sábado, 10 de dezembro de 2016

ALBINO GOURMET 216

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

PLATINADO


Bebê brasileiro "platinado" faz sucesso em ensaio fotográfico.

O bebê brasileiro Ryan, mais conhecido como "platinado", participou de um ensaio fotográfico para lá de fofo! Ao nascer com características bem diferentes, o bebê surpreendeu os pais e familiares.
Por conta de uma condição rara de albinismo, a criança veio ao mundo com pele e cabelos bem claros. Para mostrar os primeiros meses de vida de Ryan, o fotógrafo Roni Sanches fez cliques imperdíveis do pequeno, que aparece nas fotos vestido de pintor e anjinho.
O ensaio fotográfico aconteceu no estúdio de Roni, em São Paulo. Os cenários foram criados pela artista plástica Adriana Sanches, compondo fotos únicas e cheias de emoção.
A história
Há 10 meses, a história de Ryan foi contada com exclusividade pelo 'Domingo Show', da Record TV.  Os pais do pequeno ficaram surpresos quando ele nasceu, pois tinha características bem diferentes. 
Um médico avaliou a criança e concluiu que o pequeno tem um tipo raro de albinismo,  que é quando o organismo produz pouca melanina — uma proteína capaz de pigmentar, dar cor à pele. 
Na época, o bebê ganhou um quarto novinho no Domingo Show com um armário cheio de fraldas!




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

TELONA QUENTE 179

Resultado de imagem para rua cloverfield 10
Roberto Rillo Bíscaro

Demorei meses pra me animar a ver Rua Cloverfield, 10. Mesmo ciente de que não era sequência do excelente Cloverfield (2008), mas “sucessor espiritual” (WTF?), segundo a produtora Bad Robot, temia a inevitável comparação com o primeiro. Excesso de zelo, porque esse thriller-sci fi-survival-(e mais um subgênero que se contar estrago a surpresa pra quem não viu)-film é bem eficiente em seu 2 primeiros terços e no último até perde um pouco da graça, mas conecta a película ao universo de Cloverfield e abre espaço e imaginação pra continuação atrás de continuação.
Michelle briga com o namorado e, como de costume, perante adversidade, a jovem foge. Na estrada, sofre grave acidente e ao acordar descobre estar encerrada num porão. Seu captor é Howard, ex-mariner, com muitos parafusos a menos. Ele lhe explica que o mundo fora invadido por russos ou marcianos e tudo estava contaminado. Como não sabemos se é verdade, a identidade de Howard permanece dúbia, porque embora maluco, prepotente e intempestivo, ele pode ter realmente salvo a vida de Michelle. Um jovem coabitante corrobora a história, mas o modo como ele trata os companheiros como prisioneiros e imagens exteriores de céu azul problematizam sua versão.
A dinâmica entre as 3 personagens no bunker é o melhor de Rua Cloverfield, 10, que em alguns momentos remete a paródia de sitcom de família feliz, porque o cenário lembra bastante esse bem-humorado subgênero ianque e há sequência em que os 3 parecem estar se divertindo às pampas ao som de I Think We’re Alone Now – minina, tô passado, o original não é da oitentista Tyffany!
Mas, a tensão é perene, porque Howard é instável demais e claramente guarda um segredo, além de um barril de poderoso ácido. A situação faz com que Michelle cresça como personagem, à moda da arquetípica Ripley, de Alien, O Oitavo Passageiro (1979). O moço só serve mesmo pra temperar a tensão entre Howard e Michelle, habilmente interpretados por John Goodman e Mary Elizabeth Winstead. Nossa, que estranho ver o Fred Flintstone de pirado!
Há uma ou outra barbeiragem, tipo o ácido derreter metal, mas quando tiozão cai de cara só aparecer machucado periférico, mas de modo geral, tudo é bem feito até a resolução (ma non tropo), que, não estraga o filme, mas leva-o prum caminho que particularmente não me interessa tanto, numa linha mais pra sci fi de luta, que de científico tem pouco; é desculpa pra porrada mesmo.
Não possui o vigor criativo do primeiro filme e nem sei se vai me interessar, caso siga na linha apontada pelo final, mas Rua Cloverfield, 10 ainda dá bom caldo nessa nascente possível mitologia. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CONTANDO A VIDA 175

INVEJA BRANCA: SOBRE SONO E SONHOS...

José Carlos Sebe Bom Meihy


Ouvi outro dia uma expressão intrigante “inveja branca”. Primeiro achei interessante dar cor a inveja. Meu espírito crítico, porém logo se aguçou e vislumbrei questões ligadas aos preconceitos, e assim, para meu botões perguntei, mas o que seria “inveja branca” e por que não “inveja negra”? Foi automático despertar temas ligados às discriminações. Tive que indagar o significado desse dizer, e então o interlocutor declinou justificativas não menos racistas, aproximando branco de coisa boa e negro de má. Com medida paciência, dizia o colega que “inveja branca” era um sentimento aceitável, manso e até elogioso, pois dizia respeito a vontade de estar no lugar da pessoa que passaria por um processo positivo, disposto, por exemplo, a receber um premio, uma viagem, estar em companhia desejável, ou coisa parecida.


Passado o encontro, dei asas para meditações sobre alguns temas capazes de provocar em mim a tal “inveja branca”. Foi imediata a instalação de um dilema filosófico. Confesso que mergulhei em mim para logo emergir triunfante, porque afinal, não vi muitos motivos para ter despertada a tal “inveja branca”. Tenho a família que gostaria de ter, filhos, noras e netos ideais; profissionalmente atravessei a vida trabalhando – e ainda o faço – no melhor que poderia conseguir. Ser professor me completa, e tenho orgulho em dizer que uma das virtudes dessa opção foi viver sempre entre jovens. Como nunca passei frio ou fome, porque sempre vivi em lugares que me situavam bem, não invejaria outras pessoas por “brancas” que fossem suas virtudes. Viajei muito, tive oportunidade de visitar diferentes quadrantes e ainda que restem espaços a ser visitados, e isso é coisa positiva. Amigos não os tenho aos milhares, mas o número é exato, coerente com minha capacidade de amar.


Sabe, aos poucos ia ficando frustrado, surpreso por não encontrar elementos convincentes para boa tradução da tal “inveja branca”. Tanto fiz, tanto cavei, que por fim identifiquei algo que me faz menor, desejoso de ter algo que outros têm. Demorou, mas finalmente achei algo que pudesse me sentir “brancamente” invejoso: “dormir”. Tenho sono débil, frágil e quebradiço. Na melhor das hipóteses durmo cinco horas por dia. Fico até meio acanhado por dizer que às vezes preciso tomar um remedinho – coisa leve – para dar passagem ao sono. Dia desses, também ouvi dizer que pessoas que têm sono leve sonham muito. Foi o bastante para ter explicação convincente para a profusão de manifestações oníricas. Devo dizer ainda que esta devoção aos sonhos é algo que cultivo eufórico. De toda forma, o reverso desse processo noturno deixa um saldo complicado: sinto-me sempre muito cansado, exausto mesmo.


Engraçado: a mera identificação desse “problema” me levou a ramificar questões. Diria que a mais séria delas dizia respeito aos porquês. As respostas se multiplicaram rápidas. Uma delas remetia à velha prática, desde o tempo de estudante quando tinha que dar conta de vasto programa de leituras e trabalhos. Como fazia dois cursos ao mesmo tempo, não teria outra saída. Depois o acúmulo de trabalho ditou a mesma prática. E vieram os filhos, e nesse quesito, como ficava muito tempo fora, cuidar dos rebentos durante a madrugada (sempre fui eu quem trocava fraldas dos filhos, à noite) me era um jeito de participar. Depois vieram os longos e trabalhosos anos de pós-graduação. Acabada essa fase, abria-se outra: escrever os textos que garantiriam o estatuto. Tal balanço me levava de volta à questão da “inveja branca”. Por fim resolvi a questão: tenho sim “inveja branca”... “inveja branca” de mim mesmo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

TELINHA QUENTE 241

Resultado de imagem para victoria tv series
Buckingham Abbey

Roberto Rillo Bíscaro

O segundo semestre de 2016 tem sido das rainhas inglesas. A contemporânea Elizabeth II teve sua The Crown espalhafatosamente adicionada ao catálogo da Netflix, no início de novembro. Com menos alarde internacional, a ITV exibiu os 8 episódios iniciais de Victoria, entre agosto e outubro. Com especial de Natal gravado e promessa de segunda temporada, a primeira foi da ascensão ao trono ao primeiro parto. Vitorianos podiam ser recatados e fixados em morte, mas sua rainha pariu nove vidas. Príncipe Albert não negava fogo.
O longo reinado de Vitória é um dos mais simbolicamente importantes na história da Grã-Bretanha. O império atingiu seu apogeu e começou a decair durante seus mais de 60 anos no trono. Foi ela quem começou a “milenar” tradição dos casamentos reais como espetáculos públicos; quem instituiu Buckingham como moradia Real; quem popularizou o branco como cor preferencial para noivas e todo um longo esquema de cores para luto, após a morte prematura de seu amado Albert; quem transformou a Família Real de uma máquina extravagante de gastos em clã com deveres cívicos; quem popularizou paparicar animais de estimação e passar férias na Escócia. Ainda hoje vitoriano é adjetivo de conservador, moralmente severo, até mesmo hipócrita.
Não faltariam incidentes para a ITV fazer seu novelão aristocrático, mas decidiu deixar de fora o tifo de Sua Majestade, a invasão de Buckingham por dois desconhecidos, o fato de que Victoria teve que dividir um quarto com sua mãe mesmo vivendo em casas gigantescas. Imagine quanta pena eriçada isso não geraria. E sem problema inventar, supor que aconteceu, porque Victoria não está muito preocupada com a “verdade”.
Para não relembrar que a Casa de Windsor se originou no que hoje é a Alemanha, a Rainha não tem sotaque teutônico, apenas seu consorte. Na vida real, Edward Oxford não atirou contra Sua Majestade numa das vezes em que desafiadoramente saía para ver seus súditos, mas apenas ia visitar a mãe, que não vivia em Buckingham (mas claro que para uma série fica mais fácil que seja assim).
O roteiro de Daisy Goodwin e Guy Andrews não deixa de lado o estrondoso sucesso da ITV, Downton Abbey. O cozinheiro apaixona-se pela aia Marianne Skerret, proveniente de casa de má reputação. A verdadeira Sra. Skerret era de linhagem nobre impecável. Para que apelar assim, quando já há tanto material?
Nada disso estraga a série, apenas recomenda-se que se assista sem a costumeira crença de que se apareceu na tela foi desse o jeito que aconteceu. Não faria mal à Victoria deixar de ser apenas soap opera de época e explicar alguns usos e costumes que não são “por acaso”. Quando o cãozinho Dash ganha retrato só dele, a ideia não era apenas eternizar o animal, mas criar a imagem de uma monarca mais próxima dos comuns; foi a Rainha Vitória que iniciou essa tendência. Aliás, a série nem se deu ao trabalho de mencionar a famosa pintura.
Se você não tiver paciência para 8 capítulos ou quiser guardar um resumo desta temporada para assistir antes de que a segunda comece, basta pegar o filme A Jovem Rainha Vitória (2009). Em cerca de 1 hora e quarenta, terá tudo e um pouquinho mais do que acontece em Victoria, sem sua downtonabbeyice. E com roteiro de Julian Fellowes, o homem por trás de...Downton Abbey.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 247

Resultado de imagem para kate bush before the dawn
Roberto Rillo Bíscaro

Kate Bush fez apenas uma turnê em sua carreira iniciada oficialmente, em 1978, com o álbum de estreia. A Tour Of Life - de 2 de abril a 13 de maio, de 1979 - foi sucesso de público e crítica com sua mistura de música, magia, dança e leituras. Ninguém utilizara a tecnologia wireless no palco, permitindo que cantasse enquanto dançava. Exaustão e a morte de um técnico são possíveis razões para que desde então a mulher mais importante da história da música britânica apresente-se ao vivo apenas esporadicamente, quase sempre para promover seus álbuns, cada vez mais raros a partir de 1989.
Longe dos palcos, Bush trancou-se em estúdios e produziu grandes e complexos álbuns. Conforme os discos rareavam, suas aparições públicas também. Seu feroz sentido de privacidade aliado à densidade de sua obra originaram toda sorte de rumores em tempos onde celebridades se mostram cada vez mais e esforçam-se para parecerem “comuns”. Kate Bush enlouqueceu; Kate Bush está morbidamente obesa; Kate Bush bebe.
A mística e o respeito são tão vastos, que quando Bush anunciou série de 22 espetáculos no Hammersmith Apollo Theatre, em Londres, em 2014, os ingressos esgotaram-se em minutos. No dia da abertura, 26 de agosto, fãs ansiosos na porta do teatro, não poucos vindos do exterior. Celebridades 80’s como Marc Almond e Holly Johnson; famosos mais abrangentes, como David Gilmour e Peter Gabriel e outros foram constantes durante a temporada de concertos. A imprensa saudou Before The Dawn (nome do show) como a Segunda Vinda; o crítico musical da BBC ainda não conseguia conter o entusiasmo na manhã seguinte, no programa Breakfast.
Prometeu-se CD/DVD de experiência, mas até agora só recebemos o primeiro formato. Before The Dawn foi lançado em CD triplo dia 25 de novembro e não é aconselhável para quem busca um Greatest Hits Live. Não há nenhum trabalho dos quatro álbuns iniciais, o que significa que Wuthering Heights e Babooshka estão ausentes e mesmo dos álbuns que tiveram canções executadas, nem sempre as mais conhecidas estão na setlist.
Tecnicamente, Before The Dawn é irrepreensível. Felizmente a tecnologia permite que sons de estúdio sejam fielmente transpostos para o palco e para uma artista como Bush isso faz toda a diferença. Ressaltando o trabalho em equipe, o álbum vem creditado para The K Fellowship, mas alguém deixará de dizer “o novo álbum de Kate Bush”? A Confraria K tem músicos do calibre de David Rhodes (guitarra) e Omar Hakim (bateria), mas quem manda é The Venerable Kate Bush, como dizem alguns setores da imprensa de sua terra natal. Ela controla sua carreira desde o início dos 80’s e Rhodes afirmou que no primeiro contato telefônico Bush já sabia o que queria. Isso não significa que não preze sugestões, mas a palavra final é dela.
Talvez por nunca ter feito turnês, sua voz continua perfeita; um tiquinho mais grave, mas é de esperar de uma mulher de 54 anos à época. Quem sabe não tenha sido excelente ideia deixar para trás a estridente Wuthering Heights? Assim, a manteremos eternamente na memória com aquela voz de menina, para a qual foi composta.
Consoante com a teatralidade do espetáculo – codirigido por Adrian Noble, dirigente da Royal Shakespeare Company por mais de uma década (Kate pode!) – os CDs são nomeados como atos. O 1 traz canções mais “soltas” que não fazem parte de narrativa maior. Bush esnobou grandes sucessos, mas não foi boba quanto à ordem. Abrindo com a trinca Lily, Hounds Of Love e Joanni (um tantinho mais rápida que no álbum de 2005), a cantora ganha a plateia, que, verdade seja dita, provavelmente aplaudiria histérica se Bush lesse uma receita de bolo. Artista e público estão extáticos, dá gosto ouvir. Running Up That Hill (A Deal With God) é tão idiossincrática, daquelas canções reconhecíveis no primeiro acorde, que seria estupidez tentar mudá-la. Kate sabe que fãs a querem o mais próximo possível da experiência que nos arrepia desde 1985 e é assim que está em Before The Dawn. A plateia urra microssegundos após o músico botar o dedo no teclado, PC ou seja o que usaram no palco. Extraordinário. A surpresa foi a introdução de Never Be Mine, ausente de qualquer noite de apresentação no Apollo. Significa que há material ensaiado e não usado e que pode ser lançado ou vazado.
O Ato II é a suíte The Ninth Wave, lado B de Hounds Of Love (1985). Constituída por curtas faixas interconectadas, é odisseia sônica em variados ritmos (tem até trecho com “sambinha japonês”), cheia de efeitos de estúdio. A misteriosa letra sobre a noite de uma náufraga, com alucinações e visões do passado e do futuro gerou inúmeras interpretações significativas, que vão até para o lado da reencarnação, o que não deixa de fazer sentido. The Ninth Wave agrada amantes de rock progressivo e é atestado do controle que Bush sempre teve sobre sua direção artística. Não era para qualquer um ocupar lado inteiro de um LP com complexo trabalho conceitual, arriscando não vender muito. The Hounds Of Love chegou ao topo das paradas inglesas.
A responsabilidade para levar isso ao palco era enorme, mas nada se perdeu dos detalhes e filigranas dos arranjos. Na verdade, a adição da faixa Little Light realça a agonia da mulher apavorada em alto-mar; dá um dó! Se há alguma “reclamação” é a presença da faixa dialogada Watching Them Without Her, que funcionou bem quando se estava presente ao espetáculo teatral, mas quebra o fluxo emocional para o público da plataforma apenas sonora. Nada que não se conserte duplicando os arquivos e montando uma pasta só com as canções e outra com o álbum completo (deletar Kate Bush, jamais!). Relatos dão conta de que quando Kate desferiu o doce “Little light shining/Little light will guide them to me/My face is all lit up” ao som de piano, na abertura de And Dream Of Sheep, lágrimas escorreram de muita gente. Ouvir o ACT II explica perfeitamente o porquê e ao final ouvimos uma plateia que não cabia em si de encantamento.
O Ato III traz a suíte A Sky Of Honey, do álbum Aerial (2005). Os madrigais de cordas e teclados, a profusão de pássaros e sinos, o estouro do flamenco – nessa sinestésica história de um dia ao livre – é tudo tão bem executado, tão lindo, que mesmo quem não pôde ver o show intercala momentos de puro abandono na fluidez melódica, de pasmo por tanta expertise, de frenesi quando os violões espanhóis irrompem e a plateia explode em palmas. Irretocável e de encher os ouvidos como na versão de estúdio. De quebra, a inédita em estúdio Tawny Moon, cantada pelo filho Bertie: a canção é linda, a voz do menino de 16 anos ainda precisa maturar. Ela poderia ter chamado Natasha, filha da Tori Amos. Encerrando, Cloudbursting, apoteose bombástica para uma plateia em transe que ovaciona espetáculo memorável, que sonoramente foi perfeitamente traduzido em Before The Dawn. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

CAVAQUINHO DA SUPERAÇÃO

Dudu do Cavaco é um jovem belo-horizontino, que tem Síndrome de Down e é o fera no instrumento. Ele faz shows e palestras por todo o país e é o primeiro músico Down a gravar um CD na América latina. Conheça sua história e ouça sua expertise.

sábado, 3 de dezembro de 2016

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

VERMELHO X VERDE

O que aconteceria se o mundo inteiro virasse vegetariano?




VegetarianismoImage copyrightISTOCK
Image captionProdução de alimentos responde por até 30% das emissões de carbono no mundo

Há uma série de motivos pelos quais as pessoas se tornam vegetarianas. Algumas se dizem contrárias ao sofrimento dos animais, enquanto outras tentam manter um estilo de vida mais saudável, por exemplo.
Por mais que seus amigos "carnívoros" neguem, vegetarianos têm razão: reduzir a ingestão de carne traz muitos benefícios à saúde e ao planeta. E quanto mais novos adeptos, mais essas vantagens são reproduzidas em escala global.
Mas se todos nós resolvêssemos nos tornar vegetarianos inveterados, as consequências poderiam ser dramáticas para milhões - ou até bilhões - de pessoas.
"Trata-se de um conto de dois mundos", define Andrew Jarvis, do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), com sede na Colômbia. "Em países desenvolvidos, o vegetarianismo traria vários tipos de vantagens para a saúde pública e para o meio ambiente. Mas nas nações em desenvolvimento, poderia haver ainda mais pobreza."

Bife x carros




Legumes e verduras à vendaImage copyrightISTOCK
Image captionSe o vegetarianismo fosse adotado globalmente até 2050, teríamos 7 milhões a menos de mortes por ano

Jarvis e seus colegas analisaram a hipótese de todos os habitantes da Terra mudarem suas dietas da noite para o dia.
Primeiro, eles observaram o impacto nas mudanças climáticas. A produção de alimentos responde por algo entre 25% e 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa geradas pelo homem em todo o mundo. E o grosso disso vem da pecuária.
Apesar disso, o impacto de nossa alimentação sobre o clima é frequentemente subestimado. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma família de quatro pessoas emite mais gases de efeito estufa por comer carne do que por dirigir dois carros. Mas, em geral, são os veículos motorizados - e não bifes - que aparecem como vilões nas discussões sobre o aquecimento global.
"Muitas pessoas não pensam nas consequências que a produção de alimentos tem sobre o clima", diz Tim Benton, especialista em segurança alimentar da Universidade de Leeds, no Reino Unido. "Mas se consumirmos um pouco menos de carne hoje em dia, deixaremos um mundo um pouco melhor para nossos filhos e netos."
Marco Springmann, pesquisador no programa Future of Food, da Universidade de Oxford, tentou quantificar esse argumento, construindo modelos computadorizados que simularam o que aconteceria se todos os seres humanos se tornassem vegetarianos até 2050.
Os resultados indicam que, graças à eliminação da carne vermelha da dieta, as emissões ligadas à produção de alimentos cairiam 60%. E se o mundo todo passasse a ser vegano - sem consumir nenhum produto de origem animal - a queda seria de 70%.
"Esse cenário não é muito realista", admite Springmann. "Mas destaca a importância que as emissões relacionadas à produção de alimentos terão no futuro."

Mais florestas e biodiversidade




Loja de embutidos na EspanhaImage copyrightISTOCK
Image captionEliminação completa da carne traria um enorme impacto na identidade de alguns povos, como os espanhóis

A indústria alimentícia, especialmente a pecuária, também toma muito espaço, o que provoca emissões com a transformação do uso da terra e com a perda da biodiversidade. Dos quase 5 bilhões hectares de terra usados atualmente no mundo para a produção de alimentos, 68% são usados para a pecuária.
Se todos nós virássemos vegetarianos, em um mundo ideal, nós dedicaríamos 80% desses pastos ao reflorestamento, o que aumentaria a absorção de carbono e aliviaria as mudanças climáticas.
Transformar antigas pastagens em habitats nativos também seria uma bênção para a biodiversidade, inclusive para grandes herbívoros como os búfalos, que perderam seu espaço para o gado bovino, e para predadores como os lobos, frequentemente mortos por atacarem ovinos, suínos e aves.
Os 10% a 20% de pastos restantes poderiam ser usados para o cultivo de mais alimentos com a finalidade compensar as falhas no abastecimento de comida. Apesar de um aumento relativamente pequeno na área cultivada, isso compensaria a perda da carne, já que um terço das terras hoje é usada para produzir alimentos para o gado - não para humanos.
No entanto, o reflorestamento ou a conversão das terras para o plantio precisariam de planejamento e investimento, já que as pastagens tendem a ser altamente degradadas. "Você não pode simplesmente tirar o gado de uma fazenda e esperar que o lugar se torne uma floresta primária sozinho", diz Jarvis.

Impacto econômico




ChurrascoImage copyrightISTOCK
Image captionFamília americana de quatro pessoas emite mais gases de efeito estufa ao consumir carne do que ao dirigir dois carros

As pessoas envolvidas na indústria da carne também precisariam de ajuda para mudar de carreira, arrumando novas posições na agricultura, no reflorestamento ou produzindo bioenergia a partir de derivados dos produtos atualmente usados como ração de gado.
Alguns fazendeiros também poderiam receber pagamento para continuar cultivando parte de seu gado com o objetivo de manter a biodiversidade.
Se não conseguíssemos criar alternativas profissionais e subsídios para essas pessoas, seria possível imaginar uma alta taxa de desemprego e uma grande inquietação social, especialmente nas comunidades rurais ligadas ao setor pecuário.
"Há mais de 3,5 bilhões de ruminantes domésticos em todo o planeta, além de dezenas de bilhões de aves produzidas e mortas a cada ano para servirem de alimento", explica Ben Phalan, que pesquisa o equilíbrio entre demanda alimentar e biodiversidade na Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha. "Estamos falando de um enorme transtorno para a economia."

Tradições carnívoras

Mas até mesmo os planos mais bem executados provavelmente não seriam capazes de oferecer um modo de vida alternativo para todas as pessoas que atualmente trabalham na pecuária. Cerca de um terço das terras do mundo são áridas ou semiáridas e só comportam a criação de animais.
"Sem gado, a vida em algumas regiões seria impossível", diz Phalan. Isso inclui particularmente povos nômades que, sem seus animais, seriam obrigados a se assentarem em algum povoado ou cidade, perdendo sua identidade cultural.
Até mesmo pessoas cujas vidas não dependem apenas da pecuária poderiam sofrer, já que pratos à base de carne fazem parte da história, da tradição e da cultura de vários povos. "O impacto cultural de abrir mão da carne seria enorme, e é um dos motivos pelo qual os esforços para reduzir o consumo acabam fracassando", explica o cientista.

Menos mortes e doenças crônicas




Agricultora trabalhando em canavialImage copyrightISTOCK
Image captionEstudos apontam que populações rurais em países em desenvolvimento poderiam enfrentar mais pobreza com "vegetarianismo universal"

Os efeitos na saúde também seriam variados. O modelo de Springmann mostra que se todos nós adotássemos uma dieta vegetariana até 2050, veríamos uma redução na mortalidade global de 6% a 10%, graças a uma menor incidência de doenças cardíacas, diabetes, derrames e alguns tipos de câncer.
Isso não seria apenas o resultado de eliminar a carne vermelha, mas também por causa da redução de calorias e do aumento da ingestão de frutas e legumes.
E com menos pessoas sofrendo de doenças crônicas relacionadas à dieta, isso também traria um corte nos gastos da saúde pública, economizando de 2% a 3% do PIB global.
Mas para que isso aconteça seria necessário encontrar substitutos apropriados do ponto de vista nutricional, especialmente para os mais de 2 bilhões de subnutridos que existem em todo o mundo. Alimentos de origem animal possuem mais nutrientes por caloria do que certos grãos. "O vegetarianismo em escala global poderia criar uma crise de saúde no mundo em desenvolvimento porque de onde traríamos esses micronutrientes?", pergunta Benton.

Com moderação

Felizmente, o mundo inteiro não precisa adotar o vegetarianismo ou veganismo para que possamos ter os benefícios sem os prejuízos.
Em vez disso, é fundamental uma moderação na frequência com que se come carne e no tamanho das porções.
Um estudo comprovou que se a Grã-Bretanha adotasse as recomendações alimentares da Organização Mundial de Saúde (OMS), suas emissões de gases de efeito estufa cairiam 17% - algo que poderia cair ainda outros 40% se os habitantes evitassem produtos de origem animal e alimentos processados.
"São pequenas mudanças que os consumidores nem perceberiam. Não seria algo como ser vegetariano versus ser carnívoro", explica Jarvis.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

TELONA QUENTE 178

Resultado de imagem para fear inc
Roberto Rillo Bíscaro

Houve quem torcesse o nariz pra armação ilimitada que é o roteiro de April Fool’s Day (1986), alegando que o público fora enganado. Lembro-me de ter visto numa tardia sessão da Globo e não me senti ludibriado. Devo ter até achado genialmente criativo nos meus tenros 20, 21 anos. Não revelarei a plot twist, quem quiser que veja A Noite das Brincadeiras Mortais, exemplar temporão do pós-modernismo que se tornaria regra depois da revolução de Pânico.

A desconstrução ou reconhecimento irônico das convenções dos diversos subgêneros do horror engessou-se e já é convenção de tão usada. São tantos simpáticos e sabichões Noahs que o efeito, além de torná-los tão clichês quanto o aparente maluco que prenuncia a carnificina subsequente, é de realçar a estupidez do grupo. Afinal, serem exterminados a despeito de contarem com experto nas regras é jeguice demais.
Este ano, o australiano Scare Campaign já apresentou certo ludismo no roteiro. Outro exemplo de April Fool’s Day pós-Scream é o norte-americano Fear Inc. (2016), que apresenta roteiro-matrioshka, saca aquelas bonecas russas que você desatarraxa uma e tem outra igual dentro e assim vai?
O roteiro de Luke Barnett parte de ideia iluminada: uma companhia, a Fear Inc. que proporciona experiência de terror customizado ao cliente. Quem acha absurdo, acesse aqui a matéria do Portal R7 sobre uma empresa norte-americana que oferecia simulações de sequestros. Há suspeitas, todavia, de que o terror da Fear Inc. não acabe assim que o pacote contratado se conclua. Parece que clientes tendem a desaparecer com frequência após os programas. Isso está implícito na sequência-homenagem a Scream da abertura, onde uma jovem foge apavorada num estacionamento. E vejam onde foi parar a menininha de Pequena Miss Sunshine; morrendo antes de começar filme C, oh dear.
Corta prum grupo de amigos que dentre eles um aficionado por filmes de horror, veste máscaras de Jason; usa camiseta com as listras verde-vermelho de Freddy Krueger. Ao saber sobre a empresa, ele quer a todo custo um pacote, mas a namorada e o casal parceiro tentam dissuadi-lo, até que o sangue começa a rolar. Ou não. Ou sim. Ou não. Ou. Pós-modernamente envolvendo reviravolta da reviravolta e referindo-se de Psicose a Jogos Mortais (até mais do que eu gostaria), Fear Inc. perde muito da graça em potencial pelo desenvolvimento grosseiro da boa ideia.
As personagens são tão estúpidas e os atores tão estridentemente ruins que nos sentimos enganados, quando descobrimos que não morreram! Ou sim. Ou não. Ou.
Diverte um pouco, mas, de boa? Se não viu ainda, prefira investir o tempo em April Fool’s Day: pelo menos é anos 80.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

PREOCUPANTE

5 marcas de protetor solar são reprovadas em teste de qualidade
A Associação Brasileira de Defesa de Consumidor (Proteste) realizou um teste de qualidade com dez marcas de protetores solar para rosto. Cinco delas apresentaram fator de proteção inferior ao indicado na embalagem e uma também apresentou menor proteção do que prevê a legislação contra raios UVA. São elas: Sundown, L’Oreal, ROC, Sunmax e La Roche Posay --este último possui FPS 42% menor do que o indicado.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite uma variação de até 17% em relação ao que é informado na embalagem e na formulação do produto, mas nas marcas citadas acima a diferença foi superior à permitida.
Eles avaliaram ainda a proteção UVA. Desde 2012, a legislação brasileira determina que a proteção UVA deve ser um terço do FPS nos filtros solares. Por exemplo, um protetor com FPS 60 precisa ter proteção UVA igual a 20, no mínimo. O protetor da L'Oreal foi considerado inferior por apresentar 26% do FPS rotulado ao invés dos 33% exigidos para UVA. 
Por outro lado, o protetor solar Nivea apresentou uma proteção UVA excelente. Como os raios UVA atingem as camadas mais profundas da pele, são os principais responsáveis pelo envelhecimento precoce, bronzeamento, além de contribuírem para o câncer de pele. 
Em contato com o UOL via comunicado oficial, a L’Oréal  posicionou-se contra os dados. "Refutamos, de forma absoluta, os resultados apresentados pela Proteste e desconhecemos os critérios utilizados na realização dos testes em protetores solares conduzidos por esta entidade. O Grupo e suas marcas La Roche-Posay e L’Oréal Paris não foram informados sobre o laboratório no qual foram feitos esses testes, tampouco as condições e os resultados detalhados dos mesmos. Todos os testes de nossos produtos solares --em particular os referentes a segurança e eficácia-- foram analisados e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), conforme regulamentação sanitária vigente."
De acordo com a marca, os testes realizados nos laboratórios Dermscan, IEC France e Poland Dermscan apresentam resultados diferentes dos apresentados pela Proteste. Anthelios XL Fluide FPS 70, de La Roche-Posay, possui FPS 85,4 e UVA 44,5. E Solar Expertise Invisilight FPS 50, de L´Oreal, oferece FPS 58,9 e UVA 23,2.

CONTANDO A VIDA 174

A CONSTRUÇÃO DO SACI BRASILEIRO.


José Carlos Sebe Bom Meihy

Tendo como fio condutor a meditação sobre o Saci, hoje tão recriado e propagado em diferentes suportes, me perguntava se seria possível explicar suas mutações, vistas dialeticamente, na relação mudanças X resistências. A proposta ia se firmando na medida em que partia de um pressuposto que reconhecia no passado um Saci amedrontador - ente das florestas temíveis e inconquistáveis, dono de assovio tétrico e ensurdecedor -, até a formulação de um simpático personagem - menino maroto, mulato gracioso, perfeitamente integrado no gosto nacional. Dizendo de outra forma, me inquiria sobre a coerência entre tais variações e o “jeito maleável” que, de regra, nos remete à interpretação da cultura brasileira como: incruenta, sem violência ou preconceito, esvaziada de agressividades e, sobretudo, destituída de percepções de luta de classes. Haveria relação entre as transformações do Saci e o “jeitinho brasileiro”?

Frente a esse questionamento, aprofundava a questão indagando sobre sua aproximação e o processo de mestiçagem, e, então queria saber de onde teria vindo a lenda do Saci? Das três alternativas mais usuais – indígena, africana ou europeia – tive que prezar todas. Pensei de saída que, ante a impossibilidade de precisão, era obrigatório apoiar-me, comodamente, no conceito de “metamorfose”. Pensando na gravidade da leitura crítica sobre tal posicionamento, restou apelar para o cenário antropofágico que caracteriza a moderna percepção da cultura brasileira como um todo. Sim, é inegável que a imprecisão da origem de figuras como o Saci leva à formulação de um modelo hegemônico que se materializa na conceituação do que é nacional. Nesse contexto, reina a estratégia das negociações, ou da incorporação e da reversão de tudo que vem “de fora” em nacional, brasileiro. Em certa medida, isto explicaria a preocupação de Lobato que foi pioneiro na busca de definição do sentido do Saci em nossa cultura. Mas, como nem só do “Inquérito sobre o Saci” se nutre a argumentação, me vi na contingência de complementos informativos.

A fim de dar contorno analítico para a construção do Saci como personagem nacional, parti do pressuposto de que hoje ele é figura palatável, aceito, principalmente fabricado para crianças, ainda que a oficialidade se valha dele como referência “exaltativa”, atestado de certa brasileiridade nacionalista e malandra. Fala-se, aliás, de uma dupla infantilização: do Saci adulto, negro raivoso, senhor das matas, tornado menino arteiro; e dele como personagem destinado ao entretenimento. As duas faces dessa moeda negociam um longo processo de apresamento e construção do personagem, estabelecido segundo a imagem e semelhança da cultura que atesta o perfil brasileiro negociador. Outro elemento considerável nesta análise é o fato desse personagem caminhar progressivamente como tema pedagógico, lúdico, e, nesse processo, validado como estratégia ideológica, se confirmaria o princípio da antropofagia, pois a imagem que hoje temos do Saci é de uma figura transformada. Sem dúvida, o padrão dado pela Rede Globo de Televisão nas várias versões do programa “Sítio do pica pau amarelo” mostra um garoto negrinho, de uma só perna, capuz e calça vermelhos, mas pouco assustador. O Saci de nossos dias, não é mais o maldoso ente que atormentava a todos, mas um cativante tipo que faz suas travessuras engraçadas. De maneira sorrateira, em favor do “politicamente correto”, foram aliviados o olhar ameaçador e retirado o “condenável” pito/cachimbo e ele não mais solta fumaça pelos olhos.

Talvez os mais convincentes argumentos demonstrativos do processo de “adocicação” do Saci e de seu endereço para uma cultura infantilizante sejam as leituras procedidas tanto por Maurício de Souza como por Ziraldo que o tornaram personagem de Quadrinhos. Por lógico, tudo ocorreu em consonância com as séries patrocinadas pela televisão nos episódios do “Sítio”. A importante sequência de histórias feitas para crianças, no Brasil, se inaugurou em 1952, na TV Tupi. O programa ficou no ar por 11 anos se constituindo enorme sucesso. Em 1964, na abertura da ditadura militar, o programa infantil que contextualizava o Saci, ganhou versão da TV Cultura de São Paulo e, em 1967, na TV Bandeirantes. Ainda que com intervalos, de 1977 a 1986, a Rede Globo de Televisão produziu o “Sítio”, com destaque para a presença do Saci. Estava então caracterizado o novo Saci, nascido para entreter, não mais para criar problemas. E a figura do negrinho domesticado estava fixada, feliz ou infelizmente.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

TELINHA QUENTE 240

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Roberto Rillo Bíscaro

Outro dia, liguei a Netflix, fui à categoria séries e vi o título Paranoid. Como aprecio horror, suspense, histórias de detetive, cliquei pra ler a sinopse e gostei. Botei o capítulo 1 e quase de imediato supus que era britânica. Não demorou a confirmação: bastou a primeira personagem abrir a boca. A essa altura já não mais segurava o controle-remoto e em menos de 10 minutos mergulhara no mistério de quem esfaqueara a mãe no parquinho cheio de crianças e outros pais. Mas, isso é a pontinha do iceberg. Paranoid é uma minissérie em 8 capítulos, exibida entre setembro e novembro pela ITV, em coprodução com a Alemanha e provavelmente com a Netflix, porque o serviço de streaming a chama de “original Netflix”.
Logo no capítulo inicial, a história já se ramifica pra Dusseldorf e pouco depois um grande thriller de conspiração é montado, envolvendo megacorporação farmacêutica, profissionais de saúde corruptos, mãe mitomaníaca e até uma Quaker (eles ainda existem!) numa trama envolvente, ainda que deliciosamente inverossímil. Embora sombrio, Paranoid não é construído do mesmo material niilista de conterrâneos como Happy Valley, Hinterland ou Broadchurch, basta comparar os finais. O diferencial da série é a construção do par central de detetives e o preço pago por se desviarem da convenção do policial atormentado, também presente em Paranoid.
O roteirista Bill Gallagher colocou uma trinca de policiais pra resolver o caso e não o costumeiro par. Nina Suresh e Alec Wayfield são a atraente dupla de tiras sarados a frente do mistério. Competentes profissionalmente, são bastante infantis e falíveis no privado. Ele é filhinho da mamãe; garotão ainda na mamadeira. Nina beira o bullying com os companheiros para minutos depois aparecer supercompreensiva com o pai duma vítima. Sua insegurança e comentários infantis, contrastados com sua destreza ao lidar com seu ofício, sem dúvida, tornam-na mais multidimensionalmente humana. Mas, será que é isso que queremos de um par de policiais que precisa consertar o mundo, restaurar a ordem pra que vivamos em paz? Na maior parte do tempo, Nina irrita e Alec não fede nem cheira.
O terceiro é o arquétipo do investigador desiludido, atormentado e doente. Bobby Day é o cinquentão calvo com ataques cada vez mais agudos de pânico. Ele também tem sua vida particular destroçada, mas é em quem, em última análise, podemos confiar, porque não é um adolescente com um distintivo; é o cara que segue ao pé da letra o beabá da cartilha dos policiais desde o cine noir. É o que, mesmo fragilizado, coloca um par de dedos nas têmporas e diz que não descansará até pegar o criminoso, enquanto suas mãos tremem segurando o frasco de antidepressivos. Bobby Day é aquele que sacrifica sua própria sanidade e saúde pra nos proteger. Dá impressão que Nina e Alec estão ali mais porque são mais comercialmente atraentes do que o maduro Bobby Day. Mas, Robert Glenister rouba todas as cenas e engole Indira Varma e Dino Fetscher, cujas personagens se dariam melhor numa comédia romântica. Note de quem é a última cena e como Bobby Day cresce ao longo dos capítulos pra perceber como a fuga da convenção do policial atormentado não deu certo. É ele quem segura a parte realmente policial de Paranoid.
Outro ponto discutível é a representação dos detetives alemães. Percebe-se a mesma tentativa de construí-los como “gente como a gente”, o que os faz parecer idiotas boa parte da história. Linda Felber é inacreditavelmente tola, quando conversando com seus colegas britânicos. E o que dizer de quando apresenta o parceiro a Bobby Day?: “este é o fulano; ele é gay”. Come the fuck on! Considerando-se que o show é predominantemente anglófilo, dá até sensação de paternalismo. Até parece que os eficientes germânicos são tão despachados e bobinhos assim. Mas, quando o passado dá um soco no estômago de Linda, daí ela engata na convenção e se torna policial eficaz. E quem alerta o espectador para que confie em Linda? Bobby Day, claro.
Esse abalo sísmico formal não destrói Paranoid. Pelo contrário. Porque a trama é bem urdida, ver o feroz embate entre diferentes convenções de personagens foi uma das experiências mais fascinantes deste semestre. Amei a série, amei o triunfo do enrugado Bobby Day sobre seus parceiros tão bonequinhos. Bem feito.