sexta-feira, 20 de outubro de 2017

EQUIDNA ALBINA


As equidnas são mamíferos incomuns e de hábitos noturnos. Junto com seus parentes ornitorrincos, são os únicos mamíferos existentes que botam ovos. Na Austrália, são também chamadas de tamanduá-de-espinhos e de equidna-ouriço.

Há três espécies de equidna. A equidna-de-focinho-curto é comum na Austrália e na ilha da Tasmânia. Duas espécies da chamada equidna-de-focinho-longo vivem apenas na ilha da Nova Guiné.

Recentemente, uma equidna de focinho curto albina foi filmada em um parque na Tasmânia. O vídeo está no link:

PAPIRO VIRTUAL 117

Roberto Rillo Bíscaro

Antohony Trollope não gostava de Evangélicos, subdivisão do protestantismo desde o século XVIII mais ou menos e que hoje se espalha mundo afora. Não é de admirar, portanto, que a revista Good Words tenha recusado publicar Rachel Ray (1863), quando leu o material encomendado ao escritor inglês, que apresenta as personagens evangélicas como intolerantes, mercenárias e amargas. Mas, claro que havia também que se aprofundar na desonrosa guerra travada entre as diversas seitas protestantes na Inglaterra do século XIX pra se ter chão mais sólido pra compreender a recusa do editor, que temia ser “fervido vivo” com a publicação. Pesquisar sobre essa encarniçada luta por detrás dos púlpitos, poderia colocar em xeque muito do que se prega neles.  
Como Trollope estava quase no pico de sua fama, não foi difícil vender Rachel Ray pra outra editora e até faturar mais do que com a Good Words, pra qual não parou de colaborar. Trollope era prolífico, da vasta gama de escritores profissionais mesmo, atacado na época por ser dinheirista por setores cristãos rivais à revista. Ele vivia de vender sua escrita, mesmo que fosse pra quem não apreciasse.
Como esses escribas produziam literalmente em série, o nível artístico varia. Rachel Ray não figuraria entre o melhor de Trollope, mas é correta, embora escapa-me como leitores contemporâneos não fãs de século XIX ou estudando algo correlato poderiam se envolver pelo romance. Imagine uma garota de hoje deparando-se com um dos dilemas da personagem-título: deixar ou não o pretendente chamá-la pelo primeiro nome.
Um dos interesses da história é que muito dela foca na classe média baixa, bastante ausente das obras eleitas como cânone da literatura britânica. Tem “mama” e “papa”, não se preocupem, mas tudo se passa na pequena e provinciana Baselhurst, onde existe a cervejaria dos Tappitts, gente que veio de baixo, ralando, o que Trollope indica pelos ocasionais deslizes da norma culta, do casal nada simpático. É don’t no lugar de doesn’t e verbo to be empregado erroneamente. Os Tappitts têm 4 filhas e ficam esperançosos de casar alguma com Luke Rowan, afluente londrino que chegou a aldeia por ter direito sobre parte da cervejaria. Mas, o jovem se engraça por Rachel Ray, moça bem classe média baixa, que vive fora da urbe e tem amizade com campesinos.
O núcleo de Rachel é formado pela mãe irritantemente maria-vai-com-as-outras e pela devota irmã Dorothea, evangélica daquelas que acreditam ser necessário ser infeliz na terra pra ganhar a felicidade no céu. O narrador não deixa de acusar a hipocrisia nesse discurso, uma vez que Dolly enviuvara cedo e tal fervor salvacionista poderia muito bem ser resultante do amargor da solidão. Tal rigor faz com que seja contrária ao interesse de Rowan pela irmã, assim como quase todo o círculo – influenciado pela opinião de pastores e pela opinião púbica de Baselhurst, que vê o forasteiro londrino com maus olhos por querer modificar o método da produção da cerveja de péssima qualidade produzida pelos Tappits.
Pra variar, isso que realmente me interessou em Rachel Ray, o romance: Luke Rowan personifica o avançar inexorável da produção capitalista, que advoga mais qualidade nos produtos pra atender melhor o consumidor e pra vender mais (e é aqui que reside a ênfase, claro!). Devonshire consumia mais cidra, produzida artesanalmente, do que a industrializada cerveja dos Tappitts (do jeito que é descrita, quem poderia culpá-los?). Rowan vem com a proposta de modernizar a produção, manufaturar cerveja melhor e mais abndante e assim alterar o padrão de consumo. Rachel Ray é bem eficaz em descrever, como “pano de fundo”, como o modo de produção favorito dos meritocratas não permite que a produção se “acomode”; as alianças que estabelece pra se impor e sobrepor; como obsoletiza e constrói reputações e relacionamentos. Quando Baselhurst percebe que lucraria com a modernização da cervejaria, Rowan passa a ser queridinho bem rapidamente. Se eu estudasse romance da época, prestaria especial atenção às alianças estabelecidas para a eleição.
Mas o que está na frente é a história de amor de Rachel Ray, que, protagonista, não protagoniza nada, porque vive de obedecer a mãe indecisa e todas as circunstâncias a ela impostas. Não a odiemos, porém: a nobre Rachel é a pintura da mulher e futura esposa perfeitas, que espera, que vai se submeter ao maridón, assim como ora se resigna com a escolha da mãe pra que não dê corda pra Mr Rowan. Também caracteristicamente, a inferioridade social e econômica de Miss Ray é encarada como erro a ser corrigido. Seu inglês é perfeito, seus modos e maneiras de classe mais elevada – ou o que se idealiza desse grupo. Pra esse tipo de personagem na verdade não existe ascensão social – pura ilusão de ótica ideológica – mas, uma espécie de recondução a seu lugar de mérito. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

TELONA QUENTE 207


Roberto Rillo Bíscaro

No momento em que o narrador de Uma Beleza Fantástica (2016) inicia, contando a estapafúrdia gênese de Bella Brown (criada por patos, dá um tempo!), conectei-o à O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001). Por pertencer à rarefeita minoria que prefere extração dentária a rever o excessivamente longo, tedioso e sacarinado filme francês, deveria ter dado stop, classificado negativamente e buscado outra coisa na Netflix. Tom Wilkinson em papel proeminente me impediu essa sábia atitude e terminei por testemunhar a sensaboria do roteiro e direção do britânico Simon Aboud, que implora pra que simpatizemos e nos emocionemos com essa picaretagem, digo, “releitura” inglesa do original francês.
Jessica Brown Findlay (a desviante Lady Sybil de Downton Abbey) é Bella, moça que parece ter caso severo de TOC e fobia de animais e plantas. Trabalha numa biblioteca, onde chega sempre atrasada, e quer ser escritora infantil. O vizinho é senhor rabugento, que trata seu cozinheiro irlandês como escravo, fazendo-o rebelar-se e procurar refúgio na casa de Bella. Ele tem 2 filhas, mas aceita cozinhar pra garota, mesmo que ela não o pague. O jardim de Bella é um desastre, porque ela tem a tal fobia, mas seu senhorio a ameaça com despejo caso não dê um jeito nisso. O velho vizinho, então, revela-se mentor que guiará Bella pelo maravilhoso mundo da jardinagem, metáfora pra seu florescimento, ao redor da qual giram todos os demais, a fim de desabrochá-la.
Uma Beleza Fantástica se vende como “conto de fadas moderno”, mas seu roteiro e estrutura são tão cheios de furos e o tema tão clichê, que é uma ofensa à organicidade e telurismo das histórias que há gerações falam sobre alguns de nossos medos (claro que não me refiro às versões da Disney, de onde vem parte da mentalidade infantiloide da produção inglesa). Protagonista é quem faz a trama andar; como classificar Bella se não faz nada? É comandada pelos homens a seu redor, que praticamente deixam suas vidas pra empurrá-la do ninho.
O roteiro usa transtornos mentais como convenientes marcadores simpáticos de estranheza, naquela vibe  pós-moderninha “é legal ser diferente”, de filme indie cuti cuti tutti frutti. Mas Bella não passa de uma songa-monga mal-vestida, que nem estofo pra escritora tem. O livro que escreve – ou vocês acham que não tem final feliz?! – é rapinagem das histórias contadas pelo vizinho. E como acreditar que um senhor que numa cena humilha gratuitamente um empregado, do nada, veja potencial numa menina que nem conhece e comece a jorrar lições de vida e bondade? E como um cidadão com 2 filhas pra sustentar aceitaria viver ao redor de Bella, sem nem salário? A fim de satisfazer o vício atual por doçura, Aboud criou história onde diversas vidas não têm significado, apenas pra justificar uma (medíocre, ainda por cima). Hipocrisia narcisista, disfarçada de coisinha fofa, ui ui, ai ai.
Não tenho dúvidas de que multidões se encantarão com Uma Beleza Fantástica, mas isso nada significa, afinal, o fato de legiões amarem junk food não quita seu estatuto de lixo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

CONTANDO A VIDA 208

ALLONS ENFANTS DE LA PATRIE...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Atravessamos dias difíceis, não resta dúvida alguma. E ninguém está isento. Em momentos instáveis, por certo, é complicado manter o equilíbrio, não perder o juízo. Tenho aprendido, com mais pacientes, que nas instabilidades, em último caso, é melhor ficar quieto, observar e filtrar palavras que apenas devem ser pronunciadas em caso de oportunidade. Confesso que, como dizem os mais jovens, “ando cabreiro”. De tal maneira tenho me calado que temo somatizar situações culturais que fazem mal à saúde. Na contramão de tantos interditos, troco ideias com pessoas afinadas, pares de ideias e percepções, seres abertos à criatividade, gente sem ódio. Escrever me é outro elixir, e perturbo a brancura das páginas com protestos surdos, tristes, desiludidos, de uma intimidade sofrida. 

Sim, dói-me muito ver amigos queridos, pessoas que historicamente fazem parte de meu universo afetivo, valendo-se de redes sociais, exarando laivos autoritários, repetindo jargões cansados e até aplaudindo tendências políticas ultraconservadoras. Nesses labirintos sem saída, contudo, uma alternativa me consolou: hierarquizar em registros minhas mágoas, mas não para guardá-las em páginas pessoais, mas, pelo reverso, publicar meus desabafos, provocando assim diálogos menos verborrágicos. Por questão de espaço, vou poupar leitores da fartura de queixumes. Enumero apenas dois pontos que, no momento, me são os mais intrigantes. O curioso é que ambos se emendam, completando-se por explicativos que são. 

O primeiro fere minha sensibilidade de professor, historiador, pai/avô, cidadão que aprecia arte, busca museus e exposições. Sim, vou falar mal do veto grassado por “autoridades” que, inclusive fora do círculo da própria competência, sem educação cultural mínima, censuraram a exposição “Queermuseu”, e alimentaram, com suas atitudes grotescas, um dos mais vexatórios atos de censura. Gostaria de ir mais a fundo nos argumentos que se emendam ao de tantos outros defensores da arte como forma de expressão livre e democrática. Neste sentido, mais do que adjetivar ignorantes, gostaria de dizer que arte é um código expressivo que ganhou linguagem universal por ser cumulativo, cultivado por crítica especializada, transmitido em favor da beleza. Basta pensar nas primeiras inscrições das cavernas, nos desenhos e afrescos gregos, na estatuária romana, nas referências cristãs que divinizaram o corpo de Cristo nu, na beleza das madonas com seios fartos, no vislumbre erótico das referências mitológicas, nas dimensões dadas pelo romantismo que colocou nuas ninfas, pessoas comuns, deuses e deusas, no impressionismo libertário das cores, no atrevimento modernista, em tudo enfim, para ver que a arte encanta e educa. E mesmo contra a ação inquisitorial, hitleriana ou stalinista, a arte fez circular o bom ar do prazer visual e da comunicação social. Os maquinários modernos, a fotografia e o cinema, por sua vez integraram o âmbito difusor do gosto, afinando sentidos. 

Como não poderia deixar de ser, o mundo avesso também se eternizou e assim, principalmente pela negação de todos os aparatos da arte, a pornografia tomou o lugar da beleza erótica e os mais incultos, aqueles de corações sujos, os de mente imunda, fariseus vestidos de pastores, exercitaram a ignorância dando vazão ao que escondem em suas almas danadas. Confundir erotismo com pornografia é distorção imperdoável, ainda que se torne prática censora poderosa. O pior é que fazem isso em nome da família, sem explicar, contudo, de que família falam (certamente das deles). E não bastasse, investem na educação como guardiões do conhecimento, como se o saber pudesse ser crivado e pecaminoso. É importante repetir que estamos habituados, culturalmente, às exposições nas praias, na televisão, nas ruas, e, pelo inverso, ir a museu é ato de escolha. Que não venham, portanto, fundamentalistas dizer que quem quer não pode optar para onde levar seus filhos. E os filhos, por que não deixá-los admirar a beleza visual refinada? Será que devemos esperar que eles aprendam como os pais que veem o mal em tudo? 

Complemento do primeiro item, o outro afeta a escola. Devemos condenar o fundamentalismo religioso com força e nos indignar com a permissão do ensino religioso. Sem temor, precisamos ver que um bando de legisladores, obscurecidos pelo viés autoritário, se converteu em “bancada política”, e tem ganhado força desmedida. Às vezes às claras, outras travestidos de normalidade, saídos das igrejas, adentram setores do poder legislativo e, como rapinas, ferem direitos e se esforçam por limitar olhares que, afinal, por inteligentes e livres, podem virar contra eles. É preciso recobrar a Constituição e advogar o direito à livre expressão, à crítica, à criatividade. Demorou para que conseguíssemos ser um estado laico. Ainda que nossa depauperada educação pública esteja mal, não cabe gastar mais dinheiro colocando o ensino religioso como matéria de formação. Por neutros que sejam os professores, não é correto (nem honesto) substituir conteúdos que cuidem de maneira objetiva de direito ambiental, das diferenças sociais, dos segmentos deprimidos pelo sistema injusto. 

Cabe, finalmente, reclamar contra os valores políticos coloridos pelos devotos da censura. Esta matéria não se polariza em esquerda ou direita. Em ser simpático a este ou àquele sistema. Nada disso. Trata-se, isso sim, de respeito a princípios discutíveis, debatidos em arenas livres, acima de vetos, sanções, censura. Trata-se sobretudo em substituir dogmas pela inteligência. Vamos... Vamos fazer como alguns museus parisienses que convidam os filhos para levar os pais para ver exposições de arte. Entendo melhor agora a primeira frase da Marselhesa: allons enfants de la patrie... Vamos crianças da pátria... Vamos levar os pais fundamentalistas para os museus... Quem sabe eles se convertem à beleza e deixem livre o céu da inteligência. Quem sabe?!...

terça-feira, 17 de outubro de 2017

TELINHA QUENTE 281




Roberto Rillo Bíscaro

Ano passado, o articulista Brian Boyd, do The Irish Times, escreveu que Israel era a nova Dinamarca, quando se tratava de sériesexcitantes. O pequeno país escandinavo foi a locomotiva da invasão de shows estrangeiras na TV britânica, depois do sucesso da legendada Forbrydelsen. Suécia, Itália, Noruega, Islândia, Bélgica já tiveram produções cultuadas por uma geração, que meio ironicamente, Boyd diz passar as noites de sábado em frente à TV, com seu Chardonnay, sentindo-se especial, porque lê legenda.
Sem entrar no mérito da gratuidade da farpa, o jornalista escrevia sobre Hostages, série israelense, então exibida pela BBC4. É certo que o pequenino país asiático tem oferecido excelentes produtos, que os norte-americanos não param de adaptar, como In Treatment, Homeland e a própria Hostages. Esse encanto novo da nuvem cultural gafanhota pela nação judia é que levou Boyd a sugerir a troca da Dinamarca por Israel.
As 2 temporadas de Hostages – disponíveis até dubladas na Netflix brasileira (foi assim que vi, não tenho fetiche por legendas) – estavam na minha mira há meses, então, esperei o feriadão da Independência, pra mim acrescido de mais um dia devido à extração dos últimos sisos, para dedicar-me aos mais de 20 episódios. Fiz bem em ter assistido em época possível de fazer maratona. Hostages prende e, lá pelo capítulo 5 em diante da segunda temporada, se você não tiver bastante tempo, terá que recorrer a ansiolítico até poder ver a prestação seguinte.
A competente, competitiva e linda Dra. Yael Danon está prestes a atingir o cume da carreira: no dia seguinte operará ninguém menos que o amado Primeiro-Ministro Shmuel Netzer, mas na véspera, encapuzados invadem sua casa e mantém a família refém (hostage, em inglês). A exigência é que a médica mate o político na mesa de cirurgia. Como ela tem que ter liberdade de ir e vir pra não levantar suspeita e, óbvio, poder operar, Hostages não é de longe um drama estático. Além disso, segredos emergem; relacionamentos entre os sequestradores e entre estes e os reféns se desenrolam, tornando a série muito dinâmica. A segunda temporada é outra situação de cerco entre polícia e reféns, decorrente das ações da primeira, mas não com todas as personagens.
Hostages é como um longo longa-metragem de horas e horas, porque realmente entendemos algumas das motivações apenas no decorrer da segunda temporada.  Ao contrário de tantos filmes e mesmo séries, como Fauda, Hostages não aborda a problemática relação entre árabes e judeus; tudo se passa em Jerusalém, mas as motivações são mais pessoais do que políticas. É ótimo ver abordagens do conflito étnico entre árabes e judeus, mas também é salutar demais termos noção de que a cultura israelense não apenas vive e respira isso. Hostages é problema intrajudeus.
A dimensão pessoal preponderando foi escolha sábia do roteiro, porque Hostages é thriller pra diversão e não elucubração. São revelações e reviravoltas mirabolantes pra quem está atrás de emoções, sem se importar se a trama é plausível. Advertência: se você é do tipo que preza “realismo”, essa série não é indicada. A delícia de Hostages é ser tão despirocada quanto Scandal ou Whitechapel. Totalmente viciante em seu redemoinho implausível. Fazia tempo que corridas contra o relógio – há repetidas, especialmente na eletrizante segunda temporada – não me deixavam tão tenso e sem forças pra sair da Netflix.
Não sei se Israel é a nova Dinamarca televisiva, mas o rico país europeu ainda está com a bola toda e influenciando. Mais pro final da temporada 2, Kim Bodnia – o Martin Rohde, da cultuada Bron/Broen – aparece pra adicionar ainda mais complicação à vida das personagens israelenses.
Se eu não puser Hostages na minha lista de melhores do segundo semestre, podem enviar e-mails com vírus fatais!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 287


Roberto Rillo Bíscaro

Como tantas negras norte-americanas, Lizz Wright começou cantando na congregação onde seu pai era pastor e diretor musical, no sulista estado da Georgia. E é pra homenagear essa região – controversa por seu racismo e separatismo latentes – que a jazzista escolheu as 10 canções de Grace, lançado pelo selo Concord, dia 15 de setembro. O trabalho reúne uma inédita e 9 regravações, de gente que vai de Ray Charles a Bob Dylan (a baladaça country Every Grain Of Sand, já gravada por Emmylou Harris) até kd lang (a balada meio anos 40 Wash Me Clean). Wright não teme cobrir material consagrado por lendas como Billie Holiday: confira o madrigal de cordas superpersonalizado que criou em Stars Fell On Alabama.
A Graça evocada pelo título está em todas as faixas, mesmo quando as letras não tematizam sobre religião, afinal, Grace não é álbum gospel e Wright é intérprete secular. Mas, o clima de spiritual e de louvor ou perdão também tem tudo a ver com a tradição sulista das igrejas negras entoando canções que originaram o rock’n’roll, dentre outros petiscos musicais do século XX, que tornaram a música norte-americana a mais influente do planeta.
Dona de caixa torácica que facilmente permitiria berreiro sem fim (delícia, amo!), Lizz usa seu potente registro grave de forma mais calma, mas marcante. Sua voz tem tom de terra quente e molhada; fértil pra fazer brotar a cevada (Barley) no R’n’B que abre o LP. Isso, somado a arranjos dispensadores de qualquer modismo de produção, faz com que Grace soe ainda mais telúrico; marca registrada da tradicionalista Lizz Wright, vide o LP anterior, Freedom & Surrender, resenhado aqui.
A única inédita, o country emocionante de All The Way Here, encerra o álbum e dá vontade que a cantora componha mais e lance LP só de novidades. Mas, mesmo que Wright se dedique a regravar, não há do que reclamar quando os coros gospel poderosos se erguem em canções como Seems I’m Never Tired Lovin’ You ou quando o secular que originou o rock se infiltra na guitarra inquieta do spiritual R’n’B de Sining In My Soul. E quer melhor pra provar que o sul norte-americano tem muito mais do que atraso do que a quase hipnótica Southern Nights?
Com nenhuma nota ou arranjo fora do lugar, Grace deixa o ouvinte em puro estado de Graça.

domingo, 15 de outubro de 2017

ARQUITETURA DA SUPERAÇÃO

De engraxate a arquiteto, de arquiteto a arquiteto premiado, e agora, arquiteto com fama internacional. Conheça uma história de superação e sucesso que inspira quem não tem medo de sonhar.

sábado, 14 de outubro de 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

PAPIRO VIRTUAL 116 (ALBINO)


QUADRINHO FRANCÊS DO ELRIC DE MELNIBONÉ CHEGA AO BRASIL PELA MYTHOS


A criação máxima de Michael Moorcock, Elric de Melniboné, possuiu algumas adaptações em quadrinhos ao longo dos anos. A mais famosa e elogiada, produzida na França e publicada pela editora Glénat, é tida por Moorcock como “a versão mais perfeita de Elric“, e esta adaptação está chegando ao Brasil pela Mythos Editora.

Em meio a traições, feitiços e espadas mágicas, acontece uma luta acirrada pelo poder. Elric, o imperador albino criado por Michael Moorcock deve enfrentar seu primo Yyrkoon pelo controle do reino de Melniboné. E além de todos os perigos e armadilhas, os dois vão ter que lidar com as manipulações de Arioch, Senhor do Caos e Duque dos Infernos Abissais!


Elric: O Trono de Rubi traz um dos personagens mais importantes do gênero “espada e feitiçaria”, inaugurando a nova linha de quadrinhos da Mythos: o selo Gold Edition, em formato diferenciado!

A edição nacional irá compilar os dois volumes publicados na França até o momento, O Trono de Rubi (2013) e Stormbringer (2014). O terceiro volume, O Lobo Branco, foi lançado na França somente este ano, sem maiores previsões para uma quarta edição. A edição nacional inclui um pôster especial de 68 cm x 104 cm para clientes da Amazon e Saraiva.

Elric: O Trono de Rubi possui 124 páginas encadernadas em capa dura e formato 32 x 24 cm, e o preço de capa sugerido é R$ 84,90.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

DIA DA CRIANÇA EM MOÇAMBIQUE

Desconhecidos roubam mais uma criança albina no Niassa

Uma criança de um ano de idade, que sofre de albinismo, foi roubada por pessoas ainda não identificadas, na semana finda, no distrito de Mecanhelas, província do Niassa. Um cidadão está detido por se suspeitar que tem alguma conexão com os presumíveis criminosos.

O roubo do miúdo aconteceu à noite, no povoado de Maico, quando ele estava a dormir junto da sua mãe. Não é a primeira vez que um caso similar acontece naquele ponto de Moçambique, e as restantes ocorrências ainda não foram esclarecidas pelas autoridades policiais e da justiça.

Segundo a Polícia da República de Moçambique (PRM), no Niassa, o cidadão ora preso albergava gente de considerada de conduta duvidosa na sua residência.

O albinismo é uma doença que se caracteriza por ausência ou grande falta de pigmento na pele, nos olhos, nos pêlos e no cabelo.

Em Janeiro deste ano, no Niassa, um miúdo de sete anos de idade, também que sofre de albinismo, foi roubado por quatro indivíduos desconhecidos, depois de arrombaram a porta de casa onde a vítima estava com a família, a dormir.

O caso deu-se no distrito de Ngaúma. Nunca mais se soube, publicamente, se o rapaz foi ou não resgatado, nem se os raptores foram detidos.

O informe anual da PGR é deveras vago em relação a este problema. O mesmo refere que o Plano de Acção Multissectorial criado pelo Governo, em 2015, para lidar com o mal acima exposto, permitiu que o tráfico e/ou assassinato de albinos reduzisse de 51, em 2015, para 15, em 2016.

TELONA QUENTE 206


Roberto Rillo Bíscaro

Tenho lido/ouvido muito o termo empoderamento duns tempos pra cá. Bastou aparecer personagem minoritária e a simples representação é índice de empoderamento. Foge ao escopo de minhas resenhas fazer discussão acadêmica sobre temas, afinal este é um blog pra entretenimento, quando não sobre o assunto albinismo, mas seria pertinente checar salários pra ver se atrizes intérpretes de empoderadas são igualmente cheias de poder como os homens, por exemplo.
Não procurei saber o salário da excepcional e premiada Paulina Garcia, mas Gloria (2013), dirigido por Sebastián Lelio, é excelente história de empoderamento feminino. A personagem-título é mãe de meia-idade vivendo muito só na capital chilena. Os filhos já adultos não têm muito tempo pra ela, porque têm suas vidas/problemas, então, resta-lhe o emprego e dançar em bailes da saudade (que toca música já da minha geração!) ou frequentar bares pra solteiros, onde de vez em quando arruma parceiro.
Gloria não apresenta nada de “especial”, como preconiza certa cartilha artística. Isso não significa que seja oca; é como todos nós, comuns: cantarola música brega a plenos pulmões, enquanto dirige, usa uns oculões gigantescos (parece Dustin Hoffman, como Tootsie, às vezes!). À primeira vista desanima; que história uma pessoa assim teria pra nos interessar? Pelo menos pros acostumados apenas à heroica narrativa comercial de Hollywood. Num desses bailes da vida, conhece Rodolfo, coroa simpático, carinhoso, inteligente, bem-sucedido e fera na cama. Quero ver se Hollywood botaria Michael Douglas e Dianne Keaton em cenas tão apimentadas e realistas, como as entre Garcia e Sergio Hernandez. Rugas, flacidez, nada é camuflado, mas o sexo na idade 3 parece ser muito bom. Rodolfo, porém, é dominado pelas filhas e ex-mulher dependentes e manipuladoras. Será que pra fugir da solidão, compensa ter um homem assim, mesmo que fofo, atencioso (quando não sai correndo pra atender às marmanjonas) e rojãozinho no leito?
Gloria, o filme, narra paciente e vagarosamente – bem naquele ritmo de cinema de festival latino-americano – esse recorte na vida de Gloria, a personagem. O roteiro faz emergir o fascínio que histórias “comuns” podem ter e nos insere no mundo interior tão rico de alguém que a princípio, julgamos não ter caso interessante a ser mostrado. Gloria é muito sobre nos tocarmos de que nossas vidas, embora imersas na cotidianidade desprezada e até ironizada pelas “grandes” narrativas, podem ser tão férteis e ricas quanto a das impossíveis personagens que somos adestrados a idealizar. Nada contra essas últimas, porém. O que seria da diversão sem uma Victoria Grayson ou um JR Ewing (amo ambos!)? Mas, Gloria, além de empoderar, ainda prova que diversidade é mais do que apenas mostrar personagens mais do mesmo, apenas com cores de pele diferentes ou orientações sexuais mais fluídas. É também mostrar como a vida duma mulher “apagada” de classe-média não é nada apagada.
Um filme assim exige atriz de alto calibre e Paulina Garcia dá um show de olhares e expressões faciais. Fascinante e olha que a atriz está na tela quase o tempo todo. Mas é tão boa que em bem pouco tempo começamos a torcer e admirar essa mulher “comum”, quanto qualquer “incomum”, até cairmos na gargalhada no modo como elimina o bofe tóxico. Não se zangue, não deve ser mais spoiler a essa altura saber que Rodolfinho dança – não disse que é uma narrativa sobre empoderamento? O engraçado (mesmo) é ver como, e depois ficar morrendo de vontade de dançar Lança-Perfume (tem Rita Lee na trilha!) e a oitentista Gloria, com Gloria. E desejar que seja muito feliz do que jeito que der, porque Gloria é incrível.

E se ela é, podemos ser também!

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CONTANDO A VIDA 207

NADA A COMEMORAR...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Não é só para mim. Não mesmo... Creio que muitos se surpreendem quando olham o calendário e exclamam: ou-tu-bro, já?! Meu Deus, o ano está apontando para a sua vira e, mais do que exaustos, nos é fácil sentirmos tragados. E que ano, diga-se! Quando não se acreditava que as coisas conseguissem piorar, eis que o improvável se materializa galopando. A mecânica dos dias, porém, é implacável e no caso do mês de outubro, o acúmulo de celebrações cabíveis nas efemérides oficializadas é formidável, e se esparrama por todos os níveis: sociais, morais, religiosos, éticos, e cívicos.  É tanta data celebrativa que se tem a sensação de que temos que festejar como nunca, antes que o mundo acabe. E haja destaque: dia das crianças, da Padroeira do Brasil, de São Francisco, da chegada de Colombo à América, dos professores, dentistas, médicos... Ante tanta festividade, indignado, fico me perguntando dos porquês, principalmente posto que dezembro está logo ali, com sua carga de tantas outras comemorações oficializadas sob o decreto cultural de epílogos. Mas outubro está correndo, e de forma quase patética isso nos impõe balanços sobre a vida social, em cima de nossos projetos pessoais, e sobretudo conferindo nosso papel no complicado processo.

Sempre me recordo do neologismo “outubrite”, referência frajola a um conjunto de 31 dias que inflamam os sintomas anunciados ao longo dos meses e tensões anteriores. Achei graça, dia desses, quando perguntei a uma colega como ia indo e ela conformada respondeu “vou outubrando”. Entendi logo, ela está “sobrevivendo”, tocando a rotina de dias mecânicos e exaustivos. Mas bastou isso para me perguntar “mas e eu, como vou neste outubro”? Fatal questão essa, diga-se, pois doeu-me como a imagem refletida em trágico espelho social. O que vi? Sem muito esforço, desfilou aos meus olhos a exaustão das investigações da Lava-jato tão pontuada sem resultados. O agravo maior, porém, corre por conta do sufoco contábil da soma dos incontáveis montantes de dinheiro implicado nos processos. Nada tem fim. Consequência imediata disso, o triste espetáculo dado pelo nosso Poder Judiciário que fugindo da discrição conveniente e desejável aos cargos, ganhou protagonismo anulador da máxima jurídica que prezava a fala dos juízes nos processos. Como popstars, ministros mostram suas intimidades, expondo a público o desequilíbrio interno e o que é ainda pior, os desníveis entre os poderes. O periclitante dessa história é que o longuíssimo processo se encaminha para provar que tudo é a imagem e semelhança da nação. Não bastasse o mau exemplo das “autoridades competentes”, o respaldo legislativo legitima o desastroso executivo, que faz repetir que estamos melhorando economicamente, como se isso não fosse previsível.

O cenário é amplíssimo: florestas desbastadas, a educação como todo seu complicado aparato levada à falência, cortes de verbas para pesquisas, multiplicação progressiva de moradores de rua, esvaziamento de programas sociais, tentativas incríveis de processos de censura, ataques a cultos religiosos prescritos da legenda evangélica, mulheres atacadas publicamente, militares se autoelogiando como redentores da república, homossexuais reprimidos em sua imagem pública, novos fluxos de brasileiros saindo do país... Nossa!... Tudo somado convoca vergonha e intimida otimismos. Um pálido inventário de nossas mazelas convoca lágrimas.

Sou professor, avó, simpatizante de São Francisco e Nossa Senhora Aparecida. Na constelação dos direitos, por certo, deveria preparar minhas roupas festeiras. Deveria – condicional fatídico – mas não vejo motivos para qualquer alegria. É repetido que vivemos em plena crise, e, crise por crise, vou despindo minhas ilusões. O último fio de esperança reside exatamente na luz dada por este outubro: o ano vai acabar.  

terça-feira, 10 de outubro de 2017

TELINHA QUENTE 280


Roberto Rillo Bíscaro

Nem o fuá cercando a versão fílmica da Mulher Maravilha – seu sucesso de bilheteria e parece que até entre críticos, além do suposto baixo salário recebido pela atriz que interpreta a empoderada – me atiçou a curiosidade em vê-lo. Sequer chequei se as alegações monetárias são verdadeiras ou se a crítica gostou; não sei o nome da atriz. Não me interessa nem em mais remoto âmbito.
Houve época em que o garotinho Roberto Rillo Bíscaro era fã da Mulher Maravilha, porém. Isso por volta de 1977-8, quando a Globo exibia a série, cuja primeira temporada foi originalmente mostrada pela ABC e as segunda e terceira, pela CBS (essa inconstância marca toda a produção). Saber que a super-heroína criada em 1941 por Charles Moulton retornara, deu vontade de rechecar a série.
Os anos 1970 eram propícios pra levar personagem feminina protagônica pras telinhas. Representar/lucrar com o ascendente feminismo estava em alta e a Woman’s Lib felizmente trouxe mulheres fortes e ativas pro cinema e TV. Sitcoms como The Mary Tyler Moore Show, mas também programas de ação como Mulher Biônica, As Panteras e Police Woman. Fenecia a época em que os machos tentavam impedir o poder feminino, como nas sessentistas A Feiticeira e Jeannie é um Gênio. Os 70’s eram a época do não provoque, porque é cor de rosa-choque.
O seriado da Mulher Maravilha, que durou de 1975 a 79, legou atriz eternamente estereotipada como a personagem – a ex-Miss Mundo e futura alcoólatra Lynda Carter – e fez muito sucesso, gerando ícones da cultura pop como a canção-tema (executada com letra apenas na primeira temporada) e o giro pra se transformar de Diana Prince em Wonder Woman (a versão que grudou no imaginário também é a da temporada de estreia).
No Brasil, o sucesso foi tanto que rendeu até paródia no programa Brasil Pandeiro, que Betty Faria comandava, em 1978. Maria Maravilha era a versão pobre da norte-americana. Maria trabalhava numa lanchonete e quando girava e gritava saravá, se metamorfoseava na super-heroína. Eu lembrava de Maria Maravilha, mas não do Brasil Pandeiro, mas pra quem nem faz ideia do que escrevo, veja trecho: 

Não dá pra caçoar muito do mambembismo da produção global, que afinal, era sátira. O original norte-americano, que se queria sério, é difícil de recomendar pra jovens e crianças atuais: mambembice de primeiro mundo, mas gambiarra pura na maioria das vezes. Claro que não revisito esses shows em busca de reproduzir emoções vividas na época da exibição – eu tinha 10 anos, se conseguisse tê-las de novo, precisaria recorrer a um terapeuta urgentemente. Vejo-os, porque me interessam programas antigos, que podem ser bons, veja o caso de The Streets Of San Francisco. Mas, Mulher-Maravilha não era a não ser pela temporada inicial, que ainda tentava ser mais quadrinhos e tem o charme de ser durante a Segunda Guerra. Faltava grana pra produção – continua irrecomendável pra jovens – mas tinha seu charme. As outras 2 são bem pobres.
A temporada 1 chamou-se Wonder Woman e nela vemos a partida da super-heroína da Ilha Paraíso, sua chegada a e adaptação em Washington e sua parceria protetiva com Steve Trevor pra lutar contra o perigo nazista. Não é à toa que o giro e a canção-tema lembrados sejam os dessa época; eu mesmo não recordava de nada das demais temporadas, mas lembrava até do nome duma coadjuvante, chamada Beatrice Colen. Sabe aquele lance de ver a imagem e pensar, “nossa, é mesmo!”? Assim que aconteceu, quando vi seu nome dentro da estrelinha da animação na introdução.
O it (lembram quando isso era sinônimo pra charme?) é que os episódios não escondem que são quadrinescos; tem até aquelas legendas amarelas, tipo “mais tarde, no QG de não sei onde”. A interação entre Diana e Steve é bem mais fluida, de vez em quando aparece o Jato Invisível, cujo teto é tão baixo que quase bate na cabeça da Mulher-Maravilha e tem música de elevador como trilha-sonora e em um par de episódios as Amazonas, inclusive sua irmã Drusilla, a hoje esquecida, mas então estreante Debra Winger. É bem cult, mas as audiências de hoje provavelmente se suicidariam por tédio, porque a heroína aparece por uns 10 minutos num episódio de mais de 40. O resto é tudo falação e quando chegam as cenas de ação, amador pra cacete. As coreografias de lutas com Carter ou seu dublê eram pobres de doer.TV há 40 anos não era Netflix ou HBO: geralmente era pra fins de carreira, inícios a serem “esquecidos” ou relembrados com ironia divertida, ou pra quem não tinha talento/contatos pra entrar em Hollywood. Então, orçamentos eram parcos, porque a visão dos canais e produtoras era mesmo produzir entretenimento barato pra ser exibido entre o que realmente interessava, os anúncios.
As 2 temporadas seguintes chamaram-se The New Adventures Of Wonder Woman, porque o estúdio decidiu remaquiar o show por completo, que agora se passava na contemporaneidade e tinha Diana Prince trabalhando como agente governamental da IADC, que supostamente tinha a função de resolver casos de alta prioridade. Más (será?) línguas dizem que o estrelato subiu demais à cabecinha linda de Lynda Carter, que exigiu menos espaço a seu colega Lyle Waggoner. Ele nunca confirmou o rumor, mas num documentário que acompanha o DVD da série completa, Linda lamenta não o ter “conhecido melhor”, por falta de tempo (ô dó!). Ele não aparece em nenhuma das featuretes que bonificaram a box-set da Mulher Maravilha. Fato é que depois da temporada primeira, Steve Trevor aparece e faz cada vez menos. Pra explicar a presença do mesmo rosto 30 anos após a Segunda Guerra, improvisaram que esse Steve Trevor era o Júnior. Será que se filmada hoje, dariam o papel de galã prum ator de 40 anos não-bombado?
À falta de recursos e pobreza coreográfica somou-se total ausência de rumo. As temporadas são amostras públicas de produtores procurando um tom pro show, ou antes, tentando erraticamente adaptar a Mulher Maravilha à alguma fórmula ou trejeito de sucesso. Tem grupo de episódios, onde Diana e Steve se reúnem numa sala com um chefe invisível, à moda das Panteras; em outros há um robozinho engraçadinho (poooooodre!) à Guerra Nas Estrelas; há um em que parece que nova roupagem será vestida, porque Diana se muda pra Los Angeles e novo chefe é apresentado (o ator é gordinho, nada galã como Waggoner; más línguas, dona Lynda Carter?) e um garotinho negro desponta como alívio cômico, tudo pra que no episódio seguinte ela siga vivendo na capital estadunidense.

A despeito das tramas fracas e mediocridade geral, Mulher Maravilha tem na simpatia de Lynda Carter seu trunfo pra nós que aprendemos a amá-la na meninice. Desindicado pra juventude atual, mas como viagem memorial pra 50tões, episódios da Wonder Woman ainda valem a pena. Mas, tem que ser aos poucos.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 286


Roberto Rillo Bíscaro

Que vergonha; o Orchestral Manoeuvres in the Dark lançou álbum dia primeiro de setembro e sequer comentei sobre English Electric, o de 2013. Esse trabalho me escapara por entre os tímpanos até que Googuei sobre o LP homônimo do Big Big Train, lançado no mesmo ano. Só dava texto sobre os pioneiros do synthpop britânico; bati na testa inconformado de ter deixado passar o segundo trabalho após o reagrupamento, em 2006.
Formado em 1978 por Andy McCluskey e Paul Humphreys, o OMD quase sempre teve mais membros, mas ouvintes mais casuais – como eu – sempre se importaram com a dupla-fundadora. Junto com Gary Numan, Ultravox e o Human League dos Primeiros Dias, o Orchestral foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da síntese synthpop entre punk music e música eletrônica. O rigoroso álbum Architecture & Morality (1981) é fundamental pra se entender isso. A primeira faixa, The New Stone Age, espetacularmente mistura Kraftwerk com pós-punk; é uma aula pra década que se abria. Lá por 84, o OMD viraria mais pop e antes do fim da década McCluskey e Humphreys ficariam de mal, reatando a parceria apenas em 2006.
English Electric deve ter passado batido, porque nos 80s, dançava Enola Gay e Electricity na boatinha do Clube Penapolense e amara a hipnótica Souvenir, trilha da novela global Eu Prometo (1983), última de Janete Clair/primeira de Glória Perez, mas nunca fui fã como de Sade, Pet Shop Boys, Phil Collins. Na era da internet e visitando a genealogia de minha década mais querida, desenvolvi amor pelos LPs iniciais, que ouço sempre, mas não segui de perto o restante. De qualquer forma, não é tarde pra escrever sobre o competente English Electric. 
Quarenta anos depois do auge do movimento punk e do Kraftwerk, pode-se afirmar com segurança que a Cromossomo K fixou-se definitivamente no genoma do OMD: English Electric tem tudo de Kraft e nenhum resquício audível do (pós)-punk. De modo geral, o LP tematiza certo desgosto com a modernidade; prometida dum jeito, vivida d’outro não tão resplandecente de neon e abundante de tempo livre. Quem lembra dum sociólogo desses de mídia, nos 80’s, profetizando que no futuro a automação permitiria que as pessoas trabalhassem menos? Precarização, insegurança na manutenção dos postos de emprego e gente conectada ao escritório quase o tempo todo são algumas facetas desse futuro não previsto pelo esquecido (Pollyann)acadêmico. E qual sonoridade pra falar de perspectivas fracassadas de futuro idealizado do que o bom e velho tecnopop oitentista? Apesar dum par de piscadas pralgum truque de produção mais contemporânea, English Electric é pra ouvidos mais velhos ou pra moçada que curte vintage.
É provável que o pendor de McCluskey e Humphreys por lindas melodias explique a fixação no Kraftwerk e não no agressivo (pós-)punk. Ouça a boniteza dos riffs de teclado de Night Café e Stay With Me, esse capaz de fazer montanha se avalanchar em lágrimas. Na veia de Enola e Electricity, Dresden traz memorável linha de teclado pra dançar, sustentada e impulsionada por baixo potente e rebolável. Não é à toa: Andy é baixista; Paul, tecladista. Daria tranquilamente pra tocar na boatinha do Clube Penapolense, emendada com It’s a Sin, dos Pet Shop Boys, lá por volta de 86-7.
Dresden é uma cidade alemã, pátria do Kraftwerk, inspirador de German, digo, English Electric. Metroland é pura minissinfonia fase Man Machine (1978), que aliás, tem faixa chamada Metroplis. Linda. Kissing the Machine é regravação de uma canção de 1993, do Elektric Music, projeto de Paul Humphreys com Karl Bartos, ex-percussionista adivinha de qual seminal grupo eletrônico germânico? Pra completar o domínio teutônico, a faixa conta com vocais de Claudia Brücken, do grupo synthpop alemão Propaganda, que fez sucesso no Brasil, em 1985-6. Paul e Claudia foram casal por vários anos.
Embora expelindo Kraftwerk pelos poros mais minúsculos, o álbum não soa como pastiche; é só que os caras amam Kraft desde os 70’s, a música dos alemães está até nos movimentos involuntários. Mesmo assim, sobra espaço pro synth-bolero de Final Song e pra The Future Will Be Silent, onde o OMD mostra que pelo menos ouviu dubstep e trap. Mas, pra nós oitentistas que enfrentamos a acid house, a faixa não soará alienígena.  
Entremeado de vinhetas “experimentais”, o álbum não assusta ninguém que passou pelos 80’s, afinal, os tais “experimentos eletrônicos” vinhetados já foram todos feitos. Com os timbres de teclados registrados do OMD, os vocais intocados pelo tempo (será efeito de estúdio? Estão iguaizinhos desde sempre!) e até mesmo uma personagem feminina inspiradora – Helena de Troia, no lugar de Joana D’Arc – English Electric mostrou um Orchestral Manuevres in the Dark no topo de sua forma madura.
Quem não quer ficar defasado como eu, que ouça o novo LP, puritanamente intitulado The Punishment Of Luxury. Já ouvi, mas ainda não me encantou tanto, quanto English Electric; vamos ver se rolará resenha...

sábado, 7 de outubro de 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

TELONA QUENTE 205


Roberto Rillo Bíscaro

Lassie, Rin Tin Tin, Benji, K9, Beethoven, Marley são apenas alguns nomes de cães que enternecem multidões ao longo da história do cinema. No mundo da animação Pluto e Scooby Doo repetem o sucesso canino, que não se repete com gatos. Em filmes e séries, gatos protagônicos são raridade – a não ser quando são do mal – e nas animações Frajola e Tom apanham de Piu Piu e Jerry apenas porque querem comê-los. Oras, gatos são carnívoros, isso não é índice de vileza, é biológico. Uma das exceções felinas é o gorducho preguiçoso Garfield, que, quando transposto pro cinema fiascou bonito.
Gateiro atualmente tutoreando 4 gatíneos lindos, interessei-me na hora quando vi Virei Um Gato (2016) no menu da Netflix. Não esperava obra-prima, mas resolvi prestigiar meus animais favoritos. Ao buscar dados pra compor esta resenha, aprendi que o filme foi merecidamente malhado pela crítica. Com roteiro escrito a dez mãos, não pude evitar maquinar metáfora maldosa: o computador armazenador dessa baboseira é o equivalente humano a uma caixa de areia felina. A diferença é que enquanto os asseados bigodudos enterram sua caca, os 5 roteiristas deixaram as deles expostas ao mundo.
Tom (seriously?) Brand é um magnata Trumposo, que não tem tempo pra família, porque se dedica à construção do edifício mais alto do hemisfério norte (como se o do sul tivesse grana pra ter um mais alto). Sua negligenciada, mas amorosa, filha quer um gato de presente de aniversário, mas Tom os detesta. Quando o pai cede ao desejo da menina e vai a obscuro pet shop comprar um animalzinho, cai no radar do dono com poderes mágicos, que, praticamente sem motivação alguma, faz uma mágica que transfere a alma de Tom pro corpo do gatinho, Mr. Fuzzypants. Em sua nova existência, Brand descobrirá quão importante é dedicar tempo a quem o ama de verdade.
Nem foi o clichê da trama que me incomodou. Duro é o roteiro ruim de doer, a direção sem personalidade e as atuações no piloto-automático (se bem que, com material tão insosso, como culpar o elenco?).
Cinco roteiristas não sabem que um triliárdário sem tempo pra nada mandaria algum assistente comprar o gatinho nalguma loja de grife? A ex-esposa de Tom deveria ser uma megera interesseira; mas qual qualidade redentora o ex-marido possui pra que eu tire a razão dela de ter lhe dado um chute no traseiro? Nenhuma personagem tem mais que uma dimensão, porque o roteiro é preguiçoso, dormente como típico felino, mas sem um átimo de sua graça.
Em várias das cenas, usam-se efeitos de computador pra emular Mr. Fuzzypants. Artificial e feio pra burro. Nem dá muito pra simpatizar com o pobre gatinho, que passa fazendo coisas nada fofas a maior parte do tempo. Nada, mas nada mesmo funciona em Nine Lives, que é sem vida alguma.

No epicentro do desastre, Kevin Spacey, o que me levou a cogitar se aceitou o papel pra garantir mais um gordo contracheque pra garantir a aposentadora ou se sua carreira no cinema já foi pro Spaço. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

CONVERSA SEM TABUS SOBRE ALBINISMO

O programa português “À Conversa Sem Tabus” dedicou recente edição ao albinismo. Diversas pessoas com albinismo contam suas experiências, basta acessar o link:

CONTANDO A VIDA 206

DE VOLTA AO PASSADO...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Soube que a Câmara Municipal de Taubaté, na sessão de segunda-feira, dia 25 último, aprovou uma moção de repúdio à Fundação Santander pela exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”. Convém lembrar, antes de nada mais, que a referida condenação foi proposta pelo Movimento Brasil Livre (MBL), organismo criado exatamente pelo grupo que advoga o sonso movimento intitulado Escola Sem Partido. Paradoxos a parte, vale dizer que a inconsistência conceitual de tal proposta extrapola o limite da ignorância suportável. Em primeiro lugar, por usar sem supor o que seja, o termo “ideologia”. Por “ideologia de gênero” – como dizem e repetem outros segmentos igualmente desprovidos de condições analíticas – supõem que haja alguma neutralidade social, que possa existir conhecimento sem construção de fatos, e que censura equivale a limite permitido por seleção do que pode ou não ser dito, ensinado, discutido. Ainda que seja elementar, cabe começar pela inexistência de vazios políticos em qualquer sociedade.
Meus caros leitores, perdoem-me por evocar Aristóteles (384 - 322 a.C.), pensador que nos idos da antiguidade clássica, nos parâmetros do nascimento da filosofia, definiu o mais básico valor da vida ocidental, alongada até nossos dias. Ao dizer que, acima de tudo, “o homem é animal político por natureza”. Aristóteles prezava a política como fundamento primeiro da democracia. Compondo um sistema de ideias, o sábio grego pontificava que a vida social se faz por meio de pactos que se assentam em noções inteligentes, não instintivas, discutíveis, elaboradas na base dialógica do direito de universal de expressão. Não há, portanto, vida social fora da política. E tudo – absolutamente tudo, de um jeito ou de outro – é política.
Convém também lembrar que a história da humanidade é um processo dinâmico, contínuo, transformador de pressupostos que se superam. Ao mesmo tempo, deve-se aclarar que a criança, ou os educandos, não são seres passivos, sem condições de reação, espécies moldáveis que um dia, sem o exercício da prática deixaram de ser manipulados. Por lógico, há limites e adequações, mas tudo dentro de circuitos que permitam combinação de experiências e informações, e que não deformem e nem inibam a beleza do conhecimento e da arte. Na mesma sintonia, cabe pensar que a crítica tem que ser exercitada desde sempre, pois não cresce juízo sem debates e experimentação. Fora desse âmbito, o que temos é a hipocrisia e a farsa que dão lugar a deformação de caráter e ao recalque. A provar isso está o sucesso da pornografia e o cinismo vestido de moral, implantado em autoridades (estas sim), comprometidas com ideologias que se fantasiam de isentas ou santas.
Além do mais, a figura do professor – daquele que como o nome revela “o que professa” – existe para propor, animar a discussão, abrir debate. Não cobrem dos educadores a postura de ventríloquos, repetidores de preceitos que sempre são organizados, construídos, políticos na direção dogmática. O resultado secular de tentativa de controle das ciências e das artes deu no que se apresenta agora: um bando de pessoas que se dizem autoridades, que não assumem o significado da escola no mundo moderno, decretando o que os educadores devem ou não indicar como matéria, vetando a livre circulação do diálogo. É preciso repetir que a “não ideologia de gênero” é política, e má, e que se inscreve no sentido mais atrasado da vivência social.
E que dizer dos que a defendem? No mínimo que são pais ausentes, tutores que delegam às escolas o dever de diálogo, mas que, ao ver o resultado se espantam. Aliás, o que se nota é a criação, nos próprios lares, de autoritarismos que se reproduzem nos ambientes coletivos. Como se ordem e obediência fossem virtudes inteligentes, o que se quer são gerações de autômatos, de jovens alienados, viciados em internet, e a cada dia mais distantes da democracia. E mais, pretende-se cidadãos que não sabem examinar a cultura porque não aprenderam o sentido da beleza e no lugar veem o que temem dentro de suas cabeças sujas. É exatamente neste rastro que advém a proposta do ensino religioso, negando inclusive que nossa constituição advoga a limpidez do estado laico. Em vez de propor nas escolas pagas pelos nossos salários disciplinas que discutam religião (sem ideologia?!) por que não se advoga o ensino de direitos humanos, meio ambiente, economia doméstica?
Mas cabe voltar a questão desta exposição citada que pode ser vista na internet https://www.buzzfeed.com/tatianafarah/veja-30-obras-da-exposicao-censurada-no-santander-cultural?utm_term=.gt8oGMqka#.mrQ9Y2EWw. Um mero giro por algumas peças da mostra nos leva à finalidade da exibição, a educação pelo olhar. Talvez, a mais representativa desse exemplo de conduta pedagógica seja um retrato feito pelo Pedro Américo (aquele o conhecido pelo quadro “Independência ou morte”), intitulado Busto de Jovem, pintado e exposto em museus desde 1889 (portanto há bem mais de um século e meio). A respeito deste retrato, o próprio catálogo da mostra diz “O caráter idealizado dessa pintura não dissimula uma inclinação para a sexualidade iotizada da juventude, cuja construção cultural está subjugada ao olhar do pintor, refletida na instrumentalização hierárquica da atribuição de erotismo do corpo. Se há um legado trazido pela contemporaneidade, foi livrar-nos do obscurantismo do olhar e atribuir uma visão crítica ao modo como vemos as imagens". Pensam que parou por aí, imaginemos a aberração do veto que implica artistas do porte de Adriana Varejão, Alfredo Volpi (sim, o mesmo das bandeirinhas), Bia Leite com um trabalho que alerta para o bullying disseminado nas escolas contra travestis. A nova iconoclastia não para aí, progride por Fernando Baril que mostra um trabalho aberto ao diálogo com outras religiões, intitulado Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva. Talvez, a mais atual crítica seja a deste mesmo pintor, sob o título Halterofilista, criticando o culto excessivo ao corpo, aliás, o próprio catálogo indica a importância da crítica ao revelar que "simultaneamente, no ápice da epidemia HIV/AIDS com seu ingresso na comunidade gay, determina um longo período de estigmatização do corpo masculino como lugar da doença", explica o catálogo da exposição. O que mais poderia dizer em favor da liberação desta exposição. Vale recorrer a maior artista da arte contemporânea brasileira, consagrada em todos os espaços crítico, Lygia Clark que se representa pela obra profética intitulada Cabeça coletiva de 1975. Trata-se da simulação de uma cabeça feita com trapos de panos coloridos mostrando a diversidade que não se explica no vazio de mentes que não sabem nada além dos pecados que ocultam. Censura, mas censura de verdade deveria existir, sim, poderia haver sanções contra outras realidades, menos figurativas e mais atentas os restos humanos que se multiplicam pelas ruas, que passam fome, que não tem direito à terra, ao trabalho, e sequer a serem mostrados, desnudados como se supõem, em obras de museus.
Dei a este escrito o nome de volta ao passado. Acho, contudo, que não estou sendo leal sequer à Inquisição, pois como se sabe, os queimadores de judeus e bruxas, de homossexuais e hereges tinham mais conteúdo. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

TELINHA QUENTE 279



Roberto Rillo Bíscaro


A Netflix tem duas séries cujo protagonista é Sherlock Holmes, detetive criado por Arthur Conan Doyle, que virou ícone. Vi ambas, por isso nossa seção de TV hoje vem em forma de dobradinha.

Continuo tentando uma tipologia para séries policiais. Até ver as 4 temporadas de Sherlock pensara em 3:
a)       As deprês, onde tudo termina mal, porque sempre foi mal, como Bron/Broen, Broadchurch, Hinterland;
b)       as fofas, onde assassinatos são convertidos em entretenimento para vermos detetives simpáticos desvendando casos que mal afetaram vidas, porque 2 cenas após a morte, gente íntima já está dando depoimento numa boa e ao fim do episódio até ri, como Murder She Wrote;
c)        as medianas, onde o clima não é tão desesperador quanto em Shetland, nem tão despreocupado com o luto, como em The Doctor Blake Mysteries. A escocesa Rebus é bom exemplo dessa categoria.
Lembrando que essa classificação é de alguém que jamais leu a respeito, portanto, é mais pra divertir, ocorreu-me outra: despirocada. Enquanto via a deliciosa Whitechapel pensei em adicionar a categoria e isso consolidou-se com Sherlock.
Os 13 episódios da série da BBC trazem o clássico detetive de Arthur Conan Doyle pros dias atuais, em clima totalmente camp, que não destoa do constante questionamento sobre a sexualidade de Holmes e se ele e o Dr. Watson são caso. Camp é uma gíria para comportamento, atitude ou interpretação exagerada, artificial ou teatral; ou ainda um adjetivo que significa algo de mau gosto, muito artificial, exagerado, "cafona" ou "brega". Atrelado à subculturas gays desde os anos 1960, o termo camp aqui não pretende homossexualizar o detetive cocaínado; ele é assexual, vive pro trabalho. Entretanto, a ferveção dos roteiros de Mark Gattis, Steven Moffat e Stephen Thompson é tanta que chega a enjoar um bocadinho, porque deixei pra ver 3 temporadas meio em seguida. É divertido, mas episódios de 90 minutos, vistos cronologicamente muito vizinhos, provaram ser meio overdose. Passado um tempo, quando vieram os 3 da mais recente temporada quatro, deu pra curtir de boa novamente. Sherlock é do bem, compensa ver.
As 2 temporadas iniciais são muito bem produzidas e criativas de jorrar. O uso da tela pra mostrar o mirabolante processo dedutivo de Holmes é sensacional, ainda que penalize quem não enxergue bem! Pensando numa geração acostumada à movimentação das telas de telefones espertos e videojogos, Sherlock faz uso farto de velocidade, simulações, flashbacks, câmeras piruetantes. Os diálogos são impagáveis e as conexões muito inteligentes. Na terceira temporada, as coisas já não foram tão bem, com aquela enrolação dos diabos do episódio da “ressurreição” de Holmes e o do casamento do Dr. Watson. A amarração resultou ser muito inteligente, mas a linguiçada foi maior que nos demais. Seriam melhores, se mais curtos. A quarta temporada veio pra reelevar o interesse, com sua revelação bombástica, todos os truques conhecidos das demais temporadas e aquele episódio final com desafios pra resolver, bem divertido mesmo.
No geral, tudo é muito competente e é ótimo ver a velha e boa BBC contemporaneizando sua linguagem, embora nós mais velhuscos esperemos que continue espaço pra produções mais lentas.

Como em TVland boas ideias, pagamento de direitos autorais desnecessário, elogios da crítica e, especialmente, boa audiência, são atrativos irresistíveis pra novas releituras, a norte-americana CBS lançou sua própria modernização da personagem de Sir Arthur Conan Doyle. Elementary estreou em 2012 e está em sua quinta temporada. Por ora, apenas 4 estão na Netflix e foram as que vi. Gostei demais da conta; mais do que da culturete da BBC.
Elementary tem pegada de procedural drama, ou seja, é mais como vemos em CSIs (vemos é modo de dizer, porque nunca assisti) ou em tantas séries resenhadas no blog. Embora haja alguns episódios interligados e Moriarty apareça de quando em vez, assim, como Mycroft e o pai de Sherlock, Elementary consiste de sólidos 40 minutos, onde o detetive inglês e Watson descobrem mirabolâncias, mandando a plausibilidade às favas. Mas, quem se importa com elas, quando se quer diversão e algo pra falar no trabalho, segunda de manhã (até onde sei, o show passava no domingo às 22h, nos EUA)?
É a velha estrutura que existe desde a cinquenstista Dragnet: crime acontece, somos apresentados a interrogatórios e suspeitos, “enganados” com culpado por engano, e, finalmente a resolução. No caso de Elementary, como o protagonista é o dedutivo ao extremo Sherlock Holmes, os roteiristas podem viajar bem mais profundamente na maionese. Na maior parte das vezes é tudo bem feito, exceto por um episódio que me atingiu quase como insulto à personagem. Há uma gravação em que a vítima fala algo como “no, no”, tocada repetidamente. Na cena seguinte, aprendemos que o nome verdadeiro de seu irmão é Noland. Ah me faz um favor, né? E Sherlock leva horas/dias pra sacar isso? Inverossímil pruma personagem capaz de lembrar/perceber detalhes minúsculos (é pleonasmo, sim, mas quer melhor pra expressar esse tipo de detalhe??)
Barbeiragem desse porte só mesmo num episódio. Claro que Elementary não é tão cheio de referências intertextuais e explosões de criatividade hipster, como Sherlock, mas justiça seja feita: a turma da BBC escreve 3 roteiros por ano; a da CBS tem que botar uns 24 na linha de montagem. Mas, sabem o quê? Elementary resultou-me muito menos enjoativa: assisti as 4 temporadas de maratona praticamente e não deu overdose, porque tem menos pirotecnia gritante, talvez.
Sem contar que as atualizações são pra lá de significantes. Dr. Watson transformou-se numa mulher sino-americana (Lucy Liu que faz umas caras qualquer nota, amo!), que primeiro entra na vida de Sherlock como espécie de guardiã de sua sobriedade, pra que ele não recaia na narcoadição. Um dos aspectos mais gratificantes de Elementary é o modo como retrata humanitariamente os dependentes químicos e suas eternas reuniões de apoio, riscos de recaída, tudo isso apoiados numa personagem 100% positiva: quem discutiria que o genial detetive Sherlock Holmes não mereceria uma segunda, terceira, quarta chance na sociedade, apesar de seu vício em químicos?