocáveis.
Daí entra a parte moderna, com material inédito e até participação de rapper na melódica The Only One. Os climas de perigo e urgência hip hop são referenciados de leve em repetitivas batidas, como em Holla e Decisions. Mas é tudo bem mansinho, como também a infiltração trap no arranjo de No More, a vibe mais contemporânea de Love Demands.
É essa parte que contém a mais sem-gracinha do álbum, Can’t Explain. E isso é muito sintomático, quando se parte do princípio de que este resenhista é um senhor cinquentão, moderninho até, mas mais próximo de gostar da sonoridade da parte vintage. Por ser blogueiro e não necessitar fingir imparcialidade, posso reconhecer que percebo Love Demands como bom álbum, no atacado, mas só ouço até a sexta canção. Também não creio que os millenials curtirão a parte tencionando ser moderninha, por ser tépida demais.
Desse modo, Love Demands é honorável esforço, muito bem feito, mas que não satisfará ninguém 100%.

domingo, 18 de novembro de 2018

GRAMMY ALBINO

Hermeto Pascoal confessa que álbum vencedor do Grammy foi inspirado em Alagoas

Alagoano venceu o Grammy Latino 2018 na categoria de Melhor Álbum de Jazz Latino com o CD "Natureza Universal"
Por Maylson Honorato | Portal Gazetaweb.com

Alagoano de Lagoa da Canoa, Hermeto Pascoal foi o único brasileiro a vencer nas categorias gerais da 19ª edição do Grammy Latino. Os demais vencedores, como Anitta, Lenine e Maria Rita, saíram vitoriosos somente nas categorias exclusivas para brasileiros. A cerimônia, que ocorreu na última quinta-feira (15), em Las Vegas (EUA), consagrou o álbum "Natureza Universal", uma parceria do Bruxo albino com a Big Band.

Aos 82 anos de idade e vivendo no Rio de Janeiro, Hermeto Pascoal é assediado diariamente com convites para morar e fazer turnês no exterior. A rotina de um dos maiores nomes da música instrumental, no entanto, passa pelas lembranças da infância e vai até a contemplação das paisagens da cidade pela janela. No fim, tudo vira música. No CD instrumental que arrematou o Grammy, 11 temas compostos e arranjados por Hermeto - alguns deles escritos há mais de 40 anos - reverberam a experiência dele em Alagoas, onde nasceu e viveu até os 15 anos, entre Lagoa da Canoa, Arapiraca e Maceió.

"Eu já recebi título de Doutor Honoris causa nos EUA, sendo que estudei somente os primeiros anos do primário, com a minha saudosa professora Zélia, lá em Lagoa da Canoa. Pois é. Mas na frente da minha casa era uma feira. E eu via cantador de viola, vendedor de banana madura, a turma criativa da feira... E, no meu entendimento, esse Grammy veio dos cantadores populares, do povo das feiras de Alagoas, da turma do ganzá", comenta o multi-instrumentista, que revela detestar rotina e tudo que for premeditado.

ALAGOAS

Hermeto Pascoal quer vir a Alagoas para tocar. Sim, não para fazer uma simples visita - apesar de adorar o passeio. Quer vir para tocar para os que chama de "seu povo".

"Esse prêmio é um reconhecimento que me faz muito feliz. Pois eu amo o que eu faço. Não adianta. Você pode não gostar ou gostar muito do que eu faço, mas não vai gostar mais do que eu. Eu estou feliz com o reconhecimento, ainda mais por ser lembrado pelo povo da minha terra maravilhosa. Mas, por nossa senhora, que apareça um empresário bom aí pra me chamar para tocar. Nossa cidade não pode ficar sem nossa música. E não é por dinheiro não, é porque ela precisa desse som", comentou o gênio, durante entrevista à Gazeta de Alagoas, que você acompanha na edição deste fim de semana.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

PAPIRO VIRTUAL 129



Roberto Rillo Bíscaro

Desde o fim do ano passado, voltou minha monomania sobre os anos 1950: além de rever filmes de ficção-científica, li sobre a histeria dos discos-voadores, cinema, bossa-nova, enfim, coisas gerais sobre os anos dourados (pra quantos?).
Após pausa pra ler livros escritos por ex-alunos (Desamparo e Nunca Mais Olhei Para Trás), retomei minha pesquisa, conferindo a dissertação de mestrado Filmes do Fim do Mundo: Ficção-Científica e Guerra-Fria (1951/1964), defendida por Igor Carastan Noboa, em 2010, na faculdade de História, da Universidade de São Paulo. 
O historiador escolheu os filmes O Dia em que a Terra Parou (1951), Vampiros de almas (1956), A Bolha (1958) e Limite de Segurança (1964) pra discutir como representavam o contexto da Guerra-Fria, que trazia a possibilidade real de aniquilamento planetário, mediante guerra nuclear entre EUA e URSS.
A correlação entre a produção sci-fi da década e as ansiedades sociais proliferantes é fartamente conhecida, desde talvez o ensaio de Susan Sontag sobre os filmes de monstros, ainda nos anos 1960. Noboa não inova nesse sentido, mas suas análises são pertinentes e desvelam possibilidades de leituras em cada filme, além de fornecer dados históricos úteis ao entendimento e justificativa das leituras.
Duas escolhas resultariam em pedidos de explicação, caso eu tivesse sido da banca examinadora. Em cada um dos filmes, ele seleciona uma sequência, que diz analisará quadro a quadro para corroborar suas interpretações. Não percebi direito qual a importância disso para o mais interessante, que são as possibilidades de leitura dos filmes. Além disso, Noboa mais descreve as cenas, do que as analisa.
Embora os 4 filmes realmente possam ser linkados com as ansiedades sobre energia atômica e tecnologia em geral, na conclusão, o autor rebolou pra achar pontos em comum entre os quatro filmes, especialmente, porque Limite de Segurança pertence a esfera ligeiramente distinta dos demais. Até sua linhagem diretorial é mais “nobre”, afinal é um Sidney Lumet (e um de meus prediletos de ficção-científica nuclear). Outra coisa que Noboa poderia ter se atentado é que a suposta equação de igualdade de perdas, proposta pelo presidente norte-americano na crise dos mísseis, em Limite de Segurança, não é tão equitativa assim. A imolação de Moscou e Nova York não é a mesma coisa: A URSS perderia todo seu governo central, os EUA, não, e isso faz bastante diferença, não apenas simbólica.   
Filmes do Fim do Mundo: Ficção-Científica e Guerra-Fria (1951/1964) é uma boa fonte em nosso idioma pra quem quer começar a se aventurar pelas relações cinquentistas entre cinema de ficção-científica e Guerra-Fria. Dá pra baixar e ler grátis.


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

TELONA QUENTE 262



Roberto Rillo Bíscaro

Preste bem atenção à sequência inicial de Thelma (2017), adicionado ao catálogo da Netflix recentemente. É algo perturbadora, mas prenhe de promessas de reviravolta e estranheza.
Dirigido por Joachim Trier e escrito por ele e Eskil Vogt, Thelma discretamente assombra em diversos níveis. Logo após a inquietante abertura de pai e filha caçando (geralmente é sempre pai e filho...) no gelado interior norueguês, há salto temporal e a guria já está na universidade, em Oslo. De família cristã tradicional, daquelas que não bebe, não fuma e sequer gosta que se insinue crítica a outrem, a jovem vive controlada pelos pais, mesmo distantes.
Quando a futura bióloga (imagine, numa família que provavelmente leva a Bíblia ao pé da letra), conhece a linda Anja e desejos inconfessáveis afloram, Thelma começa a experimentar convulsões parecidas com a de epiléticos. Também começamos a ver cenas de flashback e a supervisão asfixiante dos pais começa a tomar outro sentido. Thelma, a moça, tem tanta repressão, que seu cérebro parece que materializa coisas. Mas, não dá pra falar demais sobre o enredo.
De modo redutor, Thelma, o filme, é uma espécie de Carrie, a Estranha, versão lésbica. De Palma e seu mestre Hitchcock certamente inspiraram cenas, como a do primeiro avanço erótico de Anja sobre Thelma, a moça, na linda ópera de Oslo, enquanto viam um balé muito corpóreo.
Com suas imagens clean, o filme está em constante convulsão formal, totalmente disfarçada de calma e contenção narrativas, como no enredo que é fogo sobre gelo. Repare como o ponto de vista da câmera se desloca o tempo todo, entre visões micro de caras e coisas, pra de repente, virar macro, numa fachada de edifício ou panorâmica, onde transeuntes parecem insetos. É como se inconscientemente, toda a narrativa apresentasse os flashes de claro-escuro, que o psiquiatra a certa altura usa pra induzir um surto em Thelma (epiléticos, cuidado: tive que fechar os olhos por causa da fotofobia, de tão desagradável que é). E quem viu O Exorcista não desperceberá a semelhança das cenas.
Não confundam a citada convulsão formal com velocidade de edição. Thelma parecerá lento demais aos viciados em ação. Na verdade, o roteiro é um pouco reprimido como a repressão que quer criticar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

CONTANDO A VIDA 256

CONVERSA PARA BOI DORMIR... 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Como ocorreu com muitos, passadas as eleições o cansaço venceu. A naturalidade da exaustão trazida pelo calendário que consagra outubro como ponto de partida para os festejos do fim do ano, se faz presente, desta feita, carregando uma dose extra de peso. Saímos exauridos de um processo político consequente, e prometedor de mudanças drásticas. A apreensão se expressa tanto no olhar de quem votou consciente no vencedor como naqueles que optaram pelo eleito, mesmo inseguros. O refluxo esperado mostra suas garras e aponta para espectro de novas formas de governabilidade. A imitação do novo modelo presidencialista norte-americano e o uso diferenciado das mediações jornalísticas sugerem que o Twitter será alternativa para contato entre a presidência e os eleitores, com redução do papel da imprensa usual. E assim teremos que aprender a captura do andamento político emergente e, nesta toada, cada qual tem que se habilitar às soluções informativas sem crítica especializada, a favor ou contra. 

Sob tal céu nebuloso, minha intimidade solitária convoca os prazeres pessoais como lenitivo para sobrevivência. A noite de quatro anos se me afigura como tempo obscuro com ameaças fatais, convite à tristeza e recolhimento. O retiro pessoal, a contemplação dos objetos biográficos que compõem minha memória afetiva, as páginas de livros que se abrem complacentes para leituras catárticas, uma dose de músicas escolhida segundo os mandamentos sagrados do gosto pessoal, tudo isso reunido servirá para serenar um oceano de indignações e expectativas negativas. O arquivo de velhas tormentas caçadas em censura, limitação de falas e expressões, a possibilidade de prisões e fugas de amigos da oposição, me ensinou a eficácia desse remédio personalíssimo que, diga-se, nada tem a ver com alienação. É lógico que os docinhos das vovós e os cafunés dos bichos de estimação, olhadas para o mar e para as montanhas, completam a cena alegórica do revigoro. Dizendo de forma contundente, pelo menos em um primeiro momento, comprometo-me com o aconchego de recolhimento íntimo. 

Estou longe do Brasil neste momento. Vendo tudo filtrado por olhos amigos, mas também pela imprensa nacional e internacional, dei-me o direito de planejar minha solitude com discrição. De presente, desta feita, um outro alívio se juntou à minha tristeza de ver a extrema direita na condução de meu país: um velho amigo. O termo “velho”, aqui é empregado como prova de que a idade dos companheiros não precisa ser metafórica. George tem 94 anos. Os meus 75 me fazem menino na intensidade dos aprendizados que ganho. Depois de uma vida de sucesso em todas as direções, o colega me acolhe a cada ano em Nova York, com a grandiosidade de quem recebe um parceiro aliado, me ajuda a sobreviver politicamente. E como nos afinamos! Ainda trabalhando, aprendeu lidar com internet e vende guarda-chuvas para um comerciante que compra da China. E como tem clientes! Por certo a simpatia e elegância ao falar lhe é recurso seguro para tanto reconhecimento. Também estou a trabalho, sempre na sina dos apaixonados por história oral. A cada manhã, tomamos café juntos, repartimos a leitura do The New York Times e fazemos os exercícios respiratórios a ele recomendados. É um tempo sagrado esse. 

À noite, depois de cumprida a jornada, ele se põe a contar histórias. E como narra! Fatos da Guerra, dos encontros com Bob Hope, do flerte como algumas atrizes famosas e shows inesquecíveis. Por lógico, frente a tanto exemplo, procedi a outra eleição: candidatei-me a ser como ele, se a idade me permitir mais um pouco de vida. E, para tanto, até fiz um acervo de canções que ele evocava em suas narrativas. Dentre tantas, uma se destaca “We’ll meet again” na interpretação de Dame Vera Lynn. Reza a letra algo próximo de “nós nos encontraremos outra vez/ não sei onde, não sei quando/ mas nós nos encontraremos outra vez”. Pronto, está dada a lição: nos encontraremos outra vez, ele e eu, eu e tempos menos tensos. We’ll meet again...   

terça-feira, 13 de novembro de 2018

TELINHA QUENTE 335

Roberto Rillo Bíscaro

Mike Bartlett deve ter ficado bem mais conhecido do grande público mundial, quando Doctor Foster estourou e foi premiada. Ambas temporadas estão na Netflix. O dramaturgo inglês já era bem conhecido nos círculos teatrais, porém, e sua peça King Charles III fora sucesso no West End londrino e na Broadway, sendo até indicada a Tony.
Nela, o dramaturgo esboça uma Grã-Bretanha imediatamente após a morte de Elizabeth II, quando seu primogênito sobe ao trono, após décadas desejando a morte da mãe pra que alcançasse o poder. Mas, o monarca inglês não o tem mais, é figura decorativa, o que o incomoda deveras. Na primeira reunião com o Primeiro Ministro, o Rei Charles se apõe a um projeto de controle da mídia, embora ele mesmo e a Família Real como um todo tenham sofrido horrores nas mãos dos tabloides. Turrão, Charles III não aceita concessões e, usando velha prerrogativa Real, real apenas no papel, dissolve o parlamento desencadeando monstruosa crise constitucional.
Pra ultraje dalguns políticos Tory, a BBC levou ao ar, em maio do ano passado, sua adaptação dessa tragédia moderna, mantendo, inclusive, os diálogos em verso livre e os solilóquios ditos olhando pra câmera. Cada vez que resenhista diz que isso é influência de House Of Cards, um professor de literatura inglesa falece.
King Charles III subscreve-se à tradição de Shakespeare. O Bardo frequentemente indicava que se a Casa Real estivesse uma balbúrdia, o reino todo entraria em caos. Longe de pregar qualquer espécie de democracia representativa no início da Era Moderna, o dramaturgo não deixava de apontar que, prum reinado ser eficaz, havia que existir certas responsabilidades recíprocas entre rei e súditos. Quando Charles ordena que os tanques sejam virados em direção à multidão, qualquer conhecedor de Shakespeare sabe que está danado. Como isso termina, porém, tem mais a ver com índices de popularidade da era do Instagram do que com os banhos de sangue apreciados pelos elizabetanos primeiros.
Dialogado e monologado em versos brancos – como nas peças de Shakespeare – King Charles III traz uma Duquesa de Cambridge (Kate Middleton, pros não inteirados) à Lady Macbeth não arrependida e um príncipe Harry pensando em abdicar de seu principado, porque conheceu uma moça pobre, negra e... republicana! Depois que você saca a influência shakespeariana fica fácil deduzir o que fará Harry ao final. A chave está no Prince Hal, de Henrique V. Mas, como sou noveleiro anglófono, logo lembrei no comportamento dos internamente beligerantes Ewings, Sopranos e Carringtons, quando ameaçados externamente! Dynasty e DALLAS também são trágicos! Curiosidade: Richard Goulding, o ator que interpreta Harry, vive a mesma personagem em chave bem distinta, na deliciosa sitsoap The Windsors (tem na Netflix).
O filme é ótimo, denso e dramático, mas perdeu o caráter presciente da peça, o que nada influi em seu resultado artístico, obviamente. Em 2014 Harry ainda não namorava uma afrodescendente, não havia declarado publicamente seu desgosto por tanto bullying midiático e os memorandos lobbystas de Charles ainda não haviam sido divulgados.
King Charles III é tão Shakespeare que tem até um espectro, assombrando Charles e seu filho William. Quem poderia ser que não a Princesa Diana? Ela faz a mesma previsão pro ex-marido e pra Wills. Aparição pérfida!
Sem procurar transformá-lo em simulacro do Charles de verdade, King Charles III apoia-se na soberba interpretação de Tim Pigott-Smith, falecido subitamente antes da exibição pela BBC2. O elenco todo está fantástico – muitos atores os mesmos da montagem teatral – mas o próprio título chama os holofotes pra Smith. Mas não dá pra não citar Charlotte Riley que constrói uma Kate que sempre virá à cabeça, quando eu vir a simpatia estudada das aparições da Duquesa. E o que dizer da miraculosa Tamara Lawrance, a namorada afro de Harry, que consegue desteatralizar as falas em pentâmetro iâmbico, melhor do que qualquer um no elenco? Nada contra teatro, mas estamos falando de produção pra telinha e o que funciona num meio não necessariamente é fácil de aguentar em outro.
King Charles III é obrigatório pra qualquer anglófilo ou estudante/pesquisador de dramaturgia, Shakespeare e afins. E também pra quem gosta de um bom teatro filmado.
Confissão de velho fã dos Smiths: quando Charles monologa “The queen is dead...”, não pude evitar de completar cantarolando “and it’s so lonely on a limb”.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 339

Roberto Rillo Bíscaro

O Sertanilia caracteriza sua música como sertanesa, feminino do sertanês utilizado nas obras de Elomar Figueira Mello. Segundo o trio, o neologismo foi criado para se diferenciar de "sertanejo", palavra que foi perdendo o real significado e se distanciando do universo do sertão à proporção em que foi empregada pelo mercado musical das grandes gravadoras.
Formado em 2010, o Sertanilia é composto por Aiace (vocais), Anderson Cunha (violão, bandolim e viola) e Diogo Flórez (percussão). São sempre acompanhados por João Almy (violão), Fernanda Monteiro (violoncelo), Mariana Marin (percussão) e Raul Pitanga (percussão). Essa profusão de instrumentos traduz-se em riqueza sônica inspirada nas diversas manifestações culturais do sertão, como cocos, maracatus, sambadas e ternos de reis. Sem sucumbir a folclorismos anacrônicos na produção, os baianos mesclam com destreza boa dose de contemporaneidade às tradições que querem registrar.
Premiado e com diversas apresentações em países como Portugal, Holanda e Espanha, o Sertanilia tem dois álbuns, que podem ser baixados gratuitamente no link:
O primeiro álbum, Ancestral (2012), foi apoiado pelo Conexão Vivo e Governo do Estado da Bahia. São 14 faixas, onde o grupo apresenta canções autorais e releituras. Traz convidados especiais, como Bule-Bule, Xangai e os percussionistas pernambucanos Nego Henrique e Emerson Calado, que fizeram parte do Cordel do Fogo Encantado e Gilú Amaral, da Orquestra Contemporânea de Olinda.
Além das regravações e do material próprio, o Sertanilia salpica Ancestral com vinhetas extraídas de material autêntico dos grupos de Folia de Reis que pesquisa. É o caso de Areia do Mar, Canto de Chegada e Canto de Despedida. Em Eu Vou Embora Daqui, a música sertanesa autêntica é misturada com efeitos de estúdio, como sinos, choros e contracantos meio clérico-góticos.
Polida produção e simbiose entre tradição e ruptura garantem o apelo universalizante do Sertanilia. Tome-se o caso de Ciranda do Fim do Mundo. Inspirada no ritmo do título, a canção é porém, tensa, densa; espécie de neurótica ciranda urbana, em consonância com a letra-denúncia da roda-viva do consumismo contemporâneo.
Felizmente, porém, existe muito tempo e espaço pra lirismo e felicidade em Ancestral. Sambada de Reis e Nobre Folia são pura ferveção de Reis; Pombinha do Céu é catirento coco, ritmo que também informa Pras Bandas de Lá. Mas, note como os momentos finais da canção orientalizam-se num clima 1001 Noites. E quem disse que a ibérica Folia de Reis não tem influência mourisca?
A linda voz de Aiace incandesce o clima sertão-carcará de Incendeia e emociona na longa Meus Buritizais Levados de Verde, lamento fúnebre, que tem recitação de trecho decisivo de Grande Sertão: Veredas. 

Em 2017, o Sertanilia voltou com Gratia, 14 faixas, contando com as vinhetas extraídas de reinados autênticos do alto sertão baiano e trechos de puro depoimento de História Oral.
Exceto pela faixa-título, Gratia vem menos brejeiro e bem mais épico, como atesta O Mundo de Dentro da Minha Cabeça. A poderosa percussão contribui pra epicização do sertão, como a da galopante Balada Para Uma Vingança. Os baianos não se rendem à folclorização ingênua de jeito nenhum: veja como a embolada de Corre Canto é urbana e modernamente urgente e nervosa e a letra de Gado Manso fala muito mais do que dos bovinos, mas de massificação e manipulação midiáticas. Como não se vive apenas de ápices, Confissão é lamento embalado por violão e violoncelo.
A tradição de reis é fruto do encontro da herança ibérica das festas da Natividade - vindas com o imigrante galego-português - com a cultura dos descendentes dos africanos cativos no sertão, resultado numa expressão popular única. Gratia veio cheio de referências hispânicas: a espanhola Gaudi Galego dueta com Aiace em Devagar; há linda faixa chamada Castela; musicalização de parte da cantiga de amigo Flores do Verde Pinho, de D. Dinis; além de referências instrumentais à musica galega no decorrer do álbum.

domingo, 11 de novembro de 2018

ORGULHO ALBINO

A afirmação do orgulho albino

Qualquer reflexão ou alusão à coloração da pele, ainda constitui um assunto constrangedor, apesar do paradoxo existente em que, por um lado, algumas pessoas, inclusivamente famosas, aparentam ter branqueado a sua pele escura mas, por outro lado, os albinos são repudiados pela sua cor clara. Com efeito, em todo o mundo, as pessoas com albinismo continuam a enfrentar ataques ou sofrem uma terrível discriminação, estigmatização e exclusão social, o que mostra quão desumano e intolerante pode ser o homem, relativamente ao outro e à diferença.

Daí a condenação da Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, dos "assassinatos e ataques cruéis contra os albinos, que são cometidos em circunstâncias particularmente horríveis e que envolvem o desmembramento de pessoas, incluindo crianças". Estes crimes são muitas vezes ligados à feitiçaria.

Alguns praticantes acreditam que o feitiço é mais poderoso quando a vítima grita durante a amputação, o que explica que os corpos muitas vezes sejam cortados enquanto as vítimas estão vivas. O Conselho de Direitos Humanos da ONU adoptou uma resolução que condena ataques e a discriminação de pessoas albinas. Este órgão também solicita medidas para garantir a proteção deles. A resolução, proposta pelas nações africanas e apoiada por outros países, obteve consenso.

A mesma prevê, outrossim, que seja garantido o acesso das vítimas e das suas famílias a medicamentos apropriados e à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Todavia, para além dos procedimentos legais e administrativos é fundamental a educação das pessoas contra os estereótipos que rodeiam estes seres inocentes. É que algumas famílias das crianças com albinismo muitas vezes negligenciam a sua educação e as que frequentam a escola sofrem grave assédio moral.

ORGULHO ALBINO

Paulatinamente, os portadores deste problema congénito têm estado a desencadear uma série de acções no sentido do respeito pelos seus direitos humanos, normalização do seu quotidiano, ostentando orgulho por aquilo que são. É o caso de alguns nomes do mundo artístico e da Moda internacional, em que sobressai Shaun Ross, modelo profissional, actor e dançarino, mais conhecido por ser o primeiro modelo albino masculino.

Tem sido destaque nas principais publicações de moda, incluindo a britânica GQ, Vogue Italiana, i-D Magazine, Paper Pagazine e Another Man. Está igualmente ligado ao cinema e televisão e participou de vários vídeos musicais, incluindo os clips da cantora californiana Katy Perry e da afro-americana Beyoncé. De nacionalidade sul-africana, Thando Hopa também é modelo apesar de possuir um diploma de advocacia.

Nunca se sentiu em perigo por ser albina, mas está consciente de que nem todos têm a sua sorte. É essa consciência que motiva o seu desejo de servir de referência para os menos afortunados. " Quero fazer a diferença, mas não apenas em relação à percepção. Quero ajuda prática para os albinos, para que consigam apoio para a aquisição do protector solar e auxílio para a sua visão" declarou à Sky News.

Com a mesma inenção, Diandra Forrest, modelo albina afroamericana tem-se empenhado nesta luta contra os preconceitos. O cantor maliano Salif Keita, descendente directo do fundador do Império do Mali, Sundiata Keita, foi ostracizado devido ao seu albinismo, sinal de azar na cultura Mandinga .

Mudou-se para Paris em 1984 com o objectivo de prosseguir a sua carreira e o seu êxito contribuiu para diminuir a discriminação existente um pouco por toda a parte. Embora servindo-se do humor, o comediante americano Nate Hurd, albino, também está envolvido nesta luta contra os estereótipos sociais.

O brasileiro Roberto Rillo Bíscaro, doutorado em dramaturgia norte-americana, é conhecido pelo seu blog "Albino Incoerente", que trata para além de assuntos diversificados, do tema do albinismo, pouco divulgado nos meios de comunicação social. São numerosos, por conseguinte, em todo o mundo os que assumem o seu albinismo e encetam um combate cerrado visando a melhoria das suas condições sociais e humanas, tanto individualmente como em associações. 


ALBINOS DESTACADOS EM ANGOLA

É cada vez mais comum, encontrar pessoas com albinismo nas ruas de Luanda. Um dos mais mediáticos é o comunicólogo Celso Malavaloneke, que com a sua visibilidade e simpatia, a que acresce alguma polémica, contribuiu muito para a quebra dos estereótipos e por um maior respeito pelas pessoas com falta de melamina.

Outra figura importante é Guilherme Santos, presidente da ADRA e de reconhecida competência. Entre a juventude é de realçar o artista Lombadas. Protagonista de vídeos que se tornaram populares nas redes sociais no país, o criador da expressão "Issekévida" é actualmente uma das mais conhecidas e mediáticas figuras da Internet em Angola. Antigo "bailarino de Kuduro" do cantor angolano Puto Prata, estreia-se também como cantor e torna-se um dos rostos da campanha publicitária da TV ZAP, sobre o Mundial.

O jovem Lombadas manifesta a também a sua intenção de representar os "Kilombos" porque na sua opinião, os albinos "não se assumiam como hoje em dia, agora eu vejo na rua muitos a assumir o que são, porque me viram a assumir sem preconceitos aquilo que sou". Praticamente em todos os ramos profissionais, estes angolanos têm dado a sua contribuição com dedicação e competência.

A DISCRIMINAÇÃO EM ÁFRICA

Porém, em África, especialmente na parte oriental, pessoas com albinismo correm permanentemente risco de vida. São diversas as razões, sendo a principal a superstição que lhes atribuiu poderes super-naturais. Muitos acreditam que eles, são criaturas de "sorte", daí que sejam mortos para que os seus órgãos sejam utilizados em práticas de bruxaria ou então para que o autor do crime "herde a sorte" do malogrado.

As pernas e as mãos amputadas são vendidas a pessoas que os usam como talismãs, para, de acordo com às suas crenças, dar sorte ou afastar maus espíritos. Pescadores colocam cabelos de albinos na sua rede para ter sucesso na pescaria. Mineiros penduram no pescoço amuletos feitos com seus ossos moídos e acreditam que o pó daí resultante, depois de algum tempo enterrado, se transforma em diamantes Quem consegue beber o sangue ainda quente de um albino "tem sorte a dobrar", sobretudo se se tratar de uma criança, pois consideram que a pureza infantil intensifica o poder do feitiço.

A pele é usada para revestir amuletos. Os órgãos genitais são usados em poções para cuidar de disfunção erétil. A procura de albinos aumentou imenso depois da propagação da SIDA na Tanzânia Há a crença de quem tiver relações sexuais com albinos ou albinas ficará curado do HIV. Por este motivo, as mulheres muitas vezes são estupradas. Também há uma crença nalguns locais que expressa que a ingestão de órgãos genitais secos elimina a doença. Os que morrem são sepultados pelos seus parentes em locais onde os restos mortais não possam ser desenterrados pelos fornecedores dos feiticeiros.

Um relatório publicado pela ONU, afirma que os albinos "são considerados fantasmas e não seres humanos". Há zonas em que são também mortos e enterrados com os chefes tribais falecidos para que estes não fiquem sós nas suas covas. Alguns políticos querem obter um amuleto para garantir a sua vitória nas eleições. Grupos de Especialistas da ONU têm-se pronunciado e alertado contra estes comportamentos. Um deles é Christof Heyns, Relator Especial sobre Execuções extra-Judiciais, Sumárias e Arbitrárias.

OS ALBINOS E A ÁFRICA ORIENTAL

Os cientistas ainda não foram capazes de explicar claramente as causas do percentual elevado de albinos na África Oriental. Admitem a hipótese de que a Tanzânia e a África Oriental possam ser o berço da mutação genética que cria o albinismo.

Por outro lado, por causa da discriminação e exclusão social, as pessoas com albinismo tendem a casar-se entre si, o que aumenta a probabilidade de terem filhos também albinos. A vida das crianças albinas está praticamente em risco desde a sua nascença devido a todas as crenças atrás referidas. Segundo a ONU, a Tanzânia é o país com mais ataques, seguindo-se o Burundi, Quénia, República Democrática do Congo, Suazilândia, África do Sul e Moçambique.

ALBINISMO, DESPIGMENTAÇÃO E CLAREAMENTO DA PELE

Para além do albinismo, distúrbio congénito caracterizado pela ausência completa ou parcial de melamina pode ocorrer uma situação de despigmentação da pele, isto é, de perda da pigmentação normal da pele, quer de forma espontânea ou intencional. A espontânea consiste numa distribuição anómala de melanina, como por exemplo o Vitiligo, que se caracteriza pelo aparecimento de manchas brancas em certas áreas do corpo.

Já a intencional tem por objectivo o clareamento da pele, motivada por razões psicológicas e sociais, uma prática generalizada nalguns países de África especialmente entre as mulheres. Com a globalização, muitas nações pós coloniais têm visto um aumento da procura de cremes de clareamento da pele visando obter uma aparência eurocêntrica.

No entanto, esses produtos clareadores de pele, geralmente, contêm três ingredientes perigosos: mercúrio, hidroquinona e / ou corticosteroides, que podem ser extremamente perigosos e fatais. A cor da pele tem forte influência sobre as expectativas conjugais, emprego, estatuto e aceitação social.

Indivíduos de pele mais escura são sociais e economicamente desfavorecidos e as mulheres são preteridas. Isto talvez possa ajudar a explicar a atribuição dos poderes especiais aos albinos, já que a cor clara é garantia de sucesso, bem como a quase obsessão, pela eliminação intencional da melamina do seu organismo verificada em muitos países de África.

"COLORISM" E "PIGMENTOCRACIA" NOS ESTADOS UNIDOS

Ao contrário do que seria de esperar, dada a longa luta contra a segregação, pelos direitos cívicos e a acção de Martin Luther King, nos Estados Unidos também existe a preocupação pelo clareamento da pele entre os afro-americanos. Pode ser entendida como sequela do colonialismo europeu que criou um sistema de supremacia branca, em que as diferenças biológicas na cor da pele foram usados como justificativa para a escravidão e a opressão dos africanos, bem como para o desenvolvimento de uma hierarquia social que colocou os brancos no topo e os negros na parte inferior.

O Dr. Ronald E. Hall, da Michigan State University, no início da década de 1990, considerou como " síndroma de branqueamento" este processo de tentativa de clarear a pele. Existe, assim, um conflito psicológico, fazendo com que alguns afro-americanos desenvolvam um desdém para a com pele escura, uma vez que contraria os ideais culturais dominantes.

Num artigo intitulado "Colorism: um tom mais escuro de Pele", Taunya Lovell Banks discute o conceito de "colorism" e como foi interiorizado pela comunidade negra, levando a uma hierarquia que privilegia as peles mais claras dentro das suas próprias comunidades. Esta discriminação interna baseada na cor da pele é uma forma de preconceito ou discriminação em que os seres humanos são tratados de forma diferente com base nos significados sociais ligados à cor da pele.

O termo "Colorism", cunhado pela escritora Alice Walker em 1982, não é sinónimo de racismo. Este está relacionado com o significado social atribuído a uma raça. Já o " colorism" consiste na dependência de estatuto social da cor da pele apenas. Comportamentos ligados ao "colorism" ocorrem em todo o mundo. Pode ser considerado uma consequência da prevalência global da "pigmentocracia", um termo recentemente adoptado por cientistas sociais para descrever sociedades em que a riqueza e o estatuto social são determinados pela cor da pele.

Uma das evidências consiste no clareamento da pele ostensivo de alguns artistas afro- americanos de sucesso que, com a sua prática, tornam o slogan americano dos anos 60, "Black is Beautiful", obsoleto. É o que se depreende comparando as imagens do passado com as actuais da Beyonce, Rihana, Tyra Banks, Nik Minaj, Iman, além de Michael Jackson que teria sido por razões de saúde. Para o psiquiatra antilhano Frantz Fanon em "Peles Negras Máscaras Brancas" " a cor não deve de forma alguma ser sentida como uma tara...uma outra solução é possível.... Ela implica uma reestruturação do mundo..."

O ORGULHO ALBINO EM ANGOLA

Angola é um dos poucos países onde os preconceitos contra os portadores de albinismo não é tao forte quando comparado com outros países de Africa. Estes levam uma vida normal, alguns ocupando cargos de responsabilidade dentro da sociedade. Por outro lado, não faz parte da cultura angolana a utilização de produtos para clareamento da pele, apesar de alguns casos inexpressivos de angolanos provenientes da RDC, e há um forte índice de mistura entre os povos.

Com estas características, Angola acaba por ser um país peculiar no contexto africano. Tem de ser reconhecido o comportamento dos angolanos em relação ao respeito pela diferença no que concerne aos albinos. Isto permite que se encontrem albinos orgulhosos do que são e com uma alta auto-estima.

Nem tudo é perfeito como exprime Guilherme Santos, Presidente da ADRA. Porém, acrescenta que muitas vezes a hostilização, a discriminação e os estereótipos surgem por parte de familiares. Assim, persiste na sociedade algum preconceito, construído psicologicamente, que pode ser ultrapassado se todos estiverem envolvidos em dar apoio psico-social aos familiares de pessoas com albinismo. Para dar o seu apoio, surgiu, de uma forma natural e espontânea, o Grupo Voluntário de Apoio a Pessoas com Albinismo em Angola (GVAPAA), de que fazem parte alguns fotógrafos.

São um grupo de cidadãos de várias nacionalidades, sem personalidade jurídica e sem fins lucrativos, que se juntaram com o intuito de dar apoio de modo sustentável a pessoas com albinismo em território Angolano. Acreditam que que a educação e (in)formação das pessoas com albinismo, das suas famílias e comunidade a que pertencem, é a melhor e mais sustentável forma de ajudar.

Na mesma linha de intervenção, a Associação de Apoio aos Albinos de Angola (AAAA), representada pela sigla " 4As" integra todas as pessoas que queiram associar-se para o bem da Associação. É uma organização filantrópica, de caráter Nacional e não lucrativa. Pretende trabalhar com o Governo de Angola na divulgação de dados estatísticos de existência de pessoas albinas em Angola, educar a população albina com base nos argumentos científicos, em detrimentos de algumas crenças e tabus, promover campanhas de sensibilização da população nos órgãos de comunicação social, rádios, TVs, jornais, revistas, e outros. Advoga também a formação de médicos especialistas para atender os albinos angolanos.Ainda há um longo caminho a percorrer mas pode-se afirmar que em Angola há condições para que os albinos tenham orgulho da sua condição e levem a sua vida normalmente.

A palavra albinismo vem do termo em latim albus, "branco". É um distúrbio congénito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina. Muitas formas de albinismo estão associadas à sensibilidade à luz (fotofobia) e ao movimento rápido dos olhos (nistagmo).

A falta de pigmentação da pele faz com que o organismo fique mais suscetível a queimaduras solares e ao cancro da pele. Também aparecem equivalentes do albinismo nos vegetais, em que faltam alguns compostos corantes, como o caroteno e nos animais. Para prevenir problemas de saúde, as pessoas com albinismo devem: evitar a exposição solar direta ou indireta; fazer visitas periódicas ao dermatologista e ao oftalmologista; estudar ou trabalhar em salas onde a incidência de luz não seja prejudicial; usar óculos escuros com prescrição médica para proteção para os raios solares; usar acessórios como chapéus com abas, sombrinhas e blusas de manga comprida; protetor solar (pele e lábios) de elevado índice de proteção, (Fator de Proteção Solar (FPS) superior a 50, contra os raios ultravioletas UVA e UVB.

sábado, 10 de novembro de 2018

TOKI

A incrível jornada de Toki, a Jiboia albina doada à caridade sem querer

NOTA DO EDITOR: por se tratar de um slideshow, melhor visitar o site original pra conhecer a história:

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

ANITTA ALBINA

Anitta troca foto do perfil por imagem de modelo presente em seu clipe
Como de costume nos trabalhos de Anitta, a cantora busca colocar diversidade no que faz, seja nos clipes ou nos palcos. Conhecida por trabalhar com dançarinas negras e gordas, a funkeira agora convidou uma modelo albina para seu novo vídeo.

Dia 1 de novembro, Anitta trocou a foto do seu perfil no Instagram – onde tem mais de 30 milhões de seguidores – pela imagem de Ana Nery. A modelo estará no seu novo projeto, nomeado “Solo”, que será lançado no dia 9 de novembro.

Apesar de já ter bastante experiência, Ana tem apenas 18 anos e é contratada da agência Rock MGT, de São Paulo, que conta na sua cartela com profissionais de diferentes perfis, como modelos com vitiligo e albinismo, segundo informações do portal iBahia.

“Temos um casting diferenciado. A produção da Anitta pediu modelos com perfis diferentes e, ao todo, 15 profissionais da agência foram selecionados para o clipe“, explicou Clóvis Pessoa, diretor da Rock MGT.

Esse não é o primeiro clipe de Nery. Ela já participou de uma gravação da banda Scalene, “Caveira digital”, além de atuações em campanhas publicitárias.

TELONA QUENTE 261

Roberto Rillo Bíscaro

Puristas geralmente são pessoas muito bobas (e perigosas também), porque pureza de gêneros é duro de alcançar, se é que existe. Grosso modo, chamamos os anos 1950 de era dourada da ficção-científica, mas esse subgênero vinha misturado com horror, drama, aventura, comédia.
When Worlds Collide (1951) – que no Brasil chamou-se O Fim do Mundo – traz todos elementos típicos do cine-catástrofe, como preparar terreno pra quem vamos gostar ou não e torcer pra perecer ou não; decisões tomadas com o coração, porque motivadas por crianças ou cãezinhos e até personagem que se sacrifica, neste caso, pelo bem da espécie humana, porque When Worlds Collide (WWC) é do sub-subgênero apocalíptico.
Um cientista sul-africano (?!) descobre que a estrela Bellus está em inevitável rota de colisão com a Terra, mas existe esperança de salvar pelo menos um punhado, através da construção duma nave que levaria uns 40 – além de animais – até Zyra. Esse planeta orbita Bellus, portanto, antes que a estrela incinere nosso mundo haveria chance de aproveitar a passagem de Zyra perto de nossa órbita e ir pra lá colonizá-lo. Só não se explica o que aconteceria com um planeta cujo sol estivesse se deslocando pelo espaço sideral e trombando com outros corpos celestes. Se a passagem de Zyra por aqui causaria destruição maciça, por que não em Zyra?
Ninguém acredita nos cientistas, nem no ONU, que tem delegado do Brasil, falando com sotaque levemente lusitano. Mas, um ricaço prepotente e cadeirante financia a espaçonave. Alguma dúvida sobre seu fim? Assim, começa a construção da arca espacial, que levará 40 sortudos a Zyra, sob as bênçãos divinas. Só não fica claro porque a espécie humana teria que agradecer à divindade o sacrifício de bilhões pra se começar do zero com um bocadinho de “inocentes”.
WWC é a Arca de Noé da era atômica. Mas, enquanto a lenda bíblica coloca o dilúvio como castigo divino, o filme situa o choque dos corpos celestes como algo apenas físico. Então, por que ficar grato ou compreender um Deus que permite isso? Mas, nos anos 1950 questionar seria subversivo, literalmente antiamericano.
Então, a ciência de WWC existe a serviço de Deus. Dê uma olhada na cena da microfilmagem dos livros salvos pra iniciar a nova vida em Zyra. A Bíblia Sagrada é o primeiro da fileira, seguido por obras de matemática, anatomia e um volume relativamente fino de História Geral. Quem não curte discurso religioso, não se assuste, porque WWC não faz proselitismo. Ao contrário do que creem ingênuos ou mal-intencionados, não é necessário vomitar ideologia pra todo canto pra se propagar uma.
Alude-se à construção de naves similares em outros países, mas nada sabemos do resultado. Se depender dos Estados Unidos, porém, a nova civilização em Zyra será inteiramente branca, como nos condomínios suburbanos que pipocavam por todo o país, que proibiam aluguel/compra por negros. Veja se consegue localizar algum afrodescendente, quando o foguete levanta voo ou no desembarque no novo mundo, que, por falta de verba, é nitidamente uma pintura.
Pros padrões sci fi de então, WWC teve até orçamento polpudinho: uns 950 mil dólares. Filmado em Technicolor, com um monte de extras, dá pra ver de boa ainda hoje, especialmente se você cresceu com produções que gastavam 1 hora com a preparação e apenas na meia hora final acontecia efetivamente a catástrofe.
Comparando com primos bem mais pobres, WWC fracassou na bilheteria: faturou apenas 1,6 milhões nos EUA, enquanto O Homem do Planeta X, do mesmo ano e que custou pouco mais de 50 mil, amealhou 1,2 milhões de dólares. Compensava ser B de drive in.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

ALBINO DESNUTRIDO


Jardim Zoológico na Nigéria acusado de crueldade depois de visitante partilhar fotografia de animal

Tunde Sawyerr, depois de ter visitado um jardim zoológico na Nigéria, decidiu partilhar uma fotografia no Twitter onde denunciava o estado de subnutrição de um camelo.

Segundo a CNN, o homem foi ate ao jardim juntamene com a sua filha de três anos, sendo que a criança não conseguiu identificar o animal que estava a ver devido a este estar bastante magro e subnutrido.

O diretor do zoológico, Aminu Muhammed recusou quaisquer acusações e disse ainda que o animal sofre de um problema de pele que está a ser tratado. O diretor acrescentou que o camelo é albino e que não se está a conseguir adaptar a clima.

Contudo, de acordo Justin Williamson, cientista ambiental e investigador na International Animal Rescue Foundation Africa, citado pela CNN, este animal é “um dromedário, um camelo árabe juvenil, e da para ver que está muito doente e subnutrido”.