sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PAPIRO VIRTUAL 141

Roberto Rillo Bíscaro

Uma advogada revê uma investigação e julgamento de um crime antigo e coloca dúvidas na legalidade dos procedimentos. Livro da mesma autora do romance que originou a minissérie Areia Movediça, da Netflix.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

CONTANDO A VIDA 278


GOL DE BRUNA SURFISTINHA NO DIA DO FUTEBOL

José Carlos Sebe Bom Meihy

No dia 19 de julho celebra-se no Brasil o dia nacional do futebol. Nada mais justo numa cultura que, segundo Roberto DaMatta, sobremaneira, valoriza o uso das pernas, como se vê nos dribles, na capoeira, nas danças que vão do “samba no pé” à garota de Ipanema “no doce balanço, a caminho do mar”. E haja gingados. Até entende-se a aproximação do pronunciamento do presidente nessa data, em evento comemorativo do nosso esporte-rei, levando-se inclusive em conta ser ele capitão - ainda que de time que comanda outros jogos, menos esportivos, mais de combates armados. E por falar em guerra, consideremos então a batalha aberta na ocasião de mais um, outro, desastrado pronunciamento, dessa feita desferida contra a prolífera produção audiovisual brasileira.
Tendo como alvo a Agência Nacional do Cinema, a Ancine, o mandatário propôs dirigir, ele e sua equipe, a cena artística, impingindo novo papel à arte cinematográfica nacional, com crivo menos estético, mais cívico e pedagógico (no sentido da oficialização temática). O objetivo institucional disparado em pronunciamento impensado visaria redesenhar nossa crescente indústria cinematográfica e, para isto, submetê-la a uma “nova” secretaria, vinculada a um dos ministérios do governo, ainda não exatamente definido. Tudo para dotar o cinema de “filtros culturais”, e assim, sanear moralmente as mentes demoníacas, poluidoras da moral e dos bons costumes. De maneira consequente (se é que se pode usar o termo fora da lógica semântica), declarou o capitão-presidente estar protegendo a família e zelando pelos gastos públicos, sem levar em conta que nosso cinema não é financiado pelo estado, mas sim pela Condecine que gera os próprios rendimentos, além de multiplicar empregos. Não bastasse a generalização arrasadora, repetiu uma referência enunciada no dia anterior (18 de julho) em relação ao filme “Bruna Surfistinha” taxando-o de “pornográfico”.
Rebatendo a história levada à tela por Deborah Secco, sobre a direção premiada de Marcos Baldine, o presidente contrapôs argumentos exaltativos ao culto forçado de personagens notáveis, “históricos”, dignas figuras esquecidas. São do capitão- presidente as seguintes palavras “Temos tantos heróis no Brasil e a gente não fala dos heróis do Brasil, não toca no assunto. Temos que perpetuar, fazer valer, dar valor a essas pessoas que no passado deram sua vida, se empenharam para que o Brasil fosse independente lá atrás, fosse democrático e sonhasse com um futuro que pertence a todos nós”. Com aquele olhar eloquente que o caracteriza quando liberta o ódio reprimido e se exprime para seu eleitorado acrítico, pontificou que a sede Ancine deixará o Rio de Janeiro e terá Brasília como novo quartel-general; eis suas determinações “a cultura vem para Brasília e vai ter um filtro, sim. Já que é um órgão federal; se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Privatizaremos ou extinguiremos. Não pode é dinheiro público ser usado para fazer filme pornográfico”. Ameaças a parte, parece que o capitão se esquece de outros filtros, inclusive constitucionais. E nem se fala do direito de livre expressão. Isto sem mencionar dos já existentes marcos reguladores de idade, ou seja, das proibições por faixas etárias.  
Coroando seus argumentos irados, o mandatário declarou que não viu o filme e entre indignado e ignorante, desafiado a responder se havia visto o que criticava, cunhou a seguinte frase “eu não, pô. Vou perder tempo com Bruna Surfistinha? Tô com 64 anos de idade. Se bem que, tenho uma filha de oito anos, sem aditivos”. Em face de eloquente declaração, nem vale perguntar se o capitão leu os livros escritos pela ex-garota de programa, principalmente “O doce veneno do escorpião: diário de uma garota de programa” que, aliás, teve mais de 300 mil cópias vendidas e a fez figura como líder nas redes sociais brasileiras. Mas há motivos para a censura oficial? Falemos do caso específico do livro e do filme: a história de Bruna Surfistinha é necessária como indicação de um problema gravíssimo como a exploração sexual e/ou o direito ao uso do corpo – em particular em um país onde a prostituição é legalizada, como no nosso. Ademais, convém não esquecer que atualmente, só na Europa temos mais de 75 mil brasileiras e brasileiros se prostituindo. Mais do que nunca é preciso falar deste assunto, visitá-lo criticamente, sem falsos moralismos, sem hipocrisia, com sinceridade realista.
Por ocasião das declarações presidenciais, voltei ao pequeno livro (134 páginas), e reli as amarguras da moça, que precisou se expor para se redimir e até se desculpar. As frases finais do livro são comoventes e dão conta da amargura de alguém que pagou para se ver e retornar dona da própria história. O pedido de perdão para os pais, do anúncio de seu casamento, a mensagem ao filho que haveria de ter são frases que contrastam com a “leitura” de quem não leu o livro, não viu o filme, e mesmo assim não gostou. Tudo sem glamour, longe de panfletagem, como se vê em filmes hollywoodianos como “Uma bela mulher”, que sequer mereceu censura. E não há como terminar minhas ponderações sem referência a uma frase dita por um dos mais conservadores comentaristas nacionais, apoiador declarado do presidente capitão, Rodrigo Constantino que também indignado declarou “quem não gosta de certo filme, vale lembrar, tem sempre a opção de simplesmente ignorá-lo. Ainda é a melhor receita, aquela que preserva as liberdades individuais. Estado moralista impondo o que pode ou não ser produzido é algo inaceitável”. Inaceitável...



terça-feira, 13 de agosto de 2019

TELINHA QUENTE 372


Roberto Rillo Bíscaro

(em memória a David Hedison, o Capitão Krane, falecido dia 18 de julho)

Quando pequenino, na primeira metade da década de 1970, havia dois Nelsons que adorava: o Major Nelson, de Jeannie É Um Gênio e o Almirante Nelson, de Viagem Ao Fundo do Mar. Da primeira série, impossível ter medo, mas as aventuras do submarino Seaview, às vezes, assustavam o menino de seis, sete, oito anos, grudado na TV branco e preto, na então, mais garoenta São Paulo. Cheguei a pensar que a pessoa se transformava em esqueleto assim que morria, devido a um episódio apenas. Como é forte o poder dessas produções na psique infantil. Revendo os 110 episódios, notei que se tratou de cena que dura poucos segundos, em uma história, imagine!
Exibida pela ABC, entre 1964-68, Viagem ao Fundo do Mar (VAFDM) foi sugerida pelo produtor Irwin Allen para aproveitar os cenários e sucesso do filme de 1961. Exceto por um par de coadjuvantes, todo o elenco foi renovado e as mulheres eliminadas. Hoje, que há representatividade pra tudo quanto é grupo nas telinhas, deve ficar difícil imaginar uma série que ficou temporada inteira sem nenhuma mulher. Afrodescendentes nem comento, porque na época os papeis eram raros e subalternos mesmo, sem chance.
A força Aérea teve bem mais destaque nos anos 50, afinal, bombardeios, piruetas esfumaçadas e a possibilidade duma invasão alienígena são muito mais apetecíveis pra criar cenários fantásticos. No final da década, porém, os submarinos atômicos começaram a compartilhar espaço no imaginário popular.
Em 1958, o USS Nautiilus – primeiro submarino nuclear – cruzou o Polo Norte por baixo d´água. Com seu nome de ficção-científica verniana e em pleno contexto da histeria da Guerra Fria, o fundo do mar passou a ser fronteira quase tão enigmática, quanto o espaço sideral. Submarinos podiam, afinal, deslocar-se por todo o globo, carregando arsenal atômico difícil de ser detectado. O perigo estava em todo lugar e nenhum ao mesmo tempo, porque o cidadão comum podia perceber aeronaves, mas não aquelas maravilhas da engenharia naval.
Lento e pobre demais pra público criado na TV contemporânea, VAFDM é um espetáculo de comportamento passivo-agressivo entre os machos à bordo e passou por mudanças pra manter a audiência. O que começou como show em preto e branco com referências explícitas a uma nação inimiga chamada República Popular, ensaiou metamorfose James Bond na segunda temporada, antes de se firmar no formato “monstro da semana”, que séries como Quinta Dimensão tanto evitaram (e por isso são assistíveis até hoje).
Desse modo, é um tal de homem-isso, homem-aquilo, com aquelas roupas que dá pra ver o zíper direitinho, que os meninos e meninas de hoje, com razão, zombariam, isso se aguentassem assistir até que aparecessem. Não se trata de detonar minha memória de infância, mas de reconhecer que VAFDM ficou pra trás e é assim mesmo que tem de ser. Nem eu tinha muita paciência pra tanto trololó e pobreza de produção e, várias vezes, brinquei no celular, enquanto apenas ouvia. No episódio que tinha o Homem-Fogo, este era simplesmente uma chama com voz sobreposta! No começo até dá pra rir, mas cinco minutos depois...
Fumando desesperadamente dentro da claustrofobia dum submarino, VAFDM corre o risco de parecer tão alienígena às audiências atuais, como os seres que lá apareciam. Em plena Guerra-Fria, o Almirante Nelson e o Capitão Crane destruíram tantas ilhas e criaturas usando misseis nucleares, que o oceano pós-Seaview certamente serve de berço pra mais mutações do que as encontradas em 4 temporadas.
Não adianta chororô de velho dizendo que não se faz mais série boa; que a molecada não sabe mais o que é bom. Por mais reconfortante que seja o perene som do sonar para nossas recordações infantis, Viagem ao Fundo do Mar só funciona pra nós 50tões em diante.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

CAIXA DE MÚSICA 376

Pouco conhecida do grande público, P P Arnold é queridinha de grandes artistas do mundo do rock. A diva negra voltou com material inédito, após meio século sem gravar. O resultado você vê no vídeo abaixo e confere a lista parcial de roqueiros com os quais ela trabalhou. 

domingo, 11 de agosto de 2019

SUPERAÇÃO À FRANCESA

Alain é um apressado empresário perseguindo o tempo. Em sua vida, não há lugar para lazer ou família. Um dia, um acidente vascular cerebral o faz perder a linguagem e trocar uma palavra pela outra.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

TELONA QUENTE 299


Roberto Rillo Bíscaro

Originalidade é um dos traços pra que uma produção seja considerada “clássica”, termo tão criticado, quanto banalizado. Qualquer coisa velha já vai sendo chamada de clássico...
It Came From Outer Space, lançado em maio de 1953, pela Universal, é uma daquelas ficções-científicas obrigatórias da década, não apenas pela relativa boa produção, mas pela novidade na representação dos alienígenas.
Com seu orçamento de 800 mil dólares e envolvimento de RayBradbury no roteiro (daí sua qualidade superior), Veio do Espaço ainda é B, porque horror e sci fi eram subgêneros “menores”, basta ver o elenco. Apesar disso, o filme em preto e branco já utilizava tecnologia 3D!
As narrativas de despersonalização ou desumanização foram marcos do cine cinquentista. Forasteiros do espaço apropriavam-se de corpos e mentes terráqueas pra conquistar nosso planeta, muito como os frios e ateus soviéticos supostamente faziam com inocentes cidadãos pra convertê-los ao comunismo. Era a era “Red Under the Bed”, pilhéria rimada mais ou menos traduzível como “comuna embaixo da cama”. 
It Came From Outer Space (ICFOS) tem ETs tomando mentes também, mas seu intuito é bem mais mundano. E foi feito antes que essa invasão de corpos e cucas virasse modinha. Embora poder-se-ia problematizar o roteiro com um par de perguntas, ICFOS se destaca da fornada paranoica da época, por colocar como causa dos problemas o medo destrutivo do ser humano pelo desconhecido e diferente. Nesse sentido, a narrativa funciona até hoje.
É essa outrofobia generalizada que provoca respostas letais, que o diretor Jack Arnold concretiza, quando o protagonista usa uma aranha do deserto como exemplo da alteridade que tememos ou temos nojo. Fãs de cine sci fi/catástrofe não deixarão de pensar que a Tarantula (1955), do mesmo Jack Arnold, está vingando a amiga esmagada em ICFOS.
Daria pra questionar, porque os extraterrestres – se são afinal tão mais inteligentes – não foram direto ao cara que criam o único capaz de compreendê-los. Pouparia um monte de problema, mas também um filme.
Os ataques feitos a partir do ponto de vista dos ETs, o barulho de sua respiração, a trilha-sonora irada de Teremin, a tecnologia 3D e a própria “feiura” dos extraterrestres devem ter causado medo pra caramba no escuro do cinema, há 60 anos.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

CONTANDO A VIDA 277

PAPAI BOLSONARO: AMOR E DESPOTISMO. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Para mim, juntamente com o “dia das mães” e “dos professores”, a celebração do “dia dos pais” é das mais comoventes, mais mesmo que o Natal, Páscoa ou meu próprio aniversário. E no embalo desta oportunidade próxima, me engalo todo para receber as homenagens cabíveis: exijo festa familiar, presentes, discursos, tudo enfim que o estatuto paterno confere. Em meu dicionário sentimental, a condição de genitor se deixa superar pela união da prole, pelos beijos, afetos explícitos, com direitos a abraços fartos. Pois bem, nesta ciranda introdutória devo render tributos a todos os pais do mundo. A todos. A todos, inclusive ao pai presidente/ ex-capitão Bolsonaro que, aliás, se tornou pai mesmo antes de sua eliminação das fileiras militares onde tentou, em protesto contra salários baixos “explodir bombas em várias unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras (...) e em vários quartéis”, com cuidado para que não houvesse feridos”, segundo registro absolutamente confiável. (http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/arquivos/DHBBBiblioGeral.pdf). Mas vou mais longe, reconheço nele um mérito exponencial: ser pai de capricho desmedido e, desbragadamente, sem limite algum, assumir os filhos, colocando em dúvida o próprio lema patrioteiro “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. A propósito, baseado nesta equação delirante e até herege - que anula a onipresença de Deus e determina-lhe novo lugar “acima de todos” - me imponho uma pergunta que não sabe calar e que clama resposta: onde ficariam os filhos? Juntos e misturados no “Brasil acima de tudo”, ou fora, apenas levemente abaixo “de Deus acima de todos”? “De todos?”. Elipses. 

Qualquer resposta a esse questionamento meio barroco teria que levar em conta o currículo progênie do presidente (ups, quase escrevi “do rei”, pensando no esquema dinástico). Fruto de três relacionamentos consequentes, o ex-capitão, que se orgulha de não precisar de aditivo, gerou três filhos do primeiro caso (01, 02, 03); um do segundo (04), e por fim, na comentada “fraquejada”, produziu uma filha (inumerada). A primeira das esposas foi dona Rogéria Nantes Nunes Braga que, além de companheira, contou com a ajuda do consorte para se eleger vereadora no Rio de Janeiro, em 1992. De acordo com a próxima consorte, Ana Cristina Valle, o amor à primeira vista foi lance fulminante que ocorreu “um pouquinho antes de ele se separar e eu me separar de meu marido”. Divorciado da primeira, então Bolsonaro partiu para uma segunda investida paternal, e sob o protocolo de “união estável”, que durou dez anos, nasceu Jair Renan. No ano de 2007, Bolsonaro se enamorou da atual esposa Michele de Paula Firmo Reinaldo, com quem se comprometeu casar nove dias após o primeiro contato. Incendiado de amor, dois meses depois firmaram compromisso civil, e, em 2013, finalmente, sob as bênçãos do obtuso pastor Silas Malafaia, foi celebrado o ato religioso que legitima a completude da prole, com a filha Laura. Total: quatro homens e, vacilo, a tal “fraquejada”. 

Mas não pensem que apesar de declarações ácidas e depois desmentidas pela esposa do meio - sobre o assombroso furto de joias - as relações familiares fugiram do padrão patriarcal do “rei” eleito com mais de 57 milhões de votos. A mesma Ana Cristina, esteve listada entre os beneficiários com cargos no gabinete do filho mais novo, vereador no Rio de Janeiro, Carlos (Carluxo para os íntimos, 03 para o pai). E não pensem que foi só ela, o filho Jair Renan também figura numa constelação ampliada por mais nove felizardos, todos parentes da ex-futura-primeira dama. Em favor das relações pacíficas entre ex-madrasta e enteado edil, ressalte-se o comando do bom senhor Bolsonaro que nega, com veemência, qualquer nepotismo. Nepotismo, imagine!... Que tal despotismo?! Como se não bastasse, tem mais: a soma de nove parentes ainda foi completada por outros três aparentados agora denunciados, todos. A favor da justiça, diga-se, a parentada está envolvida no inquérito sobre o enriquecimento do desaparecido amigo Queiroz. Não sejamos, contudo, prematuramente taxativos, pois a consagração do presidencial amor familiar vai ser absoluto se o extremoso pai conseguir coroar “acima de tudo” o filho do meio, Eduardo, escolhido embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Aí... 

Minha admiração ao presidente pai, creiam, vibra mais ainda quando levo em consideração as consequências que o esmerado senhor tem frente às opiniões de seus filhos mais famosos, os do primeiro casamento. Mesmo calamitosos em suas afirmações - seja sobre como fechar o Congresso, fazer sanduiches no estado do Maine como credencial diplomática, defender a pena de morte, abater a Amazônia, ser antifeminista, ou disparar agressões odiosas por fake news - cabe destaque a assunção pública e verbal desse amor incontido. Consideremos, como síntese analítica de todo esse fervor a frase pétrea “se eu puder dar o filé mignon para o meu filho, eu dou”. E tem dado mesmo, como tem distribuído para o público em geral cachos de bananas e bananadas polvilhadas com pó de normas éticas, direitos constitucionais e humanos. Tudo pelo bem do Brasil, claro. 

Mas por falar em dia dos pais, fritar hambúrguer e filé mignon, fico me perguntando se vai haver churrasco no dia dos pais palaciano. E minha questão tem sim fundamento, pois ampliando o currículo do Eduardo (02), o presidente disse que, além de fritador de hambúrgueres, o filho candidato a chanceler também entregava pizza. Por mais esta credencial, fico supondo alternativa: se lhe for negada a ida a Washington DC, o amor paternal considerará a Itália como novo destino? Itália, pizza... E intrigado me pergunto sobre o que a família brasileira tem aprendido como tanto exemplo de amor paternal? Nepotismo é menor que despotismo? Será? Enfim, bom dia dos pais àqueles que sabem dos limites da paternidade sadia e exercitam o amor como amor, sem desmandos.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

TELINHA QUENTE 371

Nessa temporada o detetive Andri volta a sua aldeia para desvendar outra teia de crimes. 

Para a resenha da primeira temporada da série islandesa, clique abaixo: 

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

CAIXA DE MÚSICA 375



Roberto Rillo Bíscaro

De quando em vez, aparece nova “nova Karen Carpenter”. Rumer é a mais cotada dos últimos anos. Tal procedimento comparativo é contraproducente e pro artista novo é lâmina de dois gumes: se por um lado gera alguma pauta em mídia ou grupos de discussão online, ajudando na divulgação; por outro, gesta expectativas irrazoáveis. Não haverá outra Karen e é assim que tem de ser. Não porque tenha sido gênia insubstituível, mas porque pessoas são diferentes. Simples. De todo modo, as comparações continuam e a trágica vocalista dos Carpenters tem outra “reencarnação” discutida em fóruns de fãs, onde a conheci.
Harriet é britânica, que se confessa influenciada pelos Carpenters e por caminhão de artistas românticos, easy listening e soft rock. Com site espartano em relação a dados biográficos, soube que Harriet abriu pra Michael Bolton, em sua última turnê pelo Reino Unido. Quem se lembra da sacarina derramada pelo norte-americano nos anos 80, já anteouve o tipo de som de Harriet.
Fui ao Spotify, onde a jovem nem tem 8 mil ouvintes mensais, e escolhi como introdução, a edição deluxe de seu álbum homônimo de estreia, lançado em 2016. A versão de luxo é de 17. São 20 faixas e, dentre as bônus, há covers de Backstreet Boys (As Long As You Love Me), Jon Secada (Just Another Day), George Michael (You Have Been Loved) e filme da Disney (The Beauty and the Beast). As duas faixas mais movimentadas sequer atingem o status de midtempo: Whoever You Are é pra ouvir no carro, ao som de FMs easy listening e Reach começa lenta pra se tornar versão meio diluída do tipo que o Swing Out Sister rememorava no fim dos anos 90.
O álbum é só pra quem ama baladas dramáticas e doídas, simples, sem aventuras, mas tudo muito bem cantado e feito. O timbre de Harriet coincide com o de Karen Carpenter, em seu registro mais grave, como prova a abertura, Afterglow. Isto posto, é bom deixar as comparações de lado e se o ouvinte quiser clone de Carpenter, que vá ouvir os álbuns originais.
Tem bastante material à Adele, como Broken for You ou Love Will Burn. Tem faixa que remete ao outrora popular Keane. Ouça o piano de abertura de First and Last e veja se um dueto com Tom Chaplin não caberia direitinho.
Harriet tem muito drama de dor de cotovelo e declarações de amor bombásticas, em baladas ao piano, ao violão e, em sua maioria, com sons mais orquestrais. Em meio a tudo isso, há o suave pop hall de Permission to Kiss, que dá vontade de sair dançando em calçadas nova-iorquinas ou londrinas, num mundo não muito depois do fim dos Beatles, quando Burt Bacharach mandava.
Tudo muito gostoso.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

PAPIRO VIRTUAL 140

Após sofrer um AVC, um detetive aposentado da polícia sueca tenta desvendar um assassinato ocorrido décadas antes.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

TELONA QUENTE 299

Um aspirante a escritor busca inspiração para seu livro. E manipula a vida de seus vizinhos com o intuito de escrever sobre eles.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

CAIXA DE MÚSICA 374

O segundo álbum da diva negra canadense mergulha fundo na black music dos anos 60/70 

Sobre o álbum de estreia de Tanika, cheque: 

quinta-feira, 25 de julho de 2019

TELONA QUENTE 298


Roberto Rillo Bíscaro

Tantas trilogias fizeram-me recordar de uma, perdida nos recônditos B dos anos 1950. Não foram 3 filmes com aventuras em sequência, porque o conceito Star Wars ou Desejo de Matar ainda estava um quartel de século distante. Aventuras seriadas restringiam-se aos agonizantes serials ou à engatinhante TV.
A trilogia rememorada foi a do produtor independente Ivan Tors, que fez trinca de baixos-orçamentos estrelados pelo Office of Scientific Investigation (OSI), grupo de cientistas que usava geringonças, conceitos e ideias altamente tecnológicos pra salvar o planeta. Talvez nem à época o público se tocou que havia elo entre The Magnetic Monster (1953), Riders To The Stars e Gog (ambos de 54). Mesmo Richard Carlson tendo estrelado os 2 primeiros, seus respectivos cientistas tinham nomes distintos.
The Magnetic Monster otimiza seus ínfimos dólares de produção, de maneira espetacular, porque o Monstro Magnético, conforme título no Brasil, não precisa aparecer e uns 15 minutos dos 76 de duração são imagens de arquivo ou reutilizadas de produção sci fi alemã dos anos 30. Demonizar personagem alemã ainda era comum no cinema, mas usar coisas de lá sem que o público soubesse tudo bem.
Os doutores do Escritório de Investigações Científicas recebem chamado duma loja de ferragens, onde mercadorias estavam misteriosamente magnetizadas. Investigações concluem que isso foi obra dum cientista que brincou demais com radiação, por isso, além de morrer, criara monstrengo radioativo, que transformava energia em matéria ao comer a primeira e crescia em progressão geométrica, mas ainda cabia num container qualquer. Mas, se não fosse detido, destruiria o planeta. O único local onde havia esperança de detê-lo era num laboratório sob o mar, na Nova Escócia.
The Magnetic Monster é repleto de diálogos pseudocientíficos e boa parte de sua exibição é gasta em mostrar em operação, máquinas complexas pra época, além de muita imagem de espectrômetro ou seja lá como se chamam essas maquininhas físicas. Também abundam os barulhinhos tecnológicos, já aludidos pelo narrador como “música da nova era tecnológica”. A então molecada do Kraftwerk e os nem nascidos synthpopers inspirar-se-iam nesses sons. E olhe que The Magnetic Monster nem tem musiquinha ainda, são apenas bips e blips de vários tons. Mas é tudo bem legal, hoje curiosidade de arqueologia cibernética, mas nem por isso menos fascinante pra fãs de ficção-científica e vida vintage.
E como não aplaudir a criatividade do roteiro, que cria monstro sem precisar gastar dinheiro confeccionando-o, porque é energia ainda baby, então dá pra mostrá-lo como luminosidade em visor dalgum aparelho.
Malgrado o estratagema malandro pra fazer filme sem grana, The Magnetic Monster acaba demonstrando a relação quase de fetichização erótica para com o maquinário high tech da década, que inundou os lares afluentes da classe-média ianque com aparelhos domésticos fabricados a partir de avanços do esforço de guerra quarentista.
A molecada nerd e geek da época deve ter amado tanto botão e papo cabeça de ciência de botequim.

Em Riders to the Stars, o Office of Scientific Investigation sequer é mencionado, apenas aparece numa placa. Anos 50 definitivamente ainda não era tempo de franquias.
Riders é bem menos fascinante hoje do que The Magnetic Monster, porque seu roteiro precisaria de mais verba. Talvez se ficasse na casa dos 70 minutos e não nos 81 ajudasse também.
Pra poder estabelecer uma base orbital, era necessário compreender como os metais se comportavam, quando extraídos diretamente do espaço, sem a interferência da fricção causada pela brutal entrada na atmosfera terrestre dos meteoros, até então única maneira de coleta de minerais submetidos às condições espaciais. Monta-se então programa supersecreto que mandará 3 foguetes pro espaço, numa rápida missão pra colher asteroides. Mandar mais de um é bom pro roteiro, porque dá pra explodir um e dramatizar algo com outro. Quantos vocês acham que conseguem retornar à Terra?
Mais de dois terços são gastos na seleção dos candidatos e em treinamento de astronautas, tornando Riders bem lento, mas também avô dos atuais docudramas. Como no monstro magnético, engenhocas de treinamento são mostradas, além de telescópios e afins.
Apesar de na equipe selecionadora dos candidatos a pegar asteroides haver uma cientista, apenas homens são escolhidos. Isso, porque na convenção desses filmes sci fi dos 50’s, a participação feminina na ciência era quase ilusão de ótica. O que o roteiro necessitava mesmo era duma mulher pra parear romanticamente com o galã-protagonista. Ser cientista apenas facilitava encaixá-la na trama.
Com imagens de arquivo dos famosos ratinhos desesperados pela falta de gravidade e enorme pressão a que foram submetidos, também usadas em Spaceways, e sem mostrar o momento em que a espaçonave abocanha o asteroide, Riders to the Stars só vale se você quiser constatar algumas técnicas de treinamento usadas no programa espacial nos 50’s. 
O que melhor equilibra exposição de maquinário tecnológico com ação é Gog, que deve ter saído por uns 250 mil dólares, então deu pra caprichar um pouco mais.
Mortes misteriosas pela tecnologia sofisticada começam a ceifar cientistas e funcionários duma base militar subterrânea ultrassecreta, onde estação espacial está sendo construída pra vigiar o planeta mediante satélite com câmera. A conclusão do porquê as mortes ocorrem, não apenas justificam o big-brotherismo do projeto, mas fazem de Gog vovô simplificado de Black Mirror.
Em cores, hoje a gente dá risada de quando o temido robô ataca, porque a rigor ele fica parado apenas mexendo os braços, mas na época deve ter sido absolutamente divertido ver mortes tão “científicas”, sem contar os experimentos e cientificices da exposição da trama, que ocupa boa parte do filme. Pra molecada que devorava quadrinho sci fi e o público que se cria cientista lendo revistas como Popular Science, Gog deve ter sido o máximo.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

CONTANDO A VIDA 276

O PIOR DO (MUITO) PIOR.

José Carlos Sebe Bom Meihy

No dia 17 de abril de 2016, tomei decisão aguda: guardaria minha tristeza na gaveta mais escondida de meu silêncio político, e resignado lançaria a chave imaginária no oceano das tais ilusões perdidas. Era demais enfrentar novo impeachment – dois em uma geração que começou votar para presidência com mais de 40 anos de idade. E inventariava minha tristeza considerando prematuro supor que a longa noite de 21 anos, a sutil, mas não menos cruel ditadura, havia passado. Confesso que foi alentador viver os fátuos mandatos de esperança que se seguiram ao declínio militar. Mesmo com limites, não há como negar as benesses de mudanças e a ventilação de possibilidades de se ter um país com menor número de pessoas abaixo da linha de pobreza, com respeitos, menos misógino e mais acolhedor. Os dias que se seguiram àquela fatídica sessão da Câmara - as semanas e anos - foram acentuando diferenças entre o que viam ameaças à democracia em contraste com discursos populistas baseados em fatos fabricados. Eu calado assim, no fundo das mágoas contidas, não conseguia acreditar nos ecos crescentes e entoados de tantos queridos: amigos, parentes, vizinhos. Tristíssimo, não me autorizava pronunciar contraditório algum, até porque a corrente avassaladora que ganhava força me era incompressível e expressa em manifestações capazes de misturar piadas com ações patrioteiras, ataques nutridos de fake news.
E veio o governo Temer. E veio o embalo das novas eleições. E ampliaram-se as manifestações radicais que jogavam uns contra outros, tudo com muita raiva e sede de vingança. As ruas se encheram das cores da bandeira, bateu-se panela, os hinos cívicos e os ditos excludentes se fizeram berros. Qualquer um que não marchasse na cadência das ordens daquela exalação seria considerado bastardo, traidor da moral e defensor de bandidos. Tudo em nome do combate à corrupção, à moral familiar ofendida pelo louvor às diferenças. Agigantava-se um produto de uma versão religiosa fundamentalista que se vangloria de ser “terrivelmente cristã”. Terrivelmente... Mas, na medida em que o ódio se naturalizava como virtude cívica, fui sentindo que precisa fazer alguma coisa. Precisava, mas não tinha forças suficientes até que se aproximaram as últimas eleições, e então busquei escafandro e mergulhei no encalço da chave perdida e, de posse, ousei abrir discretamente a tal gaveta. Falei um pouco, talvez menos do que deveria, mas bradei o suficiente para reafirmar Cecília Meireles no verso Punhal de Prata: “A maior pena que eu tenho/ punhal de prata, não é de me ver morrendo/ mas de saber quem me mata”. Entre os que “me matavam” estavam amigos queridos, irônicos, tão auto sonantes em desprezos.
A realidade dos fatos, vagarosamente foi mostrando que eu não estava tão equivocado. Vendo os verbos presidenciais sendo conjugados fora das gramáticas políticas e da decência, novamente, percebia a graça da história. Definitivamente, pela escrita, deixei o pacto de silêncio e recuperei a crença popular garantidora de que o peixe presidencial morreria pela boca. Mas não foi sem dor que fui vendo desbotar os devaneios contrários. Sofria pelo preço pago por todos. Tudo seguia seu curso, diria. Aconteceu, porém, esta semana uma série de absurdos que me obrigam a constatar os percalços e ver que há esperanças. Como resposta a um eloquente “não dá mais”, somaram-se impropérios que, em conjunto, animam pensar que o avesso da sensatez está promovendo a longa virada. Vejamos alguns lances que dignificam o que penso:
“Se não puder ter filtro, vamos extinguir a ANCINE”
“(Miriam Leitão) estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa. E depois conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada. Mentira”
“Daqueles governadores de... paraíba, o pior é o do Maranhão”;
“Já mandei ver quem está a frente do INPE para que venha a Brasília explicar estes dados que foram enviados à imprensa”, e, não bastasse, declarou suspeitar que o Diretor do INPE estaria “à seviço de alguma ONG”;
 “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não se come bem, aí eu concordo. Agora passar fome, não. Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com o físico esquelético como se vê em outros países pelo mundo”
No primeiro caso, trata-se de censura impensável em qualquer democracia. Não cabe ao mandatário do estado definir o que é correto para a moral pública. Além disso, existem os “filtros legítimos” permitidos pelos limites de idade. E seria tão recomendável que o emissor de tal bobagem soubesse o que é e o que não é pornográfico.
A frase sobre Miriam Leitão além de ser falsa, mentirosa, dimensiona o esforço de limitação da opinião pública. Replicando a censura, o dizer presidencial quer acabar com a opinião crítica e impor o pensamento único (desde que o pensamento único seja o dele). Convém lembrar que isto foi dito em resposta a um questionamento feito em ato oficial, frente à imprensa estrangeira.
O ataque deferido contra o governador do estado do Maranhão é gravíssimo, não apenas pela discriminação àquele estado, mas a todo o bloco do Nordeste. A agravar tudo, a depreciação contida no termo “paraíba” revela a carga indisfarçável de preconceito que, expresso pelo presidente da República, derruba os limites do suportável.
Além de contestar dados oficiais, emitidos por agência do próprio governo, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, orgão do Ministério de Ciência e Tecnologia), foi sugerido que haveria uma série de ONGs interessadas em forjar informações a favor de interesses estrangeiros. Lembremos que isso foi dito no momento em que alguns países patrocinadores de ajuda a Amazônia (Noruega e Alemanha) questionam o andamento das políticas de meio ambiente.
Também como resposta, a referência ao número de pessoas que passam fome, revela o despreparo e a desinformação do mandatário. Os totais revelam aumento assustador de contingentes famélicos desde 2017. Convém notar que as estatísticas são oficiais e dão conta que 5,2 milhões de pessoas no Brasil passaram um ou mais dias sem consumir alimentos, segundo levantamento feito por agências da ONU.

Se, contudo, me fosse dada a tarefa classificatória do pior emitido pelo presidente, a campeã não seria nenhuma destas pérolas. Acima de todas as demais, desdobramento da absurda nomeação do filho, o tal 03, para a embaixada brasileira nos Estados Unidos, ganharia o troféu: “se eu puder dar filé mignon para o meu filho, eu dou”. Sei que o caminho é longo. Em igual proporção estou ciente que serei chamado de esquerdista, comunista ou petista. Mas tudo vale a pena para acolher os democratas, aqueles que acreditam que vamos soltar a voz democrática.

terça-feira, 23 de julho de 2019

VERMELHO LETAL

Raro jacaré albino morre nos EUA após infeção o tornar vermelho

Um dos jacarés mais emblemáticos do mundo morreu na Carolina do Sul depois de apanhar uma infeção que começou a transformar sua pele pálida em uma com tonalidades de vermelho.

O Aquário da Carolina do Sul, localizado na cidade de Charleston, anunciou ontem (19) a morte do jacaré albino chamado Alabaster.
A instituição não revelou muitos detalhes sobre o que teria matado o crocodilo, os sintomas incluíam perda de apetite, informa Charlotte Observer. 

"Na semana passada, o Alabaster começou a mostrar sinais de infecção, o que era visível através de uma descoloração vermelha da sua pele", informou a publicação do Aquário.

"Os veterinários começaram de imediato a ministrar tratamentos para ajudar o corpo de Alabaster a combater a infeção, incluindo fluidos, antibióticos, vitaminas e suplementos de nutrição [...] Apesar dos nossos esforços, o Alabaster morreu esta manhã", diz a publicação.

O réptil veio para o aquário em 2009 e era "um dos cerca de 50 jacarés albinos que se sabe existirem no mundo", de acordo com jornal The State. Alabaster tinha 22 anos e era considerado uma das maiores atrações turísticas.

TELINHA QUENTE 370


Roberto Rillo Bíscaro

Se as mirabolantes tramas Nordic Noir glamurizam e, de certo modo, anulam os problemas sociais escandinavos, mediante exageros fetichistas, algumas produções suecas têm esborrifado sal em feridas do bem-estar social nórdico. Racismo, ascensão da extrema-direita, falhas no propalado programa de integração étnica, isso e mais têm sido tematizado em ótimos shows, como Blå ögon e Midnattssol.

A meia dúzia de capítulos de Areia Movediça (2019) adota perspectiva bem mais psicologicamente perscrutadora, mas também indica que não é só no reino da Dinamarca que há algo apodrecido. Além disso, é mais acessível, porque pertence ao catálogo da Netfliix, inclusive com dublagem.

Meio na estrutura da temporada primeira de The Sinner, Störst av allt, desvenda através de flashbacks, um massacre ocorrido em escola de bairro elitista de Estocolmo. De início, ouvimos tiros por detrás de porta cerrada, que, logo percebemos tratar-se de sala de aula. A jovem Maja parece ser a única vítima sobrevivente, mas o estatuto de vítima passa ao de perpetradora em um átimo. Acontece que em Areia Movediça ninguém é apenas culpado ou inocente.

Maja é suequinha privilegiada, que, felizmente, não tem os dentes artificiais de suas congêneres ianques. Ótima aluna, irmã dedicada, filhota de ouro, Maja começa a namorar o algo careca Sebastian. Sonho de consumo pra quaisquer pais, o jovem leva Maja pra passear no iate do pai, no Mediterrâneo, onde o abastado Claes diz à adolescente, que agora ele tinha esperança de que Sebastian tomasse juízo. Aos poucos, nos damos conta da toxicidade do bad boy Sebastian, que engole Maja em seu redemoinho de drogas, autopiedade e ódio.

Como Maja não se recorda direito do que aconteceu nos momentos preliminares ao tiroteio, os capítulos intercalam cenas do presente – interrogatórios, reconstituição do atentado, julgamento – com o desenvolvimento do relacionamento Maja-Sebastian e sua imbricação com algumas outras personagens, especialmente Amanda e Samir, o filho de imigrantes, que vive num apartamento bem distinto à opulência de seus colegas de classe média-alta/alta, cheios de problemas. Claro que o foco é Maja e Sebastian, mas uma explosão fascista deste, indica a barra que Samir também enfrenta (mas nosso dó é direcionado mais aos suecos branquinhos...).

Insegura pela idade, pressionada pelos pares, com dó de Sebastian, Maja não consegue escapar da letalidade do relacionamento. Areia Movediça alerta que bondade demais não compensa: se afeta sua vida, deixa o outro se estrepar sozinho, afinal, você tentou. Mas, escrever isso da distância fria de uma telinha de notebook, sem estar vivendo a situação, é bem fácil. E é isso que pede a minissérie: empatia.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

CAIXA DE MÚSICA 373

Roberto Rillo Bíscaro

Os britânicos pegaram seus sucessos dos anos 80 e os estenderam, no novo álbum, Inflight: The Extended Essentials

quinta-feira, 18 de julho de 2019

TELONA QUENTE 297


Roberto Rillo Bíscaro

Roger Corman é um daqueles cineastas B, que qualquer culturete deslumbrete pode gostar, porque desde os anos 60, a Cinemateca Francesa e o Instituto de Cinema Britânico incensam seu talento, também reconhecido pela Nouvelle Vague e que iniciou diretores e atores famosos, de Jonathan Demme a Diane Ladd. Mestre em fazer filmes interessantes com orçamento baixo, Corman fez as adaptações mais climáticas de Edgar Allan Poe.
Como todo mito – Corman sim o é! – tem um início, resolvi checar o primeiro filme produzido pelo norte-americano, Monster from the Ocean Floor (1954), que na melhor das hipóteses teve orçamento de 30 mil dólares. O empreendedorismo do cinema como indústria de linha de produção braçal, começou dando certo economicamente. O filme foi vendido pra Lippert Pictures por 110 mil dólares e já apresenta todos os elementos da fileira de filmes independentes, baratos, oportunistas (no bom e mau sentido) e com gente desconhecida, que enfeitam a longa carreira de Roger.
“Quickie” e/ou “cheapie” designavam filmes baratos feitos nas coxas (quickie também é uma foda rapidinha) bem velozmente. Monster from the Ocean Floor durou menos de uma semana pra rodar e tem apenas 64 minutos de duração. Exato pra não gastar muito na produção e pra poder passar em sessão dupla nos drive ins.
O monstro do título não aparece nem por 4 minutos; o resto do tempo fica em conversas e gente nadando. Corman fez parceria com o fabricante dum minissubmarino individual, que pôde ser usado grátis em troca da publicidade. É a geringonça que mata a ameba gigante, inclusive. Ah, não reclame de spoiler! Você não acha que nos 50’s o monstro não morreria, né? Ou que já havia o difundido conceito de deixar possibilidade de sequência....
A trama é o usual. Uma veranista norte-americana no México ouve histórias sobre monstro marinho que atacava a comunidade. Ela conhece um biólogo marinho também norte-americano (ajudar latinos até vai, mas o herói tem que ser ianque, mesmo fora dos EUA, yeah!), que não crê no sobrenatural. Mas as investigações de Julie a levarão a ficar cara-a-olho com a criatura. Cara-a-olho, porque o monstro é tipo uma superbola com um baita olhão, sustentada por tentáculos pequenos. Supostamente isso seria uma ameba agigantada pelos testes atômicos no arquipélago de Bikini, em 1946. Tudo isso deduzido em segundos.
Dá pra perceber claramente que os diálogos foram dublados em estúdio, o monstro é pífio e o roteiro é sutil como um trator: a moça que jamais mergulhara, em 3 tomadas já está investigando pistas de monstros-marinhos em recife de corais! E claro, apesar de ajudados, os mexicanos são supersticiosos, esses “primitivos”, viu!
Mesmo não tendo sido dirigido por Roger e certamente por sermos deslumbrados pelo paparico crítico de seu trabalho, Monster From The Ocean Floor já apresenta aquela “estranheza” minimalista de seu trabalho, que, claro, é pura falta de dinheiro, mas que ele sabe administrar tão originalmente bem.

terça-feira, 16 de julho de 2019

TELINHA QUENTE 369


Roberto Rillo Bíscaro

Mesmo que o The Guardian tenha decretado a morte do Scandi Noir – in agora é curtir coisa belga ou israelense – os países nórdicos seguem exportando cada vez mais sua TV e ainda criam tendências.
Em 2011, a fenomenal Bron/Broen apresentou trabalho conjunto de policiais da Suécia e Dinamarca. Sem contar as diversas releituras, a série deflagrou séries de trabalhos colaborativos, como The Team (tá estocada, mas a fila é longa demais!) e a aguada Crossing Lines (tem na Netflix; não tive saco pra ver muitos episódios).
Em 2016, TVs da Suécia e França uniram forças pros 8 amalucados capítulos de Midnattssol, internacionalmente conhecida como Midnight Sun, por se passar no extremo norte sueco, fronteira com a Finlândia, onde, no verão, o sol não se põe durante semanas. Não é só no deserto que se consegue enjoar de tanta luminosidade; mesmo sobre gente encapotada, a perene luz castiga em alguns momentos.
Se Blue Eyes apresentou Suécia fascistoide, com mulher levando bofetada do macho, Midnight Sun (MS) nos leva à Lapônia sueca, onde a idealizada política de integração social não abranda o preconceito do sueco viking pelos nativos samis, os “índios” da Escandinávia, chamados de ratos lapões mais de uma vez. Os samis, por sua vez, guardam rancor histórico do invasor loiro, que tomou suas terras e sequer o considera como cidadão sueco. Sobrepostos ao cenário deslumbrante da natureza nórdica, gente da Suécia sem dente e vivendo em muquifos.
Midnight Sun abre com um dos assassinatos mais espetacularmente criativos que já vi – e olha que vejo inúmeros! Como o defunto é francês, a detetive Kahina Zadi vem da cosmopolita Paris pra insular e nanica Kiruna, onde trabalhará com o simpático Anders Harnesk. Ambos estão em regiões étnicas fronteiriças: Kahina tem ascendência argelina e Anders é parte sami.
Embora muito viciante, inverossímil e tresloucada – o último capítulo termina com um massacre – Midnight Sun só é consumo e diversão, não espere a alta qualidade “artística” do Nordic Noir; é roteiro de quem descobriu que marca dá dinheiro e foi atrás aproveitar.
Estetizando a violência no último – repare a beleza das gotas de sangue caindo em câmera lente sobre superfícies aquosas prateadas – MS não se envergonha de usar clichês surrados, como atribuir sabedoria mística aos nativos samis. Alguns falam com aquele jeito cifrado de quem sabe tudo e possuem certos poderes místicos (então, porque perderam tudo e vivem numa miséria desgraçada?).
Como todo policial contemporâneo que se preze tem que ter demônios pessoais que fazem o espectador imaginar como o Recursos Humanos da polícia deixou passar, o par de MS também os tem. Acontece que nada servem à trama, na verdade, só a atrasam, Dava pra ser meia dúzia de capítulos tranquilamente.
Em resumo, Midnight Sun acerta no atacado, mas no varejo tem muitas imperfeições. Não admira que o The Guardian tenha usado a série como exemplo pra declarar o óbito do Nordic Noir. Mas, é exagero, dá pra se divertir de boa.

domingo, 14 de julho de 2019

ALBINO HOMENAGEADO

Ator do filme ‘Filhos da Lua na Terra do Sol’ é homenageado na Câmara

Na noite de 2 de julho, durante sessão na Câmara Municipal de Cuiabá, o vereador Marcrean Santos (PRTB) homenageou, com Moção de Aplausos, Hélio Simião de Almeida. Ele tem distúrbio de Albinismo Oculocutâneo e superou o problema de visão, causado pela síndrome, através do estudo, do trabalho e projetos que desenvolve na capital.
Hélio é biólogo e desenvolve trabalhos em escolas, creches e CMEIs municipais onde apresenta para crianças e adolescentes os riscos que o mosquito Aedes aegypti, vetor das doenças dengue, zika vírus, febres amarela e chikungunha representa para a população.
A forma que Simão enfrentou os problemas e limitações decorrentes do albinismo chamou a atenção de produtores e cineastas, em 2016 ele recebeu o convite para participar do Filme ‘Filhos da Lua na Terra do Sol’, em um documentário de 15 minutos, foram abordados questionamentos inusitados sobre o que é ser albino em Cuiabá? Como pessoas que devem viver longe do sol conseguem sobreviver em uma cidade quente como Cuiabá?
O vereador Marcrean procura com a homenagem valorizar ações como a de hélio e combater o preconceitos e duvidas quanto o albinismo.
“Fiquei emocionado com a história de Hélio, sem duvida várias pessoas se sentem motivadas com o trabalho que ele desenvolve principalmente aquelas que nasceram com albinismo, por isso a moção é uma justa homenagem”, frisa o vereador.
FILHOS DA LUA NA TERRA DO SOL
O documentário tem 15 minutos e foi rodado entre junho e agosto de 2016, em Cuiabá e Chapada dos Guimarães. São três personagens que ilustram o filme: Laudisseia, servidora pública do TRT Hélio, agente de endemias e Marcelo, professor de música e atualmente com cargo no Instituto dos Cegos.
PRÊMIOS
Melhor Filme Mostra Sesc de Cinema (Etapa Estadual – abril/2017)
Destaque Melhor Fotografia Mostra Sesc de Cinema (Etapa Estadual – abril/2017)
Destaque Melhor Desenho de Som Mostra Sesc de Cinema (Etapa Estadual – abril/2017).

Elizangela Tenório | Câmara Municipal de Cuiabá

sexta-feira, 12 de julho de 2019

PAPIRO VIRTUAL 139

Roberto Rillo Bíscaro

Em uma Helsinki caótica pelos danos do aquecimento global irreversível, um homem busca por sua esposa desaparecida.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

TELONA QUENTE 296

Roberto Rillo Bíscaro

Juliana deixou a cidade natal para trabalhar como inspetora de combate à dengue. Com a mudança, ela embarca numa jornada inesperada rumo à independência.

terça-feira, 9 de julho de 2019

TELINHA QUENTE 368

Roberto Rillo Bíscaro


Ao herdar uma casa de um desconhecido, Lisa logo percebe que existe um universo paralelo atrás das paredes, que leva a uma casa sem fim. 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

CAIXA DE MÚSICA 372

Roberto Rillo Bíscaro

Em seu sétimo álbum, os ingleses mantém a criatividade e incorporam elementos ao seu synth pop.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

TELONA QUENTE 295

Roberto Rillo Bíscaro

Nas paisagens gélidas da Noruega, Roos faz sua visita anual à casa de sua mãe. No entanto, a visita desta vez não é uma visita comum: esta é uma visita para trazer más notícias.

terça-feira, 2 de julho de 2019

O PRÓ-ALBINO ANGOLANO

Movimento Pro-albino de Angola defende inclusão social


O Movimento Pro-albino de Angola defende o surgimento de iniciativas governamentais em prol da sua inclusão nas políticas sociais públicas, na política nacional de acção social e do cadastro social único cuja variável albinismo já está prevista.


O Programa Nacional de Combate a Pobreza e a municipalização da acção social, diz o movimento, na voz do seu líder, Guilherme Santos, deveriam ser instrumentos de políticas públicas concretas para inclusão social dos albinos afectados por factores de vulnerabilidade.

Por sua vez, a Associação de Apoio aos Albinos de Angola “4As” enaltece os esforços do Ministério da Saúde em benefício das pessoas com albinismo, reforçando os serviços de dermatologia nas províncias da Huíla, Luanda, Uíge e Zaire.

A Associação de Apoio aos Albinos de Angola reconhece por outro lado o abraço à causa do albinismo dada por entidades empresariais e diversas individualidades nacionais e internacionais. Por isso, Daniel Vapor, responsável da organização, entende que mais apoio é necessário.

“A criação de um fundo para complementar a iniciativa das próprias famílias é fundamental”, considerou o activista.

Para a Secretária de Estado dos Direitos Humanos, Angola tem todos os instrumentos legais para elaboração das políticas de protecção e apoio às pessoas com albinismo. Ana Celeste Januário cita no capítulo legal a Constituição da República e vários outros diplomas que garantem a inclusão social.

“Pensamos que são instrumentos importantes para ajudar na elaboração das políticas do Estado relativamente as pessoas com albinismo. Outras referências podem ser a lei relativa as pessoas com deficiência, as lei das acessibilidades, as diferentes legislações e programas quer sejam de saúde como de inclusão de todos”, disse Ana Celeste.

Cadastro

O Ministério da Acção Social Família e Promoção da Mulher afirma que já há algum trabalho a ser feito, sobretudo no que respeita ao cadastramento, todavia, reconhece que muitas outras acções ainda são necessárias desenvolver.

“Estamos agora a fazer o trabalho em três províncias-piloto, nomeadamente Uíge, Bié e Moxico. E todas as pessoas com albinismo que estejam nas províncias citadas e nos municípios que estão a fazer parte deste piloto, também estão a ser cadastrados”, disse Ruth Mixinji, Secretária de Estado para Família e Promoção da Mulher.

“Todos sectores devem trabalhar para que o cumprimento da lei seja efectivo. A sociedade civil deve continuar a trabalhar no sentido de se reforçar as parcerias e criarem mecanismos de integração no seu quadro de pessoal pessoas com albinismo”, exortou.

Discriminação

A discriminação é outra preocupação do sector responsável pela Acção Social e a Família em Angola. Vários são os relatos que apontam para a rejeição em casos de solicitação de emprego, aceitação social e outros que em nada contribuem para a integração das pessoas com albinismo.

“Já sofri discriminação sobretudo quando mais pequeno. Actualmente, directa ou indirectamente continuo a sofrer discriminação por causa do tom da pele. No meu caso pessoal, a família ajudou-me a ter uma auto-estima muito elevada”, conta Maningue Manuel, activista e funcionário administrativo de uma unidade hospitalar em Luanda.

A Secretária de Estado da Família e Promoção da Mulher chama atenção para importância de se desenvolver um trabalho conjunto, uma vez que nalgumas circunstâncias a discriminação é promovida no seio familiar.

“Se não trabalharmos na defesa e protecção dos direitos das crianças vivendo com albinismo, em particular, não estaremos a garantir que elas possam exercer as suas actividades para construção de uma Angola próspera e coesa”, disse.

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