segunda-feira, 16 de julho de 2018

CAIXA DE MÚSICA 323



Roberto Rillo Bíscaro

Angela Ro Ro foi apresentada ao grande público, em 1979, através de seu álbum homônimo de estreia. O fim dos 70’s trouxe copiosa safra de vozes femininas, como Zizi Possi, Fátima Guedes, Fafá de Belém, Marina, antes de ser Lima.
Mais ou menos até 1983/4, Ro Ro frequentou assiduamente paradas de sucesso e noticiosos policiais, por seus escândalos, alguns envolvendo agressão à então namorada, outra grande da MPB surgida na época.
O BRock e as subsequentes ondas comerciais de lambada, axé, sertanejo, arrocha e sabe-se lá o que mais, varreram das rádios comerciais a turma da MPB, mas Angela continuou compondo, sendo regravada, embora tenha diminuído bastante o ritmo de lançamentos.
Pouco após a virada do milênio, a carioca dexintoxicou/emagreceu geral; apresentou talk show; foi merecidamente homenageada por cantores da nova geração.
Há oito anos sem lançar material de estúdio inédito, a cantautora retornou no fim do ano passado com as onze faixas de Selvagem, lançado pela Biscoito Fino, por isso disponível em tudo quanto é Spotify e Deezer da vida.
Angela Ro Ro é uma espécie de Maysa Matarazzo pós-moderna nível hard e a afirmação dessas personas é muito importante, seja reiterando mundos que vivem caindo, seja personalidades fortes. Ro Ro reafirma sua independência e gênio indômito na faixa título, com sua guitarra roquinho e no xaxado Parte Com o Capeta. Sua conversão para o vegetarianismo e o lado cheio do copo (sem ironia pretendida) é relatada na popice oitentista de Caminho do Bem.
Em Maria da Penha, a zonasulista Ro Ro ataca de samba do morro pra denunciar a violência doméstica, enquanto Todas As Cores volta aos calçadões da bossa ipanêmica, exaltando o amor, o sorriso e a flor.
Portal do Amor é bilíngue com inglês e clima bluesy e como todo álbum típico de emepebista de sua geração, o resto é balada competente e gostosa, tipo Meu Retiro, Nenhuma Nuvem e É Simples Assim.    
Com boas letras e vocal ainda potente, o calcanhar de Aquiles é a produção. Sabe-se lá se por contingência estética ou orçamentária, todos os instrumentos são executados digitalmente, então, Selvagem perde um bocado de sua potencial força, porque o som sintetizado carece de profundidade. Até soa como coisa produzida nos 80’s, mas isso não é necessariamente ponto positivo. Assim, Selvagem fica mais na palavra que na ação.

domingo, 15 de julho de 2018

SUPERAÇÃO BELGA

A surpreendente história e o exemplo de vida do melhor marcador da história da selecção belga.

“Lembro-me do momento exacto em que soube que a minha família estava falida. Não apenas pobre, mas falida. Tinha seis anos e fui a casa no intervalo da escola para almoçar. Era sempre o mesmo menu: pão e leite. Nesse dia cheguei e vi a minha mãe perto do frigorífico a misturar qualquer coisa no leite. Quando provei percebi imediatamente o que estava a acontecer. Ela tinha juntado água. Já não tínhamos dinheiro suficiente para a semana inteira.”

sábado, 14 de julho de 2018

sexta-feira, 13 de julho de 2018

PAPIRO VIRTUAL 127


Roberto Rillo Bíscaro

Desde o fim do ano passado, tenho lido sobre discos-voadores e filmes de ficção-científica dos anos 1950. Já resenhei uma dissertação da PUC-RS e outra da UNICAMP sobre os avistamentos de OVNIs no Brasil cinquentista, além duma tese britânica sobre a recepção de filmes sci fi na época.
Como minhas monomanias são mutáveis, interrompi o ciclo com dissertações/teses sobre rock brasileiro dos anos 70, a influência da Rede Globo na MPB setentista, o Clube da Esquina e o branqueamento da Música PopularBrasileira.
Monomanias em sucessão, voltou a dos anos 50, quando achei Welcome to Mars: Politics, Pop Culture, and Weird Science in 1950s America, pra comprar a preço módico via Kindle. Não se trata de estudo acadêmico, daí talvez resvalar pra teoria da conspiração, de vez em quando. Escrito pelo britânico Ken Hollings - colaborador de revistas como Wire e palestrante, além de broadcaster – a década de 50 para ele, vai de 1947 a 59. Segundo Hollings, a quebra da barreira do som e a construção das primeiras unidades do condomínio Levittown assinalam mudança de paradigma: a classe média abandona as “perigosas” cidades para a atomização suburbana e os céus passam a ser cada vez mais escrutinados, a Força Aérea mais badalada e, não por coincidência, o fenômeno dos discos-voadores toma conta do planeta.
O caráter conspiratório de Welcome to Mars advém de tentar, diversas vezes, ligar pontinhos que não necessariamente foram pingados pra serem conectados. Dá a impressão de que há uma engenharia social rigorosa e premeditada regendo todos os díspares eventos relacionados. Óbvio que há um zeitgeist, relacionando as coisas, e fascina mesmo perceber quão informalmente militarizada era a sociedade norte-americana: o presidente era militar, assim como o presidente da associação nacional de psiquiatria (cada vez mais influente) e as justificativas pra construção dos condomínios e freeways. Dá medinho mesmo.
Tomando o cuidado de não imaginar planos ilumináticos, a miscelânea de fatos e anedotas reunidos em Welcome to Mars é fascinante, hilariante, assustadora. Testes radioativos e de drogas feitos com populações inconscientes de serem cobaias; proposição de usar detentos como os primeiros homens no espaço; psiquiatras e médicos, cujas teorias e métodos muito se assemelham aos cientistas malucos dos filmes de baixo orçamento da década.
Não se trata de análise profunda de nada, muito menos dos filmes, a profusão de informações daqueles anos de explosão de consumo; do isolamento suburbano suportado com vendas recordes de calmantes e álcool; de abrigos nucleares sendo vendidos por empresas e de militares e gente da ciência falando muito absurdo sobre energia nuclear e OVNIs faz de Welcome to Mars leitura quase obrigatória pra fãs de cultura pop em geral, mas especialmente daqueles anos doirados.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

TELONA QUENTE 244

Roberto Rillo Bíscaro

Nos anos 70, um crocodilo de água salgada ficou famoso na Austrália por atacar diversas embarcações. Batizado de Sweetheart (doçura), jamais atacou seres-humanos até ser capturado, em 1979, com o intuito de ser transportado prum santuário, onde não implicasse mais com nenhum barco. O réptil morreu afogado durante o traslado e seu corpo se encontra em exposição no Museum and Art Gallery of the Northern Territory, na cidade de Darwin.
Em 2007, Greg McLean usou Sweetheart como mote pra seu Morte Súbita, que está no catálogo da Netflix, mas não deve ser confundido com o seu xará em português, estrelado por Jean-Claude Van Damme. Em inglês, chama-se Rogue, e, apesar de elogiada pela crítica, fracassou nas bilheterias.
Pena, porque o diretor australiano fez serviço bem decente em termos de criar e manter suspense, além de dar aquela sensação de aflição danada, indispensável pro prazer masô causado por esse tipo de filme. Por si só um sub-subgênero dentro dos filmes de horror/suspense provocado por animais assassinos, jacarés e crocodilos têm estraçalhado incautos desde pelo menos Alligator (1980) até 2018, que viu mais uma sequela da franquia Pânico no Lago.
Rogue reúne passageiros num precário barco pra safari aquático no gigantesco, tórrido e infestado de mosquitos Território Norte. Presos numa ilha fluvial que a maré submergirá em breve, o grupo tem que lidar com enorme crocodilo ressentido da invasão de seu território e quer aproveitar os humanos pra abastecer sua despensa de carne.
McLean não adiciona ao sub-subgênero e segue passos de Vô Spielberg, mantendo o bicho fora da tela por um bom tempo. Nem há tanta carnificina, mas a tensão é bastante alta no clímax e há bons momentos de suspense antes dele. Rogue é eficiente, porque ao contrário da maioria das produções mequetrefes exibidas por canais tipo SyFy, a computação gráfica é bastante convincente e as cenas de animais pouco fofos somam ao desconforto. A maioria desse tipo de filme é tão artificial e mal-feito que assistimos pra rir; Morte Súbita dá gastura.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

CONTANDO A VIDA 239


AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR DEBAIXO DE SETE CHAVES 


(e nas redes sociais)... 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Componho algumas listas nas redes sociais da internet. Não sou fanático, mas de vez em quando, no máximo uma vez por dia, dou uma passeada por lá. Visito o Facebook (FB) rapidamente, mas quase nunca posto ou comento alguma coisa. O mesmo se repete com outros aplicativos, em particular com aqueles alimentados por fotos. Não tenho nada contra, mas pessoalmente acho meio sem sentido esta história de selfies, de gente sempre sorrindo, se mostrando, dizendo “olhe onde estou”, “veja com quem estou”... Como muitos, porém, ando interessado nessas formas de comunicação, e não me furto pensar no impacto que isso exerce sobre maneiras diretas e indiretas de conhecimento interpessoal. Sob esta alínea, uma das minhas mais inquietantes questões remete ao fato da celebração irremediável das velhas amizades. Reparam como há pessoas eternizando os “anos que não voltam mais”? Sei que isso é velho e que desde os tempos de Cassimiro de Abreu repetimos “aí que saudade que tenho, da aurora da minha vida”, mas a configuração contemporânea é outra, instantânea. 

Em pelo menos três grupos de que participo, não passa um dia em que alguém não poste algo filtrado por música, poema, oração, mensagens com florezinhas, corações, tudo em laudatórios vivas à amizade perene, imbatível, solidada na saborosa ilusão no tempo da memória. É lógico que gosto disso, mas fico pensando nos motores que acionam tais apelos. Uma de minhas listas é de parceiros da infância e juventude; crescemos mais ou menos juntos no interior e, muitos de nós, depois de anos sem nos ver, reencontramo-nos no plano virtual. Outra lista é enlaçada por colegas do ginásio feito em colégio interno; nos reintegramos e assim se trocam notícias de carreiras, casamentos (velhos e novos), atividades dos filhos, viagens, tudo saudando “aqueles bons tempos”. Uma terceira ordem é de primos coetâneos, esta, aliás, remete mais a informações sobre saúde, aniversários e subsídios parentais, mas sempre amalgamando alegrias de ontens. Cá e lá “entro” em redes atuais: associação profissional, ex-alunos, vizinhos, professores aposentados, mas afora esses casos, a tal amizade sincera, aquela que se guarda debaixo de sete chaves, é o ponto centrífugo e de referência. 

Confesso que tenho me dedicado a entender o papel mediador das máquinas nas relações pós-modernas. Vivo enfeitiçado pelos atalhos éticos que promovem diálogos em tantos casos, e brigas insondáveis em outros. Tudo sempre sob o denominador comum das amizades que não se desmancham. Foi com esta preocupação que busquei um livro que não leria fora do radar de entendimento desse que é um dos maiores fenômenos de comportamento contemporâneo, as redes sociais. Marla Paul é uma estudiosa de relações públicas, vinculada a Northwestern Univesity, e para escrever “The friendship Crisis: finding, making and keeping friends when you are not a kid anymore”, partiu de um princípio intrigante: não se faz amizades profundas depois dos 30 anos. E por mais de 250 páginas, plenificadas de exemplos, a autora declina razões que vão deste o fato de, adultos, não mais termos disponibilidade, e nem capacidade espontânea de doação, e assim vai até os compromissos inerentes às responsabilidades como: pagar contas, gerenciar negócios, administrar diferenças de relacionamentos familiares, educar filhos, cuidar da própria saúde, ou mesmo de se divertir de maneira compensatória. Nossa, é um rosário convincente de alegações que complicam nossos modos de vida. De certa forma, ainda que a autora propale fórmulas de superação desses entraves inerentes à idade, fica mais ou menos decretado que não temos mais tempo para “falar abobrinha”, “jogar conversa fora” ou, o que é pior “esquecer desavenças”. E por aí escorrem os papos livres de regras, as conversas em botequins, a “contação” de piadas, as provocações politicamente incorretas. Sem tempo para o cinema, também não exercitamos mais a cervejinha amiga, a pizza com conversa solta, andar por aí sem saber onde chegar. Pelo reverso, no máximo, resta a companhia de colegas de academia, parceiros de transportes públicos, frequentadores de mesmas atividades sociais. Terrível, não?!... 

A complicar ainda mais a trama das desilusões etárias, tornamo-nos saudosistas crônicos e não poupamos esforços para comemorar o passado, seja ele o que tenha sido. Tudo que foi virou “bom” e pronto... Na verdade, diz Paul, o que cultuamos é a ressignificação do que fomos, esquecendo-nos de que naquele tempo tínhamos também dificuldades e muitas vezes não estávamos tão felizes como imaginamos hoje. A solda mais eficiente da celebração amistosa, porém, diz respeito aos marcadores de nossa própria história. Amigos de infância, estiveram presentes em nossas passagens mais significativas, escolas, competições esportivas, primeiros namoros. 

A dura realidade é que crescemos. Tornamo-nos gente grande e agora não temos mais a espontaneidade das possibilidades de ajustes, de aceitação e de tempo. A racionalidade tornou-se bússola e nos resta obedecer a lógicas que ancoram acertos, não permitem deslizes, erros. É bom que restem as velhas amizades que, afinal, funcionam como essência do que fomos, ou pelo menos como prova de que éramos felizes e hoje sabemos.

terça-feira, 10 de julho de 2018

MACABRO RECOMEÇO

Moçambique: Recomeçam ações contra albinos no Niassa

Uma criança albina foi raptada na madrugada desta segunda-feira (09.07.) na residência dos seus pais na cidade de Lichinga. Trata-se do primeiro rapto de um albino este ano no Niassa. O caso já está nas mãos do SERNIC.


Pouco depois de o país assinalar um ano sem raptos ou assassinatos de albinos, raptores infiltraram-se na casa dos pais do menino por um buraco feito na parede do quarto onde o menor dormia juntamente com outros irmãos.

Triste, Pires Ernesto, pai do menor, conta: "Quando cheguei do serviço, por volta de uma hora, o meu irmão Carlito chamou-me para me dizer que o meu filho tinha desaparecido e perguntei-lhe como é que isso tinha acontecido, pelo que me respondeu furaram a parede e tiraram a criança do quarto. Disse ainda que estavam a informar aos vizinhos [sobre o sucedido]. Quando regressei à casa na verdade não encontrei a criança”.

De recordar que os raptos de albinos que têm ocorrido em Moçambique estão na sua maioria relacionados com superstições. Acredita-se que determinadas partes do corpo dos albinos possuem poderes mágicos e por causa disso muitos acabam por ser mortos ou mutilados.

Ressurgimento de raptos causa preocupação

Trindade Guilherme, representante da associação Amor à Vida na província do Niassa, encara o ressurgimento dos raptos de albinos com uma grande preocupação e apela as autoridades para serem mais céleres nas investigações para que os autores sejam encontrados e punidos.

"É triste, anteriormente ocorriam muitos raptos e de repente tudo acabou. Já pensávamos que situações do género tinham acabado definitivamente. Mas esta manhã no Bairro de Niassa I houve um rapto e voltamos a ficar preocupados. Pedimos a polícia para que redobre os esforços de investigação para que se possa viver com mais tranquilidade", lamenta.

Depois da ocorrência comunicada à polícia pelos familiares do menor, as autoridades deslocaram-se ao local como disse Alves Mate, porta-voz da corporação Niassa. Ele garantiu que a polícia está a investigar o assunto, mas não avançou detalhes.

"Logo que a Polícia recebeu a informação sobre esta ocorrência dedicou a máxima atenção ao caso que foi imediatamente encaminhado para o SERNIC (Serviço Nacional de Investigação Criminal), visto tratar-se de um assunto que não é da competência da Polícia", esclarece o porta-voz da Polícia em Niassa.

Investigação

Alves Mate lembra que "a investigação demora um certo tempo, mas neste momento a nossa Polícia já está a trabalhar juntamente com o SERNIC para desvendar mais este rapto."

Em Moçambique, há leis que protegem as pessoas com albinismo. Mas, muitas vezes, as autoridades não conseguem apanhar os raptores. Por um lado, há poucas denúncias e faltam meios à Polícia.

https://www.dw.com/pt-002/mo%C3%A7ambique-recome%C3%A7am-a%C3%A7%C3%B5es-contra-albinos-no-niassa/a-44588564





TELINHA QUENTE 317


Roberto Rillo Bíscaro

The Inbetweeners jamais poderá ser acusado de aguar a rudeza do humor inglês. Os 18 episódios das 3 temporadas estão disponíveis na Netflix e são pra quem não tem pudores de rir do politicamente incorreto, escatológico ou explicitamente estúpido e pueril. O que começou como comédia perdida no mar de importados norte-americanos do acanhado canal E4, em 2008, transformou-se num fenômeno cult de massa, termo que soa anacrônico mas descreve aqueles produtos não tão massivos quanto Friends, mas não tão minúsculos. The Inbetweeners está no meio até na recepção. Não virou carne de vaca, mas garantiu a maior audiência pro E4 até hoje, com um episódio de 2010, ano de sua derradeira temporada. Acho que midcult é a expressão uma vez usada em inglês.
Quando a mãe de Will se divorcia, o esnobe adolescente com sotaque de classe média-alta, paletó e gravata e pasta 007 na mão, tem que se transferir pruma escola pública, onde sua nerdice atrai toda sorte de assédio moral e bullying. Ostracizado e humilhado, os únicos amigos que Will consegue são os eternos perdedores ostracizados e humilhados Jay, Simon e Neil. As desventuras desses 4 adolescentes suburbanos – interpretados por atores já adultos, como sempre – são o tema de Inbetweeners, cujo nome em inglês é uma alusão ao fato de teens não serem crianças nem adultos, estão na metade do caminho, então, querem se comportar como maduros, mas ainda possuem tantos traços infantis.
A cada episódio, o narrador Will narra uma cagada do bando. Não se assustem com a explicitude e heterodoxia de cagada numa resenha; essa molecada só faz merda e a série não se intimida em fazer piada com deficientes físicos ou professores pedófilos ou pais gays, aludir à morte de animais, botar adolescentes falando da forma mais nojenta possível sobre sexo, usar toda sorte de fluidos e excreções corporais pra fazer humor.
The Inbetweeners é jorro incessante de palavrões e obscenidades que apelam pro nosso sentido de humor mais vulgar. E, menino, como funciona! Eu chorava de gargalhar a ponto de ter que dar pause pra não perder nada. Na verdade, escrevendo isto, dei umas risadas relembrando o mentiroso compulsivo Jay, as risadas patetas de Neil, a tirania amargurada de Mr. Gilbert (o Ken Thompson, de Cuckoo).
Pros mais antigos entenderem melhor: The Inbetweeners funciona como um Anos Incríveis do inferno. Will – à moda de Kevin Arnold – é o narrador, mas ao final, ao invés da edificação pedagógica de Wonder Years, os garotos da série britânica não aprendem nada, ou melhor, até há uma relação do que aprenderam, mas é sempre coisa que não presta. É baixaria, mas não é hipócrita, porque nas sitcoms do “bem” as personagens sempre “aprendem” algo, mas passam temporadas repetindo erros e cagadas, afinal, a mentira de que aprenderam algo tem que ser mantida. Há quantas temporadas Modern Family – que é uma boa série, não entendam mal – insiste que Jay precisa mostrar mais seus sentimentos? Ele “aprende” em um episódio apenas pra na temporada seguinte ter que “aprender” de novo.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

CAIXA DE MÚSICA 322


Roberto Rillo Bíscaro

Il Cerchio d'Oro tem excelente desculpa para soar como rock progressivo italiano dos anos 70: foi formado em 1974, em Savona, e embora tenha sido popular e constante no circuito de shows, jamais conseguiu gravar álbum enquanto o prog rock desfrutava de apreço crítico e (certa) popularidade. Exceto alguns singles, nada de álbum até este milênio e mesmo assim, nada muito interessante, porque o material resgatado da época tem até coisas meio disco music (nada contra, mas não nesse contexto, certo?)
O negócio começou a ficar sério e interessante, a partir de 2008, quando um reformado Il Cerchio d'Oro lançou seu primeiro álbum de verdade.
Il Viaggio Di Colombo é conceitual e foca o percurso marítimo do genovês descobridor de nosso continente, mas não homenageado em seu batismo. Como a ênfase é no longo e desolador período em que os navegantes passam perdidos no oceano, as letras em italiano refletem seu estado emocional, da empolgação do início, passando pelo desespero dos dias à deriva e o agradecimento pelo descobrimento.
Sonicamente, há equilíbrio entre guitarras e teclados e até espaço pro baixista e baterista, de vez em quando. Embora os arranjos não formem muralha compacta - longe disso, há bastante espaço pra respiro -  há momentos em que o som fica mais incisivo, mas nunca hard prog ou prog metal. Il Viaggio di Colombo é típico prog italiano dos 70’s, com produção moderna. Tem teclados vintage e atuais e os entremeios das canções são sonorizadas por ruídos de embarcação, assobios e amarras. Tudo bem melódico e com temas bonitos se repetindo, como deve ser num álbum conceitual, onde muitas vezes o instrumental reflete a letra, como a abertura andina da canção final, quando a América já estava no papo dos europeus. Se as canções tivessem menos espaço entre si, a ideia de álbum conceitual reforçar-se-ia ainda mais.
De modo geral, remete a Le Orme, Genesis, Banco e Gentle Giant, em um momento muito especial de harmonia vocal. O vocalista dá umas espremidas de vez em quando, mas na maioria do tempo apresenta aquela expressividade que sempre destacou o rock progressivo italiano pras plateias anglo-ianque-germânico-escandinavas.
A versão em CD traz 2 faixas-bônus. Embora jamais reclamemos de excesso da canções boas, elas não se encaixam ao conceito e mesmo à sonoridade geral do resto. Mas, como enjeitar duas plangentes composições na linha de Pink Floyd e Moody Blues? Basta lembrar que Il Viaggio di Colombo termina em Conclusione (Il Ritorno)

Em 2013, o quinteto voltou com Dedalo e Icaro, 8 excelentes faixas sobre o mito grego do construtor do Labirinto e de seu filho que quis acercar-se demais ao sol e espatifou-se contra o solo. Movendo-se da História para a mitologia, os italianos estão mais prog setentista do que nunca, tanto em som, quanto em tema.
Dedalo e Icaro tem arranjos bem mais concentrados do que seu antecessor. Sem ser prog metal ou mesmo metalizado, guitarras e teclados podem ficar apimentados a ponto de agradar fãs de grupos como Osanna e talvez até Deep Purple. Contando com convidados que tocam sax, flauta e bandolim, Dedalo e Icaro praticamente não tem como errar em seduzir fãs de rock progressivo italiano. Que fã de prog clássico consegue resistir a Uma Nuova Realtá, com seu órgão delirante em interplay com guitarra e bateria?
Il Cerchio d’Oro foi fundado pelos irmãos Gino e Giuseppe Terribile, respectivamente baterista e baixista, então, apesar de teclados e guitarras chamarem mais a atenção do ouvinte casual, a força condutora está na cozinha. E que puta cozinha! Note como em Labirinto, a coesão é dada pela costura do baixo e que em La Promessa, há locomotiva baterística por detrás das aparecidas guitarras plangentes e órgãos vintage.

Il Cerchio d’Oro é caprichoso em tudo, inclusive nas capas, verdadeiras obrinhas de arte do prog contemporâneo. São miniquadros marcantes e no álbum do ano passado, Il Fuoco sotto la Cenere, não foi diferente, com o vermelhão do fogo brilhando na capa.
Embora não possua tema unificador tão óbvio como a viagem colombiana ou o mito cretense, Il Fuoco sotto la Cenere (O Fogo Sob as Cinzas) é sobre várias formas de violência contemporânea, disfarçadas/camufladas/adormecidas/politicamente e corretamente edulcoradas, mas que quando eclodem, espalham brasa pra todo lado.
Bem executadas, as sete canções não se destacam em seus todos, contendo passagens e momentos interessantes, funcionando mais como pop-rock progressivo, com trechos meio pesadinhos à Purple ou psicoprog à Floyd.
A faixa-título tem mais de nove minutos, mas fica sinfonicamente prog apenas depois do oitavo minuto. Aí está o chave: Il Fuoco Sotto La Cenere não é pra fãs de prog sinfônico; é mais pra admiradores de retro-prog ou prog eclético, talvez pros de hard prog. De volta à faixa-título, está é pros 50tões que porventura ainda se lembrem da abertura do seriado da Mulher Maravilha: notem como a melodia final se parece com o tema de Diana Prince!
I Due Poli ensaia clima meio sci fi com seus teclados e o teremim sempre dá ar outromundista.
Com composições menos sensacionais, as limitações esganiçantes dos vocais ressaltam, então Il Fuoco fica ainda menos interessante.

domingo, 8 de julho de 2018

SUPERANDO A FALTA DE ÉTICA


Roberto Rillo Bíscaro

Em 2009, Jimmy Adams perdeu seu emprego regiamente pago, em Wall Street. Pra ele, a crise financeira não foi marolinha. Só que Adams estava saturado do mundo antiético das altas finanças e buscou emprego servindo mesas numa franquia popular nos EUA, a Waffle House. Lá conheceu a realidade encoberta dos funcionários ex-presidiários, da classe baixa que não sabia dos atalhos pra fazer seu dinheiro render mais pra mandar o filho pra faculdade e de limpar banheiros.
Treinado, educado, com contatos e mente pra negócio, Adams relatou essa experiência em livro, em 2010. Cinco anos depois, a obra inspirou o filme Waffle Street, que parodia o nome da famosa rua dos negócios nova-iorquina.
Presenta no catálogo da Netflix, Waffle Street está bem longe de ser obra-prima em roteiro ou interpretação, mas inspira no sentido de que é possível ser feliz sem uma mansão/Ferrari e, principalmente, por mostrar a história de alguém que tomou as rédeas da vida e fez algo significante.
Não dá pra esquecer que Adams tem ponto de partida vantajoso em relação a seus colegas de trabalho essencialmente na periferia do feliz capitalismo norte-americano. Mas, daí, pra quem assiste fica a lição: prepare-se, gabarite-se, capacite-se!

quinta-feira, 5 de julho de 2018

TELONA QUENTE 243


Roberto Rillo Bíscaro

Sem dúvida e merecidamente, Iuri Gagarin desfruta do status de herói da humanidade, afinal, foi o primeiro homem a viajar pelo espaço, em abril de 1961, a bordo da Vostok 1.
À época, porém, o mundo vivia a tensão da Guerra Fria entre capitalistas e comunistas e a façanha soviética incomodou ainda mais os norte-americanos, já mordidos de raiva e assustados, porque seus inimigos Vermelhos havia posto o primeiro satélite artificial a orbitar nosso planeta, em 1957.
A faceta de corrida e de batida no peito pra mostrar macheza ao rival não passa batido em Gagarin: o Primeiro no Espaço (2013), disponível na Netflix.
O filme intercala sequências preparatórias, da execução e do desfecho do histórico voo com episódios da infância e juventude do cosmonauta. Muito rapidamente, alude-se à gambiarrice do programa espacial soviético, que, seis anos mais tarde marcaria novo recorde pro país: Vladimir Komarov tornar-se-ia a primeira vítima de programas espaciais, quando seus restos carbonizados espatifaram-se na tundra, após missão fadada ao fracasso, na qual supostamente Gagarin seria escalado não fosse a voluntariedade de Komarov. Não adiantou muito poupar o herói nacional, porque no ano seguinte ele morreu, quando o avião que pilotava caiu.
O filme é bem-feito e consegue prender, mas não se pode esquecer por nenhum segundo que foi parcialmente financiado pelo estado russo e aprovado pela seletiva e protetora família do cosmonauta. Isso implica na descrição de Iuri como ser especial, meio ingênuo. É o herói apolíneo; um Homem Com Uma Missão, como cantava o Kid Abelha, há 35 anos. Nada que o cinema norte-americano já não tenha feito zilhões de vezes.  
Assim, Gagarin faz sorrindo o duro exercício de cabo de guerra no treinamento; meio que salva seu irmão Boriska dum soldado alemão pirado e, quando resiste sem esforço aparente a um duro teste de pressão gravitacional, ouve-se a técnica soltar um “esse é um homem de verdade”. Difícil segurar a gargalhada.
Igualmente difícil não se contagiar com a alegria do povo nas ruas celebrando e se entusiasmar com a aventura. Pena que não seja um Gagarin empatizável, porque distante demais. Se não soubéssemos que a missão daria certo, tenho dúvidas de que nos importaríamos com o ser-humano dentro da capsula. Culpa do roteiro que o desumaniza, mesmo que o mostre brincando com o filho ou dando flores pra esposa. Mas, é por demais evidente que é mais personagem de propaganda e não um homem com o qual possamos nos identificar.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

CONTANDO A VIDA 238

FELIZES PARA SEMPRE...

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Para Virgína Genelhu 

Abri minha pasta de mensagens e eis surpresa desafiadora “professor, vou me casar e quero o senhor como testemunha”. Simples assim: eu seria padrinho de casamento de uma ex-aluna, moradora da Baixada Fluminense. Como pode, me perguntei? Que resposta dar, foi desdobramento mecânico. E tudo se complicava com a indicação de data, lugar, como ir. De início, foi muito fácil elencar problemas, e os fiz para mim mesmo com rapidez vertiginosa. Teria desculpas robustas para o clássico “não posso”. Dizer de pequena intervenção cirúrgica no olho seria suficiente, e nada demais ampliar justificativas que poderiam declinar razões, algo do tipo, o médico recomendou que ficasse de repouso. Outras desculpas se emendariam: não sei como chegar, marquei dentista, estou com visitas em casa... Tantos obstáculos levantei que foi chegado o ponto reverso, quando olhei para meu interior e me enfrentei: por que não? 

Cabe dizer que a ex-aluna fora caso especial em minha experiência docente derradeira. Depois que me aposentei no ano 2000, fiquei sem trabalho institucional regular por mais de dez anos. Um chamado amigo me provocou a uma proposta inédita. Sair da Universidade de São Paulo (USP), com todo aparato de infraestrutura, e lecionar em espaço em construção, era atrativo desafiador. Aceitei, e por seis anos me dispus a longos percursos que incluíam caminhada, metrô, ônibus. Tudo em uma universidade que demandava esforços inauditos. Talvez, o mais expressivo entrave para desejável desempenho residisse no fato de se tratar de alunos de formação acadêmica modesta, desprovidos de tempo para estudos ou suportes como laboratórios ou bibliotecas. Tudo contrastava com o esforço anterior na cidade de São Paulo, onde os estudantes, por carentes que fossem, eram bem mais amparados que os daquele lugar. Permaneci nessa missão pessoal até o ano passado e, dentre tantas, uma aventura vibrou melhor que outras. 

Logo que comecei, um elenco de possibilidades de orientações acadêmicas me foi apresentado. Estava consciente de que era personagem estranho ao corpo natural de professores que, instalados desde há muito tempo, tinham a simpatia dos alunos. Sabia também que, além do período de adaptação, seria preciso desvestir a roupagem de professor “de fora”, fato que me distinguia ainda que lidasse para anulá-lo. Aconteceu então o primeiro milagre, uma aluna de graduação queria fazer um trabalho sobre “medos e crenças de cemitérios”. O ineditismo do tema assustou os colegas e, finalmente, ela chegou até mim, pediu auxílio. Elos imediatos nos uniram e juntos fizemos pesquisas, entrevistas, articulamos teorias e, por fim, em nível de Iniciação Cientifica concluímos o trabalho que, afinal, foi premiado com distinção. 

A aluna era tudo que poderia desejar àquela altura da vida: cheia de vontades, inquieta, corajosa, ainda que esvaziada de leituras e informações básicas. Investi o que pude. Presenteei-a com livros, textos escolhidos com empenho, emprestei gravadores, acompanhei-a em entrevistas com personagens implicados no projeto. Nossos encontros cumpridos todas as semanas favoreceram o aprendizado de detalhes comuns. Foi assim que soube que apesar de seus 19 anos, ela tinha passado por situações pouco invejáveis: pai preso por roubo à mão armada, filha mais velha de uma prole de oito irmãos, mãe alcoólatra. Mas, graças a auxilio de programa de incentivo, cursava o quarto semestre de História. E tinha um namorado que, por alguma razão, um dia, quis me conhecer. Reunidos os três, tomamos um café e logo me afeiçoei ao casal. 

O tempo passou e não pude ir à festa de formatura da moça. De quando em vez, recebia notícias, e nunca passou um dia de aniversário, ou data alusiva aos professores que ela não me enternecesse com mimos atenciosos. Ficamos, contudo, sem nos ver, por mais de dois anos, até que me chegou o convite. O tal “quero o senhor como testemunha” tornou-se mandamento. Desmanchei todos os percalços e, finalmente, fui ao casório. Nossa!... Foi um dos dias mais emocionantes de minha vida. E bota emocionante nisso... Como havia devotado todo cuidado à superação dos problemas de ida, não dei atenção devida ao fato de se tratar de uma ação comunitária. Sim, foi o casório de 92 pares que por décadas, anos mesmo, finalmente oficializavam suas uniões. Havia visto algo próximo a isso em noticiários, mas jamais pensei no impacto direto da situação. Minha afilhada, orgulhosa no vestido branco, com o filho de dezessete dias carregado no lugar do buquê, sorria como uma Cinderela suburbana. E eu a conduzindo ao altar... 

Fiquei atordoado do começo ao fim. Foi uma cerimônia linda, linda. Linda e incapaz de se emoldurar em simples conjunto de narrativas. Havia um casal que estava junto há mais de 30 anos e pretendia lua de mel em Copacabana; um caso expressivo foi o de outro par em que a mãe e o pai se casaram pouco antes da filha e do genro, na mesma cerimônia. E que dizer da noiva que entrou em cadeira de rodas? O noivo cego, parecia ver tudo, e houve um padrinho que ofereceu o paletó ao amigo que queria sair bem na foto. Sou daqueles que choram em casamento. E muito. Sei lá porque, mas me derreto, e tenho até que me controlar para fugir de esclarecimentos incômodos. Ouvir a marcha nupcial, escutar os vivas em voz alta, pronunciados por familiares, misturar-me ao espírito alegre da multidão foi mais do que merecia. Meu presente? Meu presente foi pessoal, o alerta de que os sonhos podem tardar, mas são possíveis, a solidariedade é plausível, o coletivo supera diferenças individuais... E eu sou professor graças aos meus eternos mestres/alunos. Sinto-me casado com eles e feliz para sempre...

terça-feira, 3 de julho de 2018

SOCIÓLOGO ALBINO ANGOLANO

CELSO MALAVOLONEKE: ‘A DISCUSSÃO DO ALBINISMO NO NOSSO PAÍS TEM SIDO EVITADA’


Jornalista, professor universitário, mestrando em Sociologia da Comunicação. Foi o primeiro estudante que se licenciou em comunicação social numa universidade em Angola e é o único albino com funções mais altas no Executivo, quando se sabe que noutros países africanos pessoas com problemas de albinismo nem sequer podem sonhar em almejar tal lugar.

Num mês em que se comemora o Dia Mundial de Consciencialização zação do Albinismo, a 13 de Junho, o secretário de Estado da Comunicação Social, Celso Malavoloneke, 50 anos, abriu a porta do seu escritório para contar a sua história de vida e da “comunidade” em que está inserido

Entrevista de Dani Costa
Foto de Carlos Moco

O nome ‘Marthy’ ainda lhe toca muito?

Oh, toca-me muito. Marthy Itula é o nome que eu usava quando era estudante no Tchivinguiro. Mas, antes disso, deixe que lhe diga: ‘estou a desconfiar que fizeste uma pesquisa sobre mim’. Eu escrevia poesia e música. Ainda hoje escrevo músicas, porque sou letrista e compositor, mormente de música clássica, sobretudo gregoriana, porque a minha formação musical foi feita na Igreja Católica.

Quando alguém me chama assim é porque fazia parte de um grupo muito restrito do núcleo da Brigada Jovem de Literatura no Tchivinguiro. Depois, eu tenho sete filhos. Os três primeiros são meninas. Quando tive o quarto e primeiro rapaz decidi dar-lhe o nome de Marthy Itula.

Marthy Itula é também uma homenagem que faz à vossa mãe?

Tem um sabor muito especial e emocional. A minha mãe chamava- se Marta Chitula. Eu sempre tive uma veneração e uma admiração muito grande por ela. Na altura, no Tchivinguiro, ela estava viva. Vejo que foi uma grande homenagem que prestei à minha mãe e sinto-me feliz por tê-la feito, porque ela já não está mais no mundo dos vivos. Homenagem esta que quis prolongar dando este nome ao meu primeiro filho varão, que hoje já é um homem e está a terminar agora a universidade na África do Sul.

Como é que a família recebeu o nascimento de um bebé albino, no caso o Celso Malavoloneke, numa zona fronteiriça entre a Huíla e o Namibe, como é o Bunjei?

A minha família é realmente do Bunjei, mas o meu pai era professor de posto naquela altura. Quando nasci, ele estava a prestar serviço no Kuvango. Então, eu nasci numa aldeia chamada Katala, ali mesmo na margem do rio Cubango.

Contaram-me os meus pais que o meu nascimento tem uma estória um bocado caricata que envolve o então governador do Distrito de Sá da Bandeira, Celso Vilanova, e o entrevista de Dani Costa fotos de Carlos Moco agora deputado Fernando Faustino Muteka, que é primo do meu falecido pai.

Na altura, o meu tio Fernando Faustino Muteka era furriel miliciano e com o então governador do distrito gostavam de ir ao Kuvango, à Katala, com o meu pai, para irem caçar. Vieram num Sábado santo e com o meu pai foram à caça. Entretanto, eu nasci.

O que se passou depois?

Quando eles voltaram, imediatamente, o então governador Celso Vilanova ofereceu-se para ser meu padrinho. Então, eu chamome Celso (porque sou afilhado dele) Domingos (por ter nascido no Domingo da páscoa) José Malavoloneke (que é o duplo apelido que todos nós usamos).

O que significa Malavoloneke?

Significa ‘Filho dos tempos’, mas literalmente ‘Filho dos Dias’, que é um dos nomes da linhagem dos reis do Planalto do Huambo, Bié. É a linhagem que fornece os conselheiros dos reis. Portanto, os Malãvoloneke (assim mesmo nasalado no a, como ainda se pronuncia no Huambo, Bié e no Norte da Huíla) são a linhagem daqueles que fazem a leitura dos sinais dos tempos para aconselhar o soberano reinante.

Mas como é que a família viu o seu nascimento?

Voltando à minha mãe, eu nasci já num certo limbo cultural. O meu pai já era assimilado, passei a ser conhecido como o afilhado do governador, que vinha sempre me ver, trazia-me brinquedos e triciclos, enquanto esteve a cumprir a sua missão na então Sá da Bandeira. De forma que não fui praticamente atingido por algumas práticas culturais dos nganguelas, no seio dos quais nasci.

O que significava para os nganguelas o nascimento de um bebé albino?

Para eles, o nascimento de um bebé albino era um anátema, um sinal de azar. Embrulhavam-no na pele de um bode preto, recentemente morto. Vim saber agora que também, nalguns casos mais extremos, levavam (ou ainda levam) o bebé albino ao rio e o deixavam-no lá. Praticamente o afogavam, como uma oferenda aos espíritos antepassados. Não tive isso, porque a minha mãe naquela altura já tinha a quarta classe, tinha estudado na escola Means, da Missão do Dondi, onde o meu pai a foi buscar.

Então, cresci num ambiente realmente de muito carinho e muita protecção. A minha mãe levou isso de forma muito séria, mesmo depois, quando passamos a fi car no Bunjei e o meu pai saía para dar aulas noutros lugares. Esteve na Jamba, por exemplo. A minha mãe sempre inculcou- me estes valores que cultivo até hoje, como a necessidade de hidratar a pele, proteger-me do sol e de tomar um cuidado muito especial comigo.

Teve uma infância feliz?

Eu tive uma infância feliz, mas muito feliz mesmo. Uma infância privilegiada. Mesmo quando vivíamos nas mesmas condições que os outros no Bunjei, porque toda aquela turbulência do ano de 1976 passou-nos lá, para lhe dar uma ideia, a minha mãe e nossos irmãos estivemos sequestrados nas matas durante quase todo o ano de 1976. Ali sempre tive esta protecção e a minha mãe sempre inculcou- me uma capacidade de autoestima muito grande.

Disse há dois anos, numa das edições do programa Hora Quente, da TPA, que Angola ‘é um dos melhores países da África subsahariana para uma pessoa albina nascer e viver’. Teve em consideração a sua experiência ou dos demais cidadãos que sofrem de albinismo?

Das duas: como o Dani sabe, sou um profi ssional da Comunicação, mas também da Sociologia. Fiz o meu bacharelato em Planifi cação de Desenvolvimento Rural Internacional, depois uma licenciatura em Comunicação Social e estou quase a concluir o mestrado de Sociologia. Portanto, tive esta trajetória toda a trabalhar nas organizações não-governamentais e também nas Nações Unidas, sempre muito ligado às comunidades.

Isso permite-me ter uma ideia bastante aproximada da realidade cultural, da cosmovisão das comunidades, muitas vezes pouco conhecidas, vistas e, menos, ouvidas. Então, nestas duas condições eu digo que, quando comparo com outros países africanos, porque naturalmente que como oficial de comunicação da UNICEF viajei muito, trabalhei em quatro ou cinco países africanos, e deu para ver que os albinos em Angola têm muito mais oportunidades de crescer e desenvolver- se como pessoas.

Têm muito mais oportunidades do que em países como a Tanzânia, Moçambique, até a própria República Democrática do Congo. É muito frequente que quando viajo as pessoas perguntam e às vezes pensam que não sou africano, que sou, por exemplo, americano.

Mas isto é porque na maior parte dos países africanos, com excepção talvez da África do Sul, não é muito normal encontrar uma pessoa albina a viver muito naturalmente como vive uma outra, por causa dos tabus da própria cultura em si. Mas é verdade que aqui em Angola é um dos melhores países africanos para um albino nascer e crescer. Mas isso varia consoante as zonas.

Como assim?

Por exemplo, no Norte de Angola os albinos sofrem mais de práticas culturais discriminatórias.

Quais são as províncias do Norte em que esta discriminação acentuada acontece?

Refiro-me fundamentalmente àquela parte do país habitada pela tribo bacongo, ao Uíge, ao Zaire, Cabinda, Norte de Malanje, um pouco o Oeste da Lunda-Norte. Talvez por infl uências que vêm do centro de África, as práticas discriminatórias são maiores. Quase aos 50 anos, porque não foi há muito tempo, a minha pior experiência como pessoa albina foi no Zaire há dois anos.

O que aconteceu no Zaire concretamente?

Basicamente, fui expulso do Palácio do governador, separado do resto da delegação e posto num hotel sozinho. Lembro-me de que isto criou um ambiente de mal-estar, e já era director nacional nesta altura. Mas isto é porque existe esta carga cultural negativa. Confesso que foi a experiência mais traumática que tive na minha vida. Considero-me feliz por ter esperado até aos 50 anos para vivê-la.

Até porque isso foi protagonizado por camaradas meus do MPLA e que têm responsabilidades de Estado bastante altas, porque, realmente, é algo que não se coaduna com a própria tradição do MPLA, que, como todos nós sabemos, é um partido muito acima de todos estes preconceitos homofóbicos.

Já no Centro não acontece isso. É onde as pessoas albinas são melhor acolhidas, porque, ao contrário do Norte e do Sul, onde a pessoa albina é considerada uma maldição, no Centro é uma bênção. Apesar de não termos estatísticas, dados empíricos indicam que a maior concentração de albinos é no Planalto.

É verdade que eventualmente agora, por causa das mudanças na geografi a humana, pode-se encontrar mais em Luanda. Mas nas comunidades rurais, a maior concentração de pessoas albinas é mesmo no Planalto. Ali as famílias têm como ponto de honra cuidar da sua sobrevivência e unirem-se para colmatar as suas necessidades especiais.

E o que acontece no Sul?

Já no Sul, há menos pessoas albinas porque o clima é bastante árido. É seco e quente. As populações praticam a pastorícia. Mesmo as casas em que as pessoas vivemsempre refiro-me à cultura padrão-, onde vivem os muílas, os kuvales, os himbas, muakahonas, mungambes e até mesmo os ovambos, são construções precárias.

Eles como praticam a pastorícia, a transumância, vivem atrás do gado, as casas deles são construídas a pensar para durar no máximo um ano. É feita de capim e pauapique, porque no ano seguinte mudam. Não oferecem grande protecção. Depois, as crianças desde cedo têm que ir pastar o gado. Obviamente, uma criança albina não resiste. Normalmente, naquelas comunidades uma c r i a n – ça albina difi cilmente atinge os cinco anos.

Tem falado do cancro da pele e dos problemas de visão que afligem as pessoas com albinismo. É uma pessoa com forte influência na comunidade. São as principais preocupações de que padecem os albinos em Angola?

Podemos considerar isso em duas vertentes. Uma: é um facto em relação à visão. Uma pessoa albina deve corrigir a visão o mais cedo possível.

Não foi o que aconteceu com o Celso. Sabemos que recebeu os primeiros óculos das mãos de um responsável da Igreja Católica na Huíla, provavelmente o cardeal Dom Alexandre do Nascimento?

Por acaso, não foi da mão do cardeal. Foi do seu sucessor, o falecido arcebispo Dom Manuel Franklin da Costa. O cardeal jogou um papel muito importante no fornecimento de pomadas, Vaselina e Nivea, que ele fazia questão de trazer sempre que voltasse do estrangeiro. Fez isso de 1977 a 1986.

Em que circunstância o cardeal Dom Alexandre do Nascimento o encontrou? Foi numa situação precária em que até sangrava num dos membros?

Não, não, não. Foi assim: eu vinha da escola e sempre fui muito extrovertido. Devo isso precisamente à educação que tive, à forma como me foi passada a auto-estima, a aceitação de mim mesmo e a capacidade de viver como sou…

Nasceu no seio de uma família tradicionalmente evangélica e agora é católico…

Vou chegar aí. Então, vinha da escola num grupo de colegas. Eram 16 ou 17 horas, porque estudava a segunda classe de tarde. Para quem conhece o Lubango, eu morava depois da ponte para quem vai para a Senhora do Monte, depois do Caminho- de-Ferro. Quando passava pela ponte, vi um homem alto, com uma batina, debruçado sobre a ponte, e tinha o terço. Naquela altura nem percebia o que era. Para mim, era uma missanga.

Perguntamo-nos: é padre? Eu era evangélico e nunca tinha convivido com um padre. Então fui ter com ele, porque era muito curioso. Acho que ainda sou! Perguntei-lhe: ‘quem é você? Ele olhou-me e disse: ‘eu sou o tio Alexandre’. Porquê estás vestido assim? ‘Porque sou padre’, respondeu- me. Perguntei-lhe: o que é isso de padre? Quanto mais perguntava, ele respondia. Hoje diríamos perguntas de ‘follow up’.

Na altura, ele era arcebispo do Lubango. Talvez para se desfazer de mim ou não, porque não quero ser injusto, disse: porque não vens me visitar à minha casa. ‘Estás a ver aquela casa lá ao fundo. Eu moro ai. Vem amanha e diz que vens ter com o tio Alexandre’, disse-me indicando o arcebispado. Eu fui e começou a nossa amizade assim.

Continuava a perguntar e ele respondia. Depois descobriu que eu gostava de ler, saber coisas novas, começou a dar-me livros, aulas de história da igreja, história universal, filosofia. Até retórica. Eu digo hoje que sou o homem que sou graças a ele e às nossas conversas que iam das 17 horas e 30 minutos às 18 e 30.

Muito tempo de convívio?

Algumas vezes ele gostava de sair para passear e íamos juntos. Ele convidava-me a ir. Ele gostava de escrever poesia.

Sabias que o cardeal é poeta?

Vi muitas vezes ele a fazer poesia.

Até que ponto consciencializou-o em relação à questão do albinismo?

Sabe que nunca tinha pensado nisso? Mas agora que você pergunta, o cardeal nunca falou nisso. Ele falava disso da forma mais natural possível. Quando me visse com uma ferida perguntava: o que se passou? Já andaste sem chapéu? Então me dizia: tens que hidratar sempre a tua pele, pôr pomada. Ele ia ao quarto e trazia um frasco para mim. Eu comecei a usar Nivea com ele, mas naquela altura era um luxo muito grande. A primeira vez deu-me, perguntou se tinha gostado e começou a trazer sempre. Imagine: nos anos 77, 78 e 79, usar Nívea era um luxo. A minha mãe recebia aquilo, guardava e não permitia que alguém tocasse. Sabia que aquilo eram pomadas que ela não tinha qualquer hipótese de obter.

A pergunta sobre o cardeal e as pomadas foi mesmo propositada. Foi isso que contribuiu para que não tenha problemas de pele à semelhança de outros albinos?

Definitivamente. Eu tenho menos problemas de pele, por exemplo, agora aos 50 anos, exactamente porque tive esta educação muito rígida da minha mãe, do meu pai e depois retomada pelo cardeal. Para mim, usar chapéu, roupas de mangas compridas, hidratar a pele de manhã para mim já é uma rotina.

É como tomar banho. Faz parte dos meus cuidados. Tanto mais que, nem vais acreditar, eu não uso protectores solares. Evitoos. Primeiro, porque naquela altura não existiam, então apostei na protecção e na hidratação da pele. Voltando ao cardeal, a última vez em que ouvi – embora ele não me tealcado, mas senti – porque ele é uma pessoa muito introvertida, tem dificuldades em expressar emoções fortes. Isso posso dizer. Quando ele tem uma emoção muito forte, fecha-se e quanto muito vai à capela rezar. É uma coisa que aprendi e vi várias vezes. Tanto de alegria como de tristeza.

A única vez que lhe vi chocado e magoado por causa da minha condição de albinismo foi quando, obviamente pelo exemplo dele, pensei em ser padre. Acho que esta é a primeira vez em que digo isso em público.

Naquela altura, no Lubango não havia seminário. Havia um senhor chamado Tchimane que acolhia na sua casa os jovens que quisessem ser padres. Jovens como o actual bispo do Namibe, D. Dionísio, o padre Pio, que, por sinal, até é meu primo, e vários outros daquela geração.

Só que antes de ir para aí era preciso falar com os párocos e darem a sua opinião. Então, naquela altura, alguns padres entendiam que uma pessoa albina seria um escândalo se fosse um padre. Deram voltas e mais voltas. Até que o cardeal descobriu que era por isso.

Ele ficou muito chocado e muito magoado. Lembro-me que numa das poucas vezes em que falou comigo sobre isso, vi-o com dificuldades em segurar a emoção. Foi aí que aprendi uma coisa que o bispo tem. Parecem ter muito poder, até muita gente diz que na Igreja Católica não existe democracia, ele por mais que não concorde não decide sozinho.

Falou dos cremes e dos óculos, mas há algo que ainda não contou. É verdade que o hábito do chapéu foi-lhe incutido pelo vosso pai. Como é que isso aconteceu?

Levando muita surra. O meu padrinho trazia-me chapéus. Desde que me conheço como gente, quando saísse à rua, tinha que pôr chapéu. Se não pusesse, regressava à casa para pôr o chapéu. Depois o meu pai mudou de táctica. Começou a castigar os meus irmãos, ou seja, se eles me deixassem sair sem que eu tivesse um chapéu, então apanhavam eles. Eram eles também que começaram a insistir para que eu usasse o chapéu.

Portanto, fui crescendo assim. Há uma história muito engraçada de uma madre que foi provincial das Irmãs de São José de Cluny, a irmã Rosa Tchimuma, que eventualmente é doutorada num destes ramos religiosos e agora é conselheira em França, nasceu na mesma aldeia que eu.

Ela até hoje diz que por causa de ti levei muita surra do professor Constantino, o meu pai. Ele incutia que todas as pessoas que estivessem comigo tinham que proteger- me do sol.

‘Pelo que sei, sou o único estudante albino na história do Tchivinguiro’

Quando pensou em ir ao Tchivingiro estudar, a preocupação dos pais aumentou também porque estaria muito exposto ao sol?

Sim, mas essa é uma outra estória. Sempre fui muito independente e habituei-me a pensar pela própria cabeça. Na oitava classe, sobretudo, quando não concordasse com alguma coisa dizia. Estamos a falar de 1984. o delegado provincial da altura, que ainda está lá e hoje é o nosso kota Melquíades Isabel de Kerlan, acho que um pouco para castigar-me ou não, eu queria ir para o PUNIv fazer Ciências Sociais e depois, eventualmente, fazer Direito. Naquela altura, o Dr. Kerlan entendeu que não deveria ir para ali, não tinha confi ança para aquele curso e decidiu mandar-me, nada mais nada menos que para o Tchivinguiro.

Havia outras pessoas albinas no Tchivinguiro?

Não. Nem antes nem depois. Pelo que eu saiba sou o único estudante albino na história do Tchivinguiro. quando fui, o meu pai ficou realmente preocupado, porque sabia que no Tchivinguiro era para trabalhar no campo. Tentou falar com o Dr. Kerlan, mas este apenas lhe ofereceu a possibilidade de eu ficar o ano sem estudar para no seguinte ver o que poderia fazer. Nem eu, nem o meu pai, os meus irmãos parece que já estavam todos fora (um em Portugal, outro na rússia e no Brasil), então decidi avançar.

E como é que foi a passagem pelo Tchivinguiro?

Eu tive a oportunidade de encontrar um senhor que até hoje é uma das grandes referências da minha vida, o Manuel Serôdio de Almeida, que na altura era o director. Uma vez fomos ao campo, ele ia a passar de carro, nós estavámos na sacha, parou e mandou-me chamar. o que estás a fazer aqui? Perguntou- me.

E respondi: vim estudar. Ele disse: quem foi o louco que te mandou aqui? Pediu-me que fosse ao gabinete dele e fez-me uma entrevista. Perguntou-me como tinha ido lá parar e contei-lhe. Ele era ‘mau’, aquilo que chamamos hoje de rigoroso, porque tinha que atender cerca de 600 estudantes naquele ambiente de penúria, com falta de alimentos. Apesar de gostarmos dele, tínhamos medo e raiva. A partir dali falamos bastante.

Disse-lhe entrevisque estava disposto a levar aquilo até ao fim. Então, ele pôsme a trabalhar no escritório. Colocou-me no departamento do Plano. o meu trabalho era fazer o plano de lavoura, a planificação das sementes. Fiquei com muita raiva porque depois os colegas fi cavam no gozo: ‘você Malavo está bom aí e nós é que ficamos aí a apanhar sol’. Depois encontrei-me com professores italianos e especializeime em sociologia e extensão rural. Acabou por ser uma experiência muito bela, fiz irmãos para toda a vida. Algumas pessoas mais próximas de mim, além dos irmãos de sangue, partem do Tchivinguiro.

Éramos de várias culturas. Aprendemos a respeitar e a apreciar várias culturas de todos os cantos do país. Acho que eu terei contribuído para fazer-lhes compreender e derrubar alguns tabus que eles eventualmente tinham sobre os albinos. Uma das pessoas que ainda hoje é meu vizinho e um irmão, o José Luís Fernandes, até agora conta nas mulheres e nos fi lhos que a primeira vez que dormimos juntos no mesmo quarto, ele acordou-me a meio da noite porque havia o tabu de que, quando se está a dormir com um albino, se fores ao quarto de banho tens que acordá-lo. Fiquei furioso. Mas claro que no dia seguinte virou gozo.

Ao nosso jeito, é assim que derrubamos estes tabus todos. Eu fui para o Tchivinguiro com 16 anos, estava a sair da adolescência. Portanto, todas as minhas experiências amorosas e sexuais foram no Tchivinguiro. Tudo isto foi uma experiência que me leva a considerar todos da minha geração do Tchivinguiro como verdadeiros irmãos, porque eles continuaram, de certa maneira, este processo da construção da minha personalidade, aceitando- me a mim próprio, sem preconceitos, sem autopiedade, mas também sem arrogâncias nem vitimizações.

Nunca teve dificuldades em arranjar amores por ser albino?

Sabemos que está numa segunda relação e tem os seus sete filhos. (risos). Não sabia que era público que ia numa segunda relação! Não, nunca tive dificuldade. E isso devo aos meus irmãos e irmãs do Tchivinguiro. realmente, fizeram-me sentir uma pessoa como outra normal. Eu era poeta, cantor e director do coro. Só o coro tinha por aí 40, 50 ou 60 raparigas. Tive os meus amores e as minhas desilusões da juventude. Como disse, a minha constituição de personalidade enquanto homem sexuado foi aí no Tchivinguiro. Nunca, mas nunca mesmo, senti-me rejeitado ou tratado de maneira diferente.

Isto as minhas irmãs do Tchivinguiro me conseguiram. o mais engraçado é que tive uma relação no Tchivinguiro que por acordo mútuo terminou, porque eu tinha que ficar no Lubango e ela tinha que vir para aqui. Cada um de nós tinha que cuidar da mãe.

Depois tive a minha primeira relação, casei-me, mas não com alguém do Tchivinguiro, mas que conheci nas minhas lides na Igreja Católica. Infelizmente, não funcionou, separamo-nos. Mas a minha relação actual é de alguém do Tchivinguiro. Não tanto minha contemporânea. Ela chegou quando eu estava no penúltimo ano.

‘O Presidente João Lourenço também quis passar uma mensagem quando me escolheu’

Primeiro estudante numa universidade em Angola a licenciar-se em comunicação social, em 2007. E também o primeiro albino a chegar ao Governo como secretário de Estado. Como é que a comunidade albina recebeu esta informação?

Esta agora! Eu não tenho uma ligação muito estreita com a comunidade albina.

Mas é normal vê-lo, quase sempre, com aqueles que identifica como seus irmãos de sangue, entre os quais Domingos das Neves e Guilherme Santos, presidente da ADRA.

É melhor começar por estes. Tanto o Guilherme como o Domingos, naturalmente, sinto neles que ficaram felizes. É óbvio, porque somos mesmo irmãos. Mas o que sinto neles é agora esta preocupação de ajudar-me a fazer um bom trabalho e a prestar um bom testemunho pessoal, profissional, político e governativo. Acabam efectivamente por ver em mim uma realização de que ‘nós podemos’. É verdade que já o (Manuel) Savihemba é deputado pela UNITA desde 1992. Agora está lá também no Parlamento o Bartolomeu.

Tem boas relações com o deputado Savihemba, uma vez que são de partidos diferentes. Ele da UNITA e o Celso do MPLA?

Somos manos. Isso não tem rigorosamente nada a ver. Eu também não tenho problemas com o pessoal da UNITA, porque enquanto profissional humanitário trabalhei muito com eles. Então, nós temos uma relação de amores e desamores. Agora com o Savihemba é uma relação muito próxima. Ele é uma pessoa muito doce, que prima pelo consenso, tem uma capacidade de amar as pessoas extraordinária.

É talvez uma das melhores pessoas que conheço com esta capacidade de congregação e de perdão extremamente grande. Eu o admiro muito. o Guilherme é uma pessoa que, do meu ponto de vista, Deus deu-lhe esta capacidade de trabalhar em prol dos mais desfavorecidos. A maneira como consegue conduzir processos de desenvolvimento nas comunidades. É por isso que ele passou a ser a pessoa que está mais em contacto, tanto como as 4 A’s (Associação de Apoio de Albinos de Angola), como a um movimento que criamos porque pensávamos que as 4A’s não engajavam todos.

É aquilo que chamamos de Movimento Pró-Albinos, que é uma coisa mais solta, menos formal, onde a gente procura acolher todos. Infelizmente, por causa das minhas ocupações, dificilmente consigo ir aos encontros.

Mas estou consciente de que a comunidade albina do país olha para mim como alguém deles que conseguiu chegar num lugar onde muito boa gente pensa que uma pessoa albina não é suposto ali estar.

Podem estar a olhar também como alguém que poderá fazer um lobby no sentido de se atenderem àlgumas questões apresentadas ao Executivo pela Associação de Apoio dos Albinos de Angola?

obviamente. Acedi a esta entrevista, que vem atrasada… faz parte disso. Acredito que quando o Presidente da república, João Lourenço, me escolheu para ser secretário de Estado, quis também passar esta mensagem. Uma mensagem de que o Governo de Angola e o MPLA, enquanto partido, são inclusivos, onde as pessoas com albinismo são como quaisquer outras, desde que tenham as competências e preencham os requisitos. Ainda assim, acontecem algumas coisas caricatas.

Quais foram as coisas caricatas que aconteceram?

Lembro-me que quando algumas vezes fui chamado para representar o ministro, naquela altura em que os membros do Governo eram chamados para apresentar cumprimentos de despedida ou de boas- vindas ao Presidente da república, como disse, uso sempre chapéu. E sou muito cuidadoso em termos de etiqueta e uso do chapéu. Então a regra é simples: sempre que se está dentro de um espaço coberto deve-se tirar o chapéu. E dentro de um espaço livre deve-se pôr o chapéu.

É a regra. obviamente, quando íamos ao aeroporto, estávamos em fila, eu punha o chapéu, até porque faz sol. Porque a minha pele da cara não está habituada a receber directamente os raios do sol, porque se ficar 10 miminutos debaixo do sol já ficam bolhas, que depois têm que ser hidratadas porque senão criam feridas.

Então eu uso chapéu. o próprio Presidente, que me conhece há muitos anos, olhava-me, cumprimentava e achava natural. Mas um amigo, por sinal deputado e artista, intelectual e escritor, entendeu que deveria mandar uma mensagem.

Acho até que falou com o ministro: o Celso não pôde, como é que à frente do Presidente fica com chapéu? Tive conhecimento que gerou um debate num grupo no Watsap, do MPLA. E eu, tinha acabado de ser nomeado, fui falar com o ministro: ‘estão a dizer isso, o que faço?

o ministro interrogou-se: e eu é que sei? Então vamos perguntar ao cerimonial. Apresentamos o problema ao Luís Fernando. olhou para nós e riu-se tanto. Já que insistes, disse-me o Luís, vou perguntar ao José Filipe. Só sei que até hoje nunca responderam. Mas acontecem coisas muito engraçadas.

Houve mais cenas do género por causa do albinismo?

O engraçado é que aconteceu duas vezes no Ministério da Saúde. A primeira vez que fomos a uma reunião dos secretários de Estado, convocada pela ministra. Encontrei o lugar dos secretários de Estado, por causa da minha vista, e porque ia ver uma projecção, então senteime onde poderia ver no sítio dos secretários de Estado.

A moça chegou: ‘o senhor tem que sair dai, aqui é o lugar dos secretários de Estado, por que está sentado aqui’?. olhei para ela e disse-lhe: ‘oh jovem, sabe, o Executivo de Angola tem um secretário de Estado albino’.

Parecia-me que era nova. Trabalho com as outras há décadas. Aquilo criou uma celeuma e ela depois veio ter comigo com uns olhos vermelhos a chorar e a pedir desculpas. Disse-lhe para ficar calma. Isso é só para dizer que na cabeça de muitas pessoas não encaixa muito…

Quais são as principais preocupações dos albinos que devem ser resolvidas pelo Executivo?

A primeira é que precisam de ter acesso à consulta de oftalmologia e óculos gratuitos. Eu acho que o Estado deveria fornecer isso gratuitamente, tal como se faz com as cadeiras de roda às pessoas com deficiências motoras.

A limitação de visão pode ser um grande handicap para o desenvolvimento integral e total de uma criança. Impede- a ou limita-a de ter as mesmas oportunidades de crescimento que as outras crianças têm. o segundo aspecto tem a ver com os cuidados com a pele.

Eu não sou daqueles que vai muito com os protectores solares, talvez porque, como lhe disse, eu próprio não os uso.

Quando é que usa protector solar?

A não ser quando sei que vou ao campo. Mas no dia-a-dia não os uso. Mas tudo isso passa pela educação. Acho que precisamos de uma maior discussão sobre os métodos e meios de hidratação da pele de uma pessoa albina, de maneira a mantê-la saudável, de um lado. Por outro lado, para prevenir o cancro da pele, porque nós somos propensos. quando isso acontece, é importante que as pessoas albinas tenham acesso ao tratamento gratuito. Não há uma estatística, mas atrever-me-ia em dizer que acima de 80 por cento das mortes de pessoas albinas são por cancro da pele.

Se conseguirmos que na secção de oncologia do hospital Josina Machel tratem das pessoas albinas de uma forma especial, porque quase todas que vão aí já estão em fase terminal… É comum vermos pessoas albinas a andarem na rua com feridas. Começa como ferida pequena, mas se não for tratada vai alargando.

A pele acaba por ser calcinada pelos raios ultravioletas e desenvolve o cancro. Em terceiro lugar, acho que é importante abrir a discussão sobre a questão do albinismo no nosso país. Essa discussão é evitada. É como o lixo que é varrido para debaixo do tapete. Ninguém assume que existem preconceitos em relação às pessoas albinas. Mas existe. Eu, quando digo isso não é porque me quero vitimizar ou atacar alguém. Mas porque é um facto.

A relação normal de uma pessoa é sentirem-se ofendidas, algumas até muito ofendidas. Depois vêm dizer ‘eu também tenho um primo ou um familiar albino’. A questão é que nós precisamos de no nosso comportamento melhorarmos o comportamento que existe em alguns lugares mais e noutros menos em relação às pessoas com albinismo. Principalmente nas crianças. As crianças albinas sofrem muito bullyng.

Eu, de certa maneira fui protegido, porque, como disse, o meu pai era o director da escola onde estudava. Mas depois, lembro-me, tenho um irmão chamado Carlos que se envolveu em muitas brigas porque as pessoas faziam bullyng comigo e ele fi cava com as dores.
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