domingo, 9 de dezembro de 2018

SUPERANDO AS MULETAS

De muletas, mas campeões mundiais

A 4 de novembro, a equipa angolana de futebol para amputados foi campeã mundial no México. Voltaram a Luanda e agora são vistos como motivadores de orgulho.
O maior estádio da Cidadela em Luanda já não é o que era, agora inunda quando há chuvadas - no relvado e à volta do recinto onde proliferam cartazes de todos os negócios, da venda de jantes a seitas religiosas (Igreja do Tabernáculo)... Foi inaugurado nas vésperas da independência e foi lá, em 1977, que a seleção angolana, os Palancas Negras, fizeram o primeiro jogo oficial, ganhando a Cuba.

Para a história ficou o facto de Dinis, o Brinca na Areia, falso lento da ala esquerda, que brilhou no Sporting e na seleção portuguesa, ter jogado pela primeira vez, já em fim de carreira, pelo seu país. E, ainda, o facto de os adversários não terem podido utilizar aquele que porventura foi o melhor futebolista que já jogou pela seleção de Cuba: o angolano França Ndalu, que estudara em Havana e, à data do jogo, já estava perto dos 40 e tinha mais que fazer: era o general dos generais, o mais prestigiado militar da FAPLA. Da guerra da independência, Angola passava à guerra civil e não ia muito em futebóis.

O Cidadela agora moribundo foi substituído pelo estádio da Camama, mais longe do centro e mais pequeno (50 mil espectadores contra os 68 mil do mais velho). A ilusão do tamanho até chegou a ofuscar a Cidadela. Na passagem de ano de 2013, a seita IURD fez lá uma cerimónia: "Vigília da Virada - Dia do Fim." Nas bancadas ergueu-se um luminoso e enorme "F" a celebrar a palavra principal do slogan. Duplo exagero. Meteram dentro do estádio 250 mil pessoas e o fim não foi para todos: morreram 13 pessoas e 120 ficaram feridas por um atropelamento humano.

Há dias, porém, fui encontrar um milagre no velho estádio. Sob as suas bancadas fica a sede do Comité Paralímpico Angolano. Lá dentro há a mais bela das fotos: a albina Rodé Fernandes, cega e esplendorosamente alva, campeã dos 400 metros, corria ao lado do seu acompanhante, o negro Alain Baptista. Mas o milagre de que falo não era tão estético, era de pura determinação.

Deixem-me localizar o assunto: falo de Angola. Um dia vi, numa estrada de leste, um camião com a carroçaria cheia de uma carga de muletas. Eram daquelas com enchumaço protegido por napa garrida, para se pôr sob as axilas. Vi a camioneta sinistra durante a guerra civil.

Nessa altura, Angola era a campeã das muletas e da sua principal causa, as minas. A mina antipessoal é a mais cabra das armas, só traz a pólvora necessária para levar um membro, não mais. Do inimigo não se quer que morra nem mesmo que fique sem duas pernas. Só uma, para que ele passeie a sua desgraça. Tão famosa ficou por esse tamanho drama, que Angola foi visitada várias vezes pela princesa Diana.

Então, neste assunto, Angola era uma desgraça e uma comiseração. Ora, a minha ida o estádio da Cidadela foi para ver como das suas muletas um punhado de jovens angolanos fizeram uma inspiração nacional. A 4 de novembro passado, a equipa angolana de futebol de muletas sagrou-se campeã mundial em Guadalajara, México. Regressaram a Luanda e foram surpreendidos não só pelo carinho mas porque foram vistos como motivadores de orgulho.
Na verdade, o futebol de que falo não é com muletas, daquelas de se apoiar numa axila, mas de canadianas duplas, leves e capazes de dar um andar rápido. Joga-se a sete, num campo mais pequeno (60x40 m) e balizas mais pequenas - os guarda-redes têm as duas pernas mas um só braço. E a modalidade surpreende pela rapidez e jeito com que pode ser praticada. À porta da sede do Comité Paralímpico havia uma gigantesca foto dos seus campeões.

Encontrei-os com penteados exóticos como os de futebolistas comuns, havia riscas depiladas, cabelos pintados de louro e até um de rosa. As caras eram mais duras do que as habituais em recém-campeões - o defesa Celestino Elias, eleito o melhor do torneio, escondia sob as suas tranças caprichadas o olhar zangado que eu já vira numa entrevista na TPA, a televisão oficial. Havia militares feridos em acidentes e camponeses amputados por minas perdidas. Não sem razão, a federação foi fundada no Moxico, em 1992, onde, quatro anos antes, eu vira o camião das muletas.

O defesa Neves Sonhe, do Moxico, resumiu o início do seu drama: "Perdi o membro, gostava de jogar e a vida acabou." O treinador Augusto Baptista conhecia o caminho das pedras: "O desespero é etapa inevitável." Ele quando treina olha sempre para as bancadas. Uma cara desconhecida e com muletas levava-o a fazer a aproximação... O convencimento passa pelo abandono da negação: "Tens de aceitar." Aponta-me a equipa: "A esses podes chamar-lhes deficiente, eles sabem que lhes falta qualquer coisa." Daí a tornarem-se campeões em Guadalajara foi um passo.
Há quatro anos, a equipa angolana já tinha chegado a vice-campeã, contra a Rússia. Campeão do pensamento positivo, o treinador Baptista avisou os jogadores, antes de partir para o México: "O patamar do segundo lugar já está garantido, mas podemos ir mais longe." A Rússia, tendo perdido nas meias-finais com a Turquia, tornou o dilema resolvido: "Só podemos ganhar." A final com a Turquia estava empatada depois das duas partes do jogo, de 25 minutos cada. Empate ainda no prolongamento. Foram a penáltis. O guarda-redes Jesus Mateus disse ao treinador: "Coach, fica calmo. Uma vou defender!"

Os marcadores das duas equipas enganaram os guarda-redes até à última rodada, 4-4. Na quinta, Jesus Mateus cumpriu e, a seguir, o avançado Heno Guilherme desfez o empate. Campeões! Ninguém atirou as muletas ao ar, todos quiseram libertar-se correndo - todos como o órfão Eder em Paris, depois do famoso golo na final do Europeu, não querendo abraços, só sentirem-se completos.

Contei ao Laurindo, do Huambo, que tem paralisia numa perna, que na minha infância havia muitos miúdos com poliomielite: "O melhor jogador de futebol na minha escola primária era um mulato com perna bamba mas dura." Ele sorriu, Laurindo - pudera, um campeão! - era também dos deficientes tão eficientes que encaixam as palavras.

Ao lado, o médio Hilário, de Benguela, fazia jus ao nome, passou a entrevista com um sorriso. Perdera a perna direita aos 10 anos, saltando a brincar do comboio. Perguntei-lhe se gostava de ver o futebol dos com duas pernas. Que sim, nunca perdia um jogo do Petro, quando o seu clube de coração ia a Benguela.

No dia seguinte, houve a receção no Huambo, a segunda cidade do país e berço de cinco dos campeões. Foi povo e foi governadora da província, tudo derreado pelos heróis de muletas. No seguimento da reportagem da TPA, a cadeia televisiva nacional, o noticiário foi até à vizinha Caála, onde o Recreativo treinava para um jogo do campeonato. A câmara focava o relvado, em que entrou alguém que disse alguma coisa aos jogadores que treinavam e apontou para a bancada. Os jogadores olharam, desmobilizaram do treino e correram para a bancada.

A imagem mostrou os campeões de muletas, eram eles que estavam na bancada, a serem cercados pelos profissionais do Girabola, o campeonato maior do futebol angolano. Houve abraços e selfies. Não posso garantir que Hilário, o campeão desastrado com comboios, estivesse lá. Mas gostava que sim, e um dos futebolistas com duas pernas lhe tivesse pedido um autógrafo. O Recreativo da Caála treinava-se para jogar dias depois com o Petro e o médio Hilário Cufula, o campeão de muletas sempre sorridente, merecia ser homenageado pelo adversário.

sábado, 8 de dezembro de 2018

QUÊNIA INCLUINDO - II

O Quénia escolheu o Mister e Miss Albinismo de África de Leste. Um concurso para combater preconceitos.

Os talentos exibidos por vários participantes do Miss Albinism East Africa 2018 na noite de sexta-feira, 30 de Novembro, em Nairóbi, foi uma declaração de que as pessoas com albinismo são bonitas.

Um concurso de beleza inovador para pessoas com albinismo, realizado no Centro de Convenções Internacionais Queniano que estimulou a confiança e a inclusão de pessoas que continuam a ser alvo de um estigma às vezes mortífero no continente africano.

No concurso participaram 30 pessoas. Foi organizado pela associação Albinism Society of Kenya, em parceria com associações do Uganda e da Tanzânia.

A recém-coroada Miss Albinism East Africa 2018, Maryanne Muigai, emocionou-se depois de ter conquistado o título.

Outra participante, Elizabeth James, contou que foi forçada a mudar de escola quando criança, "quando as pessoas olhavam, apontavam para ela e começaram a segui-la a caminho de casa".

O concurso, que visa acabar com estes estigmas, foi intitulado “Aceite-me, inclua-me, eu posso”.

Emmanuel Silas Shedrack, da Tanzânia, de 20 anos, e Maryanne Muigai, queniana de 19 anos, foram coroados vencedores.

Ambos vão receber prémios monetários e serão embaixadores das organizações parceiras ao longo do próximo ano.

Para o presidente da Associação dos Albinos de Moçambique, William Tomás, este tipo de concurso é importante para a auto-estima das pessoas albinas que deveriam aparecer mais vezes em cena.
















quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

TELONA QUENTE 265



Roberto Rillo Bíscaro

(Ab)Usar das convenções dos diversos subgêneros horripilantes tem sido tão frequentemente (ab)usado, que virou convenção. Desde que Wes Craven concebeu A Hora do Pesadelo 7: Novo Pesadelo (1994), que os clichês são explicitados por personagens superintendidas, que tentam escapar da morte evitando erros cometidos pelas vítimas em filmes de horror.
Escrito e dirigido por Owen Egerton, Blood Fest (2018) é a mais recente adição ao longo rol de produções que se querem espertinhas, porque (ab)usam das referências ao cine de terror. Não que não se precise de expertise e conhecimento pra esses roteiros, mas depois de tantos anos metacinemando, fica difícil classificar tais produções como “cabeça”. Detalhe aqui, detalhe acolá tornam-nas divertidas, mas o paródico quase sempre entorpece o terror e fica a sensação de filme cômico (SQN) com fantasia/ação melequenta. Blood Fest paga o preço de zombar dos clichês do horror, ao mesmo tempo que os exalta, afinal, trata-se de filmes-homenagem, mesmo que se finja ironia pós-moderna. 
Quando criança, Dax vê sua mãe ser assassinada por um mascarado. Ao crescer, torna-se especialista em filmes de horror, detentor do conhecimento de todas as convenções, de qualquer subgênero. Mas, seu pai odeia a violência despertada, que culpa por ter matado sua esposa. Por isso, quando descobre que Dax tem ingresso para um gigantesco festival de horror, em enorme área, o Dr. Conway inutiliza a pulseira-identificadora. Claro que Dax consegue jeito de penetrar na celebração, mas logo se dá conta de que o organizador tem espúrias intenções assassinas e daí começa a matança.
Blood Fest funciona não apenas como subvertedor de clichês - celulares sem sinal, virgindade; há um balde deles, todos apontados pro público, porque, afinal, o roteiro tem que provar que é esperto, explicitando o que qualquer fã-roxo sabe; mas daí há outro porém: nem todos são fanáticos, por isso há que explicar. O filme também mescla diversos mundos paralelos do horror: slasher, vampiros, zumbis, palhaços e até o torture-soft porn de Jogos Mortais. São tantos lugares-comuns, que daria tese; o conhecimento de Egerton é enciclopédico.
O resultado é bem movimentado, com reviravolta final, divertido mesmo, pra ver com tapauerzão de pipoca. Mas... Mas, não dá medo; não causa a menor tensão. É só mais um filme pra meninada que se implora hipster. Fã de horror, de verdade, sempre preferirá a simplicidade perturbadora dum Downrange
Uma dica: mesmo em 2018, compensa permanecer virgem, se não quiser morrer.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

CONTANDO A VIDA 259

EMPATIA X SIMPATIA: uma dose de filosofia no debate sobre igualdade.

José Carlos Sebe Bom Meihy 



Já foi dito e até consagrado que nosso tempo, o século XXI, é “da diversidade”. Mais que nunca, efeito de intrincados jogos de detalhes, as “diferenças” emergem de maneira a suscitar convívios definidos em códigos variados. Seja pela necessidade social de planos de sobrevivência, seja pelas regras jurídicas conquistadas, os conceitos se somam dando fundamentação filosófica às condutas que extrapolam normas cotidianas ou simples regras de aceitação. Não mais que de repente precisamos ter clareza de considerações que compõem comportamentos explícitos, muitas vezes tidos como naturais ou sem história. Nada na sociedade humana, nas relações sociais, decorre meramente dos tais instintos de sobrevivência. Em sociedade tudo é constituído e acertado segundo interesses marcados pelo que Rousseau chamou de “contrato social”. É lógico que precisamos dos instintos básicos para a continuidade das espécies, e assim, respiramos, nos alimentados e cumprimos os desígnios reprodutivos. Mas, viver em comunidades exige construções que se materializam em costumes e práticas regulativas e estas sempre são acordadas de maneira a um ordenamento de convívio. É aí que atuam os conceitos e as oposições especulares aos preconceitos. Levando a sério a inevitabilidade de acatamento dos “diferentes” – das minorias antropológicas: negros, deficientes físicos, mulheres, homossexuais, imigrantes – temos que questionar alguns supostos que sustentam tais desempenhos. Nessa linha, o termo “tolerância” se coloca como vulnerável à crítica. Tolerar implica acatar com reserva o “outro”. Seria como ceder lugar por convencimento racional. Seria “admitir”, e num esquema de respeito e direitos, “admitir” é pouco. Há decorrências sérias contidas nessa consideração, e, efeito imediato disso, implica a retomada intelectual que, por fim, discute a agência das coisas. Dizendo de forma direta, pergunta-se: a partir de quem se organiza o espaço do “eu” e o direito do “outro”? Indo ainda mais fundo no mar agitado dos conceitos de paternidade filosófica, cabe mais, e antes, de definir o lugar do “diferente”, o reconhecimento de um darwinismo social, que tem garantido ao mais forte e mais adaptável um posicionamento como regente do ordenamento social. 

Qualquer esclarecimento sobre o progresso deste debate exige evocação de dois pilares que se constituem no suporte das explicações do mundo contemporâneo: o “nascimento do eu” e a incessante briga entre o “objetivismo” versus “subjetivismo”. Não seria pouco dizer que tudo começou com o humanismo renascentista, com a emersão do indivíduo competente como centro da natureza. Desde então, os nomes começaram a aparecer nas obras de arte, os senhores a se notificarem como mecenas e os nomes próprios a progredirem poderes, uns sobre outros, anônimos. É assim, por exemplo, que se diz que Colombo chegou à América, ou que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil. A História (escrita, de feições científicas, oficial e oficializadora) tem eras de construção que, por fim, começaram a ser abaladas pelas conclusões de Freud. Foi ele quem feriu o “eu” na acepção que temos hoje, universalmente acatado na vigência do capitalismo. E também é freudiana a remessa à semente capaz de aliviar a praga do egoísmo social. O “subjetivismo” proposto pelo pai da psicanálise convida a pensar retomadas, agora feitas com base em debates assentados. E sem conhecimento dos percursos anteriores aos comportamentos em voga, pouco progresso se vislumbra. Por certo, o tema merece considerações importantes e sensatas, mas mesmo sob a carência de oportunidades aprofundamento, ressalta-se a presença de dois conceitos que, se contrapostos em sentido filosóficos, podem ajudar o ingresso nos céus abertos dos direitos à história: “simpatia” e “empatia”. Gerações cresceram apreciando o “dever de simpatia”. Aprendeu-se (e ensinou-se) que “simpatia” era uma virtude inscrita na piedade e no reconhecimento da dor de “outra pessoa”. Durante décadas isso abrangeu os chamados bons costumes. De forma retórica, aprendeu-se que é “simpático ser simpático”. Derivado do conceito grego de “sym-pathos” (sim = união; pathos = paixão), valorizou-se o direito do “outro” como atitude de acatamento, algo capaz de favorecer o convívio por um tipo de solidariedade concedida pela dor alheia. 

Ainda que dicionários confundam os dois termos, é importante distingui-los, pois empatia (in = dentro) vai além da condescendência, impetra mesmo “se colocar no lugar do outro”. Há ainda um fator a ser considerado na equação que justifica o “diferente” como objeto de reflexão. Enquanto simpatia permite a compreensão da dor alheia, empatia demanda se colocar na posição do outro. Atua nessa relação o sentido da solidariedade e da paixão. Não pode haver solidariedade sem paixão e o apelo apaixonado ganha sentido humanitário quando um se coloca não ao lado, mas no lugar do outro. O mágico nesse debate é que a diferenciação entre os termos pode ser apreendida e discutida como ensinamento. Assim, não apenas justificar-se-ia o debate no nível da filosofia ou de refinadas contendas intelectuais. A apreensão dessas diferenciações pode ser captada também em nível de ensino, pois é fácil exemplificar e com o exercício tornar pedagógica a explicação dos direitos de tantos que, afinal, justificariam a premissa de que “todos são iguais perante a lei”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

TELINHA QUENTE 338



Roberto Rillo Bíscaro

Não falta quem ache documentários entediantes, especialmente aqueles com as talking heads, cabecinhas falantes depondo. Documentários sobre nazismo então, que deprimentes, e, além do mais, que ângulo novo poderia ser abordado? O que dizer dum doc de dez episódios sobre o tema? Deve ser pileque propício pra levar ao suicídio, certo?
Não, se for a dezena de capítulos de Hitler's Circle of Evil (2018), produção britânica, constante da Netflix.
Desde a ascensão da sociedade urbana industrial, hibridizações não são novidade (embora os nazis não gostassem disso racialmente). Destarte, talvez seja correto afirmar que Hitler's Circle of Evil (HCOE) é uma docusoap, mescla de documentário com novelão anglicano (soap opera). Isso porque a história da ascensão e queda do 3º Reich é contada sob a ótica das intrigas de bastidores de seus seguidores-comparsas mais diretos, como Göring, Himmler, Hess, Goebbels e outros malditos (nem suponham que um resenhista deficiente visual e albino seja imparcial com essa laia que o colocaria num campo de concentração).
Com o ponto de vista focado nas motivações, ambições, fraquezas, recalques, invejas, bajulações e autopromoções individuais pra conseguir poder ou ficar perto de Hitler, HCOE consegue unir História com histórias de vida, criando um todo viciante como uma soap, porque há drogas, traições, homossexualidade, falsidade e pura demência paranoica, como quando Hess pilota um avião até a Escócia pra apresentar um plano de paz prum lorde que vira apenas um vez.
A perspectiva de HCOE é que os nazistas não passavam de facínoras enganadores do povo alemão; então o programa morde e assopra. Own, tadinha da população alemã, que incendiava e linchava judeus e mais. Fazia isso enganada, não porque estivesse predisposta pelas mesmas razões que elevaram à intimidade hitleriana seus compatriotas melhor conectados.
HCOE usa música incidental dramática e encenações, mas não dispensa o narrador, imagens de época e as talking heads (amei o historiador rolando de rir ao imaginar o fedor do bunker hitleriano dos últimos dias.) Essa combinação, aliada à novelização das histórias de vida, tornam HCOE totalmente maratonável, porque você fica doido pra saber o que vem.
Sabemos que a Alemanha perderá a guerra e que todos se ferrarão (os que o documentário mostra, porque há um tantão que jamais foi pego), mas como não sabemos dos lances privados do vaidoso Göring ou do fanático Goebbels (que tinha pernoca deficiente, mas perseguia outros deficientes), a narrativa fica muito interessante.
Até pra quem paga de santinho de luz, HCOE é indicado e aproveitável, porque dá pra se comprazer com gente se lascando sem parecer desalmado ou politicamente incorreto, afinal, são nazistas que colocaram em risco o planeta. Dá pra sermos como eles até, só que “do bem”! 

A segunda temporada de Roma: Império de Sangue recebeu nome distinto, quando adicionado ao catálogo, mas se procurar pelo título citado, o assinante terá acesso igualmente.
Seus cinco capítulos resumem a trajetória de Júlio Cesar, um dos indivíduos mais influentes da história. Considerar herói o responsável por dezenas de milhares de mortes fica a critério de cada um, mas não dá pra ignorar a história dum sujeito que nomeou um mês.
Sanados os problemas de ritmo da temporada um, Júlio César tem menos historiadores interrompendo pra dizer o que já estava sendo mostrado e menos cenas inúteis de gente contemplando janelas etc. Cheio de gente bonita e recriações de ruas romanas e sangrentos campos de batalha, Júlio César é muito gostoso e atraente de se ver, como se fosse série mesmo. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

QUÊNIA INCLUINDO

Participantes se preparam para concurso de Miss e Mister Albinismo no Quênia

População albina sofre com preconceito no Oeste da África, alerta a ONU.
Homens e mulheres albinos participaram nesta quarta-feira (28) do ensaio para o concurso de Mister e Miss Albinismo em Nairóbi, capital do Quênia. O evento, programado para esta sexta-feira, tenta promover a inclusão social dessas pessoas, frequentemente vítimas de discriminação em países da África Oriental.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), os albinos são vítimas de preconceito em algumas comunidades. Na África, a situação é ainda mais grave – em 2016, a ONU alertou para a perseguição em massa das pessoas com albinismo no Malauí, país do sudeste africano.

No Quênia, onde haverá o concurso, a organização reconheceu "melhora" no apoio a essas pessoas. Ainda assim, "há muito o que se fazer no país", segundo relatório de uma especialista da ONU.

CAIXA DE MÚSICA 342



Roberto Rillo Bíscaro

A apaixonada por automóveis Kandace Springs mostrou tanto potencial que não apenas o Príncipe Púrpura a convidou pruma jam em Paisley Park, como foi contratada rapidinho pela legendária Blue Note Records, gravadora de feras do jazz.
Ser filha dum músico que fez backing vocals pra gigantes como Aretha e Chaka ajudou no networking, mas se a cantora-pianista não tivesse talento, não seria fisgada por uma das casas sagradas da música negra.
Ao resenhar Soul Eyes (2016), seu álbum de estreia, afirmei que a norte-americana buscava seu nicho. Seu segundo trabalho, Indigo, saiu pela mesma Blue Note, dia 7 de setembro e soa como se Springs não queira escolher uma etiqueta: entre originais e covers, a trezena de canções e vinhetas remete de Nina Simone a Portishead, com arranjos sofisticados, que unem o tradicional ao contemporâneo.
A sinuosidade da faixa de abertura, Don’t Need the Real Thing, com sua percussão africanizada prenuncia álbum caprichado. Totalmente deliciosa. Outra faixa com percussão bem marcada e interessante é o jazz esfumaçado de 6 8; seria muito legal se houvesse um mix sem ela, pra ver se a languidez dos teclados, a flauta fantasmagórica e os vocais totalmente relax dariam conta de segurar a canção.
A quantidade e frequência de vinhetas em álbuns de soul/R’n’B contemporâneos leva a crer que os compositores possuem criatividade abundante a ponto de desperdiçarem boas ideias melódicas em faixas que duram segundos. Pra que as vinhetas-título, não?
Breakdown é balada de diva sofredora; Fix Me referencia o padrinho Prince na letra e tem piano à Chopin; Unsophisticated é sofisticado jazz defumado, à Chet Baker; People Make the World Go ‘Round é funk hiper-comportado, que você só saca ser funk pela estilização do pianinho e da percussão. Indigo tem pra quase tudo que é gosto: até cover jazzificado muito bonito de The First Time Ever I Saw Your Face, que pouca gente conseguiria achar superior à perfeição de Robert Flack.
E aí está um dos pontos que Kandace tem que considerar pra futuros trabalhos. É tudo muito bem feito/cantado, mas não se distingue ainda um selo Springs. Quando ouvimos Piece Of Me, a Sade de Soldier Of Love vem à cabeça na hora. Quando Springs canta “sometimes love is war”, difícil não imaginar como a Deusa anglo-nigeriana faria. Em Love Sucks, o peso da comparação ainda é mais esmagador: numa melodia com arranjo super 60’s/70’s, Kandace soa perigosamente como clone de Amy Winehouse, até com alguns maneirismos. Ficou bom, mas ela não é Amy (poucas são).
O problema nem é soar como cicrana ou beltrana, a questão posta fica sendo: se a cantora não achar sua própria voz e nicho, como futuras resenhas de artistas iniciantes poderão apontar que tal faixa soa como Kandace Springs?
Que isso não seja desestímulo pra audição de Indigo. É muito gostoso, ouçam só que belezura essa faixa de abertura:

domingo, 2 de dezembro de 2018

ALBINA RESGATADA

Orangotango albino raro é resgatado de cativeiro na Tailândia
Uma fêmea de orangotango albina extremamente rara foi resgatada no último sábado (29) após ser capturada e mantida em cativeiro por moradores da pequena área de Kalimantan, localizada na ilha de Bornéu, na Indonésia.

Com apenas cinco anos de idade, a fêmea foi encontrada por membros da organização de proteção a vida animal "Borneo Orangutan Survival Foundation" e está passando por exames para avaliar seu estado de saúde. Com olhos, pelo e pele mais claros do que semelhantes da espécie, a primata é rara e, segundo o "Metro", é a primeira orangotango albina que teve o resgate registrado.

Em um comunicado oficial, a ONG afirmou que, por ter ficado apenas dois dias com humanos, a orangotango ainda apresenta comportamento selvagem e deve ser devolvida à natureza em breve. "Nós iremos continuar a observá-la e conduzir testes sobre sua saúde. Ela era mantida presa em cativeiro por residentes locais e ainda exibe comportamentos selvagens, o que significa que há uma boa chance de que ela possa, em breve, ser liberada de volta para um habitat natural", informou.

SUPERANDO CENSURAS

Roberto Rillo Bíscaro

A Polônia dos anos 1970 estava sujeita à pesada censura imposta pelo regime comunista. Havia a Igreja Católica que contestava o totalitarismo, mas impunha sua própria censura, a moral. Nesse ambiente, publicar livro sobre sexualidade feminina, que falasse de direito ao orgasmo e técnicas de controle da natalidade, era transgressor política e religiosamente. Pois, a ginecologista Michalina Wislocka escreveu a necessária e revolucionária obra. Essa história é contada no competente A Arte de Amar (2017), dirigido por Maria Sadowska e constante do catálogo da Netflix.
Ziguezagueando temporalmente, mas sempre entendível, A Arte de Amar apresenta preciso painel de como a história pessoal de Michalina importou pra que o livro A Arte de Amar fosse escrito. Tem desde a tentativa de relacionamento à romance de Simone de Beauvoir até o capitão-bofão que descobre seu ponto G e a faz sentir que gozar é vital. O roteiro não deixa de lado a condescendência enfrentada pela médica no mundo acadêmico, apenas por ser mulher. E quando trata da censura a seu livro, de quebra, revela delicioso caso de pura desobediência civil da católica e oprimida população polaca, que, pelo menos, queria aprender a ter prazer na cama.
A Arte de Amar é feminista e especialmente necessário numa época quando até mesmo mulheres dizem não precisar do feminismo, sem se lembrar que se podem votar, dirigir ou gozar hoje, é por causa de gente como Wislocka. 
E, além de todas as qualidades intelectuais, é um filme bonito e gostoso de ver.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

TELONA QUENTE 264

Roberto Rillo Bíscaro

Não cultuo Winston Churchill e acho sacais as representações do relacionamento dele com a esposa, sempre a paciente estoica, que o coloca na linha, quando necessário, na vibe “atrás de um grande homem”. Metido a entender de tudo, de política a pintura e literatura, o estadista é reverenciado frequentemente como o britânico mais importante de todos os tempos e é compreensível pelo papel que teve como líder durante os duros anos da Segunda Guerra.
Meio como Lear ou Hamlet, a personagem Churchill tem sido objeto de desejo de diversos atores. Amados mios, como John LIthgow e Albert Finney interpretaram o charutudo. Quando soube que Brian Cox o fez em Churchill (2017), tive que vê-lo. Não me arrependo: pra quem curte dramas históricos bem dialogados, padrão britânico pra exportação, o filme acerta em cheio. Se havia samba-exaltação, deveria haver a categoria filme-exaltação e Churchill é desse tipo.
O título é bem pouco criativo e representativo, porém. Passa a impressão de cinebiografia abarcante de toda vida ou grande pedaço dela; do processo de formação dum ícone ou coisa assim. Nada disso, Churchill recorta menos de uma semana na vida do Primeiro-Ministro.
Hoje, sabemos que a Operação Overlord foi decisiva pra derrota alemã. Ela teve início com o desembarque dos Aliados nas praias da Normandia, em 6 de junho de 1944, o “Dia D”. Mais de 1 milhão de soldados entraram no território francês ocupado pelos nazistas, em ataque anfíbio. O ancião Sir Winston Churchill descria do plano, baseado em suas experiências da Primeira Guerra, décadas atrás, em um outro mundo.
Churchill é sobre obsolescência e como encará-la com dignidade dolorida. Mais jovens, como Eisenhower, entendem melhor o mundo novo, por isso assumem o controle das operações. E aí reside ponto fulcral que o roteiro não aborda, mas está subentendido: a obsolescência não é apenas a do chefe do governo inglês, mas da própria Inglaterra. Os norte-americanos apenas informam os britânicos sobre os planos pra operação e estes, na figura do general Montgomery, os colocam em ação. Nesse mundo novo, a Europa era segundo escalão.
Brian Cox treme o queixo, expele fumaça pelas narinas feito fumarola, faz um sotaque perfeito e tem até um ou dois momentos de solilóquio shakespeariano: os velhos do Bardo conjuram deuses e bruxas, o pio Churchill reza pedindo que o clima impeça a operação. Muito épico, com fundo musical coral e tudo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

CONTANDO A VIDA 258

SOBRE “VIRAR O DISCO”, “MEIA SOLA” E “PÁ DE CAL”. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Por acaso, há pouco tempo, havia conversado com amigo sobre palavras e ditos populares que mudam de sentido à medida que o tempo passa. Essas conversas são sempre interessantes, posto darem medida da força da língua viva e do nosso envelhecimento. Por coincidência, dia desses, me vi explicando a um jovem de seus 12 anos o que significava “mudar o disco”. Foi engraçado, pois a expressão ainda é frequente e eu mesmo me vejo aplicando-a constantemente. Depois de detalhar a evolução das gravações dos “biscoitos”, daqueles discos de 78 rotações, pretos, grossos, quebradiços, detalhei o advento dos LPs com repertório bem maior de canções, de qualidade de som inigualável, e com capas artísticas. Falei também dos mini-discs, gravações que continham poucas músicas e às vezes eram até coloridos, de plástico. A conversa se transformou em viagem ao passado e uma ponte para o presente. Passadas as primeiras informações, expliquei que com o tempo “mudar o disco” tinha se convertido no sentido usual de “mudar de assunto”, em particular, quando o tema de conversas tinha chegado a um limite, ou se esgotado. A imagem do jovem interlocutor se iluminou ao relacionar a mudança de música com o “outro lado da gravação” ou mesmo com a substituição de interpretações. 

E foi assim que progredi para explanar a metáfora da “meia sola”, remetendo-me ao aproveitamento do sapato de sola gasta, como se fazia antigamente. Exercitei, neste caso, minhas habilidades históricas, e lembrei que em países colonizados, em particular naqueles que se regeram pelo trabalho escravo, ter sapatos era sinônimo de status social. E até puxei a conversa para os dias de minha infância e juventude, ocasião em que ainda a indústria de calçado não havia alçado os padrões atuais – que, aliás, coloca o Brasil como grande produtor. Novas admirações se estamparam no olhar curioso do quase mocinho. Saber que havia profissionais específicos e estabelecimentos para promover o aproveitamento dos sapatos, com remendos sucessivos, foi novidade para quem hoje goza do privilégio de reposições frequentes. No embalo da conversa fiada, perguntei: você sabe o que significa “colocar pá de cal”? E nem precisei da negativa; fui logo explicando que os enterros de mortos eram feitos em covas rasas e que para evitar o mau-cheiro se colocava cal. A decorrência disto resultou no significado de “fim de conversa”, ou, como seria mais apropriado “fim de papo”. 

Passados momentos do fim desse “papo legal” com o jovem, fiquei meditando sobre o impacto da atualização da linguagem em geral. Encontrei amparo em leituras que tantos prazeres me dão, como as de Marcos Bagno, prezando a dinâmica da língua. Correlato da vida humana, as línguas variam, as expressões mudam, e as palavras ou morrem ou ressuscitam com outras significações. De tal forma, me entretive nessas constatações que me permiti um mergulho mais consequente, quase filosófico: o que me diriam, hoje, tais expressões? E flanando no livre pensar, como se estivesse em estágios loyolanos atentos aos “exercícios espirituais”, fiz ligações convenientes. Considerei minha perplexidade política, em particular com os resultados das últimas eleições, como denominador comum. Foi mecânica a indicação de que era hora de “mudar o disco”. Chega, pensei. O curto período de campanha foi extenso demais para as retaliações, desavenças, brigas e exaltação de temperamentos. Vamos “mudar o disco”, aflorou-me o dito popular atualizado na incapacidade de entendimento do vertiginoso veredito democrático: eles ganharam. Foi quando, então, me veio à cabeça o segundo ditado “meia sola”. Professando a crença no vigor da sabedoria popular, professei que era hora de colocar “meia sola” em minhas ideias e, mais que aceitar a derrota política, deveria remendar meu incontrolado radicalismo e aproveitar da situação. Logo despontou a ideia de que ser oposição era o forte dos seguidores de minha orientação política. E comecei a sentir firmeza na honrosa derrota eleitoral. Percebi também que faria parte da “meia sola” supor o renascimento das ideais que, por falidas, levaram o partido que aprecio a perder sua cara inaugural, e, o que é mais sintomático, ter perdido exatamente nos rincões que lhe serviram de base. Com certo júbilo, por fim, concluí que era necessário por uma “pá de cal” no meu esforço isolado de lutar contra a correnteza. Ser democrata, afinal, deveria me significar “mudar o disco”, pôr “meia sola” e por fim jogar uma “pá de cal” no tema.     


terça-feira, 27 de novembro de 2018

LEILÃO MACABRO

Grupo luta para evitar que raro leão albino vá a leilão para caçadores
O raro leão albino, de 3 anos, foi apreendido na África do Sul após ser identificado como animal de estimação ilegal. Como manda o protocolo para animais apreendidos, Mufasa deverá ir a leilão. Caçadores são os maiores interessados. Como o leão é infértil, o seu único "valor" seria servir de "troféu" para caçadores, animados com a possibilidade de caçar um animal raro.

Mufasa está sob os cuidados do Centro de Reabilitação da Vida Selvagem de Rustenburg, onde é mantido em cercado com Soraya, a sua companheira, que também foi apreendida. Ela poderá ser leiloada.

Só que uma reviravolta na história começa a se desenhar. O centro de reabilitação disse que um comprador anônimo manifestou interesse em adquirir Mufasa e Soraya. Além disso, o grupo encabeça uma petição, com 250 mil assinaturas para impedir o leilão, e conquistou o apoio do humorista britânico Ricky Gervais, que disse "ter vergonha de sádicos patéticos que pagam para matar animais".

TELINHA QUENTE 337


Roberto Rillo Bíscaro

Dobradinha de séries frustrantes, do catálogo da Netflix, portanto, totalmente acessíveis pra você evitar!

Em fevereiro, a Netflix discretamente adicionou minissérie japonesa ao catálogo. Como jamais vira uma, os capítulos são curtinhos (média de 25 minutos) e prometia suspense, dei chance a Re:Mind (2017).
O título é brincadeira vocabular pós-modernete. Re: é usado como diminutivo de regarding to/referring to, permitindo uma tradução meio como Sobre a Mente. Mas, também é o verbo remind, uma das formas de se dizer lembrar. Supus que seria divertido thriller psicológico teen e isso atraiu também. Mesmo que tivesse pesquisado antes e descoberto que as garotas são dum grupo pop japa, teria assistido. Porque amo menininha cantando J-Pop (embora não fosse isso que esperasse) e porque tava a fim d’emoções baratas.
Re:Mind atiça, há que admitir. Na véspera da formatura do ensino médio, 11 garotas acordam encapuzadas, ao redor duma mesa solenemente posta, numa sala decorada ao exagero. Descobrem que têm os pés presos num alçapão. Do teto, de vez em quando caem bichos escrotos (calma, ratinhos e sapinhos; é suspense migucho, gentchy!) e líquido gosmento, eew! Logo os segredos e podres começam a emergir e a cada lembrança de bullying ou fascistice, as luzes se apagam e uma menina some.
A produção conjunta da TV Tokyo e da Netflix não deve ter saído muito caro, porque é quase toda filmada no interior escuro do misterioso e elegante cativeiro. Na tradição dos suspenses de sala-de-estar e nada alienígena pra quem aguenta falação de Big Bosta.
Os capítulos conseguem manter a curiosidade, porque queremos saber quem as sequestrou, como fazia pra que desaparecessem num piscar de lâmpadas. Também seguram bem a tensão, com música incidental boa e as revelações dos pecados das gurias, que envolvem grupo justiceiro no Twitter, escândalos sexuais e afins.
A frustração de Re:Mind vem na resolução, que não responde a diversas perguntas, nem mesmo às mais óbvias, levantadas neste texto. Aprendemos quem raptou, mas é pífio e de nada ajuda um capítulo ridículo, o 13º, que pretende contextualizar uma história que já dava pra entender. O que queríamos saber eram detalhes técnicos, tipo onde as gurias estavam, como se passavam as coisas, enfim, na época em que mágicos explicaram todos os segredos por trás de suas ilusões, queremos conhecer a mecânica das coisas. Não gostamos muito mais de dúvidas, afinal, investimos tempo nos capítulos e queremos a conclusão da história.
Se quiser experiência incompleta, arrisque-se com Re:Wind. Pra mim, não valeu a pena. Ah, e as japinhas trabalham mal pra burro! Isso eu perdoaria se a trama fosse (bem) concluída. 

Dois fatores levaram-me a ver os 6 episódios de White Gold (2017), da BBC, disponibilizados na Netflix:
a)       A série se passa em 1983. Há um marcador Anos 80, neste blog, então, percebe-se meu fanatismo por aquele decênio.
b)       James Buckley e Joe Thomas, respectivamente o Jay e o Simon de The Inbetweeners, estão no elenco. E amo demais a escatologia daquela série.
Situada na Inglaterra mergulhada de cabeça no neoliberalismo de Thatcher, White Gold pretende-se como sátira do suposto capitalismo selvagem dos anos 80, década dos yuppies, da extravagância, de tudo grande, em resposta à recessão pós-Crise do Petróleo.
Os programas habitacionais da Dama de Ferro permitiram que a classe-média baixa e nem tanto realizasse o sonho da casa própria a preços módicos. Pra turbinar as moradas havia centenas de empresas amigas lançando todo tipo de produtos, um deles janelas isolantes, feitas de um novo tipo de plástico, o Ouro Branco do título. Eram essas marcas de status que realmente endividavam os “babacas”, nos termos de Vincent Swan, vendedor-mor duma revendedora de janelas, que caracteristicamente jamais se dá conta que é tão babaca em termos de fome por aparência, como os de que zomba.
Vincent Swan parece saído de Glengarry Glen Ross (Sucesso a Qualquer Preço), de David Mamet. Vestido e gingando pra parecer cool, é a Lei de Gerson oitentista: trapaceia os companheiros, trai a esposa, enfim, um vigarista sem coração. Brian (Buckley) e Martin (Thomas) são seus colegas de trabalho, versões “adultas” de seus personagens bem mais divertidos de The Inbetweeners.
White Gold esquece de detalhe muito importante numa sitcom: é desprovido de graça de qualquer tipo, seja pastelônica, seja irônica. Sai-se bem em caracterizar a suposta cupidez oitentista, mas não causa risadas ou sorrisos. Também não é drama, porque é realizado em chave supostamente cômica. O resultado são histórias até interessantezinhas, mas que vemos com cara de nada.
Outro problema mal-equacionado é o protagonista antipático, uma das coisas mais difíceis de resolver, porque é pedir pra audiência empatizar com um canalha. Quando bem-escritos e atuados, criam-se personagens memoráveis. Pra ficar nos 80’s, mas em chave dramática, como esquecer de JR Ewing e Alexis Morrel Carrington Colby Dexter Rowan, respectivamente de DALLAS e Dynasty (ambos mencionados em White Gold)? Mas, eles tinham carisma, sorriso arrasador, vestuário mirabolante, enfim, como se dizia na época: eram gente que “amávamos odiar” (sempre amei amá-los!). Mas, tem mais: esses vilões sempre caíam, - quando caíam – de pé; praticamente tinham superpoderes. Lembram-se da mais recente Victoria Grayson, que só realmente se ferrou lá pro final?
Em White Gold, Vincent Swan não passa duma salafrário de classe-média que quer se dar bem, mas em última instância se ferra quase tanto quanto os demais, embora mantenha a pose. É comédia, alegarão, mas daí, sobrepõe-se o problema anterior: como o tom cômico azedou e não dá nem pra rir dele, Vincent Swan não resulta mais do que um sujeito apenas terrivelmente antipático. E de nada ajudam as tiradas direcionadas ao telespectador, ao estilo do outrora interessante House Of Cards norte-americano (a versão britânica é outro naipe, sorry, Mr. Underwood). Enfim, Swan não tem nada de especial ou divertido pra eu pelo menos tolerá-lo; é um zé-ruela pretensioso. E por que eu gostaria de ver segunda temporada disso? A BBC prometera, mas daí, Ed Westwick (o Vincent!) foi acusado de assédio sexual e a emissora suspendeu a produção. Não me importa. 
A salvação de White Gold é a trilha-sonora, repleta de Duran Duran, Police, Ultravox, Culture Club, The Cure, Haircut 100 e tanta coisa mais. Mas daí, compensa montar playlist em algum serviço de streaming e ouvir só as canções, sem aguentar aquela cara de fuinha do Vincent.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 341


Roberto Rillo Bíscaro

Depois da explosão do punk e da disco music, as coisas para o rock progressivo ficaram feias. Nos anos 80, só se sobressaíram as bandas que popearam, como Genesis e Yes. Nos 90’s, houve ressurgência do subgênero, com o King Crimson como fonte de muita influência.
Foram duas bandas que ecoaram o lado mais místico e melódico do prog setentista, porém, que se destacaram em vendas: a norte-americana Spock’s Beard, do Neal Morse e a sueca Flower Kings, do Roine Stolt. Um dos ataques ao rock sinfônico era que faltava o primeiro elemento, em detrimento de excesso do segundo. A geração 90’s conseguiu balancear todas as características do symphonic prog com pegada mais rock, mas só de vez em quando, nada de soar metal ou mesmo muito agressivo.
O Flower Kings semeou florada pujante de projetos paralelos; parece que todo (ex-) membro tem outra(s) banda(s). O baixista Jonas Reingold fundou o Karmakanic, em 2002 e seu trabalho mais recente é o álbum DOT, de 2016, seu quinto de estúdio.
Embora sueco, o Karmakanic faz como quase qualquer banda prog: batiza e canta tudo em inglês. DOT significa ponto e referencia a afirmação do astrônomo Carl Sagan a partir de uma fotografia enviada pela nave Voyager, em 1990. Nosso planeta tão metido a se achar o suprassumo, não passava de poeirinha cósmica, fotografado a tatos bilhões de quilômetros de distância.
Com formação de sexteto e convidados para sax, vocalizações corais e outros instrumentos, DOT tem meia dúzia de faixas perfazendo mais de 50 minutos, mais da metade dos quais é ocupada pelo épico God The Universe And Everything Else No One Really Cares About.
Dividida em duas partes, que abrem e encerram DOT, a parte inicial é o filé mignon. Seus quase 25 minutos são introduzidos por estática eletro-espacial. Manso piano, baixo meio jazz – subgênero referenciado em mais de um momento – encorpam-se aos poucos até vibrarem como energético rock, mas jamais metaliza e os momentos semi-barulhentos são até poucos. Com grandes vocais, inclusive com pedaço com coro infanto-feminino, todos os instrumentos têm chance de brilhar, porque lindas linhas melódicas se sucedem, com tempo suficiente para se desenvolverem e transformarem-se em outras. Fãs da linha prog mais tecladeira espetacularizada, à ELP, sentirão falta de firulas exibicionistas numa faixa que tem teclados, claro, mas tem mais solos lindos reservados à guitarra. Com letra que reconhece a pequenez humana, embora não nos relegue à condição de “nada” (we are all, yet nothing), já valeria a audição do álbum; nada que vem depois alcança tal magnitude.
Os seis minutos da parte 2 de God... começam com grande trabalho de baixo e teclado meio ambient, contrapontuando com percussão em ritmo de marcha. Lá pela metade, o clima cambia pro de guitarra plangente, teclado meio eclesiástico ao fundo e piano delicado. Demora um pouco pra engatar; talvez se estivesse integrada à grande parte 1 ficasse melhor. Encerra bem o álbum, mas...
Higher Ground é o segundo ponto alto, garantindo 35 minutos de excelente prog sinfônico num álbum de 50; tá ótimo! Com letra sobre a infância de Reingold numa medíocre cidadezinha sueca, a canção abre até meio pop, mas se adensa e a segunda metade atinge zênite sinfônico.
O momento mais comercial é o AOR, de Steer By The Stars, que teria feito bonito nos anos 80. Traveling Minds tem baixo jazzy com guitarra plangente, meio hino pra show. Boa, mas não se destaca no mar de canções do estilo.
DOT é irregular em seu padrão total de qualidade, mas nos momentos em que é bom, brilha.

domingo, 25 de novembro de 2018

SUPERANDO PRECONCEITOS ÉTNICOS


Roberto Rillo Bíscaro

Na semana da consciência negra, que tal casar uma história de amor e de superação do racismo? Quem não curte romance, ainda por cima, edificante? Na Netflix, há uma bela opção: Um Reino Unido (2017), dirigido pela anglo-ganesa Amma Asante. E pra deixar o espírito mais animado, trata-se duma história real.
Antes de ser Botsuana, o insular vizinho da África do Sul era protetorado britânico e se chamava Bechuanalândia. Mesmo paupérrimo, o país enviava seus futuros reis pra se educarem na metropolitana Londres. Lá, o Seretse Khama apaixona-se pela plebeia inglesa Ruth Williams. Ciente do bafafá que uma rainha tribal branquela causaria, mas confiante de poder convencer seu povo a aceitá-la, Seretse desposa Ruth. Mas, no fim dos anos 1940, a África do Sul começava a institucionalizar o pavoroso Apartheid, que vigoraria durante décadas. Os sul-africanos não viam com bons olhos um casamento inter-racial tão no seu quintal e os britânicos não queriam desagradar seus fornecedores de diamantes e urânio baratos. Então, as bodas Reais tornam-se assunto de geopolítica internacional tensa.
Um Reino Unido é o típico filme “britânico”, que só tem de modernete certo vai-e-vem temporal. A fotografia contrapõe uma Londres cinza, chuvosa e sem graça a uma África pobre, mas de cores quentes e céus azuis. Essa escolha cumpre função metafórica, porque é o governo inglês que age mais horrivelmente na trama, então a Inglaterra é representada de forma sinistra. Na verdade, a capital inglesa é vibrante, linda e multicor no verão!
Um Reino Unido acaba por mostrar uma dupla superação de preconceito étnico e é ótimo combustível pra começar a aquecer os corações pra propalada harmonia das festas de fim de ano, especialmente, este, tão dividido para os brasileiros.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

TELONA QUENTE 263


Roberto Rillo Bíscaro

A celebração da família como célula matricial da sociedade passa tanto pela fofura da idealização natalina, quanto pela invenção do conceito de família estendida, quanto pelo oportunismo cínico de campanhas políticas. É tanto amor pela família, que há quem tenha mais de uma: a “oficial” e uma com a amante.
My Happy Family (2017) ironiza, com sutileza, como boas (será?) intenções familiares sufocam, especialmente as mulheres. O filme que a Netflix mantém em seu catálogo com título em inglês é feminista. E excelente. E vem da Geórgia, uma das ex-repúblicas soviéticas, vizinha da Armênia, Turquia e Rússia, com a qual vive às turras. E é bem desconhecida da maioria de nós brasileiros. Só isso já serviria preu dar a oportunidade que o filme merece por méritos próprios, jamais por “cota de exotismo”.
Manana é professora de meia-idade, que vive em apartamento abarrotado de familiares. Além dela e do marido, seus pais e filhos, com respectiv@s cônjuges. Um dia, ela se enche e vaza. Simples assim é a trama. Ela não explica; não há nenhuma DR ou diálogo-cabeça explorando e explicitando cenas de um casamento em seus gritos e sussurros woody-allenianos.
My Happy Family é cinema com todas as letras maiúsculas, porque MOSTRA e sugere o porquê da liberação de Manana. As cenas de confusão e superpopulação no apartamento atordoam e inúmeros dados no relacionamento familiar dão conta da opressão benévola enfrentada pela exausta mãe-esposa-filha que não podia ter vontade própria. Então, quando ela se senta sozinha, em silêncio, comendo bolo e ouvindo Mozart em seu pequenino apartamento, vendo a chuva, não é preciso mais nada, palavras são desnecessárias, canta o Depeche Mode há quase 3 décadas.
Alguns leitores hão de estar enfurecidos, porque “contei o fim do filme”. Não. Isso é o óbvio; My Happy Family é típico filme de festival, vagaroso, paciente, quieto, não está estruturado pra ter fim fechadinho, solucionador. Embora haja alguns pararelismos típicos de roteiro, para reforçar/contrastar a situação de Manana, a película parece com aqueles recortes de alguns dias na vida das personagens – que na nossa América, a Argentina já fez tão bem.
O cotidiano vai acontecendo e através de diálogos simples, os diretores/roteiristas Nana Ekvtimishvili e Simon Gross demonstram a exaustão emocional causada pela repressão de nãos durante anos; a chantagem emocional que mal esconde o desejo de tirania; a toxicidade camuflada das interações sociais. Sem fluxos de consciência, sem imagens metafóricas ou “alegorias”. Não que houvesse algo de errado se os tivesse, mas a genialidade de My Happy Family é ser supercabeça sem essas coisas. Na verdade, o filme depende muito que o expectador perceba a opressão de Manana. Nesse sentido, é muito mais inteligente do que as produções que gastam horas explanando mirabolices. My Happy Family as apresenta e deixa pra nós a compreensão e a empatia. Ou não.