sábado, 15 de junho de 2019

PAPO COM HERMETO

“O dinheiro é a desgraça do mundo”: conversamos com o mestre Hermeto Pascoal

Ele é conhecido como o mago ou o bruxo e é basicamente isso mesmo. O que Hermeto Pascoalfaz com sua música é magia. Com a ideia de uma musicalidade livre, as canções do lendário músico alagoano parece que fazem parte da natureza, como uma extensão do ambiente onde são criados.

Esse show vai poder ser visto no Rio Montreux Jazz Festival e por isso, mandamos algumas perguntas para ele que nos respondeu por áudio em seu jeitinho de poucas palavras e muita poesia e bom humor.


TMDQA!: Você é um artista que sempre me pareceu muito inquieto, buscando sempre algo novo, buscando surpreender. Essa reinvenção e elemento de surpresa é parte do seu processo criativo?

Hermeto Pascoal: Você fez uma pergunta muito afirmativa, muito inteligente. E é verdade tudo isso. Eu me considero 100% intuitivo.

TMDQA!: Desde 2008, você tem uma postura muito diferente em relação a direitos autorais, deixando suas músicas livres para chegarem a mais pessoas. Essa seria uma busca para uma música livre de verdade, não só na parte musical?

Hermeto Pascoal: O dinheiro é a desgraça do mundo. Quem ganha mais parece que tá com um câncer da alma. E eu não quero entrar nessa. Nunca quis desistir de muita coisa para ganhar muito dinheiro dinheiro. Sempre me pareceu que seria o dinheiro que iria me ganhar. Eu não recebo direito autoral. Ele sempre ficava na mão de quem deveria me pagar e não chegava em mim. Aí quando algum coitadinho queria gravar, cobravam mil reais. Por isso eu liberei a gravação. O que quiserem gravar meu, é só gravar. Se precisar assinar algo, eu assino também.

TMDQA!: Você vai se apresentar no Rio Montreux. Você acha que esse tipo de evento pode abrir novas portas aqui no Rio?

Hermeto Pascoal: Deus quando fez o mundo, deixou muitas portas abertas para quem quer evoluir. Um festival desses é uma oportunidade para quem tem o que apresentar, mas o público é maior que os artistas, eles querem sentir e curtir. É nossa função entregar algo para o público. E confia em mim pois eu sou doutor, Doutor Hermeto! (risos)

Nota: Hermeto está se referindo ao título de Doutor Honoris Causa que recebeu do New England Conservatory, nos Estados Unidos.

TMDQA!: E o que você está preparando de surpresas para esse show?

Hermeto Pascoal: Sempre faço assim, eu não premedito nada. Eu não preparo nada, com antecedência. Até pra comida é assim. Teve um tempo atrás que fui fazer uma pipoca e não tinha me preparado e quase taquei fogo na casa! (risos) Eu subo no palco para eu mesmo me surpreender.

TMDQA!: Você é um daqueles artistas que sempre pareceram vislumbrar o amanhã. Como você vê a música brasileira hoje e, para você, o que nos aguarda para o futuro?

Hermeto Pascoal: O futuro só a Deus pertence e eu não tenho mais tempo pra isso. Uso o passado de alicerce e sigo firme no presente. O Brasil tem muitos músicos bons. Eu acabei de gravar um disco com uma banda que acho que 20 anos atrás não encontraria. Temos muitos bons músicos.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PAPIRO VIRTUAL 136

Um time de investigadores noruegueses investiga um serial killer que parece matar indiscriminadamente.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

DIA MUNDIAL DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O ALBINISMO

Sociedade Brasileira de Dermatologia adere ao #tbt para alertar sobre o Dia Mundial de Conscientização do Albinismo

Campanha relembra depoimento do músico Hermeto Pascoal, que conta como é viver com a doença, e publica novos vídeos de conscientização


Em clima de #tbt, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) adere ao Dia Mundial de Conscientização do Albinismo (13 de junho), relembrando o vídeo do músico brasileiro Hermeto Pascoal, que conta como é viver com a doença (https://bit.ly/2wAb4uj). A entidade também realiza uma campanha nos stories da SBD no Facebook e Instagram com vídeos depoimentos de conscientização de outros albinos do Brasil.

O albinismo é uma doença genética, não contagiosa, que ocorre a partir de uma deficiência/incapacidade de produção da melanina, pigmento que dá cor à pele, cabelo e olhos e protege a pele contra a radiação ultravioleta. Dessa forma, os albinos são altamente propícios aos danos causados pelo sol. “São pessoas que podem apresentar envelhecimento precoce, danos actínios e câncer da pele ainda muito jovens. É justamente a prevenção do câncer da pele, muito frequente entre os albinos, a maior preocupação dos médicos dermatologistas. Quanto mais cedo e regular o cuidado para evitar lesões cancerosas, melhor a condição de vida dos albinos.”, explica Sérgio Palma, Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

Além disso, como a principal fonte de vitamina D é proveniente da exposição solar, os albinos precisam fazer suplementação para evitar problemas decorrentes da deficiência dessa vitamina, como alterações ósseas e imunológicas. A alteração genética também modifica a estrutura e o funcionamento ocular, gerando possíveis problemas visuais.

Os pacientes albinos podem e devem levar uma vida normal, apenas precisam ter mais cuidados no dia a dia para evitar complicações decorrentes das suas condições genéticas. É necessário se proteger muito bem do sol com medidas fotoprotetoras (protetor solar, roupas que cubram áreas do corpo que ficam expostas aos raios solares e óculos escuros com proteção contra os raios UVA e UVB, por exemplo) e se consultar periodicamente com um médico dermatologista associado à SBD (https://www.sbd.org.br/associados). De forma simultânea, é importante que passem por consultas com médicos oftalmologistas.

Confira trechos dos depoimentos dos albinos

“As dificuldades de um albino começam pela baixa visão e a falta de pigmento da pele. Sabe como é difícil você estar no ônibus ou numa sala de aula e ser ignorada por todos? Assim foi a minha trajetória até hoje” - Verônica Melo

“Ser albina é conviver com uma sociedade cheia de preconceitos e admirações também, pois infelizmente muitos ainda não entendem sobre o albinismo” - Viviane Ferreira

“Nós necessitamos de respeito e dignidade de toda e qualquer pessoa com e sem melanina, pois temos direito à vida, ao trabalho e às relações humanas, assim como qualquer outra pessoa” - Andreza Aguida

“Gostaria que o Governo Federal e todas as esferas lançassem um olhar para a população albina do Brasil e começassem a fazer políticas públicas. É disso que a gente precisa” - Roberto Rillo Biscaro

Acompanhe as redes sociais da SBD para conferir a campanha completa

Facebook: Sociedade Brasileira de Dermatologia
Instagram: @dermatologiasbd
Youtube: sbdonline

TELONA QUENTE 292

Roberto Rillo Bíscaro

Provavelmente, o único interesse que o primeiro filme da franquia Leprechaun ainda pode ter, é que se tratou da estreia de Jennifer Aniston. Diversos fatores sempre me afastaram da série de filmes, em português conhecidos como O Duende:
a) É “terrir” e não sou fã de terror com comédia ou vice-versa, porque agua o horror. Tirada cômica ali, outra acolá, beleza, mas descaradamente cômico não desperta meu interesse.
b) É anos 90, período cuja produção de terror me é menos cara.
c)   No caso específico do primeiro Duende, nunca me importei com Aniston e sequer sei os nomes dos personagens e atores de Friends. No início do milênio, vi maratona de episódios num dia de inverno nevado em Baltimore e achei mais interessante cavar a neve dos pneus do carro pra podermos ir jantar.
A Amazon Prime, porém, oferece o mais antigo e o mais recente item da franquia em seu catálogo. Tão facinho, que arrisquei, afinal, se odiasse, era só parar.
O Duende (1993) é uma espécie de Brinquedo Assassino folclorizado, tipo Chucky goes folk. Leprechauns são os gnomos sapateiros irlandeses, avaros em sua insaciedade aurífera. Pai e filha, que se mudam pruma cabana no meio do quase nada, se veem às voltas com uma dessas criaturinhas. Com um grupo composto por um bofe-galã, um gordinho mentalmente comprometido e um daqueles meninos com inteligência artificial de roteiro, Aniston tenta deter a criaturinha, que faz gracejos como Chucky, só que trocando “my” por “me”. Esse estereótipo gramatical é supertípico pra indicar britânicos/irlandeses. Só que o ator mantém seu sotaque ianque...
A começar de Aniston, tudo é ruim em O Duende, como sempre suspeitei. As mortes são chinfrins e poucas; restam as tentativas de graça do leprechaun andando de bicicleta e outras bobeiras de horror-comédia. Tem filme que é bom de tão ruim. O Duende só é ruim.
Ano passado, ressuscitaram a franquia, com O Retorno Do Duende. A mesma cabana será usada como república pra universitárias (longe pra burro do campus, por que elas quereriam viver naquele buraco?) e vez mais o duende ataca. Ao estilo Halloween 2018, este filme é continuação direta do primeiro, desconsiderando o resto da franquia. Tanto é que os eventos se passam 25 anos depois e o simpático Ozzy reaparece. A heroína é a filha da personagem de Aniston, que, claro, é cara demais pra ser contratada agora. Se ainda Leprechaun tivesse o mesmo status que Halloween, que consegue que Jamie Lee Curtis retorne de quando em vez...
O Retorno do Duende não é nenhuma obra-prima, mas suas mortes ao estilo Premonição são bem legais e criativas. Dessa vez o humor vem mais bem-calibrado e o leprechaun é mais maligno e assustador, embora solte suas pérolas de humor-negro nada politicamente correto. Sem contar as inúmeras alfinetadas e piadas infames com a hipocrisia da conservação ambiental e que tais.
Se quer diversão inconsequente, veja esse. E pode deixar o primeiro no esquecimento.

terça-feira, 11 de junho de 2019

TELINHA QUENTE 364



Roberto Rillo Bíscaro

Ao comentar a série polonesa Ultravioleta, da Netflix, apontei que a necessidade de tornar o grupo de detetives amadores infinitamente superior à tosca polícia resultou em roteiros algo simplórios, onde tudo dá certo muito rápido pros sherlocks internéticos. É como se um defeito puxasse outro.
Enquanto via a dezena de episódios de Vlucht HS13, vinha-me à cabeça amiúde como uma trama tão estapafúrdia, cheia de decisões estúpidas, pôde ser tão bem camuflada com ação e reviravoltas constantes, gente (muito) bonita e suspense, de modo a prender o espectador tão bem.
Minha única (acho e até agora) experiência com série holandesa for frustrante. Consegui, na marra, terminar a primeira temporada de Nieuwe Buren (tem na Amazon Prime). Não transfiro pra todo um país a responsabilidade pela chatice duma produção, mas quando percebi a estonteante Katja Schuurman na cena inicial, dei-me ultimato: se não levantar voo até o próximo episódio, vou parar nele.
Flight HS13, de acordo com o título pro mercado anglofalante, decola não apenas nominalmente, mas logo no capítulo um, e mais de uma vez. Liv e Simon Kraamer tem vida familiar de comercial de margarina num lindo, verde e afluente condomínio. Ela tem seu próprio negócio com o cunhado; Simon é médico do bem, até labutou anos no Irã, com os Médicos Sem Fronteiras. Na cena do almoço familiar que inicia a mini dá pra perceber algumas tensões entre aquela gente bonita, mas qual família não as tem? Logo depois, aprendemos que o maridón irá à Barcelona, no voo HS13, que cai em região montanhosa da França. Daí, Liv faz desconcertantes descobertas, que repercutirão nas vidas de toda a família e até em Teerã (e como!).
Usando a velha fórmula de desvendar segredos e neuras de família, Flight HS13 tem trama absurda na quantidade de decisões estúpidas tomadas pelas personagens e pelo alcance do inexplicado poder dum vingador. Mas, é tudo tão divertido e lotado de truques pra manter-nos fisgados á trama, que flui de boa.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

CAIXA DE MÚSICA 369

Sting resolveu remodelar alguns dos clássicos do Police e de sua carreira-solo. O resultado é o álbum My Songs, lançado dia 24 de maio.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

PAPIRO VIRTUAL 135

Um serial killer aterroriza mulheres em Copenhague e em cada vítima deixa um homúnculo feito de castanhas.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

TELONA QUENTE 291

Roberto Rillo Bíscaro

Já daria pra fazer disciplina de pós-graduação apenas sobre slasher films. Dividiria o curso tipo, a) antecedentes; b) Halloween; (fase áurea 78-84); c) Pânico e, daí, por diante, daria pra discutir cada convenção slasher usando um filme contemporâneo que as expusesse ou subvertesse ou zombasse. O que Scream fez no atacado, roteiristas têm esmiuçado à ponto de crer que não há mais pedra alguma a ser virada.

Todo semestre, saem uns 2 filmes divertidamente enfocando algum lugar comum slasher. Hell Fest é sobre o anonimato do assassino; Terror Nos Bastidores problematiza a final girl e olha que nem lembro mais quantos já resenhei.  

No finalzinho do ano passado, saiu You Might Be The Killer, resultado de uma série de tweets entre os escritores Sam Sykes e Chuck Wendig, que discutiam convenções dos filmes slasher. Brett Simmons, com mais duas mãos, escreveu roteiro em cima da ideia e acabou dirigindo a película. Não é à toa que boa parte da exposição em You Might Be The Killer (YMBTK) é feita por conversa telefônica entre as duas personagens centrais Sam e Chuck. Até aí a metalinguagem predomina.

No acampamento Camp Clear Vista, supervisores começam a morrer como moscas nas mãos de um serial killer mascarado. O chefe dos monitores, Sam, liga pra Chuck, sua melhor amiga e experta em convenções slasher, e os dois chegam á conclusão de que o próprio Sam pode ser o assassino. Desta vez, a convenção enfatizada é a da identidade secreta do maníaco mascarado.

Subverter/Trazer à berlinda uma convenção não significa abandonar outras e YMBTK é enciclopédia de referências. Chuck explica cada um dos lugares-comuns slasher e a trama, nomes das personagens e produção aludem a tudo quanto é slice’n’dice digno de nota, especialmente os passados em acampamentos, dois quais Sexta-Feira 13 é a matriz.

Nesse jorro autorreferente e paródico, há personagens chamadas Fred, Nancy e Jamie, que, para espectador leigo pode não significar nada, mas para fãs slasher são Freddie Kruegger e sua final girl mais famosa e Jamie é, claro, a Lee Cutis, de Halloween. Aliás, Laurie Strode é citada nominalmente, bem como Nancy. Só não espere individualidade; a maioria está no roteiro apenas pra ser morta. É desculpa pra morte slasher e não gente, o que não seriam mesmo, anyway, porque é só um filme.

Só não há alguém chamado Jason, mas nem é necessário, porque a máscara, roupa, modo de caminhar e matar e até o característico kikikiki mamama estão na composição do assassino, que, então, desde logo sabemos quem é.

Visualmente, YMBTK remete tanto ao ápice oitentista desse tipo de filme, como aos vídeos de body counts, encontráveis aos montes no Youtube. A cada personagem morta, aparece o número na tela. Será que hoje não dá mais pra fazer slasher que não explicite sua autoparódia?

Há mortes bem legais e gruesome, como amamos, mas, a ênfase na forma e nas convenções, como sempre, tira o suspense e o terror. Como levar susto se há alguém prevendo o que acontecerá? Por mais divertidos que sejam esses metaslashers sempre dão a impressão de masturbação mental de conhecedor enciclopédico.

You Might Be The Killer serve pra se entreter numa tarde/noite, com amigos ou, como prefiro, com saquinhos de amendoim ou queijo nozinho.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

CONTANDO A VIDA 275


MÚSICA BREGA E O ESPELHO DO NARCISO (1)


José Carlos Sebe Bom Meihy

Com estranha insistência tem me vindo à cabeça uma frase fatal, escrita por Thomas Mann em um dos meus livros favoritos “José e seus irmãos”. Diz o autor alemão, filho de mãe brasileira: “é muito fundo o poço do passado. Não seria melhor dizermos que é um poço sem fundo? Quanto mais fundo sondamos... Quanto mais longe nos aventuramos nas sondagens, mais distante nos parece o fundo do poço e, à medida que vamos descobrindo novos pontos de apoio e atingindo aparentes metas, mais longe temos de levar a nossa sonda, que se estira e se aprofunda cada vez mais, como se tudo quanto encontramos e investigável estivesse preparado para zombar das nossas laboriosas pesquisas... Há, portanto origens provisórias...”. Confesso que esta passagem dói em mim, em especial quando alguém ilumina um caminho escuro retraçado pela memória de minha geração. Sim, é difícil ser brasileiro e a eternidade desta nossa sina grita forte quando olhamos o passado recente, aquele que ambientou um grupo de jovens que ousou sonhar com um Brasil diferente daquele que temos em mãos. E exatamente quando ataques virulentos se manifestam com o conhecimento filosófico ou humanístico, a dor chega a convocar desilusões.
Diria que entre os dilemas que aturdem nossas dúvidas está a qualidade da consciência de classe. Vivemos propalando que somos brasileiros acima de tudo e esquecemos que alguns são brasileiros acima de todos os outros, como se não fossem brasileiros, não tivessem os mesmos direitos e oportunidades. A cultura formal, o acesso à educação neste país tem sido dos privilegiados, dos brancos, cidadãos urbanos e proprietários, de uma minoria que podemos chamar de elite. E assim vamos vivendo como se todos nascêssemos iguais, homogêneos socialmente, e partilhamos supostos falsos como a valorização da meritocracia. Nada mais melancólico do que supor igualdades a partir de pontos de partida diferentes. Os vivas dados à meritocracia se entoam considerando os mesmos níveis de partida, desprezando lugares diversos de saídas. Penso nos interiores de estados como Piauí, Maranhão, Pará. E mesmo sem ir tão longe considero as periferias das grandes e médias cidades, e nelas situo legiões de jovens desfavorecidos, também os negros e pardos, e então, mais do que indignado com o apagamento das diferenças, me sondo do juízo lógico da nossa classe média. E como não falar de exclusão silenciosa e perversa? E como suportar a ignorância de uma elite minúscula que teve seu passado constituído pelo trabalho, durante 400 anos, pelo maior contingente de escravos negros da história? E que essas vítimas da servidão foram libertadas sem um projeto de participação na sociedade? Arde em mim pensar que ao mesmo tempo em que compusemos uma sociedade de classe ainda tenhamos uma das mais berrantes diferenças de condições do planeta.
Mas como já sabemos que o entendimento do Brasil não é matéria para iniciantes, convido a uma visita a um tema que nos afeta de maneira contundente: a música popular. Motivado por busca de compreensão do que seria nossa cultura popular, provoquei alguns debates em minhas redes sociais. E com viço insuspeitado vi aflorada uma determinação interessante: o olhar desprezível sobre algumas manifestações sonoras do “outro”. O termo estética aqui é usado propositadamente, até porque é complicado entender que os chamados subalternos, o tal “povão”, a classe C ou D detenha alguma lógica próxima do bom gosto elegante, das manifestações ditas apuradas. Ressalta assim o nosso poder julgador e os tais outros viram bregas, cafona, sem gosto.
A par desta constatação emerge outro constrangimento. A cultura brasileira em geral simplesmente apagou da consideração de estudos sobre o passado este tema que aos poucos foi sendo esquecido e até visto como exótico, coisa quase que folclórica. A desqualificação é uma das estratégias de apagamento de um pretérito que foi imperfeito na configuração da modernidade brasileira. E no lugar, novos figurantes – Roberto Carlos, por exemplo – foram se constituindo com base de novos acordes e entonações. Posto isto, fica estabelecido um pressuposto aberto às análises: música brega deixou de existir e foi esquecida, ou, no processo de constituição de uma nova elite urbana deu lugar à outra estética, evoluída daquela antes negada? Traduzindo de maneira mais simples, Roberto Carlos e correlatos seriam adaptações da breguice? Afinal, há acertos em se considerar a MPB uma variante da cafonália? Caso haja concordância, a não consideração da música brega seria justificada? Apelando para Caetano, “Narciso acha feio o que não é espelho”?
Por incrível que pareça, os mais importantes autores de história da nossa música e de antologias da chamada nossa música popular não levaram avante o registro da soma de canções que, afinal, se constituíram no mais aceito gênero pelas camadas numericamente mais populosas do país. Note-se que nesse caldo estão autores como Zuza Homem de Melo, Tarik de Souza, Nelson Mota, Sergio Cabral e mesmo o pessoal de esquerda como José Ramos Tinhorão ou Ruy Castro tiveram a sensibilidade de relevar tal gênero que foi à época o mais vendido, tocado e considerado na alma brasileira.
   
ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de janeiro: Record, 2010. 7ª. Ed. 458p.

terça-feira, 4 de junho de 2019

SAI ANO, ENTRA ANO...

Novos casos de rapto e assassinato de albinos em Moçambique

Moçambique volta a registar o rapto e assassinato de pessoas com albinismo. São os primeiros casos reportados este ano. A Associação de Apoio a Albinos de Moçambique pede ao Governo para agir.


O Ministério Público confirma que este ano foram registados novos casos de rapto e assassinato de crianças com albinismo na província de Nampula, norte de Moçambique.

"Tivemos duas situações", diz a procuradora-geral adjunta Amabélia Chuquela.

Em março, um menino de seis anos desapareceu no distrito de Larde e, este mês, uma menina de 11 anos foi raptada no distrito de Murrupula e depois encontrada morta, com os membros cortados.

Estes são os primeiros casos de rapto e assassinato de pessoas com albinismo reportados nos últimos meses no país, depois de um período crítico em que foram registados 60 casos só em 2015.

Chuquela confessa que está preocupada e diz que é preciso "perceber porque estão a surgir novamente essas situações".

"Governo está a fazer pouco"

O presidente da Associação de Apoio a Albinos de Moçambique (ALBIMOZ) adianta uma possível causa para o ressurgimento destes casos: a falta de coordenação entre o Governo e as organizações no terreno.

"O Governo precisa de respeitar as organizações", afirma William Savanguane. "As organizações é que estão no terreno, conhecem as pessoas. Trabalham diretamente com elas. Então, para as podermos proteger, é preciso que haja reconhecimento dessas organizações. Não que o Governo não faça isso, reconhece, só que está a fazer pouco."

As autoridades já estão a investigar os dois casos reportados este ano, informou a procuradora-geral adjunta, Amabélia Chuquela.

"No primeiro processo de Larde ainda não são conhecidos os autores, ainda está em investigação, mas no segundo processo, em Murrupula, já há três arguidos presos", diz Chuquela.

Associação pede lei específica

O assassinato de pessoas com albinismo é praticado por indivíduos que acreditam em poderes mágicos de poções e amuletos produzidos a partir de partes do corpo daquele grupo de pessoas.

Tal prática é alegadamente promovida por médicos tradicionais. Para William Savanguane, que tem defendido a criação de uma lei específica de proteção das pessoas com albinismo, é necessária uma ação enérgica do Governo junto da Associação de Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO).

"Tem que haver a realização de campanhas de consciencialização sobre o papel da AMETRAMO e a denúncia de práticas que não se enquadram no exercício normal da medicina tradicional", alerta Savanguane.

A ALBIMOZ defende ainda uma maior "consciencialização sobre o albinismo, e, nos diferentes meios de comunicação, é preciso combater fortemente os mitos que resultam em discriminação e exclusão."

TELINHA QUENTE 363


Roberto Rillo Bíscaro

Hoje faremos dobradinha temática! O elo é o nome internacional usado para divulgar essas duas séries: Undercover. Duas séries policiais europeias, uma da Bulgária; outra belga. Uma ótima; outra, não. Uma na Amazon; outra, na Netflix.

A Bulgária é um dos degraus mais baixos da UE. Com altas taxas de emigração e corrupção, o ex-país comunista é cenário mais que adequado pruma boa série de gangsteres. A Televisão Nacional da Bulgária produziu cinco temporadas de dúzia de episódios cada, de Undercover (2011-16), ora no catálogo brasuca da Amazon, em versão dublada.

Em seus sessenta episódios, Undercover mostra um policial infiltrado na quadrilha mafiosa mais importante de Sofia, liderada pelo fã de ópera Petar Tudzharov, o Dzaro. Aos poucos descobrimos que seu perseguidor implacável, o Comissário Emil Popov, tem razões muito pessoais para odiá-lo. Essa porosidade da fronteira entre o pessoal e o professional perpassa parte da trama em todas as temporadas. Empregos na polícia viram obsessões pessoais. Há horas que parece que os bandidos são mais profissionais, porque seguem seu objetivo empreendedor que é basicamente, lucrar, como o de qualquer empresa.

Declaradamente inspirada pelo filme Os Infiltrados (2006), de Martin Scorcese, Undercover deve muito também à obra de Quentin Tarantino (aquela musiquinha com guitarra surf-rock é pura tarantinice) e a séries como Sopranos (o Gancho é totalmente Frank Tagliano). Isso não desmerece a produção, cujos roteiros supostamente baseados em casos policiais reais da Bulgária, são absorventes, cheios de ação e só cansam um pouco na derradeira temporada, devido a um par de escolhas questionáveis. Por que fazer aquilo por tantos episódios com a personagem tão importante de Popov?

Undercover existe num universo eminentemente masculino, que para padrões anglo-europeus e até de outros países, chega a ser chauvinista. Mulheres são estúpidas dondocas, objetos pra prazer e violência e intercambiáveis até na aparência. Na quinta temporada há desastrada tentativa de regeneração. A policial-psicóloga é ridicularizada e hostilizada por seus colegas da polícia, de modo inacreditável até pra nós latinos, tão machistas. Ou, talvez, porque estejamos mais acostumados a ver produções de países onde fazer esse tipo de representação despertaria fúrias tempestivas.

Quem teme por produção empobrecida por ser de país sem tradição televisiva pra nós, engana-se. Ao longo das temporadas, há explosões, perseguições, tudo muito bem feito. Undercover prende e tem final que você não espera (não vi o filme de Scorcese, então não sei se foi inspirado por ele).
A Bélgica tem sido uma das queridinhas de telespectadores um pouco mais alternativos, nesses últimos anos. O pequenino reino já contribuiu duas séries bem legais para o catálogo da Netflix brasileira: Tabula Rasa e La Trêve. Esses programas foram produzidos por outras estações e adquiridas pela Netflix, mas este ano a empresa estreou sua primeira produção belgo-holandesa, Undercover, aqui batizada de Operação Ecstasy.

A província fronteiriça entre os dois nanicos e ricos países europeus é a maior produtora mundial de ecstasy e outras drogas sintéticas, uma espécie de Colômbia do primeiro mundo, com assassinatos ao ar livre e suborno a granel.

Baseada em fatos, Undercover mostra um casal de policiais infiltrando-se numa espécie de condomínio rural, onde vive o chefão do tráfico local, com sua esposa e asseclas. A parte policial não poderia ser mais clichê: a tensão é gerada pelas desconfianças às vezes suscitadas pelos parças do narcotraficante e pelas saias-justas que o casal de tiras tem que passar.

A Undercover belga tenta adicionar ingredientes extras e interessantes, como possível ligação entre o casal de policiais e o desenvolvimento dum vínculo pra lá de afetuoso entre a policial e esposa do traficante. Infelizmente, nada disso é aprofundado, então Undercover é mais do mesmo, totalmente esquecível.

Acresce que dez capítulos foram demais. O miolo da série tem problemas monumentais de ritmo. Há capítulos que dá tranquilamente pra ficar no Zap o tempo todo e ainda entender, se bem que nem interessa muito, anyway.  

A Netflix deveria ter pegado essa grana e comprado shows belgas já prontos e fantásticos, como 13 Comandments, Cordon e/ou The Out-Laws.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

CAIXA DE MÚSICA 368


Roberto Rillo Bíscaro

Illy Cruz de Almeida Gouveia Santos, ou artisticamente, Illy, cresceu vendo shows de seu tio Ray Gouveia, na sua nativa Bahia. Ele era membro da Confraria da Bazófia, então a sobrinha sempre teve acesso a muita música, principalmente a MPB dos anos 70. Casada com um sobrinho-neto de Caetano Veloso e Bethânia, Illy já abriu shows pra Gal e Djavan, o que lhe conferiu visibilidade suficiente pra que a imprensa apostasse nela como “próxima grande da MPB”. Que os laços famosos de parentesco e amizade não ofusquem o talento e qualidade de Illy, cuja doce voz encanta nas treze faixas de Voo Longe (2018), seu álbum de estreia.
Alexandre Kassin e Moreno Veloso dividem a produção, que, embora moderna, sobrevoa várias regiões da música dos anos 1970, tornando Voo Longe gostável para diversas gerações, desde modernetes que curtem o folk pop de César Lacerda, até os mais maduros, que cresceram ouvindo Novos Baianos, Caê Velô e Roberto Carlos.
Por vezes lembrando uma Gal Costa bem jovem, ainda do estreante Domingo (1967), Illy canta bem diversos ritmos. Tem baianidades (Sombra da Lua e Afrouxa); blues djavaneado (Que Foi My Love?); frevo liberado (Fama de Fácil); clima bossa-novista de calçadão de Ipanema (Olhar Pidão); samba manso (Enquanto Você Não Chega); samba-canção semidisfarçado de bossa, com toque sincrético de batuque afro (Devagarinho); zouk (Ela) e pops românticos (Só Eu e Você e a faixa-título) e a deliciosa piada caribenha maconhada de Dijanira.
Tudo muito discreto e de bom gosto. Oxalá, o voo de Illy a leve realmente muito longe.
Ilya atua na cena independente de Fortaleza, desde 2014. Compositora, cantora, performer, que já cantou ao lado de gente como Chico César. Em setembro do ano passado, lançou seu primeiro álbum como cantautora: Doces Náufragos.
As nove faixas muito bem produzidas e de melodias marcantes indicam trabalho que não descarta ritmos tradicionais do Norte/Nordeste, como o ijexá e o carimbó, mas processando-os pelas linguagens mais modernas como Mangue Beat ou antecessoras famosas, como Daniela Mercury (A Cidade é Pequena é superela).
Sereno Doido tem guitarra grave à Dire Straits e Nada é uma espécie de ijexá meio psicodelizado. Doces Náufragos jamais afunda, porque navega sempre seguro em sua mistura de influências. Canções de Mar abre com palmas e nananana, dando impressão que será ciranda folclorizada, mas logo a melodia indica coisa contemporânea. Sorriso do Menino ameaça ser sambinha minimalista pós-industrial, mas metamorfoseia-se em psych com noise domado. Muito moderna. 
Letícia Fialho cresceu nos subúrbios de Brasília, empinando pipa e, mais madura, começou a curtir rolês noturnos, boemia, enfim, Fialho gosta, vive e observa a rua. Compositora, cantora e instrumentista, essa paixão pela vida e a consciência de seus prazeres e delícias perpassa a dezena de canções de Maravilha Marginal, lançado ano passado, com a Orquestra da Rua. Não é à toa, que no álbum da moça rueira, haja canções chamadas Nessa Rua e Rua Afora. Sem contar o nome da orquestra...
E que orquestra! A riqueza dos arranjos garantirá que fãs da MPB dos 70’s e 80’s aprecie demais este trabalho calmo, fincado na tradição da MPB, mas que não deixa de soar contemporâneo. Vem/Fumaça é exemplar: parece partido alto esparso, minimalista, mas tem cornetinha de jazz anos 20, vocais em eco e ambientação meio psych, de leve. E que fã de MPB 70’s não ama versos, como “já calejei as mãos de tanto te tocar”?
Diversas vezes, Maravilha Marginal soa como espécie de afro-jazz, porque integra ijexices com algum elemento jazzístico. Mas, tá tudo muito bem integrado, soando mesmo como MPB “tradicional”. Ouça a delícia caetânica de Corpo e Canção e me diga.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

PAPIRO VIRTUAL 134


Roberto Rillo Bíscaro

Os livros de Sara Blaedel não foram traduzidos pro português, segundo pesquisa rápida num site de livraria (outrora) grande daqui. Ao ler The Midnight Wwitness (2018), na tradução pro inglês, do ano passado, de Mark Kline, não acho que os brasileiros estejam perdendo muito. Nem deu pra entender muito bem porque ela é tão popular e vende tanto, mas daí, não compreendo como isso pode ocorrer em diversas áreas e em 90% dos casos.

História de detetive pressupõe mistério, pelo menos, e isso o livro não traz. O Kindle marca porcentagem de material lido e fiz questão de ver quanto estava, quando um policial diz que ainda não tinham nada sobre o caso: 47%. E ainda não acontecera nada no livro.

Uma jovem é assassinada num parque numa chuvosa noite em Copenhague. Louise Rick começa a investigar o caso, que logo é ofuscado pelo brutal assassinato dum jornalista, que trabalhava no mesmo jornal da melhor amiga de Louise, Camila Lind. Louise reclama que a própria polícia estava priorizando o caso do periodista morto, porque rendia mais pautas na imprensa, em detrimento da pobre menina loira, mas sem altas conexões. Alfinetada pertinente no status quo, mas que prova ser hipócrita, porque o próprio livro joga o caso de Karoline pra escanteio, ao matar outro jornalista, transferindo o foco da narrativa totalmente pro caso que a suposta protagonista criticava ter tomado procedência. E, na conclusão mais improvisada que planejada a fundo, a brutalização de Karoline é resolvida num acaso telegrafado ao leitor, de tão passageiro.

É certo que a era dos investigadores solitários e geniais à Poirot não cola muito mais. A literatura policial de hoje prioriza o trabalho do grupo policial, embora haja uma personagem mais central. Nesse caso, tratar-se-ia de Louise Rick, porque ela é quem subnomeia a série. Mas, ela não faz nada; cheguei a pensar que a protagonista fosse Camila Lind, na verdade.

A despeito de ter uma policial interessante como “protagonista”, porque é emotiva, The Midnight Witness é moroso e gasta tempo enorme com coisas que não interessam à trama ou com a rotina da chefatura da polícia. Casos sem pistas podem refletir a realidade, mas não proporcionam ação dramática. Essa, nas raras ocorrências, acontece “fora de cena”, é narrada por alguma personagem.  Isso podia funcionar com tragédia grega, mas leitor de livro policial quer suspense.

Será que esse tipo de livro é pensado pro “público feminino”, uma vez que duas mulheres dominam a narrativa?

Sei lá, de qualquer modo é insípido e maracutaiado, recomendo, não.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

TELONA QUENTE 290

Roberto Rillo Bíscaro

Ano passado, Halloween fez 40 anos e ganhou continuação, estrelada por ninguém menos que a mais famosa de todas as scream queens e final girls: Jamie Lee Curtis. Embora minha franquia do coração seja Sexta-Feira 13, votaria em Halloween como o melhor filme de horror de todos os tempos, porque é o protótipo de centenas de slasher films. Leitores assíduos estão carecas de saber que esse é meu subgênero favorito de filmes de terror.

Assim, quando vi no Youtube o documentário The Shape Lives: 40 Years of Halloween, enviei-o na hora pra meu email pra depois poder vê-lo na tela grande da TV. A produção britânica, roteirizada e dirigida por Dave James, presta excelente trabalho como homenagem a e minienciclopédia sobre filme tão importante.

Discutem-se desde os antecedentes até os desdobramentos do filme mais famoso de John Carpenter. James não esquece de citar BlackChristmas e vai até a tentativa de ressurreição da franquia, por Robbie Zombie, desaprovada por Carpenter e meio mundo. Não acho que o primeiro filme seja ruim, embora entenda a reclamação da perda da essência misteriosa de Michael Myers (você aprenderá quem foi o “padrinho” do nome no documentário), mas o segundo é realmente atroz.

São cerca de 75 minutos de informações legais e imagens de arquivo de quase todo mundo. Acertos como não restringir a discussão das personagens a apenas Michael, Laurie e o Dr. Loomis. Suas duas amigas também são destacadas (totally!), até porque a pecha de moralismo não é bem a vibe de Halloween. A morte das personagens depois de fazerem sexo ou “fumarem tóxico (pronunciem como ch, please!) virou convenção slasher, como é universalmente sabido e zombado. Mas, Carpenter sempre defendeu que Laurie não morreu, porque era a virgem não drogada, mas porque estava mais antenada aos perigos que a rondavam.

James realmente gosta de Halloween, então, tratou de destacar não apenas a óbvia influência de Hitchcock, mas também a menos comentada inspiração no Polanski de Chinatown na iluminação.

Difícil pensar em outros atores que não Jamie Lee Curtis e Donald Pleasance, como Laurie e Loomis, mas, se você vir  The Shape Lives: 40 Years of Halloween saberá quais eram as primeiras opções de Carpenter. Além disso, também aprenderá qual ator um dia famoso quase começou a carreira em Halloween.

Usando material de arquivo, o doc não traz realmente nenhuma novidade, mas sempre é bom ver pra detalhes que esquecêramos ou pra saber o mínimo necessário, caso você seja fã mais casual de horror e/ou slasher. Halloween é obrigatório, portanto, faça sua lição de casa.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

CONTANDO A VIDA 274

AS DEZ VIRGENS!... 

José Carlos Sebe Bom Meihy 


Oficialmente, sou historiador, profissional da disciplina História. Na intimidade inerente a quem escreve crônicas semanais, contudo, devo dizer que cultivo nuanças. Sou daqueles que gostam de histórias – no plural e na modéstia do “h” minúsculo. É claro que respeito as grandes interpretações que remetem aos momentos capitais da aventura humana, e nesse mar imenso navego preferências e respeito pelos feitos dos consagrados heróis, santos, mártires, figuras de ciências, bandidos eloquentes, e artes. Gosto sim de pensar os instantes capitais das transformações do mundo e no milagre da sobrevivência contemplada pelos processos civilizatórios. Mas... mas, gosto também das pequenas histórias, dos casos que se perdem no palheiro da grandiosidade coletiva. Ainda que não escape do fundamento das utopias globais e da inerência à luta pela igualdade, fraternidade e liberdade, me deixo deliciar pelas lendas locais, mitos, fábulas populares. E neste quesito me permito determinadas licenças, inclusive para buscar nos “fatos notáveis” o pequeno acontecimento, aquele que quase não se mostra ou que é ofuscado pela grandiloquência cativada por apologias e finais felizes. Foi assim que achei nos Evangelhos uma passagem intrigante: a Parábola das 10 Virgens (Mt 25, 1-13). 

O enredo é assaz provocador e diz textualmente: “então o Reino dos céus será semelhante às dez virgens, que saíram com suas lâmpadas ao encontro do esposo. Cinco dentre elas eram fúteis e cinco, prudentes. Tomando suas lâmpadas, as fúteis não levaram óleo consigo. As prudentes, contudo, levaram de reserva vasos de óleo para as lâmpadas. Tardando os esposos, as moças cochilaram e logo adormeceram profundamente. No meio da noite, porém, ouviu-se clamor anunciando a chegada dos pretendentes e, então, uma voz se ouviu: eis os esposos, ide ao seu encontro. As virgens levantaram-se todas e prepararam suas lâmpadas. As fúteis, preocupadas, disseram às prudentes: dai-nos de vosso óleo, porque nossas lâmpadas estão se apagando. As prudentes assim responderam: não temos o suficiente para nós e para vós; aconselhamos irdes aos vendedores, a fim de o comprar para vós. Ora, enquanto foram comprar, os esposos ninguém encontrando voltaram. As que estavam preparadas entraram com Ele para a sala das bodas e foi fechada a porta. Mais tarde, chegaram também as outras e clamavam: Senhor, Senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: em verdade vos digo: não vos conheço!” 

É claro que não sou exegeta e declaro que mesmo tendo lido a Bíblia regularmente em anos de aulas de religião em colégio salesiano, não me coloco como intérprete. Também não engrosso fileiras dos iconoclastas modernos. Pelo contrário, gosto de ser diletante, leitor eventual das Sagradas Escrituras. A Parábola das 10 virgens me chamou a atenção exatamente pelo momento cultural que vivemos. Nem vou discutir o tema da virgindade nos parâmetros delineados por Foucault na questão do controle dos corpos. Também não vou penetrar nos avanços semióticos tão oportunos para a tomada da parábola como pretexto. Quis também, obviamente, me sentir longe dos fundamentos sobre a existência de um Senhor tão poderoso capaz de discutir a fatalidade dos caminhos das criaturas. Foi assim que meu lado mais prosaico se exibiu mostrando que há uma narrativa oculta que discute o essencial: a continuidade da espécie acima de qualquer outro valor. As exatas 10 mulheres a espera dos esposos sugere uma seletividade que faz pensar no aconteceria depois de fechada a porta da “sala de bodas”. Gastei horas imaginando os fatos. Minha mente sensualizada deu asas à imaginação e até sugeri um grande bacanal abençoado por Ele. Na frieza incrédula, fui bosquejando minha irracionalidade e soltei as dúvidas contidas em caixa de perplexidades. E por que não eram os homens esperando as esposas? E quem seria de quem, uma para cada cada um? Por que elas deveriam se precaver para esperá-los? O tal encontro não poderia ser durante o dia? E se fosse, as fúteis teriam chances? E quantas entraram? O que teria acontecido com os pretensos esposos que ficaram solitários? Aliás, que culpa teriam eles das mulheres que não se precaveram? Supus também a metáfora do combustível, dos vasos para as lâmpadas, que significaria? A questão do castigo (da porta fechada) e do desespero das que ficaram para fora da tal sala, seria ameaça? Sobretudo dominou meu reino de bisbilhotice uma questão: mas que força teria o tal Senhor, a ponto de determinar uma programação de encontros que nada teria a ver com escolhas individuais, com amor, com enredos pessoais? 

Tive que parar, pois tamanho era o repertório de indagações que deixaria de ler o resto da Bíblia e desconfiaria do magnífico romance do gaúcho Moacyr Scliar que detalha uma mulher autora eventual de uma das setenta versões do livro sagrado dos cristãos. Sim “A mulher que escreveu a Bíblia” dá conta das façanhas de uma paciente de psicanalista de “vidas passadas”, e o enredo remete a essa personagem que seria revolucionária. Revolucionária? Será mesmo que uma mulher escreveria a mesma Parábola? Será?...         


terça-feira, 28 de maio de 2019

TELINHA QUENTE 362


Roberto Rillo Bíscaro

Televisão é negócio brutalmente competitivo, então não adianta países pequenos virarem queridos, mas não entregarem produtos bons. Israel, Suécia, Dinamarca e mesmo a pequenina Islândia, já são competidores sérios neste mercado, tendo apresentado grandes séries. A Bélgica provavelmente teve seu ponto de virada com Clan (2012), colorida farsa de humor-negro, falada em flamengo.

Não se trata de leniência para com teteias pequetitas, a trama das quatros irmãs que planejam e desastradamente executam a morte do cunhado é sensacional, ainda que mais experientes consigam prever quem conseguirá realizar o feito. Não estraguei o prazer com a revelação do óbito: Jean-Claude aparece mortinho já na deliciosa abertura, ao som de balada cinquentista em inglês. Influenciada pela estética de Desperate Housewives, Clan apresenta cinco mulheres muito bem construídas e desenvolvidas, em tresloucada trama, que ao mesmo tempo, não deixa de apresentar situações até críveis.
Jean-Claude Delcorps é um tiozinho desprezível, por isso suas cunhadas planejam sua transferência pra outro plano. Em inglês, isso proporcionou o delicioso título-trocadilho The Out-Laws, brincando com o termo “in-laws”, usado pra designar os parentes não de sangue. Outlaw significa fora da lei, então o foco recai nas cunhadas fora da lei.

Jean-Claude é tão sórdido, que coleciona desafetos em todo canto, então a quantidade de suspeitos aumenta, assim como as tentativas de eliminação, que resultam sempre na morte de outrem. A história se desenrola em pingue-pongue temporal entre o presente, imediatamente após a morte de Jean-Claude, e os meses que a precederam. O roteiro é dinâmico, saltitando com confiança entre muitas personagens, que não se intercambiam: todos têm personalidade e traços distintivos, sejam físicos, sejam emocionais/comportamentais.

Mesmo ciente de que muitas referências devem ter sido perdidas na tradução, Clan/TheOut-Laws é prazer perverso do início ao fim. E, se você assistir, não deixe de prestar atenção no ratinho de estimação: ele aparecerá nos derradeiros créditos.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

UM PANDA BEM BRANQUINHO

Exemplar raro de panda albino é visto na China

Um exemplar raro de urso panda completamente branco foi fotografado em uma reserva natural no sudoeste da China, o que mostra que o albinismo existe entre os pandas que vivem em liberdade naquela região, informou a imprensa estatal.

O animal foi fotografado em uma mata no último mês de abril, na província de Sichuan, divulgou a agência de notícias Xinhua neste sábado. Trata-se de um exemplar albino com idade entre 1 e 2 anos, indicou o pesquisador e especialista em ursos da Universidade de Pequim Li Sheng, citado pela agência.

A Reserva Natural Nacional de Wolong, onde o animal foi visto, não tem detalhes sobre o panda albino. Mais de 80% dos pandas que vivem em estado selvagem encontram-se em Sichuan, e o restante nas províncias de Shaanxi e Gansu.

Até novembro passado, havia 548 pandas gigantes em cativeiro no mundo, segundo a Xinhua. O número de exemplares que vivem em liberdade é inferior a 2 mil, segundo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF).

Pequim investiu em diferentes programas para proteger os pandas nos últimos anos. Em 2018, a China anunciou um plano para criar um parque de pandas gigantes três vezes maior do que o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, a fim de unir as populações selvagens e fomentar a reprodução destes animais.

Será liberada uma verba de pelo menos 1,45 bilhão de dólares nos próximos cinco anos para a criação do parque em uma região montanhosa do sudoeste da China, segundo o “China Daily”.

Os pandas estão na lista de espécies vulneráveis, o que significa que, embora a sua sobrevivência esteja ameaçada, os esforços de preservação ajudaram a reduzir seu risco de extinção.

CORRENTE DO BEM CONTRA O BULLYING



McKenzie é uma garota afro-americana albina que sofria bullying de muitos colegas por causa da sua aparência.

Sabendo da situação da adolescente, a organização sem fins lucrativos de Dallas, Texas, Behind Every Door, decidiu dar uma força para McKenzie e celebrar sua beleza única organizando uma sessão de fotos para que ela se sentisse uma estrela.

A história de McKenzie foi compartilhada no Morning Smile , o boletim diário do portal InspireMore, pedindo aos leitores que escrevessem cartas de encorajamento para McKenzie.

Este mês ela recebeu mais de 400 cartas e cartões de amor, carinho e apoio.

Cartas sinceras, com palavras de afirmação, força e de virada de página.

Lembrando que o albinismo é um distúrbio congênito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina.

Veja o momento emocionante em que ela recebeu as mensagens de apoio, amor e carinho.

CAIXA DE MÚSICA 367


Roberto Rillo Bíscaro

Desde sua última aparição, em 2015, com o álbum Animal Nature, a única mudança notável no Escort foi a adição da voz cristalina da fervida Nicki B, para alternar com a imperial Adeline Michéle, que embarcou em carreira-solo também. De resto, os produtores Eugene Cho e JKriv continuam fazendo Nu Disco impiedosamente dançante, juntando elementos de países como EUA, Brasil e Jamaica em colagens de tiques sônicos que vêm desde a disco setentista até à genérica “house music” atual. 

Dia 12 de abril, saiu City Life, terceiro álbum dos nova-iorquinos, do Brooklyn. São oito faixas puláveis e pulantes, além da razoavelmente longa introdução, que, com seus sons de comunicação via rádio sobre base bem percussiva, realmente prepara para a festa. A partir daí não há um segundo de refresco; é puro quebra-espinha.

A faixa-título é eletrofunk com baixo neurótico e a participação de Fonda Rae, diva das pistas alternativas de R’n’B dos anos 80. Outta My Head, além da referência até titular à Kylie Minogue, parece cavalgada dance com Blondie, Duran Duran e La Bouche (parte dos vocais é meio 90’s). O funk sapeca de Josephine é provavelmente o ponto alto para dançarinos compulsivos. Impossível ficar quieto. One Draw é reggaton ou algum desses subprodutos (sem julgamento!) do reggae. Claro que é sobre ficar chapadão.

Na trinca final de canções, as letras rareiam até desparecer, mas o clima pipocante não arrefece. Ride erige muralha sonora, que jamais soa pesada, devido às cordas, timbre dos teclados e vocais, além da flauta. Impressionante.

A derradeira canção, justamente por sê-lo, apontaria futuros caminhos ao Escort? O influxo de house e electronica caberia direitinho como bônus track dalgum álbum do Orbital.

A despeito de tantas referências a antanho, o Escort está longe de ser revivalista sonhando com os “bons velhos tempos”. Seu inebriante coquetel de alegria contagiante é servido de forma muito contemporânea.

Som facilmente acessível, porque está no Bandcamp. Não dança quem não quiser.