terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

TELINHA QUENTE 247

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Roberto Rillo Bíscaro

Como a escandinava, vez ou outra a TV israelense fornece aos norte-americanos inspiração pra adaptações. Os originais de sucessos como In Treatment, Homeland e Hostages são israelenses. O pequeno país asiático infelizmente é mais afamado pela perene e sangrenta luta contra palestinos, que inspirou o filme O Atentado, por exemplo. De 2015, a dúzia de capítulos da primeira temporada de Fauda acresce material ficcional de qualidade às narrativas sobre o conflito.
Doron é ex-agente de um grupo da elite antiterrorista israelense convidado a se desaposentar pra eliminar de vez Abu Ahmed, líder do Hamas que se acreditava morto por Doron, só que não. Típico de série, Doron faz doce no começo, mas assim que aceita, tudo e todos a seu redor e de Ahmed envolvem-se/complica-se numa espiral de violência e caos (fauda em árabe). Tem mulher-bomba, criança como mercadoria de troca em sequestro, traição; infidelidade conjugal num suspense crescente a cada episódio, atingindo clímax de roer unha no derradeiro, que deixa uma deixa perversa, perigosa e fanática pra confirmada segunda temporada. Esse Walid tá maluco de pedra, que que ele vai aprontar, Alá de Jesus!?
Fauda usa os elementos convencionais de thriller político/de espionagem em um ambiente propício pra ambivalências. Árabes e judeus estão grudados – pra nós estrangeiros nem dá pra distinguir – e mesmo dentre os grupos há rachaduras. Claro que sendo israelense, vemos mais as cisões no lado árabe, mas estes não são representados como animais selvagens sem motivação ou “amor”. Nem os judeus são ungidos sem defeitos. Em Israel houve quem reclamasse disso. No caso do Brasil, há quem reclamará que a dublagem da Netflix apenas do hebraico sub-repticiamente traz o espectador pro lado judeu, afinal o árabe falando sua língua com legenda soa como “o outro”. 
Conhecendo melhor Doron, difícil mesmo negar que a empatia fique com ele, até porque algumas atitudes do lado árabe não são nossas escolhas primeiras como ocidentais. Temos mais a ver com o lado israelense na informalidade das relações, na postura perante a mulher, até na tolerância com um baseadinho. Mas a série é sob o ponto de vista israelense, isso nunca pode ser olvidado.
Com um elencaço em ambos os lados – que ingrato fazer os papéis de Abu Ahmed e Walid, mas os atores conseguem projetar mais do que máquinas de vingança e fanatismo – Fauda prende a atenção não apenas pela trama eficiente, mas pela locação tão distinta das séries anglo-americanas/europeias. Também é muito legal perceber diferenças culturais tipo, como aqueles homens se tocam/beijam ao passo que as mulheres, não! Tão diferente da distância masculina nas séries ianques ou dinamarquesas...
Por isso é tudo de bom sair do circuito Nordic Noir/TV britânica de quando em vez: pra olhar o distinto. Aprender que quando alguém morre por Alá é chamado de shahid (mártir). Infelizmente, vivemos num mundo onde isso existe, por que não saber? Se essas informações e olhares sobre o diferente vêm numa série absorvente, melhor ainda. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 263

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Roberto Rillo Bíscaro

Em um de seus vários clássicos contemporâneos da música popular, o compositor Burt Bacharach e o letrista Hal David reclamam ao Criador que não precisamos de mais rios e montanhas: já os há demais para transpor. Tudo de que o mundo precisa é amor (quando se vive muito bem na Califórnia e não na Etiópia tende a vir “naturalmente” a noção de que há campos de trigo em demasia...).
Aproveitando o questionamento de What The World Needs Now Is Love (1965) poder-se-ia indagar se o mundo precisa de mais um álbum-tributo a David/Bacharach. Que me lembre, resenhei símiles de Elvis Costello, Traincha e Ronan Keating. Rumer não perguntou a ninguém e dia 25 de novembro lançou This Girl’s In Love – a Bacharach & David Songbook. O marido da chanteuse, Rob Shirakbari, trabalhou com Burt e é o responsável pelos arranjos e produção, segunda coleção de covers de Rumer, se não contarmos com o frankensteinico B Sides & Rarities.
Felizmente – e como era de esperar dado seu passado – Rumer não tenta reinventar o hambúrguer, mas consegue pincelar de personalidade canções regravadas à exaustão (nunca pra devotos do Mestre), como The Look Of Love, que ao invés de ganhar manjado solo dalgum instrumento de sopro, tem um de violão. A anglo-paquistanesa tem uma calma obstinada em suas interpretações e logra a rara qualidade de não fazer destoar essa delicadeza vocal com algumas orquestrações luxuosas.
O desserviço carimbador da imprensa em rotulá-la como a nova Karen Carpenter (repouse na glória, amada!) colocava extrema pressão na releitura de (They Long To Be) Close To You, afinal, apesar das n regravações, a dos Carpenters é a definitiva para não poucos. Continua sendo, mas Rumer não a copiou simplesmente. Ao desacelerá-la ainda mais e despi-la quase que apenas a piano mínimo e voz, Rumer apropriou-se do material com abordagem própria. O momento mais Carpenters em This Girl’s In Love é Are You There (With Another Girl), delícia easy listening plena e absoluta à meados da primeir metade dos 70’s. Karen e Dionne Warwick (uma das intérpretes definidoras de Bacharach) podem ficar sossegadas; sua tradição está em boas cordas vocais.
Outro trunfo do LP é apresentar material relativamente pouco relido. One Less Bell To Answer e a bossa-jazz de You’ll Never Get to Heaven (If You Break My Heart) vem com Balance Of Nature, numa adorável retomada de canções que mereciam o selo de qualidade Rumer. Balance, aliás, tá mais Burt que o Mestre em pessoa! Dá vontade de caminhar assobiando e chutando pedrinhas com Robert Redford, Paul Newman e Katherine Ross. De bike não, porque não combina com o ritmo (analogia só pros bem fanáticos de Burt!).
Retomando a questão: o mundo precisava de mais essa coleção de regravações de Bacharach/David? Sendo de Rumer, sim, desesperadamente!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

SUPERANDO A SECA

No interior da Paraíba produzia-se muito coco, mas a forte seca castigou demais os agricultores da região, que tiveram que se adaptar. Conheça histórias de gente que usou a adversidade para se superar, mudando de cultivo, usando irrigação, indo atrás de recursos.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

DIANDRA FORREST

Modelo albina vence preconceito com sua aparência: "Não é show de horrores"

A modelo Diandra Forrest se destaca em qualquer passarela. Estrela de diversas campanhas publicitárias e de clipes da cantora Beyoncé, como "Pretty Hurt" e "XO", a norte-americana de 28 anos é também uma ativista procurando dar maior visibilidade para as pessoas que sofrem de albinismo.
O albinismo, distúrbio congênito raro que atinge uma em cada 17 mil pessoas no mundo, é caracterizado pela ausência de pigmentos na pele, cabelos e olhos. Diandra, fiha de um casal afro-americano, é pálida e loira - ela e seu irmão nasceram com a condição genética. 
"Muitos amigos dos meus irmãos perguntavam se eu era adotada", ela explicou em um vídeo para uma campanha das Nações Unidas sobre o albinismo. "Eu não era bem-vinda por causa do modo como eu era. Na escola, ou andando com a minha mãe, sempre havia algum adulto que olhava para mim e para meu irmão e começava a rir. Não conseguia compreender o motivo." 
Apelidada de Gasparzinho pelos colegas de escola e de bairro, Diandra encontrou refúgio no New York Institute for Special Education, onde passou a conviver com pessoas na mesma situação que ela. Ela se tornou a primeira pessoa com albinismo a ser contratada por uma grande agência de modelos nos Estados Unidos e se tornou uma porta-voz da causa.
A modelo Diandra Forrest com a filha, Rain
"Mesmo na indústria da moda, somos vistos como algo extraterrestre, não uma 'beleza de verdade', seja lá o que isso signifique," Diandra explica. Sua participação na campanha das Nações Unidas é uma maneira de ressaltar o fato de que, embora diferente, ela não se resume à sua condição genética. "Isso pode ser divertido e pode entreter, mas não deve ser um show de horrores", conclui. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

TELONA QUENTE 184


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Dossiê Madame Bovary

Roberto Rillo Bíscaro

Desde reler Madame Bovary, deu vontade de constatar o que cineastas e roteiristas de TV aprontaram com o clássico de Flaubert. Claro que não se tratou de ver qual versão é “mais fiel” ao livro, porque essa suposta semelhança só pode ocorrer no nível mais básico da fábula, afinal, são modos distintos de expressão. Mas, tinha curiosidade de ver quanto do maciço caráter de sátira social, havia sido transposto nas adaptações. Não muito, parece que o pessoal adora mesmo um drama sobre “mulheres decaídas”. 


Em 1949, Vincent–Pai-da-Lisa (quem?)-Minelli fez uma adaptação em branco e preto, defendendo a liberdade de expressão, poucos anos antes de o macarthismo destruir carreiras em Hollywood, daqueles que ousaram expressar-se. Aproveitando o litígio judiciário causado pelo romance, o filme coloca Gustave Flaubert como narrador, defendendo seu livro e heroína, colocando-a como fruto duma sociedade que a ensinou a gostar de Cinderela, a valorizar o amor idealizado em detrimento da vida real, mostrada como monótona pelos romances. Minelli criticando a própria indústria de cine, que sistematicamente faz isso desde sua criação. Tais discussões tornam a película provocadora. A cena mais marcante é a do baile, onde Emma rodopia desvairada com um nobre, antes de passar vergonha com o marido bêbado; Minelli numa cena mostra o que é o bovarismo. Roteiro é diferente de livro, então, diverte ver a criação da cena onde o arsênico é apresentado pra que o público não o tenha depois como conveniente demais, mas desaponta que Charles tenha que ter ganho mais consciência e até certo altruísmo, quando desiste de operar o pé torto de Hyppolite ou saque as infidelidades da esposa. Flaubert era mais cortante do que a cultura de massa quase 100 anos depois da publicação, mas mesmo assim, vale a pena ver.

Em 1975, a BBC adaptou o romance pras telinhas, em 4 capítulos. Dadas as condições técnicas e dificuldades econômicas inglesas da época, quase tudo se passa dentro de poucos cenários, o que não é de todo mal, porque representa o confinamento sentido pela personagem. Embora nesta versão o espectador saiba que Emma é o segundo casamento de Charles, não fica claro que ele tenha casado com a primeira mais pelo dinheiro. Além disso, ele é tão bonzinho e bobinho, que a esposa passa por megera mal-agradecida. Francesca Annis é minha Emma Bovary favorita. Você pode ver tudo no Yutube sem legenda.

Dado o pedigree de Claude Chabrol e o filme ser da terra de Flaubert, a adaptação de 1991 pode ser bem pertinente e é realmente a melhor que vi. Mas nem o crítico da burguesia escapa da armadilha de individualizar a pequena tragédia da madame. Como nas demais adaptações, a eliminação do antecedente das famílias dilui o sentido de crítica coletiva que tem o romance, sem dizer que o aspecto de ironia farsesca do narrador vai todo pro brejo, ainda que Chabrol estivesse ciente das limitações da forma cinematográfica ao incluir um narrador que aparece em momentos onde a consciência de Emma precise ser penetrada. Por que nenhum roteirista cria um Charles Bovary matizado? Flaubert não o fez tão vítima: e o primeiro casamento por dinheiro, onde fica? Não fica, porque adaptação alguma mostra os capítulos iniciais. Parece que a cultura ocidental, em sua maioria, tem dó de corno macho? Pelo menos o filme de Chabrol narra os destinos da pequena Berthe e de Homais, 2 das grandes maldades de Flaubert.

Em 2000 a BBC fez mini de 2 capítulos, exibidos primeiro nos EUA. Fãs de Downton Abbey gostarão, porque Charles Bovary é Hugh Bonneville, o Lord Grantham. Trilha sonora bonita, a mediocridade e as limitações de cama de Charles estão lá, inclusive a desastrada operação no pé de Hyppolite e até cena inicial mostrando que Emma era fogosa demais pra vida num convento. O que faltou foi explicitar que Leon e Rudolphe não a amavam de verdade, como dá a entender o roteiro. Também parece que Emma era satisfeita com os casos enquanto duraram. Não, provavelmente nada seria capaz de aterrar o poço sem fundo de carência emocional que era essa filha de campesinos que ousou ser classe-média.

E eis que em 2015 foi lançada a primeira releitura roteirizada e dirigida por uma mulher, Sophie Bartes. E que decepção! Madame Bovary é inegavelmente belo em cinematografia e vestuário, mas a norte-americana deve ter visto produção britânica demais, pois troca o excelente baile na casa do visconde por uma caçada (depois dizem da “sensibilidade” feminina, sei...) na propriedade dum marquês, que depois vira amante de Emma, eliminando Rudolphe da trama. Tem hora que é lento demais, tem hora que é tão de repente que nada explica.  Invisibilizando as demais personagens que não fossem do núcleo familiar direto dos Bovary (que nessa versão nem filha tem), Bartes individualiza a história de Emma, quando na verdade, o buraco em Flaubert estava mais embaixo, porque impiedosamente expõe todos ao ridículo. Se dá bem quem sabe esconder ou usar a mediocridade/sem-vergonhice a seu favor. Decisões como dar a entender que o casamento com Charles foi arranjado pelo pai – o filme começa com uma subserviente Emma se casando – tornam-no só mais uma película sobre infidelidade, onde a noção de Realismo se traduz em filmar vestido com barra suja de barro. Bartesinha não entendeu nada do livro, né fia? A não ser pra fãs de Mia Wasikowska, a Sophie da temporada primeira de In Treatment, essa Madame Bovary tem depressão a oferecer e não a ebuliente histeria tão bem descrita pelo narrador discreto flauberiano.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

CONTANDO A VIDA 179

INTELECTUAL BREGA: motéis e traições conjugais...


José Carlos Sebe Bom Meihy

Não é sempre, mas de vez em quando baixa em mim um gosto bizarro por coisas da chamada “cultura cafona”. Quando isso acontece, meu lado brega desperta e me domina. Então, logo me vejo consultando o Google em busca de algumas baixarias musicais ditas “do povão”. E olhe que aí entram a Valesca Poposuda (Acredito em Deus/ faço ele de escudo/ Late mais alto que daqui eu não te escuto/ Do camarote, quase não dá pra te ver), Wesley Safadão (Não sei se é amor/ Se é um caso, ou se é um fica/ Eu só sei que no final a gente se dá bem). E haja Anitta, Thiaguinho, Timóteo, Alcione.

 Pois é... não consigo negar que esse meu “lado B” convive com minha imagem mais exposta, de sóbrio professor de história, viúvo respeitável, cidadão aposentado que trata de temas sisudos e que fala de política defendendo “velhas ideologias”. O atroz desse enredo é que ao voltar para a realidade dos meus dias de “velhinho de Taubaté” me vejo desafiado a explicações: como assim, me pergunto? E as repostas brotam em cascatas. Logo vou construindo argumentos sociológicos, justificativas antropológicas e até desenvolvo contextos históricos na base da cultura de massa e dos fundamentos pós-modernos. Quando consigo dar lógica a tudo isso, encontro o sentido da vida ordinária e recomponho meus lados opostos. Deixe-me exemplificar o que sucedeu ainda ontem...

 Andava eu cansado com a ladainha de desgraças que acomete este nosso viver brasileiro: corrupção, greve, arranjos políticos escusos, desemprego, assaltos, sequestros... Feito breve inventário de nosso desassossego, neguei o apreço a Marx e dei asas à mais legítima alienação. Ah, como é bom se deixar entorpecer pelo “ópio do povo”. Flanei e, sem pudor algum, me entreguei de corpo, alma e emoções. Coisa rara: passei uma tarde toda ouvindo músicas “daquelas faixas”. Prazerosamente largado – quase uma luxuria – passava um a um pelos recentes sucessos. Mas... mas depois, aos poucos, fui notando a construção de uma epopeia popular que, no fundo, traduzia dilemas cruciais das relações modernas. Como a picardia faz parte daquele tipo de cancioneiro, fui trocando em miúdo os dilemas comuns aos relacionamentos líquidos (Baumam, sempre ele) até que o espírito controlado que habita em mim voltava a me acometer. Sem perceber, o tal lado circunspecto baixou, e assim fui triando a sedução dos cantares aparentemente tolos, dando lugar à perversidade de juízos racionais “sérios”.

 Como estou falando com franqueza, devo dizer que o tema “motel” me chamou a atenção e no eixo temático “vulgar”, três gravações mais que todas. A primeira foi “Aventura no Motel” de um tal de Duduzinho, que contava para a companheira de trabalho “Lembra aquele dia em que eu sai mais cedo/ De fininho pra ninguém desconfiar/ Te orientei que se minha mulher ligasse/ Perguntasse por mim você iria dichavar/ Olha aquele dia era perfeito/ O noivo dela viajando/ Ela querendo eu não podia adiar/ Fim do mês eu duro, sem dinheiro/ Mesmo assim tava maneiro/ Fiz a pose não deixei ela desconfiar” A continuidade da história revela que a “convidada” pediu de tudo “caviar e chandon” e “Pro meu azar a única suíte era a presidencial”. Ainda que o final da noitada tenha sido bom, a mulher do sujeito descobriu pela fatura do cartão de crédito e “a casa caiu”, pois “como eu vou me defender se estava escrito na fatura”. A moral da história é conclusiva: “agora eu to solteiro quem mandou ser infiel” e “pagar com meu cartão minha aventura no motel”.

 O segundo caso foi tirado de um álbum chamado Forró da Curtição e dá conta de um flagra dado pela esposa que canta sob o título “50 reais”, na voz de Gabi Amarantos “Bonito, que Bonito ehm/ mas que cena mais linda/ será que eu estou atrapalhando o casalzinho ai/ que lixo, você está de brincadeira/ então é aqui o seu/ futebol toda quarta feira?”. E o enredo prossegue com o brado da esposa “e não precisa se vestir/ eu já dei tudo que eu tinha te ver aqui” e se vale da metáfora do futebol para concluir “que decepção, 1 a 0 para minha intuição” e justificando o sucesso estrondoso termina “não sei se dou na cara dela para doer em você/ mas eu não vim te atrapalhar, saudade de te ver/ e pra ajudar a pagar a Dama que lhe satisfaz/ toma aqui cinquenta reais”.

Existe um intérprete chamado Mayrone Brandão que canta “Sabonete de Motel”. Devo dizer que esta é imbatível e revela que a esposa encontrou “Ali, no porta-luvas do meu carro, um objeto identificado/ um sabonete num papel dourado”. O sabonete revelava a traição que era explicada pelo marido como engano porque “emprestei meu carro pra um amigo passear e ele não me disse que iria se encontrar/ com a garçonete daquele bar/ não tenho nada a ver se eles trouxeram de lá/ aquele objeto pra me complicar”. E então entra um refrão acelerado “o sabonete de motel, foi a brincadeira de um amigo meu/ não deixe isso abalar, a nossa relação não não não não”.

Pois bem, não se trata apenas de identificar machismos, traições conjugais ou mulheres reagindo. Mais do que notar a construção de uma memória coletiva onde os relacionamentos são postos a juízo, vale dizer que tais questões da ética comportamental comum se colocam na ordem do dia, transformando os dilemas de relacionamentos como temas sociológicos. O que perturba mesmo, contudo, é o fato de eu me deixar levar pela sinfonia musical que traduz tais questões.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

TELINHA QUENTE 246

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Roberto Rillo Bíscaro

Numa dessas tardes tórridas, deu vontade de ver algo bem britânico, deve ter sido síndrome de abstinência de Downton Abbey. Sempre tenho estocado algum terror, alguma inglesice idealizada, porque volta e meia tenho comichões por esses 2 quitutes. Olhei num HD externo e vi arquivo chamado The Making of a Lady (2012), teleprodução da ITV, a mesma de Downton Abbey.
Ao terminar, não podia crer no que vira e busquei info online. Nunca li Sabrina ou Bianca – aqueles romances açucarados pra moças – mas acreditava que seria algo no estilo. Até tem romance e idealização de montão, mas a ideologia imperial parecia filmada nos anos 1940. Descobri tratar-se dum mashup de 2 romances da escritora menor Frances Hodgson Burnett, que nos anos 90 ganhou fama no Brasil por causa da linda adaptação d’O Jardim Secreto (1993). Não me interessou saber quais livros basearam The Making of a Lady, porque jamais os lerei, mas o título da junção tem pouco a ver com o conteúdo, porque não assistimos à construção do que idealizamos por uma aristocrata, e não foi isso que me fez duvidar do que vira.
É assim: Emily é uma pobre orfã de família boa, mas destituída, que trabalha pruma leide qualquer (Joanna Lumley, de Absolutely Fabulous, sweetie!), que tem um sobrinho viúvo, cuja “obrigação” é produzir herdeiro pra que sua imensa propriedade e títulos não passem prum irmão de reputação dúbia e que voltara maleitoso da Índia e, pior, casado com uma nativa. Só que Lord James Walderhurst aparentemente não quer ninguém e pra pararem de enchê-lo, pede a mão de Emily. Em 15 minutos de filme, a moça passa de devedora de aluguel a her ladyship numa mansão à Downton, com mordomo e governantas mal-encarados e tudo. Até aí, tranquilo, era essa enganação total de mobilidade social que eu queria mesmo e tem tudo: ambientes vastos e suntuosos, sotacaço britânico, muita empáfia, mesa de 5 metros de cumprimento pra 2 pessoas uma em cada ponta, muito violino na trilha; Downton de quinta, mas quem diz que me importo, se tem “can’t” pronunciado britanicamente?
Emily começa a conquistar Lord Walderhurst, até transam bem vitorianamente, ambos de camisolão, mas o “dever” chama-o novamente à distante e quente Índia e nossa heroína vê-se só numa vasta propriedade sem amigos. Eis quando recebe a visita do cunhado, Capitão Alec Osborn, e sua esposa indiana. A partir daí, as coisas se complicam. Será que ele está conformado com a possibilidade de ficar de fora da herança, uma vez que tenha sobrinhos?
The Making of a Lady daria ótima Sessão da Tarde anos 1970, mas ideologicamente está nos idos do Império Britânico, quando tudo que equivalia ao “exótico” era mau. Não dava pra crer que produtores de TV na era da suposta primazia do politicamente correto e do multiculturalismo tenham produzido tal narrativa num grande canal como a ITV. Burnett operava no início do século XX, quando isso era “normal”, mas hoje não deixa de causar espécie que tudo correlacionado ao indiano seja nocivo ou ameaçador, desde a comida, até a música incidental que acompanha as personagens indianas ou ligadas à Índia. Que a obra da autora tenha sido adaptada sem adaptações também diz bastante sobre se nacionalismos estão realmente fora de moda na pós-modernidade.
The Making of a Lady é passo atrás no feminismo, na política das identidades negociadas e multiculturais e deve causar diarreia em certos ativistas e acadêmicos. Homi Bhabha deve ter babado de ódio com esse babado.
Mas, descontei tudo isso, desconjurei o maniqueísmo impróprio e racista, senti que os produtores não tenham tido a ideia de deixar todo mundo da mesma cor pra evitar espicaçar grupos subalternos (mas cuja economia cresce e incomoda) e curti com moderação a Sessão da Tarde reaça de The Making of a Lady. E, claro, gente, tudo acaba bem e racialmente “puro” e segregado. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 262

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Roberto Rillo Bíscaro

2016 foi ano muito auspicioso para o rock progressivo. Excelentes álbuns do Big Big Train, Jon Anderson, The Neal Morse Band e a promissora estreia do Paradigm Shift. Outros não tão consistentemente bons deixei pra essa postagem-trinca, dedicada a LPs com bons momentos, mas não essenciais, lançados no segundo semestre do ano passado.

A Itália aloja importante selo/loja virtual dedicado a prog rock e afins. Trata-se da Mellow Records, em cujo vasto catálogo no Bandcamp, você encontra infinidade de bandas, além dos famosos “álbuns ao vivo não-oficiais” pelos quais o país europeu sempre foi famoso/infame, dependendo do lado da cadeia de produção que você esteja.
No começo do milênio, o dono da Mellow, Mauro Moroni, sugeriu a membros da banda neo-prog Moongarden que fundassem projeto paralelo para participar de um álbum-tributo ao Genesis. Tudo a ver, uma vez que a banda inglesa é segura fonte de inspiração de sucessivas ondas de neo-prog. Assim foi a gênese do Submarine Silence, cuja formação tem David Cremoni nas guitarras e violões, Guillermo Gonzales nos vocais (que às vezes derrapam no inglês), Cristiano Roversi nos teclados/baixo sintetizado e Emilio Pizzocoli na bateria. No ocaso de setembro, lançaram seu terceiro LP, Journey Through Mine.
A referência segue sendo o Genesis, mormente os primeiros anos da era Phil Collins, de ’76 a ‘81/2. The Astrographic Temple abre com teclados outonais, que caberiam num álbum de Tony Banks, há curto trecho onde as coisas parecem que tomarão rumo mais experimental, mas logo desabrocham guitarra e teclados Mike Rutherfod e Tony Banks com o Genesis. Aqueles teclados que fazem uma espécie de eco que parece um coro, a batera copiando alguns andamentos de Collins, mudanças no tempo, na melhor faixa do álbum, porque a mais vibrante e focada.
Black Light Back diminui o ritmo e intensidade e aponta com retorno à fase Gabriel, por momentos; em Swirling Contour, Gonzales tenta até “apodrecer” os vocais, como Peter Gabriel. Mas, ele não é o inglês e o Submarine Silence está longe da ebulição criativa/técnica do Genesis. Eventualmente, o material torna-se repetitivo: os caras armam cama de teclados que soa sempre igual e o guitarrista fica solando em cima, aparentemente sem rumo. Mais para o final de Journey Through Mine, o ouvinte deseja que o submarino afunde. Mas não é de todo mal, há faixas que se salvam.
The Gift é um sexteto britânico de prog sinfônico, que lançou seu primeiro álbum, em 2006. A formação atual conta com Mike Morton (vocal), Dave Lloyd (guitarras e voz), Leroy James (guitarras e voz), Gabriele Baldocci (teclados), Stefan Dickers (baixo) e Neil Hayman (bateria). Em outubro, saiu seu terceiro trabalho, Why The Sea Is Salt.
As influências do The Gift são mais abrangentes do que o puro Genesis do Submarine Silence, mas, olha só, os ex-genesianos Steve Hackett e Anthony Phillips tocam no LP e na mesma faixa, a desesperadamente linda The Tallest Tree. Parece Genesis início dos 70’s/Hackett fase Voyage Of The Acolyte/Ant fase The Geese And The Ghost. O violão de 12 cordas de Ant precede solo de flauta de derreter granito, daí entra clima bem folk outonal setentista, antes do sensacional solo de guitarra de mestre Steve, lírico de arrancar lágrimas, especialmente porque vem depois da repetição da flauta. São canções assim que dão aquele puta orgulho de ser fá de rock progressivo!
At Sea abre o LP com piano erudito todo respingativo, seguido por seção mais rock, vibrante, com equidade entre guitarra e teclados. Faixa tipicamente “britânica”, na qual o vocal empostado entra quase na metade dos mais de 10 minutos. Sweeper Of Dreams vai em levada quase hard rock, mas bem ao estilo progressivo, por momentos alinhava-se a música de parque de diversão, polca ou equivalente. Grande guitarrada. Tuesday’s Child abre em clima de vocal angelical, com guitarra lírica e grã-piano, seguido por trecho mais folk violonado, à Lindisfarne ou Moody Blues.
O empecilho para Why The Sea Is Salt ser mais criativamente vasto é o par de canções finais, uma delas com mais de 20 minutos. Num álbum prog, a faixa mais longa falhar em ser interessante o tempo todo – ou pelo menos, na maior parte dele – fere-o de morte. All These Things, que parece falar sobre uma cerimônia de casamento e depois cita o Santo Graal e imagens nada otimistas, tem pedaço com órgão eclesiástico, diversidade de andamentos, como pede o figurino prog, mas não apresenta quase nada marcante; Pelo contrário, há trechos chatos e o vocal nem é o melhor do disco. At Sea – Reprise (Ondine’s Song) fecha o álbum com a fórmula “se a melodia é sem graça, vamos botar um solo genérico e tá de boa”.
Você escuta/adquire Why The Sea is Salt (felizmente podem-se comprar faixas avulsas), no Bandcamp:
https://thegiftuk.bandcamp.com/album/why-the-sea-is-salt


O que primeiro chama a atenção no Anakdota é o fato de o grupo israelense não ter guitarrista e do instrumento aparecer em apenas uma das oito faixas do álbum de estreia, Overloading, lançado em novembro de 2016. Misturando complexidade prog com acessibilidade pop, conforme atestado em seu perfil no Bandcamp, o Anakdota é formado por Ray Livnat e Ayala Fossfeld (vocais), Erez Aviram (teclas), Guy Bernfeld (baixo) e Yogev Gabay (bateria).
As harmonias vocais, mudanças de andamento e arranjos remetem a um Gentle Giant simplificado. Em um trabalho onde o piano predomina e as vezes pesa, alguns ouvintes poderão achar que mais para o final ouvir Overloading tem meio que algo de maratona. Mas, quem curtir música elaborada certamente aproveitará.
One More Day abre o álbum e já mapeia como será a sonoridade das oito faixas: o piano soa muito jazzy, o andamento é bem Gentle Giant, mas o teclado do fim lembra Genesis (ambos grupos ingleses são citados no perfil do Anakdota, no Bandcamp) e no meio tem hora que lembra indie rock contemporâneo. Anakdota é progressivo, porque consegue juntar tradição com modernidade, fundir ritmos e ser musicalmente explorador. Ouça como Diferent Views soa fusion: os mais idosos imaginarão trechos em comerciais do saudoso Free Jazz Festival. Late envereda pelo humor tão característico de tantas bandas prog. A história do moço que tenta justificar seu atraso à amada vem embalada com toques de music hall e timbre cômico de teclado.
O lindo vocal de Ayala Fossfeld aparece apenas na quarta faixa, a belíssima Mourning, única a ter guitarra, que poderá passar despercebida, porque plácida, discreta e de fundo, nessa linda canção de amor, esperança e despedida, conduzida pelo piano. Quem curtia as participações da irmã de Lô Borges em seus álbuns (lembram de Vento de Maio?), amará Ayala, que reaparecerá brilhante em Staying Up Late e End Of The Show, em vocalizes contrapondo-se a Ray Livnat. Ayala precisa ser mais aproveitada em futuros álbuns; a voz de Livnat enjoa um bocadinho e combinada com as tours de force ao piano de Overloading e Girl Next Door podem dar a tal sensação de esforço.
Overloading pode ser adquirido também no Bandcamp.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

APESAR DA QUEDA

Albinos continuam com medo, mas número de ataques caiu em Nampula

Familiares de albinos falam em estratégia do silêncio dos traficantes.
A Procuradoria da República na província moçambicana de Nampula revelou que o número de casos de perseguição, ameaças e assassinatos de albinos reduziram-se significativamente.
Entretanto, protadores do albinismo dizem-se ainda ameaçados, principammente com o que dizem ser a estratégia do silêncio dos traficantes e reclamam do desparecimento de pessoas.
Nos últimos dois anos, a província de Nampula assistiu a uma onda crescente de descriminação, perseguição e assassinatos de pessoas com albinismo, movida pela superstição.
Agora, o procurador chefe provincial de Nampula Fernando Uache afirma que as campanha de educação, julgamentos e condenações publicitadas serviram para desencorajar esta prática negativa.
Dados da procuradoria provincial apontam que no ano passado deram entrada cerca de 16 processos relacionados ao tráfico de albinos, contra 32 em 2015.
Entretanto, desses processos apenas seis foram julgados e resultaram na condenação de 10 pessoas com pena maior, ou seja entre 12 e 18 anos de prisão.
Apesar dessas condenações, a procuradoria ainda não encontrou os autores morais desta onda de crimes e prevalece a dúvida de quem serão.
Bonaciano Aurélio, de 25 anos de idade, diz que, apesar de aparentemente a sociedade saber que os albinos não têm poderes sobrenaturais, ainda precisa da companhia de amigos e familiares para sair à rua.
Pedro Fernando, da associação Amor à Vida, constituída maioritariamente por pessoas com problemas de pigmentação da pele, reconhece a redução dos casos de perseguição aos albinos.
Aliás este ano, a organização em Nampula ainda não recebeu nenhuma notificação do seus membros sobre ataques.
No entanto, Fernando não descarta a possibilidade de ainda haver casos de discriminação a albinos de forma isolada e pede que a sociedade os considere iguais aos outros seres humanos.
A associação diz estar preocupada, no entanto, com o desparecimento no passado de alguns dos seus membros.
Um dos irmãos mais velhos de Pedro Fernando, também albino, desapareceu há dois anos ao aceitar uma numa promessa de emprego de um desconhecido.
Os familiares dizem que o caso deu entrada na procuradoria, mas não sabem nada sobre o processo.
A procuradoria diz desconhecer o caso.
O jurista e activista dos direitos humanos Feliciano Metazama defende o reforço das actividades educativas e recorda que esta pratica é antiga, não apenas de Moçambique, mas em todo o continente.
Para ele, há ainda um grande perigo
Aquele activista considera que o combate à perseguição dos albinos continua a ser um desafio porque as autoridades têm a missão de levar os autores morais à barra da justiça.

NOTA DO DR ALBEE: acesse o link pra ouvir o áudio da reportagem.

A SUPERAÇÃO DE MARIA FERNANDA


Maria Fernanda, de 5 anos, descobriu um tumor localizado na tíbia esquerda, após sentir dores na perna depois de uma batida. Ela precisou passar por uma amputação, com objetivo de evitar a metástase. Após a cirurgia, a garota demonstrou muita alegria pelo tratamento recebido. Assista ao relato emocionante de sua mãe, Andréa Gomes, e descubra como foi a luta da Maria Fernanda.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

SEGUEM OS RAPTOS DE ALBINOS

Criança portadora de albinismo raptada em Ngauma

Uma criança portadora de albinismo, foi raptada em Ngauma, na província de Niassa.
O porta-voz da Polícia da República de Moçambique, no Niassa, Alves Mathe, disse que neste momento decorrem diligências para a neutralização dos malfeitores.
O caso ocorreu quando indivíduos desconhecidos, por meio de arrobamento da porta principal, se introduziram no interior da casa quando a família se encontrava a dormir, onde raptaram um menor de sete anos de idade.
Alves Mathe disse que neste momento, esforços estão sendo envidados no sentido de resgatar a criança com problemas de pigmentação da pele.
https://noticias.mmo.co.mz/2017/02/crianca-portadora-de-albinismo-raptada-em-ngauma.html

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TELONA QUENTE 183

Resultado de imagem para headhunter 2009
Roberto Rillo Bíscaro

A seção de cinema traz 2 produções de gêneros distintos, cujo elo é serem escandinavas. Gostei bem mais da segunda, mas a primeira mereceu comentário, então lá vai:

Na minha versão da Netflix, o título da comédia de humor-negro Hundraåringen som klev ut genom fönstret och försvann (2013) apareceu assim mesmo, no original sueco. Isso foi decisivo preu escolher vê-lo. Baseado num best-seller, o filme de quase 2 horas narra picarescamente algumas aventuras dum centenário que adorava explodir coisas (a Suécia é o berço da nobeliana pólvora) e acaba numa casa de repousos. No dia de seus 100 anos, pula a janela e se mete na maior enrascada, quando acidentalmente se apossa duma mala recheada de dinheiro. Mas jamais se inteira do perigo em que está. Logo aprendemos que ao longo da vida, Allan Karisson passou por n situações, envolveu-se com Franco e Stalin, mas nunca teve a mais vaga noção do que se passava.
Algo como um Forrest Gump on acid, a ironia e mordacidades tipo determinar que Franco e Stalin não eram assim tão diferentes servem pra elevar a película aos olhos dos ainda remanesceres preferidores da “cultura” europeia à estadunidense. Mas, Forrest veio bem primeiro, ainda que menos divertido, porque não tem elefantes se sentando na cara de motoqueiro ou raposa explodida, porque comeu gato (tome!).
E não é que isso se tornou o filme de maior bilheteria do cine sueco e prepara-se sequência? 


Headhunter é um termo em inglês que significa "caçador de cabeças". No mundo do capitalismo corporativo, o headhunter "caça" os melhores profissionais do mercado em áreas executivas. Normalmente, são procurados por grandes empresas que pretendam contratar o profissional ideal para sua organização. Na era da qualidade total, infinitos testes neuro-linguísticos e dinâmicas, o headhunter precisa ter o feeling da moralidade du jour, a fim de melhor atender as empresas que o contratam. Assim, este profissional assume papel-chave em certas áreas corporativas.
O filme dinamarquês Headhunter (2009) maldosa/impiedosamente lembra a analistas, corretores, headhunters, jornalistas e demais agregados do mundo das altas finanças, que quem manda, mesmo e ainda, é o detentor do capital e que no fim são seus interesses e arranjos que contam.
O durão e ultramedidor de relações custo-benefício e de competências Martin Vinge é contratado por um empreendedor octogenário e trilhardário em busca dum sucessor. Niels Sieger acha que seu filho Daniel não tem suficiente esperteza e determinação pra entender a “nova moralidade” e tomar as rédeas pra tornar o conglomerado fundado pelo pai ainda maior. A função de Martin é encontrar o CEO ideal. Mas, o filhão Daniel não ficará passivo. Nessa briga de cachorro grande entre pai e filho, o headhunter vai caçar ou ser caçado? Quando não se tem grana pra trazer um médico suíço de helicóptero a Copenhague prum exame pro filho, pode-se pensar/dizer que se tem poder ou autonomia?
Headhunter é um thriller corporativo eminentemente masculino, que mostra que quando os escandinavos querem, são implacáveis. Encabeçando o elenco, Lars Mikkelsen, que depois de Forbrydelsen, explodiu no mundo anglofalante e pode ser visto em House Of Cards e até no hit britânico Sherlock. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

CONTANDO A VIDA 178

CARNAVAL ALEGRE DIAGNÓSTICO DO ‘TEMPO BRASILEIRO’.


José Carlos Sebe Bom Meihy


Nossa, o carnaval está aí! Tal realidade desmente a máxima que apregoa que tudo começa depois dos três dias de celebração e festa. Nada... O cronômetro está rodando e calendário obedece ao ritmo implacável do tempo que se mostra a cada dia mais acelerado. Pois é, confesso que sequer pude apreciar com mais cuidado os temas que as escolas de samba do Rio apresentam e, em consequência, nem pude bem proceder às delícias de quem busca compreender a cultura brasileira pelas manifestações expressas na Marques de Sapucaí. Resultado: tive que apelar para os sites oficiais para filtrar resumos das aludidas “óperas de rua da Cidade Maravilhosa”. Sabe-se que a “abertura”, no domingo, se dá pela primeira colocada no Grupo de Aceso que, no caso deste ano foi a Paraíso do Tuiuti, agremiação que retorna ao Grupo especial com o enredo "Carnavaleidoscópio Tropifágico", feito para evocar o movimento tropicalista. Em seguida teremos a sempre rica Grande Rio, de Duque de Caxias, da Baixada. Desta vez, a escola optou pela saudação à cantora baiana Ivete Sangalo, com enredo intitulado “Do Rio ao Rio”. A Imperatriz Leopoldinense fez uma escolha ousada pretendendo uma espécie de denúncia da devastação da floresta amazônica e da segregação indígena; com o tema "Xingu, o clamor que vem da floresta" a Escola pretende sensibilizar a defesa do meio ambiente. A fogosa Unidos de Vila Isabel escolheu falar sobre "O som da cor", mantendo uma tradição vocacionada aos temas afro-brasileiros; unindo a música às especificidades étnicas que compõem nossa cultura. A Acadêmicos do Salgueiro, sempre vizinha dos primeiros lugares, optou pelo teatro e leva para a Avenida a homenagem ao teatro com "A Divina Comédia do Carnaval" e, com ousadia, vai contar a história dos palcos pelas obras mestras. Riquíssima sempre, a “Beija-Flor de Nilópolis” escolheu reverenciar um dos romances fundadores na nossa Literatura indigenista; tomando como ponto de partida o cearense José de Alencar, a Escola virá com o enredo "A Virgem dos Lábios de Mel – Iracema". Pensando na exaltação à memória africana, a União da Ilha evoca o sentido do tempo, segundo a mitologia angolana com o tema "Nzara Ndembu – Glória ao Senhor Tempo". Já a São Clemente propôs algo polêmico desde o nome do enredo "Onisuáquimalipanse", versando sobre a França pré-revolucionária. A empolgante Mocidade Independente de Padre Miguel optou por viajar pelo mundo dos contos árabes e vai recriar "As mil e uma noites de uma 'Mocidade' prá lá de Marrakech". A Unidos da Tijuca celebra o encontro de dois músicos negros, Pixinguinha e Armstrong, ocorrido em 1957, e, com o tema “Música na alma” vai falar de samba e jazz. A bem-amada Portela, insistindo em abordagens ligadas às águas, vai entoar "Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar"; certamente referindo-se a Paulinho da Portela. A queridíssima Mangueira, evocando a crença e interferências divinas na vida, encerrando o desfilhe na segunda feira, sairá com o enredo "Só com a ajuda do santo".

Frente a esse plantel, como sempre, me questionei sobre o sentido das escolhas para a formulação de pressupostos capazes de assegurar a construção da memória nacional. Sabe-se que os assuntos escolhidos sempre se enquadram em alguns parâmetros objetivos: históricos, de denúncia, homenagens ou pedagógicos. Referências a personagens ilustres ou projeções sobre o futuro também repontam, mas a insistência tem recaído nas referências a fatos notáveis e nos alertas. No caso dos temas históricos, desde a chegada dos europeus até os movimentos de pacificações internacionais se destacam. A preservação da natureza, a doação de sangue, a tolerância, alertam os foliões e o público clamando por atenção especial. A questão que se coloca, porém, é a seguinte: qual o papel do carnaval na circulação da cultura brasileira? Desdobramento natural disso remete a pergunta sobre o significado do Rio de Janeiro na qualificação do que é nacional. Por certo, as duas questões exigem argumentos substantivos, mas num breve exame pode-se dizer que a magnitude e mesmo o teor educacional que preside a grande festa não anulam a picardia, o bom humor e graça carnavalesca. Aliás, é exatamente este quesito que explica a perenidade do nosso reinado de Momo.

Perfeitamente integrado à nossa cultura, mantendo a malícia da forma expressiva permitida pela fantasia, o carnaval do Rio de Janeiro se apresenta como convite que junta o lúdico e a crítica com a alegria. Por certo, cabe reconhecer que esta é mesmo a maior festa popular do mundo. E também uma lição de abordagem de temas relevantes para a nossa gente. Tão relevante é a apresentação na Marques de Sapucaí que aspectos importantes como o financiamento – ligações com o jogo do bicho e com a contravenção em geral – e o esforço de controle exercido pelas instituições não conseguem diminuir a manifestação. O elogiável deste ano é a pluralidade temática. Poucas vezes a variação de enredos foi tão completa. A cultura brasileira, por certo, estará brincando entre índios, negros/mulatos, exaltação à natureza, lendas árabes e história geral. Então Evoé...