terça-feira, 23 de agosto de 2016

TELINHA QUENTE 226

Roberto Rillo Bíscaro

Ao longo dos anos, tenho recebido mensagens elogiosas e críticas com relação às resenhas sobre música, livros, cine e TV. Algumas apontam que muitos textos são “subjetivos”, carecendo de imparcialidade. Nem discutirei a impossibilidade da neutralidade, apenas digo, são subjetivas e parciais, sim. Blog vem da expressão web log, cunhada no fim dos anos 90 e, grosso modo, significa um diário online, registro de atividades e opiniões. Blogues nasceram se autoafirmando como expressões individuais e o Albino Incoerente não é diferente.
As críticas vêm quando explicito, por exemplo, que algo é bom, mas não é pra mim ou não me agradou. Tais leitores decepcionar-se-ão com a resenha de hoje, porque a minissérie Jordskott (2015) pode até ser boa, mas falhou em me conquistar. Como 2 conterrâneas que também não me impressionaram – Graven e Morden -, Jordskott tem Göran Ragnerstam no elenco, cujo jeitão algo catatônico até curto (ou me acostumei).
O diferencial da dezena de capítulos de Jordskott pros demais Nordic Noirs é a adição do fantástico/sobrenatural, mediante alusão ao folclore escandinavo, como à serpente Jörmungandr, criada numa banheira por uma anciã. Pelo menos, intuo que seja a cobra, filha de Loki. Esse foi meu principal problema: ficar na névoa como a exuberante região florestal onde se passa a trama.
Tudo começa em Estocolmo, quando a policial Eva Thörnblad leva tiro dum sequestrador e tem que se afastar das atividades. A morte de seu pai leva-a de volta à distante cidadezinha de origem, onde sua família é importante na exploração florestal. No dia seguinte a sua chegada, crianças começam a desaparecer, assassinatos inexplicáveis pipocam e muita bizarrice toma o cotidiano de Silverhöjd. Aos poucos concluímos que o “inimigo” pode ser a própria floresta e que a fábrica de celulose e sua depredação da Natureza podem ser os responsáveis por iminente guerra entre humanos e seres míticos.
Comparada a Twin Peaks – bastou ser esquisito, já se compara à obra de David Lynch – Jorskott deixa o espectador durante quase metade sem saber porquês e com uma protagonista tão perdida quanto o telespectador. Eva demora ainda mais do que a metade pra fazer algo; passa quase todo o tempo reagindo e não protagonizando. Devo estar soando demasiado careta, mas 10 capítulos de personagens com os quais pude pensar em começar a empatizar apenas lá pelo oitavo não são pra mim.
Devo, porém, ser justo. Jordskott não é ruim. Não parei de vê-la, apenas não ansiava por um próximo episódio e adoro quando isso acontece. A minissérie me deu algum prazer intelectual, mas não me agarrou pelas bolas e preciso disso quando se trata de capítulos.
Pleonasmo vicioso dizer que o cenário natural sueco é arrasante, né? A Escandinávia esculacha, nossa!
O clima de vingança natural e da presença do folclore me lembraram do ciclo de horror ecológico dos anos 70 e, daquela mesma década, um microciclo britânico, que misturava paganismo celta com horror, tipo O Homem de Palha. Fãs de Arquivo X também deverão gostar. Não sou experto nos agentes Fax Moden, mas pelo que me lembro dum deles, o jeito mortiço do Wass (Göran Ragnerstam) se encaixa bem. Além do mais, quem curte pássaros se comunicando com humanos, gente caçando não-humanos disfarçados de humanos, poções mágicas e eventos que só serão explicados dali a 6 capítulos desfrutarão Jordskott.

Não é pra mim, mas reconheço a qualidade e que a maldita canção de ninar folclórica me assombrou durante dias. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

CAIXA DE MÚSICA 232

Roberto Rillo Bíscaro

Nas últimas semanas, diversos álbuns têm chamado minha atenção, assim, pra não empilhar material e publicar em 2018 álbuns lançados este ano, que tal uma quadra, ao invés da tradicional dobradinha? O elo é serem divas negras, uma talvez em vias de superestrelato e as demais pouco conhecidas no Brasil. Vamos usar a vastidão internética pra não depender tanto da grande mídia?

A inglesa NAO tem bastante a favor pra se tornar estrela. (Bem) Falada nos últimos meses, seu álbum de estreia, For All We Know, saiu dia 29 de julho e tem aquela qualidade antropofágica que brasileiro ufanista ingênuo acha que é exclusividade nossa, quando é a essência do bom pop. Madonna é tão geleia-generalizadora quanto Caetano.
Egressa da alternativa cena grime/garage londrina, NAO triturou detalhes underground e recombinou-os com platitudes soul, R’n’B e eletrônicas num álbum que vai de Rose Royce a Prince, fazendo paradas pelo som sintético do oitentista Klymaxx sem deixar de ter a personalidade contemporânea de NAO. Pop bom é personalista e até a voz meio esquisita de anjinha maliciosa ajuda a destacá-la do oceano de competidoras.
Os arranjos são lotados de detalhes, que fazem de For All We Know um trabalho que precise ser ouvido várias vezes e até com fone de ouvido pra se perceber as nuanças. Mas, como bom pop, ouvintes casuais passarão por tudo isso batido e terão acessível produto que só poderia prescindir das vinhetas chatinhas.
Coincidente com Georgia, outra promessa inglesa vinda da cena grime, NAO dissolve Kate Bush em seu caldeirão de influências. In The Morning abre com canto diretamente chupado de This Woman’s Work e a percussão que se segue é puro Running Up The Hill. E como negar que o canto de Blue Wine – que abre parecendo Enya – é bushiano até o fundo da laringe, especialmente quando ela canta os adjetivos?

Jessie Laine Powell atua no circuito de shows do estado de Kentucky há décadas. Sua voz granulada passeia bem quente pelo jazz, R’n’B e tem profundas raízes gospel. Seu álbum mais recente é Fill The void, lançado em maio. A intensa ligação religiosa – ela é filha dum missionário e começou cantando em igrejas – pode rechaçar quem entende inglês e não curte letras escancaradamente devocionais, como Make Me a Believer e Shalom. Em You´re OK – um dos melhores momentos vocais – ela canta sobre a diversidade divina de todas as formas de beleza.
Musicalmente, Fill The Void equilibra-se entre bossa nova, como Shalom e a regravação de Antonio’s Song, ode setentista a Tom Jobim com sua letra estereotipada que mistura frevo, Amazônia e samba. OK, se Tom não reclamou na época – imagine, amou! – pra que o faríamos? Cheio de covers, o álbum acerta e arrasa no piano de Round Midnight, mas a modéstia da produção é realçada em My Funny Valentine. Pra quem curte tecladinhos 80’s será paraíso, mas isso é sinal de escassez de verbas. Ainda assim, o vocal competente e a extensão – umas 2 vezes mais longas do que as de Sinatra e Ella Fitzgerald, por exemplo – dão interesse a uma canção que poderia ter voado muito alto com mais recursos de produção.
I Will Be Here For You é uma delícia de urban souljazz sobre alguém que estará lá pro que der e vier em clima que não desapontará saudosistas dos 70’s/80's. Lay It Down vem em 2 versões, uma delas apenas ao piano, embora a melhor seja a que tem arranjo mais tecladístico, especialmente se você é da época em que Anita Baker tocava em FM comercial. On The Edge disfarça bem seu caráter religioso - como trocentos sucessos negros ao longo dos tempos - em elegante mix que seria chamado de acid jazz há uns 15 anos.

Iyeoka Okoawo é multitarefas: cantora, poeta, palestrante, ativista e educadora. Natural de Boston, em julho lançou seu quarto álbum de estúdio, Gold, que afirma suas raízes africanas tanto em música, quanto em letra. Louvável autoidentificação que às vezes atrapalha a música, como na dancehallica abertura Who Would Follow, cuja letra nem sempre se encaixa na melodia provocando atropelos pra cantora de voz grave e cristalina. Sweet Song é falada, então fica um pouco entediante, ainda que nela aprendamos que Iyeoka significa “quero ser respeitada”. O desejo de controlar narrativamente sua história funciona bem melhor em Thunder, power baladaça quase digna dos áureos tempos de Phil Collins como importante no cenário pop.
A parte dançante de Gold é a pepita. Milk And Honey une guitarra funk a climão de buatchy. Se café sem açúcar mantinha Peggy Lee acordada pra amargar deprê, Iyeoka fica lôka de T com Black Coffee. A batida africana de Kola Nut e Akomem Of Udomi dá vontade de correr dançando pela savana ao mesmo tempo que se conscientizando sobre a tristeza africana.

Liberdade e afirmação da identidade negra e pessoal são temas também no sexto álbum de estúdio da sul-africana Lira, Born Free, lançado em março. Lira significa amor em sotho e sua voz é forte, mas cristalina. Born Free poderia ser mais curto; números como Listen e Let There Be Light nem são tão inspirados, mas tomam quase 13 minutos dum álbum que não se decide se é chique urbano ou mais voltado pra raízes. Dependendo de como se enxerga essa dualidade pode-se usá-la contra a mensagem de afirmação identitária da trip-hoppada Unique ou como celebração de diversidade; escolha.
Freedom e Born Free ressaltam muito bem o poder vocal de Lira, porque os arranjos são espartanos. Be About It mistura africanidade dançável a teclado de fundo geladinho. Os efeitos de teclado que soam como um Pokémon gay (pokemona?) murmurando ficariam mais legais se Brave Heart fosse balada um ‘cadinho mais curta. I Like You acerta bem mais que as baladas mais cumpridas. Em 4 min. e pouco cativa mais do que os 5 e pouco ou 6 das demais. Cumprimento não é documento, Lira.
A porção sophistipop me agradou mais, como Rhythm Of Your Heart e sua bossa-jazz-soul de vernissage. Sekunjalo e Vaya são delícias em sotho; a primeira é super Les Nubians e a segunda cheira a bossa-nova.
O arraso de Born Free é Let Go Sometimes, que por si só justifica você nadar até a África do Sul, se necessário, para ouvi-la. Letra de dor de amor por escolher o bofe errado, trompete, quase nível Sade; pra ouvir imaginando sofrimento, em lençóis de cetim vermelho.

domingo, 21 de agosto de 2016

SUPERANDO UM AVC

Apoio e amor da família ajudam no tratamento de Roberto Rocha, ex-comandante do Corpo de Bombeiros do Estado do Amazonas, que hoje supera um AVC.

sábado, 20 de agosto de 2016

SIAMESAS ALBINAS

Rara tartaruga albina é separada de irmã siamesa na Itália


  • Anton Dohrn Zoological/AP
    Uma rara tartaruga-cabeçuda albina nascida em Acciaroli, sul da Itália e lançada no mar
    Uma rara tartaruga-cabeçuda albina nascida em Acciaroli, sul da Itália e lançada no mar
Uma rara tartaruga-cabeçuda albina, que nasceu grudada à sua irmã, em Acciaroli, sul da Itália, foi lançada nesta terça-feira (16) no mar Mediterrâneo pelos biólogos da Estação Zoológica Anton Dohrn. 
Anton Dohrn Zoological/AP
Segundo o biólogo Fulvio Maffucci, é extraordinário que um dos filhotes tenha sobrevivido à separação.
De acordo com ele, a outra tartaruga siamesa não sobreviveu por estar pouco desenvolvida.
Anton Dohrn Zoological/AP
Após ser separada da irmã, a tartaruga se arrastou em direção ao mar, sem ajuda alguma.

ALBINO GOURMET 209

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

PAPIRO VIRTUAL 110

A cidade de Penápolis tem larga tradição no Mapa Cultural Paulista, programa da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo cujo objetivo é fomentar a produção cultural independente e promover a difusão de espetáculos de diversas linguagens artísticas com origem no interior ou litoral do Estado. Toda edição o município da noroeste paulista está presente em pelo menos uma categoria; muito frequentemente em mais de uma.
A vencedora do gênero poesia da edição 2015/2016 é a Juliana Costa, advogada de 29 anos, autora do livro de poesias "Retalhos de Tinta", de produção independente. Juliana gentilmente permitiu que eu reproduzisse o poema vencedor do mapa Cultural. Obrigado e parabéns, Ju!

Olho para o alto e vejo cicatrizes nas estrelas
Respiro fundo as cinzas dos meus pensamentos
Quanto calor na Terra do Nunca
E nenhum preço a ser pago pelo resgate

Ouço tambores, guitarras e flautas
Acordes na dança do acasalamento dos sonhos
E eles riem, eu rio, é engraçado, é terrível
Quanta loucura, meu Deus, por tão pouca cura

E quando despeço os sete demônios
Vão-se casas com paredes descascadas
Vão-se corpos com peles sangradas
Vão-se vidas com almas desgraçadas

Bata na mesa aqui. Bem aqui. Acabou.
No Juízo dos séculos faço minha sentença
E escolho as duras penas de olhar e contar
Estrelas ao redor das minhas cicatrizes.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CONTANDO A VIDA 159

Residente no Rio de Janeiro e atento às múltiplas implicações dos Jogos Olímpicos, nosso historiador-cronista avalia se compensou sediarmos o evento. 

LIÇÕES OLÍMPICAS!...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Mas, valeu a pena? A resposta bem que poderia vir na rima fácil alvitrada por Fernando Pessoa “tudo vale a pena/ se alma não for pequena”. Indo, contudo, além do fugidio apelo poético, repete-se a questão: teria valido a pena o esforço para hospedar as Olimpíadas no Brasil, em particular na conturbada Rio de Janeiro, neste tempo de crises acentuadas? “O tempo dirá”, seria outra resposta cabível. Se o estímulo imediato apressar avaliações, porém, devo dizer enfaticamente que sim.  Aliás, seria cabível afirmar – no tempo presente dos jogos – que está valendo o esforço formidável que, afinal, envolveu toda a população exigindo sacrifícios enormes, principalmente na circulação urbana. Foram anos seguidos de reclamações, desvios de rotas e incertezas dos resultados. Alguns estereótipos comumente atribuídos à nossa suposta prática de deixar tudo para a “última hora” se juntaram aos cortes de verbas e à escandalosa corrupção que drena muito mais que verbas públicas. Nesse quesito, diga-se, merece referência, inclusive, o fato de o ex-presidente da Eletronuclear, vice-almirante da Marinha Othon Luiz Pinheiro da Silva, ser condenado a 43 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa. Pois é, mesmo os militares tão garbosos do suposto padrão honestidade se viram complicados levando junto a moral da Marinha do Brasil. Tais fatores combinados somados inclusive ao envenenado ambiente político geral, equivaleriam ao pessimismo que condenaria a legendária produção a um “não vai dar certo” ou simplesmente “erramos”.
Qualquer viés analítico, por elementar que seja, há de costurar o desenvolvimento do projeto inicial no tecido sócio-político que vivenciamos com presidenta afastada e outro, interino. E isso não é pouco, em particular se contarmos a sucessão vertiginosa de fatos calamitosos que se multiplicam tendendo ao infinito. E tudo começou lá atrás. Há alguns anos, em 2007, quando da matrícula do projeto vencedor, contava-se com intenso apoio popular. Começava então a maratona administrativa que acompanhou, desde 2008, a virada do quadro. Vivíamos o reino do otimismo e da esperança que se traduzia, inclusive internacionalmente, na diferença entre o primeiro e segundo colocados na lista de escolha. A diferença entre o Rio de Janeiro e Madri foi enorme, de 66 votos contra 32 e isso mostrava a confiança do mundo em nós. Ironicamente, a contagem regressiva invertia, mundo afora, os devaneios cultivados.

Seguindo a máxima que professa a validade do tamanho dos sonhos dilatados, os nossos eram exagerados: despoluir a Baia de Guanabara, ampliar a malha metroviária até a Vila Olímpica na Barra, construir a coleção de prédios e instalações para os jogos, caracterizar novos espaços e recuperar estádios, modernizar o centro com a revitalização de áreas decadentes, controlar a bandidagem, melhorar as condições de aeroportos... Nossa, era muita coisa. É verdade que nem tudo foi realizado, mas muito se conseguiu. E, apesar de reclamações pontuais, o conjunto é muito bom. De toda forma, pergunta-se em complemento: qual o maior legado das Olimpíadas? E as respostas se alinham facilmente: a solenidade de abertura deixou memória positiva. Foi linda, quase irretocável. É verdade que o presidente interino não nos representou adequadamente e parecia peça fora de lugar, sem desenvoltura e até foi vaiado - mas dele pouco se esperava em termos de aceitação pública. Bom mesmo foi ver a medalha da atleta Rafaela Silva, perfeita até no nome popular, pois ela conseguiu juntar o entusiasmo das pessoas em geral com a possibilidade de superação. Vejam, estou valorizando os feitos materiais, patrimoniais, físicos, mas, muito mais o legado moral que nos coloca em situação privilegiada, de esperançosos. As Olimpíadas estão valendo por nos ativar a memória do que somos em essência capazes de fazer festa, mesmo nas dificuldades. A lição maior, pois vem de baixo, das camadas que nos integram como país injusto. Se uma moça de comunidade que recebeu “bolsa-atleta” conseguiu provar que o apoio às bases é capaz de gerar orgulho nacional, imaginemos um Brasil inteiro se ajudando a fazer a festa da democracia. As Olimpíadas do Rio ativam positividades que se esparramam no chão histórico de nossa cultura. É verdade que fizemos festa para os outros, mas o prato principal foi servido a partir do que temos de melhor: a crença de que, seja qual for o impedimento, não deixamos de construir nossa identidade no sonho.   

terça-feira, 16 de agosto de 2016

TELINHA QUENTE 225

Roberto Rillo Bíscaro

Continuar acertando o passo com a esnobada década de 90. Ter episódios com tramas e elenco diferentes pra não monotonizar e ter gostado bastante do original sessentista foram decisivos pra que eu não demorasse tanto em ver as 7 temporadas (1995-2002) da reedição d”A Quinta Dimensão, pelos canais Showtime/SyFy. Em abril do ano passado, publiquei a resenha das 2 temporadas originais
Com muito mais episódios do que sua predecessora – 154 contra 49 – The Outer Limits colorida mantém o narrador dizendo que assumiu o controle do aparelho de TV blá, blá, blá (eu acelerava a imagem, hoje quem tem saco pra intro longa?) e suas lições de moral pseudofilosóficas no começo e no fim. Elas servem pra estabelecer o tema da história, mas muitas são tão simplistas e moralizantes que dá vontade de rir/chorar. Aliás, a carolice messiânica do destino manifesto anglo-saxão azeda diversos episódios.
Embora tenha ETs e monstros em quantidade, a ênfase no formato “monstro da semana” não mais se justificava nos 90’s, então os temas diversificam-se, se bem que lá pela sétima temporada já se repetiam em essência. Alguns traços permanentes nos roteiros indicam que o exército e o governo são sempre inimigos do povo e que quando o cientista/a ciência quer brincar de Deus algo sairá horrivelmente errado. O mito de Prometeu grita alto. Muitos episódios lidam com viagens temporais, nas quais dependendo do roteirista, o fluxo do tempo pode ou não ser alterado.
Algo legal de se assistir em sequência cronológica e sem muito espaçamento entre um show e outro é perceber correlações entre episódios e até personagens. Elas jamais interferem na independência das histórias, mas uma equipe futurística que se empenha em corrigir desastres históricos aparece mais de uma vez. Não sei como não virou spin off. Mais ao final de cada temporada, episódios usam imagens de outros – correlatos ou não – como se fossem miniantologias.
Dadas as especificidades históricas e de produção, não entrarei no jogo de comparar as 2 encarnações, até porque essa noventista não refilmou quase nenhum episódio de sua genitora branco e preta. Dá pra ver as 2 numa boa e curtir muito, se você é fã de ficção-científica pop.
Talvez pela produção ser parcialmente canadense, foram sucessivos episódios, dos quais eu nem fazia ideia de quem eram os atores, mas reconheci alguns ao longo do caminho. Sempre lembrando que esse jogo de identificação de rostos familiares é totalmente subjetivo; geralmente anoto quem já apareceu em alguma resenha, mas também vale querido que não. Quem (ainda) não significa nada pra mim, tipo Aly Sheedy ou Molly Ringwald, que um dia foram alguém, mas não pra moi, nem entra na brincadeira:

Robert Foxworth, o Chase Gioberti da soap oitentista Falcon Crest apareceu como presidente dos EUA num episódio excelente e tenso pra burro, sobre alienígenas vindo em direção à Terra. Seriam amigos ou hostis? Da decisão do recém-empossado presidente dependeria o planeta.
Bonnie Bedelia, a Camille Braverman, de Parenthood, num episódio meio moroso sobre descompasso temporal impedindo contato entre 2 ex-amantes.
Sheena Easton já acabada como pop star em um episódio chamado Falling Star (ouch!) sobre uma estrela pop apagando que recebe visita duma fã dum futuro sombrio e que pode lhe render nova chance de significar algo, ainda que de modo inesperado. Nunca tinha visto a Modern Girl atuando, foi digno; recomendo a entusiastas oitentistas.
Michael Gross, o Steve Keaton de Caras e Caretas, que, pelo brilho peculiar da lua percebe que o sol deve ter se tornado supernova e por ser a última noite do planeta, tenta fazer tudo o que não teve coragem, no caso, propor casamento pruma colega e quebrar vitrines pra roubar anéis. Episódio não decide se é história de amor ou cine-catástrofe.
Harold Gould, o Miles (namorado de Rose Nylan) de Supergatas, num episódio poético em que idosas tem segunda chance de procriar, mas desde que seja por amor. No fundo da superfície, é moralista: sexo só com amor.
Victor Garber, o chique vilão Robert Bowers, da fracassada Deception, no episódio Out Of Body, vivendo o marido amantíssimo duma cientista que pesquisava se coexistimos em diferentes dimensões. No fim, é pra provar que temos alma e ciência e tecnologia estão a serviço dum ente superior. Sci fi usada pra provar o improvável. Ele trabalha em outro no qual é um cientista malvado que persegue um androide de uma série de robôs que não sabiam que eram cibernéticos. Os maus tratos infligidos pelos humanos aos robôs são recorrentes, resultando em histórias provocativas e possíveis de estabelecer paralelos com temas como escravidão e neocolonialismo.
Fred Savage, o Kevin Arnold de Anos Incríveis, numa história envolvendo mulher que sobrevivera à Peste Negra e mantinha-se viva, imune a doenças e envelhecimento séculos depois. A estelaridade de Fred já era, porém: os protagonistas são a moça e o pai, que a conhecera anos antes, quando servia o exército, que a perseguia porque queria descobrir a fonte da eterna juventude. Adoro histórias sobre deslocamentos temporais.
Daphne Zuniga, a Joe de Melrose Place e Joel Grey, o demônio que leva JR Ewing ao pseudossuicídio, num episódio num mundo pós devastação biológica, onde as autoridades tentam controlar as emoções, outro tema recorrente. Pode-se acusar The Outer Limits de tecnofóbico muito frequentemente. Por outro lado, há que lembrar que o subgênero que mais diretamente lida com ciência é a ficção científica, então, é mais normal que a desconfiança com relação a ela sinta-se mais nessas produções do que num western.
Joseph Gordon Levitt, antes de ser ET em Third Rock From the Sun, participou de um episódio onde agentes do governo caçam aliens infiltrados na Terra, um deles perigosamente perto do jovem. Gente, aqueles óculos-escuros e o sobretudo balançante gritam MATRIX!
Laura Leighton, a maluquete Sidney (amava!) de Melrose Place  numa historinha muito bem bolada: ela morre, mas descobre que dentro dela havia traços duma gêmea siamesa sacrificada pra que pudesse nascer. Quer ideia mais melodramática trash?

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

ALBINISMO NA ESCÓCIA


Ellen Renton
Brasileiros, tendemos muitas vezes a pensar que qualquer lugar na Europa, EUA, enfim, “Primeiro Mundo”, seja melhor que aqui. Traduzi o relato de uma estudante universitária albina da Escócia para sentirmos como as coisas são por lá.

“Olha o Cabelo Dela!” – Eu Gostaria Que o Albinismo Não Atraísse Olhares.

Ellen Renton
(Tradução de Roberto Rillo Bíscaro)

A maioria dos estudantes não imagina quão dura pode ser a vida universitária, se você é uma pessoa com albinismo. O Dia Mundial de Conscientização do Albinismo (11 de junho) nos dá a chance de contar nossas histórias e mudar atitudes.
Recentemente, enquanto me dirigia à biblioteca, um estudante gritou bem alto “olhem o cabelo dela!”, quando passei por ele. Quando se tem albinismo – como eu – a universidade pode ser um desafio.
A condição afeta uma em cada 17 mil pessoas no Reino Unido. Tenho albinismo oculocutâneo tipo 1, o que significa que não possuo nenhum pigmento em meu cabelo, pele e olhos. Isso também afeta minha visão.  
Na universidade, frequentemente encontro pessoas que sabem muito pouco sobre a condição. Muitos perguntam na lata, como consegui tingir meu cabelo de tão branco e porque meus olhos não param de se movimentar para os lados (um sintoma do nistagmo). Outros possuem concepções errôneas, baseadas em mitos e na má representação pela mídia e então me questionam porque meus olhos não são vermelhos.  
Ao invés de insultos, precisamos de apoio e maior conscientização na universidade. Meus olhos incham e cansam de ler todos os livros exigidos pelo meu curso de literatura inglesa. Também tenho dificuldades em participar de debates em classe, porque não enxergo os rostos de meus colegas. Aprendi a adaptar meus hábitos de estudo, porém. Uso tecnologia que permite aumento de fontes e recorro a ajuda do serviço da universidade que auxilia deficientes, quando necessito.
Outros aspectos da vida universitária são mais difíceis. Mudei-me para um apartamento em uma cidade nova e mesmo tarefas aparentemente simples pareceram árduas nos primeiros meses. Cozinhar era complicado devido a instruções ilegíveis tanto no fogão, quanto nos produtos.  Também tive que procurar bastante por lugares mais calmos para cruzar ruas – tarefa muito difícil, porque não consigo ler placas ou ver o tráfego vindo em minha direção.  
Como todo mundo, sou disposta a aproveitar ao máximo todas as oportunidades sociais da universidade, mas às vezes tem sido duro. Muitos estudantes mencionam a semana dos calouros como o ponto alto de sua época de universidade, mas a quantidade de luzes na minha cara e perguntas insensíveis dão-me sensação diferente.
O problema não é só meu. “A universidade é pensada para os alunos sem deficiência, então, muitos eventos são inacessíveis para mim”, queixa-se Eva Doherty Roe, aluna do segundo ano de francês e cinema da Universidade de Glasgow, que também tem albinismo. “Além disso, é realmente desconfortável ter que explicar sobre sua deficiência visual e como ela te afeta, durante a primeira meia hora, quando você conhece alguém”.
A ONU decretou o dia 13 de junho como Dia Mundial de Conscientização do Albinismo, a fim de promover educação global sobre a condição e reduzir o estigma que a cerca. Isso é necessário, porque pessoas com albinismo enfrentam discriminação sob muitas formas:  desde o “albino malvado” dos filmes de Hollywood até os ataques a pessoas com albinismo para rituais.  
Só quando me tornei estudante, percebi a enormidade da tarefa enfrentada pelos ativistas da causa albina e a importância da conscientização global. Cresci com um monte de perguntas rudes e gente encarando e não achava que teria que lidar com isso também na universidade, além de meus desafios físicos.

O slogan para o dia de conscientização deste ano é “celebre a diversidade, promova inclusão, proteja nossos direitos”. Acredito que como lugares de aprendizado e riqueza cultural, universidades são perfeitas para que uma mudança de atitude com relação às pessoas com albinismo comece. 

CAIXA DE MÚSICA 231


Roberto Rillo Bíscaro

Após o Natal de 2014, um companheiro de trabalho, sua filha e eu partimos de carro a Buenos Aires; pendrives repletos de música pros dias de viagem. No de Bia, um som ao vivo chamou minha atenção: MPB desconhecida. Ela explicou que era o 5 a Seco. Fiquei de pesquisar assim que regressasse a Penápolis, mas como isso ocorreu quase um mês depois, esqueci. Passou-se mais de ano até que ouvisse Policroomo, que já estava no mercado há uns 4 meses, quando da ida automobilística à capital hermana.
O paulista 5 A Seco é formado por Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Tó Brandileone e Vinícius Calderoni, que se revezam nos vocais, tocam tudo e compõem. Policromo é MPB pós-Festivais dos anos 60/70 feita por quem cresceu nos anos 80/90. Por isso, tem tudo pra agradar diversas gerações.
Ouça Épocas e veja se aquela guitarra não vem do pós-punk britânico tão popular nos 80’s. A gelidez dela contrasta com a intensidade do resto do arranjo e do vocal. Pra geração crescida depois da ditadura, quando muito pode ser falado, o “foda” da letra não deve chocar como àqueles da época dos Festivais.
O “foda” reaparece em Fiat Lux, que mistura cultura erudita latina com rua hip-hopada. O início remete a sambas-canção de outrora, aqueles que mandam a pessoa seguir seu caminho. Mas daí moderniza e o vocal incorpora táticas de rap e um “caralho” na letra, mas não como forma de ofensa ou sexualização. Há décadas Caetano chocou dizendo estar de saco cheio numa letra; hoje é hora de foda e caralho fazerem parte de letras “sérias”.
Em Eu Amo Djavan, a gozação carinhosa com aquelas letras de MPB difíceis de compreender (“cantar é tão bom, entender pra quê?”) se autorrepete. Usando oitentistas ilariês e oblesquibons com mais antigos tongas de mirongas e nomes dadaístas, a letra assume a mesma pose de literata (pop) da moça que diz que não dança poperô (será que os meninos de hoje sabem que a palavra veio do megahit Pump It Up, do belga Technotronic?).
Som de meninos transurbanizados pra público igualmente saturado de influências díspares, o 5 a Seco injeta rock no clima nordestino-retirante de Você e Eu e no afro de Nem Tchum.
Necessário que a MPB se transforme – e isso nunca parou – e o 5 a Seco precisa lançar mais álbuns pra pintar mais cores nessa mistura de pop com nossas tradições.

Inteiro no Youtube:

domingo, 14 de agosto de 2016

A SUPERAÇÃO DA JUDOCA RAFAELA SILVA

Rafaela Silva é a melhor do mundo
(matéria publicada em agosto de 2013, na ISTOÉ 2016)
Michel Alecrim
Na parte interna do braço direito, a judoca Rafaela Silva tatuou a seguinte frase: “Só Deus sabe quanto eu sofri e o que fiz para chegar até aqui”. Os atletas gostam de dizer que passaram o diabo para alcançar o topo – a maioria passou mesmo –, mas para Rafaela o desabafo cravado na pele não poderia ser mais apropriado. Ela cresceu na Cidade de Deus, favela na zona oeste carioca que teve sua dura realidade exposta pelo escritor Paulo Lins, e viu muita coisa ruim acontecer. Sorte que a violência da comunidade jamais chegou dentro de casa. O pai é um motorista dedicado e a mãe ganha a vida numa daquelas mercearias de periferia que vendem de tudo. Rafaela fez a tatuagem depois da desclassificação precoce nas oitavas de final dos Jogos de Londres, no ano passado, derrota especialmente dolorida porque a brasileira estava na lista de favoritas ao título. Disseram, na ocasião, que ela não tinha a frieza necessária para uma competição daquele porte. Que tinha perdido a humildade. Que jamais chegaria ao olimpo das campeãs. Nada disso era verdade. “A eliminação em Londres não me derrubou”, diz Rafaela. “Acho até que fiquei mais forte.”
No final de agosto, em um Maracanãzinho lotado, no Rio, ela se tornou, aos 21 anos, a primeira brasileira campeã mundial do judô. Apesar da espetacular ascensão, Rafaela não abandonou a CDD, sigla usada pelos moradores para se referir à favela. Afinal, é ali que moram seus amigos e parentes. Uma boa justificativa para isso é que a casa dos Silva fica a poucos metros do local onde a judoca treina. Rafaela é uma revelação do Instituto Reação, comandado pelo ex-judoca Flávio Canto, que tem um núcleo na academia Body Planet, de Jacarepaguá, próximo a um dos acessos da comunidade. A casa dela tem três quartos e foi construída pelos pais, que antes moravam de aluguel em outra parte da Cidade de Deus. Por fora, a arquitetura improvisada não difere muito das residências típicas de periferia. Para chegar ao endereço, no alto de uma ladeira, é preciso subir uma escada íngreme sem corrimão. Parte do que a lutadora conquistou pode ser vista na residência, decorada com placas e troféus amealhados por ela. Rafaela foi vice-campeã mundial adulta, em 2011, e campeã do Mundial sub-20, em 2008, entre outras glórias. Com as vitórias, vieram os patrocinadores. Com eles, algum dinheiro.
Rafaela ajudou a família a reformar parte da casa e comprar eletrodomésticos. Além de um som potente e geladeira, se deu ao luxo de adquirir uma segunda máquina de lavar. Na família há outra judoca, a irmã Raquel, 24 anos, que chegou a ser medalhista de prata no Mundial de Lisboa, em 2009. O pai delas, Luiz Carlos do Rosário Silva, 50 anos, lembra com clareza como conheceu o treinador Geraldo Bernardes, em 2000, quando Rafaela tinha 8 anos. Na época, Geraldo estava implantando o judô na academia Body Planet, que só três anos depois se tornaria parceira de Flávio Canto. “Precisava tirar minhas filhas da rua e vi que tinha sido aberto um projeto social aqui perto”, diz Rosário Silva. “Nem imaginava que ela iria um dia competir pelo Brasil.” Apesar de a família não esperar muita coisa do projeto, o técnico Geraldo percebeu de imediato que seria um desperdício não dar atenção especial às irmãs. Rafaela levou vantagem por ter começado a aprender judô mais nova, e uma gravidez aos 15 anos prejudicou a carreira de Raquel. “Vi que a Rafaela tinha a agressividade e a coordenação motora naturais para a luta”, diz o técnico, que comandou a equipe brasileira de judô nos Jogos de Sydney-2000. “Depois descobri que essas habilidades foram adquiridas na rua.”
A desenvoltura era mesmo fruto de uma infância inquieta. Rafaela jogava futebol com os meninos, pulava muro, subia em árvores e soltava pipa. Difícil era segurá-la em casa. Quando tinha 5 anos, já participava das aulas de judô do chamado Clube Escolar, um projeto da Associação de Moradores da Cidade de Deus. No lugar, não havia como aprender direito as técnicas da luta, mas as primeiras lições ajudaram a disciplinar Rafaela. “Na época, ganhei um quimono usado que era maior do que eu.” Não foi só o improviso do projeto da associação que impediu um aprimoramento maior da garota. Àquela altura, a favela era dominada por traficantes e a população vivia refém de bandidos, em constantes tiroteios. Rafaela lembra que, quando tinha guerra do tráfico, ninguém podia treinar. Os dias de terror, felizmente, ficaram para trás. Desde 2009, a comunidade conta com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A violência não foi totalmente varrida dali, mas o policiamento já permite aos moradores exercerem seu direito de ir e vir.
Os avós de Rafaela foram morar na Cidade de Deus no início da década de 1960, depois que a casa em que moravam na favela da Rocinha foi condenada pela Defesa Civil. Na CDD, viram de perto o aumento da violência. . “Aqui já foi um lugar muito estigmatizado”, diz Sérgio Luiz Silva, tio da campeã mundial. “A gente precisava dar outro endereço para conseguir emprego.”
Para o técnico Geraldo Bernardes, não é à toa que tantos talentos do judô desabrochem em comunidades pobres como a Cidade de Deus de Rafaela Silva. Só o instituto de Flávio Canto, com cinco polos voltados para crianças carentes, tem três atletas na seleção principal e seis nas categorias de base. O projeto atende ao todo mil alunos. “A pessoa que já luta pelo seu espaço e pela sobrevivência acaba levando essa garra para o tatame”, diz Bernardes, considerado um segundo pai na vida da judoca.
A garota que soltava pipa nas ruas da Cidade de Deus está na seleção brasileira desde os 13 anos. Aos 15, venceu o Mundial Júnior, mesmo enfrentando atletas três anos mais velhas. Atualmente, Rafaela ocupa o segundo lugar no ranking mundial da categoria para até 57 quilos e sua faixa preta já leva o segundo dan (graduação superior). A judoca também atribui seu sucesso ao acompanhamento psicológico que recebe. Tanto que decidiu estudar psicologia – está no primeiro período do curso no Centro Universitário Celso Lisboa. “Quero ensinar às meninas mais novas o que eu aprendi”, diz. “O equilíbrio mental me ajudou muito.” Se o acompanhamento psicológico auxilia a judoca a se concentrar na hora das lutas, não foi o suficiente para vencer a timidez.
Rafaela é de respostas diretas como seus golpes, mas prefere as frases curtas. Para esta reportagem, ela só descontrai quando brinca com a cachorra Moly, da raça pug, um de seus xodós. Apesar de não perder uma festa dos amigos da academia de judô, não é de se requebrar na pista de dança. “Na balada, a Rafaela sempre fica na dela”, diz o amigo Sérgio Souza, 20 anos. A família dela é majoritariamente evangélica, mas a campeã mundial foi poucas vezes à Igreja Assembleia de Deus Vai Agir, frequentada pelos pais. “Rezo sempre antes de dormir e na hora da luta”, diz a lutadora. A principal preocupação da mãe, Zenilda Lopes da Silva, 42 anos, é com a segurança da filha. Rafaela tem um utilitário esportivo Captiva e faz questão de deixar as amigas em casa depois das festas de madrugada. “Como ela é a única do grupo que não bebe, acaba se responsabilizando pelas outras”, diz Zenilda. Como se não bastasse, Rafaela ainda surfa no mar da Barra da Tijuca, nos fins de semana de sol.
Apesar da energia à toda prova e de, no mundo das aparências, ser uma fortaleza intransponível, Rafaela tem a alma doce e sensível. Depois de derrotar a americana Marti Mallori em menos de um minuto de luta, ela chorou ao vencer o Mundial no Maracanãzinho. Nos Jogos de Londres, também se debulhou em lágrimas ao perder para a húngara Hedvig Karakas. Na interpretação do árbitro, ela deu um golpe irregular ao puxar a perna da adversária. “Vi homens fazerem coisa parecida e não serem eliminados”, diz. “Agora pelo menos evito esse tipo de golpe.” Difícil mesmo foi suportar os comentários racistas feitos por internautas nas redes sociais após a eliminação. A vontade era, claro, de agredir aqueles imbecis, mas ela manteve a compostura, talvez um dos ensinamentos mais valiosos do judô. “A Rafaela sempre foi diferente”, diz Flávio Canto, um de seus mentores. “Em todos os meus anos de judô nunca vi nenhum atleta com a mesma vontade. Ela foi, de longe, a que mais gostava de competir.” As adversárias sempre temeram sua determinação. Aos 12 anos, quando foi disputar um torneio, Rafaela chorou porque nenhuma menina queria lutar contra ela, com medo de enfrentá-la. Forte, destemida, agressiva, teve muitas vezes que treinar com garotos. Ainda hoje, no Instituto Reação, ela enfrenta os homens de igual para igual.
O sucesso da judoca está estimulando novas adesões de crianças e adolescentes ao esporte, principalmente de meninas. “A história dela vai resgatar muitos jovens de comunidades carentes como a que Rafaela vive”, diz Paulo Wanderley Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Judô. “Depois do Mundial, já tivemos uma resposta muito positiva das academias”, afirma Ney Wilson, coordenador técnico da seleção brasileira. Além de Rafaela, o bom desempenho geral do judô feminino tem atraído garotas para um esporte até pouco tempo atrás essencialmente masculino.
A medalha de ouro da piauiense Sarah Menezes em Londres-2012 também surtiu efeitos positivos. “No Instituto Reação, já temos uma média de 35% de meninas nas aulas”, diz Canto. Para Rafaela, a vida mudou depois do Mundial. Nas ruas da Cidade de Deus não dá mais para fazer molecagens sem ser reconhecida. O assédio de clubes interessados em contratá-la também aumentou, mas ela se mantém fiel às origens. “Prefiro continuar no instituto”, diz a campeã mundial “Isso aqui é a minha casa.”

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PAPIRO VIRTUAL 109

Hoje nossa seção de literatura apresenta o trabalho de Luiz Claudio Tonchis, professor e gestor escolar. Trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS e pela Universidade Federal Fluminense (MBA). Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

Além do Tempo

O tempo não “vai”.
O tempo não “vem".
O tempo não “passa”.
Quem passa somos nós,
No tempo.

O que é o tempo?
Se o passado já não existe mais,
O presente passa de repente,
O futuro não é permanente
E só existe o tempo da gente?

O tempo tem fome,
O tempo consome,
O tempo te come.

E, além do tempo,
Só existe o que ficou para sempre.


Prosa em Verso: A palavra delira

Eu quero dizer uma coisa, mas não posso sair dizendo por aí...
E nem adiantaria dizer, pois só palavras não dizem nada...
Palavras são, muitas vezes, signos soltos no vazio.
A palavra não sabe o que diz, sequer sabe que fala...
Ela nada entende, a palavra.
Para o essencial, a melhor palavra é o silêncio.
Aliás, muita coisa só pode ser dita pelo silêncio...
E pelo silêncio pode ser compreendida.
São os ouvidos da alma, é lá
Onde pode ser captada a essência da vida,
É lá, onde pode ser encontrada a verdade, se é que ela existe...
A palavra é louca, a palavra delira!