sexta-feira, 22 de setembro de 2017

CUIDADOS COM A PELE ALBINA

Pessoas albinas necessitam de acompanhamento dermatológico para prevenir e tratar precocemente do câncer de pele, além de precisarem também de ajuda oftalmológica e acompanhamento genético.

Por ter esse problema na produção de melanina, a pessoa albina possui pele branca, sobrancelha branca, cílios muito claros e até complicações na retina do fundo dos olhos, por não possuir pigmento. Devido a isso, seus olhos sempre estão com aspecto avermelhado, aspecto que fica bem aparente em fotografias.

Eles também apresentam-se mais velhos muito cedo, na maioria dos casos desenvolvem câncer de pele em meados seus 20 e 30 anos de idade e a cada vez que ficam expostos ao sol, ganham uma queimadura nova. Para evitar coisas dessa natureza, alguns cuidados necessitam ser tomados.

Veja algumas dicas:
Evitar sempre se expor ao sol intenso e agudo;
Usar barreiras físicas como proteção, tais como camisetas, chapéus e calças;
Usar e abusar dos fotoprotetores com FPS maiores, que protejam tanto da UVB como também do UVA;
Optar por filtros com cor, pois sua funcionalidade é mais ativa como barreira que aqueles que não possuem cor;
Ajustar trabalho e momentos de diversão para períodos sem luz;
Realizar um exame dermatológico semestralmente, para identificação de algumas lesões ou para ganhar orientações específicas, assim como oftalmológico.

Produtos de proteção ideais para albinos
Pessoas albinas tem a necessidade de utilizar produtos com alta eficácia hidratante e antioxidante, especificamente para melhorar a resistência natural de suas peles contra as agressões solares externas, que tendem a ser mais cruéis.
Antioxidantes como Alistin, um peptídeo biomimético da carcinina, auxilia a combater a criação de radicais livres em três níveis: protege o DNA, a célula e as proteínas, e comumente trará o reequilíbrio, ajudando a melhorar a resistência desse tipo de pele.

Dois em um:  base e proteção solar
O rosto é uma das áreas do corpo que mais é agredida com o sol, e por isso é necessário um cuidado extra com o mesmo. O protetor solar é fator crucial, ainda mais quando a pele é bem clara.
Ao mesmo tempo, a maioria das mulheres quer sair de casa sempre produzidas. E além de ser ruim ficar passando muitas camadas de cosméticos diferentes no rosto, muitas vezes o tempo não é favorável.
Mas o que não há escassez, são de produtos que cumprem esses dois fatores muito bem: proteger e caracterizar. Confira os produtos dois em um que lidam tanto como protetor solar, quanto base.
Além de ajudar na economia de tempo na hora de se arrumar, você não vai mais ter que dar a desculpa que se esqueceu de passar o protetor, não é verdade?

Base com protetor
A base que se aplica no rosto é fundamental quando o assunto é caracterização. Mas, para que ela obtenha o efeito correto é necessário que você saiba qual o tipo certo para a sua pele, de maneira que ela ultrapasse as necessidades da sua pele e a deixe maravilhosa, cobrindo defeitos, olheiras e outras mínimas coisas.
Além de manter hidratada a pele e a deixar com um acabamento uniforme, a base protege a pele da sujeira, vento, luz e, se tiver FPS, protege do sol e ajuda a cancelar o envelhecimento precoce.
Mas, ainda existem algumas questões quanto à eficácia de proteção dessas bases com filtro solar, será que as bases com FPS têm o mesmo fator de proteção à pele, de fato? Sim, a eficiência dos raios UVB nas bases são idênticos.

Protetor com base
A inicial diferença entre a base com proteção e o protetor com base é a cobertura que os dois dão na pele. Os protetores com bases são como tonalizantes, permitem uma pele mais homogênea, mas sem tapar direito as imperfeições. Os protetores tem resultado mais naturalizado, sendo muito usado por pessoas do sexo masculino.
Esses protetores geralmente possuem poucas opções de cores, que variam entre o bege clarinho e o bege médio, mas, o bom dessas colorações é que se adaptam a qualquer tonalidade de pele.
O protetor solar com FPS essencial para sua cor de pele já com a base tem uma eficiência bem mais superior, pois a base tem uma proteção física na camada da pele que é visível na luz.
O indicado é sempre utilizar um filtro que protege contra os raios UVB, os raios que geram as queimaduras e câncer, e os raios UVA, que geram o câncer de pele e o envelhecimento, e a luz visível, que é a culpada pela maioria das manchas no rosto.

Bb cream
A maior parte dos bb creams possuem proteção solar. O bb cream é bem parecido com uma base só que de forma melhorada, com mais funções, ele serve para retirar manchas e deixar a pele mais clareada, hidratar, dar brilho natural, prevenir as rugas e tapar imperfeições porém a orientação é a mesma da base se a exposição solar for muito grande, usar um protetor solar normalmente por baixo para ter sim, uma proteção melhor.
O filtro solar, normalmente, é de coloração branca e quando misturamos com a base, ele consegue bloquear parte dos perigos dos raios de sol e auxilia a impedir que luzes artificiais venham a gerar manchas na sua pele.
Porém quando se fala dos raios agressivos do sol, a base tem que conseguir bloquear totalmente mas para isso, o fator de proteção deve ser maior que 30.

2 Itens essenciais de preparação de pele
A caracterização dá sempre um agito intenso no look, por isso alguns cuidados com o rosto, bem comuns na hora de fazer a maquiagem, podem modificar drasticamente o resultado no fim.
Devido a isso, hoje vamos dar algumas dicas simples e que fazem total diferenças na make, que vão fazer você arrasar em qualquer dia especial.
· Primer facial
O primeiro passo para uma pele magnífica é aplicar o primer, que auxilia na remoção da oleosidade da pele, fecha os poros e ajuda a evitar que a maquiagem saia devido ao calor. Aplique um pouco de primer na ponta dos dedos e passe sobre o rosto até a pele captar completamente o produto.
· Primer para os olhos
O produto primer para os olhos potencializa e deixa por mais tempo o efeito e a cor da sombra, seja ela cremosa ou em pó. Passe um pouco em cima das pálpebras e espalhe suavemente até a pele absorver o produto.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

BRANQUINHAS, MAS NÃO ALBINAS


Ambientalistas descobriram duas girafas brancas no norte do Quénia. A mãe e a cria foram filmadas por guardas florestais para o Programa de Conservação Hirola (HCP), enquanto caminhavam calmamente.

A mãe e a cria de girafa avistadas no norte do Quénia, que surpreenderam a comunidade científica por serem completamente brancas, têm leucismo, a mesma condição já identificada num tigre recentemente descoberto na Índia, e que se caracteriza pela ausência total de pigmentação na pele.


Diferente do albinismo, a condição genética ocorre devido a níveis reduzidos de diferentes pigmentos nas células da pele. Curiosamente, a girafa bebé ainda apresentava traços proeminentes de articulação que parecem desaparecer, enquanto a pele da mãe está completamente branca.

A área onde as duas giradas foram avistadas é gerida pelo Programa de Conservação de Hitola, uma organização não governamental dedicada à preservação do antílope hirola, uma das espécies mais raras do mundo.

Os conservacionistas ouviram os habitantes locais a falar pela primeira vez sobre as girafas brancas e apressaram-se a observar os animais. O vídeo mostra a mãe de um lado para o outro, com a criar a aparecer em segundo plano.

TELONA QUENTE 203


Roberto Rillo Bíscaro

A dupla formada pelo diretor israelense Eran Riklis e pelo roteirista de origem árabe Sayed Kashua já foi bastante elogiada no blog por produzir excelências como A Noiva Síria e The Lemmon Tree. De The Human Resources Manager gostei menos, embora não seja ruim. Mas, parece que o forte do duo bicultural é tematizar o imbróglio permanente entre árabes e judeus.
Outra prova disso é Os Árabes Também Dançam (2015), que mostra como é duro ser minoria étnica numa nação sempre envolvida em conflitos. O filme começa com a informação de que 20% da população israelense é de origem árabe. Se já é difícil em época “de paz”, imagine nos anos 80 e primeira metade dos 90, quando as rusgas viraram guerras declaradas, contra o Líbano e o Iraque. É esse o período da infância e juventude de Eyad, brilhante menino árabe, que cresce em Israel, em meio a sua família e comunidade árabe torcendo pra que os judeus sejam trucidados. Na hora de ir pra universidade, Eyad consegue vaga na mais prestigiosa de Jerusalém, onde os judeus não acertam pronunciar seu nome, a polícia o para a 3 por 2 pedindo documentos, é confrontado por racismo e desconfiança em toda parte e se dá conta de que sendo árabe terá dificuldade até pra conseguir um simples emprego como garçom. Lavador de prato, tudo bem, afinal, fica escondido da freguesia, mas a coisa muda de figura se for pra atender o público. Numa situação dessas, seria viável um relacionamento amoroso bi-étnico? Porque Eyad se apaixona – e é correspondido por Naomi, uma judia. Mas, Os Árabes Também Dançam não é um Romeu e Julieta transportado pro Oriente Médio.
Eyad desenvolve sólida amizade com Yonatan, jovem condenado a morrer cedo, porque tem a degenerativa distrofia muscular. Em vista de tantos obstáculos pra desenvolver suas muitas potencialidades, Eyad aos poucos transforma sua identidade e aí reside o foco da película. Antes de proferir julgamento moral sobre se o que o jovem faz é certo ou errado, Riklis e Kashua montam minucioso panorama da atmosfera opressiva circundando Eyad pra que entendamos porque ele toma a decisão. Subjugado por uma condição sócio-histórica que existe há séculos e envolve tantos atores poderosos e armados até os dentes, dá pra culpar o indivíduo Eyad por tentar levar existência mais tranquila e capaz de fazer com que suas potencialidades possam desabrochar ao máximo?
O preço da minúcia em nos mostrar a pressão sofrida por um membro da minoria étnica é que tudo o mais no roteiro fique esgarçado. Jamais aprenderemos as consequências da escolha de Eyad, seja em nível pessoal, seja familiar. Mas, o recorte a que o roteiro se propôs é tão bem-feito, que a narrativa já vale pela exploração dos caminhos conducentes à decisão do jovem.

Embora não conduzidas de modo melodramático, as histórias de Os Árabes Também Dançam são de uma tristeza descomunal. Atente pra insistência no clássico deprê da Joy Division, Love Will Tear Us Apart, que pontua alguns momentos das vidas dessas personagens obrigadas a abrirem mão de partes essenciais de suas vidas, por causa de fatalidades ou irredutivismos sociais. Além disso, o fato de um cineasta judeu representar a dureza prum árabe crescer em Israel fala volumes sobre a situação.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CONTANDO A VIDA 204

A ARTE DE PERDER O PRAZER

José Carlos Sebe Bom Meihy

Uma das mais complicadas consequências do conhecimento formal nos dias de hoje é que de repente deixamos de ser público para nos tornar analistas, exegetas ou decifradores do mundo. A tudo, temos que analisar, conferir, comparar e dar opinião e emitir juízos fundamentados. E cresce como erva daninha o culto às ciências e à racionalidade. De fora, ficam as paixões, a fala desprendida, a opinião simples e despretensiosa. Isso, aliás, invadiu todos os territórios expressivos. Até o campo artístico se “logicizou”, virou tema de estudos. Convém lembrar que isso é uma traição, pois na raiz a “escola” helênica queria dizer ócio. Sim, apregoava-se na Grécia clássica que os sábios deveriam ter tempo “ocioso” para pensar e usufruir do conhecimento. Mas, humanos que somos, temos o dom de complicar tudo e assim deixamos de sentir em profundidade, sem filtros explicativos censores da espontaneidade. E a isso chamamos educação.
Talvez, de todas as artes, a música seja a menos exigente, aquela que, ainda, nos deixa flanar pela sensibilidade. Por lógico, levo em conta a passividade do ouvinte, e não da exigência apurada dos executores virtuoses. Pois é, com imensa saudade, lembro-me do tempo em que ia ao cinema para me distrair e, com pipoca ou amendoim, permitia me perder em histórias de bandidos e mocinhos, de viagens interplanetárias, super-heróis e mesmo romances sonsos. Tudo mudou e muito. Na medida em que crescemos precisamos saber mais sobre o modo de produção de peças, a biografia dos autores, o custo das montagens, a opinião dos críticos... E haja jornais, ensaios, resenhas, comentários, análises, enfim, um intrincado processo de contextualizações rouba-nos o simples prazer de ir e ver, de gostar ou não. Sobre tudo temos que ter uma opinião abalizada e um posicionamento atualizado e nada de jogar conversa fora.
Em minha intimidade, tenho lutado muito contra essas exigências qualificadoras das diversões. Busco não me enquadrar, e até me dar ao luxo de gostar de uma pintura pela alegria de ver a composição, o tema, as soluções estilísticas, tudo sem relacionar com escolas, séries do autor, com a proposta do museu. Sem me contradizer, gostaria de afirmar minha vocação “minimalista”, explorar a catarse permitida pelo momento, independente de inscrição em processos reflexivos. É lógico que não fujo da condenação da “arte pela arte”, mas confesso que estou exaurido da suposição processual e das leituras abalizadas. E por falar em leitura, toda essa conversa decorreu de um texto instigante. O escritor japonês Yassunari Kawabata produziu um conto que muito mexeu comigo. Sob o nome de “Yumiura”, um escritor já maduro na idade, recebe a visita surpresa de uma senhora que animadamente lembra-o de tê-lo conhecido há mais de 30 anos. Segundo o animado relato da visitante, eles teriam se conhecido no porto da cidade que dá nome ao relato, e teriam se apaixonado, ao ponto do então jovem pedir a moça em casamento. Estarrecido, o escritor não conseguia se lembrar desse episódio, e isso o angustiava deveras, pois, como poderia ter apagado da mente um caso tão importante, uma paixão e pedido de casamento? Recolhido em si mesmo, o escritor fez um exame minucioso, e constatou uma série de outros esquecimentos. Costurando um caso com o outro, um apagamento aqui e outro acolá, tudo ia sendo creditado à senilidade. Mas o caso alarmou tanto o escritor que, inconformado, resolveu investigar melhor o caso. Passados dias de pesquisas em guardados, depois de juntar fatos, após rever agendas, anotações e questionar seus compromissos, chega à conclusão que lhe era impossível ter estado nos dias, locais, festividades relatadas com detalhes tão vivos. Por outro lado, a senhora também estava segura do que dizia e insistia na narrativa devaneadora. O conto termina com cada um garantindo sua posição, mas ambos com a certeza de seus fatos.
Pois é, bastou a leitura desse caso para sair da leitura e traduzir o fato da memória falha ou fantasiosa para minha vida pessoal... E da vida pessoal para estudos sobre a memória foi salto rápido. Primeiro pensei em tantos episódios apagados da memória. Supus também atos de delírios de casos que me implicavam, situações das quais nunca integrei. E logo estava retomando Freud, Bergson, Pollak, Proust, Portelli... E vi que não tenho como sair da teia que fiei para mim mesmo.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TELINHA QUENTE 277



Roberto Rillo Bíscaro

Concluindo o comentário sobre as 2 temporadas primeiras de Bron/Broen, afirmei que não perderia tempo vendo a releitura anglo-francesa (The Tunnel), porque ela não conseguiria “replicar o intoxicantemente sublime”. Como sou meio mentiroso e tenho crises de abstinência mastodônticas, não resisti e testei-a há alguns meses. Não passei do segundo capítulo: não fui com a cara do elenco (bom, mas Saga e Martin são como marca de cigarro pra fumante; outra não tem o mesmo sabor, por isso, não satisfaz) e decidi que não compensava o trabalho de ler legenda, quando se falava em francês.
Há algumas semanas, nova crise de abstinência e a comodidade de a versão norte-americana estar na Netflix brasileira fizeram-me tentar The Bridge, cujas 2 temporadas foram ao ar pela FX, entre 2013 e 14. Justifiquei o salto no escuro até didaticamente: daria pra treinar inglês e espanhol num show só; olha que prático e proveitoso. E deu mesmo, pelo menos na primeira temporada.
The Bridge usa a premissa do original sueco: um corpo dividido em 2 é encontrado na ponte que liga El Paso a Juaréz e logo se descobre que metade pertence a um mexicano, metade a um norte-americano. Isso justifica que a detetive ianque meio autista Sonya Cross e o mexicano bonachão Marco Ruiz trabalhem juntos pra resolver essa ode sangrenta à monogamia (e o original é da “liberada” TV sueca, não do Vaticano ou da evangélica Record...).
A fronteira entre EUA e México fervilha de diferenças e possibilidades de assuntos em nível pessoal, político, econômico, social, cultural, enfim, muito mais diversa do que a fronteira Suécia-Dinamarca, embora países escandinavos estejam longe de serem iguais (o fato do sátiro ser o dinamarquês Martin na produção sueca é acerto de contas simbólico na perene batalha cultural entre as 2 nações). The Bridge não perde as oportunidades e na versão da FX temos imigração ilegal, carteis de narcotraficantes, até com subtramas inexistentes no original. Até aí nada demais, o problema é que vemos muito da violência, pobreza, corrupção e “atraso” apenas do lado mexicano, como se a terra do Trump fosse idílio que sofre com a violência e invasão do sul. Mas quem compra a droga em massa é playboyzinho, playboyzinha, playtiozinho e playtiaizinha ianque, né? Não que o show jamais reconheça isso, mas basta atentar pro que é mostrado no lado de El Paso e o que é no lado de Juarez e você entenderá a diferença de ênfase.
Por ser feita primeiro pro público norte-americano, The Bridge deve ter querido mostrar mais a alteridade pobre dos desafortunados estrangeiros. Certamente pro mais europeu norte, a explosão de tons fortes, calor e deserto do sul do Texas/norte do México pareça “exótica” e essa estranheza The Bridge capta bem, mas qual programa passado no sul não tem as mesmas imagens de deserto, com aquela guitarrinha blues? Aqui aproveito pra dar opinião desavergonhadamente subjetiva, já que isso é blog e não site imparcial (hahahaha) de crítica: acho um saco esse visual True Detective, Breaking Bad ou sei lá que raio, que na verdade remonta há décadas: gostei e maratonei The Bridge, mas a ambientação gélida e o tom insistentemente depressivo de Bron/Broen dão de zilhões a zero.
Apesar disso e embora Sonya não faça sombra à representação do possível Asperger, como sua original sueca, a temporada 1 é bem boa, prende a atenção, Demián Bichir é muito bom, assim como sua colega Diane Kruger. Passei logo pra segunda, curioso pra ver se seguiriam a trama de Bron/Broen, que envolve bio e ecoterrorismo. Na fronteira México-EUA, pensei, como?
Os produtores devem ter se perguntado o mesmo e a série começou a seguir caminho próprio, mantendo similaridade com a sueca apenas na subtrama dos demônios pessoais de Marcos. O foco dessa fase seria um assassinato em série de centenas de garotas e um túnel usado pra tráfico de pessoas/narcóticos. Que sono! Mais do mesmo de tantas outras produções. Aí sim o chavão da representação do sul com fundo musical de guitarrinha de blues pegou pesado e desisti no terceiro capítulo, acho, sem sequer terminá-lo. A Wikipedia conta que 42% do público televisivo fez o mesmo, quando da exibição pelo FX, levando ao cancelamento da série. Nota: Bron/Broen vai pra sua quarta temporada, enquanto sua cópias foram todas canceladas.
The Bridge funcionou apenas enquanto não se distanciou muito da grande estória do original original (repetição proposital). Os assinantes da Netflix deveriam exigir que a empresa comprasse os direitos de Bron/Broen pro Brasil, assim como detém os da cópia semi-bem-feita.

SOM ALBINO

O novo caldeirão do bruxo albino


Após um hiato de 15 anos, o compositor e instrumentista Hermeto Pascoal lança o CD duplo "No Mundo dos Sons"


Após um hiato de 15 anos sem lançar um disco de estúdio com seu próprio grupo musical, Hermeto Pascoal volta ao mercado discográfico com o álbum duplo "No Mundo dos Sons." Produzido pelo Selo Sesc, o novo trabalho do compositor, arranjador e multi-instrumentista reúne 18 faixas autorais, muitas delas compostas em homenagem a amigos como Tom Jobim, Astor Piazzolla e Miles Davis, entre outros. Aclamado pela crítica especializada, o repertório do disco é apontado como reflexo do auge criativo que o músico alagoano que ganhou projeção internacional atravessa aos 81 anos de idade.
Popularmente conhecido como o "bruxo dos sons", Hermeto assina a direção musical e os arranjos do novo álbum que foi gravado em fevereiro deste ano no estúdio Gargolândia, em São Paulo. Na produção do disco lançado pelo Selo Sesc, Pascoal é acompanhado de seu grupo que tem como integrantes o baixista Itiberê Zwarg, o baterista Ajurinã, o pianista André Marques, o flautista e saxofonista Jota P, e o percussionista Fábio Pascoal, filho do artista. Além de compor todas as faixas do disco, Hermeto mostra toda a sua virtuose tocando com maestria apitos, escaletas, berrantes, teclados, chaleiras, colheres e piano. 


A genialidade nada protocolar do multi-instrumentista albino se faz presente no repertório do álbum gerado em tons afetivos. As homenagens prestadas pelo músico são expostas nos títulos das canções. O set list conta com faixas como "Viva São Paulo", "Para Miles Davis", "Viva Piazzolla", "Forró da Gota para Sivuca", "Carlos Malta Tupizando" e outras. Algumas foram compostas por ele há mais de 30 anos, mas só gravadas agora. 

Autodidata e livre de rótulos, Hermeto ganhou notoriedade internacional e respeito dos maiores músicos do planeta que enaltecem o experimentalisto, a excelente capacidade de improviso e o processo criativo totalmente intuitivo do brasileiro. Em maio deste ano, o alagoano recebeu o título de doutor honoris causa pela New England Conservatory, em Boston, nos Estados Unidos. 

Apesar do longo período longe dos estúdios com seu grupo, o músico nunca deixou de produzir. Nesse intervalo de 15 anos, gravou trabalhos em duo, compôs e fez shows. Lançou em 2010 o CD Bodas de Latão, em duo com Aline Morena, comemorando sete anos de união na vida e na música. Esse CD contém duas faixas multimídia. Atualmente, Hermeto Pascoal tem feito shows dentro e fora do Brasil com cinco formações: Hermeto Pascoal e Grupo, Hermeto Pascoal e Aline Morena, Hermeto Pascoal Solo, Hermeto Pascoal e Big Band e Hermeto Pascoal e Orquestra Sinfônica. 



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

POR UM TRIZ, EM MOÇAMBIQUE

Criança albina escapa a tentativa de rapto em Balama

Um menor de nome Édio, 10 anos de idade, portador de albinismo, residente no Posto Administrativo de Mavala, distrito de Balama, província de Cabo Delgado, escapou esta semana de uma tentativa de rapto.

Apercebendo-se da situação, os pais do menor, trataram de denunciar o caso às autoridades policiais, que de imediato detiveram o indivíduo, que recolheu para as celas da Polícia da República de Moçambique, naquele distrito.

Segundo contou o pai do menor, aos microfones da Rádio Comunitária local, quando a criança encontrava-se a brincar fora do quintal, apareceu o individuou em causa dizendo que o menino era uma “bolada”.

“A criança estava a brincar e nós vimos ele chegar à casa a correr. Quando lhe perguntámos o que se passava, ele disse que estava sendo perseguido, por uma pessoa que queria “bolada”. Foi dai que optámos por denunciar o caso à Polícia”, disse o pai.

Por sua vez, o menor em causa, contou que o cidadão chegou e começou a chamá-lo para sair donde estava a brincar. “Estava-me a perseguir e corri para dentro. Me dizia que eu era “bolada”. Depois, ele me chamou e eu neguei”, disse o menor.

O suposto raptor de nome C. Paulo, em entrevista à Rádio Mpharama, negou todas acusações contra si. Paulo disse que passou por ali porque estava atrás de um amigo com quem consome juntos bebidas alcoólicas.

“Eu apenas passei pela zona à procura do meu amigo Cochoco, porque nessa região temos bebido muito álcool. Ás tantas, apareceu o pai do menor, fazendo-me acusações. Por isso deixei aquele lugar. Depois, fui detido, alegando que eu sei da tentativa do rapto dum menor albino”, contou o acusado.

Por sua vez, Sauale Assane, cidadão que testemunhou a tentativa de rapto do menor com albinismo, confirmou serem verdadeiras as palavras dos pais.

O chefe das operações do Comando Distrital da PRM, em Balama, Mamudo Abibo, admitiu que, as averiguações da corporação indicam haver tentativa do rapto. Por isso, foi elaborado um auto criminal que vai ser remetido ao Ministério Público para devidos procedimentos.

Mamudo Abibo apela à população do distrito para manter maior vigilância sobre as crianças nas comunidades e denunciar imediatamente às autoridades locais todos os casos suspeitos, tal como se fez neste caso.

CAIXA DE MÚSICA 283


Roberto Rillo Bíscaro

Ano passado, revistas online hipsters, como Pitchfork e Consequence of Sound entoaram loas à Jamila Woods, cujo LP de estreia apareceu na lista de melhores das também descolados Spin e Pop Matters. Em se tratando duma cantora de Neo Soul/R’n’B isso incendiou minha curiosidade, afinal sou meio metido a hipster, de vez em quando. Ouvi alguma coisa de HEAVN, no SoundCloud e enlouqueci quando vi o vídeo de Blk Girl Soldier – que voz, que letra, que arranjo! Mas, se passaram muitos meses até que finalmente consegui botar os ouvidos em HEAVN, inteirinho, pra ouvir no fone de ouvido, prestando bem atenção.
Jamila Woods é atuante poeta, cantora e agitadora cultural independente – pelo menos era na época do lançamento de HEAVN, em julho de 2016 – de Chicago, metrópole que ganha mais destaque pela criminalidade e pelo vento, do que pela potencialidade de seus artistas e sua beleza. Não poucos norte-americanos, a chamam de “New York without an atitude”. Woods quis traçar panorama identitário da afrodescendência e também prestigiar os músicos de sua cidade. Conseguiu ambos objetivos e mais.
Apesar de multiproduzido e com referências caleidoscópicas - hip hop, trap, quase qualquer sub-estilo de soul/R’n’B, jazz, folk, indie pop são as mais evidentes – HEAVN é de consistência sônica e de qualidade de impressionar. As 13 faixas são excelentes, assim, compensa mais comentar o disco no atacado e não no varejo, até porque em termos estilísticos, as influências estão moídas e os farelos recombinados pra moldar um som moderno, descolado e elegante pra chuchu.
Quem entende inglês ganhará um “plus à mais”, porque as letras são sacadas poéticas sobre violência policial; aceitação da negritude; fetichização da negra como objeto animalesco de sexualidade; problema em aceitar a própria pele, clareando; timidez como forma de ficar longe de problemas, porque implica não envolvimento. Mas, também há a linda letra sobre memória, de Breadcrumbs – as migalhas de pão pedidas como marcador do caminho – onde ela canta que a avó amava seu avô, mesmo quando este já não mais se recordava quem era sua família. O político e o pessoal intercalando-se em letras que jamais dão a sensação de “aulas”.
Mas, como dito, isso seria adendo, porque se você não manja inglês, a belezura das canções e da doce voz de Jamila bastarão mais do que demais. Doçura, sim, porque apesar de toda constatação da opressão experienciada até hoje pelos afrodescendentes, HEAVN jamais escolhe o tom da raiva traduzida em vocais duros ou arranjos ásperos. É tudo bem melódico e leve. Também não há ódio ao reverso, isto é, claro que os brancos têm sido responsáveis por séculos de injustiças, mas Woods não hesita em pinçar o que presta dessa cultura. A própria faixa-título cita e brinca com a letra e melodia de Just Like Heaven, do branquelo inglês The Cure.

Jamila Woods e seus colegas artistas de Chicago lapidaram um álbum antenado, acessível, lindo, ativista, esperançoso, sensível, invejável. 

domingo, 17 de setembro de 2017

CINE ALBINO PREMIADO

A obra 'The Albino's Trees', de Masakazu Kaneko, venceu o prémio de melhor longa metragem de ficção no festival de cinema Figueira Film Art, anunciou a organização.

A segunda longa metragem do realizador japonês de 38 anos foi considerada pelo júri, presidido pelo encenador e cenógrafo Andrzej Kowalski, o melhor filme do festival que se realiza na Figueira da Foz, distrito de Coimbra, e que terminou com a exibição dos trabalhados vencedores.

Segundo o Figueira Film Art, 'The Albino's Trees' fala do dilema ético de um caçador que 'aceita um contrato lucrativo para matar um veado branco raro' cuja presença destrói o turismo da região, mas que é venerado por uma comunidade local.

Durante a cerimónia de entrega de prémios, que decorreu na noite de sábado, Masakazu Kaneko arrecadou ainda os prémios de melhor realizador e melhor fotografia.

sábado, 16 de setembro de 2017

MAIS MORTE ALBINA

Jovem com albinismo é assassinado em Moçambique

Malfeitores ainda a monte assassinaram quarta-feira um jovem moçambicano de 17 anos de idade, com problemas de albinismo, para a extração de partes de seu corpo, incluindo cabelo e cérebro, no distrito de Moatize, em Tete, região centro de Moçambique.

O facto foi revelado à agência de notícias AIM por um líder comunitário, que pediu anonimato por recear represálias dos criminosos, pois reside na mesma zona onde ocorreu aquele ato macabro.


“Foi estranho. O jovem, que respondia por Chinguirai João foi raptado de dia e morto no período da noite, numa altura em que os pais estavam à sua procura por causa da demora do seu regresso à casa”, explicou o líder comunitário.

“Este crime aconteceu no povoado de Nhambaluwalu, aqui em Benga. O corpo foi achado depois de buscas, mas sem vida e sem alguns órgãos; criminosos tiraram os ossos dos braços e pernas, cabelo e partiram a cabeça para tirar o miolo (cérebro). Este crime está a deixar todos nós preocupados”, disse.

O líder comunitário afirmou que a população do povoado exige a captura dos criminosos para que sejam severamente penalizados como forma de evitar a ocorrência de novos casos.

A porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), na cidade de Tete, Lurdes Ferreira, disse que “este caso ainda não consta das ocorrências policiais, porque ainda não foi reportado pela Esquadra (posto policial) que abrange aquela área”.

“Mesmo assim, vamos iniciar as averiguações no terreno onde ocorreu o crime, para apurarmos em que circunstâncias o jovem foi raptado e posteriormente assassinado e ao mesmo tempo lançarmos uma operação de busca e captura dos responsáveis por crime macabro”, garantiu Ferreira.

Este caso ocorre quatro meses depois de uma tentativa frustrada de venda de uma criança albina, perpetrada pelos próprios pais em Moatize.

Refira-se que no ano passado foram reportados naquela província de Tete vários casos de rapto e assassinato de albinos, criando pânico no seio dos residentes.

Os assassinatos, exumações ilegais ou agressões a albinos, em alguns países da África Austral, representam um problema grave, que os especialistas têm dificuldade em dimensionar.

Estes crimes estão vinculados a crenças segundo as quais as poções preparadas com partes dos corpos dos albinos trazem sorte e riqueza.

https://africa21digital.com/2017/09/14/jovem-com-albinismo-e-assassinado-em-mocambique/

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

GRÁTIS EM MOÇAMBIQUE

MAIS DE 100 ALBINOS RECEBEM CONSULTAS GRATIS EM OFTALMOLOGIA


Mais de 100 pessoas portadoras do albinismo vão beneficiar de consultas grátis de oftalmologia nas cidades de Maputo, capital do país, e cidade de Nampula, na província nortenha do mesmo nome.


Para o efeito, uma nota de imprensa da Associação de Apoio às Pessoas com Albinismo em Moçambique (ALBIMOZ), recebida pela AIM, explica que uma equipa de médicos especialistas portugueses em oftalmologia foi trazida de Portugal para o efeito.

“A equipa vai assistir gratuitamente oitenta pessoas com albinismo, em Nampula e igual número na Cidade de Maputo, com enfermidades na visão, incluindo cataratas”, lê-se na nota.

As consultas em alusão serão feitas no âmbito de uma campanha organizada pela ALBIMOZ que decorre desde o dia 6 de Setembro e termina no domingo.

“Esta campanha vai encerrar no próximo domingo, dia 10 de Setembro, no Complexo Tinyko, no Zimpeto com a distribuição de protectores solares a todas as pessoas com albinismo que estiverem na ocasião”, refere a nota.

Em Agosto do ano em curso, a ALBIMOZ ofereceu protectores solares creme a cerca de 20 albinos na cidade de Maputo. 

A ALBIMOZ é uma organização sem fins lucrativos e de solidariedade social,e foi fundada a 13 de Junho de 2014. 

A sua missão é promover a protecção e assistência social às pessoas com albinismo e suas famílias, em situação de pobreza e de vulnerabilidade, incluindo mulheres, crianças, idosos, pessoas desfavorecidas e portadoras de doenças crónicas e degenerativas.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

JURISPRUDÊNCIA ALBINA

No final da manhã, recebi email do Flávio da Silva Azevedo Junior, advogado pós-graduando em Direito da Seguridade Social, contando que seu artigo intitulado "Albinos: uma reflexão sob o prisma do estigma social e consequente incapacidade laborativa frente ao benefício de prestação continuada", foi publicado na revista online Âmbito Jurídico.

Vocês não fazem ideia de quão feliz me sinto com o crescente interesse pelo albinismo e seus temas correlatos dentro da área acadêmica das Humanidades, onde somos ainda quase tão invisíveis quanto no Censo que nos desconsidera. Mas, aos poucos essa situação vai mudando e é mais rejubilador ainda saber que o trabalho do blog tem contribuído pra isso.

Muito obrigado, Flávio, por mais essa contribuição à causa albina. 

Eis o resumo do artigo:

O artigo apresenta o estigma sofrido pelos albinos e suas consequências frente as possibilidades laborativas. Destaca-se ainda, as dificuldades enfrentadas quanto a qualificação profissional, bem como os requisitos exigidos para a concessão de benefício de prestação continuada, com a apresentação de precedente importante quanto a concessão do beneficio de prestação continuada ao albino, bem como, um paralelo com a decisão proferida no processo n° PEDILEF 200783005052586, que concedeu a um portador de HIV, a aposentadoria por invalidez frente a incapacidade social gerada pela patologia.

Albinos: uma reflexão sob o prisma do estigma social e consequente incapacidade laborativa frente ao benefício de prestação continuada está disponível no link abaixo:

  

TELONA QUENTE 202


Roberto Rillo Bíscaro

Não faz muito, declarei meu apreço por filmes de suspense espanhol com tramas exageradas. Na imprensa de lá, é comum a complexo de vira-lata com gente detonando as produções, mas elas geralmente me divertem deveras e isso me basta. Não foi o caso com O Guardião Invisível (2017), que escolhi no menu da Netflix, numa tarde friazinha.
Trata-se da adaptação do primeiro romance duma trilogia de sucesso duma tal Dolores Redondo. Depois da perda de tempo e desperdício de minha já baixa visão com parte do primeiro volume de Game Of Thrones, nem informação sobre tais produtos procuro, portanto, ater-me-ei (baba Temer!) à adaptação do diretor Fernando González Molina, seguindo roteiro de Luiso Berdejo.
Uma série de assassinatos de garotas desponta numa região florestal, perto da fronteira francesa, e a policial Amaia é enviada a sua aldeia natal, que guarda lembranças traumáticas de sua infância, além duma criatura mitológica da floresta, provavelmente o guardião do título (que não guarda nada, vide as garotas mortas). Com 3 níveis narrativos pra lidar, O Guardião Invisível fracassa em todos. Nenhum decola ou gera interesse, porque nenhuma das histórias é forte e desenvolvida; pelo contrário, é tudo clichê, mas se tivessem tido tempo de fermentar talvez divertissem.
O noir do século XXI foi revitalizado pela frente fria escandinava, com suas mulheres-protagonistas e ambientes sombrios.  Aqui temos uma inspetora, mas como empatizar com a sofredora-sem-graça Amaia? Na verdade, como se importar com qualquer personagem nesse universo de papelão? O Guardião Invisível não é a primeira produção espanhola que usa o norte do país pra fugir da luminosidade incandescente do sol meridional. Bajo Sospecha, a minissérie, fizera isso, leia resenha aqui. A província de Navarra é representada como sob perpétua escuridão, névoa e chuva, traindo a predominância do puramente estético em detrimento de qualquer consistência.
Quando o suspense é envolvente, estamos dispostos a aceitar inconsistências e até algum absurdozinho maior. Como O Guardião Invisível não emociona, o racional fica alerta pra detectar cenas inúteis como os papos entre Amaia e seu “mentor”, que não servem pra nada, ou melhor, apenas ao propósito “estético” de contrapor a escuridão de Navarra com o jorro de luz tropical donde quer que essa personagem inútil esteja. Eu ri. Parte do ritual do serial killer é deixar um biscoito local no meio das pernas da vítima. Pois não é que mesmo com a descomunal umidade, a bolacha mantém-se seca e crocante? E você não vai acreditar, como constatamos isso!
A precipitação pluviométrica em O Guardião Invisível é tão grande que aguou ou mofou o roteiro, a direção, a atuação e, sobretudo, a emoção. Há suspense espanhol bem melhor pra ver.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

CONTANDO A VIDA 203

UM CACHORRO E UMA FAMÍLIA DESFEITA.

José Carlos Sebe Bom Meihy
Para meus netos: Manuela, Gabriel e Anna Elisa

Era um casal exemplar. Na altura dos 50 anos, com vivazes filhos adolescentes, sempre sorrindo e dispostos, corriam na praia, saíam para passeios no final de semana e tinham um cachorro simpático chamado Marley. Todos no prédio gostavam deles e a admiração e apreço eram expressos nas escolhas, por exemplo, para o comando de um ou outro nas reuniões de condomínio, ou nas decisões comunitárias. Nunca se ouviu uma queixa deles, ou sequer um comentário negativo sobre o comportamento do cão que, na verdade, era o complemento perfeito para o clichê da “família-margarina”. Pois bem, um belo dia a notícia caiu como uma bomba que, sem piedade, atingiu o equilíbrio dos moradores vizinhos: decidiram se separar.
Como rastilho de pólvora, a notícia se espalhou causando espanto e até indignação, pois, afinal, como aqueles quase anjos, modelos exemplares, iam se deixar? Juntei minha indignação a dos demais moradores e precisei tomar fôlego para não acrescentar esse evento à soma de desgraças que se nos abatem como cidadãos brasileiros: crise política; financeira; moral; depravação ética, escândalos institucionais, homofobia, feminicídio... Houve um segundo momento na intimidade coletiva dos vizinhos: como vai ser agora? Alguém, um deles, continuará no prédio? E os filhos, com quem ficarão? Como se tratasse do primeiro casal da Terra a se separar, os comentários ganharam colorações que abalaram a tranquila aparência comunitária. Alguém despertou suspeita que envolvia moradora nova, moça bonita e recém-formada em veterinária. Pronto, estava dada a largada para uma historinha que progredira velozmente. O “senhor” se apaixonou pela vizinha. “Mas, logo pela moradora do mesmo prédio”?, questionou um morador do andar de baixo. A senhora do andar de cima foi criativa e lembrou-se que um dia Marley passou mal e ele, o pai, foi até o apartamento dela em busca de socorro para o cão. Esse fato provável, logo virou a chave para um drama que ganhava tons de caso novelesco.
Tudo corria solto e cheio de alternativas até que alguém lançou uma pergunta realmente inquietante: e o Marley, com quem ficará? Nossa!... O tema virou questão social, moral e cívica e mesmo de direito dos animais. Ficava claro que os filhos ficariam com a mãe, de acordo com a tradição brasileira. E quanto a isso não restava dúvidas pois, além de tudo, ela havia se convertido em espécie de vítima de uma cilada amorosa. Corroborava com a imagem de atraiçoada a discrição que manteve, inclusive quando subia ou descia no elevador com os demais condôminos, que antes a viam sempre sorridente. Não preciso dizer que a tal veterinária, a “outra”, foi desprezada por (quase) todos e que sobre ela pesou uma sensação ruim, algo que a aproximava de uma Messalina reinventada em Copacabana. Ele, o senhor, viu encolhidos os cumprimentos antes dadivosos e também se fechou chegando a esbarrar no mal visto. Restou aos filhos a piedade dos olhares gerais. Mas o que aconteceria com Marley?
Foi assim que a população do prédio começou a considerar o papel do cachorro na separação do casal: coitado do cãozinho que, mesmo sendo de porte médio para grande, mereceu a referência no diminutivo. Uns achavam que Marley deveria ficar, junto da mulher e dos filhos. Os argumentos eram taxativos, pois ele era da família e quem estava deixando tudo era o pai. Uma minoria, contudo, com ênfase, insistia que deveria ir com o pai porque ele deixaria com a mulher os filhos e os demais bens, e, certamente, a presença do cão o ajudaria na nova vida. As contendas se acirraram e, sinceramente, acredito que o cãozinho (veja que já me posicionei) parecia sintetizar a aflição generalizada. Quando aparecia em público, notadamente nas áreas comuns do prédio, Marley nos olhava com enternecida angústia e, com a língua para fora, pedia justiça.
Há um detalhe que, talvez, possa enriquecer a compreensão do contexto que ambientou o caso: o escândalo dos irmãos Batista, os tais delatores da Lava-jato. Pois bem, nem isso superou o ibope dos comentários do prédio. O destino de Marley era muito mais importante. Sem comparação. Como todo processo de desligamento marital, o relatado nesta crônica, obedeceu ao ritual da saída o marido. Soube-se que ele levou suas malas numa madrugada, sem se despedir dos amigos. Meses depois, também sem noticiar nada a ninguém a tal veterinária se mudou. Por lógico, não faltaram ilações... Como se esperava, a mãe ficou com os filhos no apartamento, e Marley também. Foi com muita apreensão que toda a comunidade acompanhou a rotina de pais de fim de semana. Religiosamente, a cada sexta-feira à noite o pai buscava os filhos... Só os filhos, Marley não ia junto. Pobre Marley. Concordo com o veredito comunitário: o cãozinho tomou partido e resolveu escolher a mãe. Quer exemplo mais humanizado? Como sempre acontece com amigos que se separam, temos que optar com quem vamos prosseguir com a amizade. No nosso caso, Marley facilitou a escolha.

“Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz."

terça-feira, 12 de setembro de 2017

TELINHA QUENTE 276

Roberto Rilo Bíscaro

Geopoliticamente, a Austrália vive se equilibrando entre sua histórica aliança com os Estados Unidos, com quem divide a pátria colonizadora Inglaterra, idioma e supremacia caucasiana e sua interdependência econômica com a muito mais próxima China, sua maior parceira comercial e não muito amiga do Tio Sam. Essa tensão grita pra ser tematizada em produções de suspense. Foi isso que os criadores da minissérie Secret City (2016) usaram pros 6 capítulos, exibidos pela australiana Foxtel.
A jornalista política Harriet Dunkley inteira-se de trama subterrânea, que colocará sua liberdade/vida em perigo e envolverá espiões, políticos entreguistas querendo implantar medidas de cerceamento da liberdade de expressão e, claro, mortes. Pra fomentar mais a discórdia, isso ocorre num momento especialmente delicado entre as relações sino-ianques.
Secret City é passatempo decente pra quem curte thrillers políticos. Seu pecadilho não é a falta de originalidade – se esse fosse o critério, quase não veríamos TV – mas certa vagueza nos 2 episódios iniciais. Uma série de suspense obviamente não pode entregar o jogo de início, senão não haveria porquê prosseguir vendo, mas se pudéssemos entender alguma coisinha mais, teria sido mais eficiente. Não duvido que certa sensação de “coisa muito no ar” dos capítulos iniciais tenha custada a Secret City alguns telespectadores.
Depois que engata a marcha, é até bem legal ver a pouco divulgada Camberra (vocês não têm a impressão, às vezes, que a continental Austrália é só Sydney?) e perceber como a TV de lá segue o padrão da inclusão e diversidade, como a de sua irmã estadunidense. Tem personagem asiática e até transexual, plenamente incluída. Claro que é necessário atentar pras funções e destinos dessas personagens em relação a seus pares caucasianos pra não cair no simplista “apareceu já tá bom “.
Essa análise deixo aos leitores que decidirem dar chance a essa produção que sai do eixo central EUA-Europa (leia-se Inglaterra).

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 282

Roberto Rillo Bíscaro

A maioria dos críticos musicais torce o nariz quando artista/banda não “evolui” de álbum a outro. De acordo com essa perspectiva, deveria haver linha progressiva de maturação no labor artístico, que positivamente refletiria suposta maturidade psicológica. É a arte percebida biologicamente, ou, como se supõe que indivíduos se desenvolvam. Quando um LP segue igual ao outro, frequentemente é criticado, porque falhou em exibir essa tal maturidade. Claro que o mesmo escriba que critica a repetição num álbum, pode declarar os Ramones como gênios, mesmo fazendo a mesma coisa a carreira toda. Argumentos são usados de acordo com a conveniência, já sabemos.
Se gosto do som, não me importo que seja mais do mesmo; até me reconforta que Stock, Aitken & Waterman soassem sempre iguais. Era tão bom ligar a FM entre 1987 e 89 e escutar aquela sonoridade, que agora me reconforta ainda mais, porque me transporta praquele tempo. Mas esse conforto de sapato sônico velho me pregou peça com o segundo álbum do Tuxedo, lançado em março, exatos 2 anos após o delicioso primeiro.
A exata similitude entre os 2 trabalhos me encantou, mas tornou-me indulgente no resenhar. Em alta frequência em meu celular, desde o dia que saiu, tenho postergado escrever sobre o II precisamente por ser quase igual e gostoso como o de estreia. Parece que sempre há algo novidadeiro sobre o que escrever e a produção de Jake One e Mayer Hawthrone fica relegada a segundo plano, porque não há muito a acrescentar à resenha do primeiro álbum, cuja leitura recomendo, porque esclarece melhor este LP, inclusive.
2nd Time Around promete que desta vez será melhor, mas é exagero. É muuuuuuuuuuito bom e totalmente dançável, mas é igual à estreia. A maioria esmagadora das 11 faixas dá vontade de sobrepor camadas de acessórios, roupas multicores, polaina, bandana e ir dançar de passinho numa flash mob pra viralizar no Youtube. Eletrofunk de alta rotação, tributário de Delegation, Saint Tropez et ali.
Só que dessa vez, tenho reclamação: Scooter’s Groove tem a linha de baixo mais perversamente descadeirante do ano e os caras me fazem uma faixa com menos de 2 minutos?! Carai, daria uma paulada desencadeadora de ataques cardíacos em série em remanescentes dos 80s que tentassem dançar 4 minutos disso. Será que temeram acusações de assassinato?
Tuxedo II não traz nadinha de novo ao fervente caldeirão do duo, mas você nem vai ter tempo de pensar nisso, quando estiver dançando como se não existisse dia seguinte.

domingo, 10 de setembro de 2017

SUPERAÇÃO EM ITAPAJÉ

Itapajé é uma cidade no Ceará, onde vive uma jovem, que mesmo com limitações físicas, está concluindo o ensino superior. 

sábado, 9 de setembro de 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

TANZÂNIA PUNINDO

Tanzânia: Tribunal condena três homens por crime contra albino

Dar es Salaam - Um tribunal tanzaniano condenou em separado esta terça-feira, em Dar es Salaam, a 18 anos de prisão efectiva, três homens por mutilar uma criança albino, episódio que se repete actualmente ao drama terrível que sofre esta população africana, noticiou a Prensa Latina.


A Alta corte declarou-os culpados de conspiração por assassinato e tentação de homicídio à Andius Songoroka, Mihambwe Kamata e Ureta Shing Kawilu, por cortar a mão direita de Baraka Cosmas, segundo informou o diário local Daily News, na sua edição desta terça-feira.

O tribunal alegou que os três indivíduos cometeram o crime a 08 de Março de 2014, na área de Kikonde, distrito de Sumbawanga (oeste).

A Organização das Nações Unidas calcula que pelo menos 75 albinos foram assassinados na Tanzânia entre 2000 e 2015, mas essas cifras poderiam ser superiores.

O albinismo é um transtorno congénito que causa falta de pigmento na pele, cabelo e olhos. É mais comum na África subshariana, e na Tanzânia afecta aproximadamente à um em cada mil 400 pessoas.

De acordo com estatísticas, a Tanzânia possui uma concentração de albinos 15 vezes maior em relação à média mundial.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

TELONA QUENTE 201


Roberto Rillo Bíscaro

Road Movies (ou filmes de estrada, na pouco usada tradução pra português) é um subgênero em que a história se desenrola durante uma viagem. Na maioria das vezes, o filme não é regido por uma única situação-problema como é convencional, mas por várias que surgem e são resolvidas conforme e história transcorre. Em termos simbólicos é um dos tipos mais explícitos de metaforizar as mudanças passadas por um indivíduo ou grupo. O deslocamento geográfico, a mudança de um espaço a outro, com seus contratempos equivalem à alteração no arco comportamental da(s) personagem(ns).
A Netflix disponibiliza um exemplo natalino francês, chamado 10 Jours En Or (2012), dramédia escrita e dirigida por Nicolas Brossette. Bajau Marc é caixeiro-viajante bon-vivant, que superfatura suas notas de despesas e vive apenas pra si, porque não possui laço familiar algum. Depois de acobertar e dormir com uma imigrante ilegal, o elegante senhor de meia-idade se descobre cuidador dum garoto de 6 anos, que tem que levar prum endereço no sul do país.
Nessa jornada pseudo-dickensiana, à medida que Marc vai se despojando de seus confortos e comportamentos egoístas, aparecem acompanhantes que cumprem papeis similares aos fantasmas natalinos do escritor inglês. Pierre é o ancião que mostra a Marc, como é horrível ser solitário na velhice e a jovem Julie vê nos 2 homens que ainda é tempo de consertar seu futuro e ter uma família.
Com personagens improváveis e essa ênfase quase patológica na valorização da família, que no fundo, é vista como "investimento" pra garantir companhia na velhice (mas, tá cheio de idosos sozinhos, apesar de terem constituído família), 10 Jours En Or é facilmente detonável, mas escolho perceber e anotar isso e ainda assim curtir esse passatempo simpático.
Num planeta superlotado de notícias horrendas de garotinhos afogados em praias, o destino do pequeno Lucas amornou o coração numa fresca noite invernal.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CONTANDO A VIDA 202

A AMAZÔNIA (AINDA) É NOSSA!?... DILEMA OU PROBLEMA?

José Carlos Sebe Bom Meihy

Sabe-se que há uma diferença crucial entre dois conceitos que, vulgarmente, se confundem: “problema” e “dilema”. Problema tem solução, por difícil que seja. Dilema, por sua vez, se multiplica em descaminhos e aponta para labirintos sem saídas. Foi pensando nessas variações, ditadas aliás, pelo jornalista e dramaturgo romeno Matéi Visniec, que coloquei em prisma o atual caso envolvendo a Amazônia Brasileira e nele as propostas de sua utilização temerária. E por falar em governo Temer, é bom lembrar que uma das estratégias mais praticadas pela gestão corrente consiste em disparar uma espécie de bomba noticiosa, sempre de efeito espetaculoso, e depois, do aguardo da reação do público, retomar o projeto para, por fim, refazê-lo conforme suas intenções iniciais, exatamente na medida dos conteúdos planejados. Essa artimanha responde, em primeiro lugar, a interesses hegemônicos e grupais, privativistas, camuflados, endereçados a negócios com megaempresas, aquelas que favorecem propinas bem fartas. Isso tem acontecido rotineiramente com o atual governo que, depois de incendiar os noticiários, “cede”, refaz a proposta, e promulga os desmandos em nome do diálogo aberto e franco. Em relação ao recente decreto acabando com a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), publicado no último dia 23 de agosto pelo gabinete presidencial, repetiu-se a mesma lenga: soltaram o rojão, esperou-se o estouro da pólvora, e saíram à cata da vara entreguista. Tudo segundo uma festança calhorda.
De toda forma, parte da população instigada pelo descalabro do decreto presidencial produziu repercussão maior do que se esperava. Corroborou para isso o eco contrário ao script governamental resultante, em parte, dos desastrosos efeitos da recente visita presidencial à Rússia e Noruega. Lembremos, à guisa de passagem, o semblante do nosso mais alto mandatário que engoliu “na cara”, críticas pesadíssimas, exatamente sobre o tratamento dado às nossas florestas. Frente à fartura de objeções da sociedade civil, como seria previsível, o governo “atencioso” revogou o primeiro decreto e, acolhendo o clamor público e a voz dos ambientalistas, promulgou “novo” decreto que, contudo, em pouco supera o anterior, insistindo na extinção da reserva, deixando a área aberta à mineração empresarial. Como se comportasse grandes mudanças, o novo documento especifica num detalhado “ponto a ponto” os supostos critérios para a preservação ambiental. Uma das pérolas do documento diz, por exemplo, que não é dado haver exploração mineral em unidades indígenas, como, diga-se, reza a Constituição. Aliás, é cabível lembrar que cabe exclusivamente ao Congresso Nacional “autorizar, em terras indígenas, a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais”. Mesmo assim, os palacianos definiram, em nome da modernidade, regras para a execução da maior ofensiva contra a floresta desde a não menos desastrosa interferência dos militares.
Tudo apavora nessa medida temerárea, a começar pelo tamanho da área indicada: cerca de 47 mil quilômetros quadrados estão liberados para extração de ouro e outros minerais e pedras nobres. Segundo ambientalistas, essa extensão é maior que a Dinamarca, tem o tamanho equivalente ao do estado do Espírito Santo, ou oito vezes a dimensão do Distrito Federal. A completar o descalabro, vale lembrar danos inevitáveis para o mais importante conjunto de florestas tropicais do mundo: Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque; Florestas Estaduais do Paru e do Amapá; Floresta Nacional do Amapá; Reserva Biológica de Maicuru; Estação Ecológica do Jari; Reserva Extrativista Rio Cajari, e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru. E o que dizer das populações que vivem em tais espaços com suas culturas integradas ao ecossistema? E as terras indígenas demarcadas, como ficarão?
Ao longo da história, a Amazônia tem sido conhecida por dualidades extremas. De um lado, como “pulmão da humanidade”, uma espécie de “jardim botânico da humanidade”, que mesmo sendo a maior e mais importante floresta do planeta padece da ineficácia de projetos políticos contextualizadores. Sem ação inteligente, a área mantém-se aberta a ataques, é abatida, diminuída, incendiada, saqueada de todas as formas vis, e, portanto, vítima de medidas sempre alheias ao significado real de seu papel em qualquer escala. Ao mesmo tempo, causa espécie o desequilíbrio entre a atenção estrangeira e a nacional. Enquanto “lá fora”, atualmente estudiosos, ambientalistas, artistas, ativistas e militantes da preservação da natureza esbravejam em favor dos cuidados com nossas matas, entre nós, afora honrosos nomes de destaque e bravas instituições de defesa, pouco tem sido feito. Por certo, na era das redes sociais, isso tende a mudar, mas desde Euclides da Cunha, para o bem, quase nada tem se alterado em termos de um programa de atenção nacional.
Na outra ponta das loas românticas, por incrível que pareça ainda presidem mitos que mostram a impossibilidade de controle da formidável região também denominada “inferno verde”. Como território traiçoeiro, inconquistável, selvagem e indomado, toda a extensa área se situa numa espécie de redoma inatingível. Exatamente porque não a contemplamos com olhos atentos para um diagnóstico desejável, científico, alguns pensam que a solução está na perpetuação da intocabilidade daquele ecossistema. Sim, na memória coletiva prevalece o pressuposto que apregoa o paradoxo do isolamento como política, e assim se perpetuam bordões alienantes que dizem ser melhor não tocar, supondo que preservar é deixar como está. Como respostas, na intermitência de governos mais ou menos democráticos, tem-se as sempre desastrosas investidas que, ironicamente, apostam na integração – como se a floresta não fosse parte do nosso corpo geográfico e político. Tratando a Amazônia como separada do circuito do progresso, muitos almejam costurá-la nos programas nacionais, transformando sua natureza florestal em “terras produtivas”. Faca de gumes fatais, tanto o isolamento dito preservacionista como as supostas políticas integracionistas são equivocadas. No primeiro caso, deixa-se tudo legado ao banditismo, aos saques e desmandos, à sanha dos madeireiros e mineradores, garimpeiros e pecuaristas. No segundo, obedecendo as leis que colocam o progresso econômico imediato em primeiro lugar, pensa-se integrá-lo por meio de multiplicação de empresas de exploração mineral.   

Tudo se iniciou, diga-se, com a proposta de Juscelino que programou a Belém-Brasília em 1959, mas nada se compara à façanha desdobrada pela ditadura militar. Sob o slogan (ah! Os slogans da ditadura!) “integrar para não entregar” e “exportar é o que importa” – lembrando que à época propalavam-se ameaças de invasões estrangeiras – tornava-se imperioso fazer com que aquele pedaço de terra florestal se comunicasse com o resto do país. Assim foi, por exemplo, que se iniciou a interminável aventura da estrada que sintomaticamente leva o nome Transamazônica, segundo o sonho de Mario Andreazza. Estava dada a largada às ações das grandes empreiteiras, exatamente essas que abriram as torneiras da corrupção. Segundo os ideais governantes, a estrada ligaria as entranhas do interior do Norte às áreas de escoamento e até às demais regiões do país. No mesmo projeto, aliás, se explicam as inacabadas: Cuiabá-Santarém; Cuiabá-Porto Velho; Perimetral Norte; Porto Velho-Boa Vista, entre outras, em cujas margens rasgadas haveriam de se abrir férteis fazendas e pastos, cidades e polos de desenvolvimento, tudo anulando os “espaços vazios”. Cirne Lima, ministro da Agricultura no governo Médici, em 1969, pensando nos devaneios dessas investidas criou a expressão “conquista da selva”. Essa herança maldita foi mais ou menos deixada de lado nos governos que evoluiram para a debil democracia que vivenciamos. Agora, contudo, novamente se refaz o projeto autoritário que nos ameaça sem piedade. Frente a isso, inevitavelmente cabe a pergunta: a Amazônia é um problema ou não passa de dilema? Tenhamos urgência nas respostas, pois o que está em jogo é a soberania nacional e o dever participação de cada um de nós.