terça-feira, 19 de junho de 2018

"SER ALBINO NÃO É CRIME, MAS ÀS VEZES ATÉ PARECE"


Os albinos em Angola continuam a enfrentar “problemas e barreiras” que vão desde a dificuldade de inserção no emprego e no sistema de ensino, à falta de assistência social e medicamentosa, advertiu hoje a Associação de Apoio aos Albinos de Angola.

Ainformação foi transmitida pelo presidente da Associação, Manuel Vapor, durante uma palestra realizada hoje, em Luanda, a propósito do dia mundial para a consciencialização sobre o Albinismo.

De acordo com aquele responsável, ainda há casos de discriminação no país e grande parte dos albinos em Angola não tem emprego e encontra dificuldades para adquirir cremes de protecção da pele, pedindo por isso ao Ministério da Saúde a subvenção desses fármacos.

“Porque o protector solar nas farmácias, o preço, é elevadíssimo e então gostaríamos que também ficassem naqueles produtos a custo zero e subvencionados pelo Governo. Por isso é preciso que o ministério ponha a mão neste caso, porque principalmente os adultos que não trabalham têm grande dificuldade”, disse.

Manuel Vapor referiu, igualmente, que o país “carece de uma política virada à pessoa albina”, que no seu entender deveria ser superintendida pelo Ministério da Saúde, exemplificando que as consultas nos hospitais ainda são feitas “graças ao bom senso dos dermatologistas”.

As consultas, acrescentou, são feitas com recurso às “parcerias” que a associação criou junto dos dermatologistas, no sentido de responderem às “necessidades diárias” da pessoa albina.

Durante a sua intervenção, o presidente da Associação de Apoio aos Albinos de Angola, considerou também que a falta de informação sobre o albinismo faz persistir o preconceito na sociedade angolana.

“Porque se desde tenra idade e sobretudo nos manuais escolares do ensino de base se começar a ministrar matérias sobre o albinismo, essas situações não deveriam colocar-se e a criança já não veria o albino como um fantasma e haveria melhor familiarização”, realçou.

No capítulo do emprego, aquela associação defende que o Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTESS) encontre mecanismos que “pelo menos reservassem vagas exclusivas” para a pessoa albina.

“Reconhecemos que o emprego no país está difícil, mas é possível o ministério adoptar esse mecanismo, porque muitos associados estão vulneráveis e isso agrava ainda mais a sua condição de saúde, devido à falta de cuidados”, adiantou.

A consciencialização à pessoa com albinismo e o albinismo no campo científico foi o tema desta palestra, animada pelo dermatologista e director do serviço de Dermatologia e Venereologia do Hospital Américo Boavida, Juliano Isaías.

Na ocasião, o responsável lamentou a situação de carência de albinos para aquisição de cremes de pele, tendo revelado que a unidade hospitalar acompanha regularmente cerca de 300 doentes albinos, na sua maioria com cancro de pele.

“E os nossos serviços ambulatórios continuam a registar novos casos, sobretudo ligados a lesões de pele em crianças e adultos”, explicou.

A Associação de Apoio aos Albinos de Angola conta com cerca de 600 associados e tem representações em seis das 18 províncias do país.
Nada pior do que ser africano e albino

A Tanzânia viveu nos finais de 2016 uma onda de ataques contra albinos, considerados por alguns a cura de doenças e, por outros, o símbolo do azar, da maldição e da bruxaria.

Said Abdallah, uma menina de 10 anos, teve os braços cortados depois de ser tacada por homens que a acusaram de ser uma “bruxa amaldiçoada”. Mas o real motivo pela qual Said foi agredida foi ser albina. A Tanzânia é o país de África com o maior número de albinos.

Principalmente nas áreas rurais, acredita-se que a ausência de melanina na pele, no cabelo e nos olhos, principais causas que levam ao albinismo, são sinais de maldição e azar. A intensificação dos problemas de intolerância fez com o que o governo da Tanzânia passasse a abrir centros de acolhimento a albinos por todo país. Muitos são expulsos de suas próprias casas porque as suas famílias têm vergonha de criá-los.

De acordo com a Associação de Albinismo da Tanzânia, foram registados em 2016 oito mil albinos no país, entre homens, mulheres e crianças. Acredita-se, contudo, que essa população é muito maior já que a maioria dos albinos se esconde ou não se declara albina com medo da repressão.

“Muitos albinos fogem das suas vilas com medo de serem esquartejadas e terem os seus órgãos vendidas por traficantes”, explica a jornalista Ana Palacios ao jornal britânico “Metro”. De acordo com a jornalista, alguns acreditam que “os órgãos de albinos podem ser usados em poções mágicas”.

Enquanto para alguns a doença é vista como uma maldição; para outros, os albinos são milagrosos. “Eles são estuprados porque alguns acreditam que eles carregam a cura da Sida. Eles são alienados da sociedade por serem considerados mágicos”, enfatiza Ana Palacios.

Algumas famílias africanas acreditam que as crianças brancas são um “estigma” e, dessa forma, eles passam a ser “maltratados” e “menos alimentados”. Muitos, inclusive, não recebem o tratamento necessário e acabam como vítimas do cancro de pele.
Dramas que têm de acabar

O pescador Mtobi Namigambo vive na ilha de Ukerewe, na Tanzânia. Situada a três horas de distância de Mwanza, segunda maior cidade do país, a ilha remota já foi tida como um santuário para albinos. Mas a situação mudou.

Um dos filhos de Namigambo, May Mosi, com quatro anos de idade, é albino. Quando tinha três meses, escapou de uma tentativa de sequestro. “Tinha ido pescar no lago. A minha mulher e as crianças estavam sozinhas na casa quando foram atacadas”, conta o pai, acrescentando que “ela pulou pela janela e correu com May em busca de um local seguro, deixando as outras duas crianças para trás. Elas não sofreram nada.”

“Os agressores estavam à procura de May”, diz a esposa do pescador: “O meu marido estava fora, pescando, e eles sabiam disso. Por isso vieram. Após eu pular pela janela, eles ainda vieram atrás de mim e gritei por socorro. Só desistiram quando acordei os vizinhos.”

O albinismo é um distúrbio congénito caracterizado pela ausência de pigmento na pele, cabelos e olhos devido a uma deficiência na produção de melanina pelo organismo. Em alguns casos também provoca problemas de visão. O distúrbio é raro, afectando uma em cada 17 mil pessoas aproximadamente.

No Brasil, por exemplo, haveria (embora não haja dados oficiais) entre 10 mil e 12 mil pessoas com albinismo. Entre elas está o compositor e multi-instrumentista Hermeto Paschoal, reverenciado por músicos de jazz em todo o mundo.

Pouco presente no mundo ocidental, o albinismo, no entanto, é comum na África Subsaariana. Na Tanzânia e em outros países africanos, especialmente no leste do continente, há muitos. E eles sofrem perseguições.

Em algumas regiões, são tidos como demoníacos e perigosos. Na Tanzânia, alguns acreditam que poções feitas utilizando partes dos corpos dos albinos trariam sorte e riqueza.

Como resultado, perto de uma centena de albinos foram mortos no país nos últimos anos. Segundo grupos que fazem campanha em sua defesa, apenas dez pessoas foram presas em consequência desses assassinatos.

Nos últimos anos, houve várias iniciativas para tentar conscientizar a população e romper preconceitos e superstições em torno do albinismo. Em 2012, na África do Sul, uma modelo albina foi destaque no continente quando desfilou pelas passarelas da Africa Fashion Week.

Na Tanzânia, o governo também lançou campanhas de conscientização. Mas o problema persiste, especialmente em regiões remotas como a ilha Ukerewe, onde vivem May e sua família.

“Nós apelamos ao governo por mais iniciativas para educar a comunidade aqui (na ilha)”, diz Namigambo, pai de May. “No passado, as autoridades faziam seminários sobre albinismo. Faziam muita diferença, mas agora não mais.”

A ONG Under the Same Sun (em tradução livre, Sob o Mesmo Sol), que actua junto da população albina da ilha, diz que o lugar não é tão seguro como alguns imaginam. Alfred Kapole, presidente da sucursal regional da Tanzania Albinism Society, nativo da ilha, foi obrigado a fugir para Mwanza.

“Ele foi um dos primeiros albinos a levar o seu caso aos tribunais após um líder local ter tentado matá-lo para ficar com seu cabelo”, diz Vicky Ntetema, directora da ONG Under the Same Sun. Ele lamenta que esse tipo de experiência seja comum entre albinos no país.

No centro da cidadezinha de Sengerema, a 60 km de Mwanza, uma estátua mostra um casal que não tem albinismo segurando um bebé albino. A mãe da criança coloca na cabeça do filho um chapéu de abas largas para protegê-lo do sol. O monumento também traz 139 nomes de pessoas albinas que foram mortas, atacadas ou cujos corpos foram roubados dos cemitérios.

Um representante da sociedade de albinos de Sengerema, Mashaka Benedict, diz que mesmo pessoas com certo nível educacional acreditam que partes dos corpos dos albinos podem trazer riqueza.

“Se isso é verdade, por que não somos ricos?”, pergunta. E acrescenta: pessoas importantes estão por trás do “comércio da morte”. É por isso que pouquíssimas foram presas, acusadas ou condenadas: “Como poderia um pobre oferecer fortunas por um pedaço de um cadáver? Os envolvidos são empresários e políticos.”

A polícia, por sua vez, diz que faz o que pode. “São casos complicados porque a maioria dos incidentes ocorre em regiões remotas, onde não há electricidade, por exemplo”, diz o chefe de polícia de Mwanza, Valentino Mlowola. “Isso dificulta a identificação dos infractores durante a noite. Investigamos cada caso e cada alegação, mas não é simples,” explica.

Apesar das dificuldades, activistas persistem na luta para combater o preconceito e a ignorância. Num evento organizado para promover os direitos dos albinos, uma artista com albinismo cantou: “Estamos sendo mortos como animais. Por favor, rezem por nós”.

TELINHA QUENTE 314


Roberto Rillo Bíscaro

A história do uso de substâncias que melhoram o desempenho físico é mais antiga do que os jogos olímpicos. Os chineses, há 4 mil anos, conheciam os efeitos do chá de machuang, que contém efedrina em altas doses e era utilizado para aumentar a capacidade de trabalho. Nos jogos olímpicos da Antiguidade, em 800 antes de Cristo, os atletas bebiam chás de diversas ervas e usavam óleos e cogumelos para melhorar seu desempenho. No século 19, popularizou-se entre os competidores uma bebida chamada “Vin Mariani”, à base de folhas de cocaína. Então, doping não é sinal de nossa sociedade decadente em comparação a um passado quando tudo era amor à competição honesta.
Doping genético é o tema central dos cinco capítulos da minissérie Alpimaja (2012). A equipe feminina de natação da Estônia perde suas medalhas olímpicas depois que auditoria revela que as nadadoras usaram substâncias proibidas. O governo estoniano contrata a ajuda do expatriado Martin Kütt, experto solucionador de crises, que fizera carreira fora de seu país natal, pronde tencionava retornar nunca mais.
Não demora pra ele se dar conta de que a manipulação genética de atletas desde a infância estava gerando pequeno batalhão de mutantes inválidos. Em um ambiente ainda muito viciado com as posturas autoritárias do Partidão na época soviética, Martin terá que se mover entre políticos corruptos/oportunistas/carreiristas; celebridades de TV que fingem apreciar decência e verdade, mas querem mesmo só audiência e uma revelação de sua vida pessoal, enquanto vivia na Estônia.
Malgrado algumas cenas e diálogo longos em demasia; umas musiquinhas incidentais que lembram a TV ocidental ainda nos 80’s e equalização sonora estranha, quando se trata de cenas com ruídos externos tipo rua ou aeroporto, Alpimaja mantém o interesse. Não apenas, talvez, porque a história tenha seus méritos próprios de sustentação, mas porque, afinal, com que frequência acessamos material da TV estoniana?
Essa é uma das coisas mais legais da globalização: ver atores d’outro lado do globo, atuando numa língua que nunca ouvíramos, em locações com neve até nos tímpanos, filmando ruas que jamais visitaremos provavelmente, mas que se tornam menos alienígenas, porque podemos vê-las por imagens de produções tão decentes, quanto Alpimaja.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

DEBATENDO ALBINISMO EM MACEIÓ; ASSISTA

Audiência pública debate política de inclusão e preconceito contra albinos



“Sofri e sofro preconceito na faculdade de Direito que estudo aqui em Maceió por ser albino. Todo o processo de exclusão pelo qual passei me levou à depressão. Com ajuda de muita gente, consegui superar esse processo, mas não é fácil ser albino no Brasil, e em Alagoas não é diferente”. A declaração foi dada pelo universitário Davi Souza na audiência pública com o tema “Albinismo: a luta contra a invisibilidade do poder público”, que foi realizada nesta sexta-feira (15), na Câmara Municipal de Maceió. O encontro ainda faz parte do 13 de junho, Dia Municipal do Albinismo.

Além do estudnate, especialistas e membros de associações que lutam para garantir direitos aos albinos também participaram da audiência. O albinismo se caracteriza pela existência de um gene recessivo que causa deficiência na produção de melanina. Tal deficiência altera a cor da pele, pode causar problemas na visão e, em casos onde não há cuidado devido, o aparecimento de câncer de pele. Maceió possui uma lei, de autoria de Tereza Nelma (PSDB), que obriga o poder público municipal a fornecer protetor solar aos albinos da cidade. Ele foi a propositora da audiência.

Conforme dados apresentados nesta sexta, o Brasil não tem números concretos sobre o albinismo. Para se ter ideia, o censo demográfico realizado no país pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não dá ao albino a opção de se reconhecer como tal no questionário que trata da cor da pele. Ainda de acordo com os números, no mundo nasce um albino a cada 20 mil habitantes.

“Antes da associação, era bastante complicado vermos, como aqui em Maceió, jovens albinos interagindo uns com os outros. Esse foi um dos objetivos de criamos a Apalba: nos tornarmos visíveis e autônomos. O albinismo não é uma doença, mas sim uma deficiência causada por problemas na produção de melanina. As dificuldades ainda são enormes para quem é albino, mas o engajamento de muita gente, a exemplo da vereadora Tereza Nelma, e de vocês aqui de Alagoas, tem feito a diferença para nós. Temos uma luta desenvolvida há 17 anos na Bahia, e não foi nada fácil. Por isso, as palmas que vocês me deram agora vão para vocês, não para mim. A mensagem é que deixo é não desistirmos”, afirmou Maria Helena Machado, diretora da Associação das Pessoas com Albinismo da Bahia (Apalba).

A entidade baiana também foi representada na audiência desta sexta-feira por Joselito Pereira da Luz, membro da Comissão de Ética.

“Apesar de tudo, os albinos ainda são invisíveis no Brasil. Tanto é assim que o poder público não possui dados sobre o número de pessoas com essa deficiência no país. Maceió e a Bahia deram passo importante na luta pela inclusão do albino. Mas, precisamos seguir nos organizando para não dependermos de ações outras isoladas. A iniciativa da vereadora Tereza Nelma na apresentação e consequente aprovação da lei que garante, aqui, a entrega de protetor solar para o albino é um grande passo. Para os albinos, o protetor solar é vida. Porém, o trabalho tem que existir no sentido de integrarmos saúde, educação e inclusão social, sempre. Parabenizo Maceió pelo trabalho feito”, disse Joselito de Souza.

Assistente social, Luciana Ferreira de Castro, integra a coordenação de Gerência de Atenção à Pessoa com Deficiência ligada à Secretaria Municipal de Saúde de Maceió. A Gerência trabalha, atualmente, com mais de 60 albinos.

“Acompanhamos os albinos desde 2009. São crianças, jovens e adultos que buscamos fazer o processo de inclusão, psicológico e, ao lado da vereadora Tereza Nelma, conseguimos que hoje o poder público forneça o protetor solar e labial que são essenciais na prevenção de doenças de pele. Dos mais de 60 albinos, metade é daqui da capital e o restante de cidades do interior. É uma luta por também fazer com que eles aprendam e se fortaleçam como seres humanos e cidadãos, que são”, disse Luciana de Castro.

“Um de meus nortes de vida é que o mundo é um lugar que cabe todos. Dessa forma, realizamos mais uma audiência pública para debater inclusão e denunciar preconceito contra albinos. Infelizmente, isso existe e não podemos fingir o contrário. Mesmo assim, trabalhamos para mudar tal realidade e ajudar, com a lei de minha autoria, que obriga o poder público a fornecer o protetor solar a quem tem albinismo. Foi muito enriquecedor ouvir os depoimentos de quem trabalha para dar visibilidade aos albinos, como a Apalba, da Bahia, a Gerência de Atenção à Pessoa com Deficiência aqui de Maceió, mas também nos entristece ouvir relatos como do Davi, que só agora, depois de um ano, retorna à faculdade após superar uma depressão que sofreu por conta do preconceito”, declarou Tereza Nelma.

CAIXA DE MÚSICA 319

Roberto Rillo Bíscaro

Quando Basia Trzetrzelewska (com esse sobrenome, entende-se, porque é conhecida apenas pelo nome de batismo) voltou em 2009, com It’s That Girl Again, o ambiente era tão outro de seu auge de sucesso na segunda década dos 80s/primeira década dos 90’s, que passou batido pra mim a ponto de detectá-lo apenas em 2010, quando o resenhei desculpando-me.
Nunca no nível de uma Sade Adu, Tracey Thorn ou Corrine Drewery, os álbuns da polonesa sempre pecaram nas baladas, que tendem a ser faceless. Mas, a produção polida e a brejeirice das canções mais espevitadas movidas a samba e latinices garantiu-lhe vendas espantosas no mercado adult contemporary, na geração passada.
Basia hibernou anos e agora grava pelo selo Shanachie Records, casa de divas soul/R’n’B familiares aos leitores do blog: Angie Stone, Avery Sunshine e Syleena Johnson. Desta feita, fui rápido, eficiente e eficaz e soube de Butterflies, no dia de seu lançamento, 18 de maio.
O suingue big band de Be Pop sapecamente embala declaração de seus princípios estéticos: seja que moda for, seja o que for que gravadoras priorizarem, Basia sempre será rumba, jazz, samba, salsa e afins. As onze faixas atêm-se a essa declaração de independência, mas ouvidos atentos notarão a diminuição da tecladaria datada da geração passada.
Essa escolha conferiu mais organicidade e melhorou as canções mais lentas, um pouco mais personalizadas. Butterflies tem piano jazzy; Where’s Your Pride possui clima meio balada 50’s; Liang & Zhu clima de standard estadunidense, com discreto ar oriental. Título e letra referem-se ao trágico casal lendário chinês, conhecido como Butterfly Lovers.
Fãs do Matt Bianco adorarão a lentidão caribenha de Show Time. Butterflies prossegue a perene parceria entre Basia e Danny White e nessa faixa eles convidaram o vocalista do Matt, Mark Fisher, pruma canja.
Bubble, a faixa de abertura, é jazz com guitarra bluesy e o amor de Basia/Danny por sambinhas não morre: Matteo, No Heartache e Pandora’s Box são todas releituras de nosso ritmo nacional, que alguns críticos estranjas chamam Brazilian Jazz. Pandora’s tem forte odor a Sérgio Mendes e seu Brasil 66.
Com voz que resistiu galhardamente ao tempo, Basia conseguiu melhorar sua fórmula em Butterflies.

sábado, 16 de junho de 2018

sexta-feira, 15 de junho de 2018

PROMESSA MOÇAMBICANA

Governo reitera apoio social aos albinos

O Governo reiterou o compromisso de fortalecer medidas de combate aos raptos, assassinatos e tráfico de órgãos ou pessoas com albinismo, por meio de um plano de acção multissectorial que inclui o agravamento das penas aos praticantes deste tipo de crimes.

A informação foi avançada por Carlota Joaquim, inspectora do Ministério do Género, Criança e Acção Social, no âmbito da celebração do Dia Internacional da Consciencialização sobre o Albinismo assinalado quarta-feira, sob o lema “Brilhando a nossa luz ao mundo”.

Segundo a fonte, está ainda previsto o estabelecimento de mecanismos de coordenação regional, tendo em conta o carácter transfronteiriço e o “modus operandi” dos grupos que cometem atrocidades contra os albinos.

Carlota Joaquim apontou que, para mitigar os problemas enfrentados por albinos, sobretudo os ligados à saúde e inclusão social, o Governo, através da Acção Social, Educação, Justiça e Saúde, tem programas de assistência social que garantem o seu acesso aos serviços e cuidados especiais e adequados.


Exortou a sociedade, especialmente as famílias, a não discriminarem os albinos, “pois estes são iguais aos demais perante a lei”.

Por sua vez, Margarida Carneiro, da associação Kanimambo, indicou que o passo a seguir será garantir consultas e tratamento dermatológico a mais de 100 pessoas albinas nas cidades de Maputo e Nampula, uma campanha a acontecer em Setembro.

Já William Tomás, presidente da Associação dos Albinos de Moçambique (ALBIMOZ), apontou a falta de recursos financeiros como um dos desafios enfrentados na missão de ajudar os albinos, sobretudo os que vivem nas zonas mais recônditas.

“O nosso foco são as províncias, uma vez que nestes pontos há falta de serviços prioritários para os albinos, como por exemplo os de dermatologia, diferentemente da cidade de Maputo, mas para chegar lá precisamos de dinheiro, que nos é escasso”, disse Tomás.
Fonte: https://noticias.mmo.co.mz/2018/06/governo-reitera-apoio-social-aos-albinos.html#ixzz5IVosSk65

quinta-feira, 14 de junho de 2018

UMA ATRIZ ALBINA

No dia de conscientização do albinismo, atriz fala sobre falta de representatividade: 'Fica difícil se reconhecer'

Segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 18 mil pessoas têm algum tipo de albinismo no mundo. Data tem o objetivo de divulgar informação sobre a condição e evitar discriminação.
Quando criança, Heloísa Chirelli se olhava no espelho e não se reconhecia. A pele branca e sem melanina era diferente da pele dos pais. A condição, até então desconhecida por ela, fez com que surgissem dificuldades em se relacionar e começar novas amizades na escola.

As barreiras de aceitação, que permaneceram até a adolescência, precisaram ser superadas por meio de informação. Para a então criança de Sorocaba (SP), que se tornou atriz, a falta de representatividade é um dos piores problemas para quem tem albinismo.

O Dia Mundial de Conscientização do Albinismo é celebrado nesta quarta-feira (13). A data, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), busca divulgar informações sobre o albinismo para evitar a discriminação e celebrar conquistas. No mundo, cerca de 20 mil pessoas tem algum tipo de albinismo.

Ainda segundo a ONU, em algumas partes do mundo, pessoas albinas são caçadas e mutiladas. A África é o continente em que mais existem albinos, sendo que em alguns países a média é de uma pessoa albina a cada 1,4 mil.


Em entrevista ao G1, Heloísa Chirelli, de 24 anos, contou que tinha dificuldades em se conectar com outras pessoas até iniciar a carreira no teatro, aos 13 anos.

Para ela, são os albinos que "sentem na pele" a falta de informação e discussão, até mesmo dentro de famílias em que algum membro tem a anomalia.

“O olhar das pessoas é muito confuso, pois há quem ache que é doença. Eu, por exemplo, só fui descobrir que tenho uma disfunção ocular - por conta do albinismo - porque fiz acompanhamento com oftalmologista”, relata.

De acordo com o médico oftalmologista João Soranz Filho, os albinos precisam de diversos cuidados que vão muito além da pele. “Como o albino não tem pigmentação no corpo – a famosa melanina -, dentro dos olhos eles não têm uma camada de células que refletem algumas cores e imagens. Infelizmente, ainda não há tratamento para isso”, afirma.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem aproximadamente cinco tipos de albinismo, tido como uma condição congêtica, em que diversos genes podem estar envolvidos nas causas.

As principais características - as cores da pele, dos olhos e dos cabelos - são causadas pela falta de melanina.



Representatividade

Mas não é necessário ir muito longe para se deparar com a tão falada “falta de representatividade”. Heloísa afirma que “perdeu oportunidades de emprego” em áreas que tinha contato direto com o público. "Não é apenas cuidado com o sol e com a pele, é muito mais do que isso”, diz.


Para a socióloga e antropóloga Josefina de Fatima Tranquilin, a representatividade ajuda a construir cidadania fora do padrão e busca representar todos os sujeitos das classes sociais, raças ou gêneros e por meio das representatividades, os sujeitos se reconhecem tal como o são.

"Quando uma criança albina não se vê representada nos produtos que ela consome, como os desenhos, as séries infantis e brinquedos, ela não se reconhece como fazendo parte do mundo, se vê diferente e "anormal". Por isso, as representatividades para as crianças são ainda mais importantes", diz Fina.


'Foi uma surpresa'

Heloísa nasceu em Capivari (SP) e afirma que acredita que ser albina foi uma surpresa aos seus pais e toda a família. Ao G1, a atriz contou que é a única albina na família, por isso os parentes precisaram buscar informações para ela.

“Imagina a dificuldade: há 20 anos não havia internet, morávamos em uma cidade pequena e não havia médicos especialistas em albinismo. Minha família é simples, então tudo que precisaram aprender para me passar foi na raça”, diz.

Em uma rede social, Heloísa encontrou em um grupo chamado “Albinos do meu Brasil e do mundo”, em que troca informações e experiências entre albinos. Segundo ela, até pais de bebês albinos entram para o bate-papo.

TELONA QUENTE 240

Roberto Rillo Bíscaro

Claro que ela lucra, mas que bom que Angelina Jolie continue produzindo filmes de países menos centrais, como o etíope Difret, e incentivando projetos que abordem temas como empoderamento e opressão femininas.
A Netflix incorporou a animação A Ganha-Pão (2017) a seu catálogo, coprodução Irlanda/Canadá/Luxemburgo, da qual a ex-Sra. Pitt é uma das produtoras-executivas. The Breadwinner é totalmente girrrrrl power: baseado num best-seller de Deborah Ellis; roteirizado pela própria e Anita Doron e dirigido por Nora Twomey.
Desta feita, a norte-americana Jolie financiou denúncia contra a torpeza machista Talibã, que seu país de origem ajudou a criar, quando injetou grana nos fundamentalistas que lutavam contra a invasão soviética no Afeganistão em 1978. Capitalistas, comunistas, cristãos, muçulmanos, os próprios afegãos; todo mundo ajudou a destroçar o pobre país asiático.
Exaurido pela guerra e oprimido pelo Talibã, cada um se vira como pode na capital Cabul. Mas, se você for mulher é praticamente impossível sobreviver, se não tiver homem pra chamar de seu. Além de não poderem estudar ou expor o rosto em público, elas sequer podem sair de casa desacompanhadas. Nem pra comprar remédio. Nem pra adquirir comida. Nem que não tenham marido ou filho, porque morreram na guerra. Ilógico; mas quem disse que torpeza tem lógica? Pra se certificar de que a “decência” seja mantida, prepotentes jovens talibãs circulam de metralhadora em punho, abusando autoridade pros que são menos que eles.
A menina Parvana vive nesse inferno com seu pai, mãe e irmãos. Seu pai era professor e perdera perna no conflito contra os soviéticos, por isso se viu na condição de vender sobras do que possuía em casa, nas ruas. Discordante do fundamentalismo Taliban, ensinou a filha a ler e a valorizar o poder de contar histórias. Essa dissidência atrai ódio de ex-aluno Talibã, que o denuncia. Quando o pai é preso, Parvana se vê impedida até de conseguir comida, então, faz o que tem a seu alcance: corta os cabelos e se disfarça de menino pra ganhar a vida e tentar libertar seu pai.
A Ganha-Pão funciona em vários níveis, porque paralela à história “mundana” de Parvana, há um mito por ela contado aos poucos, à Mil e Uma Noites. No final explosivo, mas modesto – Parvana não tem poder para mudar o sistema, como mentem produções ianques – as duas histórias se unem e complementam.
A animação é deslumbrante; luxuosa em detalhes, que vão do colorido das roupas em Cabul, à paisagem desoladora, mas fascinante, dum cemitério de tanques de guerra e campos minados. Tudo embalado pela excitante trilha-sonora de Mychael e Jeff Danna, que mistura sons “árabes”, com alguma coisa mais ocidentalizada num resultado que dá vontade de adquirir a banda sonora por si só.
Por mais inspiradora que seja a história de resiliência e superação de Parvana, não se deve perder de vista que se trata duma história mais aterrorizante e triste do que qualquer filme de horror poderia imaginar.
A Ganha-Pão é sobre infâncias roubadas, brutalizadas, onde crianças têm que tomar cuidado com “brinquedos” encontrados na rua, porque podem ser bombas letais. Quando se escuta o espectro do irmão de Parvana dizendo isso em tom de verso mítico, difícil não vir um nó à garganta. Depois, quando uma criança assim vira Talibã, pergunta-se por quê.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

OS DESAFIOS DE MARCELO

Bullying, preconceito e olhares atentos: os desafios diários de um albino

Marcelo Grein, curitibano de 33 anos, compartilha com o Viver Bem como é sua vida com albinismo, suas rotinas e desafios
A brancura da pele, o loiro claro dos cabelos e os olhos acinzentados destacam Marcelo Grein da multidão. Albino, o jovem de 33 anos diz que nem sempre se sentiu confortável na própria pele, principalmente pelos olhares incômodos de quem percebe que nele há quase nenhuma melanina – proteína que forma a pigmentação da pele.

Morador de Curitiba, Marcelo diz que o preconceito era sentido mais na infância, quando sofria bullying dos colegas de escola. Agora, mais velho, aprendeu que as pessoas sempre vão olhar uma segunda vez mas, àqueles que perguntam sobre o albinismo, ele não se importa de compartilhar a história de sua vida.

“Que eu saiba, fui o primeiro da minha família a ser albino. Minha mãe sempre me levou aos médicos na infância, para cuidar da minha visão e da minha pele. Eu não abri os olhos até o primeiro ano de vida. Hoje enxergo pouco, mas enxergo. Eu uso óculos, sempre usei. As lentes dos óculos escurecem toda vez que estou em um ambiente muito claro”, explica Marcelo, que trabalha com carga e descarga de caminhões na capital paranaense.

Embora as pernas continuem brancas, mesmo se ficar exposta ao sol, o mesmo não pode ser dito das costas e pescoço de Marcelo. “Sinceramente, eu passo poucas vezes o protetor solar, por isso minha pele é um pouco afetada. Nos braços e costas, se eu tomar sol, enche de pintinha, então tenho que cuidar.”

Os sinais do albinismo variam entre as pessoas, conforme explica Camila Scharf, médica dermatologista, devido aos diferentes tipos da condição, que variam conforme o grau da mutação. O albinismo é considerado uma alteração genética que leva ao prejuízo na produção da melanina – e como a substância está presente na pele, olhos e cabelos, essas estruturas podem sofrer alterações entre os albinos.

“Algumas mutações fazem com que os albinos não consigam produzir nada de melanina e, em outros, a produção é diminuída. Portanto a pele pode variar desde o branco branco até tons um pouco mais escuros. Os olhos desde aqueles avermelhados (totalmente sem a melanina) ou azuis até castanhos. Os cabelos também, desde brancos até avermelhados ou acastanhados”, reforça a médica.

Sol: inimigo dos albinos
Por servir de proteção à pele, a melanina é fundamental no combate à radiação ultravioleta do sol. Na sua ausência, os raios solares conseguem penetrar na pele muito mais facilmente, elevando o risco de câncer de pele – uma das principais preocupações dos albinos.

Além do protetor solar, portanto, é essencial que o albino se proteja com roupas com proteção ultravioleta, chapéu, boné, óculos, entre outros.

A condição não tem cura, pois se trata de uma alteração genética, mas há estudos dispostos a desenvolver medicamentos capazes de aumentar a produção da melanina – de forma a garantir uma proteção maior da pele. As ideias, porém, ainda estão em fases iniciais de estudos.

“O que se dá para fazer é tentar prevenir desde o início da vida do paciente. Proteger do sol não apenas vai prevenir que a pele envelheça mais rápido, porque ela é muito mais sensível, mas também vai garantir que a pessoa chegue a uma idade adulta sem tantos danos”, explica a médica dermatologista.

Olhos sem melanina exigem óculos sempre


Os cuidados com a visão são tão importantes quanto com a pele entre os albinos. Isso porque a íris dos olhos também é composta de melanina, substância que dá a cor a eles e que, por uma alteração genética, tem a produção prejudicada. Isso gera, conforme explica Elizabeth Guimarães, médica oftalmologista e chefe de setor de lentes de contato do hospital Santa Casa de São Paulo, fotofobias entre os pacientes:

“O que eles mais reclamam é de fotofobia, porque a íris tem pouca pigmentação, é praticamente transparente, e não consegue filtrar adequadamente a luz que chega ao olho”, reforça a médica.

Outras alterações causadas pela desordem genética são as frequentes ametropias, como miopias, hipermetropias e astigmatismos – e que melhoram muito pouco com o uso de óculos e lentes de contato, segundo Guimarães.

“Eles também têm alteração de posição anômala do nervo óptico e eu diria que cerca de 98% deles têm hipoplasia macular, um subdesenvolvimento da parte nobre da retina. Condições que atrapalham a visão”, diz a oftalmologista.


Soluções para os olhos dos albinos


Por enquanto, as soluções encontradas aos albinos é o uso de óculos e lentes de contato coloridas que, infelizmente, não são suficientemente tingidas a ponto de barrar a luz externa como eles precisam.

Uma solução foi proposta por Ronaldo Sano, médico oftalmologista e chefe do setor de Retina do hospital Santa Casa de São Paulo. Um dos idealizadores do programa Pró-Albino, que visa o atendimento dos albinos brasileiros, Sano é também o responsável por um estudo que desenvolveu uma lente especial opaca, funcionando como uma nova íris aos albinos.

“Eles viram que a acuidade visual melhorou bastante, diminuindo a fotofobia e também melhorou a qualidade visual. Essas lentes são fabricadas por um laboratório nacional e o custo não é tão algo ao paciente, algo como R$ 200 no máximo. As lentes podem ser feitas com ou sem a correção da miopia também”, explica Elizabeth Guimarães, médica oftalmologista, colega de Sano no hospital. Por enquanto, o estudo está finalizado, mas o grupo busca uma forma de fornecer as lentes de contato aos pacientes que delas necessitem.

Vitamina D suplementada


Longe do sol, uma solução aos albinos é fazer a suplementação da vitamina D – hormônio sintetizado principalmente pelo contato com o sol. Há ainda alimentos que devem compor a dieta dos albinos para favorecer a absorção dessa vitamina, que atua principalmente na estrutura óssea.

Tipos de albinismo


Estima-se que há sete genes envolvidos no albinismo e cada um deles favorece a uma grande variabilidade para os sintomas dos pacientes.

“O tipo 1 é o mais grave, e o paciente não tem nenhuma melanina. Além de pele e cabelos brancos, a pessoa também tem alterações oculares grandes, inclusive cegueira. No Brasil o tipo mais comum é o 2, com ausência parcial da melanina, então existe ainda algum grau de pigmentação”, explica a dermatologista Camila Scharf.

CONTANDO A VIDA 235

FUTEBOL: POLÍTICA, RELIGIÃO E SEXO..

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Afinal, há relação entre futebol e política? E quais são os nexos com o sublime, transcendental ou com “o andar de cima”? Sexo durante o campeonato, é oportuno, desconcentra ou relaxa? Vamos aos argumentos, um por um, ainda que em voos rápidos... 

O primeiro ponto a ser enfrentado diz respeito aos possíveis paralelos entre regimes políticos e a performance da seleção. Todos os brasileiros têm opinião formada sobre aproximações que, contudo, são discutíveis graças aos deuses, orixás e aos críticos instruídos. Para começar uma conversa que tem vocação para o infinito, vale lembrar que nossa primeira Copa vencida se deu em um momento em que a democracia fulgurava no céu da pátria naquele instante. Ano agitado 1958, tempo em que além da Taça do Mundo, o Brasil se apresentava ao planeta com a Bossa Nova, Brasília era chamada de Capital da Esperança e o Cinema Novo deslumbrava cinéfilos. A “pátria de chuteiras” finalmente parecia ter vencido o “complexo de vira-lata” para usar expressões de Nelson Rodrigues. Acontece que outras vitórias do nosso escrete ocorreram em momentos adversos e exatamente por isso ganharam significações espantosas, de compensação ou catarse ou quase vingança. Em 1970, por exemplo, atravessávamos um estreitamento político sufocante, mas mesmo assim conseguimos superar o desastre de 1966 quando o fracasso foi visto como coerente com a lógica ultra disciplinadora da ditadura. Depois, em 70, batemos a Itália por 4 X 1, e delirante, a torcida nacional se uniu como anúncio de movimentos que começavam a extrapolar a opressão imposta pelos militares. A campanha de 1982 continua inexplicável até hoje e não há como engolir a “derrota honrosa” em tempo que tinha a abertura política adiantada. Pouco se tem a dizer do fracasso de 1986 ocasião em que o otimismo arrogante provou ser vulnerável e fez amargo o resultado final, isso apesar da democracia posta. Depois, em 1990, com Dunga no comando, naufragamos outra vez num vexame humilhante, mas houve recuperação em 1994, com o mesmo técnico no mando do esquadrão. Na amplitude das liberdades políticas em 1998, fomos engolidos com o mesmo Ronaldo Fenômeno que teve convulsão minutos antes da partida. Em 2004, vimos nossa estrela brilhar esplendorosa. Moral dessa breve retomada: uma coisa não tem a ver com outra. Os resultados dessas disputas não remetem ao sentido político do governo, seja ele qual for. 

Mas, não é só com a política que se busca o entendimento do futebol. A religião também fere o diálogo meramente esportivo, laico e despolitizado. Nesse campo, aliás, uma das primeiras situações analíticas evocava o velho jargão que dizia que se macumba ganhasse jogo, os times baianos seriam campeões. Pois é, tudo mudou muito. Se antes eram os despachos das macumbas que se insinuavam, hoje são outros os signos religiosos emergentes. Neymar Jr postou no Instagram seu agradecimento pela recuperação a tempo de ir para a Rússia dizendo “para ti Senhor, toda honra e toda glória”. Convém lembrar que por ocasião de algumas vitórias ele ostentou dizeres como “100% Jesus”. É fácil achar nas contas de quase todos os jogadores referências como “Ele no Comando”, “Deus é Fiel”, “Graças a ti Senhor”. Pode-se dizer que a religiosidade no futebol tem história: dos chamados cultos afro, passou-se para a fase dos “Atletas de Cristo”, entidade vigente na década de 1980 e 90; depois as divulgações dos círculos de oração antes de entrar em campo se compuseram com a estranha mania brasileira de rezar antes da entrada no campo. Repete-se, aliás o mesmo círculo após terminada uma partida vitoriosa que deve juntar os atletas em círculo, no meio do gramado agradecendo a Deus pelo resultado. A insistência de manifestações religiosas tem riscos, pois pode dividir companheiros, e nessa linha, é oportuno lembrar que isso até deveria ser dispensável, pois afinal, Deus não é brasileiro? 

E sexo, é permitido? O debate esquenta quando os argumentos apresentados pela delegação alemã garantem que relações sexuais desconcentram os jogadores e tiram sua atenção que deve se manter atenta ao alvo final, a vitória. Em oposição, Tite, baseado no pressuposto do relaxamento, permite que haja sexo nos dias de intervalo dos jogos. As duas propostas se apoiam em teorias ditas científicas ou médicas. No primeiro caso, a manutenção de tensões é vista como positiva e assim qualquer desvio deve ser evitado. Para outros, vale exatamente o oposto, ou seja, depois de cada etapa, mais à vontade, os atletas renderiam mais. 

Seja pela política, pela inspiração religiosa ou pelas (dis)tensões biológicas, interessa manter viva a esperança de que pelo futebol tenhamos um momento de união e sem ódio divisor. E de esperança também. Como brasileiro, vivendo os tempos difíceis que nos acometem, há que se resignar de fatalidades e mais falências, frações, raivas ou rivalidades. Vamos acreditar, manter a esperança para quem sabe, depois dos resultados finais, possamos testar estas reflexões. Bola prá frente...

terça-feira, 12 de junho de 2018

TELINHA QUENTE 313

Hoje, vamos de dobradinha de minisséries inglesas de 4 capítulos, com Nigel Lindsay no elenco. A diferença é que uma tem na Netflix; a outra, não. 

Roberto Rillo Bíscaro
Por que a Netflix coloca títulos desnecessários em inglês em um país, que prefere material dublado?, perguntei-me quando recebi email dizendo que provavelmente gostaria da minissérie Retribution (2016). Mais intrigado fiquei, quando descobri que se tratavam dos 4 capítulos de One Of Us, da BBC. Por que alterar? Receio que jamais saberei as respostas pra ambas as indagações, mas valeu bastante a pena tê-la maratonado num sábado.
As famílias de Adam e Grace são vizinhas nas remotas terras altas da nublada Escócia. Desde crianças, se amam e quando se mudam pra Edimburgo se casam, mas, na noite em que retornam da lua-de-mel são assassinados. Numa noite tempestuosa o noia que fez o serviço descola carro e se dirige pra residência dos pais dum deles, mas, devido ao mau tempo, sofre acidente. Socorrido pela irmã de Adam, quando sua identidade é descoberta inicia-se debate se vale a pena deixa-lo vivo ou se compensa vingar o defunto casal. Começa, então, uma espiral de acontecimentos e revelações, culminando num desfecho de despedaçar corações.
Retribution, muito além de história de detetive, é (melo)drama familiar sombrio, que não poupa ninguém do estraçalhamento. Os britânicos são mestres nisso, vide socos deprês no estômago, como Tiranossauro (2011).
Em Retribution, nem a detetive está isenta de culpa e as ações, a princípio desconectadas, provam ter efeitos devastadores, como os dum bater de asas de borboleta japa provocando tsunami em San Francisco.
O primeiro capítulo podia pegar no tranco mais rapidamente, mas sugiro paciência, porque vale a pena e não é chato, na verdade. Mas, você sentirá a diferença no interesse, quando os esqueletos começarem a ser desenterrados da fria terra escocesa. A pseudotrama da velhinha que quer ser eutanasiada é bem irrelevante, mas é inconveniente menor perto de tantas atuações ótimas, especialmente a de John Lynch, que quem viu The Fall (tem na Netflix) reconhecerá.
Bem Celtic Noir; se você gostar de Retribution, não pode deixar de ver o exemplar máximo dessa subdivisão do Noir: Hinterland. Daí sim, você verá o que são corações partidos em investigações policiais. Também tem na Netflix.

Como não é aconselhável depender só de Netflix, no domingo maratonei os 4 capítulos de Innocent, exibidos em maio.
David Collins passou sete anos na cadeia pelo assassinato da esposa. Sempre alegou inocência e 3 julgamentos jamais foram conclusivos, então, tem que ser solto. Disposto a provar que não é culpado, Collins tem a sorte de que a DI Cathy Hudson tenha sido designada pra conduzir nova investigação.
A função da policial é refazer os passos do DI William Beech, que pode ter sido tendencioso, porque sempre creu na culpa de Collins e pode ter direcionado a investigação nessa direção. A DI Hudson tem que ser, portanto, sumamente imparcial, porque refará o trabalho dum colega. Só mesmo numa obra ficcional ou num sistema abertamente corrupto ela seria a indicada: Hudson e Beech são namorados. Mas, também por ser ficção, Hudson coloca a ética acima de tudo e começa a descobrir faceta nada agradável de seu homem. Nigel Lindsay parece estar se especializando em papéis antipáticos, vide-o em Safe.
Innocent explora bastante a faceta dramática do martírio de Collins. As consequências em seus familiares; algumas repercussões na comunidade. Broadchurch repercutindo.
Telespectadores experientes com esse tipo de roteiro, provavelmente sacarão @ culpad@ rapidinho (não levei nem a metade do primeiro capítulo pra formular hipótese), mas Innocent entretém, porque possui todas as reviravoltas, retratações e revelações necessárias prum envolvente programa detetivesco.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

UM PORCO-ESPINHO CANADENSE

CAIXA DE MÚSICA 318


Roberto Rillo Bíscaro

Dia 16 de abril, o Brasil perdeu uma de suas sambistas mais tradicionais e queridas, Dona Ivone Lara. Bem nessa época, lia a dissertação de mestrado As transformações na música popular brasileira: um processo de branqueamento, que denuncia a crescente exclusão de músicos afrodescendentes do centro de nossa música popular.
Não posso dizer que curta Carnaval, sambões, escolas de, e provavelmente caia no gosto branqueado denunciado pelo trabalho de Patrícia Crepaldi. Sambinhas “adestrados” com sabor de MPB bem-comportada, Bossa-Nova e algumas aventuras de nossa música-símbolo nacional pelo exterior, como Half a Minute, do Matt Bianco, tudo isso ouço sem problemas.
Curioso, resolvi pesquisar o que havia de novo e grátis nesse mundo e encontrei material interessante e variado. É samba em diversos registros, que compartilho com os leitores.

Quem curte vozes femininas suaves e melodiosas cantando bossa nova e sambas de raiz, de roda, canção e variações, deveria conhecer Andiara Freitas. Nascida no Rio Grande do Norte e atuando pelo Nordeste (mas, não só), desde fins dos anos 1990, Andiara tem dois álbuns.
Em 2014, saiu Samba da Minha Terra, onde interpreta compositores de seu estado natal. Em 2016, seu escopo aumentou e isso se reflete no título: Todos os Sambas. Nesse trabalho, Freitas canta compositores de várias regiões, além de receber convidados.
Os dois trabalhos estão em seu site:



O samba de Douglas Germano é denso e algo soturno, às vezes. Meio neurótico, com letras até sobre acidentes de trabalho. Decerto, porque o batedor de caixa de fósforo (tem nos álbuns) é nascido, criado e formado na megalopolitana São Paulo, onde a pegada é mais tensa mesmo.
Germano já foi gravado por Elza Soares e indicado ao Grammy Latino. Individualmente, tem dois álbuns. Orí é de 2009 e tem batidas João Bosco e Nogueira, influências perceptíveis. Mas, Germano também deve curtir os afrossambas e outros subgêneros.
Isso fica ainda mais evidente no seu segundo solo, Golpe de Vista (2016). Tem hora que evoca flamenco, mas o cerne é samba, mais tenso e nervoso que o do álbum de estreia e temperado com saxofone e trompete, além da amalucada caixa de fósforo e do cavaquinho febril. A produção às vezes equivale a um wall of sound de cordas sambadas.
Em seu site, além desse dois álbuns-solo, você também baixa de graça o de seu Duo Moviola, de 2009. Com Kiko Dinucci, Germano soltou um samba bem paulistano, que casou Adoniran Barbosa com o vanguardismo de Itamar Assunção. Letras bem-humoradas e sacadas. Quem curtia Premeditando o Breque, gostará.



Em 2016, destaquei com prazer o álbum de estreia d’ATroça Harmônica, que também pode ser baixado grátis no site do grupo.
Ano passado, Chico Limeira lançou álbum-solo homônimo. Seus sambas de vários estilos e choros veem com discretos elementos de outros estilos, como guitarra fazendo a vez do bandolim em uma ou outra faixa e órgão meio psicodélico, meio de inferninho “brega”. Nada gritante que altere ou “desfigure” o samba, mas Limeira soube bem como traduzir em samba as tantas influências musicais que rapazes solucionados trazem hoje em dia.
O álbum está disponível aqui para download grátis:



Para os mais aventureiros e vanguardistas, a pedida é o inquietante Sambas do Absurdo (2017), colaboração entre Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis. 8 faixas chamadas Absurdo, diferenciadas por um número. Tem hora que o álbum poderia ser descrito como Leila Pinheiro numa bad trip. Só que bad, nesse caso, nada tem a ver com a qualidade da música, letras ou interpretação, que são excelentes. Bad no sentido de que em alguns Absurdos, Campos pulveriza o samba e o infesta com samplers, súbitos barulhos lúgubres, guitarreiros nervosos. Mas, não é barulheira rock: é MPB avant-garde, claustrofóbica, às vezes; doce, outras. De longe, meu favorito nessa pesquisa sambista. Isso não significa que seja o melhor, apenas que como fã de prog rock, talvez isso me soe mais familiar, só isso.
Sambas do Absurdo pode ser baixado na página de Juçara Marçal.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

TELONA QUENTE 239

Roberto Rillo Bíscaro

O filme mais recente do uruguaio Israel Adrián Caetano tem tudo pra ser listado como cult. Radicado na Argentina, o diretor do ótimo Um Oso Rojo (2002, com meu amado Júlio Chavez) andava meio caído, mas El Outro Hermano (2017) deve ter sido suficiente pra reconduzi-lo ao panteão alternativo.
Insistentemente pessimista, o filme foi inspirado pelo romance Bajo Este Sol Tremendo, de Carlos Busqued. Desconheço porque Caetano descartou título tão sugestivo em favor do genérico O Outro Irmão, conforme traduzido no catálogo da Netflix. A quentura do sol seria cortante contraponto irônico pra frieza emocional dessas personagens meio à irmãos Coen.
Javier Cetarti vem de Buenos Aires pro escaldante, semiárido e miserável norte argentino a fim reconhecer os corpos mutilados e já apodrecidos de sua mãe e meio-irmão. Há anos sem contato com a família, Javier não se importa, só lhe interessa coletar o dinheiro do seguro e se mandar pro Brasil. Quem o auxiliará nisso é o falante resolve-tudo Duarte, que quando não está fraudando pensões e seguros dedica-se à honesta profissão de sequestrador, auxiliado por um meio irmão fajuto de Duarte. Fajuto, porque nem esse laço é real em O Outro Irmão: o moleque maconheiro é filho da primeira mulher do padrasto, ou seja, não tem nada a ver com Certati.
Falta ou falha de conexão emocional é o fulcro desta história onde ninguém se importa, restos mortais acabam na privada, o filho sequer consegue tocar a mãe em coma e não há herói com o qual se identificar. O Outro Irmão não serve pra quem procura diversão escapista pra esses tempos abundantes em ruindades globais. Não há redenção; é a lei da selva repercutida nos animais peçonhentos esmagados, no moleque viciado em documentários sobre vida selvagem e na avidez por grana, num ambiente no qual é escassa e parece não ter lei, a não ser a do acaso, caos ou sina.
Suspense, gore, western urbano e mais subgêneros se entrecruzam nesse meio de nada argentino, onde as roupas são sujas, as personagens suam o tempo todo, a trilha sonora é tão sinestésica como a de Paris, Texas (1984) e o elenco dá show, especialmente Leonardo Sbaraglia, como Duarte.