terça-feira, 23 de maio de 2017

TELINHA QUENTE 260

Resultado de imagem para scandal season 6
Roberto Rillo Bíscaro

Como não leio sobre séries que acompanho, pois só desistiria se achasse chato/ruim por mim e não por algum crítico, estranhei a ausência de Scandal dos sítios que frequento pra ver a quantas andam as temporadas. Era janeiro ou fevereiro e nada de episódios do show de Shonda Rhimes. Cancelaram, será?, pensei triste. Bastou ler o parágrafo introdutório sobre a sexta temporada, na Wikipedia, pra aprender que, devido à gravidez de Kerry Washington (a gritona Olivia Pope), a temporada teria 16 e não 22 episódios e começou a ser transmitida, em 26 de janeiro, indo até 18 de maio.  
Sempre em minhas listas de melhores do ano, confesso que a excessiva ênfase de Papa Pope e a insistência na organização B613 começava ame dar no saco. Viciei nas temporadas e maratoneava, mas temia enjoar pela mesmice, se bem que isso é característica inerente às soaps, cujas tramas incestuosas e repetitivas concentram-se pra satisfazer a necessidade de permanência das personagens do núcleo duro. Note que Cyrus já fez monstruosidades (e nessa temporada faz outra, arrasante, te amo, Cy!) e é sempre perdoado, porque é do núcleo duro e o incesto entre eles não pode parar, até porque são todos iguais, na verdade. Mas, essa falta de novidade na trama deve ser disfarçada com a ilusão de novidade a todo momento. E a insistência no tal B 613 e o berreiro cheio de balanços de cabeça do pai de Olivia estavam repetitivos demais.
A sexta temporada consertou isso: está absolutamente igual às demais, mas diferente. Não demorou dez minutos no primeiro capítulo e já estava viciado, narcotizado pelo vórtice de reviravoltas, revelações, revivalismos de personagens. Diegeticamente, o tempo é escasso: vai da noite do anúncio de quem venceu a eleição presidencial à madrugada da posse. Scandal é pura sandice; mas nessa temporada se superou. Conta-se que um grupo teatral paulistano pegou o melodramalhão Romântico Fernando ou O Cinto Acusador, de Martins Pena e montou-o em nota cômica. Daria pra fazer o mesmo com Scandal; se bem que seu célere tom dramático sério, não consegue abafar minhas gargalhadas. E não digo isso como detono; amo.
Logo após o anúncio de quem substituirá Fitz na presidência, uma reviravolta determinará o tom de toda a temporada. Tem grupo maldoso e todo-poderoso querendo o poder. Não é o B613, mas é a mesma coisa meio que ao reverso só que não. Não deu pra entender? E quem entende Scandal?! Mas, com essa alteração pra deixar a trama igual ao que sempre foi, a diversão come solta.
O grande trunfo da temporada, porém, é o câmbio no ponto de vista e no foco narrativo. Vários capítulos mostram as versões e interconexões das personagens com relação ao ocorrido na fatídica noite. Ao invés de curtos flashbacks dentro de capítulos, vários são inteiramente flashback pra conhecemos a implicação das personagens. É soap, mas em época de ouro da TV, roteirista tem que suar os dedos mesmo em shows na rede aberta. O resultado é uma das fornadas mais formalmente espertas de Scandal. A trama é recheada daqueles absurdos furados que amamos, mas vem empacotada em embalagem bem inteligente. SmartTV.
Essa alteração no ponto de vista e ênfase no que se passou com vários personagens na noite do resultado eleitoral, também diminui um pouco a intensidade da aparição de todo mundo. Não dá nem pra enjoar muito de Papa Pope, porque nem Olivia aparece direito em certos capítulos, quem dirá os demais. E é nessa temporada que ocorre certa inversão nos afazeres de Olivia e seu pai (mas não se iluda, eles são a mesma personagem e isso evidencia-se como cristal ao final do capítulo 16).
O pico criativo encerra-se lá pelo capítulo 13, quando a narrativa volta a ser mais linear, digamos. Isso não significa que perca o interesse – apesar do capítulo soporífero que marca o fim da montanha-russa de flashbacks e suposições da trama sobre quem está por trás do grande mistério da temporada (mas não é tudo, só aprendemos isso na última cena).
Já que Scandal é pura baixaria, vamos fofocar. Lembram que indaguei sobre a importância da Portia de Rossi pra trama? Será que os supostos problemas conjujais com a poderosa Ellen DeGeneris determinaram o delicioso destino de sua personagem (nem lembro o nome. Elizabeth? Sei lá.)?
E que coisa fofa aquele capítulo mostrando o que seria de cada um se Fitz não tivesse vencido a primeira eleição, ou melhor, se não tivessem roubado o pleito em Defiance. Ninguém presta em Scandal, por isso adoro.
E Olivia vem pagar de boa moça, justiceira? Me deixa, fia! 
Mellie e Cyrus pro comando do mundo!

PROJETO SÍNDROME DO PÔR DO SOL

Milena é uma das dezenas de albinos que vivem no sertão cearense. Ela mora em uma localidade de Breja Santo, cidade em que a temperatura não é menor que 30ºC.

Para a família, Milena nascer branquinha, loira e com olhos claros foi um espanto, já que todos têm tom de pele moreno. A menina tem de esperar até o final da tarde para poder brincar com os amigos.
Para tentar ajudar os albinos no interior do Ceará, o fotografo Gláuber Oliveira criou o projeto “Síndrome do Pôr do Sol”. Todos os meses, ele faz doação de protetor solar e disponibiliza consultas com dermatologistas e oftalmologistas. Com o projeto, as famílias se sentem seguras para sair de casa protegidas.
Veja todos os detalhes no vídeo do Gente na TV da TV Jangadeiro/SBT:

segunda-feira, 22 de maio de 2017

ZOOFILIA COM CORVO

Corvo (Karasu) albino é capturado em Quioto

&nbspCorvo (Karasu) albino é capturado em Quioto
Por volta das 16h20 de quinta-feira (18), um cidadão informou a prefeitura da cidade que “um pássaro branco estava gritando e batendo as asas fortemente” em uma plantação de arroz de Shirasu, no bairro de Wazuka (Quioto).
Os funcionários da prefeitura, que foram informados sobre a situação, foram ao local e capturaram o corvo.
Segundo eles, o corvo tinha 35 centímetros e era totalmente branco. Aparentemente, ele não estava machucado e estava apenas batendo suas asas e gritando na plantação.
Os funcionários cuidaram do animal na noite de quinta-feira e pretendiam soltá-lo perto de uma montanha na sexta-feira (19).
Yasunori Miyajima, assistente administrativo da divisão de desenvolvimento rural de Wazuka, comentou: “Pensei que era um pombo branco, mas quando cheguei perto percebi que se tratava de um corvo. Nunca um corvo branco foi visto neste bairro. Fiquei espantado. ”
http://www.portalmie.com/atualidade/2017/05/corvo-albino-e-capturado-em-quioto/

CAIXA DE MÚSICA 266


Roberto Rillo Bíscaro

Os anos 80 são comum e vulgarmente citados como a década do exagero. Cabelos se armavam em torres ou despencavam em cascatas multifonrmes; sempre armados, lotados de gel. Ombros masculinos e femininos pareciam de jogador de futebol americano, de tão largos, graças a ombreiras cada vez maiores. Roupas e acessórios se sobrepunham em combinações policromáticas de puro exagero. Na TV imperou a opulência escapista de séries como DALLAS e Dynasty (que o canal CW promete ressuscitar). Yuppies consumiam água mineral engarrafada Evian e cocaína como se fossem água.
Musicalmente, a primeira metade foi dominada pelas torrentes criativas do synthpop, New Romantic, New Wave, pós-punk, enfim, filhotes da suruba glam, punk, prog, discoBowie, Chic, Blondie, Roxy Music, Giorgio Moroder e Kraftwerk dos 70’s. Mais para a segunda metade, acentuou-se a estridência e a superprodução, saturada de efeitos e da grande praga musical do decênio: a bateria eletrônica. Iniciava-se a Guerra dos Volumes, como apontou o crítico Rafael Senra.
Feliz e acertadamente, o supergrupo Dreamcar colheu do solo mais fértil dos 80’s e seu LP homônimo de estreia, lançado dia 12 de maio, não vai muito além de 1984. Pode até ter um bocadinho de Depeche Mode fase Black Celebration (1986), mas é suave; a ênfase é na New Wave dançante da glamurosa alvorada oitentista.
Dreamcar é a fusão do vocalista Davey Havok, da banda AFI com a parte instrumental do No Doubt. Como Gwen Stefani está ocupada sendo jurada de show de calouros hype, Tony Kanal (baixo), Tom Dumont (guitarra) e Adrian Young (bateria e percussão) juntaram-se a Havok em projeto paralelo que expressasse seu grande amor pela música de mais de três décadas atrás. O resultado são doze canções que parecem álbum de grandes sucessos ou coletânea de pérolas perdidas da década do PacMan.
Experientes buriladores, os quatro não perdem tempo na fórmula do pop viciante: alguns segundos de introdução, primeiro verso e logo entra o refrão, sempre energético, mesmo nas músicas midtempo. Quando esse refrão entra, remanescentes/amantes dos anos oitenta desejarão colorir o rosto com muita maquiagem, untar o cabelão com potes de gel, combinar peças de roupa verde-limão com cor de laranja e lilás e ir para algum estádio pular e acender isqueiro.
Dreamcar é puro pop de arena com deliciosos solos de guitarra e muita, mas muita mesmo, influência do Duran Duran. Os Fab Five são a inspiração para a canção de abertura, After I Confessed e Do Nothing. Tente ouvir e ficar quietinho. Impossível; dá ganas de gritar o nome de nosso duranie favorito (tenho 2, Simon e Nick). Essas são calcadas na fase primeira do DD2, ao passo que On The Charts é de quando funkearam com Nile Rodgers.
Sem ser cópia escarrada de quase nada, o Dreamcar exibe uma influência atrás da outra. Em Kill For Candy, o baixo soa como o de Peter Hook, ao passo que em Ever Lonely vocais e a bateria que evocam o The Cure (fase Pornography). Mas o clima não é o gótico do cabelão e maquiagem cuidadosamente mal-feita e sim de Talk Talk. All Of The Dead Girls brinca com a batida percussiva de Adam & The Ants e Born To Lie é como se A Flock Of Seagulls tivesse reencarnado. Em The Assailant o vocal de Havok assume o mesmo drama de Andy Bell, mas quando entra o coro, o clima muda para Depeche Mode. Grande ironia – intencional? – porque Erasure e Depeche se detestavam no auge das carreiras.
Com paleta sonora propositalmente menor e geograficamente enfatizando a Inglaterra, o álbum consegue o mesmo feito de The Desired Effect (2015), de Brandon Flowers: inventar sonoridade oitentista que nunca existiu do jeito apresentado pelo álbum, porque na época estava fragmentada entre diversos artistas. Por isso esses álbuns soam criativos e frescos, não meros clones. 

domingo, 21 de maio de 2017

ZOOFILIA COM ORANGOTANGA III

ONG escolhe nome de Alba para fêmea de orangotango encontrada Bornéu
ONG escolhe nome de Alba para fêmea de orangotango encontrada Bornéu

Uma ONG de defesa dos animais anunciou nesta segunda-feira que escolheu o nome de Alba para uma fêmea de orangotango de olhos azuis resgatada na parte indonésia da ilha de Bornéu, depois de receber uma série de sugestões.
O raro exemplar deste animal foi encontrado preso em uma jaula, em uma localidade isolada do distro de Kapuas Hulu, na província de Kalimantan Centro.
A Fundação para a Sobrevivência do Orangotango de Bornéu (BOSF, em inglês) afirmou que o nome escolhido tem um grande significado. “Felizmente chegará um novo amanhecer para estes animais preciosos”, declarou a ONG em um comunicado.
A fundação, que havia feito na semana passada um apelo para batizar a fêmea de orangotango, disse ter recebido milhares de sugestões do mundo inteiro.
É a primeira vez que a BOSF acolhe um orangotango albino desde sua criação, há 25 anos.
O animal, de cerca de cinco anos, estava em más condições quando foi encontrado, mas a ONG afirma que está se recuperando bem e que engordou cerca de 4,5 quilos nos últimos 15 dias.
Os orangotangos de Bornéu têm normalmente uma pelagem marrom, e o BOSF indicou que está estudando o albinismo nos grandes primatas antes de decidir a melhor forma de proceder para o futuro de Alba.
“Não podemos simplesmente colocar Alba em uma zona florestal ou em um santuário sem ter examinado seriamente todas as possibilidads”, explicou Jamartin Sihite, diretor da ONG. “Até o momento não conseguimos encontrar nenhum outro exemplar de orangotango albino e precisamos saber mais sobre ela e sua situação especial”, acrescentou.

sábado, 20 de maio de 2017

PREOCUPAÇÃO MOÇAMBICANA

Moçambique preocupado com o rapto de albinos

Foto de arquivo

Peritos reunidos em Pemba para travar o fenómeno.
O rapto, tráfico, assassinato, extracção de órgãos e partes do corpo de cidadãos albinos ganhou, nos últimos anos, ganhou contornos alarmantes em Moçambique.
Dados fornecidos pela Procuradoria-Geral da República indicam que, em 2016, foram movimentados em Moçambique um total de 19 processos relacionados com casos de tráfico humano, no geral, dos quais sete tinham como vítimas cidadãos com problemas de albinismo.
Em 2015, dos 38 processos de tráfico humano movimentados pela justiça moçambicana, 15 tinham relação com albinos. E, desses 15, 10 foram acusados, 3 arquivados e dois ainda estão em instrução, nos tribunais.
Apesar de a estatística mostrar que o número de casos de homicídio e tráfico de albinos está a diminuir, o assunto ainda continua a preocupar.
Tanto assim que a OIM, Organização Internacional para as Migrações, decidiu organizar, nesta quinta-feira, 18, um encontro especializado, em Pemba, capital da província nortenha moçambicana de Cabo Delgado.
A Procuradora-Geral Adjunta, Amabélia Chuquela, disse à Voz da América, que, além de moçambicanos, participam no encontro de dois dias, também peritos do Malawi e da Tanzânia, países que também registam casos de rapto de albinos.
NOTA DO DR. ALBEE: para ouvir o áudio da reportagem, acesse o link:

ALBINO GOURMET 229

O canal Vai Comer O Quê é administrado e apresentado por Francielle Nogueira, que posta vídeos com os mais diversos tipos de comida às segundas, quartas e sextas-feiras. Com quase 243 mil inscritos, vale a pena aventurar-se nos vídeos pra ficar com água na boca e/ou fazer as receitas. Confira pequena amostra do cardápio:

sexta-feira, 19 de maio de 2017

GÊMEAS ALBINAS NO DOMINGO SHOW

Após a foto das três irmãs fazer sucesso na internet, o Domingo Show foi conhecer melhor a história da família que chamou tanta atenção do país. Confira!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

ALBINO INCOERENTE NO PROGRAMA BEM ESTAR

Há semanas, o jornalista Erick Gimenes, do Portal G1, de Curitiba, me contatou dizendo que pretendia fazer uma grande reportagem sobre albinismo. Imediatamente, disponibilizei material e contatos, porque essas mostras de boa vontade da imprensa têm que ser valorizadas e auxiliadas por nós envolvidos com a causa.
Nem bem voltara do Encontro com Fátima Bernardes e ele me deu a excelente notícia: o projeto ultrapassaria as fronteiras do G1 e resultaria em grande tópico para o programa Bem Estar, exibido nas manhãs globais, antes do da Fátima, inclusive.
Ele contou que passaria uma semana em São Paulo fazendo entrevistas e perguntou se eu topava ser uma delas. Demorou! Claro que sim.
Dia 16 de maio lá estava eu na USP para gravar. Uma equipe formidável e divertida; foi tudo bem ligeiro e sem enrolação, como gosto. A única “exigência” de estrela” (sentiram o poder?) que fiz foi que algumas fotos fossem tiradas para postar aqui e compartilhar com vocês.
Além de gratidão pela contribuição à causa albina, desejo a melhor sorte para esses jovens tão cheios de vontade de fazer coisa legal e com papo e senso de humor de primeira. Valeu!
Parece que o programa vai ao ar em fins de junho. Aviso quando souber a data.

Por ora, fiquem com o making of!





TELONA QUENTE 187

Resultado de imagem para filme a chegada
Roberto Rillo Bíscaro

Milhões são gastos pra tentar detectar vida alienígena, pra entrar em contato com ETs. Espero morrer antes que isso aconteça; nunca me interessou e até me assusta: pensou se forem como os sucessivos colonizadores, responsáveis por genocídios ao longo dos séculos? E se formos os nativos americanos pro visitante interplanetário? Esquece. Se existirem, que fiquem onde estão. Também não me comove esse choramingo tipo “será que estamos sós no universo” ou “o que é mais assustador, saber que estamos sozinhos ou que não?” Com tanta gente, problemas e coisas ocorrendo na Terra, c*** e ando se há vida alien! Sós com 8 bilhões habitando o planeta? Ai, para!
Mas, quando é ficção, curto imenso filmes de contatos imediatos de terceiro grau (desde que não sejam esses blockbusters cheios de explosões, que me dão tédinho). A Chegada, filme do ano passado do diretor canadense Denis Villeneuve, não tem nenhuma pirotecnia de dia de independência, e talvez por isso consiga ser tão bonito: a ênfase está numa história profundamente humana, que começa até meio clichezada.
A Dra. Louise Banks perdera a filha adolescente pro câncer e é daquelas personagens perfeitas pra filme de terror e/ou ficção-cientifica: fragilizada, com o lado racional meio pra baixo, é o receptáculo/vaso de comunicação perfeito pra fantasmas, ETs e toda sorte de fantasias. Quando misteriosas e sofisticadíssimas naves alienígenas aparecem pairando em diversos pontos do planeta, os durões e rigorosos militares norte-americanos chamam a professora pra decifrar a linguagem dos visitantes, que armaram todo um esquema pra vir pra Terra e “esqueceram” de inventar algo pra se comunicar, além de não fazerem esforço pra decifrar os nossos códigos. Tudo vai depender da expertise de UMA pessoa – ficção-científica é legal, porque quase sempre de científico tem bem pouco. E a maneira como a história da filha morta se conecta com os visitantes, levaria a supor que esses deviam conhecer pelo menos o inglês, se não, como teria se estabelecido o contato?
Tais questionamentos não pretendem detonar o filme, mas apenas lembrar isso: A Chegada é um filme. Inspirado numa datada teoria linguística de Sapir-Whorf, Arrival não pode ser pretendido como ensinamento dela. Tem fã de ficção-científica que leva o subgênero a sério demais. Menos. Lugar de aprender teoria, nesse caso, é lendo Sapir-Whorf ou comentarista.
Percebido e entendido como filme com roteiro questionável, A Chegada é muito bom. Os extraterrestres são uma espécie de lula ou polvo, que fazem barulho de golfinho e baleia misturado com grunhidos e escrevem por meio de jatos circulares de tinta negra. Pra isso sempre tem que haver uma divisória de vidro entre eles e os humanos. Absurdo, mas cenicamente muito bonito, porque meio fantasmagórico -sem meter medo – e austero.  
A Chegada tem um clima melancólico, meio low key, inclusive nas interpretações, que somados a uma trilha-sonora espetacular resultam na sensação de estranhamento e onirismo que a melhor ficção-científica consegue arrancar do expectador. E o mais importante, o aspecto humano e humanitário sobressalta-se na trama, que, por isso, não necessita de fogos de artifício. E também é apenas a melhor ficção-científica que consegue ser assim.
À parte alguns chavões ideológicos tipo colocar a Rússia e a China como os que primeiro decidem atacar os visitantes (estadunidense é civilizado; só apela pra violência quando atacado. Vietnã, hello!), A Chegada é muito bom.
E ainda assim, continuo não querendo a visita de ETs. Que fiquem longe até minha morte!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

CONTANDO A VIDA 189

A ROMARIA DAS “ROMARIAS”

José Carlos Sebe Bom Meihy

Definitivamente, o tema tomou conta de mim. Bastou pensar em uma sondagem para que o campo de pesquisa se tornasse desafio. E eis-me estudando Aparecida do Norte. A complexidade do assunto, porém, obriga a amplitudes e assim a primeira atitude de alargamento da proposta. Na realidade, a prática das romarias é comum no mundo. Algumas são famosas e guardam prestígio transparecidos em relatos de milagres, graças e pagamento de promessas. No circuito cristão católico, entre tantas, a ida a Roma é cultuada como matriz significativa, presente inclusive em outras religiões, mundo afora. Aparecida do Norte, assim, sugere o uso da peregrinação como ato devoto a ser vivenciado por fieis que reciclam rituais derivados de uma afetuosa memória coletiva.

O caso brasileiro, contudo, apresenta variante que interessa pela originalidade: além dos roteiros de visitas, a produção musical se oferece como espécie de discurso épico continuado, cumulativo, dirigido principalmente, para o público de perfil urbano ou em processo de adaptação ao meio citadino. É exatamente neste sentido que a música sertaneja atua como ativadora de pertencimento popular. Ainda que a tradição romeira tivesse perdido o fundamento eminentemente religioso, alguns referenciais, além do culto à Imagem Milagrosa, ficam expostos: a eleição de um tempo central para o pagamento de promessas, a passagem pela capela onde está guardada a santa e referência às músicas que se desdobram fora dos limites das visitas. Tais fatores compõem lances que permitem supor discursos musicais que fomentam uma lógica devota especial. Submetidas a uma linha do tempo, tais canções formulam a continuidade de uma memória que é mais do que mera propaganda, sendo mesmo um chão que justifica o caminho cultural da devoção profana.

O exame das letras sobre as Romarias como fenômeno não religioso, referentes ao caso do Município de Aparecida do Norte, indica a vivência da fé segundo a tradição de inspiração religiosa popular. Trata-se sim, legitimamente, de fé, mas longe de ortodoxias. Não se mostra prudente, contudo, confundir tal procedimento com catolicismo popular, como se houvesse níveis de vivência cristã. Por certo, a popularização dos meios de transporte faz repontar disputas entre a memória de uma cavalaria – onde o fiel cumpriria a promessa vindo montado a cavalo – em favor de movimentações também feitas a pé, de carro, em caminhões ou ônibus. A repetição de alguns motes como a visita à imagem causadora desse culto de fé, Aparecida do Norte, no estado de São Paulo, serve de base para se pensar na formulação do mito de uma cidade sagrada onde se reciclam tradições de supostos traços medievais. Aliam-se assim dois fatores complementares: a imagem da Senhora Aparecida e a constituição de uma “capital da fé”, espécie de referência obrigatória para a homenagem à Padroeira do Brasil.

Mas, em que medida pode-se propor, pelo exame desse cancioneiro modernizado, a construção de uma memória coletiva capaz de justificar a hipótese de trabalho em favor de uma moderna tradição cultural? A resposta se desdobra do suposto que permite ver a formulação de matrizes narrativas que se repetem, variando a exemplificação, mas garantindo o mesmo sentido. Assim, algumas peripécias ou detalhes de façanhas romeiras podem ser encontrados nas letras das centenas de canções, notadamente de duplas sertanejas mais populares. A que inaugura essa sequência, Aparecida do Norte, foi composta por Anacleto Rosas Jr e Tonico, da dupla Tonico e Tinoco. Cabe lembrar que no ano dessa parceria, 1958, deram-se algumas das mais importantes transformações ligadas à modernização do Brasil. No andamento dos chamados “anos dourados” (1956 - 1961), na trajetória política de gestão de Juscelino Kubitschek, arrolaram-se fatos como: a construção de Brasília, o lançamento da Bossa Nova, o cinema novo, o Teatro Experimental Negro, entre tantos eventos. Nessa plêiade de fatos populares, exatamente em 1958, surgia a primeira canção ligada a homenagem nacional de Nossa Senhora Aparecida. Eis a letra de Aparecida do Norte:
  
Já cumpri minha promessa na Aparecida do Norte 

E graças a Nossa Senhora não lastimo mais a sorte 
Falo com Fé: - Não lastimo mais a sorte 
Já cumpri minha promessa na Aparecida do Norte.

Eu subi toda a ladeira sem carência de transporte 

E beijei os pés da Santa da Aparecida do Norte 
Falo com Fé: - Da Aparecida do Norte 
Eu subi toda a ladeira sem carência de transporte.

Não tenho melancolia, tenho saúde sou forte 

Tenho fé em Nossa senhora da Aparecida do Norte 
Falo com Fé: Da Aparecida do Norte 
Não tenho melancolia, tenho saúde sou forte

Padroeira do Brasil Aparecida do Norte 

Eu também sou brasileiro sou caboclo de suporte 
Falo com Fé: Sou caboclo de suporte 
Padroeira do Brasil Aparecida do Norte

Todo meado do ano enquanto não chega a morte 

Vou fazer minha visita na Aparecida do Norte 
Falo com Fé: Na Aparecida do Norte 
Todo meado do ano enquanto não chega a morte.


Nessa canção foram semeados alguns elementos importantes para a construção da memória popular afeita à Nossa Senhora e sua projeção nacional. Além da referência explícita à situação de Aparecida do Norte e da identificação com o contexto católico brasileiro, colocado como um todo homogêneo, nota-se a ratificação da imagem como “Padroeira do Brasil”. E junto desdobram-se qualificativos importantes como “eu também sou brasileiro, sou caboclo de suporte”. Por certo, ser caboclo não é pouco coisa na identidade brasileira/ popular. A rima “Aparecida do norte/morte” por sua vez revela a importância da bênção derivada de promessa – de onde vem a noção de romaria. Item relevante, a presença da palavra “transporte”, não apenas significando movimento de outras partes para a cidade religiosa, mas também, na descrição do local, por meio da ladeira que conduzia à antiga Basílica. Não menos saliente é a referência à saúde e ao compromisso de, enquanto viver, cumprir a promessa. Como marco inaugural, a canção permite ainda uma imprecisão de data, valorizando o compromisso, independente de data fixa fica expresso que a façanha se repetira “todo meado do ano enquanto não chega a morte”. Foi a partir desse começo que tudo se desdobrou. E assim continuo minha peregrinação, aliviado por ter me tornado devoto do tema.

terça-feira, 16 de maio de 2017

TELINHA QUENTE 259

Resultado de imagem para rita netflix serie
Roberto Rillo Bíscaro

A Dinamarca destacou-se no mercado mundial de TV a partir do sucesso de Forbrydelsen na Inglaterra e a subsequente explosão cult do Nordic Noir. O peninsular reino passou a ser conhecido por séries sombrias como Bron/Broen ou dramas políticos sérios como Borgen. Graças à Netflix, lado mais ameno e algo divertido do país europeu pode ser conhecido através dos 24 capítulos das 3 temporadas de Rita. Originalmente produzida pela TV2, a Netflix coproduziu a terceira temporada, garantindo não apenas distribuição mundial pelo serviço de streaming, mas dublagem em diversos idiomas – inclusive o português – pros preguiçosos de ler legenda.
Rita é o equivalente dinamarquês de Merlí: professora adorada pelos estudantes, mas sempre enrascada fora da sala de aula, por não saber lidar com autoridades (mas os alunos têm que respeitar a dela) e emoções. Será que pra ser “bom” professor há que ser emocionalmente imaturo e inseguro? Será que alguém assim pode ser bom mestre?...
Separada do marido, Rita tem 3 filhos, de que o roteiro logo percebe que não dará conta e elimina 2 (sem tragédia, não é Nordic Noir), deixando apenas o mais novo e gay. O grosso da série é a postura pouco convencional de Rita perante seus alunos, desafiando pais e colegas, fumando na escola, levando advertência, falando coisas brutalmente sinceras e constrangedoras, mas sempre resolvendo tudo. Como entretenimento, a série é uma belezura. A maioria das personagens não é mera caricatura superficial de ser humano e uma em particular é tão adorável que ganhou série própria, Hjordis.
Menos didática que Merli, porque não se propõe a “ensinar” conteúdos, Rita ainda assim se sai bem também no quesito aproveitamento pedagógico. É muito interessante ver como um país onde o aborto está liberado há muito tempo e tem fama de ser socialmente progressivo, representa questões como homossexualidade, inclusão, decisão de manter ou não um feto e até mesmo infestação de piolhos. Sim, a riquérrima Dinamarca também tem piolhos e gays ainda sofrem piadinhas discriminatórias, mas o modo como abordam essas questões está realmente muito adiante de nós, então, vale ver.
Como em Merlí, não dá pra esquecer que a condição de possibilidade pra existência desses mestres heterodoxos reside na postura bem pouco realista de seus alunos-criações-de-roteiro. Todo mundo quer professores como o catalão e a dinamarquesa, mas professores também sonham com alunos como os deles: que ficam calados, prestando atenção às explicações; fazem os deveres de casa e atividades em grupo em sala; falam cada um de uma vez; sentam-se mal Rita e Merli entram na sala e estão prontos a melhorar ao menor estímulo de seus mestres (que nunca aparecem superlotados de aulas ou sendo agredidos por classe berrando descontrolada).
Conscientes de que não se pode esperar mudança dos professores sem contrapartida discente, Rita pode ser fonte de muita diversão e discussão. Talvez consenso entre professores e alunos pra tentar uma mudança? Acho que baixou uma Hjordis rápida em mim!

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CAIXA DE MÚSICA 265

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Roberto Rillo Bíscaro

Ruthie Foster lança álbuns há precisos vinte anos, mas a texana de uma pequena cidade rural começou a desenvolver seus elogiados dotes vocais na igreja que frequentava, em Gause. Oriunda de família de cantores gospel, desde cedo soube que na música estaria seu ganha-pão. E o vozeirão não demorou a despertar atenções, dentre elas da megagigante Atlantic Records, que lhe ofereceu contrato.
Lá se foi a fã de Aretha Franklin para Nova York, onde descobriu que a gravadora queria domesticar seu blues para transformá-la em outra semi-sensação pop. Ao invés de se tornar estrelete e passar o resto da vida reclamando do sucesso, da máquina devoradora de almas e todo esse choramingo, Foster fez mais simples: disse não e voltou ao Texas, para a maiorzinha Waco, onde iniciou frutífera parceria com o selo Blue Corn Music. O respeito crítico e a lista de indicações a e premiações ratificam a sapiência dessa escolha.
Foster já foi comparada com sua “ídala” Aretha e você pode conferir porque ouvindo seu décimo álbum, Joy Comes Back, lançado dia 24 de março. Com músicos de primeira, Foster gravou nove covers e um original de sua autoria. Uma das coisas que mais impressiona é a firmeza com que se apropria dos modos de cantar gêneros distintos do rico caleidoscópio da Americana. Quando manda um country ou um R’n’B dá para jurar que Foster cantou só isso a vida toda, tamanha a profundidade e riqueza das interpretações.
O álbum abre com What Are You Listening To?, balada country contemporânea de apertar repeat e demorar para seguir adiante, mesmo que se constate depois que fazê-lo foi quase um pecado. O resto de Joy Comes Back é igualmente belo: o gospel da faixa-título; o blues tradicional do delta do Mississippi, de Richland Woman Blues; a baladaça final, Forgiven. Os momentos mais explicitamente políticos são poderosos e Foster solta a voz e o verbo. Working Woman e War Pigs (dos metaleiros Black Sabbath) são blues rocks countrificados; o primeiro sobre empoderamento feminino e o segundo um libelo antibélico.
A concepção e gravação de Joy Comes Back coincidiram com batalha judicial pela guarda do filhinho, mas isso não entristeceu o trabalho, basta atentar para o título. Loving You Is Sweeter Than Ever é claramente cantada para a criança, mas o otimismo Motown dessa canção de Steve Wonder revigora. A única composição própria, Open Sky, navega pelas águas tranquilas e elegantes do urban soul.
E por falar em navegar, Foster juntou-se à Marinha quando jovem, para conhecer o mundo. Lá passou a integrar uma banda da corporação. Além da voz preciosa, cantar ao vivo deu-lhe a tarimba para velejar de um subgênero a outro com tanta classe e desenvoltura. E na balada country rock Good Sailor, Foster achou letra que reflete perfeitamente sua ex-profissão e a vida difícil: Easy living never did me no favors/smooth seas never made a good sailor. Outro milagre para dar curto-circuito no repeat.
Sem uma nota fora do lugar ou arranjo sub/superaproveitado, Joy Comes Back é perfeito até no título: traz de volta o prazer da música orgânica, bem cantada e não berrada, nessa época tão autotunada e de calouro esgoelando sem profundidade vocal alguma.

domingo, 14 de maio de 2017

AS FILHAS DO GASPAR

Ensaio das gêmeas albinas é a coisa mais fofa que você vai ver hoje
Garotinhas ganharam cliques exclusivos de presente do Domingo Show

Domingo Show da semana passada (7) contou a emocionante história das pequenas Heloise e Helena. Fofíssimas, as garotinhas albinas chamam a atenção por onde passam. Para celebrar o nascimento das pequenas, a atração de Geraldo Luís as presenteou com um ensaio fotográfico exclusivo, que você confere no link:

sábado, 13 de maio de 2017

ZOOFILIA COM ORANGOTANGA II

Fêmea de orangotango albina de olhos azuis é socorrida em Bornéu

A Fundação Borneo Orangutan Survival convidou o público a apresentar sugestões de nomes para um raro exemplar de orangotango albino resgatado em Bornéu, considerado o embaixador de espécies ameaçadas.

Assista à reportagem, acessando:

sexta-feira, 12 de maio de 2017

QUAL É A SUA HISTÓRIA?

Miguel José Naufel é uma pessoa com albinismo residente na cidade paulista de Mococa. Ele já contou diversas histórias aqui pro blog e recentemente foi entrevistado no canal Tenda da Cida, onde falou de suas atividades musicais, dentre outras coisas.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

TELONA QUENTE 186

Resultado de imagem

Roberto Rillo Bíscaro

Quando algum filme vira queridinho da crítica e, por isso, de parte do público ao mesmo tempo e procede dalgum lugar “exótico” i.e. fora dos Estados Unidos, a imprensa mira nesse local e fala-se numa “nova onda de” cine iraniano, argentino, romeno, dinamarquês. Por alguns meses, alguns criadores ungidos adquirem status de pontífices, até o próximo indie movie ianque ou cult d’outra paragem fora do eixo atrair olhares de descolados ao redor do globo.
Nalgum momento da segunda metade dos anos 1990, a bola da vez foi a highlandesca Escócia. Acho que foi após o estouro de Trainspotting (1996): tudo de lá passou a ser mais quente; atores, diretores, filmes. E como era filme de jovem viciado em heroína, beneficiou-se da modinha de filmes com molecada barra pesada, tipo Kids (1995) e um com o Di Caprio jovem; quem lembra dele fazendo chupetinha em banheirão público? E por tabela, filmes deprês, afinal com assuntos assim, o que se poderia esperar?
Exceto pelo quesito juventude, The Debt Collector (1999) encaixa em alguns aspectos descritos: é escocês e deprê; determinista, inclusive, em sua persistente afirmação de que não se pode fugir ao passado, é impossível se reinventar. Artisticamente, o roteiro quer emular o trágico grego, mas está mais pra naturalismo, porque os horríveis destinos de todas as personagens têm causas bem sociais.
Curioso é que a personagem central foi baseada em Jimmy Boyle, que nos anos 60 foi condenado por matar um membro de gangue rival e na cadeia tornou-se artista plástico famoso, reinventando-se com projetos que até receberam contribuições de famosos, que depois atuariam no filme. Em The Debt Collector, Nicky Dryden valia-se de golpes baixos pra cobrar as dívidas dum agiota; valia tudo, até descontar em amigos e familiares do devedor. Preso pelo policial  Gary Keltie, Nicky se transforma em escultor de sucesso e ao sair do xadrez vira pilar da sociedade de Edimburgo. Pena que Keltie não consegue aceitar essa transformação e dedica-se a vendeta que levará todos de roldão. Invertem-se os papéis: Dryden torna-se senhorzão respeitável: Keltie passa pro papel do bully marginal. Polícia, bandido; bem e mal; certo e errado, não há opostos, mas continuidades inescapáveis.
Um dos aspectos mais deprimentes de The Debt Collector é que quase mina a possibilidade de modelos positivos de comportamento ou motivação. Keltie faz o que faz por ódio e ressentimento, mas o jovem gangster Flipper, ao contrário, idolatra Dryden. Porém, o Dryden do passado, o durão que barbarizava as ruas de Edimburgo. Esse amor mal direcionado levará a desastre.  Todo amor levar a desastre. Todo ódio também.
Com elenco supimpa, com Francesca Annis e Ken Stolt esmerilhando tudo, The Debt Collector é só pra fãs de pedradas tristes como Tiranossauro.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

ALBINO INCOERENTE NA UNIP

Aos 50 anos de idade, voltei a ser aluno. No começo deste ano, matriculei-me no curso de pedagogia, modalidade Educação a Distância, pela UNIP.  Necessito me atualizar pedagogicamente, mas não tenho tempo ou saco pra sentar em banco escolar de graduação. Assim, fazer a distância, na hora em que posso/quero, é a melhor pedida.

Como há um polo aqui em Penápolis, funcionando em uma escola onde lecionei em 1998, ficou tudo mais fácil Se tivesse que viajar, também não faria. Prerrogativas de senhores de meia-idade: não precisamos fazer tudo por obrigação, algumas coisas já são por prazer e/ou pua comodidade. 

Devido a minha experiência na área da educação e ao sucesso do blog e do trabalho de divulgação de informação sobre o albinismo, a direção da UNIP Penápolis convidou-me pra conversar com os alunos sobre educação, superação e temas correlatos.

O encontro foi segunda-feira à noite e na plateia havia muitos jovens, de ensino médio, inclusive. Aliei minha trajetória pessoal ao tema da importância da educação e parece que o pessoal gostou.

Obrigado à equipe gestora do polo penapolense da UNIP, pela oportunidade. 






CONTANDO A VIDA 188

SAUDAÇÃO ÀS MÃES: ROMARIA...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Sou daqueles que não se cansam de ouvir a canção “Romaria” de autoria de Renato Teixeira. Não é à toa que essa música está entre as dez mais tocadas no Brasil.  E faz tempo... De tão devoto, resolvi tentar uma genealogia e assim parti para o levantamento do assunto. Encontrei uma espécie de genealogia que elenco como raiz do tema. Eis os títulos, autores e datas:
1-Aparecida do Norte com Tonico e Tinoco (1958), de Anacleto Rosas Jr e Tonico.
2-Romaria a Aparecida com Luizinho e Limeira (1959),  composição de Anacleto
Rosas Júnior em parceira com Luis Rosas Sobrinho (Filho do Anacleto Rosas)
3-   A Marca da Ferradura com Tonico e Tinoco (1960), de Lourival Santos e Riachão
4-  Ceguinha com Abel e Caim (1968), de Paulo Calandro e Zé Mauro
5-  Virgem Aparecida com Vieira e Vieirinha (1968), de Léo Canhoto e Benedito Seviero
6-  Milagrosa Nossa Senhora com Tonico e Tinoco (1969), de Dino Franco
7-   Visita À Nossa Senhora Aparecida com Moreno e Moreninho (1974), de José Alves           e Moreno
8-   Pedido a Nossa Senhora Aparecida com Vieira e Vieirinha, de Vieira e Vicentinho
9-   Oh! Senhora Aparecida com Gino e Geno, de Gino e Dolival
10-  Nossa Senhora Aparecida com Rick e Renner, de Rick Sollo
11-   Nossa Senhora, com Marciano, de Roberto Carlos
12-   O Milagre da Flecha com Moacyr Franco, de Moacyr Franco
13-   Exemplo de Humildade com Tião Carreiro e Pardinho, de Tião Carreiro e Dino Franco
14-   Romaria com Renato Teixeira (1973), de Renato Teixeira

O exame das letras indica o desdobramento da fé segundo a tradição ritualística das romarias. Ao contrário do que se pensa, nada é tão antigo como parece e sabe-se que a locomoção até a “capital da fé” é uma tradição recente, inventada. Isso, contudo, não diminui a prática que remete às epopeias devotas datadas da Idade Média. No nosso caso, a popularização dos meios de transporte faz repontar disputas entre a memória de uma cavalaria – onde o fiel cumpriria a promessa vindo a pé ou a cavalo. A repetição de alguns motes como a visita à imagem causadora desse culto de fé, Aparecida do Norte, no estado de São Paulo, serve de base para se pensar na formulação do mito de uma “cidade sagrada” (daí o nome Romaria). Aliam-se assim dois fatores complementares: a imagem da Senhora Aparecida e a constituição de uma “capital da fé”, espécie de referência obrigatória para a homenagem à “Padroeira do Brasil”. Alguns desses detalhes podem ser encontrados já na letra da canção inaugural dessa sequência. “Aparecida do Norte”, composta por Anacleto Rosas Jr e Tonico, da dupla Tonico e Tinoco, indica caminhos:
 
Já cumpri minha promessa na Aparecida do Norte 

E graças a Nossa Senhora não lastimo mais a sorte 
Falo com Fé: - Não lastimo mais a sorte 
Já cumpri minha promessa na Aparecida do Norte.

Eu subi toda a ladeira sem carência de transporte 

E beijei os pés da Santa da Aparecida do Norte 
Falo com Fé: - Da Aparecida do Norte 
Eu subi toda a ladeira sem carência de transporte.

Não tenho melancolia, tenho saúde sou forte 

Tenho fé em Nossa senhora da Aparecida do Norte 
Falo com Fé: Da Aparecida do Norte 
Não tenho melancolia, tenho saúde sou forte

Padroeira do Brasil Aparecida do Norte 

Eu também sou brasileiro sou caboclo de suporte 
Falo com Fé: Sou caboclo de suporte 
Padroeira do Brasil Aparecida do Norte

Todo meado do ano enquanto não chega a morte 

Vou fazer minha visita na Aparecida do Norte 
Falo com Fé: Na Aparecida do Norte 
Todo meado do ano enquanto não chega a morte.

Nessa canção foram colocados alguns elementos importantes para a construção da memória popular afeita à Nossa Senhora e sua projeção nacional. Além da referência explícita à situação de Aparecida do Norte e da identificação com o contexto católico brasileiro, colocado como um todo homogêneo, nota-se a ratificação da imagem como “Padroeira do Brasil”. E junto desdobram-se qualificativos importantes como “eu também sou brasileiro, sou caboclo de suporte”. Por certo, ser caboclo não é pouca coisa na identidade brasileira/popular. A rima “Aparecida do Norte/morte”, por sua vez, revela a importância da bênção derivada de promessa – de onde vem a noção de romaria. Item relevante, a presença da palavra “transporte”, não apenas significando movimento de outras partes para a cidade religiosa, mas também, na descrição do local, por meio da ladeira que conduzia à antiga Basílica. Não menos saliente é a referência à saúde e ao compromisso de, enquanto viver, cumprir a promessa.

Muito além da riqueza expressa pela releitura feita por Renato Teixeira, cabe supor a beleza na adaptação de uma prática religiosa transposta para nossos dias. Isso negocia nossa identidade e, sobretudo revela um dos traços mais marcantes da sensibilidade brasileira: o culto à “mãe de Deus e nossa”. Foi pensando na saudação à nossa Padroeira que pensei no abraço a ser dado a todas as mães vivas... E para os que não as têm mais, como eu, vale cantar “Romaria” e supor proteções.