quinta-feira, 18 de outubro de 2018

TELONA QUENTE 258


Roberto Rillo Bíscaro

Desde pelo menos Carrie, a Estranha (1976), que menininhas abusadas exercem terríveis vinganças, usando seus até então desconhecidos e indomados poderes de telecinesia. Variação importante são os humilhados que descontam seus revezes, incendiando tudo com sua pirocinese, como em Chamas da Vingança (1984).
Em 2013, a diretora/roteirista Marina de Van adicionou importante entrada a essa lista, com Dark Touch (O Lado Sombrio, por aqui, parece). A coprodução Irlanda/França/Suécia centra-se na perturbada garota Niamh (a ótima Missy Keating), cuja família é brutalmente assassinada no interior da Irlanda. Sem pista ou rastro que ajude a polícia a desvendar o mistério, o crime permanece sem solução e a garota passa a viver com um casal e seus dois filhos.
Traumatizada, Niamh é compreensivelmente distante e assustadiça, dada a períodos de torpor, expressos à perfeição pelos olhares mortiços da atriz. Como nos terrores mais eficazes, a força de Dark Touch reside no fato de que o sobrenatural e o gore são modos de ficcionalizar o que lemos nos jornais diariamente: gente que extravasa seu ódio/pavor/trauma/recalque acabando com a munição de metralhadoras em quem não teve nada a ver com a situação.  
Porque Niamh foi extremamente machucada física e psicologicamente pela família, é uma dessas pessoas com a metralhadora, em seu caso, traduzida em poderes psíquicos.
Ainda que meio tresloucado, o desfecho não é edificante, redentor bonito ou agradável.
Dark Touch não virará clássico, mas perturba, porque reconhecemos na garota vingadora, o arquétipo pra nossos próprios medos. Não é pra quem curte horror modinha ou divertidinho, onde no fim tudo dá certinho ou fica espacinho aberto pra conitinuaçãozinha.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

CONTANDO A VIDA 253

QUEM GANHA, PERDE: a sagrada lição do tempo. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Foi por mero acaso. Havia comprado o livro “quem perde ganha”, de autoria de Ana Maria Machado, para dar a uma neta que tinha então oito anos. Por algum motivo, o presente ficou guardado, e em recente arrumação de minha estante pessoal encontrei o mimo. Cansado com a movimentação de quem tira e põe livros arranjados em nova ordem temática, parei e li o precioso texto como se voltasse à infância. Foi um bom delírio. Viagem em tempos distintos: infância e maturidade. Flanei... Esse texto trata de uma questão filosófica profunda, vertida para o alcance infantil. Como manda o figurino, Ana Maria Machado cuidou do assunto de maneira pedagógica, leve e com humor delicado, quase poético. São três histórias combinadas: "Fiapo de trapo", "A menina que vivia perdendo" e "O boto e a estrela". Sob juízo crítico e literário, trata-se de um magnifico jogo de linguagem que coloca em dúvida o dilema da perda. Mais do que propor nexos que se esgotam em vitórias, os três casos projetam continuidades transformadoras. Tudo, porém, visto pelo ângulo saudável de quem perde. Opondo os vencedores aos menos afortunados, a autora sugere meditação sobre a falibilidade dos fatos e deixa entrever o efeito do tempo que, afinal, mostra que nem sempre a vitória determina permanências benéficas. Há algo de Lavoisier na proposta que consagra a máxima: tudo se transforma. 

Por lógico, o texto se vale de exemplificações. São historietas que ilustram o sentido moral e, nesta linha, a segunda narrativa, sobre a menina Lena, é destacável. O relato remete a uma situação de crescimento biológico. Em plena fase de transformação do próprio corpo, a criança que caminha para a adolescência vai perdendo roupas e sapatos. Tudo se passa sob o zelo da mãe, que contempla a ambiguidade da menina que, no compasso do crescimento inerente a vida, se vê forçada a perder. A lógica filosófica proposta pela autora me levou a recorrer a outro texto escrito por Grahan Greene, inglês católico e notável escritor polêmico (ele bradou contra a “menininha” Shirley Temple, personagem dos sonhos dos norte-americanos no cinema, durante a Segunda Guerra Mundial). Greene em “Quem perde ganha” se vale da mesma estratégia narrativa e também coloca o momento da vitória em questão dramática. Mais do que ganhar uma contenda qualquer, interessa ver o rearranjo da situação no futuro. Como quem dissesse, olha, a vitória não significa fim, ambos os textos nos animam pensar o futuro. 

Filtrei, pessoalmente, ambos textos e fiz uma aproximação com o momento político que vivemos. Foi assim que resolvi dar um balanço nas ladainhas de perdas de minha vida. Tirando a ausência de entes amados, que por razões emocionais não constelam meu juízo racional, percebi que as histórias de derrotas não foram cabais. Sempre, sempre, tudo resultou em algo bom. Foi com esta bússola que decompus momentos áridos de meu convívio com adversidades. Decantados tais enredos, aprendi que passado o choque do veredito, um abatimento me aproximava da raiva. Também me foi válido lembrar que ter uma dose pequena de raiva é condição ponte, passagem para outra fase. Nunca fui de me conformar com os dados apresentados por situações de perda. É verdade, pois, que algumas vezes, depois da raiva – e por causa dela – me vi nas cercanias da depressão, mas também não sou chegado a baixo astral. Superada esta segunda fase, um alerta de reconstrução se me apossa, e neste momento vivo a sabedoria imposta pelo verbo “aceitar”. E tudo se ilumina. É mais ou menos assim que me sinto agora. Vejo, em termos sociais e coletivos, um momento em que meu ardor democrático será arranhado. Preparo-me para perder. Dói-me muito achar que estou como aquela mãe que, ante um desfile militar, via apenas o filho com o passo certo, os demais todos marchando em outro ritmo. 

A oportunidade dos dois textos com o mesmo nome “Quem perde ganha”, um escrito para crianças e outro para público adulto, me alenta de maneira jeitosa. Preparo-me para enfrentar a tempestade que se anuncia devastadora. Mas, muito mais do que isso, estou aberto a entender o que a história tem a dizer para meu empenho cidadão, e o que me significa perder o compasso do coletivo. Ganhei antes (me é bom não esquecer), e agora se perder, além de reconhecer as virtudes do passado recente, tenho que me preparar para renascer. Tomara que as sagradas lições eivadas de leituras tão prazerosas resultem válidas. Estou pronto para ser derrotado agora. Estou pronto, também, para ganhar no futuro. É a vida, dirão os mais sábios. É a vida, digo para mim mesmo.    




terça-feira, 16 de outubro de 2018

TELINHA QUENTE 331

Roberto Rillo Bíscaro

A venerável BBC tem canal direcionado aos miúdos, a CBBC, sendo que o C é de Children’s. É dele, em associação com o canadense Family Channel, que saíram os 13 episódios de Diário de Horrores, recentemente incorporados à Netflix. 
Originalmente batizada de Creeped Out, Horrores não deixa de ser exagero, porque as histórias estão mais pra fantasia, sobrenatural, aventura e ficção-científica. É muito mais Histórias Extraordinárias do que Contos da Cripta. Um Black Mirror Kids, ou A Quinta Dimensão mirim.
Adultos devem estar se perguntando se vale a pena investir tempo. Sim, é muito divertida e deliciosamente genérica. Se seu repertório é amplo e sua idade não muito tenra, vai te lembrar desde Stranger Things até Janela Indiscreta.
Cada fábula moral é precedida e sucedida por narradora que tece considerações “filosóficas” a respeito. A desculpa pra voz em off é que um mascarado chamado O Curioso está sempre nas cercanias de cada história e dela pega algum souvenir ao fim do episódio. Tem musiquinha misteriosa e a maioria dos protagonistas é infanto-juvenil pro público-alvo se identificar. Até o Curioso é jovem e antes de assustador, é enigmático.
Diário de Horrores é pra dar medinho gostoso, como aquelas histórias de acampamento à beira da fogueira. Menina que tem vergonha dos pais; menino que acha que trapacear não tem problema, desde que não machuque ninguém. 

Um podcast é como um programa de rádio, porém sua diferença e vantagem primordial é que o conteúdo está a sua disposição para ouvir na hora em que bem entender. Basta acessar e clicar no play ou baixar o episódio. Assim como a TV, o rádio e o jornal, o podcast é uma mídia de transmissão de informações, porém como sua origem é muito recente, ainda está em seu processo de crescimento, principalmente no Brasil, onde atinge poucas pessoas.
Para fãs do sobrenatural, ocultismo, horror, folclore urbano, o mais aclamado podcast à disposição é o premiado Lore, criado por Aaron Mahnke, em 2015 e que já tem dezenas de episódios. O norte-americano conta histórias bem estranhas do passado e, quando possível, liga-as com crenças até hoje conhecidas, aceitas ou compartilhadas.
Se você entende inglês e curte ouvir histórias de arrepiar – Mahnke precisa fazer podcast explicativa sobre a tradição que segue nessas transmissões, a das histórias de horror ao redor da fogueira – eis o endereço de acesso:
Ano passado, Aaron transportou algumas histórias pras telinhas e a Amazon ajudou a produzir e distribui os seis episódios de Lore, em sua plataforma de streaming, desde outubro de 2017. Uma segunda temporada logo estará a disposição.
O show tenta ser mais dinâmico do que na realidade é. Há animações, gráficos, fotos, imagens de arquivo, narração, efeitos sonoros e encenação. Soa como pós-moderna experiência multissensorial inovadora, mas é apenas um filme pra TV interrompido muito frequentemente, às vezes com histórias que se querem complementares, mas não são, como no episódio sobre os espíritos-impostores irlandeses (que sotaque podre é aquele !?), onde a história duma atiradora norte-americana para tudo e a gente não percebe bem porquê, uma vez que não há changelings envolvidos. Não que tenha sido desinteressante aprender sobre Annie Oakley – a primeira grande celebridade ianque vivia de armas, isso não é sintomático? – mas não tem nada a ver com a história da esposa torrada pelo marido que a achava uma sósia.
O pecadilho de Lore é que a parte dramática geralmente é meio insossa; seria bem mais legal se fosse documentário de vez; bem dinâmico, que problema teria? O pecadinho do telespectador é acreditar em tudo acriticamente, como se fosse tudo de verdade. Há tendência de ver o passado como intrinsecamente atrasado e as crenças e práticas descritas, como generalizadas. Não é tão simples assim e as relações de causa e consequência podem não ser as que Aaron quer.
Tendo esse cuidado, Lore é bem curtível e fãs do desconfortável adorarão as bizarrices relatadas, como o pânico de ser enterrado vivo levando a velórios longos até o início da putrefação, pra se ter certeza da morte; o mexicano que pendurou centenas de bonecas em cordas numa ilha pra apaziguar um espírito e a lenda do lobisomem (Mahnke apresenta uma versão, mas há diversas). Pra quem quer inúteis efemérides úteis pra rodas de papo com amigos, Lore traz um monte de suculências. Verei a próxima temporada de boa. Podcast não tenho saco, me dá sono.
Nota desanimadora e pra pensar: a história mais agoniante e perturbadora não é lenda urbana; é a do Dr. Walter Freeman, desenvolvedor da lobotomia, que consistia em enfiar um espeto de aço pelo nariz do paciente (vítima ficaria melhor) acordado, mas chocado (no sentido de ter levado choque) e lhe danificar ligações no cérebro. Então, e a ciência sempre tem razão, certo?

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 335

Roberto Rillo Bíscaro

Pirombeira é coletivo musical formado por Aline Falcão (teclado, sanfona e voz), Gabriel Arruti (baixo), Ian Cardoso (guitarra, viola caipira e voz), João Mendes (violão e voz), João Paim (percussão) e Rubão Nazario (bateria). Desde 2010, os baianos vem se destacando na cena local e ano passado chegaram a ser indicados pro 18° Grammy Latino, como Melhor Projeto Gráfico de Álbum. O álbum em questão é a estreia homônima do ano passado, realizada mediante financiamento coletivo em 2016.
Da dúzia de faixas, três são vinhetas, como a psicodélica Tramela. O charme do Pirombeira é pegar tudo quanto é influência regional e global e jogar pirambeira abaixo. Sem medo de faixas instrumentais numa cultura que adora cantar junto, as mixagens de subgêneros chamam especialmente a atenção nelas. Canastra tem forte pegada fusion, o Brazilian jazz dos gringos; o jazz de Cadê o Bongo tem vibração afrossamba. Baião Pra Bonfim entrega sua afiliação no nome, mas não espere arrasta-pé purista; é pautado pelo jazz, se liga nos solos. Marítimo é jazz nordestino com gaita de Stevie Wonder e Buraco é frevo-marchinha. Ivone seria o quê? Um ijejazz? Forrojazz? O fascínio de Pirombeira é que não dá para etiquetar como sendo do subgênero tal, característica-chave da produção musical contemporânea. Os apontamentos de pertencimento ao ritmo X ou Y são apenas registros de predominâncias, para orientar leitores ainda desconhecedores do som.
As canções com letra são minoria, mas não menos deliciosas. Lugar é o som típico que muitos de nós sulistas associamos quando ouvimos falar que algo vem da Bahia: afoxé, ijexá, não sabemos direito identificar as diferenças, mas é deliciosamente rebolante. Fãs de MPB-Clube da Esquina não têm do que reclamar da introspecção toadeira de Instante Pra Lembrar, que mais pro final se empodera um bocadinho. Deu Foi Dó faz crítica social em clima de samba de roda e Sol Final é coquetel irresistível de funk, jazz, samba, afoxé; muito alto astral.
Com produção límpida e prontinha para exportação, esses baianos estão à espera que você se jogue. E é fácil: Pirombeira está disponível gratuitamente:

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

TELONA QUENTE 257

Roberto Rillo Bíscaro

Despertar empatia é um dos desafios dos realizadores de filmes cujas tramas se desenrolam primariamente em telas de computador/smartphones/smartTVs. A ação passa a ser terceirizada, porque se trata de uma câmara filmando uma câmara filmando. Acresce que o tempo digitando, a necessidade de se ler muitos textos em caixas de mensagem e o imperativo de se exibir programas/vídeos carregando, dilui a ação, e, portanto, a tensão.
O roteirista e diretor estreante Aneesh Chaganty contornou esse problema com seu competente Searching (2018), que no Brasil foi literalmente traduzido como Buscando... Com elenco competente e ação se passando apenas em telas, Searching é sobre uma busca e o título funciona em nível duplo: o pai procurando a filha desaparecida e seu uso de ferramentas online pra fazê-lo.
Searching abre com sequência emocionante e muito bem montada sobre como a esposa de David Kim falece de câncer. Prestando atenção, você perceberá até o capricho de se preocupar em mostrar como as próprias páginas mudam no espaço de dois anos.
Como a maioria dos pais, David pensa que conhece sua filha Margot como a palma da mão, apenas porque troca mensagens com ela o tempo todo. Quando ela some, novas facetas se descortinam e o nipo-americano descobre muita coisa, tudo pela internet.
A proposta de foco narrativo de Buscando...é que assumamos o ponto de vista de David, olhando/lendo as telas, vídeos e comentários que ele vê/lê. Chaganty não consegue aderência total a esse parâmetro tão rígido e cenas de reportagens televisivas, por exemplo, dão impressão dum narrador onisciente. Isso nem de longe azeda o longa, porque o diretor consegue que fiquemos realmente engajados com a dor de David e curiosos pelo que houve com Margot.
Searching comenta sobre a superficialidade real de relacionamentos que aparentam profundidade, além das pontadas na espetacularização da tragédia, agigantada pela internet. Então, sequente ao desaparecimento de Margot, aparecem os haters, teóricos da conspiração e aproveitadores em geral. Esse não é o fulcro, mas Searching não deixa de notar esses fenômenos, dos quais, aliás, depende pra existir.
Como todo bom suspense, Searching tem reviravolta na trama e final até bem surpreendente, que lembrará os mais antenados, de certa série britânica muito influente desta década.
Pra quem não enxerga direito, esse crescente sub-subgênero de filmes dentro de telinhas pode ser irritante/frustrante. Um martírio/saco ter que ler tantos chats, mas em Searching isso vale a pena, até porque não há tantos assim. E acho que mesmo não lendo, dá pra entender igual. Afinal, é só mais uma história de menina que some, embora muito bem contada e urdida.

Formalmente interessante, Amizade Desfeita deixa a desejar no quesito provocar terror, conforme apontei na resenha, que você lê aqui.
Este ano saiu Unfriended: Dark Web, que não continua a história de seu predecessor, mas tenta aterrorizar com a internet na qual a maioria de nós não sabe navegar e por isso tem fama de do mal; espécie de versão cibernética do inferno.
Conforme previ, o visual do Unfriended original já está datado, porque a internet muda em par de anos. O que não alterou é que a nova vinda de Amizade Desfeita segue sem engajar o espectador emocionalmente: aquela meninada boba fala sem parar e não dá pra se importar com eles de jeito nenhum.
Mas, depois dalguns minutos, ocorreu-me epifania, que me fez desligar o filme imediatamente. Claro que muito texto escrito aparece em filmes onde a ação se passa nas telas de computador. Assim, o interminável matraquear nas janelinhas do Messenger do Facebook ocupa muito tempo.
Os produtores sequer se deram ao trabalho de ampliar as tais janelinhas, então tinha que me aproximar pra lê-las até que veio o clique: esses malditos não me incluiram nesse mundo ficcional, não me querem nele: que vão pras profundezas do inferno cibernético então. E desliguei o vídeo na hora. Se ainda tivessem conseguido me cativar, vá lá, mas só pedir, sem nada me oferecer em troca, já era, baby dearie.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

CONTANDO A VIDA 252

SER HISTORIADOR EM TEMPOS MODERNOS: um ideal 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Estranha sensação: passar uma semana no sertão nordestino conversando com descendentes de cangaceiros e jagunços, depois visitar familiares e amigos no interior de São Paulo, e no mesmo impulso vir para os Estados Unidos para trabalhar com cursos de História do Brasil. Descontando o cansaço inerente à idade, ao longo trajeto e às demais inconveniências (mudanças de temperaturas, adaptação do ouvido para sotaques e línguas distintas, mudança de roupas e preparação para comidas variadas) chega-se a pensar nos desafios da modernidade. Aviões, carros, computadores se fiam em um tecido, cuja tela tem bordados de tradições e riscos de mobilidade social comprometedora de valores em movimento. Se a esta constatação imediata forem somadas as polarizações entre as velhas estruturas comportamentais, soluções de sobrevivência, e os novos desafios de pertencimento ao mundo das máquinas, pode-se abrir um roteiro histórico que demanda cuidados compreensivos e sustos: como pode o mundo ser tão diferente, desigual, variado e... e injusto. 

O denominador comum destas experiências permite a formulação de uma pequena cadeia de hipóteses que se emendam perguntando: afinal, melhoramos em geral? E enquanto povo brasileiro, caminhamos para a almejada sociedade pluralista e com direitos próximos? O elemento comum destas questões leva a admitir a supremacia do capitalismo, que arrasta o mundo de forma a exaltar o consumo como solução do progresso. Neste esquema, a economia comanda os demais valores e faz tudo depender de seu sucesso. A busca incessante para melhor posição no mundo competitivo do capital exige hierarquia e anula outras soluções que não a partilha de oportunidades igualitárias. E é aí que se dá a anulação da História, matéria que provaria raízes diferenciadas e motivos diversos para as competições. No caso brasileiro, por exemplo, a antecedência escravocrata determinou um rastro de submissão aos afrodescendentes, que demanda correção histórica. Sem isso, pagaremos sempre a conta da injustiça e desigualdade de chances participativas. 

Vejam que em duas pontas, percebendo no Brasil a repetição do modelo dominante, experimentamos a extremidade que de um lado coloca o Sudeste e o Sul como atestados de progresso e na outra ponta temos cidadãos devotados aos rituais cadenciados pela antiga ordem: classe média sempre em ascensão e ricos proprietários e empresários do campo e da indústria. No andar de baixo, há a população que padece do não pertencimento nas benesses capitalistas. São essas as tais pessoas excluídas, pobres, acostumadas às penúrias da seca, da carência de documentos que lhes atestam cidadania e de respeitabilidade sob panorama moderno. Muito além da valorização da disciplina História, porém, emerge a necessidade de criação de alternativas que permitam estudar os excluídos que, por sua vez, sequer tiveram possibilidades de produzir textos que extravasem a própria visão de mundo. 

Indo além da situação nacional, brasileira, na ponta oposta temos, sob o céu da mais desafiadora modernidade os Estados Unidos emblemado por Nova York, com todo aparato dos avanços eletrônicos e demais sutilezas do mundo das máquinas. É nesta ordem que se situa a justificação do trabalho que busco fazer. Criar situações de análises de grupos desfavorecidos pelos documentos oficiais e assim colaborar para a formação de novos pressupostos para a análise histórica. Dois fatores, pois se juntam na fatalidade desta minha experiência recente. O fato de conversar com jagunços no nordeste e na mesma sequência vir a Nova York falar sobre história oral me faz responsável pela missão que desafia o entendimento do porque da cultura formal. Isso, aliás, transforma o caráter profissional do historiador. Muito mais do que explicar, temos que aprender a ouvir, escutar e formular documentação para que novos entendimentos surjam. É nessa linha que o paradoxal se justifica.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

TELINHA QUENTE 330

Roberto Rillo Bíscaro

O caos das relações entre judeus e palestinos ganhou adição no catálogo da Netflix, com a segunda temporada de Fauda, série israelense, cuja temporada inicial foi resenhada aqui.
A dúzia de capítulos repete a estrutura de seus antecessores: o ex-agente Doron está sossegado em seu canto, quando é impelido a intervir com o serviço secreto, para caçar perigosos terroristas árabes, que ameaçam Israel e sua família. Começa meio lento, mas quando engata, pega fogo.
A Netflix repetiu o tratamento dado à temporada primeira: falas dos israelenses dubladas, mas não a dos árabes, contribuindo pra que nos identifiquemos mais com os primeiros, porque os “entendemos”.
O problema com essa vinda de Fauda é que qualquer verniz de entendimento de ambos os lados foi definitivamente solapado. Árabes estão divididos em facções rivais que se odeiam; são inflexíveis fundamentalistas religiosos e suas mortes (abundantes) não recebem quase qualquer tipo de consternação diegética, como acontece se um israelense simplesmente leva um tropeção.
Destarte, recomenda-se cautela redobrada ao definir como “realismo” o que se vê. Na verdade, vemos a história contada pelo ponto de vista do país produtor de Fauda. Atentando-se pra isso, continua entretendo.
Mamon é um termo derivado da Bíblia, para descrever riqueza material ou cobiça, na maioria das vezes, mas nem sempre, personificado como divindade. A palavra é transliteração do termo hebraico "Mamom" (מָמוֹן), que significa literalmente "dinheiro". Como ser, Mamon representa o terceiro pecado, a Ganância ou Avareza, também o anticristo, devorador de almas, e um dos sete príncipes do Inferno.
A despeito do poderio metafórico que a palavra enseja, a temporada primeira da série norueguesa homônima desapontou tanto, que sequer cogitava ver a segunda. Não segui detalhes de produção, na página Scanoir, no Facebook, nada.
Quando descobri que os 8 capítulos da temporada dois, exibidos em 2016, ganharam o Emmy internacional, topei dar chance. Veria um par de episódios; se não curtisse, lixo e bora pra próxima (minis)série, porque abundam.
Não dá pra dizer que o roteiro espalhafatoso seja extremamente inteligente e culto, mas Mammon não deixa as coisas se assentarem; é montanha-russa escandinava de intriga e morte na Noruega e Turquia. Morre tanto personagem que lá pelo capítulo 6, cogitei se sobraria alguém no fim. Sobra, mas não muitos e não toda a estrutura política da podre de rica nação europeia.
Há um adorado primeiro-ministro que pretende lançar ambicioso programa educacional pra garantir a riqueza da Noruega depois que o petróleo acabe. Há companheiro de partido ressentido, que quer seu lugar. Há o mesmo jornalista da temporada 1 se envolvendo em um caso muito perigoso, depois que um colega de redação é morto no carro. Há possível traição nacional, intriga corporativa, há o governo da China, há menina estuprada. E no fim tudo isso está ligado. Talvez o espectador nem entenda direito como, mas o que importa nessas séries é manter nossa atenção e isso Mammon consegue.
Talvez pra justificar a alusão mitológica do título, os assassinatos geralmente envolvem tiro ou mutilação num/dum olho. Há que se lembrar que Odin sacrificou um dos seus por conhecimento e o primeiro-ministro chama seu projeto educacional de Yggdrasil. No fim, uma das perguntas de Mammon será se vale tudo para garantir o conhecimento. 
Como essa temporada é independente da inicial, dá pra desconsiderar a primeira e se divertir só com a segunda.

O sucesso da temporada primeira de Salamander (resenha aqui) fez com que a Eén comissionasse segunda. Não era pra menos: primeira série belga importada pela BBC4; anexada a alguns catálogos da Netflix e até cogita-se refilmagem em inglês. O grisalho inspetor Paul Gerardi foi cabeça de lança da pequena invasão de TV belga que se seguiu e está em pleno curso. Como sua colega dinamarquesa Sara Lund fora pras produções escandinavas.
Apesar de encomendados há cinco anos, a dezena de capítulos da temporada dois só veio a público no início deste ano. Como Salamander não é o nome do protagonista, mas duma organização secreta desmantelada na temporada um, o roteiro precisou criar elo entre as duas temporadas, mas manter sua independência pra não alienar os que não viram a aventura inicial.
A segunda temporada tem como subtítulo Blood Diamonds, ou Diamantes de sangue. O termo se refere às pedras extraídas em zonas de guerra, geralmente na África, donde atualmente cerca de dois terços dos diamantes do mundo são extraídos e vendidos para financiar grupos insurgentes, um exército invasor ou, um senhor da guerra. Diamantes assim obtidos são geralmente extraídos por mão de obra escrava ou trabalhadores em condições análogas à escravidão.
Na pobre e sempre em guerra Kitangi, um general malvado quer chegar ao poder e pra isso não mede esforços e balas. Quando um vídeo comprometedor chega à Bélgica, o inspetor Gerardi é arrastado pro olho do furacão, que envolve empresários, bancos e o próprio governo belga. Pra justificar tamanha rede conspiratória e liga-la à temporada um, pode haver resquícios da Salamander envolvidos.
Salamander: Blood Diamonds é a temporada um em cenário ligeiramente alterado. Embora agora viva numa bela mansão no campo, o inspetor Gerardi segue incorruptível e viciado em trabalho ético. Uma vez enredado na nova trama, seus superiores duvidam da magnitude de suas suspeitas, ele é afastado do caso, mas segue investigando por conta própria, até resolver tudo e restituir a paz ao pequeno país europeu.
Se mantivesse apenas a estrutura não haveria o menor problema, afinal, quantas tramas policiais não se encaixam no descrito? O problema é que Blood Diamonds repete os erros de sua antecessora: mesmo com menos episódios, há cenas longas demais e certa enrolação; daria pra contar a história em meia dúzia de capítulos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 335

Roberto Rillo Bíscaro

Quando se ouve o som de Adam Gibbons, estereotipicamente imagina-se um negão norte-americano. Mas, seu nome artístico é Lack Of Afro e lack significa “falta”. Falta mesmo muita melanina pra esse britânico de olhões azuis ser afro, mas ele compensa isso com música calcada em ritmos negros.
Multi-instrumentista, compositor, produtor, remixador, arranjador, Lack Of Afro é pau pra toda obra, como se traduz Jack Of All Trades, título de seu sexto álbum, lançado dia 18 de maio.
Com 11 faixas caleidoscopicamente variadas em estilo, Jack Of All Trades pode ser epitomizado na faixa de abertura, Back To The Day, que soa como se o Jackson 5 e o Earth, Wind and Fire tivessem cronometrado tempos pra fazer um som que representasse seus auges. Sincretizando disco music com rap rapidinho e metais caribenhos, na carnavalesca Only You & Me, Lack Of Afro desenvolveu produto que parece coletânea de maiores sucessos: tudo presta.
Esse aspecto de compilação se deve não apenas à diversidade de ritmos, mas porque cada faixa tem um(a) convidado(a) nos vocais. O que poderia resultar numa colcha de retalhos caótica é costurado e customizado com a eficaz e e(s)xperta produção de Lack Of Afro.
Ele sabe o que quer e como quer soar, além de dominar os subgêneros pelos quais flana com desenvoltura. Soul derivado da Motown, mas com ar de soul contemporâneo retrô, em Baby Be Mine. Soul mais tradicional, como em Reach Out, que até no nome, sabe à qual tradição pertence. Rock suingado funkoso, como em Over & Out. Rap/hip hop alegrinho, como em Back In Business e Take It Up a Notch. Funk, como na instrumental de baixo obeso The Messin’ Around Intermission ou no vocal feminino da sassaricante Good Love.
Prioritariamente festável, Jack Of All Trades traz um par de respiros, como o soul de Don’t Do Me Over, que Mick Hucknall ou Paul Weller adorariam ter em seus álbuns. Nem o folk meio easy listening de Home soa fora do lugar, porque tem cheirinho gospel.
É fácil, fácil você dançar ao som de Lack Of Afro: tá no Bandcamp:

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

DISCUTINDO INCLUSÃO COM PROFESSORES

A pedagoga Dra. Michele Oliveira da Silva coordena o curso de extensão Inclusão Escolar: desafios e possibilidades para docentes dos setores público e privado, das cidades de Birigui e Araçatuba (SP). O curso é oferecido pelo Instituto Federal de Educação, campus Birigui. 

Na noite do dia 4 de outubro, conversei com as colegas docentes sobre minhas experiências de pessoa com deficiência como aluno e como profissional da educação.  

É importante que além das discussões teóricas, tais cursos tragam a palavra para as próprias pessoas com deficiência, para que os profissionais tenham acesso a visões de quem está do lado incluído da inclusão e não apenas do lado incluinte. 

Agradeço o convite e amei o encontro. Espero ter podido colaborar com aclarações sobre o albinismo. 


KILIMANJARO ALBINO


Seis mulheres escalam o Kilimanjaro contra a discriminação dos albinos

Escalada começa a um de outubro. O Kilimanjaro é a mais alta montanha de África mas o grupo de mulheres "está preparada para uma expedição que, certamente, não está ao alcance da maioria das pessoas".

Seis mulheres africanas com albinismo que superaram abusos, violações e a ameaça da morte preparam a escalada do ponto mais alto de África, Monte Kilimanjaro, para chamar a atenção para as perceções negativas em torno de pessoas afetadas por esta mutação genética, escreve nesta quinta-feira a Reuters.

As alpinistas - com idade entre 26 e 35 anos, naturais do Quénia, Tanzânia, Nigéria, África do Sul, Zimbábue e Senegal - dizem que a sua caminhada de sete dias até à altitude de 5895 metros na Tanzânia é para celebrar pessoas com albinismo. "Estamos cansados ​​de nos dizerem que somos incapazes, pessoas amaldiçoadas e que não podemos ser parte da sociedade", diz Jane Waithera, ativista queniana e coorganizadora da expedição "Climb for Albinism", que começa no primeiro dia de outubro.

"Somos seis mulheres africanas com albinismo, que tiveram sucesso em suas vidas apesar das dificuldades, e vamos escalar a mais alta montanha do continente para dar voz às pessoas com albinismo - e esperamos ser uma inspiração para os outros."

Com Waithera, estão o baixista senegalês Maah Koudia Keita, a optometrista nigeriana Onyinye Edi, a atriz e cantora sul-africana Regina Mary Ndlovu, a empresária tanzaniana Mariamu Staford e a professora zimbabueana Nodumo Ncomanzi.

Pessoas com albinismo - falta de pigmentação na pele, nos cabelos e nos olhos - são frequentemente evitadas e atacadas em África, por falta de conhecimento sobre esta rara deficiência genética. Em alguns países, as suas partes do corpo são valorizadas para atos de feitiçaria, uso como amuletos ou para elaborar "poções mágicas". As mulheres arriscam a violação devido a mitos a sugerirem que o sexo com uma mulher com albinismo pode curar a sida.

Numerosos relatórios sobre assassinatos rituais e atos de bruxaria em países como Tanzânia, Malawi e Burundi nos últimos anos levaram as Nações Unidas a nomearem um enviado especial para proteger as pessoas com albinismo.

Braços decepados
As seis mulheres da expedição viveram situações terríveis - algumas mais terríveis do que outras - e querem agora chamar a atenção para o estigma que paira sobre pessoas como elas.

Há dez anos, Staford teve seus braços decepados por três homens enquanto dormia com o filho recém-nascido. Mas com a ajuda de uma instituição de caridade que lhe permitiu adquirir próteses para os braços, além de uma máquina especial, começou seu próprio negócio de tricô e agora é uma ativista proeminente na Tanzânia.

"Muitas coisas aconteceram na minha vida, mas aqui estou. Cortaram-me os braços, mas não a minha vontade de sobreviver e de ser alguém", diz Staford, de 35 anos, à Thomson Reuters Foundation. "Quero que todos entendam que as pessoas com albinismo podem fazer grandes coisas se tiverem oportunidades."

As outras mulheres contaram histórias de como foram abandonadas pelos pais quando nasceram, como foram maltratadas na escola ou violadas. Algumas delas dizem que nem sequer sabiam que eram albinas até à idade adulta - com dificuldades na escola, devido à má visão (uma das características do albinismo) e não entendendo por que não podiam brincar ao Sol, devido à sensibilidade da sua pele. "Nunca pude ver o quadro nas aulas corretamente, mas a professora nunca acreditaria em mim se eu o dissesse. Como resultado, não sabia ler nem escrever até aos 25 anos", recorda Ndlovu, de 29 anos.

Dificuldades
Mas a ascensão do Kilimanjaro não será fácil. Como parte do seu treino, em maio, escalaram o Monte Quénia, com 5199 metros. Mas duas acabaram por desistir.

Elia Saikaly, cineasta e cofundador da expedição, afirma que as mulheres vão enfrentar temperaturas abaixo de zero perto do topo do Kilimanjaro, e a altitude extrema dificultará a respiração - mas todas as precauções foram tomadas. A expedição leva óculos de sol e protetor solar personalizados para cada uma para proteção dos olhos e da pele. Há uma equipa de cerca de 50 pessoas - médicos, carregadores, guias e equipa de filmagem - para apoiar o grupo da escalada.

"Kilimanjaro não é pera doce. É muito difícil de escalar", diz Saikaly. "Mas eu sei que elas são capazes porque estão prontas - e, francamente, todas elas escalaram montanhas muito maiores em suas vidas." A subida começa a um de outubro e realiza-se por quatro a cinco horas por dia. Esperam chegar ao topo a 7 de outubro.

"Esta é uma maravilhosa iniciativa, que nos inspira de tantas formas. O Kilimanjaro foi conquistado por milhares de alpinistas, mas nunca por um grupo como este", garante Marcella Favretto, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. "A escalada destas mulheres conta uma história de resistência extraordinária e de heroísmo - passaram pela exclusão e, em alguns casos, por incrível dor física, mas aqui estão preparadas para uma expedição que, certamente, não está ao alcance da maioria das pessoas."

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

ÁLBUM ALBINO


Fotógrafos ao redor do globo têm realizado ensaios com pessoas albinas. No Brasil, temos o exemplo de Gustavo Lacerda, cuja série albinos saiu em livro e ganhou galerias desde São Paulo a Europa.

O site Tudo Interessante fez apanhado desses trabalhos fotográficos. Acesse o link para ver muitas fotos lindas.

 https://www.google.com/url?rct=j&sa=t&url=http://www.tudointeressante.net/fotografos-registram-a-beleza-das-pessoas-albinas-e-inevitavel-nao-admira-los-depois-de-ver-estas-fotos/&ct=ga&cd=CAEYBCoUMTE1NTY5ODY1ODE2MDQ1OTM0NzMyGmJhZmJhYWJhMDNmOGMxZDM6Y29tOnB0OkJS&usg=AFQjCNHEB-TDDOa31vkQX0e7S6Co2aMORA

TELONA QUENTE 256


Roberto Rillo Bíscaro

O País Basco fica no frio norte espanhol e parte de sua nacionalista população usa o idioma basco. É nele em que é falado Flores (2014), um daqueles muitos filmes escondidinhos nos recônditos da Netflix e que merecia muito mais divulgação.
Numa cinzenta, chuvosa e fria cidade não identificada, Ana recebe diagnóstico de menopausa precoce. Em um casamento gélido e emprego discreto, a quieta mulher não tem muito a comemorar. Até que começa a receber flores religiosamente, em certo dia da semana.
Essa nova rotina que começa a iluminar a vida de Ana e enfurecer seu marido sofre abrupto corte na narrativa pra nos apresentar outro núcleo familiar. Beñat é casado com Lourdes, que trabalha num pedágio. O discreto operador de guindaste vive no fogo cruzado entre esposa e mãe, Tere.
É só o espectador ter um pouquinho de paciência que essas duas tramas se intercruzarão numa melancólica meditação sobre o esquecimento e sobre suas perdas e ganhos.
O diretor/roteirista Jon Garaño usa as flores como ícones que assumem distintos papeis de acordo com cada situação, etapa da história (que transcorre em cinco anos) e personagem. Flores é maduro, sentimental, lento, quieto. Não há fanfarras ou edulcorantes: a vida é fluxo, memórias esmaecem, lembranças e convicções são convenientes pelo tempo que nos servem pra viver.
Estritamente em nível pessoal, Flores dá pontadinha no passado ignoto da ditadura franquista, através dum comentário pela TV, que justamente questiona se convém deixar pra trás as agruras de então, ou seguir lembrando das barbáries do Coiso espanhol, através dos julgamentos e punições ainda em curso.
Flores é essencialmente feminino, posto o impacto de diferentes relações com esses vegetais ser sentido nas vidas de três delas, interpretadas com certidão.
Óbvio que qualquer um poderá se empatizar, mas quem já sofreu perda e consegue avaliar os malabarismos emocionais que faz pra manter certa sanidade, se encantará e até verterá lagrimazinha.  

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

E VIVA A ARGENTINA!


Albinos de Misiones Terão Programa Especial de Assistência


(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)

O Legislativo de Misiones criou esta tarde o Programa de Assistência Integral ao Albinismo, voltado para aqueles com albinismo. Tratou-se de iniciativa do deputado Carlos Rovira. De acordo com as regras aprovadas, "entende-se por albinismo a uma alteração genética, congênita, autossômica recessiva, dependendo da variabilidade de seus tipos, que causa redução total ou parcial de pigmentação na pele, olhos e cabelo, levando a condições diferentes grau ". 



Conforme aprovado, o Ministério da Saúde de Misiones, como autoridade para fazer cumprir a lei, deve "propiciar ações de sensibilização no âmbito da comemoração do" Dia Provincial da consciência sobre o albinismo ", a partir de agora ser comemorado no dia 13 de junho. 

Além disso, juntamente com o trabalho social provincial, deve proporcionar às pessoas com albinismo cem por cento de cobertura no fornecimento de medicamentos, itens e acessórios necessários para cuidados e tratamento, estudos de diagnóstico e práticas de cuidados de saúde em todas aquelas patologias direta ou indiretamente relacionadas ao albinismo. 

O programa também garante passagens de ar, terra ou água, sob jurisdição nacional, no caminho entre o domicílio das pessoas e qualquer destino a que deva comparecer por razões médicas e desde que não disponham recursos financeiros. Ambos os requisitos devem ser devidamente credenciados. O benefício se estende a um acompanhante, em caso de necessidade documentada. 

Por sua vez, o Ministério do Trabalho e Emprego deve promover programas de emprego, empreendedorismo e oficinas para pessoas com albinismo.

CONTANDO A VIDA 251

MEMÓRIA DO CANGAÇO: UMA EXPERIÊNCIA DE BRASIL PROFUNDO. 


José Carlos Sebe Bom Meihy 


Na alvorada da década de 1950, um livro escrito por um jornalista respeitado, Viana Moog, se propôs a explicar nossa realidade até aquele então. Sob o título de “Os dois Brasis”, o autor resumia o resultado de anos de contraste entre o norte e o sul, o litoral e o interior, a cidade e o campo. Tudo seria polarizado no claro x escuro, no certo x errado, no progresso x tradição. E o livro prosperou como verdade repetida até protestos que tanto mostravam a unidade inerente das partes como relativizava os extremos. Desse denso debate emergiram teorias que qualificam nossas características para além dos jogos duais. O Brasil é uno, culturalmente autoexplicado pela diversidade expressa em muitos níveis de nosso comportamento. Passado o tempo, situações multiplicadas têm proposto experiências que ainda chocam e que, de maneira sutil, convocam as velhas propostas de Moog. O turismo e os negócios colocam em xeque essas teorias, e em vista dos resultados sempre chocantes ainda são clamados argumentos que testem situações que, na prática, justificam o julgamento dos “Dois Brasis˜. 

Pela segunda vez, recentemente cumpri situações de trabalho no interior nordestino. Convidado pela Universidade Federal de Campina Grande para conferência em Cajazeiras, no semiárido paraibano, pude também participar de programa de treinamento de jovens pesquisadores. Preocupado com o implemento de uma “outra história” ou da “história vista de baixo”, faço parte do grupo interessado em ver outras versões do passado, em particular, das percepções não oficiais ou oficializadas. Nesta linha, as experiências do cangaço se mostram como fontes ricas. Tudo, porém, começou antes, no Rio de Janeiro. Preocupado com programas de atendimento a migrantes nordestinos, a Cúria Metropolitana iniciou vasto programa de assistência aos recém-chegados, em particular àqueles que não possuem apoios. A busca de opções de trabalhos levou a verificação de que existe um bolsão de trabalho dominado por nordestinos: as portarias e zeladorias de prédios. Feito levantamento, constatou-se que mais de 90% dessas funções são exercidas por tais migrantes e seus filhos, parentes ou amigos. A questão que se levanta diz respeito às razões de tais postos. 


Sob a chave de um procedimento conhecido como “história oral de vida” foram feitas 50 entrevistas de sondagem. Logo se constatou que essa manifestação se originou na década de 1940 quando se empataram duas manifestações: uma ligada à onda imigratória de 1942, ocasião de grande seca; outra a multiplicação de edifícios destinados à nova classe média, em particular, nas grandes cidades do sudeste, exatamente as que mais recebiam esses deslocados. Decorrência mecânica de tais constatações, surgiu a pergunta fatídica: mas, por que os nordestinos, se, no Rio de Janeiro, como em outras capitais, existiam bolsões de pobreza local, especialmente de negros que compunham contingente de baixa renda? Mais levas de entrevistas ligaram situações de escolhas. Os dirigentes de trabalho optaram pelos nordestinos que, a um tempo, não possuíam ainda tradição de convívio urbano – e por isso seriam mais adaptáveis à nova condição trabalhista – e ao mesmo tempo manteria um preconceito derivado da escravidão que consagraria o negro a marginalidade. 


Em meio a tantas suposições, notou-se que também vigorou o pressuposto da jagunçagem. Sendo que fazia parte da noção de jagunço zelar pela propriedade do coronel, de maneira mimética, tomar conta dos apartamentos e demais dependências de prédios equivaleria a modernização do mesmo fazer. Uma coisa levando a outra, restou indagar das raízes dessa manifestação. Sob a chancela que questiona o que resta da jagunçagem, orientou-se novo projeto, feito in loco, questionando as decorrências das raízes dessas manifestações. 

Desenvolvida a proposta, logo fomos levados à busca dos parentes dos migrantes porteiros. Foi relativamente fácil chegar até eles para entrevistas. Foi assim que aprendemos o sentido ético da jagunçagem e sua aplicação urbana no Brasil moderno. Da mesma forma, chegou-se à história do cangaço como um extremo de isolamento dos mecanismos de pertencimento de contingentes que, isolados, não teriam relações integrativas com os representantes do estado. Sem chegar até os remanescentes populacionais daquelas regiões, os padrões de dominação do estado se chocaram com os mandonismos locais. Levados ao extremo, pela noção de justiça pelas próprias mãos, sob comando deles mesmos, jagunços se juntaram para resolver situações segundo seus mandamentos. 


Tudo é fascinante nesta resenha, mas sem dúvida, além do entendimento do “outro”, do jagunço, cabe questionar a força do nosso preconceito, da rejeição ao negro, atitude plasmada além da força consciente de nossa compreensão imediata. Admitir isso é um passo que vai além da compreensão de um problema isolado. Há algo a mais a ser entendido em nossa democracia que não é tão flexível e miscigenada como pensamos. E como são fortes, sutis e resistentes tais valores. Nossa!...

terça-feira, 2 de outubro de 2018

TELINHA QUENTE 329

Roberto Rillo Bíscaro

Quando fui ao Cine São Joaquim ver O Fugitivo, a série em que fora baseado já era de outra era. Era 1993, e as 4 temporadas de The Fugitive tinham sido exibidas entre setembro de 1963 e agosto de 1967, o que significa que o último dos 120 capítulos foi ao ar, quando eu tinha 7 meses.
Quando resolvi ver a íntegra da série da ABC, o filme estrelado por Harrison Ford e Tommy Lee Jones é que já era de outra era pra juventude de hoje. Como voa esse maldito tempo!
Clássico gerador de imitações ao longo das décadas, The Fugitive é sobre o Dr. Richard Kimble, médico de Chicago, que após discutir com a esposa, sai pra espairecer, mas quando retorna encontra-a morta e é culpabilizado. Julgado e condenado à morte, consegue escapar enquanto é conduzido à penitenciária pelo Tenente Philip Gerard. Kimble vira um homem de braço só fugindo da cena do crime, mas não fora levado a sério. Durante a série, o médico percorre todo o território norte-americano, fugindo de Gerard e perseguindo o Homem de Braço Só.

Desconheço se apenas provas circunstanciais são suficientes pra conduzir alguém ao corredor da morte, mas mesmo que não sejam, O Fugitivo continuará merecendo seu estatuto de clássico. Remetendo ao mito hercúleo do atormentado benévolo que ziguezagueia sem guarida por sua própria terra, Richard Kimble parece imã pra atrair problemas, mas por onde quer que passe, transforma vidas com sua decência, integridade e bondade às vezes levadas às raias da teimosia masoquista. Esse tipo de situação e personagem renderiam séries como Os Invasores, O Incrível Hulk e tantas outras.
Claro que há marmeladas: no mundo superperigoso e vigiado de Richard Kimble, ele aparece a cada episódio sob nome diferente. Até aí nada de errado, mas acompanhando o nome, documentos falsos. Que fácil consegui-los num show, não?
Mas, é difícil não empatizar e genuinamente torcer pelo médico, não apenas porque sabemos que é inocente, mas porque sua nêmesis é obstinadamente antipática. O Tenente Gerard parece usar viseira de cavalo, porque só enxerga pra frente, e olha que ao longo das 4 temporadas Kimble salva seu filho, esposa e o próprio policial mais de uma vez. O britânico Barry Morse está esplêndido com seu sotaque estadunidense e fala sempre afável. Como é inflexível e arrogante, sempre amamos os olés que toma de Kimble, que sempre escapa por um triz.

Os roteiros são tão bem urdidos – era gente que cresceu com clássicos tipo Salário do Medo e Hitchcock – que mesmo sabendo que o Dr. Kimble se safaria, é difícil não ficar tenso, com as procrastinações e azares que podem significar sua captura. Quando David Janssen dá aquelas paradinhas pra olhar a câmera ao invés de fugir logo, dá vontade de gritar pra parar de enrolar e vazar.
Roteiros competentes que se seguram até hoje; antagonista odiável; um inocente injustamente acusado. Tudo contribui pra que essa produção de Quinn Martin (o mesmo de São Francisco Urgente) se sobressaia no mar de mediocridade que era a TV da época. Que o protagonista injustiçado tenha sido regiamente interpretado por David Janssen só ajudou.
Dá pra crer, porque tantas pessoas ao longo de sua peregrinação acreditam em sua inocência só de ouvi-lo dizer. Sua personagem é bondosa, mas sua discreta presença, cheia de silêncios, meneares de cabeça e sua voz baixa e rouca tornam-no gostável em poucos segundos. OK que seus ocasionais grunhidos ininteligíveis às vezes exasperam, mas lembremos que então, a maioria dos atores queria ser macho como Marlon Brando (que também adorava um bom macho). Como diz Barry Morse numa das minientrevistas da caixa de DVDS com a série completa, não faltava gente pra esconder Kimble debaixo da cama. Mas não necessariamente embaixo...
Com trilha sonora marcante e três das temporadas ainda em branco e preto, O Fugitivo continua um prazer viciante de se ver e mesmo pra nós mais velhos, já acostumados à contemporaneidade, parece estarmos presenciando algo duma dimensão paralela.
Não apenas porque não vemos celulares – mas em um episódio já se ensaia usar um computador pra rastrear o Fugitivo! Tosqueira hard pra era dos notebooks! – mas, porque há atitudes hoje alienígenas, como fumar como doidos em qualquer lugar, inclusive hospitais. Homaiada de terno e chapéu na rua; xerife dando canivete de presente prum guri de 8, 9 anos e aluninhos saindo pruma excursão balançando-se na perigosa caçamba duma caminhonete. Imagine isso numa série de hoje o estouro de reclamações que não causaria. Curioso que se aparecem vísceras num episódio de TV aberta, passa batido. Será que sangue e autópsia é o novo cigarro?
Mesmo que algo moroso pros padrões atuais de velocidade supersônica de diálogo e trama – falas em um capítulo de Scandal dão dois d’O Fugitivo! – apreciadores de boas histórias adorarão a série, que também inovou ao propiciar um desfecho pra correria de gato e rato. Isso não era comum na época; não havia preocupação com o que hoje denomina-se closure ou simplesmente respeito pra com o telespectador que investiu tempo e emoção nas personagens.
No capítulo final, Dr. Kimble consegue provar sua inocência (não vá me dizer que você esperava diferente?), não sem pequena reviravolta por parte de Gerard.
Nem quero imaginar o estresse pós-traumático que o cara enfrentaria na vida real depois de anos sendo perseguido, esmurrado, humilhado, baleado, porque o Dr. Kimble come o pão que o diabo amassou.
Por tantos motivos, é inesquecível. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 334



Roberto Rillo Bíscaro

Atribuí a excelência do álbum de estreia do Native Construct a sua formação acadêmica. Ricardo Borges compartilha tal expertise com seus colegas: o menino cursava bacharelado em violão, na Universidade Federal de Santa Maria, quando gravou seu primeiro álbum, ano passado.
As semelhanças entre o gaúcho e os norte-americanos terminam no esmero da formação e na execução, porém. Enquanto Native Construct é esporro virtuoso de prog metal, o violão de Borges lembra a doçura neoclássica de Steve Hackett, nos álbuns em que deixa a guitarra pelo primo acústico. É o caso de Ariana, faixa de abertura de seu curto álbum Inverso.
São seis canções outonais, onde o violão e a doce voz de Ricardo ocupam posição central, mas não estão sós. Cada faixa traz instrumentação acessória, provavelmente executada por colegas graduandos: Márcio Kbcinha (percussão), Vagner Uberti (bateria), Lucas Almeida e Pedro Bagesteiro (contrabaixo e baixo fretless), Gabriel Opitz (bandolim), Helio Abreu (trombone), Maria Paula Rodríguez (flauta e voz), João Kanieski (voz), Diego Zanini (teclado e sintetizador), Pedro Issler (violão 7 cordas) e Elias Rezende (acordeão).
O resultado é um daqueles álbuns que dá vontade de ouvir no ocaso da luz. Experimente iniciá-lo ao escurecer e experimente o anoitecer ao som de Inverso. Não há canção fraca nessa MPB, que tem respingos de seresta, erudito, música campestre. Na verdade, há momentos sublimes, como a faixa-título.
Inverso agradará a fãs desde Clube da Esquina a Renato Teixeira; aos jovens seguidores do atual Flávio Tris ou nós que vivemos a popularidade de Claudio Nucci, pouco antes de o rock oitentista suplantar a MPB.
No site de Ricardo Borges, você baixa Inverso grátis. Esse menino merece divulgação.