segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 328


Roberto Rillo Bíscaro

Semana passada, a soul music perdeu sua Rainha, Aretha Franklin. Felizmente, divas negras do gênero continuam aparecendo, como atestam dois ótimos álbuns canadenses. 

Tradição no fim/começo de anos é eu buscando listas de melhores álbuns de rock progressivo e R’n’B/soul. Especialmente de publicações mais especializadas – embora não descarte Rolling Stones ou The Guardian. Sites específicos ou hipster sempre trazem artistas que não conhecia e que não teriam espaço em listas mais mainstream.
Nem lembro em que lista vi o álbum Soul Run, de Tanika Charles, mas como cantoras sempre têm minha preferência, fui atrás no Bandcamp, na hora, enquanto lia as demais entradas do ranque. A faixa-título quase me derrubou da cadeira, de tanto que pulei de frenesi rebolante e embora não tenha visto o álbum em nenhuma outra listagem – hipster ou mainstream – sei de coração que foi um dos grandes de 2017.
A canadense vem trabalhando no circuito musical independente de Toronto, desde 2010 e em abril do ano passado estreou em álbum com Soul Run. Depois da dispensável Intro vem a faixa-título, dínamo com letra empoderada, que aliás, abundam por todo o álbum.
Quem diria que uma judia inglesa abriria público e influenciaria negras do “Novo Mundo”? De modo algum Tanika Charles imita Amy Winehouse, mas ambas navegam na mesma tradição do R’n’B/soul sessentista/setentista popificado, com letras mal-criadas se necessário, pra marcar território. Em More Than a Man esse parentesco aparece mais vividamente do que em qualquer outra faixa, seja em alguns maneirismos vocais, seja na letra que reclama do bofe que não sabe a hora de desgrudar (mas isso é dito com um palavrão, à Amy, que repousa na glória eterna, amém!).
Soul Run é conciso coquetel midtempo, que remeterá aos áureos tempos da Motown/Atlantic/Stax, mas sem soar antiquado, muito pelo contrário: perceba como algumas harmonias e progressões de Darkness & The Dawn são de hip hop, mas estão ressignificadas como vintage. Formalmente, a mais inteligente do álbum e ainda por cima com vocal inacreditável.
Quero ver fã roxo de soul conseguir deixar de estalar os dedos, quando começar a percussão de Love Fool. Heavy investe no B de rhythm’n’blues, enquanto Endless Chain é lufada de primavera, com coro que parece saído de Why Should I Love You, aquela subestimada colaboração entre Prince e Kate Bush, na geração passada.
Soul Run é um grande álbum, e não há desculpa de inacessibilidade, porque ei-lo, no Bandcamp:

Também do Canadá, mas de Montreal, vem o trabalho de Dominique Fils-Aimé, que, apesar do nome e da cidade ser a segunda maior do mundo a falar francês, canta em inglês.
Seu segundo álbum, Nameless - cujo título foi inspirado pelo poema Still I Rise, de Maya Angelou – saiu em fevereiro. Dada sua fonte inspiratória, não surpreende o caráter ativista de algumas letras e o mergulho em e influência de modos vocais e artistas negros da primeira metade do século 20.
Já que a opressão é uma preocupação do conciso álbum, Dominique o abre atrevidamente fazendo cover apenas vocal de Strange Fruit, clássico sobre os linchamentos de negros, no sul dos EUA. A canção já passou por bocas de Billie Holiday à Siouxsie Sioux e a canadense escolheu abordá-la como todo o resto de Nameless, de forma esparsa e minimalista. O resultado sumariza o álbum: impressionante.
Ao escolher que menos é mais, Fils-Aimé tinha que ter gogó e isso não lhe falta. Não se trata de trabalho jazzístico/Neo Soul de diva gritona, pelo contrário. O momento mais primal é durante a quase sexy Sleepy, mas nesse álbum significa que pode passar despercebido pro ouvinte menos atento.
Nameless de jeito nenhum dá sono ou é frouxo. Com vocal que de vez em quando lembra influência também de Sade, além das grandes mais antigas, Dominique intercala interpretações vindas discretamente da alma, com silêncios que assombram, como em Home. E como dissociar a experiência afro-diaspórica dos convenientes, sonoros e assassinos silêncios ao longo de séculos?
Mesmo quando opta por apenas murmurar, como na integridade de Unstated (olha esse título!), Dominique cria uma senhora faixa: além da metáfora do abafamento, em termos sonoros os instrumentos não deixam de se referenciar a certo tipo de hip hop mais agressivo, mas sem sê-lo; ouça pra crer.
É tudo muito delicado e discreto. Em Birds, basicamente há um obeso contrabaixo e sons percussivos recriando rufares de asas. Na faixa-título, o violino flutuará por seus ouvidos feito aparição.
Em época de tanta ostentação de terceira categoria e  rival imaginada barulhentamente combatida com tiro, porrada e bomba, Dominique Fils-Aimé se destaca, porque dá tapa na cara de inimigo bem real, mas com luva de pelica cravejada de pregos.

domingo, 19 de agosto de 2018

KARATÊ DA SUPERAÇÃO


Gabriel nasceu com mielomeningocele, também conhecida como espinha bífida aberta, malformação congênita da coluna vertebral da criança em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. Depois de operado, ainda no dia do nascimento, o menino começou longa jornada de superação, bastante facilitada pelo karatê. 

sábado, 18 de agosto de 2018

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 249


Roberto Rillo Bíscaro

No último decênio, têm aparecido bons filmes referenciando o horror/suspense dos anos 1970. Fugindo do ritmo aloprado, barulhões estridentes e recursos digitais da contemporaneidade (nada contra!), produções como Ainda Estamos Aqui, A Casa do Demônio e Corra! acabam se destacando. Isso pra lembrar aquelas resenhadas no blog.

Este ano, já saíram dois bons exemplos dessa reciclagem de formas setentistas de contar histórias. Um deles vai muito atrás. Ghost Stories pode ter seu DNA traçado ainda em 1945, quando o brasileiro Alberto Cavalcanti dirigiu Dead Of Night, na mesma Inglaterra do filme de 2018.
Ambos são antologias, formato muito em voga nos anos 60 e 70, nas veneráveis Hammer e Amicus. Na verdade, o desfecho de Ghost Stories está em uma antologia predecessora, mas, obviamente, não direi qual.
Philip Goodman é professor universitário, que também tem show de TV dedicado a denunciar fraudes paranormais. Crê prestar grande serviço à causa da racionalidade, até que seu mentor o contata pra desafiá-lo com 3 casos de histórias fantasmagóricas inexplicáveis. Entremeando cada caso e no final explicativo, seguimos a trajetória de Phil, cada vez mais em dúvida sobre a inexistência do sobrenatural.
Ghost Stories não apenas resgata o consagrado formato de trinca de historietas fantasmagóricas, mas usa alguns recursos típicos dos filmes de antanho. Tudo se passa numa Inglaterra aparentemente deserta e opaca, sem nojeira ou ruídos pra assustar. Ghost Stories é mais atmosfera arrepiante do que orgia gore. E não é que mesmo assim, conseguiu me dar um susto da maneira mais óbvia possível?

E não é que o Cannesnizado Steven Soderbergh conseguiu transformar a reprimida e esnobe Elizabeth II numa norte-americana de boca suja, que não tem medo de partir pra porrada? Claire Foy, de The Crown, dá show em Unsane, cuja filmagem usando um iPhone deixou-o ainda mais parecido com os inspiradores exploitation films setentistas.
A trama sensacionalista (mulher trancafiada num manicômio contra a vontade), que objetifica a protagonista pra depois torna-la agente (de mentirinha, claro); o amigo bonzinho que vive pra mocinha e até final em freeze frame (há anos não via isso!); é tudo puro anos 70. Só que com nomes consagrados. Então, fica cool gostar! Mas, essa tradição da mulher engaiolada, especialmente em presídios, bombou nos 70’s e vem até nos uniformes laranja considerados como os novos negros. Unsane é a junção dessa vibe com a de gente injustamente trancafiada como louca, ”denúncia” social e o clássico mulher-perseguida. É tudo muito divertido, mas não tem nada de original, por isso o diretor tratou de chamar a atenção para a forma como filmou e chamou Foy. Espertinho.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ZOOFILIA COM JIBOIA

Jiboia 100% albina é filmada em Michigan, nos EUA

Um réptil de origem colombiana foi encontrado numa loja de répteis, "BHB Reptiles", no estado de Michigan, EUA. A peculiaridade é que este animal é albino, o que lhe confere uma fisionomia única!

Veja o vídeo, através do link:

CONTANDO A VIDA 244


À BEIRA DO ABISMO: apocalipse e redenção.



O título é proposital. O alarme se faz necessário e urgente. O motivo remete às próximas eleições. E não poderia ser diferente, pois vivenciamos o resultado de alguns desastres políticos. É logico que o próximo pleito não será a solução, mas pode ser a porta para mudanças que precisam ser ventiladas. Como nunca é preciso discutir e apresentar ideias; ouvir e pensar são medidas capazes de nos mover do simplismo do “acho X não acho”. Por favor, acalmemos o radicalismo que existe em cada um de nós. Saiamos das cavernas tenebrosas dos extremos e saibamos promover debates. Por lógico, não se espera que haja abandono de posicionamentos filosóficos, de descomprometimentos com ideais que nos definem, mas daí à intolerância vai um abismo de distância. Como elemento mediador de diálogos, se fala em temas que podem perpassar reflexões de esquerda ou direita. 

Os primeiros debates, as apresentações iniciais estão postas. Ainda que nenhum candidato tenha exposto projetos consistentes, as linhas gerais estão esboçadas e nelas os assuntos preferentes do eleitorado. Uma primeira leva de medidas remete às reformas. Além da reforma política, a trabalhista ou previdenciária se faz notável pelos acontecimentos recentes, em particular pelo aumento de mais de 16% dos vencimentos do Judiciário. Em vista disso, parece premente que pensemos nesse instituto como ponto de partida para outras considerações. Lembrando que o equilíbrio dos três poderes é condição para a democracia, parte-se da premissa que coloque o Judiciário na condição do ordenamento que o justifica, ou seja, como instancia de poder decisório sobre o andamento do Executivo e do Legislativo. 

De regra, o Poder Judiciário deve ser discreto, sóbrio e sempre falar nos autos e por escrito. Esta regra é pétrea e funciona em grande parte dos países ditos civilizados. Em outras plagas, mal se sabe o nome das autoridades supremas da ordem jurídica. Pouco aparecem, raramente se expressam em público e tem seus salários publicados com prestações de contas transparentes. É assim em quase toda a Europa, nos Estados Unidos, Canadá, Japão. Na América Latina, mais precisamente os estados que passaram por traumas ditatoriais, exatamente para a superação de desmandos cultivados nas casernas governamentais, o ajuste libertário tem demandado exposições muitas vezes danosas ao convívio público, condição essencial em repúblicas maduras. Nesse conjunto, o caso brasileiro é exemplar do que não deveria ser. Pela projeção nada inocente dos órgãos de divulgação, em particular pelos canais televisivos, os juízes da Suprema Corte viraram pop stars. Os destaques nos noticiários os fazem centro de atenções e frequentadores de shows e entrevistas onde suas vidas aparecem como de celebridades.

Falando a torto e a direito, dando opinião aberta, vão cultivando aspectos pouco cabíveis a togados erigidos à condição de ministros. É de se tomar cuidado em não vazar opiniões que maltratem o órgão a ponto de negar sua relevância. Ele é essencial e seu bom desempenho mais do que desejável. É exatamente por isso que se apedreja o aumento de salário que se mostra afrontador da condição pública. O efeito cascata da elevação desses proventos supera quatro bilhões de reais, dinheiro a ser descontado do orçamento geral da nação. É demais. Demais não apenas pelas cifras (as maiores do país), mas também e principalmente pelo descaramento apresentado a um país com mais de 13 milhões de desempregados e com um salário mínimo ridículo.

Superando as constatações, convém lembrar que os cargos são de escolha do Executivo, portanto do Presidente da República. Este é um ponto a ser ferido. Não há de se tratar o assunto como se fosse opção de um mandatário, ainda que derivado de lista tríplice. A promoção deveria ser feita por sequência e progressão de carreira, avaliada por comitê jurídico competente. 

Outro ponto importante remete ao número de seus participantes. No momento são onze membros que funcionam em regime de circulação de cargos de comando. Fala-se, contudo em aumento, e os argumentos se assentam em número excessivo de processos que chegam ao julgamento do Supremo. Seria plausível pensar na manutenção da mesma ordem numérica, mas com filtros capazes de reduzir as remessas para a instância máxima. Bastaria propor um reordenamento de apelos e um rigor maior nas instancias menores. 

Mas não é só em atenção do STF que se pensa quando se fala de reforma do Judiciário. O cargo da Procuradoria Geral da República passaria pelo mesmo crivo e o mesmo se diz da Polícia Federal, contando aqui iguais reflexões sobre salários, nomeações e desempenho público. A complicar tudo temos ainda as instâncias de decisões das eventuais mudanças. Nossa Constituição determina regras favoráveis a manutenção das coisas como estão. É lógico que cabem emendas, mas como estamos distantes delas. Talvez, a mera nomeação de possibilidades seja um primeiro passo. Vamos, juntos, tentar caminhos. Independentemente de partidos, o enunciado do problema pode ser um critério a ser conferido na política dos candidatos.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

ANISTIA INTERNACIONAL APELA

Amnistia apela aos países da África Austral para protegerem os albinos

A organização Amnistia Internacional exortou hoje os países da África Austral para que os seus sistemas judiciais protejam os albinos, que são mortos na região devido à crença de que partes do seu corpo têm poderes mágicos.


A Amnistia Internacional (IA, na sigla inglesa) relembrou num comunicado, citado pela agência de notícias espanhola EFE, que em países como Maláui, Moçambique ou a Tanzânia é comum "a impunidade" por esses crimes, o que agrava o problema.

Segundo a IA, as pessoas com albinismo são mortas devido à crença de que as partes do seu corpo têm poderes mágicos que dão boa sorte e riqueza.

"A realidade é que as pessoas com albinismo vivem com o medo constante de serem capturadas ou mortas por partes do seu corpo em toda a região", frisou Deprose Muchena, diretor regional da organzazção para a África Austral.

O responsável frisou que os albinos "vivem à mercê de gangues criminosos organizados que clamam pelo seu sangue na crença de que farão fortuna".

Entre sexta-feira e sábado decorrerá uma cimeira da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa), na Namíbia e, neste contexto, a AI solicitou à SADC a promessa de "dar prioridade" e tomar "as medidas necessárias para garantir o direito à vida, segurança e salvaguarda de pessoas com albinismo".

Segundo o comunicado da organização divulgado pela EFE, a situação dos albinos é particularmente grave em países como o Maláui ou Moçambique.

No Maláui, de acordo com dados da Amnistia, houve cerca de 150 casos de violência contra albinos desde o final de 2014, incluindo 14 assassínios.

Em junho do ano passado, apenas o processo judicial para 30% desses casos tinha sido concluído.

Partes dos corpos dos albinos são vendidos em países da África Austral, incluindo a República Democrática do Congo (RDCongo), a África do Sul, a Suazilândia, a Tanzânia e sobretudo Moçambique.

TELINHA QUENTE 322


Roberto Rillo Bíscaro

Celebro acesso a séries de países menos centrais, como quando descobri a delícia ucraniana The Sniffer. Talvez ingenuamente, apresso-me a ver - e se possível avaliar positivamente – algumas das adições não anglofalantes ao catálogo da Netflix. Fantasio que se notarem público que curta, colocarão mais opções. Como não há isonomia na divulgação das novidades, assino newsletter que traz todos lançamentos, diariamente. Chama-se, inclusive, Lançamentos da Netflix. Desinformação é escolha na era da internet.
Foi por ela que descobri O Jornal (2016), primeira série da Croácia comprada pela empresa. A temporada inicial consiste de dúzia de capítulos, numa trama que mostra a encruzilhada em que se encontra o fictício jornal Novine (nome original da série), quando é adquirido por inescrupuloso capo da construção civil. Mario Kardum obviamente nada entende e nem se importa com ética jornalística, e só quer usar o diário pra atacar seus desafetos, dentre os quais o prefeito Ludvig Tomasevic, moralista sem moral presidenciável. The Paper vai na toada “político nenhum presta” e concorda com Frank Underwood, que na temporada inicial de House Of Cards afirmou que poder é mais importante que dinheiro.
O Jornal poderia ser mais enxuta e ágil. Em seu passo desnecessariamente detalhista e reiterativo, espantará espectadores menos pacientes. Não precisava ser alucinada feito Scandal, mas daria pra contar a história em meia dúzia de capítulos, caso dispensasse cenas supérfluas e longas, como cruzamento de túneis, estendidas miradas pro nada e um sem número de cenas que não acrescentam à história. O roteiro preocupou-se tanto em dar destinos, backgrounds e explicações sobre todos, que tem um monte de desnecessidades. A tal da Dijana Mitrovic é um exemplo típico da falha de Novine: a personagem tem a bola enchida no início, pensamos que mitará, mas, na maior parte da série, nada faz.
Outro defeito d’O Jornal é que ficamos confusos com personagens demais, meio indistintos, vários sem função ou que poderiam aparecer bem menos, que mais falam do que fazem. O vilão Mario Kardum é exemplar: além de esbravejar, não vemos mostra de seu tão decantado poder, talvez no fundo porque o roteiro insista que dinheiro e poder não são o mesmo. Mas, mesmo assim, Mario só esbraveja e fala grosso com sua editora-fantoche no jornal. Também fica claro que é dominado pela mãe, mas toda vez em que contracenam, ele a contradiz e faz o que quer.
Alguém me explica se mergulhar a cara n’água com a câmera filmando por baixo é algum novo fetiche? Quem viu as duas temporadas de 3% deve lembrar que o personagem de João Miguel faz isso. Em Novine, todo mundo tem direito a uma cena assim.
Mesmo com defeitos e passo de tartaruga, O Jornal me interessou, porque histórias de intriga me agradam. Também aquele monte de gente fumando como nas produções ianques dos anos 40/50; com peles não consertadas com massa corrida e o simples fato de poder ver atores que não conhecia e as ruas duma cidade croata.
Claro que esses últimos quesitos não servem pra motivar audiência, assim, O Jornal só será lido inteiro por quem souber fechar os olhos pros defeitos e não dormir com lerdeza.
A segunda temporada encerrou filmagens há pouco e está em pós-produção. A Netflix também a adquiriu, então, se for lançada por aqui, verei. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 327


Roberto Rillo Bíscaro

Em entrevista para O Globo, Cesar Lacerda afirmou que tencionava fazer pop em seu quarto álbum, Tudo Tudo Tudo Tudo (2017). Associado ao mundinho descolado indie, o mineiro desejava romper a bolha. Conseguiu, pelo menos no caso deste blogueiro cinquentão. Deu vontade de escrever sobre o delicado trabalho que une BossaNova na música com referência jovenguardista de que tudo mais vá pro inferno na letra.
Tudo Tudo Tudo Tudo abre mão de qualquer complicação indie por arranjos despojados, diretos, assobiáveis, serenos, memorizáveis. É tipo MPB pop, então pode agradar moçada mais jovem e nós coroas, pelo menos os menos ranzinzas em relação ao “novo”.
Sempre achei Me Adora, da Pitty, meio com clima de Jovem Guarda atualizada. Lacerda regravou-a em batida Bossa, ou seja, acabou dando curto circuito nos dois movimentos rivais nos distantes anos sessenta.
Esse caráter despretensiosamente canibal e iconoclasta do pop  permeia Tudo, sem fazer alarde. Sei Lá, Mil Coisas tem guitarrinha country easy listening; O Homem Nu é suingue funkeado pra deslizar pelo calçadão em Copacabana. O Marrom Da Sua Cor é sambinha, mas algumas cordas remetem à moda de viola do interior paulista.
Tudo suave, com destaque pra voz branda de César, como na linda balada pop Por Que Você Mora Assim Tão Longe? ou na trompetada melancolia elegante de O Fim da Linha, ápice da performance vocal no álbum.
Voz cândida sobre melodias lindas. Que fã de Everything But The Girl resiste à batida Fascination do violão de Isso Também Vai Passar? Introspecção maciçamente expressa em cordas, Percebi Seus Olhos em Mim é a exceção, porque enfatiza o piano jazzístico.
Difícil não fazer owwwwn pro clima twee de Quando Alguém. Tem escaleta, assobios (um dos assobiadores é Flávio Tris), estalos de dedo e vozinha do moça (Maria Gadú). Outro owwwwn quando percebemos que o fugaz casal da linda Por Um Segundo é homoafetivo. Bem discreto, como tudo no álbum, apenas um “ele” na letra. Claro que não haveria nada de errado se a homoafetividade da letra não fosse discreta.
Escuta só que fofura é Tudo Tudo Tudo Tudo. Na página do Youtube, há link para baixá-lo/ouvi-lo/adquiri-lo em diversas plataformas.

domingo, 12 de agosto de 2018

GROOVE DA SUPERAÇÃO


Roberto Rillo Bíscaro

Difundido a partir dos anos 1930, época do Swing jazzístico, o uso da palavra groove (sulco) como gíria para ritmo popularizou-se com a eclosão do funk nos anos 1950 e consolidou-se no léxico da música dançável até hoje.

Groove Nights (The U-Nam Mixes), lançado dia 9 de julho, é paulada dançante, com um par de midtempos pra descansar a coluna. Mas, quando se trata de James Day é irresistível contextualizar os não-iniciados à sua extraordinária história de tragédia e superação.

O norte-americano sempre quis se dedicar ao canto e à dança, por isso mudou-se para Nova York, onde estudaria na American Academy of Dramatic Arts. Não demorou muito e Day foi diagnosticado com a Síndrome de Ménière, espécie de pressão alta no ouvido, que provoca, entre outras coisas, comprometimento do equilíbrio e zumbido perene, atrapalhando a audição. A doença acertou em cheio as funções de que James mais necessitava para ser bailarino e cantor.

Tendo que voltar para cidade-natal e submeter-se a cirurgias/tratamento, além de viver com o temor constante de que o outro ouvido seja acometido pela doença, no início, James Day não quis saber de música. Felizmente, superou a aversão e já há uns dez anos lança material muito bom.

Groove Nights (The U-Nam Mixes) tem esse nome, porque resulta de colaboração com o DJ francês U-Nam, que remixou 8 faixas do som retrô de Day, em um álbum que basicamente celebra a dança, a despeito de tempos sombrios Trumposos, segundo a letra de We Dance, que começa com riff de guitarra funk, um coro dizendo “this is not a dress rehersal”, uma voz feminina que vai como “when we get a cha...”, interrompida por MC meio na vibe do antigo Turbo B, do alemão Snap!, que fala algo, tem mais um trechinho instrumental funkoso pra voltar a voz de mulher, que não contei ainda, mas é de ninguém menos que Maysa Leak, a chanteusse solo, do Incognito e de tantos projetos de outrem. Como resistir aos vocais de fogo sedoso sobre batida funk-Snapeana? Não dá: we dance!

Groove Nights (The U-Nam Mixes) também dança nostálgica e luxuosamente por estilos de outrora, como eletrofunk (Can’t Stop This Dance), new swing jack (He’s a Hurricane), funk 70’s (Outta Da Funk) e disco (a impiedosamente sacolejante Love Is My Bible). Para deixar tudo ainda mais “autêntico”, os vocalistas convidados em todas as faixas são dos subgêneros homenageados. É uma festa de cantor(a) bom/boa: Cheryl Pepsii Riley, Audrey Wheeler, Glenn Jones, D-Train, Sandra St. Victor e mais. Quando não é vocal “vintage”, é algum dado ou maneirismo de produção, como a guitarrinha Nile Rodgers e vocais femininos típicos do Chic, na infecciosa D.U.I, que significa Dance Under the Influence. Com essas referências sônicas, esse título e vocal principal da Audrey, resta o quê ao ouvinte senão o descadeiramento?



Os dois números deslizantemente midtempo têm cheirinho de urban soul e new jack swing e nada me tira do ouvido que Who Can Tell the Heart tem quês de Careless Whispers, de George Michael e True, do Spandau Ballet. Considerando-se o período que James Day ama e os britânicos serem blue-eyed soul, tem tudo a ver a desconfiança. Ouçam e me contem.




Ah, e não esqueçam de me dizer se James Day tem groove ou não tem, mesmo fazendo música com apenas um ouvido bom!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 248

Roberto Rillo Bíscaro

Quem passou pelos anos 80, enfrentou a possibilidade de ser exterminado por chuva de bombas atômicas, seguida de inverno nuclear e radioatividade milenares, que sepultariam a vida no planeta, exceto talvez a das baratas. Filmes como Threads retrataram isso, conforme postagem de 2010, conferível aqui. Passados tantos anos, deu pra retomar o tema, dessa vez sob o viés da animação pra adultos.

Se mesmo no desarmado Brasil, o perigo de catástrofe nuclear foi tema de textos acadêmicos e canções, imagine no protagonista, rico e mais diretamente atingido Hemisfério Norte. Inúteis cartilhas de sobrevivência durante e pós-ataque nuclear eram confeccionados por governos. Ineficazes como proteção, mas eficientes pra institucionalizar o pânico contra o inimigo e justificar exorbitantes gastos militares.
A animação When The Wind Blows (1986) retira parte de seu amargo sarcasmo das informações dúbias, conflitantes ou mal-compreendidas desses panfletos educacionais. De quebrar o coração, o longa apresenta casal superfofo de aposentados, vivendo no idílico campo inglês, que tenta seguir as instruções obtidas na biblioteca pública local, após um míssil atômico cair perto de onde residem.
James e Hilda Bloggs são, falam e vivem de modo explicitamente paródico Arquétipos do que seriam dois adoráveis velhinhos ingleses que haviam passado pela Segunda Guerra e confiavam plenamente nos líderes e nas táticas de proteção, então eficazes pros anos 40. Dublados pelos britânicos da gema John Mills e Peggy Ashcroft, os rechonchudos bebem chá, usam gírias datadas e simplesmente não compreendem nada do que se passa.
O cativante de When The Wind Blows é arquetipificar irônica, mas carinhosamente, os pais ou avós de quase todos nós do mundo ocidentalizado. A senhora que muda o assunto pras cortinas, quando não entende a platitude geopolítica/científica repetida incorretamente pelo marido ou a negação de que estão mortalmente doentes pela radiação, pra não preocupar o outro. 
Com música de abertura cantada por David Bowie e trilha composta por Roger Waters, do Pink Floyd, When The Wind Blows apresenta a lenta agonia e morte de dois simpáticos velhinhos indefesos, por isso é duro de assistir.

Se o sofrimento dum casal idoso corta o coração, o que dizer de duas crianças, que, desde o princípio, você sabe que morrerão? A cena de abertura do poderoso Grave Of the Fireflies (1988) - escrito e dirigido por Isao Takahata, falecido abril passado – mostra o jovenzinho Seita morrendo de inanição numa ferroviária e logo depois, seu espírito juntando-se ao de sua irmãzinha Setsuko. 
Mesmo sabendo – ou precisamente por isso - do trágico destino das crianças, nada realmente prepara o espectador pra drenagem emocional d’O Túmulo dos Vagalumes. Depois que sua cidade é devastada por ataque aéreo, Seita e Setsuko perdem a mãe e tem que ir morar com uma parenta, que logo os começa a maltratar. A escassez – seja da guerra, seja de greve de caminhoneiro – traz o pior das pessoas à tona. Então, os dois irmãos tentam sobreviver sós.
A animação é belíssima, com seus fundos de aquarela, mostrando um mundo lindo, mas indiferente ao padecimento das crianças, que, sem entender nada do que passa, têm ternos momentos de camaradagem infantil e esperança. Isso dói demais: a confiança de Seita, típica dos muitos jovens, de nada adianta num tempo em que sequer dinheiro serve pra muita coisa, porque não há o que comprar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

CONTANDO A VIDA 243

PENSANDO DESAFIOS POLÍTICOS VINDOUROS: a reforma política

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Com o tempo aprendi uma lição importante: jamais menosprezar os inimigos. Jamais. Essa difícil prática, no entanto, se faz apoiada no dever sagrado do respeito a todos. Sim, antes de tudo, precedendo atitudes externadas em reações nervosas e muitas vezes seguidas de ruídos danosos a nós mesmos, temos que desenvolver exercícios que extrapolam os limites da tolerância. Devo dizer também que não gosto da palavra tolerância, pois implica abertura artificial, autocentrada e sagradora do nosso ego permissivo. Tolerar é conceder e, na perspectiva que advogo pretende-se mais do que admitir. O aparelhamento de igualdades é necessário, em certos casos, urgente. Mas, como é difícil! 

A tradução desses dois verbos para o campo do debate político é, contudo, mais que necessária. Torna-se urgente o acatamento da adversidade para se poder crescer com ela. Assim, e só desta forma, poderemos ir além do ódio expresso e cabível nas oposições sem fundamentos. A ponte que se retraça entre o que nos parece refutável e o diálogo exige argumentos. Não bastam – e todos estamos fartos – piadinhas infames, apontamentos de mentiras evidentes, exageros indomesticados e por vezes expressos em gritos. Temos que ter clareza de que todo comportamento humano é passível de revisões ou trocas e que só mesmo a morte é coisa certa. Não pensem, contudo, que se propõem relativizações ou deixa disso. Não, nada de passividade ou silêncio conveniente. Pelo reverso, o que se advoga é a formulação de argumentos capazes de permitir a busca dialógica, aquela capaz de permitir trocas cabíveis de um e de outro lado. 

A formulação dessa premissa exige método. Não vale apenas ser contra pelo simples e complicado radicalismo. Não mesmo. Tenhamos em conta que a palavra radical deriva do termo latino radix e raiz, e assim, raiz nasce nas profundezas do inexplicável imediato. A melhor forma de consideração dos elementos que alimentam divergências é a admissão de suas consequências, tanto no nível pessoal como no coletivo. Sob tal perspectiva vale retomar o princípio exposto pelo jornalista norte-americano Henry Mencken ao ensinar que “para cada problema complexo existe uma resposta clara, simples e errada”. Sim, partamos da evidência de que os pontos em questão são sempre intrincados, plenos de facetas e que não existem respostas fechadas e simplistas. Aliás, recomenda-se juízo ao admitir facilidades, pois elas carregam erros. Com segurança, a chave mais eficiente para abrir a busca de soluções é o enredamento causal. A origem das coisas, pelo menos a origem imediata dos problemas, tem que ser apontada como ponto de partida. E também pouco ou nada vale começar pela origem dos dilemas. Assim, cabe fazer diagnósticos e estes remetem aos discursos, fatos e evidências causadoras de discórdias. 

Pensando nestes itens introdutórios prezam-se os valores dos diagnósticos. Pois bem, estamos em plena campanha presidencial e não é de todo apressado dizer que este é um momento importante, porquanto nunca os problemas nacionais tiveram tanta urgência de soluções e nem submetidos a tantas novidades tecnológicas. Assim, o primeiro ponto a ser distinguido remete à campanha. Falamos de financiamento desta maratona louca a que são submetidos os candidatos e os eleitores. A outra ponta da polêmica permitida por esse item remete à urgência da reforma eleitoral. Especialistas não políticos, jornalistas e acadêmicos sérios, alertam para a conveniência da manutenção de campanhas presidenciáveis em escala nacional, mas setorizadas (voto distrital), para o executivo. Isso mexeria de imediato com as distribuições de tempo e verba para os candidatos, bem como atenção específica aos programas dos proponentes. A virtude maior do voto distrital se transparece na combinação do comprometimento regional e do controle das promessas. Na mesma senda, outro item a ser definido exige que se pense em mandatos de reeleições, e, no caso, a alternativa de uma única reeleição para deputados, nas duas instâncias (estadual e federal), se coaduna com o mandato único para presidente. A evidência dos benefícios nesses casos remete ao princípio da renovação e diz contra a profissionalização política. Vale aqui pensar a virtude da circularidade de mandos, questão básica para a democracia, que se alimenta de figuras novas e inovadoras. Ademais é cabível a indignação frente à prática continuísta de mandatos legislativos. Temos aberrações que mostram como virtudes o fato de alguém permanecer como deputado por mais de três mandatos consecutivos. 

E há outras reformas a serem debatidas: previdência, trabalhista, do Supremo Tribunal. Também temas específicos se apresentam: Amazônia, estatais, porte de armas. Vamos em frente, sempre pensando no diálogo.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

TELINHA QUENTE 321


Roberto Rillo Bíscaro

Há longínquo meio século, boa parte do mundo se importava com as idas e vindas do casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, que alimentavam revistas de fofocas com seus dois casamentos e divórcios (e teve gente que criticou a Sue Ellen, de DALLAS, por cometer o erro de casar duas vezes com o JR!).
Hoje, mais de dois terços da população não faz ideia de quem foi Burton e a memória de Liz irá pro mesmo caminho; é a implacabilidade das areias do tempo. Mas, o tabloidismo do casal ainda fornece lenha pra fogueiras e por isso a BBC America produziu Burton & Taylor (2013), antes disponível na Netflix e que os assinantes que ainda não viram deveriam pedir pra retornar.
Acertadamente, o telefilme não oferece visão diacrônica da vida romântica da realeza do teatro encontrando a de Hollywood. Isso seria tema pralguma temporada de Feud. Ao invés, Burton & Taylor dramatiza a incursão da dupla pela Broadway, em 1983, quando encenaram peça de Noel Coward, chamada Private Lives, satirizando um ex-casal que se encontra por acaso em suas luas-de-mel com novos parceiros, mas que não esconde que ainda sentem algo muito forte um pelo outro. Como o público resistiria a essa encenação da própria história de Rich e Liz? Private Lives foi máquina caça-níqueis encenada por 2 atores em seus ocasos, mas que rendeu o fluxo de caixa esperado, embora malhada pela crítica.
Burton & Taylor esforça-se pra adicionar camadas de significado à história, com alusões a Rei Lear, mas no fundo, espectadores desse tipo de filme não podem pagar de superiores a quem foi ao teatro, em 1983, rir das brigas de Rich e Liz. E não faltam espinhadas, farpas, brigas, acessos de raiva e tapas na cara. Uma delícia eximiamente interpretada por Helena Bonham Carter e Dominic West.
Como Feud, porém, Burton & Taylor não é painel tabloideiro das baixarias de superastros. O filme é pequeno ensaio sobre lutar contra o vício. Burton tenta evitar o álcool; Taylor está chapada de pílulas a maior parte do tempo e ambos são dependentes um do outro, mas a toxicidade da relação aconselha distância e abstinência. São 2 egos machucados e envelhecidos demais, narcisistas ao extremo, como conviver?
Burton & Taylor não é só pra quem curte esquecer dos problemas e defeitos vendo os dos outros, mas é humano em não caricaturizar Richard Burton e Eliabeth Taylor, mas mostrar-lhes a fragilidade e até os momentos em que davam boas gargalhadas ou trepadas (sem cena de). Fãs de Feud amarão.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 326


Roberto Rillo Bíscaro

Nas cada vez mais raras vezes em que é lembrado, A Flock Of Seagulls costuma vir à tona, quando se fala em artistas de apenas um sucesso, dos anos 80 ou para ironizar seus penteados estapafúrdios. Considerando-se que dois de seus fundadores eram cabeleireiros, eles deveriam tomar isso como elogio, até porque deram sorte de surgir praticamente juntos com a MTV. Assim, seu visual chamativo propulsionou o breve sucesso de massa, concentrado em 1982.
Formado em Liverpool, em 1980, o quarteto nunca fez tanto sucesso em seu país natal, por isso Mike Score vive nos EUA até hoje. Foram três álbuns entre 82-4 e desde então incontáveis mudanças de formação, desavenças, pitis, muitas turnês capitalizando o saudosismo oitentista e, volta e meia, menção aqui, outra acolá ou algum sucesso usado em comercial ou vídeo-game. Mesmo sem lançar álbuns, A Flock Of Seagulls (AFOS), aka Mike Score, se manteve na periferia dos radares pop.
Sem condições de adquirir rádio FM até 1983, por pouco não vivi o apogeu de I Ran, mas jamais esqueço de quando ouvi Transfer Affection, single do álbum Listen (1983), que também trouxe outro clássico, Wishing (If I Had a Photograph Of You), embora não me lembre dessa tocando nas rádios do interior paulista. Varridos das rádios pela metade da década, só reouvi Transfer Affection, na era do Youtube.
Não tenho hábito de escutar AFOS, mas quando percebi, totalmente ao acaso no Spotify, que havia álbum deste ano, deu vontade de baixar pra ouvir offline na caminhada de fim de tarde.
Agora sem cabelo, o quarteto original se reuniu para gravar Ascension, lançado dia 6 de julho. É a primeira vez que o AFOS de verdade se junta, desde a dissolução há mais de 30 anos. Seguindo a tendência orquestral de Visage e Midge Ure (só pra citar os resenhados no blog), os britânicos regravaram seus sucessos, acompanhados pela Sinfônica de Praga. Incidentalmente, não custa lembrar que o levantamento da Cortina de Ferro abriu todo o leste europeu e a fragmentada União Soviética pros artistas 80’s já em baixa no ocidente. Juntou fome com vontade de comer: os ex-comunas gulosos de viver, mesmo que com atraso, as delícias da Década Perdida (grrrrr) com velhas estrelas pop sequiosas por mais alguns momentos de fama e dinheiro. Então, talvez não seja mero acaso que o Orchestral, do Visage, tenha sido gravado com a mesma orquestra acompanhante do AFOS.
Assuma-se o quanto se quiser qualquer atitude de condescendência cool em relação ao “comercialismo” do AFOS, mas sua sonoridade cruzada entre Kratfwerk e (pós)-punk, com restolhos visuais, temáticos New Romantic, é uma das características dos três, quatro primeiros anos da década. O frio fluxo incessante de teclados é entrecortado e sobrepujado por crispas de guitarra gélida, baixão meio sombrio, bateria marcada e vocais robóticos, despersonalizados. Sem contar os diversos tremeliques e barulhinhos da produção, que aqui no Brasil, sempre em dia com seu atraso, persistiram a década toda.
Com Ascension, AFOS prova ser cônscio de seu papel como um dos ícones – para o bem e para o mal – do som e imagem dos 80’s: ao invés de reinventar as canções, o quarteto original regravou-as o mais fidedignamente possível, com todos os maneirismos de produção de então. A orquestra serve para dramatizar, fortificar, adocicar, criar introitos e intermezzos, como é o literal caso da faixa-título, única inédita do álbum, curto número orquestral antecedendo a hipnótica Wishing (If I Had a Photograph Of You), que inicia teutônica, mas cujo tratamento orquestral confere arzinho de Jean-Michel Jarré, fase Les Concerts en Chine, de 1982, aliás. Zeitgeist é vida.
Faixas dançantes continuam puláveis; Ascension não pretendeu conferir “dignidade” orquestral a delícias como I Ran, Modern Love Is Automatic, Telecommunication, Nightmares (que baixo lúgubre!), DNA ou Electrics. Mesmo algumas mais lentas, como Space Age Love Song; The More You Live, The More You Love (resplandecente) e Transfer Affection não são baladas, mantém aquela fluidez deslizante dos jovens que cantavam um futuro imaginado de amores computadorizados, eletricidade de neon, mas sempre com o holocausto nuclear como horizonte possível. E é esse caráter distópico da ficção-científica do AFOS, que encerra o álbum com Man Made e seu casamento de Kraftwerk com Joy Division.
E como a caminhada rendeu com Ascension! Coincidência que escolhi a quadra de minha velha escola de Ensino Médio (na época não se falava assim, era Segundo Grau) para circular, enquanto o ouvia? Na EEPSG Adelino Peters estava, quando os temas e sonoridades do AFOS viveram seu auge. Enquanto a batida robotizada da New Wave aligeirava meus passos ao redor da UE, na qual também lecionei, cada timbre e modo de tocar me lembravam bandas ainda mais esquecidas, como Azul 29 e Eletrodomésticos.
Sorri ao comparar a tecnologia louvada da época, que decerto nem sonhava ainda com o smartphone conectado ao serviço de streaming, emitindo suas ondas via bluetooth pra meus fones de ouvido wireless. Saudosista com qualquer coroa, não chego a dizer que antigamente era melhor. Mas, que quando começou Transfer Affection deu um aperto no coração. Por mais antenado que tente ser, ele sempre pertencerá àquela década, jamais perdida na memória de nós que a amamos tanto.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A FILHA PRÓDIGA E O FILHOTE ALBINO



Baleia resgatada há 15 anos reaparece no litoral de SC com filhote albino

Dupla foi vista no ano passado, mas a descoberta de que era a mesma fêmea foi feita este ano. Outras duas baleias com filhotes semi-albinos já foram avistadas nesta temporada.


Uma baleia-franca que tinha sido resgatada havia 15 anos em Laguna, no Sul catarinense, reapareceu no litoral do estado com um filhote albino. A mãe e o filhote foram vistos no litoral na temporada passada, mas descoberta de que era a mesma fêmea foi feita este ano pelo Projeto Baleia Franca.

Em 2003, a baleia entrou no canal dos molhes e ficou presa em um banco de areia na Lagoa Santa Marta. Ela foi rebocada até o mar 30 horas depois. Segundo os pesquisadores, ela deve ter desmamado e se perdido da mãe.


Calosidades

Os pesquisadores conseguem distinguir as baleias da espécie franca pelas calosidades que elas têm na cabeça. São calos mesmo, uma pele mais grossa, e em cada uma as manchas são diferentes. Por isso, elas são são como impressões digitais desses animais.

Porém, em 2003 não foi possível fazer uma foto aérea da cabeça do animal encalhado. Mas a baleia tinha uma outra particularidade que chamou a atenção dos pesquisadores: uma mancha cinza no corpo, que não é muito comum.

Quando a bióloga do projeto Karina Groch pegou o material da temporada passada para analisar, descobriu que o filhote resgatado em 2003 voltou em 2017 com um filhote albino. O nome escolhido para a nova mamãe foi "Sunset", pôr do sol em inglês, porque o resgate ocorreu em um fim de tarde.

Como a baleia foi resgatada em 31 de julho, o projeto quer que essa data se torno o Dia Nacional da Baleia Franca. "A ideia depois é oficializar, propor que seja feito um projeto de lei e um decreto que institua oficialmente no Brasil esta data", afirmou a bióloga.

Mais filhotes semi-albinos
Esses animais vêm todo ano para o litoral catarinense. As baleias costumam aparecer entre julho e novembro para dar à luz e amamentar os filhotes. Neste ano, muitos exemplares já foram vistos, especialmente na região de Imbituba.

Duas baleias-francas com filhotes semi-albinos já apareceram nesta temporada no litoral catarinense. Uma dupla foi vista nesta terça em Imbituba, no Sul.

PARA VER A REPORTAGEM EM VÍDEO (COM MAIS CONTEÚDO), ACESSE O LINK:


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 247


Roberto Rillo Bíscaro

Muitos filmes de horror indicam ao espectador pra quem ele deve torcer pra não morrer e quem é descartável. (Quase) Sempre em termos de julgamento moral. Nos slasher films, virou piada a convenção de que meninas que transam e carinhas que fumam erva têm que morrer.
Downrange (2017), filme norte-americano do diretor Ryuhei Kitamura é impiedoso e implacável. O japonês e seu parceiro no roteiro, Joey O’’Bryan, construíram claustrofóbico rincão de mundo a céu aberto, onde não somos coagidos a nos importar com ninguém em particular, não porque sejam todos ruins, mas porque ninguém se destaca. Ajuda muito que diálogos e atores sejam fracos.
Não há muito tempo pra exposição: em menos de um minuto de exibição, o pneu da caminhonete fura e os passageiros – que nem se conhecem direito – se veem ilhados numa estrada no meio do nada e sem sinal de celular. Aí sim, temos uma enrolada, mas não pra conhecermos muito bem as personagens, mas pra esperar o começo da matança. Porque Downrange é sobre um atirador no meio do nada, que elimina os meninos à distância, com rifle de alta precisão e longo alcance e, mais assustadoramente, com silenciador, então as mortes saem do nada.
Nos atos iniciais, o suspense se produz através das tentativas de driblar o atirador – que, claro sabemos que falharão, se não acabaria o filme! – e de quem vai ser atingido em seguida. No terceiro ato, Downrange surta e oferece frenético banho de sangue. É como se Sam Raimi estivesse dirigindo um filme pra grindhouse, mas com qualidade de imagem atual, ou melhor, imagem de qualidade trash atual.
É isso: Downrange é desavergonhadamente trash e exploitation. Em seus momentos melhores, duma tensão de roer os ossos dos dedos e com sangue pra todo lado. Se você não quer aprender a cauterizar um ferimento a bala de rifle, usando a parte rombuda fervente dum martelo, não veja. Quem sabe da doideira que é filme asiático, entende o que falo.
Forçado, sem acrescentar ao cânone do horror, Downrange consegue divertir uma coisa que serve e só quem tiver algum nível acentuado de psicopatia ou inconsequência não perceberá que acesso fácil a armas não é saudável. E olha só nossa sociedade ter que ser criticada pelo viés do filme trash. Tão edificante...

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

CONTANDO A VIDA 242

HORÓSCOPO 2018 uma infeliz revisão... ACERTEI!

José Carlos Sebe Bom Meihy

O que acontece quando a gente acerta na previsão dos principais eventos do ano? Foi assim que retomei um texto escrito por ocasião da virada do calendário. Abria a crônica dizendo “Xô 2017. Vai tarde. Eita ano difícil!... Até para acabar, 2017 dá trabalho”. Em continuação desfilava, mês por mês, os possíveis acontecimentos. Ressaltei que em janeiro teríamos “nova edição do BBB” com “facetas do gosto público pelos vexames transmitidos pela Rede Globo (negros, velhos e trans estarão representados, reafirmando mitos: da democracia racial, tolerância etária e de gênero)”. Acertei, mas essa era fácil. Não errei em fevereiro contando com a previsibilidade do sucesso do Carnaval, ainda que não tenha detalhado críticas tão contumazes ao presidente Temer nas escolas de samba. Não posso dizer que errei, contudo, até porque deixei registrado que “políticos se rearranjarão para disputas eleitorais, e uma série de denúncias será propagada pelas redes sociais. O almejado alento de harmonia pelo ano novo já terá se dissipado, dando lugar a mais ódio e ameaças”. 

Também acertei nos conteúdos de março ao dizer “no final do mês, a fração democrática fará crítica aos ‘anos de chumbo’, e a crescente onda ultraconservadora defenderá as causas reacionárias, ligadas também aos segmentos que pretendem converter o país em imensa igreja”. Fico impressionado com a garantia de que em abril, depois da Semana Santa, haveria “movimentação mostrada como inigualável pelo governo que insistirá em convencer a população iludida pela recuperação econômica, apagando a certeza de que ela é fato exclusivo das grandes empresas e dos bancos que atingirão lucros nunca revelados. Em nível eleitoral, novos escândalos serão revelados”. Nada disse sobre a prisão de Lula, mas acho que a síntese indicada não deixa de conter o fato. Ressalto, aliás, os tais “novos escândalos”.

Também fui no alvo certeiro ao prever que em maio “os preparativos para ida da seleção à Rússia quase ofuscarão os debates políticos... o frio não afugentará as torcidas organizadas e as acusações políticas serão trocadas por cenas de apoio esportivo”. Fico alegremente chocado com o que disse sobre junho, vejam “apesar do bom desempenho, o Brasil que tão bonita campanha fará, não se sagrará, mais uma vez, campeão. No dia 18, alguns jornais noticiarão o centenário do nascimento de Nelson Mandela e as festas juninas se estenderão pelos meses seguintes. Acertei em cheio, nossa! E também sobre julho quando disse que no “a seleção de futebol será/ foi modestamente recebida nos aeroportos” e completei ainda “denúncias políticas ocuparão os noticiários fartos de explicações pelo fracasso esportivo”.

Bom mesmo foi o que previ – e reafirmo agora – para o mês de agosto “a disputa eleitoral retomará fôlego, e as agressões dos candidatos refletirão na população que, como nunca, mostrará os riscos dos extremos. Como se tivéssemos uma esquerda, os ‘direitistas’ abusarão do palavreado de terror para amedrontar a todos. O típico pessimismo do ‘mês dos cachorros loucos’ se revelará nas pesquisas que apontarão a ‘vitória da oposição’, como se existisse alguma. Apologistas do apocalipse político acenarão com possibilidade de intervenção militar. Os fundamentalistas religiosos começarão a movimentar seus fiéis, orientando formas dogmáticas de votação”. Se fosse escrever agora, talvez aliviasse um pouco o sentido da palavra “oposição”, pois acho que os velhos políticos têm manhas eficientes para rearticulações. Mas, mesmo assim, acho que manteria o que propus para setembro “a velha lenga de que podemos virar uma Venezuela chegará às páginas dos jornais, que serão preenchidas com alusões quase terroristas”. O sempre difícil mês de outubro foi mostrado como naturalmente complicado pelas “eleições (que) ocorrerão com as usuais reclamações, e mesmo com as urnas eletrônicas denunciadas por fraudes, os resultados serão comemorados como ‘novo tempo’. A ‘vitória da oposição’ não explicitará grandes mudanças. O cansaço do primeiro turno será intensificado imediatamente com novas/velhas alianças”. Sobre novembro, pontifiquei que “já cansado, o ano mostrará sinais de fadiga. A segunda fase eleitoral cumprirá o enredo das repetições que iludem o eleitorado, que votará como sempre. No dia 4, depois do anuncio do novo presidente, o horário de verão vai começar. Aos poucos, se iniciarão as musiquinhas de Natal e as campanhas de vendas mudarão os temas sociais gastos pelo teor exaustivo do ano. “Então é Natal” começará a ser ouvida progressivamente”. Confesso que me dói um pouco ver que escrevi “os ódios levemente aplacados terão teores trocados, evidenciando mais do mesmo”. É claro que terminei com dezembro revelando que “num esforço para esquecer as agruras do ano, amaldiçoando o andamento do ‘ano velho’, renovando o estoque de votos de felicidades, o último mês do ano revigorará a mania de desejar ‘feliz ano novo’... E novo horóscopo será feito na certeza de que o melhor do ano foi a garantia que teremos para depois de 2019 uma nova geração de políticos.

Pois é, tentando dar uma explicação filosófica ao que ditei, retomo a frase de Hegel que, tristemente dizia “tudo volta ao que era antes, só que diferente”. E não paradoxos nisso, infelizmente. Bom segundo semestre a todos...

terça-feira, 31 de julho de 2018

ESCALADA ALBINA

Albinas viram alpinistas para denunciar perseguição na África

Mariamu Staford é uma das que sofrem com o terror, tendo sido vítima de ataque de nativos que consideram amuletos partes dos corpos dos albinos



Além de todas as dificuldades sociais em viver na África, a tanzaniana Mariamu Staford, de 38 anos, é uma das centenas que sofreram pelo fato de ser albina no continente.


Em 2008, homens armados com facões invadiram a casa dela no distrito de Lake Tanzania, quando ela estava com seu filho de 2 anos, e lhe arrancaram os braços.

Ela buscou perspectivas de vida, equipando-se com próteses e passando a administrar um negócio de roupas, no qual ela opera uma máquina de tricô. Mas isso não bastou para ela.

Cerca de 10 anos após o ataque, seu objetivo agora é conscientizar o mundo sobre o drama vivido pelos albinos na África

Por isso, ao lado de Jane Waithera, 31, ela irá escalar o Monte Kilimanjaro, ao lado de cinco mulheres albinas, em uma expedição que buscará o topo da monhana de 6 mil metros de altura, no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quênia.

A equipe, liderada pelo montanhista e cineasta Elia Saikaly, usará as mídias sociais durante a expedição de sete dias, prevista para setembro, para falar sobre os desafios que enfrentam na vida.

Waithera, co-líder da expedição, disse que a subida fornecerá "uma plataforma para ampliar nossas vozes do pico mais alto da África ... como símbolos de resiliência e fortalecimento".

134 albinos assassinados
Segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), foram informados 134 assassinatos de albinos nos últimos anos em 25 países da África até 2015. Além desses assassinatos, há outros tantos ataques que mutilam as vítimas. E existem também outros tantos que não são relatados.

Principalmente nas regiões da África Sub-ariana, cuja população de albinos é estimada em 15 mil pessoas, em países como Tanzânia e República do Malawi, crenças locais consideram amuletos partes dos corpos de albinos.

Em ataques violentos, eles são mortos ou mutilados para a retirada do que é considerado um símbolo de sorte e saúde. Estima-se que partes dos corpos de albinos chegam a ser negociadas por mais de 70 mil dólares.

Segundo Waithera, a violência sexual também é uma das práticas das quais as mulheres albinas são vítimas. Há o mito de que o sexo com com uma mulher com albinismo possibilita a cura do HIV/AIDS.

Waithera relata o abandono de muitas crianças albinas, pouco depois que elas nascem.

"A maior barreira, claro, é o estigma que começa desde o dia em que você nasceu."

Isso, inclusive, ocorreu com ela, que foi abandonada por sua mãe quando bebê e intimidada quando criança.

Cegas por conta do albinismo
Todas as participantes da expedição são cegas, tendo perdido a visão como consequência do albinismo, um problema genético que interfere na produção de melanina, responsável pela pigmentação da pele, do cabelo e dos olhos. Cada uma delas será acompanhada por um guia e usará proteção especial para os olhos.

Além da perda da visão, outra consequência pode ser o câncer de pele. 

Mas, pensando de forma otimista, Waithera dá a entender que iniciativas como esta têm grandes chances de sucesso, principalmente em função das redes sociais.

"Precisamos deixar a sociedade saber que não há diferença entre nós e eles. Acho que vamos realmente mudar a mentalidade. Já estava na hora."

No campo de refugiados de Bakassi, península na costa atlântica da África, a troca de mercadorias fala mais alto que o dinheiro: um pequeno pacote de lenha pode ser usado para comprar algum leite e uma tigela de peixe paga o óleo de cozinha.