quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

CONTANDO A VIDA 222

O PIADISMO POLÍTICO E AS LIÇÕES DO QUARUP.

José Carlos Sebe Bom Meihy
Para Paulo Pereira
          
Em meio a tanto trabalho intelectual e condução de projetos acadêmicos, frente a viagem profissional, para variar um pouco, optei por escolha de romances. Juntei com cuidado alguns volumes que achei de leitura conveniente, coloquei-os na mala e atravessei o hemisfério. Foi bom chegar e tirar da bagagem livros de Machado de Assis, Cony, Clarice e Callado. Pronto, nas horas vagas, teria combustível para uma boa batalha de revisão crítica, literária e prazer de releituras fecundas. Com a certeza de que ninguém passa impune por uma seleção dessas, ao cabo da leitura de “Quincas Borba”, de Machado de Assis, escrevi uma crônica “Ao vencedor as batatas”. Minha proposta era simples: transpor o mote da vitória dos mais fortes, para a crítica discursiva sobre a derrota do recurso de Lula em janeiro último. Só isso. Não pretendia defender ninguém. De forma alguma, até porque as estatísticas eleitorais são eloquentes. Minha perplexidade corria por conta de outros autores, alguns teóricos, em particular de Noam Chomsky. Pois bem, o texto foi publicado e, por um comentário em especial, percebi que não me fiz entender adequadamente. Isso me preocupou, posto ter optado por também me referir, na mesma linha da abordagem anterior, pelo filtro de outro autor, tendo como pretexto o “Quarup”. Pensei, e mesmo temendo repetir dissonância, resolvi ir em frente, a exemplo da valentia de Antonio Callado – que foi preso duas vezes, perseguido, exilado e torturado pela ditadura. A homenagem àquele exemplo, exigia que eu fosse em frente. Assumindo ser mais claro, dei continuidade a proposta inicial. Optei por seguir o mesmo esquema: falar um pouco do conteúdo e destilar ideias de fundo ético ou moral.

Ainda que muitos não considerem “Quarup” entre os melhores livros de Callado, figura como um dos meus favoritos. A história, publicada em 1967, se passa entre 1950, segue até o golpe militar de 1964 e seus primeiros desdobramentos. O personagem central é um atormentado padre que, por fim, deixa a batina para entrar na luta armada. A tensão extraordinária gerada pelas aventuras de Nando mostra a complexidade das personalidades divididas entre projetos salvacionistas, a frustração utópica e o desregramento ou desmontagem da crença política. Na saga que se desenrola rápida e perfilada por acontecimentos históricos – a criação do Parque Nacional do Xingu, o atentado a Carlos Lacerda, o Golpe de 1964 –, ainda no mosteiro, o noviço se apaixona por Francisca, moça linda, rica e noiva de Levindo. Atormentado por fantasias, para fugir dos pecados, opta por viver entre os índios do Xingu, não sem antes ter caso ardente com uma jovem inglesa, Winifred. Ainda religioso, viveu também um turbilhão no mundo de drogas, álcool e sexo clandestino. Nando, apesar de tudo, prosseguia em sua missão, e por fim, já liberto do sacerdócio torna-se guerrilheiro. Sua obsessão por Francisca continuou e teve lances próximos de uma tragédia. Toda trama, porém seria explicada segundo a cadência da crescente repressão do governo ditatorial. Grande parte da história tem a floresta como espaço simbólico de um Brasil metaforizado pela barbárie política.

A par do movimentado enredo, a atenção cuidadosa dada por Callado a um festival dos indígenas do Xingu, o Quarup, é comovente. Entre tantos detalhes do complexo cerimonial, alguns são dignos da melhor antropologia, e, com destaque, tem-se a descrição do “huka-huka”, luta muito rápida que ocorre no meio da celebração dirigida aos mortos – este, aliás, é o mais importante evento dos indígenas do Xingu. O enternecedor na luta é que o vitorioso não pode humilhar o adversário. O respeito pela dignidade alheia, pela sua integridade física, é a regra sagrada. Tal postura, diga-se, eleva o ganhador à condição de deferência e à qualificação do mérito da vitória frente a comunidade. É exatamente sob a atmosfera dessa narrativa que penso nas lições oferecidas por Callado.

Confesso que ando esbarrando na depressão sociológica. Quando vejo em listas das redes sociais as piadas deferidas contra os perdedores, fico inquieto e indeciso entre a surpresa e o desengano. Levo em conta nesses casos, a procedência de quem posta as tais mensagens e assim sofro ainda mais. E então me perco em mim mesmo, pois não é raro, identificar que as mesmas pessoas mandam “bons dias”, falam de anjos, emitem notas em campanhas beneficentes. Tenho que admitir que há um toque de humor na intenção das pessoas, mas quando vejo os desdobramentos, em particular os comentários reforçando sátiras dispensáveis, admito que, definitivamente, não entendo mais o mundo.

Ainda bem que Callado escreveu “Quarup”. Ainda bem que mesmo tendo que admitir a força da distopia eu possa pensar que em algum lugar da selva brasileira existe um ritual de luta e de respeito. Ah!... Que bom seria se pudéssemos reinventar o Brasil e aprender com os índios que mais importante que vencer, é não se vingar, e se engrandecer com a vitória sobre o outro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

TELINHA QUENTE 297


Roberto Rillo Bíscaro


Dia 19 de janeiro, a Netflix adicionou produção própria de suspense/horror a seu catálogo: Vende-se Esta Casa, escrito e dirigido por Matt Angel e Suzanne Coote e estrelado por Dylan Minnette, o sofredor Clay, de 13 Reasons Why. Parece que o ator está se especializando em sofrência, porque aqui também come o pão que o diabo amassou. O problema é que para o telespectador, o alimento está murcho.

Depois de ver seu pai ser atropelado, Logan e sua mãe não têm mais dinheiro e topam passar temporada numa enorme casa isolada no frio norte estadunidense. A propriedade é da tia de Logan e está à venda, por isso, de vez em quando ele e a mãe teriam que desocupá-la para que potenciais compradores (ou curiosos...ou mal intencionados...) o visitassem, daí o título original, The Open House. Coisas estranhas começam a acontecer na casa, especialmente após a primeira dessas visitações. Será que alguém ficou lá? Será fantasma? Será que mãe ou filho está perturbado e surtou psicoticamente? Ou será só promessa, que no fim não se cumpre? Aposte nesta alternativa.

Vende-se Esta Casa é inteiramente composto de clichês de diversos sub-subgêneros do suspense/horror, nas suas variações de filmes de casa mal-assombrada; home invasion films, além das pequenas cidades povoadas por gente esquisita. Vende-se Esta Casa nem mostra a cidade, embora um indivíduo diga que há muitas crianças lá. Onde, se nem casas vemos?!

Tem porão labiríntico; escada com degrau quebrado, cujo defeito é convenientemente esquecido logo depois; e, sobretudo, um par de personagens bem estranhos, mas típicos de filmes assim: a velha vizinha amigavelmente intrometida e o bofe simpático, sempre pronto a oferecer ajuda e presente em encontros acidentais. E qual a função dramática deles? Se alguém descobrir, me conta. É tudo apenas clima: é celular e cumbuca com pipoca que desaparecem, é silhueta sinistra e é lentidão narrativa.

No ato final, tudo se acelera. Na falta de algum grande desfecho, apela-se para a velocidade e um minuto de tortura, afinal, vivemos em um mundo pós-Jogos Mortais, então essa influência se mistura com a de Os Estranhos. Quem não tiver dormido até então, ouvirá som de dedos quebrados.

Vende-se Esta Casa não tem fim decente e despreza possíveis caminhos para os quais aponta. Por que afirmar que o pai não se preocupava com a família, mas não provar ou ter efeito na trama? Por que criar uma mulher que parece fantasmagórica para nada?

Por que a Netflix investiu em roteiro tão fraco, ao invés de usar a grana para incorporar a seu catálogo produções independentes de horror, bem superiores a Vende-se Esta Casa?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

AJUDA ESPANHOLA

Crianças albinas da Tanzânia poderão ver a vida de uma nova forma


As crianças do centro para albinos de Kabanga nunca tinham ido ao oculista. Graças a uma iniciativa espanhola, poderão agora ter óculos adaptados aos seus problemas visuais, comuns entre os que apresentam esta condição.

A Fundação Rota da Luz, promovida pelo grupo espanhol de ópticas Cione, levou a esta cidade do noroeste da Tanzânia, perto da fronteira com o Burundi, três oftalmologistas espanhóis, Arturo Casas, Marisa Galdón e Beatriz Jiménez, que durante dez dias ajudaram os 107 meninos e meninas albinos que vivem no refúgio de Kabanga.

Neste país da África Oriental, os albinos foram desde sempre vítimas de perseguições, devido a crenças tradicionais que continuam até aos dias de hoje. Em 2015, os dados registados mostram 76 denúncias por mortes de crianças e adultos albinos, enquanto outros 69 foram vítimas de ataques. 19 meninas albinas foram vítimas de violação.

A Tanzânia é o país com maior concentração de albinos, algo que se deve, segundo algumas teorias, à bigamia. Os albinos africanos, que já enfrentavam uma situação muito complicada com uma expectativa de vida de entre 25 e 30 anos, viram em 2006 como os feiticeiros tanzanianos expandiam a crença de que comer um albino pode trazer sorte.

Desde então, foram registados assassinatos, mutilações e sequestros para extrair partes de corpos para elaborar poções. O governo decidiu entretanto criar centros de protecção para defender e tentar cobrir necessidades básicas dos menores com albinismo.

Os problemas causados por esta condição genética não envolvem apenas a perseguição e as ameaças. Entre estes problemas destacam-se os relacionados com a saúde ocular: uma menor acuidade visual, estrabismo, descontrole dos músculos dos olhos ou fotofobia.

Os especialistas enviados pela fundação descobriram diferentes patologias que afectavam as crianças do centro, assim como outras doenças evitáveis, como conjuntivite – comum em áreas de pouca higiene, muito pó e alta exposição. Os especialistas começaram por isso por oferecer formação sobre o cuidado e a lavagem dos olhos.

“Este projecto representou um antes e um depois para estes meninos e meninas e para seu desenvolvimento. Garantir o acesso a uma saúde visual adequada fará com que tenham a possibilidade de sair para brincar fora de casa, já que lhes proporcionaremos filtros especiais para ler, estudar e, talvez, ter um futuro melhor“, diz Arturo Casas.

A multinacional especializada em lentes Carl Zeiss Vision, que colabora com o projecto, forneceu lupas especiais para que os menores possam acompanhar as aulas com normalidade, e vai doar todas as lentes necessárias aos jovens, com filtros especiais para cada caso.

“Estamos muito satisfeitos de ter colaborado com este projecto , ajudando pessoas albinas que, graças aos seus novos óculos, vidros com filtros e lupas, poderão ver o futuro com optimismo”, diz a diretora de marketing da filial espanhola da Carl Zeiss, Laura Rocha.

No centro de Kabanga convivem com os albinos outros 170 menores com incapacidades físicas, psíquicas e deficiências visuais e auditivas, aos quais o governo garante segurança, alojamento, manutenção e escolarização pública.

“Centros como este, nos quais convivem crianças albinas com crianças que não o são, fazem com que cresçam com uma educação entre iguais. Pode ser que, com o tempo, consigam destruir os estigmas sociais que existem há tantos anos e que já provocaram tantas mortes”, desejou a responsável da iniciativa, Sara Calero.

CAIXA DE MÚSICA 303


Roberto Rillo Bíscaro

No mundo das artes não faltam histórias de trabalhos “perdidos”, seja porque não restaram cópias, seja porque sequer foram concretizados. Quantas bandas não fizeram apenas shows, os quais não foram registrados, portanto, só restam aos musicólogos atuais relatos de integrantes ou espectadores?  Fãs ficamos curiosos, mas morremos sem conhecer trabalhos considerados precursores do estilo que amamos.
A cena do rock progressivo brasileiro certamente tem seu quinhão de grupos jamais registrados. Um deles era o Vitral, formado no Rio de Janeiro, no início dos anos 1980, por Alex Benigno (guitarra e teclados), Claudio Dantas (bateria e percussão), Eduardo Aguillar (baixo, teclados e guitarra), Elisa Wiermann (teclados) e Luis Bahia (guitarra e baixo).
A banda atuou por cerca de dois anos e pouquíssimos registros subsistem. Mas, graças à algumas partituras, raras fotos e fitas cassete com gravações domésticas encontradas por Eduardo Aguillar em seu arquivo, surgiu a ideia de produzir um álbum com suas músicas compostas para a banda.
O que a princípio seria trabalho solo, transformou-se na proposta de unir os antigos integrantes para participarem do projeto, convite imediatamente aceito por Claudio Dantas. O Vitral reconstituía-se.
A formação atual é: Claudio Dantas (bateria e percussão), Eduardo Aguillar (teclados), Luiz Zamith (guitarra), Marcus Moura (flautas), Vítor Trope (baixo). Todos experientes na cena prog nacional, tanto em suas carreiras-solo, como em suas participações em bandas como o Bacamarte e Quaterna Réquiem.
O Vitral passou então a arqueologizar sua própria história e trouxe à luz o álbum Entre As Estrelas, lançado pela Masque Records, no final de dezembro. São três faixas, compostas por Eduardo Aguillar entre 1983 e 1985, exceto as 'Estações', constantes da quilométrica canção que nomeia o CD: estas foram escritas em 2016.
Não dá para negar a raiz oitentista do prog do Vitral. Mesmo gravado ano passado, o estilo das composições e mesmo a sonoridade remetem a bandas europeias e latino-americanas da década, que se inspiravam no sinfônico setentista, mas já compunham e tocavam sob o impacto dos novos sintetizadores e da influência de artistas como Jean Michel Jarré.
Pétala de Sangue abre solene, mas não demora nada a apresentar suas verdadeiras cores alegres. Intercalando solos de guitarra, teclado e flauta, há momentos que dá a impressão de trilha sonora para filme de fantasia oitentista ambientado na Idade Média. Dá vontade de cirandar por torneios e feiras do medievo. 
Em um álbum inteiramente instrumental, o grande teste vem com a faixa-título, que dura quase 52 minutos e meio. Estivéssemos na época em que a maioria de suas partes foram compostas e não sobraria espaço para as outras duas canções e mesmo ela teria que vir dividida entre os lados 1 e 2 do bolachão de vinil. Entre as Estrelas é constituída de vários segmentos interligados pelas Estações mais recentemente idealizadas. Em sua maioria o clima e andamento são vibrantes, meio de corrida espacial mesmo
Depois de tanto agito, repouso faz-se necessário e então entra a faixa-fecho, Vitral, com seu delicado clima quase litúrgico de pós-medievalidade.
Entre as Estrelas, o álbum, é um achado para quem acompanha a cena prog brasileira, pois recupera material que poderia se perder nas inclementes areias do tempo.
Você pode ouvir o streaming oficial do álbum, no link abaixo:

domingo, 18 de fevereiro de 2018

OUTRO PAI BANDIDO

Mais um pai preso em Tete por tentar vender o filho

Um homem de 50 anos de idade encontra-se privado de liberdade, por alegada tentativa de venda do seu filho de seis anos de idade, na província de Tete, onde, em Maio e Outubro de 2017, um casal e um cidadão foram encarcerado, acusados de cometer o mesmo crime contra os seus filhos, sendo uma criança albina do sexo masculino e uma adolescente de 13 anos.


O caso mais recente aconteceu no último domingo (11), no bairro Matundo. As autoridades policiais acusam o visado, cuja identidade não revelaram, de tentativa de prática de tráfico de seres humanos, tendo como vítima o próprio descendente.

A Polícia da República de Moçambique (PRM), em Tete, disse, por intermédio da sua porta-voz, Lurdes Ferreira, que o indiciado foi detido antes de manter contacto com o suposto comprador, facto que impediu o desaparecimento da criança.

Este é um dos poucos casos conhecidos publicamente, em que determinados progenitores usam os próprios filhos como objectos de troca para tirarem vantagens financeiras.

Em Maio do passado, um casal foi detido em Tete, por igualmente tentar vender o filho de dois anos de idade, com problemas de albinismo, por quatro milhões de meticais, em conluio com cinco indivíduos, supostamente por si contactados.

Para materializar o negócio, o casal viajou do distrito de Dôa para o de Moatize, acreditando que era onde se encontravam possíveis e potenciais compradores.

Os intermediários na venda em questão receberiam cada 50 mil meticais de gratificação, disse a Polícia na ocasião.

Em Outubro do mesmo ano, um cidadão identificado pelo nome de Estefânio Máquina caiu nas mãos da PRM, acusado de tentativa de venda da própria filha, de 13 anos de idade, a um preço de pouco mais de 2.360.000 meticais a indivíduos não identificados.

Na ocasião, o indiciado contactou o presidente da Associação de Ervanários de Moçambique, de nome José Carlos, para supostamente ajudá-lo a encontrar um cliente. Quando Estefânio Máquina se dirigiu à de José Carlos, estava na companhia de dois filhos dos seus cinco filhos.

Para convencê-los a saírem de casa até ao suposto local onde a rapariga seria vendida, o visado alegou que os miúdos iam à estrada ao encontro da mãe, que estava a regressar de Chiúta.

SUPERAÇÃO NO GELO



Roberto Rillo Bíscaro

Quando vou ao supermercado aqui em Penápolis, sempre me muno de trilha-sonora: detesto o sertanejo que sai das caixas de som, na maior parte das vezes. Nada contra quem curta, mas se puder, evito.
Deve ter sido antes do Natal, que fui a um deles á noite, com um amigo, e, portanto, sem os inseparáveis fones de ouvido. Por macromilagre, tocava uma seleção de lentas anos 70/80. Não digo que menos brega que os sertanojos, mas pelo menos, pra mim relembram a infância. Na playlist, Looking Through the Eyes of Love, da Melissa Manchester. Nossa, quase me debulhei em lágrimas por entre as gondolas de farinha e maisena. O amigo apenas três anos mais jovem perguntou donde era mesmo aquela música e expliquei-lhe que do filme Castelos de Gelo (1978).
Em 1975, a Universal rachara de ganhar dinheiro com Uma Janela Para o Céu, baseado na história real da esquiadora Jill Kinmont, que ficou paraplégica. A Columbia não queria ficar pra trás e saiu-se com Castelos de Gelo história ficcional bem menos triste, mas totalmente sintonizada com superação.
Alexis Winston é patinadora no gelo nata, perdida numa cidadezinha no estado de Iowa. Aos 16 anos já é meio velhusca pro esporte, mas uma treinadora badalada a descobre numa competição regional e a recruta. Em meses, Lexis torna-se estrela promissora, certeza de medalha na vindoura Olímpiada de 1980. Mas, um acidente bobo deixa-a quase cega. Será que patinará novamente? Em se tratando de filme estadunidense e desta seção do blog, claro que sim!
Castelos de Gelo é perfeito pra quem curte histórias chorosas de superação. Neste caso, há mais de uma, porque ela supera a idade, a cegueira, o medo. Sem contar as lindas cenas de patinação no gelo e a canção-tema.
Castelos de Gelo foi o maior (único?) sucesso do diretor Donald Wyre. O filme tem fãs até hoje.
Em 2010, o diretor refilmou-o pras novas gerações, afinal, hoje o cine tem outro ritmo. Produção diretamente pra DVDs, Ice Castles foi o último trabalho de Wyre, falecido aos 80 anos, em 2015.
O Castelos de Gelo do século XXI, a despeito do chororô de mais velhos, é superior ao de 1978, exceto pela interpretação da canção-tema (sou velhusco também, alguma coisa tinha que entregar a senioridade, né?). A história é a mesma, com mudanças apenas pontuais, tipo, hoje jogam-se ursos de pelúcia nos rinques de patinação; ao passo que em 78, rosas. O resto tá igual, mas com passo um pouco mais ágil, narrativa mais curtinha e mais bem atuada, inclusive com Henry Czerny, o Conrad Grayson, de Revenge.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

PAPIRO VIRTUAL 122


Roberto Rillo Bíscaro

Entre a geração tremendona da Jovem Guarda e a abelhuda selvagem oitentista, há mais de uma década de rock brasileiro praticamente desconhecido do grande público e da academia. Salvo exceções como os Secos & Molhados, os roqueiros setentistas são bem invisíveis hoje e, na época, não tiveram grande divulgação, porque incomodavam a ditadura e também setores da esquerda. Como cantou Rita Lee, em 1980: “roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”. Era essa a geração a que se referia a letra de Orra, Meu. 
Em 2008, o historiador Alexandre Saggiorato contribuiu para começar a desbravar a mata virgem desse período musical no país, com sua dissertação de mestrado Anos de chumbo: rock e repressão durante o AI-5.
A ideia central de Saggiorato é que mesmo não tendo adotado postura explicitamente antirregime militar, as bandas de rock dos 70’s transgrediram comportamentalmente com seus cabelões; alusões ao consumo de drogas; opção por viver em comunidades, como seus ídolos hippies e mesmo nas letras, que, falando muitas vezes em liberdade, podem servir de metáfora para a repressão da ditadura. Considerando-se que liberdade, como tema genérico, esteve sempre presente em letras de rock, as análises das letras são os pontos mais discutíveis do trabalho, mas isso não depõe contra a dissertação. Letra de música é para ser polissêmica mesmo.
Mesmo focando especificamente o trabalho de apenas três bandas (Novos Baianos, Casa das Máquina e O Terço), o texto traz exemplos e informações de muitas outras, como Recordando o Vale das Maçãs, Módulo 1000, Raul Seixas e tantos mais.
A fim de situar o leitor nos debates e embates ideológicos que rolaram nos 70’s, Saggiorato tem que voltar ao tempo da Bossa Nova, quando a música popular se fracciona, grosso modo, em setor engajado politicamente e setor não, que na década de 60 e setenta seria chamado de alienado pela esquerda. Esse levantamento de antecedentes feio pelo autor será muito útil para quem entende bossa-novistas ou hippies como grupos unívocos. Havia bossa-nova sobre patos quén-quén, mas também sobre a falta de vez do morro. Tinha hippie natureba, hippie junkie, hippie modinha....
O acirramento da repressão ditatorial, com o famigerado AI-5, de 1969, radicalizou também o relacionamento e o patrulhamento das posições políticas dos artistas, especialmente dos mais populares. Havia que ser a favor ou contra o regime; não pegava bem ser neutro, ou “apolítico, bicho”, como afirmou Roberto Carlos certa vez.
Assim, os milicos perseguiam, censuravam e intimidavam cantores cujas letras eram percebidas como revolucionárias. E as esquerdas patrulhavam quem fizesse sucesso para que fosse engajado. Quem não tinha penetração midiática elas não davam bola, de modo geral.
Os roqueiros – psicodelia, hard rock e progressivo foram os subgêneros dominantes na cena brasuca da década – eram vistos com desconfiança pelos dois lados. A direita os achava vagabundos maconheiros subversivos e parte da esquerda os considerava vagabundos maconheiros alienados. Saggiorato tenta provar que não era bem assim. Á sua moda, nossos rockers lutaram contra o sistema. Há horas em que o autor passa uma ideia de que estivessem “fora do sistema”, outro ponto muito discutível; como seria isso possível? Dissidências são possíveis, claro, e possíveis pelo próprio sistema, mas estar fora dele implica não participar de nada do que lhe diz respeito. Complicado.
Repleto de histórias e de texto fluido e acessível mesmo para leigos, Anos de chumbo: rock e repressão durante o AI-5 pode ser baixada no link:


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

TELONA QUENTE 223

Roberto Rillo Bíscaro

Destino Lua (também conhecido como A Conquista da Lua) foi considerado o primeiro filme inteligente de ficção-científica, por Isaac Asimov. A produção independente, de 1950, teve orçamento alto e explosão de cores Technicolor, raros entre os tantos filmes sci fi dos 50’s. Também atipicamente preocupado com acuidade científico-tecnológica, Destination Moom teve seu esmero recompensado com Oscar de efeitos visuais.
Destination Moon é caprichado desde os créditos iniciais, que rolam pela tela em direção ao infinito, como faria Guerra Nas Estrelas, 27 anos depois. Lembram como George Lucas foi deveras influenciado pelos filmes da década?
Tudo começa com a explosão dum foguete patrocinado pelo governo, que perante rejeição da opinião pública com os gastos e perigo de óbitos, se exime de prosseguir com o programa espacial. Cabe a um general convencer um industrial patriótico a persuadir seus colegas empresários a construírem um foguete pra lua. Reticentes no início, os capitalistas são convencidos com argumento bem simples e mais explícito impossível: a primeira nação que conquistar a lua dominará a Terra, pois poderia usar nosso satélite natural como base pra lançamento de mísseis. Destination Mooon esclarece que dissenção da imprensa é orquestração ideológica e que a iniciativa privada deve liderar a corrida espacial por motivos puramente patrióticos, lucros jamais são citados. Muito como os argumentos reais usados na parte documental da recente docussérie Marte, da NetGeo. 60 anos se passaram mesmo?
Apesar de jamais poder ser enquadrado como tal, Destino Lua é avô do docudrama Marte (disponível na Netflix), com o qual compartilha mais em comum do que o aludido. Destination Moon buscou assessoria científica, então, há até animação do Picapau explicando facilmente o sistema de propulsão à explosões de um foguete e as dificuldades causadas pela gravidade zero. Até se mostra que o som não se propaga no espaço, quando o pássaro tenta falar, mas a acuidade vai pro espaço, quando abre a porta da espaçonave sem despressurização, mas pra acusar o filme seria necessário saber se a ciência já sabia que o ar escaparia todo e isso não posso afirmar.
Embora Destino Lua seja bastante correto com o que se conhecia na época, ainda assim era um filme direcionado a fazer dinheiro e entreter, então liberdades tinham que ser tomadas e isso implicou em sua maior barbeiragem: a inclusão do alívio cômico Joe, que nada alivia, só complica.
Falar na imprensa que se era contra a corrida espacial era “ideológico”, mas escalar piloto que não acreditava na viagem à lua não representava problema, afinal, os EUA são a terra da liberdade de expressão. Joe funciona um pouco como o público, uma vez que algumas dúvidas de leigos são ventiladas através da personagem, cujo nome é o mesmo do da expressão “regular Joe”, caracterizadora do mais mediano que um sujeito anglófilo pode ser. Joe toca até gaita, olha o tamanho do clichê! Mas, imagine que alguém que desconheça até mesmo o mais geral das viagens espaciais seria escalado pruma missão assim! Ele poderia colocá-la em perigo, como o faz no episódio da antena externa. Claro que isso possibilita andada pelo espaço, o que deve ter sido maluco pras plateias cinquentistas, mas tira um pouco da credibilidade, embora não manche o status de clássico de Destination Moon.
O que pode ter passado despercebido pra muita gente é que a construção linguística desviante e algo ignorante de Joe acaba passando mensagem bem menos simpática: quem não acredita na possibilidade da exploração espacial é apenas jecas estúpidos, que precisam ser convencidos da maneira mais concreta possível, porque só assim conseguem entender. Considerando-se que Joe era o elo com o público “comum”... tire suas conclusões.
O bonachão, Joe, porém, não poderia estar melhor encaixado no prospecto otimista em que se enquadra a película, que enxerga a energia atômica como motor da exploração espacial. Em “boas mãos” (no sentido de apenas duas mesmo: as dos EUA) essa energia manteria a paz na Terra, que - com apoio patriótico das empresas e a boa vontade otimista de aprender de seus cidadãos “comuns” – se lançaria na árdua, mas perigosa conquista do espaço. Terra = EUA, tá? E a lua seria apenas o começo, como atesta o letreiro do The End, então afixado em todos os filmes. Neste lê-se “este é O FIM...do início”. Assertividade empreendedora nível hard.
Destino Lua tem lentidão de lesma pros padrões contemporâneos, mas pra fãs de ficção-científica “séria” é marco obrigatório de ver.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

UMA BANANA PRA VOCÊ!


Sirbastion é um canguru órfão e albino de cinco anos que vive no GG Wildlife Rescue Inc, um centro de acolhimento para animais na Austrália. O pequeno canguru viveu praticamente toda a vida no centro e não esconde seu gosto por bananas.

Acesse o link e veja que fofura ele devorando seu prato favorito!

CONTANDO A VIDA 221

CINCO HISTÓRIAS DE VIDA. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Como contador de casos, resolvi fazer uma pequena antologia de situações que mais me marcaram. É difícil separar ficção de realidade e, bem sei, muita gente já se derrotou no esforço definidor de fronteiras entre o real e o imaginário. A fim de simplificar tudo, optei por me valer do conceito provisório de “histórias referenciadas”. Certamente, os especialistas em narrativas irão me execrar, mas enquanto isso não ocorre me parece válida a tentativa de dize-las. 

História 1. Fui roubado certa feita. Havia chegado ao Rio de Janeiro e, como sempre, sentia entusiasmo por estar na “cidade maravilhosa”. Era noite e saí no encalço de um restaurante. Havia dado poucos passos na direção da praia quando avistei um casal de namorados trocando beijos. Enquanto felicitava a cena, ao passar por eles, fui puxado e... O rapaz, o namorado, pegou-me forte pelo braço e exigiu que lhe entregasse tudo. Naqueles dias não existia celular e então foi só a carteira. Fiquei aturdido, mas calmo e apenas pedi a foto de minha mãe. De nada adiantou minha suplica. Voltei imediatamente, com fome, sem documentos e triste, pois aquele era o único registro que tinha do rosto materno. Enfim, consolei-me: vão-se os anéis, mas ficam os dedos. Surpresa absoluta, no outro dia, na portaria estava a minha espera o aludido retrato com um bilhete do larápio “devolvo a foto de sua mãe e seus documentos, boa sorte”. 

História 2: Convidado para uma apresentação em Aracaju, Sergipe, estendi a estada para mais alguns dias a fim de ver uma famosa vaqueja na cidade de Porto da Folha, distante cerca de 4 horas de carro. Ao chegar soube de uma ilha onde os indígenas Xocó, isolados em sua aldeia, recondicionam a própria cultura. Resolvi conhecer aquela experiência comunitária. Cerca de meia hora de barco pelo Velho Chico, tive oportunidade de me sentar ao lado de um indígena que carregava uma galinha e um galo. Quis saber porque e então ouvi que não mataria os animais e que nem era pelo ovo. Atento, ele disse que era pela beleza daquelas duas aves pouco conhecidas deles. De repente, me vi olhando para a galinha e para o galo e notei suas penas brilhando, os movimentos diferenciados permitidos pela mobilidade de seus pescoços. Frente a isso me perguntei dos critérios de beleza de minha cultura, e achei os indígenas mais civilizados e com olhar estético mais aguçado. 

História 3. Certa feita, gravando entrevistas sobre “rituais de passagem”, ouvi uma história que chama minha atenção até hoje. Era um garoto suburbano, moleque feio, com muita espinha rosto afora, pobre, solitário, sempre maltrapilho. Sentados ao acaso em banco de praça no interior mineiro, começamos a conversar e tive que responder a ele explicando que era pesquisador e me interessava pelas narrativas sobre “primeira vez”. Troquei em miúdos até me fazer entender. Como resposta, ele contou o caso do primeiro beijo que dera na moça mais cobiçada da região. Por bonita, era bastante disputada, e famosa por rejeitar os bons partidos, “muito das granfas” resumia. Um dia, ao entregar garrafa de água em sua casa, ele foi recebido por ela que, por iniciativa própria, o convidou para entrar e, no vazio da casa vazia, o beijou por muito tempo. Ele que nunca havia experimentado algo parecido agradecia a escolha e o carinho da moça que nunca mais sequer o cumprimentou. Ele também lhe era grato, mas garantiu que não houve paixão “foi só gostosura”. 

História 4. Franzina e silenciosa, de alguma maneira ela chamava a atenção das colegas de classe. Sempre nos intervalos das aulas lia, interessadíssima, para si mesma, cartas recebidas. A repetição do gesto fez com que a imagem da leitora inquietasse a rotina geral. Um dia, portanto, foram-lhes cobradas explicações. Como abelha rainha, então, cheia de si, prometeu trazer a pequena coleção de envelopes com seus conteúdos amorosos. No outro dia, apresentou dezenas de cartas devidamente seladas. Leu algumas sorteadas e a revelação de um amor incontido chamou a atenção. Não escapou, porém, a identificação da letra pela qual se viu que ela mesma enviava para si. Descoberta, não voltou mais à sala. E mudou de escola. 

História 5. Na cidade pequena, no interior de São Paulo, suicídio era assunto para semanas. Aquele, porém, demorou mais. Uma jovem, de fora da cidade, no dia dos namorados, foi ao cemitério local e ingeriu dose fatal de veneno de rato. Na solidão da tarde que morria, ela veio a falecer sozinha. Rumores se multiplicavam e a ausência de informações fermentava a imaginação coletiva. Histórias se multiplicaram: amor não correspondido, doença grave, alguma violência sem paga, enfim, muito foi aventado até que, dias depois, alguém encontrou uma bolsa caída entre dois bancos da igreja ao lado, e nela uma folha dobrada, com uma única palavra: “cansei”.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

TELINHA QUENTE 296



Roberto Rillo Bíscaro

No final de março de 2017, o ciclone Debbie fez estragos na Austrália e entre suas vítimas um tubarão arrastado pela tormenta e encontrado numa estrada de terra. Fãs não perderam tempo em correlacionar o destino do pobre animal com os tornados tubarônicos de Sharknado, fenômeno trash-cultural, que desde 2013 despenca na metade do ano nas telas do SyFy Channel. Credibilidade entre fãs de ficção-científica o canal não tem, porque, convenhamos, não dá, né?
Mas, Sharknado virou icônico; o equivalente do século XXI àqueles absurdos filmes de animais assassinos dos anos 50 ou 70.  Todo mundo achava que Sharknado seria mais uma película de baixo orçamento com desconhecidos ou celebridades decadentes/esquecidas a passar despercebido. Engano. A proposta foi tão infame que gerou comentários no Twitter e a coisa virou massiva. Em agosto, saiu Sharknado 5: Global Swarming, anunciado como final da franquia. Semana passada a Netflix disponibilizou-o em seu catálogo sob o título Sharknado 5: Voracidade Global.
Com os EUA devastados depois de tantos tornados tubarônicos, o fenômeno fatal alastra-se globalmente, daí o trocadilho do título em inglês com aquecimento (warming) global e a palavra swarming, que implica num enxameamento, numa infestação. Sharknado 5, como todo pastiche, é repleto dessas piadinhas, de referências e citações. Mas, cuidado, porque um menininho não perde a chance de dizer “London Bridge is falling down”, quando a tempestade detona a capital inglesa. Uau, intertextualidade com a canção infantil, que pós-modernidade ressignificadora! Só que a ponte ruindo era a Tower Bridge...
Indiana Jones, 007, De Volta Para o Futuro, uma coleção de velharias é referenciada, além da presença das celebridades de outrora, que sentirão falta dos Sharknados pra aparecer um pouquinho e faturar trocados. Tem a oitentista Samantha Fox; a disco music trash-diva Charo, com rosto desfigurado de tanta plástica e massa-corrida, fazendo ponta sem fala, como Elizabeth II e Olivia Newton-John como cientista. Quando esta vê 2 personagens se beijando, dispara: don’t get too physical, ok?” Intertextualidade com seu sucesso de quase 40 anos. Eta lê lê.
Até o Rio de Janeiro é assolado por um sharknado.  Por mais espertamente (SQN) intertextual que seja, Sharknado apresenta a Cidade Maravilhosa como qualquer filme dos anos 50 faria: ao som de música caribenha, com casario praticamente colonial e, mais sintomaticamente, onde ocorre o único assalto do filme.
Hoje vemos Sharknado mais pra ver quais celebs serão resgatadas do limbo do que propriamente pela diversão, porque quantas variações são possíveis com tubarões caindo do céu de boca aberta sobre pessoas? Apesar de marketeado como capítulo final, Sharknado dá brecha pra continuação. Dependendo da audiência desse, vamos ver se o SyFy cumpre a promessa. 

Erra quem crê que esse tipo de filme hoje em dia restringe-se a produções pra TV. Lançamentos pra cine ainda existem e até em 3-D. Caso do fraco Shark Night, de 2011. Sete universitários vão passar fim de semana à beira dum lago e enquanto são devorados, descobrem um grupo maluco que filma pessoas sendo comidas por distintas espécies de tubarões. A ideia é ganhar dinheiro com a multidão de gente doentia que vê tais vídeos pela internet. Até valeria como crítica social, mas a execução é burocrática e as mortes são poucas e não legais.
Só serve mesmo pra empedernidos fãs de trash movies, que curtem se divertir com incongruências tipo: tubarões alcançam pessoas fazendo esqui aquático, mas não nadando!
Vocês já repararam que na pós-modernidade, humanos podem morrer a mancheia nas telonas e linhas que ninguém se importa, mas experimenta jogar um cãozinho no tanque dos tubarões! Ele reaparece no fim, afinal, gostamos mais de pets do que de gente.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 302


Roberto Rillo Bíscaro

Parte inesquecível para quem ouvia FM nos anos 1980 foram as power ballads: domesticação do metal para atrair garotas aos shows e vender mais entradas/álbuns. Para sobreviver, já veteranos como Kiss e Foreigner tiveram que entrar na onda dos então novatos Quiet Riot, Europe e Ratt, e o resultado foram delícias-farofa até hoje audíveis, como Forever e I Wanna Know What Love Is dos primeiros, e uma série de outras das bandas do momento, como Carrie, sem contar a cascata de baladas metal do Bon Jovi.

Mas, nem só de música lenta viveu a década do consumismo yuppie de Reagan. Excesso é um dos clichês aferidos aos 80’s e o metal não ficou imune (como se a geração Zeppelin não tivesse cometido excessos pra chuchu). Cabelos se armaram feito bolos de casamento; meninos-machos usavam mais maquiagem do que as strippers que comiam, a ponto de constituírem sub-subgênero, o hair ou glam metal.

Citando o volume dos cabelos cuidadosamente montados, mas sem ousar utilizar hair ou glam metal, o documentário When Metal Ruled The World: 80's LA Sunset Strip Story, do canal VH1, mostra tudo o que um leigo precisa saber sobre a ascensão e queda da cena metal mercantilizada, que se desenvolveu ao longo e ao redor da Sunset Strip, em Los Angeles. Como se a cena do Black Sabbath também não tivesse sido mercantilizada... Foi diferente e em menor escala, apenas.

Clubes na longa avenida concentravam shows de bandas, que se esforçavam para se distinguir uma das outras, até que o Quiet Riot conseguiu contrato com grande gravadora e lançou Metal Health (1983), primeiro álbum de metal a atingir o topo da Billboard. Como o documentário não focou nenhuma banda em especial ou aprofundou-se em detalhes, não disse, por exemplo, que esse, o terceiro álbum da banda, fora o primeiro a ser lançado em território ianque. Antes, os LPs do Quiet Riot eram lançados apenas no Japão.

Como Los Angeles já era a capital mundial da indústria fonográfica, não estranha a peregrinação de bandas roqueiras para lá em busca de lugar ao sol, não apenas literalmente. O estouro do Quiet Riot apenas acelerou o processo, ainda mais incentivado quando a MTV adotou o sub-subgênero como queridinho. Daí, então, todo mundo que tinha alguma boa aparência branca foi contratado, a despeito de ter canções de qualidade. O documentário não fala, e nem precisa – basta ver os depoentes – mas a cena metal cabeluda da LA oitentista não era negra. Era caucasiana e heteronormativa (neste quesito, pelo menos em termos das histórias “oficiais”).

Quiet Riot, Ratt, Twisted Sisters, Skid Row, enfim, alguns dos mais influentes roqueiros do hair metal estão em When Metal Ruled The World: 80's LA Sunset Strip Story, que também entrevista groupies e empresários. O formato narrativo é aquele da ascensão, apogeu e queda. Então, na primeira fase registra-se o papel das garotas, que sustentavam os aspirantes a estrelas do rock, que, uma vez brilhando, entregavam-se a toda sorte de excesso sem pensar nas consequências e se viram arruinadas – mas não arrependidas -, quando o lúgubre grunge lhes roubou o trono e os dólares, com suas camisas de flanela e desencanto pela vida (mas nunca por ganhar dinheiro).

O programa é muito instrutivo para perceber que a entrada do Guns’n’Roses no cenário, em 1987, modificou um bocadinho o estilo, com ar mais cafajeste, mas não o extinguiu, pelo contrário, foi reinvenção; mudar para permanecer.

Sem chegar a uma hora de duração, When Metal Ruled The World: 80's LA Sunset Strip Story não é apenas para o público metal, até porque tem muito metaleiro que não bate a cabeça para esses posers, no jargão da subcultura. Mas, quantos popeiros resistem ao apelo de We’re Not Gonna Take It ou Livin’ On a Prayer?

domingo, 11 de fevereiro de 2018

SUPERAÇÃO ATUANTE

Conheça a história de superação da primeira atriz cadeirante do Brasil, Tabata Contri.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

PAPIRO VIRTUAL 121



Roberto Rillo Bíscaro

No início dos anos 1950, a febre de avistamentos de objetos luminosos no céu atingira proporções tão grandes que até em comunidades desconhecedoras da palavra disco-voador, pescadores imaginavam-se engolfados por iluminação vindo do firmamento, em forma de garrafa. Nada surpreendente, porque luzes inexplicáveis têm sido vistas desde tempos imemoriais. A “novidade” do decênio cinquentista foi batizá-las de disco-voador e atribuir-lhes origem extraplanetária, de inteligências mais inteligentes (que perderiam tempo vindo aqui só pra fazer manobras de esquadrilha da fumaça ET nos céus?!).
A ideia pra dissertação de mestrado de Milton José Giaconetti foi o relato do pescador catarinense que viu a luz em forma de garrafa. O historiador quis estudar a construção do imaginário popular a respeito das Luzes no Céu, transformando-as de possíveis armas de destruição fabricadas na comunista URSS do “malvado” Stalin (como se depreende do texto de Giaconetti) em espaçonaves alienígenas. Alguém deveria apontar o sentido de despolitização e desistorização desse processo.
O resultado da pesquisa encontra-se no texto As luzes no céu e a guerra fria: Do limiar do conflito ao imaginário sobre os discos voadores 1945-1953, defendido na PUC-RS, em 2009.
Usando o contexto da disputa nem sempre tão velada entre EUA e URSS, depois da Segunda Guerra, o historiador construiu um texto que serve muito mais como bom panorama da Guerra Fria pra quem não lê inglês do que propriamente pra esmiuçar o tal imaginário da comunidade pesqueira de Santa Catarina, que ganha poucas páginas e olha que os 2 pescadores entrevistados falam coisas bem interessantes, sobre como as Luzes foram interpretadas. Não inserida na histeria midiática promovida pela revista O Cruzeiro, os moradores pensavam que podia se tratar de assombração e, mais fascinante ainda, vingança dos alemães pela derrota na Guerra.
Mas, como meu interesse tem sido conhecer mais fatos do que intepretações, a dissertação faz isso bem. A gênese e evolução dos anos iniciais da Guerra Fria, da Guerra da Coreia e da primeira onda de avistamentos de OVNIs nos EUA e Brasil estão bem traçada.
Às vezes, há quê de teoria conspiratória, por exemplo, quando se pergunta se a liberação dos arquivos secretos sobre investigação de UFOs pelo governo britânico não seria maneira de desviar a atenção do público pra crescente crise do capitalismo, em 2008, mas o que filtrei foi o fato, não a suposição, aliás, baseada em nada; complicado num trabalho acadêmico.
Também há que ser paciente com a redação, que precisava ter passado por revisor de texto. Quanto “o mesmo”, “ a mesma”; isso é desnecessário! E o poliusado “ao qual”, que substituía qualquer pronome relativo! E errado ...
Em termos analíticos, a dissertação de Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos é superior, mas pra entender melhor o que foi a Guerra Fria, enfim, para a parte dos fatos, As luzes no céu e a guerra fria: Do limiar do conflito ao imaginário sobre os discos voadores 1945-1953 complementa muito bem.
É fascinante ver como até autoridades militares no Brasil davam declarações do tipo “daqui a 30 dias comprovar-se-á a existência de vida em marte”. Realmente o pessoal levava o tema dos discos a sério, e isso não foi descontextualizado, ressoou com a atmosfera de perigo nuclear e início da corrida espacial da época.
A dissertação pode ser baixada em PDF. O link e o resumo estão no link:

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

TELONA QUENTE 222


Roberto Rillo Bíscaro

Terra de atores e atrizes reverenciados, como Dames Judi Dench e Maggie Smith; diretores metidos a chiquérrimos como James Ivory; aquele sotaque que se ouve em Harry Potter, idealizado como de toda a população, a Inglaterra é frequentemente associada ao esnobismo e produtos de alta classe. Ingenuidades redutolas (Cebolinha ajudando a neologizar, yeah!), tipo, o inglês norte-americano tem mais gírias; na Inglaterra tem mais “cultura” não veem a enxurrada de vulgaridade e tosquice saídas das terras de Elizabeth II.
O documentário British B-Movies: Truly, Madly, Cheaply! (2008), da BBC, abre olhos de idealizadores e é útil pra interessados em começar a conhecer uma história mantida no subterrâneo, inclusive e especialmente, por parcela do establishment britânico, ao qual interessa a manutenção da visão pristina do Reino como bastião do gosto requintado.
Como em Magic, Murder and Monsters: The Story of British Horror and Fantasy (2007), British B-Movies (BBM) vai até os anos 1980, quando o thatcherismo cortou subsídios da indústria cinematográfica – abusivamente usados até pra produzir pornôs. Diferentemente dos filmes de horror/fantasia, o documentário não aponta renascimento.
Mesmo sem aprofundar a questão, BBM também inicia problematização do conceito de filme B, que hoje meio que percebemos como produção de baixo orçamento, mas que, como qualquer coisa, passa por distintos entendimentos e significações ao longo de sua história. Por exemplo, nos anos 1930 e 40, os quickies eram exibidos antes de produções principais, geralmente ianques, mas nos 50, filmes de invasão alienígena de baixo orçamento eram o ponto alto da seção. Assim, o conceito de “B” não pode ser o mesmo nessas situações hierárquicas distintas.
Outra virtude de BBM é sua visão panorâmica que engloba até dramas, comédias do tempo da Segunda Guerra e contrapontos da visão glamorosa que o cine estrelado pelos Oliviers e Gielguds queriam passar da Inglaterra e a representação da violência, tédio, ignorância e sem-gracismo que o baixo orçamento dos filmes B acabava exibindo.
Apesar da precariedade técnico-artística de um bocado de produções, não dá pra deixar de perceber que cotas de exibição e incentivos fiscais evitaram o total falecimento da indústria cinematográfica, como ocorrido em alguns outros países europeus.

British B-Movies: Truly, Madly, Cheaply! está completo e sem legendas. Bora treinar um pouco nosso cockney?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

CONTANDO A VIDA 220

O VELHINHO E A BICICLETA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Antes de nada mais, convém alertar que não estou usando o termo “velhinho” de maneira pejorativa. Não. Refiro-me a mim mesmo desta forma exaltando, por exemplo, a beleza da referência às velhas guardas das escolas de samba, ao valor garantido pelo ouro velho, ou, mais que tudo, para a simbologia das velhas amizades. Na mesma linha, posso garantir que não visto a fantasia tão cara a quem quer converter o envelhecimento em “melhor idade”, como se envelhecer fosse uma delícia. Minha reflexão, aliás, decorre exatamente do aborrecimento determinado pela passagem do tempo. Há uns 15 anos não dirijo. Além de não gostar do manejo de máquinas em geral, prefiro ler, dormir, conversar empenhadamente, a ficar nas ruas ou estradas com a direção na mão e concentrado nos possíveis perigos, sinais, avisos.

Aconteceu, porém de eu ganhar uma bolsa para escrever um ensaio em universidade norte-americana, precisamente em Stanford, na Califórnia. Os campus universitários dos Estados Unidos, em termos de localização, obedecem a três possibilidades: ou são situados em cidades e se integram à paisagem urbana, ou ficam em beira de estradas movimentadas que, afinal, facilitam o acesso, ou se isolam em locais remotos, como fazendas longínquas, com o fito mesmo de tornar os estudos o centro das atenções. Stanford se coloca nesse último modelo. Sabedor disso, por já ter morado aqui, tratei de refazer minha habilitação, pois queria ter liberdade de movimento. Por si só isso me foi aventura completa. Morador de Taubaté, com pouco tempo para resolver a questão, precisei refazer minha carta lá. Aprender as novas regras, me submeter a exames gerais foi uma volta no tempo e um desafio à minha capacidade de atualização. A tal “direção defensiva” simplesmente não existia e nem os alertas de primeiros socorros. Enfim, a despeito de mim mesmo, consegui tudo a tempo.

Estando na Califórnia, contudo, alojado no magnífico campus, achei que seria inútil alugar automóvel. Para satisfação geral de todos, mesmo tendo habilitação para carros, optei por uma bicicleta e se fosse o caso pelas facilidades do uber. As distâncias entre diferentes pontos no campus justificam de sobra a locomoção por pedaladas, e a existência de um posto para aluguel na própria universidade explica muito dessa prática. Foi assim que busquei informações mais detalhadas sobre como me tornar um ciclista. A primeira surpresa decorreu do custo, quase igual ao de automóvel. Depois, ainda mais espantosos, vinham os detalhes complementares com os devidos acréscimos: o obrigatório uso do capacete; com cesta única ou dupla; com faróis dianteiros e traseiros; com cadeado; com adesivos para iluminação noturna. Enfim, uma parafernália insuspeitada. Aconteceu de estar em meio a tantas escolhas quando um outro professor estrangeiro vinha reportar ao dono que não achava a bicicleta. Sem saber onde tinha estacionado, contava que fazia três dias que a procurava sem sucesso. Conhecendo minha clássica distração para situações como essa, fiquei gelado e, mesmo tendo gastado muito tempo fazendo as escolhas, desculpei-me com o atendente e pedi mais um dia para meditação.

De início, fiz tudo a pé. O frio, o peso do material transportado e o cansaço, contudo, me convenceram que valia a pena correr o risco do pedal, e lá fui de volta à bicicletaria. Ao explicar meu temor para o gentil rapaz, soube de mais um apetrecho que poderia me salvar, uma chave que se comunica com a campainha e que, acionada, toca avisando do lugar do veículo, no estacionamento.

Nos primeiros dias deu certo ocorreu, porém, de eu perder a chave e, claro, não saber onde havia deixado a tal bike. Resolvi esperar até o final do dia para ver se todos os vizinhos de estacionamento retirariam as suas. Não contava com as aulas da noite e foi em vão meu esforço. Com o avanço das horas, não me restou outra coisa que falar com o pessoal da bicicletaria. A decepção veio com a porta fechada. Ir a polícia do campus foi bem embaraçoso, pois nessa altura da vida, revelar tal peripécia me parecia algo humilhante. Atencioso, o policial experimentado solicitou que eu refizesse o caminho desde minha casa, e numa viatura, facilmente me levou ao local onde estava a tranquila bicicleta. O que aprendi desta lição? Em primeiro lugar, que não posso mesmo confiar em minha memória; em segundo, que saber da chave não era suficiente para garantir o paradeiro da bicicleta, e por terceiro, que neste exato momento não sei onde está a bicicleta e novamente me aflijo com a chave desaparecida.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

TELINHA QUENTE 295


Roberto Rillo Bíscaro

Até eu já lancei mão do chavão de comparar a família real britânica com uma grande novela em tempo/da vida real. O Channel 4 pegou o clichê e desenvolveu The Windsors, que, em suas duas curtas temporadas, mescla elementos de soap opera com sitcom, resultando numa espécie de sitsoap acidamente irônica.
The Windsors imagina Charles, Camilla, Wills, Kate, Harry e membros B da Royal Family como personagens daquelas novelonas típicas do universo anglo-saxão, tipo The Colbys (pra ficar num exemplar cujo nome também é sobrenome).
Camilla é a vilã alcóolatra que a todo momento cria armadilhas pra derrubar a nora, a boazinha Kate Middleton, que vê o bem em tudo, como seu idealista maridão Príncipe William, que pilota helicóptero pra ajudar os súditos, mas é tão fora da realidade que se espanta quando lhe dizem que são as próprias mães que alimentam os filhinhos e não as babás.
E são assim os 12 engraçados capítulos, que a Netflix adicionou ao catálogo em dezembro, inclusive com o especial de Natal, quando até Camila ajuda a salvar o data, com referência a Charles Dickens e tudo.
The Windsors não é nada intelectualizada, que não fique dúvida, mas é terrivelmente gargalhável, especialmente quando se conhecem algumas especificidades como a chiqueza de se alongarem as vogais, daí não dá pra aguentar o sotaque das inúteis princesas Beatrice e Eugenie, impagáveis vivendo na órbita bem externa da Família, que titio Charles, na vida real, está limitando a apenas o seu núcleo. Basta notar as aparições mais recentes no balcão de Buckingham pra ver como diminuiu a gentarada.
Mesmo que esses detalhes sejam desconhecidos, dá muito bem pra entender e rir das origens ciganas de Kate, do analfabetismo de Harry, do total nonsense de Charles, da biscatice viperina de Pippa (a maneira como pronunciam Pippa, beeeem posh, é risível, amo!).
Apenas a Rainha e a finada Diana são poupadas, aposto que por razões bem diferentes. O Príncipe Philip não aparece, mas, como sempre será um estrangeiro, sua avançada idade não impede que seja alvo do deboche. Suas missivas endereçadas a distintos personagens são lidas de vez em quando e constituem um show de vulgaridade vocabular a parte.
Não me lembro de já haver me perguntado se a família real assiste ás representações de si mesma, mas durante The Windsors, entre risadas, imaginava se viam o show que os pinta como bando de sanguessugas inúteis, mas que trazem um montão de turistas à Inglaterra e movimentam o comércio das canecas comemorativas.
Mesmo que algum deles assista, deve ficar muito triste em uma de suas férias na Suíça, pagas pelo contribuinte.