segunda-feira, 21 de setembro de 2020

CAIXA DE MÚSICA 424

 



Roberto Rillo Bíscaro

Second Still é mais um grupo norte-americano navegando nas gélidas e escuras águas da cold /dark wave.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CONTANDO A VIDA 314

NEGRINHA, LOBATO E O RACISMO ESTRUTURAL BRASILEIRO.

José Carlos Sebe Bom Meihy

“tenho notado que muitos dos personagens das minhas histórias já andam aborrecidos de viverem toda a vida dentro delas. Querem novidade... Andam todos revoltados, dando-me um trabalhão para contê-los”.

Monteiro Lobato

 

Sou daqueles que acham que José Bento Monteiro Lobato não precisa de defesa alguma. Também me perfilo entre os muitos leitores e que flanam na magia de sua produção criativa, polêmica, atravessadora de tempos, proponentes de temas de debates apaixonados. Então me engalo de ser daquela geração que José Roberto Withaker chamou de “Filhos de Lobato” e sigo leitura que dá alma a entendimentos cabíveis no corpo de seu tempo. Busco mais compreender do que explicar, diga-se, e assim me solto no embalo que vai além de citações escolhidas fora do ambiente germinal, perversas por mal intencionadas, ignorantes e historicamente desinformadas. Investindo-me do direito de ler em perspectiva, optei por trocar argumentos apedrejadores pelo outro lado de uma moeda que negocia interpretações encolhidas na capacidade de ver além de argumentos isolados, caracterizados em frases mal recortadas, rearranjadas segundo critérios extemporâneos e dirigidos. E não precisei de muito exercício, pois no lampejo da memória logo me veio o conto Negrinha. Atenção: não se pretende com um novo “detalhe” saudar qualquer exceção, mas, pelo reverso, por ele, supor a complexidade do todo. Interessa, diria, contemplar a floresta e não explica-la pela singularidade de única árvore.

Para início aclaramento desta conversa, devo dizer que “Negrinha” é, de Lobato, meu escrito favorito no quesito “conto”. E que história foi dada à menina pobre e órfã que desde os quatro anos fora “criada” como encosto em casa de família “proba”! O ambiente, aliás, se trama desde a apresentação da personagem alvo do caso “Preta?? Não. Fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”. O retraço biográfico dessa qualificação diz que Negrinha, como era chamada, sem ter nome específico ou referenciado, “nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos de vida, vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre farrapos de esteira e panos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças”. A senhora “dona”, por sua vez, fora assim comparecida “excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada pelos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo no céu”. Não bastasse a sutileza – talvez até explícita demais – Lobato completava o perfil senhoril prá lá de patético: “entaladas as banhas no trono uma cadeira de balanço na sala de jantar, - ali bordava, recebendo as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora, em suma”. Sem economizar deboches o enredo matizava a crueldade de uma matrona branca, inclemente, culturalmente estabelecida em pressupostos escravocratas da qual “o 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava, pois, Negrinha em casa como remédio para os frenesis”. Vivificava-se o que na cultura popular ficou conhecido como “saco de pancadas”, ou seja alguém negro destinado a apanhar ou levar bordoadas capazes de promover a catarse dos senhores.

Poucas passagens da literatura brasileira – pouquíssimas – alçaram tanto vigor no relato dos maltratos dados aos negros, escravos ou libertos e aos seus descendentes. Talvez o limite máximo desse tipo de constatação resida internado neste conto, “Negrinha”, que afinal detalha o monstruoso castigo perpetrado pela senhora Inácia depois da menina deferir a palavra “peste”. Tomando um ovo, o requinte da atrocidade foi vazada da seguinte forma “D. Inácia mesma pô-lo na chaleira de água a ferver e, de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, trêmula, olhar esgazeado, aguardava alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora exclamou: — Venha cá!! Negrinha aproximou-se. — Abra a boca!!”. E como sofreu a menininha que, creiam, era criada como favor aos olhos caritativos, culturalmente dominantes.

A sequência desta contação revela outra aventura da menina negrinha que morreu, por fim, aos sete anos, depois de ser acatada pelas duas sobrinhas que, em mês de férias, na casa da titia encantada com a prole branca, saudava, em contraste perfeito, a vivaz euforia das “pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas”. E foram essas mesmas “pequenotas” que permitiram a episódica aceitação de Negrinha no triângulo branco. Foram as crianças e, sem entender de preconceitos, admitiram que a estranha e deslocada personagem, Negrinha, também tocasse em uma boneca que, aliás, era reprodução feita à imagem e semelhança das sobrinhas visitantes: alvinhas e de cabelos alourados e que, além de angelical, deitada pronunciava “papa”. Fora essa, diga-se, a visão do Paraíso para a rejeitada Negrinha que, afinal com 15 quilos. Magrinha sim, mas sonhando com anjos brancos e de olhos claros, como os da boneca, ou das meninas visitantes.

Voltemos à epígrafe: que Lobato quis transmitir? Preconceito gratuito? Denúncia? Seria simples “causo”? Ou caberia melhor inteligência e sugerir que menos vale um exemplo recortado de um contexto amplo do que a miséria de um “defensismo” sem paisagem analítica? Vale, para encerrar, contextualizar este conto no ambiente eugenista daquele então. Na altura do amadurecimento da crítica cultural brasileira, não resta dúvida da ampla aceitação do mito da superioridade racial branca. É exatamente nesta ordem que se pretende discutir o significado de Negrinha no universo nacional que estruturou o racismo.

FOFA FOCA

 


RARA FOCA ALBINA AVISTADA EM ILHA RUSSA. BIÓLOGOS TEMEM PELO SEU FUTURO


Uma foca albina foi avistada nos últimos dias numa ilha russa, sendo considerada um exemplar muito raro desta espécie.

A foca bebê, de olhos azuis e pêlo ruivo, foi vista no meio de uma dezena de outras focas. Após a divulgação das imagens do animal, numa ilha no mar de Okhotsk, na Sibéria, vários biólogos manifestaram a sua preocupação com o futuro do animal.

De acordo com o Independent, por se tratar de uma vertente muito rara da espécie, a foca em causa corre o risco de viver uma vida solitária, dado que haverá tendência para os outros animais da sua espécie a rejeitarem.

Situação semelhante aconteceu, no mesmo local, há dez anos, onde uma outra foca bebê foi resgatada e levada para um aquário na costa do Mar Negro da Rússia. Neste caso, os biólogos ponderam fazer o mesmo, caso se verifique uma mudança de comportamento que possa influenciar o bem estar do animal. 

Os profissionais têm acompanhado o seu dia-a-dia e observam que pela sua constituição a foca poderá estar sendo bem alimentada pela sua progenitora e que para já, a foquinha está tendo um comportamento sociável.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

TELINHA QUENTE 416



Três crianças descobrem que o orfanato onde vivem não é nada do que pensavam. Agora, têm que liderar o grupo todo num arriscado plano de fuga.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

CAIXA DE MÚSICA 423



Roberto Rillo Bíscaro

Com mais de quatro décadas de estrada, os norte-americanos do Kansas ainda fazem rock com fôlego.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

ESPINHO ALBINO

 



Raro ouriço albino é resgatado e sobrevive graças a menino de 6 anos

Tudo começou quando o garoto Ruben Wiggins, de 6 anos, estava saindo de casa com sua mãe, em Yorkshire – Inglaterra. Ao entrar no carro, ele percebeu que havia um animal embaixo do automóvel e foi resgatá-lo. A surpresa veio ao notar que se tratava de um ouriço albino, espécie rara. E então, depois de resgatá-lo, a família conseguiu entrar em contato com um refúgio da região, que conseguiu salvar o animal.

Ouriços não costumam aparecer na região, o que fez Ruben se preocupar com o animal, sobretudo porque ele estava visivelmente assustado e machucado. Ao notar que ele precisava de ajuda urgente, sua mãe entrou em contato com o Prickly Pigs Hedgehog Rescue, um refúgio dedicado a estes animais. Ao enviar uma mensagem através do Facebook, Diane Cook – que administra a instituição, ficou impressinada com a descrição do animal. “Quando recebemos a mensagem por meio de nossa página no Facebook, ficamos inicialmente perplexos com a descrição e pensamos que era possivelmente um ouriço pigmeu africano que havia fugido da casa de alguém”, explicou.

No entanto, a perplexidade maior veio ao vê-lo ao vivo e notar que estava diante de um verdadeiro ouriço albino, que, infelizmente corria o risco de morrer, já que estava gravemente desidratado, desnutrido e infestado de carrapatos, pulgas e ovos de mosca que os veterinários levaram horas remover.

Depois de ser alimentado e receber todos os tratamentos necessários, o ouriço agora está bem e, uma vez totalmente recuperado, será solto de volta à natureza. Sucesso absoluto no local, ele até recebeu um nome: Jack Frost. E tudo isto, graças a um garotinho de 6 anos que já sabe a importância da preservação das espécies.








TELINHA QUENTE 415

 

Em 1994, uma quadrilha executa roubo bilionário ao Banco Central da Colômbia. Inspirada em fatos. Será esta série a nova Casa de Papel?

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

RAPTADA?

Bebê canguru albino desaparece de zoo na Alemanha e pode ter sido furtado


Um filhote de canguru albino desapareceu de um zoológico na Alemanha e acredita-se que o animal possa ter sido furtado, de acordo com o que foi divulgado hoje por autoridades locais. 
O canguru tem o nome de Mila, é do sexo feminino e nasceu no mês passado no zoo Kaiserslautern, no sudoeste do país, sendo uma das principais atrações, diz a agência Associated Press.
Mila foi vista pela última vez em seu recinto na manhã de quarta-feira (19) e não estava mais lá quando os tratadores do zoológico encerraram as operações, à noite, informou a polícia. 
"Estamos investigando em todas as direções", disseram os policiais. "Não podemos descartar que ela foi furtada."
O diretor do zoológico, Matthias Schmitt, fez um apelo ao público para que ajude a rastrear o filhote, que raramente se afastava da mãe.
Schmitt disse que parece improvável que o pequeno marsupial tenha sido caçado por uma raposa selvagem ou outro predador, já que não foram encontrados vestígios de sangue.
O zoológico está usando dois caçadores com cães farejadores para procurar o canguru, mas até agora eles não tiveram sucesso. 
"Toda a equipe do zoológico espera que Mila seja encontrada novamente e esteja com boa saúde", disse ele.

CAIXA DE MÚSICA 422


 Roberto Rillo Bíscaro

O compositor paulistano Rodrigo Campos apresenta seus sambas desafiadores e complexos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

CONTANDO A VIDA 313

MÚSICA SERTANEJA: SOFRÊNCIA E GRAÇA. 


José Carlos Sebe Bom Meihy. 

Pensando bem, é muito estranha a percepção do cancioneiro sertanejo em nosso mundão cultural urbano. Visto com mais cuidado, o denso conteúdo expresso por gêneros musicais variantes da raiz caipira, de regra, é interditado, ou ao menos rebaixado como se fosse produto menor, de consumo de um grupo meio esquisito, coisa de suburbano mal adaptado. Foi pensando nisto que se procurou alguma dimensão valorativa, buscado perceber mais do que significados recortados de um plantel hierárquico ou polarizador em um “gosto x não gosto”. A consideração dos temas mais frequentes logo expôs a combinação da dicotomia sofrimento X picardia. Argumento constantes desses cancioneiros, a dor de amor e o gracejo se mostram fatores capazes de dar sentido existencial a uma legenda usualmente reduzida ao breguismo tosco ou, no máximo, à cafonália chic. Mas, pergunta-se, há sentido articulado implícito nesse verso e reverso que mistura aflição e graça, ou, mais contundente: há moral na experiência musical sertaneja? 



Num esforço justificado, pretendeu-se marcar a vocação para um viés filosófico invisível, silenciado na recepção dessa expressão musical. E é prudente oferecer caminho histórico para tal vista. Como se fora contrapartida de um passado de deslocamento territorial mal resolvido, a transferência de contingentes do campo para a cidade sugere um longo processo de adaptação. Mal compreendida a inversão demográfica do meio rural revela uma peleja pela sobrevivência, e assim indica incômodos e desencontros negociados em busca de um estilo sertanejo de vida urbana. Nessa linha, não seria exagero sublinhar o sofrimento recortado nos repetidos desencontros amorosos. Sim, amores não correspondidos se formulam em razão metafórica de cantares que somam uma saudade nostálgica do campo e suas coisas todas. Junto com passarinhos, alvoradas, campos, são compostas loas a amores impossíveis, traições de afetos incompreendidos, enfim um novo e claro mal-estar civilizatório inconciliável. De modo geral, as músicas sertanejas cantam saudade e tristezas, e nelas se recheiam de frustrações, mágoas e desafetos chorados em simpatias remotas e notas musicais lamuriosas. Nesse sentido, aliás, resulta uma explicação básica para o que tem sido conhecido como sofrência. Sim, a percepção dramática dos desacertos é o denominador comum para tantas passagens de desgraças vertidas em desejos de má sorte para os ingratos pares. É como se o campo não se desse bem com a cidade e, em expressão cantada, isto se revelasse como lamento público e personalizado. 



Como resultado surdo de uma espécie de épica cabocla, as entregas apaixonadas e mal resolvidas se mostram como dimensão de desesperos dramatizados na fatalidade de uma realização impossível. É nesse diapasão que emerge a memória desesperada que tem a ruína amorosa como ponto inevitável de extravasamento. Mas, para consolo geral, esta moeda tem outra cara, um reverso compensatório: o chiste ou gracejo. Sim, os melodramas amorosos não anulam paralelos de continuidade, o lado insistente do gracejo gozador. Diria que para cada dor há uma piada musical na mesma medida em que para cada frustração corresponde uma promessa de risada vertida em “causo”. A soma dessas oposições - choro e matreirice - se formula na integração de mensagens que, afinal, juntas, amarram respostas de tipos migrados do ambiente rural para os centros urbanos que, afinal, têm na inviabilidade de realização amorosa a dimensão pândega, e por isto promotora de risos. São graças que vão além da aparente simplicidade narrativa e que merecem ser contempladas como vingança da incompreensão. Os dois aspectos complementares, a desgraça e o pitoresco, resultam em espécie de épica acaboclada e de difícil captação. 



O entendimento da dor afetiva pode ser avaliado pela crescente feminização das intérpretes que, solo ou em duplas, tem revelado o incômodo do acolhimento pelo ambiente dominante, masculino. Por outro lado, a memória da anedota fácil e sutil se dimensiona no masculino, como se coubesse à mulher a sofrência e para o homem o revide. O resultado é a percepção trágico-cômica de experiências não explicitadas, mas vertidas em sucessos de público crescente. Penso, pois em ensinamentos enunciados para um segmento importante, consumidores do mercado que não se contenta em ouvir, mas que em shows multiplicados ganham plateias cada vez mais “sertanejadas”. As letras de canções, em conjunto, revelam um estilo de vida muito mais completo e complexo do que se pensa. E tudo se torna muito teatral, exigente de figurinos, penteados, caras e bocas. O inerente uso de roupas, chapéus, o aferro ao xadrez desenhado em camisas, a permanência das botas como saudade das botinas, o crescente prestígio das festas juninas – agora inscritas em programas de turismo – e a aceitação dos “docinhos da roça”, paçoca, quentão, revalidam uma saudade reprimida, pouco explicada, mas que não se furta à luz e som. É no quesito mnemónico que atua a essência e originalidade do ser sertanejo urbano. Confesso que o exagero da positividade analítica contida nestas linhas responde a um apelo pessoal, esforço de ver uma beleza onde o gosto burguês insiste em negar o cadim de meu mundim que queiram ou não existe e se mostra de uma boniteza que veio para desafiar o futuro.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

ACUSAÇÃO FALSA

Albinos e deficientes acusados de bruxaria em todo o mundo. Porquê?


Em pleno século XXI continua a haver pessoas acusadas de bruxaria que são perseguidas e até mortas em várias partes do mundo, sobretudo em África, no Sudeste Asiático e na América Latina.


A perseguição às bruxas é um problema muito antigo: Na Europa, a época da caça às bruxas durou do século XV até ao século XVIII e atingiu o seu pico entre 1560 e 1630, de acordo com o historiador alemão Wolfgang Behringer.

O professor da Universidade do Sarre estima que entre 50 e 60 mil pessoas foram mortas nesse período, apenas na Alemanha.

Hoje em dia o problema persiste, mas sobretudo no hemisfério sul, segundo o professor Behringer:

"Na Tanzânia, entre 1960 e 2000, aproximadamente 40 mil pessoas foram assassinadas acusadas de suposta bruxaria. Bruxaria não é crime na Tanzânia, segundo o direito penal, mas muitas vezes são os tribunais de aldeia que decidem que certas pessoas devem ser mortas."

Albinos e deficientes são alvo

Pouco se sabe sobre o número de vítimas antes de 1960. Na Tanzânia, as vítimas são principalmente pessoas com albinismo, pois há quem acredite que certas partes do corpo de albinos podem ser usadas como remédios.

No Gana e noutros países, sobretudo da África Ocidenal, verifica-se outro fenómeno sinistro: algumas comunidades atribuem o nascimento de uma criança deficiente a supostas práticas de bruxaria por parte de vizinhos que recorrem à bruxaria.

Crianças negligenciadas

No Congo, as chamadas crianças bruxas são expulsas pelas suas famílias. Na cidade de Bukavu, no leste do país, uma ONG, de que faz parte Thérèse Mapenzi, cuida dessas crianças.

Mapenzi, nomeadamente, ajuda essas crianças a lidar com o seu trauma, colocando-as em orfanatos e tentando encontrar vagas em escolas para elas.

Thérèse Mapenzi afirma: "Ouvimos falar de vários casos em que crianças são violadas e depois não são mais aceites pelas suas famílias. Ou nasceram fora do casamento e têm que viver com um pai que não as aceita.”

"Essas crianças muitas vezes foram espancadas até sangrar. Sempre ficamos chocados ao ver essas crianças sem proteção, que foram marcadas como feiticeiras. Como pode isto acontecer em pleno século XXI?" – questiona Mapenzi.

TELINHA QUENTE 414



Com a carreira em ascensão, o juiz Micha Alkoby vê tudo se complicar quando seu filho se envolve em um acidente, cuja vítima pertence a uma família criminosa.

sábado, 29 de agosto de 2020

JOGOS MORTAIS

 Ambientalista é morto por leoas albinas das quais cuidava desde filhotes


O ambientalista West Mathewson, de 68 anos, morreu na quinta-feira (27) após se atacado por duas leoas albinas. Ele cuidava das felinas desde filhotes. De acordo com testemunhas, West estava brincando de luta com Demi e Tanner quando uma delas levou a diversão a sério e o atacou. A outra leoa o atacou em seguida.

West chegou a ser levado a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Em 2017, as felinas já haviam atacado um funcionário da fazenda do ambientalista em Kruger, na África do Sul. O homem também morreu, mas West manteve as leoas na fazenda e continuou cuidando delas, acreditando que elas nunca o atacariam.

Ao jornal The Sun, um porta-voz da fazenda afirmou que as leoas não serão sacrificadas. “West amava esses felinos como amava os seus filhos. Foi um trágico acidente”, afirmou.

https://istoe.com.br/ambientalista-e-morto-por-leoas-albinas-das-quais-cuidava-desde-filhotes/

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

TELONA QUENTE 331

 


Roberto Rillo Bíscaro

Uma nova abordagem do clássico romance do inglês Charles Dickens.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

CONTANDO A VIDA 312

 E O VENTO LEVOU... 


José Carlos Sebe Bom Meihy 

Meditando sobre os argumentos que integram as agendas atuais, a chamada “questão racial” ganha destaque por diferentes ângulos. Grosso modo, há dois polos que se buscam numa lógica nem sempre bem encaminhada. Aliás, a multiplicação ad nauseam de fatos ilustrativos tem sido embaçada de maneira a não permitir exames explicativos de vocação linear. No lugar, polarizações acabam por lançar tudo num “a favor ou contra”, quase sempre sem substância. Navegando pelos mesmos meandros, situações internacionais se emendam de maneira a compor um quebra-cabeça com peças que misturam jogos diferentes. Não que não haja denominadores comuns entre as diversas causas, elas existem, mas algumas eventuais alternativas remetem à colagem de situações que não se explicam nos meios em que são ambientadas. 

Um pouco por conta da justa campanha contra a violência policial que provocou a morte de George Floyd, em escala mundial, uma série de demonstrações tem vindo à ordem do dia. A tendência ao desmonte de um tipo de história que suportou o tráfico e a escravidão negra muitas vezes frustra pela carência de fundamentos que poderiam melhor instruir pautas justas. Vamos a um exemplo. Há algumas semanas rodou em várias redes sociais uma campanha assaz polêmica por ser chocantemente anacrônica, ou seja, por considerar com olhos de hoje o que não era válido no tempo relatado. Um grupo de pessoas que se dizem antirracistas deflagrou campanha conta o filme “E o vento levou”, clássico do cinema norte-americano de 1939. No ano seguinte, concorrendo ao Oscar a película baseada no livro da jornalista Margaret Mitchell além de arrebatar os principais prêmios, deu ensejo a um fato marcante na história do cinema: pela primeira vez uma atriz negra, Hattie McDaniel, ganhava o troféu. Na ocasião, emocionada, ela declarou “espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para minha raça e para a indústria cinematográfica”. Tendo feito o papel de empregada doméstica, filha de ex-escravos durante a Guerra de Secessão, a atriz concorreu com Olívia de Havilland, preferida. Dear Hattie – como gostava de ser chamada – voltou à cena como foco principal de uma campanha contra a inclusão do clássico filme na lista do HBO. Pelos protocolos da época daquela premiação, os negros não poderiam pisar na famosa passarela vermelha e nem entrar pela mesma porta que os brancos. A retomada dessa lamentável atitude estadunidense valeu como argumento para a pretendida suspensão do filme. Inúmeras personalidades, principalmente da crítica cinematográfica, bradaram contra, e por fim ficou reestabelecido o merecido posto da peça que é considerada entre os dez melhores de toda a história. 

O destaque dado entre nós ao episódio hollywoodiano merece um paralelo importante com algo que se passou no Brasil, também envolvendo uma atriz negra norte-americana. Em junho de 1950, o Teatro Municipal de São Paulo recebia uma famosa companhia de dança que fazia estrondoso sucesso na Broadway. A estrela principal, Katherine Dunham, também conhecida como "matriarca e rainha mãe de dança negra", além de antropóloga, era ativista da causa antirracista e, por isso, personagem de destaque mundial. Ao chegar na capital paulista depois de passagem pelo Rio, teve sua reserva - bem como de todo seu elenco - vetada no então elegante Hotel Esplanada. Profissional responsável, mudou o endereço, fez a apresentação que se repetiu por mais duas semanas provocando delírio das plateias - ainda que a primeira apresentação fosse atrasada pela dificuldade de montagem. De toda forma, na primeira coletiva à imprensa, indignada, pôs a boca no trombone. Os grandes jornais como O Estado de S. Paulo, Folha da Manhã e Jornal de Notícia, entre outros, alardearam a situação, provocando um debate que merece cuidados dos ativistas brasileiros. 

Os ecos do evento ressoaram fortes também na política. Um dos debates mais intrigantes sobre os preconceitos culturais brasileiros tem sido apagado, principalmente porque envolve de forma direta a figura de Gilberto Freyre. Sim, exatamente o consagrador maior do que ficou conhecido como “mito da democracia racial”, era a esse tempo deputado e fez eloquente discurso apontando o absurdo da situação dizendo que “o fato não deve ficar sem uma palavra de protesto nacional”. E não ficou, pois deu alento à aprovação da Lei Afonso Arinos. Cabe lembrar que o debate sobre a desejável criminalização do racismo teve que superar a fase anterior, quando, na Constituinte de 1946 se deu um desentendimento entre as propostas mais liberais e o partido comunista que percebia a causa como desviante da proposta de “luta de classes”. Assim, modestamente ficou assinalada naquela Carta, no artigo 141, § 5º apenas a proibição à propaganda de preconceitos de raça. Houve algum avanço com a Lei Afonso Arinos que, em 1951 foi promulgada por Vargas, proibindo a discriminação racial, considerando o ato como preconceito de raça e cor da pele. Lembrando que apenas na Constituição de 1988, no artigo 5º, inciso XLII, tivemos a prática do racismo como “crime inafiançável e imprescritível” resta retomar a proposta lembrando que sem uma consistente noção dos fatos nacionais fica difícil o entendimento da moldura nacional do debate sobre racismo. As alusões ao “E o vento levou” e a participação de Katheline Dunham, bem como o reenquadramento de Gilberto Freye e Afonso Arinos comprovam a necessidade de análise dos protagonistas no debate que, infelizmente, hoje mais se parecem com discussões norte-americanas do que propriamente nacionais. 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

TELINHA QUENTE 413

 


Roberto Rillo Bíscaro

Após perderem o contato com o exterior, membros de uma estação de pesquisa na Antártida aparecem mortos. O que teria acontecido?


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

CAIXA DE MÚSICA 421

 

Roberto Rillo Bíscaro

O segundo álbum da diva canadense é resultado de uma grande história de superação.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

CORONAVÍRUS ALBINO

Músico com albinismo afirma que coronavírus aumenta risco de ataques em países da África

LONDRES (Thomson Reuters Foundation) - A pandemia de coronavírus deixou pessoas que têm albinismo com medo de ataques e assassinatos em regiões da África onde partes de seus corpos são usadas como amuletos da sorte, disse um músico zambiano com a doença.


John Chiti, de 35 anos, afirmou que já houve um assassinato na Zâmbia desde que o vírus surgiu, e o túmulo de uma pessoa com albinismo foi desenterrado e partes do corpo roubadas.

Outro homem teria sido atacado na capital Lusaka na semana passada.

"Mesmo enquanto tentamos sobreviver a esta Covid-19, pessoas com albinismo continuam a ser caçadas", disse Chiti à Thomson Reuters Foundation por telefone de Lusaka.

"Isso é muito preocupante, estamos vivendo com medo."

Na África Ocidental, segundo Chiti, as pessoas com albinismo também foram apontadas como culpadas pela Covid-19.

O albinismo - falta de pigmentação na pele, no cabelo e olhos - afeta até uma em 15.000 pessoas na África Subsaariana, de acordo com a Organização das Nações Unidas.

Chiti, diretor executivo da Fundação de Albinismo da Zâmbia (AFZ), disse que as pessoas também temem que os ataques aumentem antes das eleições gerais da Zâmbia no ano que vem.

Existem cerca de 25.000 pessoas com albinismo na Zâmbia, de acordo com dados oficiais.

"Sempre que há eleições, vemos um aumento nos ataques rituais", declarou Chiti.

"Os políticos que consultam os feiticeiros estão sendo instruídos a procurar certas partes do corpo para eles ganharem as eleições, então ... estamos ficando cada vez mais preocupados com nossas vidas."

TELONA QUENTE 330

 

Um refúgio romântico para dois namorados se transforma em uma luta pela sobrevivência quando o ambiente ao redor exibe sinais de uma infecção misteriosa.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

CONTANDO A VIDA 311

O CAIPIRA, O MULATO E A TEORIA DA DEPENDÊNCIA 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

O mundo é polissêmico. Tudo depende do jeito de falar, do tom de voz, maneira de escrever ou se expressar. Na mesma toada de “o que dá pra rir, dá pra chorar”, do batido “copo meio cheio, meio vazio”, ou mesmo da “rosa entreaberta, entrefechada”, a referência ao caipira e ao negro pode se ajeitar tanto no preconceito pejorativo como no elogio ufanista. O enfoque fica mais complicado quando luzes são acesas sobre o brio nacional e a participação na cena política recente. É aí que a memória ganha nuanças consequentes e coloca em questão a civilização de feições europeias como avesso do nacionalismo de matiz acaboclada. Mas... mas tem hora em que o orgulho nativista reponta desafiando a redefinição do ethos da brasilidade. O uso político dos julgamentos é termômetro propício para medir a absorção de questões como “caipirismo” e “mestiçagem”. Na mesma medida, o contraste emerge quase sempre em nome da dicotomia progresso x atraso. 

Com certeza, em termos amplíssimo, este debate como nó teórico foi amarrado nos anos de 1920 – mais precisamente em 22 – quando então o Movimento Modernista deu argumentos formais para a aparente refutação do método colonizador europeu. Frases fáceis e de efeitos estéticos ecoaram em brados picantes como “tupi or not tupi” (Oswald de Andrade) ou “sou um tupi tangendo um alaúde” (Mario de Andrade). Com a passagem pronunciada em 1928, no livro “Macunaíma”, de Mario de Andrade, estava decretado o dilema “Oropa, França e Bahia”, e assim, abria-se a temporada para a qualificação moderna de quem somos. 

Na fresta irrompida na década de 1930, os três grandes ensaios fundadores da produção intelectual brasileira se abraçaram para nos explicar na chave da “Raízes do Brasil” (Sergio Buarque de Holanda), “Casa grande e senzala” (Gilberto Freyre) e “História econômica do Brasil” (Caio Prado Jr). De certa forma, ainda que com críticas, a cultura em todos níveis expressivos carreou o pressuposto da gentileza mestiça e das delícias tropicais. Como estereótipo de conveniência, nos deixamos transparecer como país harmonioso, de relações incruentas, enfim um povo acolhedor, simpático, brincalhão. E nossas marcas eram o samba, a feijoada, o carnaval junto com o futebol, e mais recentemente a caipirinha e a capoeira. Tudo bem arrumadinho no melhor feitio esticado popularmente na base do “patropi”. 

Diria que nos anos de 1980, na apelidada “década perdida”, publicamente os desconfortos latentes começaram manchar essas lógicas simplistas que não se continham mais nas abstrações genéricas e teóricas. Era chegado o tempo da provação prática que punha em dúvidas as referências filtradas pela representatividade abstrata. E não foi sem motivos que as campanhas eleitorais deixaram transparecer tais dilemas, até porque os votantes teriam que caber nos perfis dados pela “imagem e semelhança” dos candidatos. Convém lembrar que a essa altura já havia concorrentes com perfis populares, comprometendo a generalidade estereotipada. Tudo ficou mais explícito na campanha presidencial que culminou com a vitória de Collor de Melo, em 1989, quando um nordestino, migrante, perdeu para um legítimo filho da elite. Seu substituto, Itamar Franco, passou a ser taxado de “caipira”, e por isto incapaz. Na eleição de 1994, o tema sobre a representatividade étnica ganhou notável visibilidade. Sobremaneira, o candidato Fernando Henrique Cardoso, intelectual respeitado por produção acadêmica fundamental, projetou o problema tanto em esfera nacional como internacional. Dono da sofisticada “teoria da dependência”, onde demonstrava a fatalidade do vínculo entre “centro e periferia”, em sua campanha presidencial, tendo novamente como opositor o mesmo tipo “do povo”, atraiu o debate para o eleitorado. Valendo-se de estratégia populista, a fim de garantir que não exclusivamente da elite, insistia em dizer-se “mulatinho”, “com pé na cozinha” e até “africaninho”. 

As escolhas de FHC objetivaram, primeiro, o eleitorado negro, mas manteve o tom negativo do caipira. Em 1996, por exemplo, disse em Lisboa “como vivi fora do Brasil, na Europa, no Chile, na Argentina, me dei conta disso: os brasileiros são caipiras. Desconhecem o outro lado e, quando conhecem, se encantam”. No ano 2000, novamente em campanha, não poupou os caipiras e naquele junho, disse textualmente: “Foi a mentalidade realmente colonial que, infelizmente, pegou parte da nossa elite, até parte da elite universitária, da elite da imprensa, que tem cabeça colonial, que imagina que o Brasil é um país que tem de andar de cabeça curvada a toda hora”. 

Sobre o caipira, a percepção negativa de FHC atravessou os tempos, não mudou, e fez-se particularmente notável quando em 2012, falando sobre moderna política expressou-se contra seu ex ministros (duas vezes) Serra dizendo que ele era “provinciano”, mas muito pior foi referir-se a Alckmin, reconhecendo que “ele não saiu de Pindamonhangaba ainda. Quando foi deputado federal, parecia um vereador”, aludindo a prática de trocar telefonemas com prefeitos para discutir convênios firmados pelo governo estadual. 

O olhar crítico negativo de FHC sobre os caipiras sugere outra leitura de sua teoria da dependência: tudo fica submetido a uma mentalidade central, urbana, industrial, que, por sua vez, projeta o caipira na margem oposta. E então a culpa de tudo passa a ser do pobre caipira que, afinal, seria o produto acabado da tal mentalidade colonial. Estranho mesmo é o processo de escolha de contingentes de eleitores. Os caipiras ficaram de fora, pois, grosso modo, não participam maciçamente do bloco votante engrossado pelos negros nas cidades. A boa notícia é que aos poucos vamos aprendendo a ver quem é quem, além dos preconceitos e, assim, entendemos melhor quem é quem...

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

CONTANDO A VIDA 310

MODERNIZAÇÃO DA CAIPIRAGEM: sertanejos e o telefone. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Há quem acredite em coincidências. Muitos duvidam, e gente séria: Kardec, Marx, Jung; os árabes já diziam “tudo está escrito”. Certo ou errado, aconteceu de ouvir o mais velho dos sambas gravados, “Pelo telefone”, do Donga, e em seguida tocar “Por telefone não” com a dupla Maiara e Maraísa. Pronto, estava dado o sinal para inquietações. Cem anos entre uma e outra canção. Cem anos. E as duas pareciam se conversar desde o título. Logo tratei de buscar ligações e não demorou para que minha curiosidade armasse uma cilada sedutora: por telefone! Meu Deus, pensei, um século entre uma letra e outra e ambas falando do mesmo aparelho. Daí foi mecânico lembrar de 1969 e nele Jorge Ben Jor com “alô, alô Teresinha, aquele abraço”. A voz inconfundível de Tim Maria, em 86 inscrevia o “Telefone” como uma das mais marcantes de sua saudosa carreira. E veio fácil o trecho de Herbert Viana com os Paralamas do Sucesso cantando em 88 “Quase um segundo”. A sequência prometia continuidades quando me perguntei sobre o significado do aparelho inventado pelo escocês Graham Bell para os/as sertanejos/as. Não poderia de ser de outro jeito, pois a interpretação da dupla feminina é muito desafiadora. Dei asas à imaginação, começando por supor o significado da música do campo adaptada às modernidades urbanas. 

Mania de historiador, logo pensei em periodizar a questão. Foi quando então, meu lado saudoso, de alma interiorana, me fez recuar no tempo, lembrar que ainda menino assisti às demonstrações do que se chamava “moda de viola”. Tratava-se de grupos não profissionais, de gente do campo que cantava em conjunto composto por 3, 4, 5 pessoas. Animando festas religiosas, as cantigas eram longas e arrumadas em vozes sincopadas que se harmonizavam, como definiu Mário de Andrade. Não se pode dizer que eram composições espontâneas, mas estavam livres de tempo de duração. E contavam histórias, ah, como contavam! Os temas do campo eram plenos de passarinhada, flores, cavalos, estradas e muitos luares. 

Filha do tempo, a inversão populacional do campo para a cidade foi exigindo adaptações e o controle capitalista impôs limites que se fizeram determinantes nas gravações. Cada dia mais longe, as modas de viola foram diminuindo e duvido que existam muitas. Em compensação, já na cidade, derivações foram se acomodando merecendo a qualificação “sertanejo raiz”. Mesmo renovada, ainda era reconhecida como “música caipira”, até porque a temática era a saudade nostálgica da fazenda. Falava-se do mundão deixado prá trás, mas com tempo de duração menor, tendo que caber nos limites dos velhos discos de 78 rotações. Ao mesmo tempo, as apresentações aconteciam em auditórios, espaços fechados, já demando aparelhagem eletrônica, microfones, instrumentos cada dia mais aperfeiçoados. Os antigos conjuntos de intérpretes foram encolhendo até que se chegou a um padrão condizente com o gosto do mercado: as duplas. Não se pode dizer que a aceitação era pequena. Não, mas era silenciada por uma certo pudor urbana que não resistiu por muito tempo. 

Essa evolução ia se imponto de maneira a chegar nos anos de 1980 e acontecer a explosão das duplas sertanejas. É fácil reconhecer nessa fase, que pode ser chamada de “rurubana”, a troca da observação do campo pelos ajeites na cidade, aliás é aí que o telefone aparece. Geração ponte, era preciso relativizar a tradição campestre. E haja multiplicação destas parcerias que, com raras exceções, eram masculinas. Sim esse processo foi atravessado por algumas presenças femininas, mas eram poucas como Inezita Barroso e as Irmãs Galvão; ah, e havia pares como “Cascatinha e Inhana”, exceções do padrão masculino. Mais tempo corrido e chegou-se a uma outra geração que derivando dos pais ia se deixando permear por coisas da cidade. 

No final dos anos de 1990 já se falava de “sertanejo universitário” e então reinventava-se o uso da bota, da camisa listrada, melhorava-se muito a qualidade do som e um esquema empresarial marcava esse gênero que passou a abrigar nomes solos. E os assuntos abordados se tornam muito mais românticos, perdendo a determinação dos ares campestres. No lugar, os lamentos individuais se combinaram com acordes antigos, memórias que não deixavam de repontar. Aliás, é importante assinalar que este processo não é linear, nunca foi. A persistência de tradições emergia cá e lá, quase que como contraponto ou reserva de lembranças que não se apagam de vez. 

É neste circuito que o telefone se liga como argumento analítico, ou seja, questionando o significado do aparelho no cancioneiro sertanejo? Um breve passeio pelo repertório pode dizer alguma coisa; vejamos. Considerando apenas os sucessos incontestáveis, não levando em conta autorias, temos uma lista reveladora da modernização da caipiragem. O primeiro destaque desta sequência foi “Telefone mudo” com o Trio Parada Dura; em 88 o Trio Carreiro gravou com ampla aceitação “Chamada a cobrar”, dando passagem para as duplas. Sem dúvida o sucesso definidor se deu com “Pense em mim” de Leandro e Leonardo que adaptaram um reggae de 85 e converteram sertanejo festejado. Em 2003, “Ligação urbana” explode com Bruno e Marrone, e, em 2010, outra vez o Trio Parada Dura volta ao tema com “Telefone Mudo”. Entre as mais apimentadas composições, em 2015 Enrique e Diego gravam “Senha do celular” que caiu no gosto popular. Marilia Mendonça, em 2016 aparece como destaque feminino defendendo – já na linha da “sofrência” – o “Me desculpe, mas sou fiel”, e, finalmente “Por telefone não” de Maiara e Maraisa em 2017. 

Mas afinal, o que pode o telefone, como tema, explicar a respeito da música sertaneja? E a resposta vem pronta, exatamente na medida em que mostra mais que uma apropriação de instrumentos da modernidade urbana e industrial, um meio de negociar o ajuste de um segmento que reelabora sua memória no ambiente que se lhe abriu, e eles se impuseram. Telefone é um exemplo, mas poderíamos tomar outros como: automóvel, caminhão, relógio e fotografia. O que não se deve é rebaixar a carga de memória em trânsito de afetos, do campo para a cidade. Negociações...

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

CONTANDO A VIDA 309

SOMOS TODOS RACISTAS: nosso pecado original. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Algumas pautas vieram para ficar. Temas como feminismo e questões de gênero ganharam postos definitivos nas reivindicações por direitos de minorias vulneráveis. Dentre tantas, sem dúvidas, a questão racial reponta como das mais expostas à opinião pública, principalmente depois da publicidade estatística que, via CPI, revelou a assustadora cifra e um jovem negro morto a cada 23 minutos no Brasil. Tendo como referência o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e as reações gerais, a questão exibe vocação planetária e nos coloca todos numa berlinda moral: como chegamos a este ponto? 

Uma das conquistas mais eloquentes dos brados antirracistas está em sua qualificação como estrutural. Mas, em essência, o que significa racismo estrutural? Que condição lhe garante este atributo e que diferença faz? A fatalidade da pergunta demanda reconhecer que a noção de escravismo é antiga, antiquíssima aliás, mas a consciência de sua projeção como problema crônico no presente é jovem e desafiadora de reversões. Desde sempre falamos da escravidão como sistema, e não faltam historiadores que passam a vida desvelando os mecanismos da dominação de uns sobre outros, de brancos sobre negros e indígenas, tudo sob a imposição do lucro. Com o tempo, a absorção mecânica dessa fórmula deformou o lábio, mas, por fim, o cachimbo caiu. Mesmo libertos, no geral, o negro continua marginalizado, lutando para tornar verdade o preceito romântico de liberdade, igualdade e fraternidade. Então, frente ao fracasso, o pretérito se abre para a pergunta que não consegue mais calar: como não notamos isto antes? Por que não entendemos o drama que tanto nos envergonha? 

A, insistência das desigualdades fez o que era cômodo para uns virar insuportável para outros e a explosão não mais segura mágoas acumuladas em transcendentais memórias de dor. A consciência de classe de grupos atingidos ganhou força e organização, e uma solidariedade racial se tece costurando experiências diversas que, aliás, se valem da própria problemática para reclamar direitos estabelecidos. E temos que aprender mais que o diálogo simples, o exercício de convívio como o excluído que se faz notar. Urge superar as cabíveis tramas das diferenças e entender a sanha da raiva e da vingança expressas pelas manifestações comunitárias de quantos padecem submissões, muitas nem sempre tão sutis. Difícil. Difícil sobretudo porque antes temos que acertar uma conta moral, nossa, de brancos que se valeram da cor da pele para dominar. E isto demanda assumir a história. É precisamente neste ponto que atua a questão estrutural. Vejamos um exemplo eloquente, 97% dos nossos parlamentares são brancos, em um país com 54% de negros. 

Racismo estrutural é conceito exercitado para dimensionar experiências de sociedades que se organizaram com base na hierarquia secular de mandos, segundos critérios culturais e práticos, ambos discriminatórios. Proprietários – no caso do Brasil, brancos cristãos – se aparelharam com leis e preceitos de controle de grupos submissos, regidos pelo que foi o maior negócio da humanidade em todos os tempos: o longo tráfico negreiro. Criou-se, portanto, no jogo de relações universais um birrento sistema racista. Com aberturas calibradas e com variações contidas, em diversos espaços, a mobilidade social foi sendo estratificada e tornou-se conveniente. Nesta linha, convém lembrar que o Brasil foi o país que maior número de escravos recebeu – mais de 4,2 milhões – e figura entre os últimos a “libertar os escravos”. E tem mais, a Lei que decretou tal condição foi estabelecida no âmbito do poder dominante que cuidou de não planejar a reinserção do contingente nos projetos nacionais. Pelo contrário, nossa Abolição equivaleu a condenação à marginalidade. 

Libertos sem ter a condição constitucional de cidadania, os negros não puderam integrar, por exemplo, o ensino público ou se valer de cuidados da saúde. Sem meios elementares de competição, não conseguiram concorrer com vantagens favoráveis dadas aos imigrantes que se aproveitaram da Lei de Terras de 1850. Reverso, numa relação de direitos invertidos, os brancos estrangeiros se integraram progressivamente, enquanto os “libertados”, sem educação formal e acesso ao trabalho, vagariam à margem do sistema. Em 1890, a Lei dos Vadios e Capoeiras, por exemplo, cuidava dos negros sem condições de pertencimento à sociedade de classes, e, assim inaugurava-se um problema continuado em nossa realidade: a prisão cheia de descendentes de escravos. E a marginalidade legal, consideremos, perdurou até 1951, com a Lei Afonso Arinos que enquadrou o racismo como crime. Ao longo de anos, sem direitos à participação legítima, a cultura branca cultivou mitos da democracia racial e os morros foram se enchendo de contingentes sem chances de pertencimento efetivo no corpo nacional. Ah, a democracia racial!... Ah o Brasil sem preconceitos... 

Não haveria exagero algum em afirmar que estruturalmente fomos educados para não admitir que somos racistas crônicos e, agora, admitir a premência do reconhecimento de uma cultura de exclusão é o primeiro passo para que se consiga uma sociedade minimamente mais justa e pouco mais igualitária. Comecemos, pois por acatar nosso pecado original: a escravidão mal resolvida. A partir disto poderemos assumir que antirracismo não é ter um amigo ou um vizinho preto, tratar a empregada como alguém da família, ou criticar o que se vê nos Estados Unidos ou na África do Sul. Ser antirracista é, em primeiro lugar, assumir que fomos plasmados numa história que não nos permitiu ver o quanto cruel e violento fomos. Isto implica consentir nosso pecado original e revertê-lo. Falo de cotas raciais em primeiro lugar. Cotas, batismo da remissão necessária porque justa. Amém.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

TELINHA QUENTE 412



Roberto Rillo Bíscaro

A aclamada série Love of Duty centra-se nas atividades do esquadrão anticorrupção da polícia britânica.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

CAIXA DE MÚSICA 420


Roberto Rillo Bíscaro

Promissora estreia do rock progressivo sinfônico italiano, com grande guitarrista, belas melodias e vocais dramáticos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 308

CARTA AOS MEUS BISNETOS. 

José Carlos Bom Meihy

Queridos 

Escrevo-lhes de um dia perdido no início do século XXI, mais precisamente em julho de 2020. O ano é numericamente exato e, na repetição de dois 20, 2020, sugere ilusão especular repetida. Erro dantesco querer alguma “outra vez”, pois este ano, ainda em curso pode ser considerado o pior da vida de muitos. Tudo segue muito intrincado, cheio de esquinas que prometem um futuro próximo trocado de promissor por arriscado, na melhor das hipóteses. É por isto que lhes escrevo, aliás. Quero deixar distinto meu testemunho e revelar um estado de espírito inquietado pelo medo, pela frustração e desalento. Gostaria anunciar um devir melhor, talvez uma saída depurada desta pandemia tão atroz que nos acomete, porém, faltam-me forças e sobram ameaças que abatem esperanças. Deixem-me começar por um fato matriz: imaginem que, devido a covid19, em pouco mais de 100 dias o número de mortos passa de 70 mil, e, estacionados em platô altíssimo, ainda esperamos o declínio estatístico. Por favor, considerem que escrevo sob a média de mil mortos a cada anoitecer, e assim esta carta se faz com um olho retrovisor e outro no agora, imaginando o tempo bisneto projetado numa ordem progressiva de triste matemática. 

A sotto voce, discute-se o fátuo refinamento passado o trauma avassalador. Ouvem-se, cá e lá, falas alvissareiras, predizendo um mundo melhor, mais fraterno, solidário, sábio por aplacar feridas tão expostas que, dizem, “vão passar”. Estamos no presente sangrando por um passado mal vivido, desgastado por exageros e desperdícios, explorações e abusos de toda ordem. Graças, principalmente, ao descuidado com o planeta que se exibe quase esgotado. Sem atenção à ordem natural das coisas, chegamos ao ponto da exaustão confinada em nós mesmos. Não estou otimista. Não consigo estar, desculpem-me, pois, as dores sociais são tão evidentes, as distâncias sócio econômicas tão extremadas entre miséria e riqueza, e a falta de compaixão para com atingidos diretamente só fazem somar fatalidades e apontar para o despenhadeiro que lhes entregamos... 

É verdade que o momento poderia nos convidar a possibilidades provocantes que, sem elas, não nos restaria o mínimo: temos que mudar, há de surgir um “novo normal” - e mesmo sem entender bem que “normal” seria este -, sinto-me compelido a escrever pensando em alguma satisfação a vocês. E fala-se em um voluntarismo pessoal como se tudo dependesse de nós mesmos, de uma mudança que começaria em cada qual. Ilusão, meus bisnetos. Passamos pela Primeira Guerra Mundial, pela Guerra Civil Espanhola que viu seu fim na Segunda Guerra, trazendo o azedume alongado na Guerra Fria. Não podemos nos esquecer da Guerra das Coreias no raiar dos anos de 1950, e que dizer da Guerra do Vietnã, dos conflitos árabes-israelenses, das guerras de independência da África e nela das guerras civis? E nem cabe deixar de lado o rosário de golpes militares na América Latina nos anos de 1960 em diante. E haja Balcãs, Chechênia, Golfo... Nossa! Ah, não tenho como me esquecer embargos, armas químicas e vírus de laboratórios. É muito, meus bisnetos. Muito, e o que aprendemos?... 

E as endemias, epidemias e pandemias? Valeram lições? Florestas abatidas sem piedade, povos indígenas sob ameaça de extinção, racismo e negacionismo à solta. Definiu-se, imaginem meus bisnetos, um “gabinete do ódio” e um “escritório do crime”, temos um presidente que renega a cultura e a ciência, e mesmo acometido pelo vírus maldito (dizem) ainda insiste em priorizar a economia em vez da vida. A soma destas mazelas se me impõe tristezas. As consequências são ameaçadoras: nacionalismos exacerbados e ressurgimento de uma direita propaladora de fechamentos de fronteiras, e daí: exílios, migrações clandestinas, tráfico de pessoas, liberação de armas, privatizações e mais privatizações... No “encolhimento do estado”, a exploração sequente da mão de obra empobrecida a cada dia. 

Trabalho academicamente com o conceito de memória, e sei que nela se opera a seletividade, condição que abriga o esquecimento. Sei também que o mnemônico guarda misterioso efeito subterrâneo que reaparece quando determinadas circunstâncias se combinam. Pois é, neste quesito é que considero o que marcará a sua geração como filhos de pais que se redefiniram na pandemia, que tiveram que se levantar órfãos de um estado incompetente e de um sistema cruel demais. E assim justifico estas linhas deixadas como pedido de desculpas. Triplas desculpas: pelo fracasso de minha geração, pelo legado a seus pais e a vocês a quem caberá reconstruir o mundo. Desculpo-me também por deixar as dívidas de uma coletividade que não soube aproveitar as benesses do tempo, exagerou no apelo consumista, não entendeu os avisos da natureza que reagiu com uma pandemia desafiadora de novos programas. A história contemporânea dividirá o tempo em um antes e um depois do coronavirus19, e, resta esperar que a sua geração aprenda o que a minha não soube. É isto... Junto ao meu beijo final, um fecundo pedido de perdão: falhamos. Que seus pais façam mais do que conseguimos e que vocês reinventem um mundo melhor.