quinta-feira, 18 de abril de 2019

TELONA QUENTE 284


Roberto Rillo Bíscaro

Eilean Shona é uma ilha escocesa, que já teve boa população, mas que, em meados do século XIX, passou por emigração maciça e ficou desabitada. Lendas locais atribuíram a deserção a um assassinato e posterior maldição sobre o local, mas o mais plausível é que a fome tenha afugentado os ilhéus. Alugada nos 1920’s, para J. M. Barrie, foi ali que o autor adaptou seu clássico Peter Pan para sua estreia cinematográfica.
Ano passado, Eilean Shona inspirou o diretor Matthew Butler Hart, que escreveu o roteiro de The Isle, com sua esposa Tori Butler Hart, também atriz do filme. Três náufragos vão parar em uma ilha que sequer consta de seus mapas. Habitada por apenas quatro pessoas, não demora pra perceberem que algo estranho ocorre lá.
Filmado em Eilean Shona, The Isle agradará no quesito cinematografia. Quem curte cenários naturais meio desolados, amará. Em ritmo e tom, o filme inspira-se no pequeno ciclo de horror rural britânico dos anos 1970, cujo exemplar mais conhecido é O Homem de Palha (1973). Preferindo a suspense e a sensação de algo sobrenatural à violência e gore, a produção é repleta de névoa, sussurros e discretas sugestões demoníacas. Flashbacks, cada vez mais clarificadores, nos revelam os antecedentes dessa história que mistura folclore rural, com mitologia grega. 
The Isle não preza pela originalidade e o roteiro não enrubesce na exposição meio pesada: apesar de restar apenas um quarteto na ilha, um deles mantém minucioso diário e uma enciclopédia, pro marinheiro que gosta de ler, aprender logo na primeira noite quem foi Perséfone.
Nem de longe, a produção chega ao patamar de excelência de suas inspirações, porque os fios da trama não provocam o curto circuito surpreendente pretendido. A referência às sereias, por exemplo, jamais se integra ao bom drama pessoal. Mas, o elenco é eficiente e o filme distrai.

terça-feira, 16 de abril de 2019

TELINHA QUENTE 356


Roberto Rillo Bíscaro

O mundo árabe é composto por mais de duas dezenas de países, populados por centenas de milhões, com vivências que vão do cosmopolitismo afluente e high-tech de Dubai, ao isolamento faminto do Sudão. São experiências radicalmente distintas e ainda assim, de forma geral, a percepção que temos dos países muçulmanos é de celeiro de terroristas, cegados pelo fundamentalismo religioso e mergulhados numa sociedade tão rígida, que não deve poder acontecer nada, senão o sujeito toma chibatada. Não comparamos Paraguai com Dinamarca, mas cremos que “turco” é tudo a mesma coisa (africano também, “japonês” também....).
A adição dos dezoito episódios da primeira temporada de Justiça (2017) ao catálogo da Netflix é bem-vinda lufada de vento quente do deserto dos Emirados Árabes Unidos. Ambientada no privilegiado mundo da classe alta de Abu Dhabi, o show é drama de tribunal, que contou com a colaboração do departamento de justiça do emirado, que abriu seus arquivos de casos pros produtores basearem as histórias. Nomes importantes da TV norte-americana estão por trás da criação da série, cuja produção é suntuosa.
Há fio condutor e unificador que é a filha dum famoso advogado, que retorna dos EUA, após se formar em direito. Ao invés de se juntar à firma do pai, Farah segue seu caminho. Isso tem bem pouco impacto; o que se destacam em Justiça são os casos. Poder-se-ia alegar que a família de Farah é liberal e boazinha demais com os filhos, que fazem o que bem entendem. Mas, daí, teríamos que lembrar que se acreditarmos que a sociedade norte-americana é igual àquela que vemos em suas séries, então, tratar-se-ia de lócus ideal, integrado racial e sexualmente. Qualquer seriezinha de terror hoje tem gente de toda cor e gênero convivendo de boa. E sabemos que está longe de refletir o real.
O fascínio de Justiça vem dos casos e do olhar que nos permite em cultura tão nossa desconhecida. Sem júri, os casos são decididos por um juiz e envolvem abuso de menores, tráfico de droga, bullying, malandragem da grossa, enfim, Abu Dhabi enfrenta muitos dos mesmos problemas que nós; Alá não cria um oásis tão rigidamente controlado e a ponto de não haver transgressão. Só que isso acontece numa sociedade poligâmica, por exemplo, então é muito diferente pra nós ocidentais ouvirmos que o acusado X se divorciou da segunda esposa, mas essa é concomitante a uma primeira e não subsequente, como estamos acostumados.
Acostumados a representações de árabes cobertos até os olhos (as mulheres, especialmente), atiça a curiosidade de pesquisar, quando se vê jovens com camiseta do Batman ou mulheres sem cobrir a cabeça, mesmo em público. Não todas e nem em todas as situações, mas fica claro que há muito mais sutileza nos códigos do que se supõe.
Obviamente, não podemos tomar o apresentado como modo fiel de como vivem e pensam os cidadãos de Abu Dhabi, senão incorreríamos no erro de imaginar que os EUA são paraíso integracionista à Will and Grace. Mas, como exposição de fatias de vidas e casos de direito, Justiça é muito eficiente e absorvente.

No final do século XVIII, pouquíssima gente podia pagar advogado de defesa, quando seus casos iam pro Old Bailey, o Central Criminal Court. E mesmo quem podia, se via em maus lençóis, caso fosse o acusado. Não havia presunção de inocência, as testemunhas eram chamadas apenas pra declarar sobre o caráter dos envolvidos e não havia todas as acrobacias discursivas, como as conhecemos hoje, através de tantos filmes e séries de tribunal.
Um dos genitores do moderno sistema legal anglo-norte-americano foi William Garrow (1760-1840), agressivo advogado, que ficou décadas esquecido, até ser resgatado no final do século passado. Entre 2009-11, a BBC produziu três curtas temporadas de Garrow’s Law, perfazendo dúzia de episódios.
A cada episódio, Garrow e seu mentor John Southouse defendem um oprimido, que não teria a menor chance de defesa, não fosse pelos dois advogados precursores e criadores de precedentes legais. A tarefa da defesa e das piruetas discursivas sempre recaía em Garrow, para achar soluções possíveis pros casos, retirados dos arquivos do Old Bailey da época. Não que de verdade ele defendeu todos os casos apresentados, mas isso não importa.
Garrow’s Law agrada em cheio quem aprecia dramas legais ou de tribunais, os court dramas, em inglês. Pro espectador contemporâneo, alguns casos e situações são tão alienígenas, quanto para os ocidentais, alguns casos em Justiça. Por outro lado, a já multicultural e metropolitana Londres setecentista enfrentava crimes e transgressões, do mesmo tipo que reclamamos hoje e alguns insistem inexistir antigamente.
A fim de conferir aspecto de seriado, os roteiristas desenvolvem um arco representando o envolvimento de Garrow com Lady Sarah Hill, que foi sua parceira na vida real, mas cuja disputa pela guarda do filho não aconteceu. Embora resolvida de modo bem novelão, esse é o naco menos carnudo. Garrow’s Law vale pelos casos apresentados e seria até mais eficiente, se o formato fosse a de caso da semana.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

CAIXA DE MÚSICA 361


Roberto Rillo Bíscaro

Não foi por acaso que Bárbara Eugênia escolheu lançar seu quarto álbum precisamente no Dia Internacional da Mulher. Empoderada, a carioca coproduziu-o e batizou-o de Tuda e cercou-se de gente daqui e de lá fora, para acompanhá-la na desenvolta dezena de faixas, que perpassam e aglutinam estilos e épocas.

A curta abertura, cantada com o Bloco Pagu, parece ponto de candomblé ou símile e dá impressão de que se trata de álbum “raiz”, ou como se queira chamar a música de cariz mais tradicional. Em Saudação, Bárbara agradece aos seres da mata e do mar e tudo o que vem dos quatro elementos: água, ar, fogo e terra. Telúrico e acústico, cheio de chocalhos e tambores afro.

Mas, esse é só o início de um álbum eminentemente pop, que, como tal, canibaliza o que pode e cospe de forma acessível e grudenta. Logo após Saudação, vem Perdi, cuja introdução de piano logo cede lugar à marcada pancada da bateria eletrônica e teclados bem estilo anos 80, década que informa a faixa mais grudenta de Tuda. Bagunça convida para a dança e tem até solo do instrumento-símbolo dos 80’s: o saxofone. Irremediável e imediatamente viciante, com letra que fala até de disco da Adele e tem a participação de Zeca Baleiro.

Tuda não se restringe a revival macaqueado dos anos 80. Perfeitamente Imperfeita é ijexá pop, com backing de mocinhos fazendo papapa. Sol de Verano tem clima de pop 70’s, porque é reinterpretação de uma canção de 1983, da anglo-hispânica Jeanette, cantante das clássicas Soy Rebelde e Porque Te Vas. Os efeitos, alguns hoje datados e “bregas”, são rasgados por mal-comportada guitarra roquenta. O clima de irmandade hispânica segue com Por La Luz Y Por Tierra, folk argentino, com o grupo Onda Vaga. Também dá vontade de bailar, mas num clima mais chacarero, flaco! Outra que dá vontade de baixar até o chão é Confusão, espécie de synth-carimbó, presente para o mundo da cena tecnobrega do norte. Eugênia dueta com um dos expoentes do subgênero, Felipe Cordeiro.

Querência psicodelilza um bocadinho, meio que misturando Caribe com Oriente Médio/norte africano e dance-rock. Inventiva e mutante, mas, ainda acessível. Essa faixa tem a companhia de Iara Rennó, que, ano passado, lançou delicioso álbum infantil chamado Iaiá e os Erês.

O aspecto de maleabilidade plástica de canções como Querência, faz de Tuda, pop bem pouco óbvio. Esse aspecto camaleônico intrafaixa também se destaca em Apaixonada Feito Gente Não, que vai de solo repetitivo à erudito contemporâneo ao baticum eletroacústico pós-tudo do fim da faixa.

Com produção que jamais exagera – e isso seria fácil num álbum com essa proposta de mistureba pop – Tuda é tudibom.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

VOGUE ALBINA

Pela primeira vez, Vogue tem modelo albina na capa


Modelo e ativista sul-africana Thando Hopa é a primeira mulher albina a aparecer em uma capa da revista


A modelo e ativista sul-africana Thando Hopa é a primeira mulher albina a aparecer em uma capa da revista Vogue. Ela estampa a edição de abril da versão de Portugal da publicação com o título “African Motherland”.

Em um post no Facebook, a modelo explica como ela sempre faou com amigos o quanto seria “adorável ver” uma modelo com albinismo enfeitando a capa de uma revista Vogue, mas nunca imaginou que seria ela.

Thando foi considerada uma das mulheres mais influentes de 2018, e diz o quanto sonha com o fim dos estigmas relacionados ao albinismo: “Sou sentimental, vejo progresso e faço parte dessa história progressista. Cheguei a um lugar na minha carreira onde aprecio cada parte do meu corpo e sei que, onde quer que eu vá, minha existência, do jeito que é, sempre e sempre será o suficiente”.

Pouco tempo da capa ser postada, a reação do público era particularmente positiva e parabenizando a iniciativa da revista em escolher Thando.

As imagens para a Vogue foram feitas pelo fotógrafo Rhys Frampton.

Eis a reportagem.


Thando Hopa: "Enquanto mulher negra, africana e pessoa com albinismo lutei toda a minha vida pelo empoderamento"



É negra. É africana. É mulher. E tem albinismo. Thando Hopa (e não hope, num trocadilho feliz com a palavra esperança) podia ser descrita apenas com estas características, não fosse o sangue que lhe corre nas veias, de um ativismo ensurdecedor. Tão ensurdecedor que ser procuradora e modelo não foi suficiente, e é nas palavras que se expressa enquanto ser pensante que luta contra todos os preconceitos do mundo. Às vezes meia palavra basta, mas Thando Hopa tem tanto para dizer, que é bom ouvi-las todas.

O que é queria ser em miúda?
Durante muito tempo queria ser um milhão de coisas, mas acabei por ficar muito focada em ser atriz, curiosamente. Queria muito representar, mas o meu pai tinha uma filosofia diferente, queria que eu fosse contabilista. Portanto Direito acabou por ser o nosso meio-termo.

Ia perguntar-lhe se o Direito tinha sido a sua forma de lutar contra as injustiças do mundo, mas sendo assim pode dizer-se que foi por acaso.
[Risos] Não te consigo mentir. Quando fui para Direito não sabia no que me estava a meter, para ser honesta. Mas acho que o impacto do curso foi que começou a esculpir a minha psicologia e a minha filosofia política. Só depois é que decidi ser procuradora e aí sim, foi uma decisão vocacionada puramente pelo sentido de justiça.

Lembra-se quando foi a primeira vez que os seus pais falaram consigo sobre albinismo?
Não me lembro de alguma vez o fazer formalmente com os meus pais. Ou com alguém na minha família. Tudo foi muito gradual. Quando fui para a escola a minha mãe nunca me disse “olha, tu és diferente das outras crianças. Porque eu cresci numa sociedade pigmentada. Cresci com pessoas de raízes indianas e pessoas negras. Eu cresci a ser a única pessoa que tinha uma cor branca na pele. Mas os meus pais nunca tiveram essa conversa oficial comigo. O que a minha mãe sempre fez, e eu acho que era uma  forma de ela me ensinar sobre albinismo sem falar sobre isso, foi ensinar-me coisas práticas, como as questões relacionadas com a minha visão, e o meu pai jogava à bola comigo para me ajudar com a minha perceção da profundidade de campo, ela ensinava-me sobre pele e garantia que eu tinha sempre protetor solar. Ou seja, eu percebia as implicações práticas da minha pele, mas não as implicações sociais e culturais. (...) Quando és criança não és diferente, és só uma criança. Quando muito podes ser uma rapariga, mas mesmo a questão do género não é muito preponderante quando tens quatro ou cinco anos. Era como o albinismo. Eu não tinha albinismo. Nem sequer era negra, porque não conhecia o conceito de raça quando era uma criança. A tua mente só começa a perceber à medida que vais crescendo e a sociedade começa a ensinar-te que és diferente. Acho que só percebi verdadeiramente sobre ter albinismo aí pelo secundário.

Quando foi a primeira vez que se sentiu bonita?
É difícil dizer-te, porque de facto é um processo. Lembro-me de um dia ter chegado da escola, ter ido ter com o meu pai a chorar e dizer que não queria mais ser assim. Porque quando és adolescente e a tua feminilidade começa a surgir, a tua noção de atração, de Beleza, surge pela primeira vez. Começas a internalizar as imagens que vês nos media, a tua cultura, quem as pessoas consideram bonitas, e se isso não fores tu... Bem, fui ter com o meu pai a chorar, isto com uns 12 anos e ele, que honestamente criou-me da melhor forma que um homem consegue, disse-me que eu era a rapariga mais bonita que já tinha visto. E eu continuei a chorar. Hoje sei que foi um momento decisivo do processo de perceber que eu, enquanto mulher, sou o suficiente. E depois o tempo passou e eu comecei a pintar as sobrancelhas, as pestanas... [risos]

Um momento de experimentação?
Sabes que mais? Adorava dizer-te que sim, que foi sobre experimentação, mas não foi. Foi um momento na minha vida em que eu senti que não queria ter mais albinismo. As sobrancelhas e pestanas claras, o cabelo loiro e encaracolado faziam-me sentir peculiar. Por isso comecei a mudar o meu aspeto para me assemelhar mais a todas as outras pessoas. E quando fiz isso, comecei a parecer menos que tinha albinismo.


E como se sentiu?
Confiante. Superconfiante. E comecei a ter validação dos meus companheiros, como se tivesse finalmente encontrado a fórmula perfeita para ser bonita. E depois o tempo passou, tornei-me procuradora, e nesse momento achei que estava muito confiante com a minha imagem. Até que uma coisa aconteceu que mudou tudo. Foi uma sessão fotográfica para a Forbes em que me pediram para fazer um look natural. E eu fiquei aterrada. Eu estava aterrorizada por ter de mostrar as minhas sobrancelhas claras, as minhas pestanas. Estava com medo de parecer tão diferente outra vez, porque no tempo em que me senti diferente não me senti bonita. E então pensei: ‘Se eu tenho medo de me mostrar como sou, como é que algum dia eu posso encarar isto como representação? Como é que eu posso dizer que é válido ser assim, se eu não estou ok com ser assim? Foi aí que a minha viagem pela Beleza começou. Percebendo que eu sou suficiente. Eu sou suficiente. Eu sou suficiente. Ficou um mantra. E só aí transpus parte da minha confiança para coragem, porque inicialmente eu era muito confiante, mas honestamente era-o porque estava a ter validação. Precisei de chegar àquele ponto em que estava contente comigo mesma, quer tivesse validação ou não.

O que é Beleza para si, hoje?
Sentires-te suficiente. Sentires que naquele dado momento és o suficiente. Em grego, a origem do significado da palavra beleza é “estar certa”, ou seja, o que tu és nesse momento é perfeito e suficiente. É abraçares quem tu és: a tua idade, o teu género, tudo, e pensar que tudo é bonito e suficiente.

Porque é que esta causa é tão importante para si?
Para mim enquanto pessoa, além de mulher, a questão do poder sobre o corpo de alguém é muito importante. É um direit fundamental e as pessoas perceberem isso é muito importante. Portanto qualquer coisa que seja uma transgressão disso não aguento. Seja assédio sexual, violação, exploração sexual, algo que as modelos estão mais propensas a ser expostas... Acho que, enquanto mulher negra, africana e pessoa com albinismo, lutei toda a minha vida pelo empoderamento. E tudo o que seja uma transgressão disso é na verdade o berço do meu ativismo, é a razão pela qual eu sou ativista. Porque as pessoas referem-se a ser ativista como uma profissão, mas não, é uma característica da personalidade. Vai seguir-te para onde quer que vás. Podes ser modelo, podes ser construtor, podes ser advogado, um grande CEO. Ativismo é uma característica e manifesta-se em qualquer profissão.

Sente que ter albinismo fomentou o seu papel enquanto ativista?
Sem dúvida. Muitas vezes quando estou a falar refiro-me ao meu albinismo porque estar neste corpo ajudou-me a compreender muitas coisas. Ajudou-me a perceber a importância das ligações sociais e de nos ligarmos uns aos outros. Ajudou-me a aprender como é que nós enquanto sociedade lidamos com a diferença. Porque eu experienciei diferentes tipos de preconceito. Enquanto mulher. Enquanto mulher negra. Enquanto pessoa com albinismo. Enquanto mulher africana. Especialmente no panorama europeu, percebo a forma como as perguntas são colocadas. Há uma certa perceção sobre África que não é necessariamente correta, ou que está mal representada [suspiro]. Mas acho que estar neste corpo me ensinou muito.


Como é a sua postura em relação ao preconceito?
O preconceito é contextual e multifacetado. Dependendo do teu contexto podes ter preconceito, não ter preconceito ou ter muito preconceito. Mas não é fácil, porque por exemplo ainda há muita iliteracia no que respeita ao albinismo, e se então houver uma falta de explicação científica... a explicação tende a mover-se ainda mais para o campo supernatural [risos]. Como “tu és assim porque és especial ou tens poderes especiais”.
Como se sente em relação à palavra especial?
Não gosto. Porque não acho que seja positiva. Ser separada da tua humanidade é um problema, quer as pessoas te chamem animal ou um tipo de anjo, o que seja, qualquer coisa que te tire humanidade.

Ainda sobre preconceitos. Tem sido muito aberta sobre o problema nos media e sobre a subjugação às expressões modelo albina faz isto, modelo albina faz aquilo. Sente-se ainda vista dessa forma?
Acho que está a mudar no que toca a mim, Thando Hopa. Não sei sobre a próxima jovem com albinismo que entre no meio. Espero mesmo que todas as lutas e desafios por que passei... ela não tenha de passar pelo mesmo. Porque eu fui tão vocal quanto possível. Mas se eu ainda experiencio preconceito? Claro que sim [risos]. Demorou muito tempo até que certos espaços me aceitassem da forma que sou e que não estivessem desconfortáveis com o look. Oh, vais desaparecer em frente à câmara assim.

Como é que se ouve – e responde – a uma coisa dessas?
Encontrando uma realidade partilhada. Lembro-me de uma vez estar com uma mulher que era plus-size model, e nem sei se concordo com este termo, mas enfim, e ela disse-me: “Não acabaste a maquilhagem, vais desaparecer em frente à câmara, vamos só escurecer as sobrancelhas. E eu disse-lhe: Sabes quando põem uma rapariga grande num espartilho para a fazer parecer mais pequena? Dizem que é pela diversidade, mas é mais vamos deixar-te desconfortável para teres o look com o qual nós estamos confortáveis na nossa cultura”. E ela disse: “Sabes que mais? Eu acabei de fazer isso contigo.” É esta realidade partilhada, este terreno comum, o mecanismo que eu tento usar. Empatia. Tento usar empatia.

Nunca como hoje falámos tanto sobre representação. Está esperançosa no futuro ou sente que ainda vivemos sob muitos rótulos e estereótipos?
Sobre albinismo, para ser honesta, não vejo qualquer mudança no cinema ou na televisão. Na Moda, pelo contrário, em termos de representação tem sido cada vez mais diversa.

Como é que vê a representação nos media?
As minhas experiências fizeram-me chegar até aqui e concluir que, apesar de existir representação, ela pode resultar em má representação ou representação condicional, ou seja, “representamos-te se tu fizeres isto”, sabes? E às vezes a representação é através de um retrato indesejado. Eu passo muito por isso porque quando a minha carreira de modelo cresceu, o interesse pela carreira enquanto atriz também. E as pessoas começaram a dar-me excertos de personagens. Mas todas elas têm padrões muito semelhantes. Ou é esta personagem maléfica [risos], ou tem que ver com assassinatos muti, rituais associados ao albinismo em África. E todas, todas as personagens que recebi, tinham esta desconexão social (...). Nunca era só uma pessoa numa comunidade, a fazer coisas humanas normais, a apaixonar-se, a ir à escola, o que fosse, uma história humana. Todas estas histórias eram separadas da humanidade e houve um tempo em que eu era muito afetada por isso. Estava presa a um estereótipo. E depois tive de escolher entre má representação, falta de representação ou representação condicional num retrato não desejado. Nunca tive a opção de uma representação inclusiva, percebes? Uma personagem humana e relacionável.

Tem algum receio de que esta ideia de inclusão e diversidade seja entendida como uma tendência?
Escrevi sobre isto há um tempo, não acho que os corpos humanos devam nunca ser apelidados como tendências. Tenho um problema grave com pessoas que dizem que albinismo é uma tendência ou que vitiligo é uma tendência. Ou pessoas que dizem é tão cool ser negro agora” [risos]. Não sou capaz de lidar com o que ouço. Os corpos humanos não são descartáveis. Tem sido um dos meus problemas na forma como as pessoas olham para certos corpos na Moda. No que toca à inclusão, não acho que seja uma tendência. O diálogo sim, pode ser uma tendência.

Como é que nós, mundo, podemos fazer melhor?
Com consultoria. Priorizando consultoria se queres fazer algo sobre alguma coisa em que não tens experiência. Eu própria tenho de consultar pessoas se vou a Portugal e se tenho de fazer alguma coisa sobre Portugal, certo? Não posso chegar, ter a minha perceção do que é Portugal, como as pessoas portuguesas falam, como é a cultura, simplesmente porque li sobre isso nalgum lado. Preciso de fazer consultoria. É um passo essencial para progredir verdadeiramente com diversidade inclusiva. Tens de estar aberto a pedir ajuda.
Eu nunca senti que fosse uma questão de raça, sabes? Mesmo sendo um elenco exclusivamente negro. Acho que foi uma mensagem para mim sobre representação. Inicialmente a narrativa implicava muita obrigação: Tens de fazer isto porque é a coisa certa a fazer. Sinto que hoje as pessoas estão  a começar a perceber que a diversidade é todo um mundo de oportunidade. Que temos acesso a uma cultura e imaginação diferentes, que estamos perante uma diversidade cognitiva e que vemos como é possível contar histórias de uma maneira mais abrangente e inclusiva. E acho que hoje as pessoas pensam: Espera, como é que há toda esta riqueza a que nunca acedemos, porque estávamos a monopolizar as coisas com algo tão artificial como a raça ou o género? Acho que as pessoas estão a começar a ver o benefício genuíno da diversidade.

Li que foi a Adwoa Aboah a fadamadrinha de tudo.
Eu não fazia ideia de que tinha sido ela a enviar a minha fotografia! Quando a conheci foi de forma muito casual, apresentámo-nos apenas. E eu nunca tinha conseguido perceber como é eu tinha ido parar ao Pirelli. Tens de perceber que isto era honestamente inimaginável, no sentido mais lato da palavra. Sou uma mulher da África do Sul, por isso só geograficamente já não faz sentido. E ainda que tenhamos feito progressos na cultura pop no que toca à representação, uma coisa desta dimensão... Mas bem, descobri que quatro anos antes a Aboah tinha mostrado a minha fotografia ao Tim Walker [fotógrafo do Calendário Pirelli em 2018]. E disseram-me: “Vamos fotografar para Vogue.” Mas eu era procuradora na altura, a trabalhar em casos de crimes sexuais e, vou ser muito sincera contigo, eu não ia abandonar para um editorial da Vogue de três dias e deixar uma vítima de violação sem alguém para a representar. Nas minhas prioridades, isto não era sequer discutível. Foi só aquando do lançamento que conversei com o Tim [Walker], que, já agora, é uma das pessoas mais fascinantes que eu já conheci na vida, e perguntei-lhe: “Tim, como é que me foste encontrar?” E foi aí que ele me disse que tinha sido a Adwoa a enviar-lhe a minha fotografia. Muitas vezes as pessoas procuram reconhecimento, e ela nunca o quis, o que foi tão surpreendente. Ela fez algo por mim sem esperar qualquer coisa de retorno. Espero ser esse tipo de pessoa. Achei que foi uma prova de caráter.


A palavra modelo pode ter algumas interpretações, e ser vista como modelo por alguém é uma delas. Sente algum tipo de responsabilidade?
Há um provérbio nativo americano, que li uma vez, que diz algo como: “Nós não herdamos a terra dos nossos pais, mas pedimo-la emprestada dos nossos filhos.” E eu achei isso muito interessante, porque quando herdas alguma coisa  toma-la como tua e fazes o que queres com isso, mas se for emprestado isso significa que não é teu e que precisa de ser partilhado. E é assim que me sinto em qualquer plataforma que estou, que carrego comigo muitas pessoas. Definitivamente sinto o peso e a responsabilidade, de outro modo não me importaria, escolheria qualquer trabalho que me desse dinheiro, e não me preocuparia com o legado que vai muito além de mim.

Numa entrevista contou como, quando era miúda, a sua mãe gritava por si quando via uma pessoa com albinismo na televisão. Sente que pode ser essa pessoa para alguém?
[Risos] Sim, acho que sim, mas espero que cheguemos a um ponto em que isso já não aconteça. Isso significava muito na altura, porque na cultura popular não havia mesmo representação. Mas hoje não é tanto assim, e sinto-me muito grata por ter contribuído para esse tipo de cultura. Muito grata mesmo.

Foi procuradora, modelo, enveredou pelo ativismo e, de repente, começou a escrever. De onde surgiram as palavras?
Nunca me considerei uma autora. Foi só no Calendário da Pirelli que percebi que poderia vir a ser uma. Eu tinha o hábito de escrever, fazer spoken word e poesia, mas nunca levei isso a sério. Mas quando me pediram para escrever um ensaio para o calendário... passei-me. Porque eu sabia o que dizer, mas não como deixar as coisas por escrito de forma a que fizessem sentido. Mas depois disso comecei realmente a dedicar-me à escrita. E comecei a compensar por tudo aquilo que não conseguia dizer. Escrever compensa tudo o que não consegues dizer no momento.

Alguma vez considerou escrever um livro?
Definitivamente consideraria. Acho que faz parte do meu chamamento. Mas como seria ainda não sei. Mas sinto que de certa forma já estou a escrever a minha história. Não sei se um dia a consolidarei num livro, mas sinto que já o comecei a escrever.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

TELONA QUENTE 283


Roberto Rillo Bíscaro

Em 1895, Leon Tolstoi publicou o longo conto Mestre e Homem. Numa Rússia profundamente desigual, onde campesinos viviam ainda em condições medievais, o autor magistralmente desenhou retrato de como a ganância pode ser fatal, além de um dos mais célebres momentos de epifania da literatura.
No dia imediatamente após o Natal, o próspero negociante Vasily Andreyevich Brekhunov ignora as festividades e o gélido inverno e cai nas perigosas estradas nevadas de um dia de tempestade. Tudo porque queria adquirir uma propriedade e aquela época do ano era ótima pra negociatas, afinal, a maioria estava desfrutando do quentinho com suas famílias. Mas, o Ebenezer Scrooge czarístico tem que lucrar. Conduzindo o trenó, o campônio Nikita, beberrão e tão acostumado a ordens, que jamais questiona o amo sobre os perigos.
Tolstoi congela os ossos do leitor com sua descrição da ventania polar da tempestade e seu narrador onisciente dá abertura pra tantas discussões, que análise do conto proporcionaria um curso. Sem contar o segmento derradeiro, de inteligência ímpar.
Transpor os devaneios e elucubrações do narrador de Tolstoi pruma narrativa imagética certamente implica perdas, mas o diretor britânico Bernard Rose saiu-se bastante bem com sua adaptação de 2012, Liquidação de Natal, disponível na Amazon Prime.
No século XXI anglofalante, Vasily é Basil, especulador imobiliário arrogante e fominha, que larga esposa e filha pra ir comprar casas leiloadas por quem não as pode pagar. Nikita é Nicky, taxista meio infantiloide, que está parando de beber e vive longe da ex-esposa, depois de ter-lhe picotado as roupas. Nem Tolstoi, nem Rose criam personagens gostáveis; não idealização duma suposta classe trabalhadora pura e elevada.
Basil e Nicky saem pelas estradas frias do Colorado, perto de Denver, região montanhosa, onde a tecnologia nem sempre consegue guiar o homem em seus caminhos. Assim, destituído de sua bengala hi-tech, que sequer é usada direito, Basil e Nicky são jogados à própria sorte.
Indicado pra quem gosta de filmes mais dialogados e com nuanças discretas, mas relevantes, daqueles típicos de mostra de cine, Liquidação de Natal é boa pedida. Melhor ainda, se pareado com a leitura do conto de Tolstoi; um complementa o outro.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

ADOÇÃO ALBINA

Cobra píton albina capturada em calçada de Maringá é adotada


O animal foi encontrado na quarta-feira (3), depois de um pedestre tropeçar nele quando voltava para casa.


A cobra píton albina capturada em uma calçada de uma área residencial de Maringá, no norte do Paraná, foi adotada por uma bióloga. O animal foi encontrado na última quarta-feira (3), depois de um pedestre tropeçar nele quando voltava para casa.

Não havia registro de autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que uma cobra desta espécie pudesse ser mantida em alguma casa da região, segundo os bombeiros.

Como a cobra é exótica, ou seja, não faz parte da nossa fauna, ela não pode ser solta na natureza. A espécie, que pode ter até dez metros, não é venenosa.

O animal foi adotado por uma bióloga que tem autorização do Ibama.

terça-feira, 9 de abril de 2019

SURPRESA!

Primeiros répteis geneticamente modificados nascem com uma “surpresinha”
Os quatro primeiros lagartos geneticamente modificados, para a surpresa dos cientistas, eram albinos

A ciência já conseguiu editar o DNA de mamíferos, aves, insetos e diversos animais… Mas os répteis ficavam de fora desse grupo. Até agora. Lagartos criados por pesquisadores da Universidade de Georgia tiveram a honra de serem os primeiros répteis a nascerem com seus genes alterados artificialmente.

Para fazer isso, os cientistas fizeram uso do CRISPR, uma ferramenta de edição genética muito utilizada em pesquisas e que obteve grande êxito com outros animais.

É sempre complicado editar um ser vivo antes dele nascer – mas essa é a época em que essa intervenção é mais efetiva. Afinal, quanto menos células um serzinho tem, maiores as garantias de que a mutação seja uniforme e efetiva em todo o corpo.

A dificuldade de editar o material de répteis era definir qual era a janela ideal para intervir. As tentativas de editar embriões já fertilizados tinham taxas baixas de sucesso. 


A alternativa, então, foi tentar alterar, primeiro, os óvulos das mães desses bichinhos. Mas esse também não é um processo fácil. Os óvulos são extremamente frágeis e permanecem muito tempo nos ovidutos das fêmeas, tornando difícil acertar a hora exata de realizar cada processo. Foram necessários dois anos de pesquisa para que se descobrisse a maneira e o momento certos de acessar o sistema reprodutivo da fêmea e fazer a alteração dos genes antes mesmo da fertilização.

E o resultado, logo de primeira, foram filhotes albinos… O que não era, exatamente, o objetivo da pesquisa. Vamos aos motivos.

O gene para o albinismo é recessivo. Ou seja, era necessário que tanto a mãe quanto o pai possuíssem o gene para que o filho desenvolvesse a condição. Os pais podem não ser albinos, mas é necessário que o gene esteja presente no DNA deles. Isso funciona tanto para humanos quanto para lagartos.

Assim, se um filho nasce albino, significa que o pai possui o gene, certo? Não para esses quatro lagartinhos.

Os cientistas fizeram mutações nos óvulos das mães enquanto ainda estavam crescendo dentro delas. Eles alteraram o gene da pigmentação para que, depois de muitas gerações de descendentes e meses de estudo, nascesse um lagarto albino.

Quando ficaram satisfeitos com seus óvulos mutados, os cientistas promoveram o primeiro cruzamento entre essa mãe de óvulos mutantes e um lagarto normal. Resultado? Aqueles descendentes albinos, esperados para muitas gerações à frente, apareceram logo de primeira. Os quatro lagartinhos, de primeira, nasceram quase transparentes. Qual seria a explicação para isso?

É possível que o gene do óvulo alterado tenha “danificado” o gene paterno após a fertilização – mas os cientistas ressaltam que ainda são necessárias mais pesquisas para confirmar (ou negar) essa hipótese.

A tentativa e êxito da mutação em óvulos é um grande avanço para o estudo da evolução genética dos répteis. Ainda assim, tem muito chão pela frente para entender o que aconteceu com esses lagartinhos que mal começaram a caminhar.

TELINHA QUENTE 355


Roberto Rillo Bíscaro

Qual emissora de país “periférico” (EUA é centro, Grã-Bretanha mais ou menos, o resto é periférico; esta é a ordem mundial) não sonha com suas séries bombando na audiência doméstica, exportada pra prestigiosa BBC, além de disponível na Netflix norte-americana e na culturete PBS?
A australiana ABC não valorizou seu produto rentável. The Doctor Blake Mysteries só perdia em audiência prum drama da BBC (e a diferença não era grande), mesmo assim foi cancelada pela estatal, num lacônico comunicado que pegou até os produtores e elenco de surpresa. Rumores de bastidores disseram que a série era muito “branca” e fora de moda.
Em meio a cortes orçamentários, a série detetivesca nunca foi querida da rede, obstinada em alcançar público mais jovem. Desde a redução no número de episódios após a temporada primeira, o detetive diletante de Down Under crava primeiro lugar na audiência australiana e é visto em mais de 100 países, mas a ABC não dá valor. Na Netflix brasuca não tem, mas deveria.
Os 8 episódios da quinta temporada e o telefilme com duração de 90 minutos fecharam o ciclo de Lucien Blake e Jean Beazley na ABC, em 2017. Em clima retrô quase cinquentista – por isso a ABC não gosta muito: molecada talvez não assista e é garotada quem consome mais bobageira, – o médico continua resolvendo os assassinatos de Ballarat.
Por se tratar da derradeira temporada, fios soltos do passado são aparados, contas acertadas e embora Blake lute menos contra a burocracia policial, sua grande batalha pessoal é poder finalmente se casar com a católica Jean, que vive dividida entre a hóstia e a vontade de cama. É 1960 e a série é retrô, mas dá vontade de dizer pra essa mulher parar com isso e aproveitar o bofe escândalo que teve sorte de arrumar! Não que queiramos ver cenas de cama entre os 2; acho que fãs de The Doctor Blake Mysteries até curtem que não haja, não por puritanismo, mas porque isso torna o show diferente. Mas, ela já enrolou bastante, enough is enough. Se não, deixa pra outra.
Pra quem nunca viu, sem problema: os casos continuam autônomos; só há esse fio condutor que perpassa perifericamente a série, como é comum neste século. Os casos continuam em ambientes diversificados, a reconstituição de época charmosa e eficiente, as personagens gostáveis, enfim, assassinato pra diversão após o jantar.
O telefilme funciona como episódio meia hora mais longo, apenas se enche mais linguiça com a parte das pistas e assunções falsas. Ah, mas deu dó do Patrick! Ele era chato, mas estávamos acostumados com ele desde a temporada um. Chuif...
Devido à forte base de fãs no mundo todo e esforços do próprio elenco e equipe de produção, o Channel Seven comprou os direitos e prometeu sexta temporada. Mas, Craig McLachlan viu-se engolido por onda de acusações de assédio sexual, resultante do tsunami desencadeado por Kevin Spacey. 
A emissora prometeu então, uma série de quatro telefilmes, onde a atriz Nadine Garner, a Jean, passaria a ter papel mais central, porque seu marido estava desaparecido. Em novembro do ano passado, foi ao ar The Blake Mysteries: A New Beginning. Situada nos dias do assassinato de John F. Kennedy, a história traz Jean ajudando o Superintendente-Chefe Mathew Tobeck a resolver um caso de múltiplos assassinatos. Pouco é dito sobre O Dr. Blake: ele desapareceu tentando resolver um caso, e pronto; agora o show era de Nadine, produtora-executiva, inclusive. E é tão fofo quanto com o Doutor Blake. O roteiro reforçou a atuação de um par de personagens secundários, com os quais os fãs estávamos acostumados e amávamos há várias temporadas. Além disso, introduziram um Cabo bonito e sorridente, tipo Constable Collins, de Miss Fisher's Murder Mysteries e uma garota "rebelde", mas salvável. Ficou fofo, como sempre, mas, parece que o encosto do Doutor está pesado. O Channel Seven revelou que, pelo menos pra 2019, não há planos pra outros telefilmes. Jeito elegante de dizer que o projeto acabou.  

segunda-feira, 8 de abril de 2019

CAIXA DE MÚSICA 360



Roberto Rillo Bíscaro

Camelias Garden começou como projeto-solo do vocalista/tecladista/violonista/tamborinista Valerio Smordoni. Ele logo convidou o baixista/percussionista Marco Avallone e o guitarrista/violonista/ukulelista Manolo D'Antonio. Todo mundo no Camelias Garden é multi-instrumentista dos bons.

Em 2013, saiu o álbum de estreia, You Have a Chance. Como se não bastasse a proficiência instrumental do trio, chamaram convidados para tocar fagote, violino, violoncelo, flauta e percussões diversas. O resultado é riqueza instrumental, que comoverá fãs de folk prog dos anos 1970, especialmente os adoradores do fundamental Principe Di Un Giorno (1976), do Celeste. Mas, o Camelias Garden (CG) não é cópia, apenas parece conhecer bem e atua nos vetores determinados pelo PFM ou Harmonium.

Pastoral é o primeiro adjetivo que vem à cabeça para definir o suave som do CG, que, graças à diversificada instrumentação convidada, não resvala na mesmice do folk violonado nas dez faixas de You Have a Chance. Como não fazer comparações árcades em um álbum que abre com pássaros chilreando, em Some Stories? Os doces vocais em inglês e o violão dedilhado são constantes durante o álbum, mas, estão acompanhados por solos de outros instrumentos, dignos de derreter o coração. A melodia de Some Stores é reprisada como conclusão do álbum, mas, com letra distinta. O clima dessa vez chega ao quase ambient e a canção é salpicada de sons de grilos e água corrente de ravina, além de citações das faixas anteriores, de longe, como se sintonizadas num velho rádio AM.

Conforme indicam as barras no título, Dance Of The Sun/The Remark/Dance Of The Sun (Birth of the Light) é composta por seções, procedimento tão caro ao rock progressivo. Nem se trata de quilométrica suíte, são apenas seis minutos, mas que passam do folk medieval ao prog sinfônico, para finalmente retornar ao medieval dançante. Dá vontade de dançar ao redor de fogueiras de plenilúnios medievos.

Decididamente um álbum que agradará muito mais às almas gentis, o momento mais áspero está em We All Stand In Our Brokenn Jars. Fantástico solo de guitarra envigora a canção, não sem antes haver momentos de madrigais costurados entre violoncelo e outras cordas e teclas. Nesse e em outros momentos, Steve Hackett orgulhar-se-ia dos jovens ítalos.

Por falar em Genesis, Camelias Garden é cem por cento indicável para fãs do grupo inglês. O clima pastoral do início da fase Gabriel prevalece em mais de uma faixa, mas a influência do início da era Collins também se sente. Os mais de nove minutos de Mellow Days praticamente funcionam como tributo aos ingleses, sem soar como cópia. Trata-se de melancólico folk sinfônico, com mudanças de tempo e solo de guitarra de emocionar. Há momentos em que um teclado à Firth Of Fifth convive com percussão de corredeira, como emThe Cinema Show. Fãs de sinfônico provavelmente escolherão Mellow Days como ápice de You Have No Chance. Meu caso.

Cheio de melodias memoráveis e assobiáveis, o folk do CG vem temperado com pop em The Withered Throne; precedido por clima de hino anglicano, em ‘Till The Morning Came e dialogando com a tecnologia setentista, dos teclados Hammond, em Knight’s Vow. Se bem que esses teclados analógicos estão por todo o álbum, dando-lhe sabor bem vintage, embora com produção clarinha da modernidade. A instrumental A Safe Haven é a mais destoante do conjunto, porque vem carregada pelo piano debussyano em alguns momentos. Logo se vê, que, neste caso, desviar não é prejudicial.
    
O Camelias Garden evoca passeios por perfumados jardins e pode ser desfrutado no Bandcamp.

sábado, 6 de abril de 2019

TROPEÇO ALBINO

Um rapaz caminhava pela rua quando tropeçou no que achava ser um galho, mas que tratava-se de uma Píton Albina. Assista à reportagem do SBT.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

TELONA QUENTE 282

Roberto Rillo Bíscaro

O returbinamento da franquia de horror Halloween, no ano passado, incentivou-me a rever todos os filmes da série e comentá-los pros leitores do blog. Como já me referi ao clássico de 1978 por várias vezes, esta postagem fala de Halloween II em diante, sem contar com o filme do ano passado, também já resenhado


Quando Halloween II (1981) foi lançado, slasher films já despertavam a ira da censura e o período mais lucrativo em termos de bilheteria pra cinemas já estava em declínio. O subgênero continuaria produzindo dezenas de filmes e a chamada Era Dourada dos slice’n’dice acabaria em 1984, mas durante anos foi tudo mera repetição de fórmula e tentativas de causar mais ultrajes, mediante tramas cada vez mais amalucadas e mortes mais despirocadas e sangrentas (que nos cinemas eram editadas).
Originalidade não existe na parte dois, que pode ser tranquilamente usada como roteiro-guia pra elaborar um slasher padrão. Isso não significa que seja inassistível, mas é pura fórmula. Como na segunda parte de Sexta-Feira 13, a história segue na mesma noite em que ocorreu o primeiro filme (quem copiou de quem?); estratégia que seria reutilizada e estendida na franquia O Terror no Pântano, já do século XXI.
Laurie é levada ao hospital e lá Michael Myers tenta eliminá-la vez mais. A quantidade de implementos e instrumentos da locação permite mortes mais diversificadas e o caráter labiríntico da construção contribui com muitos esconderijos e recônditos. Claro que o filme é repleto de decisões estúpidas e o maciço hospital é convenientemente deserto de funcionários e pacientes. Pra quem cresceu com aquelas ambientações bem início dos 80’s, é supernostálgico.
Foi em Halloween II que a mitologia começou a ser complicada a ponto de perder qualquer verossimilhança depois. Laurie é definida como irmã do mascarado. Pra que, né? Naquela época Jamie Lee Curtis vivia sua fase scream queen, então ainda participou da sequela.
A sequência do ano passado pede que desconsideremos qualquer filme que não seja o primeiro. Beleza, mas, o final do II, de 81, indica que a técnica pra eliminar Myers, em 2018, pode não ser totalmente eficaz.
Ou foi a ideia mais estúpida ou mais audaciosa do mundo do horror, nos anos 1980, mas a terceira prestação da franquia aboliu Michael Myers e partiu pra algo totalmente distinto. O preço que Halloween III: Season of the Witch (1982) pagou por isso foi retumbante fracasso de bilheteria e opróbrio provavelmente eterno. Nem é um mau filme, mas o III do título, o uso de frações da trilha-sonora original e a ausência do psicopata dão muito a sensação de ludibrio.
Enquanto o Halloween, de 78, mama em Psicose, este deve muito a Invasores de Corpos: a cidade chama Santa Mira e tem protagonista bigodudo berrando em telefone público. Embora tenha algum gore oitentista, a trama está mais pra episódio d’A Quinta Dimensão. Uma indústria de brinquedos pretende usar um comercial de TV pra induzir crianças a surtos psicóticos mortais, durante o Halloween. Tudo está conectado a uma baboseira de bruxaria envolvendo Stonehange. Tontice.
Se sua intenção for seguir a franquia, pule essa enganação. Se for ver, aviso: é pra quem é beeem fã dos sons e visuais oitentistas. Uma coisa há que admitir, porém: matar criança é meio tabu até hoje, no horror norte-americano, mas Halloween III não se fez de rogado!
E daí, os 80’s passam quase todos e nada de Michael Myers reaparecer, como seus colegas Jason Voorhees e Freddy Krueger. Slasher films haviam deixado de ser tendência há anos, mas o mercado de vídeo e mesmo os cinemas ainda justificavam o baixo investimento em produções baratinhas. Foi numa delas que Brad Pitt começou...
No auge dos cabelos everesticos da década, 1988, eis que surgiu Halloween 4: The Return of Michael Myers. No que concerne slashers do período, nem é um mau filme. Dez anos depois do massacre em Haddonfield, o perigosíssimo assassino é transferido do hospital. Sua periculosidade é tão alta e ele a personificação tão letal do mal, que uma ambulanciazinha, equipada à filme B, serve de transporte. Claro que ele mata todo mundo, escapa e retorna a Haddonfield. Não importa que jamais tenha tido contato com coisas do mundo exterior, Myers sabe operar qualquer máquina. Como é o mal, é onisciente, onipresente e onipotente. E o Dr. Loomis tenta matá-lo com um revórvinho... Donald Pleasance - com queimadura superfake na cara, seu sobretudo e sua canastrice - estava de volta.
Jamie Lee estava com a estrela em alta, era “atriz séria”, então não participou. Na verdade, sua personagem foi morta, mas deixou filha. É essa menininha que Myers quer matar agora. Sua sobrinha; não deixem de prestar atenção à “lógica” da franquia! Se você acha doentio que um adulto mascarado persiga uma garotinha de 8 anos pra esfaqueá-la, espere até os comentários da parte 5! Pra proteger a guria: levam-na prum casarão esparsamente povoado, deixando-a pra dormir sozinha em um quarto.
Não entendo porque tantos elogiam o final “criativo” d’O Retorno de Michael Myers. A plot twist é legal, mas àquela altura, Halloween copiava sua cópia Sexta-Feira 13, que em uma de sequências indicara caminho similar. Nota: nenhuma das duas séries teve audácia pra trilhá-lo. 
Embora haja mortes legais, esses filmes têm muito blá-blá-blá, é mais pra completista mesmo. As mortes estão compiladas em vídeos no Youtube... Mas, ainda gosto de revê-los. A propósito, se tem algum valor “histórico”, Halloween 4 pode se gabar de ter sido a estreia de Danielle Harris, que até hoje é presença marcante em filmes de terror. Ela esteve nos Halloweens de Rob Zombie, foi uma das Marybeths, d’O Terror do Pântano e muito mais.
Como havia deixado de ganhar muita grana na parte mais polpuda da década pra slasher, o produtor Moustapha Akkad apressou-se a começar as filmagens de Halloween 5: The Revenge of Michael Myers, lançado, em 1989. Desastre em termos fílmicos, anunciado por um roteiro sem terminar. E financeiro (mais ou menos), porque começava a hibernação do subgênero, que só se revitalizaria em meados dos 90’s.
Michael Myers virou Jason Voorhees: mata até com ancinho, casal trepando num celeiro. Não dá pra dizer que as mortes não sejam legais, ou que não haja momentos de tensão slasher. Há, mas o roteiro é tão podre e a produção/atuação tão irritantes em seu desleixo, que incomoda. Antes havia o cuidado de disfarçar o vicejante verde californiano pra nos fazer crer que estávamos no outono dourado do Meio-Oeste. Na parte 5, Haddonfield está tão verde, no ocaso de outubro, como na primavera! Há dupla de policiais patetas, cuja trilha-sonora é literalmente de efeitos cômicos circenses. Podre demais.
Se você conseguir abstrair esse mambembismo é até legal. Há momentos de suspense; é bem divertido rever a sobreposição madonística de roupas e acessórios de final da década, e, sobretudo, delicioso ver algumas das personagens mais esganiçantes do planeta slasher sendo merecidamente exterminadas! Como guinchava aquele elenco, por Deus!
Prá vários fãs, forte concorrente a pior entrada da franquia. Mas, creio que ter menininha de 9 anos como scream queen e final girl, em cenas bem angustiantes, deveria ser lançado como crédito à parte 5.
Muito pior que qualquer sequência oitentista é Halloween: The Curse of Michael Myers (1995). Descontem meu dissabor pra com o visual e som dos anos 90, mas esse filme, além do roteiro sem sentido, nem mortes legais tem muitas. Pra esse recomendo mesmo procurar só os ataques do mascarado. Nem o Dr. Loomis redime, porque a participação de Donald Pleasence é pequena e sem função. O ator morreria antes do lançamento; sua voz tá bem fraquinha, dá dó.
A simplicidade basilar do original de Carpenter complicava-se cada vez mais. Desta feita, a garotinha dos dois filmes anteriores parece que era mantida cativa num complexo subterrâneo e consegue fugir ao dar a luz. Determinado a extinguir sua família, Myers sai atrás da sobrinha e do sobrinho-neto e acaba encontrando mais Stroders. Parece coelho essa parentalha! Tudo é muito confuso e envolve malévolo culto satânico de médicos, que querem ter a pura maldade de Michael a seu serviço. As mortes, assim, passam a ter sentido sacrificial, meio Bebê de Rosemary. Uma porcaria.
Tem hora que tem tanto flash na imagem, que não dá pra ver nada. Nem perca tempo, olha só as mortes e boa:
1998 celebrava duas décadas da obra-prima de John Carpenter, além da inesperada ressurreição do subgênero, com o estrondoso sucesso de Pânico. Entretanto, no final do milênio, o hipster era explicitar/parodiar os lugares-comuns dos filmes de horror. Pra vocês verem como fazer isso hoje, já é antigo, já é, por si, convenção engessada. A carreira de Jamie Lee Curtis não estava mais tão lucrativa, então era hora de fazer exatamente como o atual Halloween: trazer Laurie Stroder de volta e desconsiderar qualquer sequela a partir da segunda. Isto posto, a scream queen mais famosa continuava irmã do serial killer.
Não falta quem elogie Halloween H20 e não dá mesmo pra desconsiderar que a Baronesa Haden-Guest (sério, Jamie Lee tem título de nobreza) trabalha muito bem e eleva o nível, mas slasher é morte e não há muitas!
Vinte anos após o massacre em Haddonfield, Laurie encontra-se reclusa como diretora dum internato chique na Califórnia. Tem problemas com alcoolismo (como Curtis, à época) e superprotege seu filho. Perceba que a filhinha foi pro espaço. Myers a descobre na escola e faz de tudo para matá-la. O roteiro é bem de volta ao básico, o que é bem-vindo, mas tanto tempo tem que ser gasto com o drama de Laurie e piscadinhas autorreferentes, que Michael não mata muito. É tudo elegantemente dirigido por Steve Miner, amado por fãs de slasher, porque dirigiu 2 Sexta-Feira 13 e estava em consonância com a visão original de John Carpenter. Mas, vinte anos haviam se passado e o roteirista não é John...
Dá pra curtir mais como suspense do que terror e deixe-me contar uma das piscadelas autorreferentes: a secretária de Laurie é a atriz Janet Leigh. Janet é mãe de Jamie Lee Curtis e estrela do influente Psicose, um dos modelos de Halloween. O resto é com quem decidir assistir, mas, preste atenção no nome da velhinha, no que ela fala e no carro que dirige. 
Em 2002, nova descida ao fundo do poço, com Halloween: Ressurrection. O nome já indica que a morte de Michael Myers em H20 foi de mentira. A explicação é estapafúrdia, mas se fosse esse o problema, fãs de slahser perdoariam, porque é um dos traços do subgênero. Se o anterior foi influenciado por Pânico, este é tentativa de emular o sucesso da Bruxa de Blair (1999), que ignificou a onda dos found footage films. Não que Ressurrection seja um, porque o filme não sabe o que é. Os primeiros dez minutos são de slasher clássico, quando Myers finalmente acerta as contas com sua irmã Laurie. Jamie Lee topou voltar pra esse desfecho, depois de dizer que H20 seria seu último Halloween. É a única parte que presta. Depois, a trama inexplicavelmente volta-se prum reality show, que se passaria na casa dos Myers. Mas, ficara estabelecido em H20, que Laurie Stroder tinha um filho. Se o objetivo de Michael era exterminar a família, porque não foi atrás do jovem, ao invés de retornar a Haddonfield. Será que precisava hibernar?
Como ele volta à cidade natal não é estabelecido, mas, uma vez em casa, começa a eliminar os participantes do webshow. Essa é a desculpa pra que as mortes sejam mostradas via câmeras, numa simulação do que os espectadores do reality viam. Também é a desculpa pra qualidade de imagem podre da maioria dos ataques.
Nem final girl Halloween: Ressurrection tem. À época, Busta Rhymes estava com tudo e como trabalhou no filme, claro que tem que ser o solucionador do problema. As cenas em que usa golpes de kung fu, com aqueles gritinhos e tudo, são constrangedoras.
Mediante tal fiasco/fracasso, a franquia ficou dormente 5 anos, e quando ressurgiu, ganhou novo reboot. Em 2007, o roqueiro industrial Rob Zombie escreveu e roteirizou Halloween, que contava a mesma história do original, mas do seu jeito, exagerado e explicando tudo. O legal desse recomeço é que boa parte é dedicada à (de)formação da loucura de Michael. Pode-se alegar que isso quita a aura de mistério engendrada por John Carpenter, mas pelo lado positivo, resulta em mais mortes e estamos falando dum slasher!
Durante a infância do assassino, todo mundo tem visual grunge white-trash e a boca imunda. Irmã biscatinha, mãe stripper, pai que chama o filho de viado, enfim, é tudo milimetricamente planejado pra explicar a bestialidade de Myers. Até o Dr. Loomis tem aparência grunge! A roqueirice de Zombie perpassa a trilha, que tem até Rush. A clássica banda-sonora de Carpenter – tão reconhecível quanto a de Psicose – tem seu espaço, mas a composta pra Halloween do século XXI é grandiloquente, over the top, como toda a produção.
A releitura dividiu opiniões, como não podia deixar de ser, mas, como filme slasher, sustenta-se muito bem e dá pra perceber que Zombie respeita e gosta do material original. Há várias cenas-homenagem, além dum elenco cheio de ícones do subgênero, como Danielle Harris, a sobrinha de Michael Myers nos 80’s e Dee Wallace, scream queen também oitentista, familiar pra fãs de horror. E, claro, Malcolm McDowell, como Dr. Loomis. Ninguém roubará o espaço de Donald Pleasence de nosso coração cinquentão de fã original, mas McDowell também tem seu crachá britânico canastrão. 
Em 2009, Zombie provavelmente sentia-se confiante com o sucesso da reinvenção da franquia e decidiu expressar sua criatividade em Halloween II, distanciando-se do original. A trama se passa na mesma noite do primeiro, num hospital deserto. Nada errado expressar suas próprias ideias, desde que não sejam de jerico. O número de mortes é astronômico, mas a mais merecida é a da franquia, que ficou no necrotério por quase uma década antes do reboot de 2018.
Fã de slasher gosta de óbitos violentos, claro, mas Zombie faz Myers virar máquina de moer carne, sem o menor suspense. Num filme excessivamente longo, com 2 horas, há diálogos estúpidos supérfluos; uma gente que parece que jamais saiu dos anos 80 ou da sujeira grunge e desesperada tentativa de aprofundar freudianamente uma personagem que recebe descargas de metralhadora e não morre. Pra quê ficar explicando o inexplicável? Torcemos pra que todo mundo morra, não importa como, pra que o filme acabe logo. Parece que há uma versão extended: acho que eu preferiria assistir a uma aula de geometria analítica, sem nem saber direito o que é!