segunda-feira, 20 de novembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 292


Roberto Rillo Bíscaro

Durante os anos 80, um senhor barbudo com voz rouca e parecendo um anão de jardim, conquistou-me diversas vezes com baladas, temas de filmes e novelas globais: Up Where We Belong, Edge Of a Dream, Even a Fool Would Let Go, Don’t You Love Me Anymore são amadas e escutadas até hoje. Provavelmente a coisa mais “pesada” foi o R’ n’ B meio domesticado de Unchain My Heart. Pelo Som Pop ou símile já ouvira o definitiva cover de With A Little Help From My Friends, dos Beatles, que entrou de vez pro imaginário de muitos atuais 50tões brasucas, por ser tema de abertura da série Anos Incríveis. Mas ouço/adoro muito mais as baladas.
A escassa mídia à mão naquele tempo aqui no interior afirmava que o melhor de sua carreira já passara, e que o britânico a destruíra devido ao abuso de substâncias químicas. Nunca me importei em saber detalhes ou conhecer muito além do mencionado. OK, You Are So Beautiful tocava sempre nos programas de flashback (recentemente ainda a ouvi num carro sintonizado num desses programas), mas, quando desisti de ouvir rádio em algum momento dos 90’s, perdi contato com Joe Cocker. Sabia que lançava álbuns, percebi que seu visual ficava cada vez mais domado – tipo de senhorzão alinhado mesmo – mas não escuto nada “novo” há uma geração. Soube que participou do jubileu não sei do que da Rainha, compartilhei vídeos de minhas baladas favoritas, quando morreu de câncer no pulmão, em 2014, mas Joe pertencia aos cristalizados anos 80
Creio que assim permanecerá; suspeito que jamais pintará ímpeto de conhecer muito do que veio antes ou depois. Mas, isso não seria motivo pra eu deixar escapar Joe Cocker: Mad Dog With Soul, documentário deste ano, da Netflix, que traça perfil bem chapa-branca do fã de Ray Charles e Aretha Franklin, nascido na industrial Sheffield. Os 90 minutos de depoimentos e imagens de arquivo funcionam mais como tributo (merecido) e cronologia pra quem deseja conhecer medianamente sua carreira.
Catapultado ao semi-endeusamento pela seminal performance em Woodstock, Cocker começou megaturnê pelos EUA, onde não ganhou dinheiro, mas era tanta doideira que afetaria sua vida pessoal por décadas, porque foi nela que o cantor se viciou em tudo quanto lhe davam. A partir daí, amigos, parentes e colaboradores pintam boa autoimagem, além de construírem Joe como alma extremamente gentil, incapaz de dizer não ao que lhe empurravam goela ou nariz abaixo; incapaz de lidar sobriamente com as tais pressões do estrelato e do show bizz. Enfim, é a visão goethiana do artista genial consumido pela arte. Nem o feroz mercado fonográfico parece ter culpa alguma: como Cocker era sensível e afável demais, era antena pronta pra captar quaisquer vibrações negativas.
Psicologicamente é retrato por demais raso e o coloca mais como receptor do que como agente. Rita Coolidge afirma que na primeira turnê Cocker chegou a ser ameaçado fisicamente pelos organizadores, quando tentou desistir. Quando é preciso dizer que despediu seu empresário de anos por carta e nunca mais falou com ele novamente, a coisa fica só nisso. Joe era impulsivo, decidia algo e pronto, não há análise. Até parar de beber foi assim; bateu um clique depois de velho e parou facilmente. Fodástico, heim?! Joe Cocker: Mad Dog With a Soul não vira tabloide, porque evita mergulhar no lado sombrio; mostra apenas a superfície.
O documentário jamais entrará pra listas de mais influentes sobre roqueiros, mas se você, como eu, só queria mesmo um panorama da carreira, até que serve. 

domingo, 19 de novembro de 2017

OUTRO MONSTRO ALBINO?

Rampage: Destruição Total | The Rock e gorila albino gigante no primeiro trailer do filme


Rampage: Destruição Total, adaptação do game homônimo estrelada por Dwayne "The Rock" Johnson e Naomi Harris, ganhou o seu primeiro trailer.

Johnson interpreta o primatologista David Okoye, que tem uma grande amizade com o gorila branco George. Porém, um experimento genético transforma o animal em um grande monstro, junto com outros predadores ao redor da América do Norte. Okoye então se reúne com um engenheiro genético desacreditado para criar um antídoto e salvar seu amigo.

A estreia é prevista para 20 de abril de 2018.

sábado, 18 de novembro de 2017

BEIJADOS PELO SOL


A denúncia sobre a perseguição e agressões contra os negros portadores de albinismo em alguns países da África é o ponto de partida do livro Beijados pelo Sol, lançamento da Editora do Brasil

Especialista em temáticas africanas, o escritor Rogério de Andrade Barbosa escreveu “Beijados pelo Sol”, após conhecer o sofrimento dos portadores de albinismo na África, onde relatórios oficiais indicam 129 pessoas assassinadas e 181 mutiladas em 23 países daquele continente até 2014.

Barbosa visitava a África em busca de subsídios para outros trabalhos, quando se comoveu com a perseguição sofrida por crianças albinas, que têm partes do corpo retiradas e usadas em rituais de magia, cujos praticantes acreditam que o membro ou corpo de um albino, pode trazer força, sorte ou azar. A prática movimenta um comércio clandestino, no qual um membro pode custar 2 mil dólares e um corpo inteiro, 75 mil dólares.

No livro, Barbosa relata a história de um garoto, Kivuli, que nasceu com albinismo, no interior da Tanzânia, país com incidência de albinismo na África. Kivuli tentava entender a diferença com os amigos e sabia dos riscos que ele corria, até de morrer. Tudo, só porque era diferente dos outros. Ele se protegia do sol na sombra das árvores ao ir para escola, mas um dia foi sequestrado e levado para longe.

A narrativa do escritor presenteia o leitor com um ‘thriller’ de suspense, perseguições, fugas e superstições, num ritmo de aventura com a luta e fugas do herói juvenil para se libertar. Essa movimentação faz com que o leitor, especialmente o mais jovem — alertado pela gravidade da denúncia e do perigo que envolve o personagem principal— se prenda ainda mais ao livro, interessado no desfecho da história.

A ideia é fazer com que a história de Kivuli sensibilize e sirva de alerta e inspiração para as pessoas que lutam contra o preconceito e pela igualdade e respeito, mesmo para quem é diferente. No Brasil, por exemplo, onde é maioria, a população negra ainda sofre todo tipo de preconceito.

Na África, os portadores de albinismo, além das mutilações de mãos, pés, cabelo, olhos e outras partes do corpo, também sofrem com outros tipos de ataques e agressões menores, como o bullying, tipo de agressão que também é registrada em outros países e continentes.

O livro conta com apresentação da jornalista Patrícia Campos de Toledo, autora de reportagem especial sobre o assunto no jornal Folha de S. Paulo.

As ilustrações são de John Kilaka, que nasceu e mora na Tanzânia e é um artista premiado na Europa e na África. Ele usa em sua arte a tradição da “tingatinga”, um estilo imortalizado por um artista da Tanzânia, para conferir um colorido especial às ilustrações.

Beijados pelo Sol

Autor: Rogério Andrade Barbosa

Ilustrações: John Kilaka

Formato: 14 × 23 cm

Número de Páginas: 72 páginas

Preço sugerido: R$44,80

Sobre o autor: Rogério Andrade Barbosa é professor, contador de histórias e escritor. Formado em letras pela UFF, fez pós-doutorado na UFRJ. Foi durante dois anos professor voluntário a serviço das Organizações das Nações Unidas (ONU), em Guiné-Bissau, na África. Desde então, dedica boa parte de sua carreira ao estudo da história e literatura oral do continente Africano. Em 30 anos como autor de Literatura Infantil e juvenil, publicou mais de 100 títulos; alguns deles traduzidos em vários países, como Alemanha, Argentina e Espanha. Foi premiado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2005, e o Prêmio OPri 2007, da Secretaria da Cultura do Rio de Janeiro.

Sobre o ilustrasdor: John Kilaka nasceu em Sumbsbawanga, sudeste da Tanzânia. Aos 21 anos se mudou para a cidade de Dar es Salam para aprimorar os estudos. É artista há mais de 26 anos e suas obras já foram expostas em diversos país, com Suíça, Alemanha, Dinamarca e Suécia. Ilustrou livros infantis e escreveu histórias que obtiveram sucesso e premiação internacional e foram traduzidas para muitas línguas. Também ministrou cursos e oficinas de arte, além de participar de projetos de leitura, um dos quais ensina crianças órfãs a contar e a escrever histórias para livros infantis, ajudando-as a desenvolver habilidades na escrita. É um projeto bem-sucedido, pois toda a renda com a venda dos livros é revertida para elas. E tudo isso promovendo a literatura! Até agora foram 14 obras publicadas em três idioma: swahili, inglês e sueco.

Sobre a Editora do Brasil: Fundada em 1943, a Editora do Brasil atua há mais de 70 anos com a missão de mudar o Brasil por meio da educação. Como empresa 100% brasileira, foca a oferta de conteúdos didáticos, paradidáticos e literários direcionados ao público infantojuvenil. Foi fundadora da CBL, SNEL, FNLIJ, IPL e da Abrelivros. Os títulos estão disponíveis para comercialização por meio da loja virtual da Editora Brasil (https://www.editoradobrasil.com.br/lojavirtual/detalhe.asp?CODIGO=74250102211) ou nas lojas físicas, em São Paulo (Rua Conselheiro Nébias, 887 – Campos Elíseos, São Paulo – SP), Rio de Janeiro (Rua do Bispo, 150 – Rio Comprido-RJ) e Natal (Rua dos Caicós, 1533 – Alecrim, Natal- RN).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

PAPIRO VIRTUAL 118


Roberto Rillo Bíscaro

Gutemberg é o grande responsável pela literatura barata em mais de um sentido. A produção em massa cada vez maior, aliada a crescente alfabetização e sede por entretenimento, há séculos vem despejando jorros de histórias rápidas, sensacionalistas e frequentemente viciantes. Folhetins rocambolescos, penny dreadfuls, dime novels, a quantidade de gente escrevendo por migalhas pra ser vendido por mixaria é caudalosa.
Mais ou menos entre a década de 1920 ao fim da de 40, ocorreu o apogeu e desmonte da pulp fiction, assim denominada porque os livretos eram feitos com polpa de celulose, por isso custavam centavos. Na época da Depressão trintista isso seria mão na roda pros milhões sem grana, que queriam escapar um pouco da realidade horrenda do desemprego, mediante fartura de subgêneros: as revistas de pulp fiction flutuavam pelo western, horror, ficção-científica, policial detetivesco, fantasias, aventuras (que tinham subgêneros dentro do subgênero, como aviação, egiptologia etc) e até pornozinho soft.
Pulp Fiction: The Golden Age of Sci Fi, Fantasy & Adventure, também subtitulado The Golden Age of Storytelling (2010) começa a dar conta desse universo esnobado pela crítica literária, mas guarda armadilha que precisa ser desarmada, pra extrair a polpa.
Na pulp fiction começaram autores importantes como Dashiel Hammett, Raymond Chandler, Ray Bradbury, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, H. P. Lovecraft. Mas, o documentário não perde a oportunidade de insistentemente incensar o medíocre L. Ron Hubbard, prolífico pulper, mas muito mais badalado por meia Hollywood como criador da igreja da Cientologia. Então, cuidado: o documentário é propaganda subliminar ma non tropo dessa arapuca religiosa.
Uma vez protegido do proselitismo disfarçado, o documentário pode ser curtido como introdução a esse universo de papel barato e capas chocantemente coloridas em cores primárias. Luke Skywalker e Indiana Jones são netos cinematográficos dos incontáveis heróis da pulp fiction; os queridos detetives deprês do Nordic Noir são filhos de Sam Spade e Philip Marlowe, por sua vez prole dos primeiros detetives beberrões e ásperos da pulp fiction. Heróis dos quadrinhos são migrações pulp.
No afã propagandista de defender seu herói, alguns comentaristas desnecessariamente detonam a “alta” literatura, embora quantos críticos eruditos desta não fazem o mesmo com a “cultura de massa”, não? Mas, é bem legal saber alguns detalhes da produção, como o salário de miséria pago aos escritores e ver a profusão de capas exibidas, provavelmente o quinhão mais saboroso do documentário.
Como o pop não poupa ninguém, a pulp fiction, que já era transformação de algo anterior, também metamorfoseou-se em serial, literatura em capa de papelão, daquelas abundantes em aeroportos; filmes, que disfarçam a pulpice com efeitos especiais; séries de TV e quadrinhos, também procurando camuflar sua matriz pulposa, mediante a criação de “mitologias”.


Assim, releve o engodo de Hubbard como escritor de importância e aproveite o lado cheio desse copo de pulp fiction, disponível no Youtube:

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

TELONA QUENTE 211


Roberto Rillo Bíscaro

A classe média é frequentemente objeto de sátiras e críticas por estar a meio caminho entre a destituição e a riqueza. Desfrutando do lado outlet do capitalismo; como os “pobres”, tem só sua força de trabalho pra vender, então não pode virar classe alta, mas desconjura ficar baixa.
Esse caminhar na corda bamba informa Showroom (2014), estreia na ficção do documentarista argentino Fernando Molnar, disponível na Netflix.
O ótimo Diego Peretti é Diego, que perde seu emprego por ser maduro e desanimado e se vê obrigado a deixar sua vida classe-média portenha pra viver no meio do mato numa ilhota na vizinha El Tigre. Seu tio é construtor bem-sucedido e lhe concede emprego de 12 horas diárias no showroom do Palermo Boulevard, torre de apartamentos chique, que Diego vende, mas não pode adquirir, embora não perceba isso. A pressão pra vender, a necessidade de sustentar a família, a longa jornada de labor acrescida do duro e tedioso traslado d’El Tigre a Baires literalmente alienam Diego da família e de si mesmo.
O cine argentino já provou diversas vezes a competência pra essas histórias mínimas, insistentes em flashes do cotidiano, que parecem dizer nada, mas contam parcela do mundo. Showroom pode não ser o melhor exemplo disso, mas é muito competente e interessante ao mostrar sem alarde – porque é assim mesmo que ocorre – a robotização de Diego e sua submissão inconteste a uma situação que elimina sua humanidade.
O problema de Showroom é que, como contraponto mal delineado da vida urbana capitalista selvagem, escolhe noção rousseauniana bom-selvagista bastante discutível. A ilha fluvial é apresentada como alternativa verde, onde a vida comunitária existe idilicamente, conquistando a filha e a esposa, no início resistentes em abandonar a cinzenta Buenos Aires. Mas o dinheiro que permite a subsistência das duas nesse paraíso livre de estresse é o do sucateamento de Diego. Isso jamais é problematizado e é uma dos grandes dilemas capitalistas.
Como showroom pra reificação de Diego, Showroom funciona bem, mas sua oferta de solução do problema ainda está no século XVIII. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CONTANDO A VIDA 212

CRÔNICA DO NOME, SEM NOME...


José Carlos Sebe Bom Meihy

Como qualquer pessoa que vive no âmbito da cultura ocidental e aprendeu que a democracia, por pior que seja politicamente exercida, é o melhor sistema de governo, sempre execrei a figura de Hitler. As dificuldades de estudo sobre o terrível ditador ainda hoje me ocasiona bloqueios quase que insuperáveis. O mais complicado para mim, no entanto, sempre foi entender como as peças musicais de meu mais devotado autor de música erudita, Richard Wagner, tinham servido de base para que os pangermanistas formulassem a teoria da superioridade racial alemã. De toda forma, precisei superar os entraves para entender (e aceitar) que toda cultura é construída, e que no caso da música, tudo se complica, pois isso implica aceitar códigos bem mais sutis do que os permitidos pela linguagem escrita, objetiva e de certa concretude.


Foi assim que precisei dar alguma atenção à biografia de Wagner para ter alguma noção do papel social da música “clássica” como elemento de manipulação política. Dessa maneira, cheguei a um teorema existencial profundo. Dentre tantas óperas, Lohengrin contém a chave de alguns enigmas ligados ao folclore germânico. Uma das passagens mais importantes revela o dilema da personagem Elza que não poderia fazer nunca perguntas, mas se via compelida a saber o significado de seu nome. Aliás, toda história dessa ópera é interessante.

Em 1845, contando com 32 anos, Wagner adoeceu e com sérias complicações foi aconselhado a diminuir a rotina alucinante de criação. Indo às montanhas da Boêmia, numa região termal, retomou o enredo de uma lenda onde um misterioso cavaleiro, saído das brumas, chega a um porto desconhecido, em um barco negro conduzido por um cisne branco. Espiritualmente tinha recebido a incumbência de salvar uma donzela em perigo. Sem explicações, se apaixona por ela, mas é obrigado, por força inexplicável, a partir para sempre. É quando então ela relaciona seu nome ao destino. Em sua autobiografia, Wagner conta como concebeu o enredo e narra “eu tinha apenas entrado no banho termal, ao redor do meio-dia, quando o desejo irresistível de musicar Lohengrin tornou a assaltar-me violentamente. Incapaz de transcorrer sequer mais um momento dentro da água, precipitei-me imediatamente para fora e, vestido sumariamente, corri como louco para meu quarto, para começar a escrever o esboço em prosa do poema que tinha em minha mente. Este fato se repetiu nos dias subsequentes até que, em três de agosto, a inteira narração da nova ópera foi completada”.

Pensando na história de Elza, me veio à cabeça o sentido do questionamento sobre nossos nomes. Retomei também a consequência da escolha de nomes de nossos filhos. É muito sério pensar no peso disso, pois para sempre a pessoa batizada passará a ser designada dessa forma. Em paralelo, conclui que a melhor escolha, no mundo moderno, remete a nomes que podem ser reconhecidos em qualquer idioma como Daniel ou Marta, por exemplo. Seria mais complicado se fosse Antonio. Antonio: com acento? Mas qual, agudo, Circunflexo? E exigiria tradução e até apelido: Tom, Tony, Toninho... Seria ruim. Acho complicado também os nomes que evocam passagens triunfais como como Júlio César ou Napoleão.

Deve ser difícil alguém chamar Jesus, pensou? Para mim, seria uma cruz ter esse nome. O mesmo se repete no feminino: Madalena, Dolores, Piedade... a evocação de santos e santas também me perturba: Dimas, Domingos, Tadeu. Tereza, Fátima, Cássia... Deus me livre. Sei que José e Maria são as denominações mais comuns no Brasil, mas se pararmos para referendar significados, talvez, não fossemos tão insistentes. O mesmo se diz no nordeste de Cícero ou Damião, e entre os islâmicos Mohamed. Pode ser duro aceitar, mas carregar a fé de nossos pais é coisa alheia ao nosso destino. Não aprecio também as modernizações do tipo Cauã ou Kenzo, para meninos e Jacqueline ou Michele para as garotas. Por certo devo ser comedido, pois, quantos queridos assim são chamados.

Creio que me seria suportável nomes clássicos como: Heitor, Ulisses, Hermes. O fardo não me seria insuportável se a memória refrescada de alguns anjos, querubins – à exceção de Serafim – me servissem. Gabriel, Miguel ou Davi estariam de bom tamanho. Há santos ou heróis aceitáveis: Tomás, Tiago, Jerônimo, mas a maioria é estranha ou mesmo postiça. Interessantes também são algumas tradições que, contudo, não cabem mais e soam engraçadas. Chego e me encantar, por exemplo, com a tradição britânica que chamava as mulheres de Hillary, Melody, Happiness, ou ainda mais sutil Prudence ou Liberty.

Tudo isso decorreu da instigação dada por Wagner. É bom que pare por aqui, pois acho que o mesmo destino que levou Lohengrin a desaparecer pode significar o fim desta crônica que não tem explicação e nos deixa como Elza, sem resposta. Aliás, como ela, não deveríamos perguntar nada a quem nos deu a vida... e o nome...

terça-feira, 14 de novembro de 2017

TELINHA QUENTE 285

Hoje é dia de dobradinha na seção de TV. Segredos e Mentiras é uma série bem legal, que mistura investigação policial com novelão. Tem na Netflix. Mas, o original é uma minissérie australiana, sabia? Bem legal também e com enfoque mais no caso policial. Leia sobre as duas.  

Roberto Rillo Bíscaro

Quem diria, Juliete Lewis se esforçou tanto pra ser cult no início dos anos 90 e terminou fazendo soap pra ABC! Nada contra, amo novelões norte-americanos (ou inspirados neles), mas não pude escapar de pensar nisso enquanto via as 2 temporadas de Segredos e Mentiras (2015-6), disponíveis na Netflix. Será que a já quarentona toparia fazer esses roteiros fracos (mas deliciosos), nos anos 90? Ou é porque os papeis pra cine estão minguando por causa da idade? Hollywood é implacável com a mulherada.
O que quer que tenha sido a razão pro aceite, Segredos e Mentiras já diz tudo o que é pelo título. Baseado numa minissérie australiana, a série começou pretendendo ser de investigação policial, mas sua alma sempre foi de soap opera. Na segunda temporada então, alucina, até com gentchy ryka sofrendo (amo!). Como Secrets and Lies é centrada nas investigações da detetive Andrea Cornell, a ABC pensou em dedicar cada temporada a um caso, mas a audiência não deve ter rolado a contento, porque só houve duas. Damn!
Na primeira dezena de capítulos temos a história da família de classe-média, os Crawford. Papai Ben sai pra fazer jogging perto do Natal e descobre o corpo do filhinho de sua vizinha no meio da floresta. Não demora pra situação virar contra ele, porque a Detetive Cornell suspeita-o como assassino, e quando Andrea encana, encarna como sarna. Pra tentar se livrar da acusação, Ben começa também sua investigação. A dele e a da polícia combinadas resultarão na destruição de várias vidas e famílias, porque o título é SEGREDOS e  MENTIRAS, né? É tudo rotina, as interpretações são algo ruins ou mornas, mas tem coisa divertida pra quem curte soap e mesmo quem gosta de histórias de investigação mais americanizadas, não no padrão europeu deprê do Celtic ou Nordic Noir. É bem consumo, com aquelas revelações tiradas do fundo do bolso do colete e aquelas deliciosas improbalidades de soap: o prédio da polícia é gigantesco (vemos cenas gravadas de drone), Ben tem que falar com Cornell, ele abre a porta do elevador e ela está na frente. Aliás, ela parece assombração, está em tudo quanto é canto a qualquer hora.
Até que gostei de uma detetive sem vida própria, como em produções mais antigas. Todas as series “sérias” de policiais duns tempos pra cá têm que lidar com os casos e as vidas pessoais horríveis dos detetives. Em Segredos e Mentiras, Andrea quase vive pro caso; aprendemos um fato de sua filha, mas é apenas pra compor melhor o sentido de justiça da detetive. Ela é uma pedra de gelo e vive pra prender assassinos.
Na segunda temporada, somos introduzidos mais a seus dilemas pessoais, mas não me importaram tanto quanto a investigação policial, ou antes, a história de revelações bombásticas de uma família rica, aparentemente perfeitinha, mas que se desintegra ao longo dos dez episódios. E olha que moderno, o clã rico é afrodescendente, embora o papaisão seja caucasiano  - mas o legal aí é o casamento birracial (pode dizer assim ainda ou é bi-étnico agora?). Moderno nada, deu certo protagonista negra em Scandal e família negra rica em Empire (parei de ver, enjoei) e Greenleaf (tentei 2 ou 3 capítulos, mas não curti o contexto), então a ABC botou uma em Segredos e Mentiras também.
No dia em que o macho Alfa ébano Eric Warner assumirá o controle da companhia fundada por seu pai, sua esposa despenca da cobertura e a robótica Andrea Cornell encasqueta que ele seja o culpado. No processo de buscar evidências de inocência e também pelo assassino da mulher, Eric desmantelará a família. Como o planejado era uma história por temporada, os roteiristas destruíram MESMO a família Warner. Do capítulo 5 ou 6 em diante, é porrada atrás da outra. Tipo, estava eu reclamando sobre como Terry O’Quinn (o diabão de 666 Park Avenue) era sub-aproveitado, quando uma daquelas reviravoltas malucas de soap me atingiu no estômago. Nossa, a-may! Pena que tem a história paralela do policial que quer encontrar sua filha piranha desaparecida. Who the fuck cares?
Segredos & Mentiras serve pra matar fome de quem tá com jejum de soap. Daqueles shows pra você ver só mesmo pra fugir da rotina. E pra descobrir os assassinos nem é difícil, mas quem se importa? Fã de soap quer emoções e isso os 20 capítulos me deram. Não é um Scandal ou Revenge do início, mas serve, porque casa 2 subgêneros que amo.

A minissérie australiana, exibida em 2014 pela Network Ten, é mais concisa que sua cópia ianque. Os 6 capítulos dispensam vários dos elementos de soap opera e desnecessidades pra concentrarem-se no drama provocado pelo assassinato de Tom, afinal, todo caso policial tem por trás e por diante um vale de lágrimas.
Certamente inspirado em Broadchurch, mas longe de ter seu clima lúgubre, Secrets and Lies apoia-se mais nos efeitos da suspeita em Ben e no consequente efeito cascata de infortúnios provocados pelas suas tentativas de provar a inocência. Como o roteiro não tem que lidar com nome tão graúdo como Juliete Lewis, o policial (na Austrália é homem) é tenaz, mas não precisa ser onipresente, potente e ciente, tanto é que Ben descobre a pessoa que perpetrou o crime juntamente com o Detetive Ian Cornielle. É a mesma que da releitura estadunidense, mas seu destino é distinto, porque a mini tem final fechado.
Bem atuada, roteirizada e produzida, Secrets and Lies não escapa dos atalhos televisivos pra prender audiências. Ben Gundelach é eficientemente interpretado pelo neo-zelandês Martin Henderson. Como ele é gostosão – já foi até médico de Grey’s Anatomy e todos sabem que lá é preciso ser bonito mais do que bom profissional – em 70% do tempo, aparece:
a)       sem camisa;
b)       de camisa aberta mostrando todo o peito;
c)        de camiseta bem apertada delineando os mamilos
d)       de camiseta regata suada, porque fazia jogging. Repararam que em filmes e séries todo mundo só faz jogging com camisa/camiseta/abrigo acinzentado pra realçar melhor as marcas de suor? Acho nojento, mas aparentemente muita gente goza galões com essas imagens.   
Nos restantes 30% ele não está na cena. É uma verdade universalmente aceita que um ator mostrando o físico interpreta melhor a “essência” da personagem, né? Correto que o clima australiano requer pouca roupa, mas os demais homens não aparecem sempre em trajes tão minimalistas...
Ironias a parte, o Secrets & Lies australiano é pra quem gosta de mistérios policiais e histórias de detetives. Sem imitar Noir algum, a Network Ten mandou muito bem.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 291


Roberto Rillo Bíscaro

Amo música negra norte-americana em sentido bastante amplo, mas inegável que meu xodó sejam as divas, basta checar o número de resenhas de álbuns de cantoras. Deve ser por isso, que mesmo com relação a vozes masculinas, meu período favorito da black music são os anos 70, quando os falsetes do Phily Soul imperavam. Ai ai, Stylistics...
Como o caráter desta página é inclusivo e meus gostos (mais ou menos) amplos, homens não estão aprioristicamente exclusos. Edificante. Mas essa não é toda a verdade. A curiosidade pra eu ouvir o segundo álbum do neo-soul man independente Darien Dean veio, porque Avery Sunshine participa em uma faixa.
Natural do estado de Nova York, Dean não faz sucesso de massa – elegível pra muso deste blog, então! – mas tem despertado atenções e críticas positivas no universo R’n’B. Compositor, produtor, engenheiro, o norte-americano estreou em LP, com o álbum If These Walls Could Talk e demorou 8 anos pra lançar o segundo, Departures.
É um trabalho muito conciso: descontadas a Intro e 2 remixes, há apenas 6 canções, de exímia qualidade vocal e arranjos solares. A menos marcante é a setentista Wonders e não porque seja ruim. Por Deus, não! É gostosura deslizante, mas ouvida tantas vezes que acaba não se destacando em relação às demais. Mas, nunca pulo, porque é delicinha e o nome lembra o cego Stevie, patrono inspirador de muita coisa aqui. Experimente a soul ballad Find a Way e veja se não tem cheirinho de Stevie Wonder.
Harmless tem jeitão de Southern Soul; devido à discreta guitarra bluesada e piano gospel. E presta atenção nessa voz, que em Someone Is You encontra par feito no Paraíso na potência modulada de Avery Sunshine. Há 2 versões: a primeira mais R’n’B spiritual e a segunda mais na praia da moçada acid jazz. Outra que aparece em dose dupla é Pieces, ápice de Departures, de humilhar a concorrência de tão bem cantada e arranjada: os violões latinos dão vontade de patinar com a cara metade no Central Park num dia de primavera. O remix não agrada tanto a fãs old school, como este resenhista, mas não está ruim.
All I Ask volta uns 17 anos na sonoridade black music, tem batida marcial e teclado onipresente, embora confinado ao fundo da mixagem. Bem diferente do resto e prova que Dean pode fazer coisa distinta. Provavelmente agradará a quem cresceu com o “peso” da produção oitentista. Boa, mas todo esse trampo na produção veio com um preço: os demais arranjos têm mais espaço pra "respirar”. Escolhas implicam em perdas e ganhos. Mas isso prum show deve ser catártico!
Darien Dean tem mais pra agradar à galera old school, o que hoje significa algo como “pessoal que curte soul anos 70, 80 e 90”. Não há rapper fazendo ‘uh hu, uh, ho, yo” ao som de arranjo pseudo-trap (nada contra, nada contra, calma!), embora na versão One Mo’ Piece, de Pieces, pareça que vai haver. Há granulados modernos suficientes pra agradar ouvidos contemporâneos abertos pra lindas harmonias e vocais.
E ainda por cima, não dá pra usar como desculpa o fato dele ser independente pra não ouvir. Ambos LPs estão no Bandcamp:

domingo, 12 de novembro de 2017

SUPERANDO A OBESIDADE

Mayara chegou a pesar 170 kg, mas decidiu mudar de vida para realizar o sonho de ser mãe. Veja a reportagem!

sábado, 11 de novembro de 2017

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

DESAFIOS DO AUTISMO

'Tenho medo do meu próprio filho': o desafio de lidar com crises de crianças com autismo



O desabafo é de Lucy Goldsworthy, mãe de Elliot, de 12 anos, diagnosticado com autismo severo no Reino Unido. Ele não fala, enfrenta dificuldades de aprendizagem e tem crises nervosas que já a deixaram com o lábio cortado e hematomas por todo o corpo. O pai, Ian, teve a córnea arranhada após ser atingido por um soco.


Em entrevista à BBC, pais como Ian relatam cenas de violência - e dizem ter muita incerteza em relação ao futuro. Muitos afirmam temer os próprios filhos e cobram das autoridades ajuda para lidar com a questão.

A Organização Mundial da Saúde estima que o Transtorno do Espectro Autista afete uma em cada 160 crianças no mundo - mas ele pode se manifestar em uma ampla gradação, de graus mais leves aos mais agudos. É importante ressaltar, porém, que nem todos os autistas são agressivos e que não há nenhuma evidência de que sejam mais propensos à violência.

A Sociedade Nacional de Autismo do Reino Unido ressalta, porém, que é necessário que haja assistência às famílias, em especial às de crianças que sofrem com crises agressivas mais frequentes.

No Brasil, a Associação de Amigos do Autista (AMA), que dá apoio a 350 crianças com autismo em São Paulo, também recomenda, em seu site, um tratamento multidisciplinar com orientação familiar, intervenções psicoeducacionais e uso de técnicas para desenvolvimento da linguagem e comunicação.
Ian Goldsworthy: 'Você meio que se acostuma em ver o quarto de seu filho parecer uma cela'

Crises nervosas normalmente acontecem quando há acúmulo de informações sensoriais simultâneas que elevam o nível de estresse do autista. A frequência, contudo, varia de pessoa para pessoa e também depende do espectro em que o autista se enquadra. Além disso, elas não se limitam aos diagnosticados com autismo - há outros transtornos que também têm, entre os sintomas, agitação extrema e comportamento agressivo.

"É um assunto sério e muito difícil, mas as famílias precisam enfrentá-lo", afirma Ana Maria Mello, superintendente da AMA, instituição que ajudou a fundar há mais de 30 anos. Ela mesmo diz que seu filho, hoje com 39 anos e diagnosticado com autismo na infância, passou a ter crises nervosas na adolescência.

"Ele foi crescendo e entrou numa fase de muita agressividade. No início, ficávamos cheio de hematomas. Foi preciso aprender a segurá-lo sem me machucar e sem machucá-lo", conta Ana Maria, dizendo que as crises agressivas não podem ser tratadas como tabu.

Ela conta que, com o tempo, aprendeu a lidar com os episódios agressivos e descobriu que o filho relaxa fazendo caminhadas.

Entre grades
No caso do britânico Elliot, os episódios começaram a ficar mais violentos quando ele tinha cinco anos. Os pais relatam que, à medida que ele vai crescendo e ficando mais forte, torna-se cada vez mais difícil de controlar as crises.

"Se ele ainda fosse uma criança pequena, seria mais fácil conter um ataque, com ele te arranhando e te chutando", diz Lucy. "Agora, é como se um pequeno homem te atacasse de repente."

A mãe de Elliot explica que ele é violento durante apenas cerca de 5% do tempo, mas que os efeitos das crises estão cada dia piores.

Ian e Lucy tiveram de colocar grades na janela do quarto do menino e trancar a porta para manter ele e os irmãos seguros.
Escola britânica que está ensinando ioga a alunos com autismo para reduzir crises nervos

"Você meio que se acostuma a ver o quarto de seu filho parecer uma cela", diz o pai.

Elliot frequenta uma escola especial, mas os pais afirmam que as autoridades locais - através do Sistema Nacional de Saúde (o NHS, na sigla em inglês) - não lhe dão nenhum tipo de apoio. Segundo eles, a ajuda governamental só é oferecida se o filho ou os pais são hospitalizados ou se a polícia é chamada.

Ela diz que, após ter sido ferida na cabeça pelo menino após uma crise violenta, acreditou que teria mais apoio. "No começo, recebi um pouco de ajuda", diz a mãe, emendando que depois as autoridades tentaram "lavar as mãos" e passaram a oferecer apenas 48 horas de ajuda por ano.

Estratégias
Segundo a OMS, estudos conduzidos nos últimos 50 anos revelam que o número de pessoas diagnosticadas está aumentando no mundo inteiro. As explicações para esse aumento apontam para diagnósticos mais eficientes, mais conscientização e registros mais precisos.

Nos Estados Unidos, um estudo de 2011 indicou que quase metade de 1,4 mil crianças com autismo avaliadas pelos pesquisadores tinha crises muito agressivas e violentas.

Autistas podem, por exemplo, se sentir incomodados com muita informação, luzes brilhantes e barulho.

A BBC Brasil mostrou recentemente que uma escola no norte de Londres, na Inglaterra, está ensinando ioga a alunos com autismo para reduzir suas crises nervosas. Até agora, a iniciativa se provou bem-sucedida.

O site da organização brasileira Entendendo Autismo explica que a agressividade e a irritabilidade podem derivar do fato de que as crianças com autismo, por não entenderem alguns símbolos sociais, não conseguem encontrar formas de expressar em determinadas situações. Elas também costumam ser hipersensíveis ao barulho, por exemplo.

Entre as sugestões para lidar com episódios de agressividade estão levar a criança a ambientes onde se sintam confortáveis e usar jogos ou brinquedos que tenham efeito tranquilizador. Não é recomendável gritar com a criança. E também é importante que ela tenha um acompanhamento profissional interdisciplinar.

O neurologista infantil Clay Brites, integrante do Instituto Neurosaber e do Disapre (Laboratório de Pesquisas em Distúrbios, Dificuldades de Aprendizagem e Transtorno de Atenção), da Unicamp, ressalta que "nem todas as famílias de autistas sofrem com agressividade - há autistas que são excessivamente passivos e propensos, inclusive, a sofrer agressividade e abusos".

"A propensão do Transtorno do Espectro Autista a desenvolver agressividade é gerada pela sua condição, e não por voluntarismo ou maldade", explica ele por e-mail à BBC Brasil.

"Por outro lado, é importante saber que existem casos em que a agressividade, explícita e exagerada, tem que ser conduzida com internações e contenções. Geralmente, ocorrem naqueles casos de TEA severo e associado a comorbidades psiquiátricas como a esquizofrenia, o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno opositivo-desafiador. É importante sublinhar a importância do diagnóstico e da intervenção precoces para prevenir esses comportamentos em idades mais tardias", agrega.

'Ele é gentil por natureza'
Cameron, de 19 anos, é uma das 700 mil pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista no Reino Unido.

O diagnóstico veio aos três anos de idade, e o pai dele, Douglas Clements, diz que também tem medo das crises do filho. "Muitas vezes não sei como Cameron vai reagir, e é assustador", afirma.

Cameron hoje recebe atendimento diário em um centro especializado. Mas a vida em casa tem ficado cada vez mais difícil, e seus pais estão procurando por um espaço público que abrigue crianças e adultos vulneráveis que fique perto de onde moram em Surrey, na Inglaterra.

Hannah, mãe do jovem, diz que a família não consegue mais administrar o comportamento dele.

"Estou muito chateada, porque o amo muito", diz ela. "Não quero que as pessoas tenham medo dele, porque ele é gentil por natureza", acrescenta a mãe, que diz ser desolador ver o filho ficar frustrado, mas não conseguir explicar o porquê.
Os pais de Cameron estão procurando um lugar perto de casa para o filho, de 19 anos, receber cuidados especiais


'Vamos para a cama aos prantos'

O serviço de saúde britânico informa que estabeleceu "um programa transparente" dedicado àqueles com dificuldade de aprendizagem e autismo para permitir que mais pessoas nessas condições vivam em suas comunidades, "com o apoio certo e perto de casa".

Os pais de Elliot Goldsworthy acreditam que, à medida que o filho envelhecer, precisarão cada vez mais de apoio.

"Há momentos em que vamos para a cama aos prantos", disse Ian Goldsworthy. "Mas você não pode mergulhar nesse sentimento, porque a vida será exatamente a mesma no dia seguinte."

No Brasil
No Brasil, Ana Maria Mello, da AMA, diz que não há nenhuma política governamental para apoiar pais ou autistas. "Para conseguir uma vaga numa instituição é preciso recorrer ao Ministério Público e processar o governo", lamenta, dizendo que tem procurado autoridades para tentar regulamentar práticas e assegurar assistência mínima.

Ana Maria diz que, no Brasil, em casos extremos, autistas são hospitalizados, onde recebem medicamento e às vezes são amarrados numa cama. Ela, contudo, defende abordagens menos intrusivas.

Entre os 350 autistas que recebem atendimento gratuito na AMA, 26 são residentes. Voltam para casa de 15 em 15 dias, para não perder contato com a família. Os outros atendidos passam o dia ou meio perído na associação, que tem sede em São Paulo.

Ana Maria conta que a associação sempre buscou referências e experiências de iniciativas no exterior, em especial sobre as melhores formas de conter as crises nervosas mais severas.

"Logo no início mandamos uma pessoa aos EUA para ver como o assunto era tratado. Lá não se amarra nem se dá medicamento, mas há regulamentação e treinamento", conta.

Ela diz que a AMA tem recorrido ao método americano que usa duas pessoas para conter uma crise com movimentos sincronizados e um programa para melhorar o comprotamento de autistas. "Muitas vezes não se trata só de oferecer atividades relaxantes, mas de é uma questão de ocupar o tempo", complementa.

"É realmente horrível. Você ama seu filho, mas ele pode te machucar", afirma, ponderando que, com as estratégias de contenção e atividades físicas, é possível conter os mais agressivos, reduzir o número de crise e melhorar o comportamento.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

TELONA QUENTE 210


Roberto Rillo Bíscaro

Como se não bastasse o horror de ser estuprada, mulheres amiúde são culpabilizadas pela violência. Se usasse saia mais longa, se não estivesse em tal lugar a tal hora, enfim, um monte de absurdos que de propósito esquecem que estupros acontecem também a caminho da igreja com roupona tapando quase tudo. A cultura do estupro é tão arraigada que as próprias vítimas introjetam a culpa.
Imagine (seria tão bom não ter que...) ser violentada quando se pertence a instituição que prega a castidade, como a Igreja. Este é o drama do solene e correto Agnus Dei (2016), da diretora francesa Anne Fontaine, disponível na Netflix.
Freiras dum convento polonês pouco tem a celebrar com o término da Guerra, em 1945. “Visitas” de solados alemães e depois dos “libertadores” soviéticos deixaram 7 delas grávidas e outras tantas com doenças venéreas. Mulheres despreparadas até pra mostrar partes do corpo que não sejam o rosto e mãos; treinadas pra abominar contato carnal e automaticamente prontas pra se culpar por ele e crentes num ser supremo que as devia proteger encontram-se em situação de potencial e funesto opróbrio social. O roteiro não toca nesse ponto, mas mulheres que mantiveram relações com os invasores foram hostilizadas barbaramente no pós-guerra, não importando muito a consensualidade dos atos. Os rebentos resultantes também sofriam as consequências. Na supercatólica Polônia, freiras grávidas não teriam a menor chance.
Baseado em fatos, Agnus Dei mostra como uma médica francesa  comunista e ateia da Cruz Vermelha consegue ganhar a confiança e ajudar essas mulheres que não se deixavam nem tocar no começo.
Ponto forte do roteiro é não cair no sentimentalismo barato; Agnus Dei é austero, lento e quieto e não coloca a Dra. Mathilde como heroína toda poderosa perante as indefesas e bobas freiras. Ela também é mulher; está no mesmo barco, não importa se crê ou não, se curte comuna ou não.
Sem nenhuma inovação formal ou firula de inverter tempo da narrativa, a estreante Fontaine fez um filme redondinho – ainda que o roteiro de vez em quando podia dar mais detalhes ou discussões – bem ao estilo “europeu” de cines de arte ou festivais de antanho.
Sintonizada com o tema pesado e o rigoroso inverno polaco, a paleta de cores de boa parte de Agnus Dei é mortiça, cheia de tons frios, gélidos, sepulcrais. Quando chega a primavera e a solução pro problema, as cores esquentam um bocadinho, junto com a música.
Ainda que longe de ser grande película, Agnus Dei trata dum tema mais necessário do que nunca, num ambiente onde empatia pela dor do outro parece estar virando ato subversivo.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

CONTANDO A VIDA 211

A ESPANHA FRACIONADA: RETRATO DA EUROPA? ALERTA AO MUNDO?


José Carlos Sebe Bom Meihy
Escrevo de algum ponto entre Milão e Gênova. Na manhã brumosa, o trem corta o tempo em velocidade alta. Sinto-me na era moderna, mas ainda com sentimento de velhas viagens. O Mercado Comum Europeu, ou como alguns preferem a Comunidade Europeia, mudou as relações turísticas impondo novas regras, unificando moedas, regulando acessos, facilitando o transito geral, ao mesmo tempo que impõe controle maior aos não europeus. O encanto pela Europa, no entanto, permanece o mesmo, intocado, fascinante. Dias desses, pensava na ambiguidade de ser culturalmente “colonizado histórico” - primeiro no sentido de dependência política, depois cultural - e, ao mesmo tempo, sentir prazer em desfrutar de visitas às antigas metrópoles modeladoras do nosso meio jeito de ser ocidental. Isso, aliás, tem algo de paradoxal e ambíguo ao mesmo tempo. A par dos enigmas libertários, tenho que reconhecer que estar episodicamente vivendo os dilemas europeus me coloca como testemunha de conflitos sérios. E gozo do direito de ser observador livre do empenho decisório afeito ao pertencimento do corpo europeu.

A questão da pretensa independência da Catalunha domina os noticiários de televisão e povoa notícias e reportagens. Mesmo os programas humorísticos, os reality shows, ou espaços de entretenimento, estão afetados pelos debates sobre aquela “separação nacional”. E não é sem razão, pois a Europa toda é marcada pela construção de estados nacionais fermentados por unidades insatisfeitas com o padrão unitário típico do século XIX. É como se os fragmentos se despertassem de secular sono letárgico prometendo rebeldias latentes. Na Itália, por exemplo, pergunta-se o que tem de comum o norte com o sul? Uma breve passagem pela Lombardia, por exemplo, faz evocar comidas, danças, santos e artistas regionais. A Sicília apresenta outros encargos, o centro também, todos autênticos, mas distantes uns dos outros. E mesmo a língua e a religião comuns são pontuadas por tiques próprios que guardam certa memória não oculta por motes cultivados com picardias subjetivas. A conclamada Unidade Italiana é tão recente como a Alemã (1871) e em ambos os casos, seus regionalismos contêm latentes diferenças, muitas vezes expressas em detalhes sutis como times de futebol, concursos de miss ou até de certames escolares.

O chamado Leste Europeu se fragmentou recentemente, e desde a Queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991), assiste-se às constantes mudanças de fronteiras. Sérvia, Croácia, Montenegro, República Checa, regiões derivadas do fim da Checoslováquia e da Iugoslávia, atormentam jovens estudantes que precisam aprender sobre novos estados, capitais, fronteiras e moedas. A Chechênia busca seu lugar ao lado da Ucrânia, Bielorússia, Geórgia, Armênia, Moldávia, e de outros polos. A ameaça de fragmentações nacionais assusta os unionistas e, em vista do resultado recente da retirada dos britânicos do bloco comunitário europeu, tudo se potencializa, ameaçando fraturas em cadeias. 

Barcelona, sem dúvida alguma, é dos locais mais efervescentes do mundo e se situa, com justificativas, entre os dez pontos mais visitados do mapa. Bem localizada na constelação de outras cidades catalãs com as quais respondem com cerca de 20% da economia espanhola, foi a sede recente das contendas entre o poder central espanhol e os catalães. Combinação bem sucedida de história preservada em monumentos explicadores do desenho urbano tão caro aos turistas, ostenta língua própria e uma personalidade orgulhosa e até arrogante. É bem verdade que todas as regiões da Espanha exibem característica legítimas e são soberbas nas reivindicações de autonomias. Mas a história espanhola é farta em tratativas unitárias, contra isolamentos frustrados.

Para quem estuda a Espanha, não faltam alegações para colocá-la como uma espécie antecipada de modelo para os futuros estados nacionais. Foi assim desde a liderança conseguida na abertura da modernidade no longínquo século XVI. O casamento de Fernando e Izabel marcou o início da Modernidade e a abertura para as grandes navegações. No mesmo tempo, a União Ibérica para a expulsão dos árabes em 1492 coroou um programa político triunfante, sob a hegemonia de Castela, que impôs a língua como nacional. Com o correr dos séculos, entre idas e voltas, a complexa aliança de 17 culturas autônomas ficou sob o governo de Castela, que animou pactos selados pelas figuras de reis que soldaram a hegemonia parlamentar que soube, principalmente depois de 1975, com o fim do franquismo, resistir às crises.

O final da ultima semana do mês de outubro fez ver novamente que apesar do intento separatista, mais uma vez a unidade prevaleceu. Esta vitória não é, contudo, apenas de Madri ou da Espanha, pois serve também de alerta a outros movimentos independentistas. Entre as muitas lições que se levantam a partir dos acontecimentos espanhóis, um se destaca: a necessidade urgente de se refazerem os pactos nacionais. Não vale mais apenas respeitar os acordos do passado como se eles não tivessem dinâmica própria. Em um tempo em que tanto se fala em convívio com as diferenças, importante é exercitar as mudanças. O respeito, mais do que nunca, exige conhecimento do “outro” e isso implica aliviar hegemonias ou vinganças partidárias. Dizendo de forma definitiva, é necessário reinventar a democracia. E isso não remete apenas a Europa, mas implica olhar a nós mesmos.     

terça-feira, 7 de novembro de 2017

TELINHA QUENTE 284


Roberto Rillo Bíscaro

Vivo advogando a importância que teria uma personagem com albinismo representada de forma mais realista do que o usual papel de vilão ou portador (de propósito o termo) de poderes especiais. É ótimo ver diversidade nas telinhas, com gente de várias etnias e estilos de vida sendo retratados. Mas há que se tomar cuidado pra não transferir a programas de TV a capacidade de educar e alterar consciências por si sós. Senão, também estamos abrindo pro argumento de que psicopatas ou gays são criados vendo séries.
Por mais legais e importantes que sejam, séries têm o objetivo primordial de entreter; não dá pra transferir toda a responsabilidade da educação pra empresas que, no fim, por melhores que sejam as intenções, precisam de produtos lucrativos. Assim, é legítimo reclamar quando alguma representação seja daninha – como a insistência na figura do albino malvado, revoltado e esquisito – mas não seria correto esperar que um programa de TV pra entreter cumprisse o papel de documentário ou aula de biologia.
Creio que essa postura seja uma das mais sanas pra se assistir aos adoráveis 8 capítulos de Atypical, série da Netflix, estreada em agosto. A produção tem defeitos e trilha caminho já percorrido por tantas, mas passa alguma informação sobre o autismo de sua personagem central, Sam, que aos 18 anos quer arrumar namorada e transar, provavelmente nesta ordem, porque regras são muito importantes pra ele.
Atypical é típica dramédia chamada em inglês de coming of age drama, porque dramatiza o amadurecimento de jovens. Cinema e TV estão coalhados disso. O semidiferencial de Atypical é que seu protagonista está dentro do espectro autista; nada tão grave que complique sua representação dramática. Usei semi, porque já vi diversos nerds ou geeks representados perigosamente como Sam. Uma das armadilhas de representar rupturas mentais e comportamentais de modo fofinho-cuti-cuti-miguxo é abrandar demais o lado hardcore deles. Sam já está bem avançado em seu desenvolvimento social, porque é acompanhado por psicóloga, mas seu surto no ônibus no capítulo derradeiro não é nada divertido, ainda que edulcorado pela produção.
Alertado quanto a isso – o que parece utópico, uma vez que ainda há quem confunda ator com personagem, em 2017! – Atypical é deliciosa e vi em maratona de fim de semana. Gostei especialmente do relacionamento entre Sam e a irmã atleta, que trata o irmão bem “naturalmente”, dando peteleco, zuando, mas vira onça quando alguém de fora tenta fazer o mesmo. Irmão briga mesmo e no caso de um autista deve ser inevitável a existência de sentimento de ter sido deixada em segundo plano, o que efetivamente ocorre com a menina e não escapa ao roteiro.
As formas oriundas do drama burguês são melhores pra tratar de pessoas “normais”, ou seja, com maior autonomia de ação, por isso essas são mais eficientemente representadas. É o que tem pra hoje, então celebremos o que dá pra fazer. Que lindo ver o pai finalmente tentando estabelecer relação com o filho que não conseguia aceitar. Que boa discussão dá a mãe que após se anular por tantos anos, sem poder confiar no maridão, acaba achando válvula bem musculosa pra escapar.
Atypical meio que domestica e romantiza o autismo – a comunidade autista deve já estar reclamando de ser representada tão frequentemente como alivio cômico – mas a história prende, as pessoas são simpáticas e de carne e osso e, por menor que seja, é ponto positivo na divulgação do tema autismo e na representação da diversidade nas telinhas.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 290


Roberto Rillo Bíscaro

Quando The Queen is Dead (1986) completou 25 anos, a imprensa musical soltou fogos de artifício celebratórios. O britânico New Musical Express teve edição especial apenas sobre The Smiths e o disco. Nada mais justificável, afinal, Morrissey (voz e letras), Johnny Marr (guitarra), Andy Rourke (baixo) e Mike Joyce (bateria) inventaram um subgênero, o indie rock.
Quando apareceram, em 1982, a música pop era dominada por sintetizadores e personagens maquiados com cabelos mirabolantes. Marr veio com riffs intoxicantes, numa sucessão vertiginosa de canções memoráveis e Morrissey com letras lúgubres e ambíguas, além de visual que envolvia até óculos forneceidos pela assistência social inglesa, anos-luz do look Culture Club ou Duran Duran. O número de carreiras musicais inspiradas pela banda continua a multiplicar-se até hoje.
Apesar da importância, a indústria fonográfica esnobou a efeméride e o quarto de século da obra-prima dos Smiths passou batido. Ano passado foi o trigésimo aniversário e também nada.
Dia 20 de outubro, a Warner começou a corrigir a omissão em relançamentos remasterizados e expandidos da banda de Manchester. The Queen Is Dead saiu em edição super de luxo, com 3 CDs e um DVD, que traz o filme homônimo de Derek Jarman, mas que não faz parte do escopo deste texto.
O CD 1 traz o álbum original remasterizado. The Queen Is Dead é tão importante que impõe comentários faixa a faixa:
O álbum abre com a faixa-título, virulento, irônico e intelectualizado ataque à monarquia. Um coro de crianças cantando tema da época da Primeira Guerra Mundial dá lugar à bateria tribal de Joyce e em alguns segundos a metralhadora de Morrissey atira contra a rainha e a igreja em versos como “querido Charles, você às vezes não sente vontade de aparecer na primeira página do Daily Mail usando o véu de noiva de sua mãe?”. Típico Morrissey, a letra mistura preocupações sociais com a impossibilidade de discuti-las na chuva, para não estragar o cabelo. Os Smiths nunca estiveram tão próximos do heavy metal quanto nesta faixa. E a conclusão, em meio à guitarra pesada: “a vida é longa demais quando se é solitário”.
Frankly, Mr. Shankly é pérola de acidez music hall. Melodia brejeira traz a história de um empregado que detona o patrão metido a poeta. A ambiguidade morriseyana resplandece ora dizendo que quer entrar para a história da música, ora bombasticamente afirmando que preferiria escrever cartões de Natal com deficientes mentais a ser célebre. Dizem que a letra é “homenagem” ao presidente da Rough Trade, gravadora do grupo.
I Know It’s Over é das letras mais lancinantes e sinceras sobre solidão já escritas na música pop. O verso inicial diz ”oh mãe, sinto a terra caindo sobre minha cabeça” ao que se seguem alusões a suicídio, amores não-correspondidos ou inventados e questionamentos amargos sobre solidão: “se você é tão divertido, por que está só esta noite?/se você é tão esperto, por que está só esta noite?”. O instrumental inicialmente esparso avoluma-se seguindo o aumento do desespero e culmina na massa sonora acompanhando os berros de Morrissey, repetindo o verso de abertura. Sublime.
A barra continua pesada com Never Had No One Ever, onde o protagonista bate à porta de alguém para confessar que jamais teve ninguém e está sozinho, desesperadamente só. “Tive um pesadelo que durou 20 anos, 7 meses e 27 dias”. Uma vida. Sons de pranto juntam-se a melodia arrastada com instrumentação compacta.
Cemetery Gates apresenta melodia adorável com violão dedilhado e letra muito intelectualizada sobre plágio. Num “horrível dia ensolarado”, duas pessoas visitam um cemitério e leem lápides, discutindo sua autoria. Alguns críticos acusaram Morrissey de plágio, por usar trechos de outrem em suas letras, coisa que jamais ocultou ou negou. Seu ídolo Oscar Wilde fora acusado do mesmo pecadilho na sistemática campanha ao longo de décadas para diminuir sua genialidade. O vocalista dos Smiths elege o escritor irlandês como santo padroeiro e compõe letra muito inteligente alfinetando detratores.
A lindíssima Bigmouth Strikes Again abre com mortífero solo de violão dedilhado, que continua por toda a canção, que ainda traz baixo e bateria pulsantes e guitarra cortante, tornando-a locomotiva dançante. Morrissey recebera o epíteto de desbocado pela imprensa britânica e, quando um atentando à bomba num hotel matou membros do gabinete de Margareth Thatcher, mas não a Dama de Ferro, Mozz manifestou seu pesar por ela não ter voado aos pedaços. Face ao ultraje desencadeado pela declaração, o letrista destilou seu fel em versos como “doçura, eu estava apenas brincando quando disse que queria quebrar todos seus dentes/doçura, eu estava apenas brincando quando disse que você deveria ser coberta de porradas em sua cama”, para, em seguida, comparar-se a uma Joana D’Arc de walkman e aparelho de surdez derretendo, enquanto as chamas consomem seu corpo. É o Desbocado atacando outra vez!
The Boy With the Thorn in his Side talvez seja a canção dos Smiths mais conhecida no Brasil. Influenciada pelos Beatles, a letra funciona em diversos níveis, podendo ser lida pela via do homoerotismo abafado pela sociedade, que cria monstros em potencial, mas também como questionamento sobre o porquê a banda não fazia mais sucesso.  Faixa dá certa impressão de que os vocais estão meio desconectados da melodia, gravados em outra dimensão, meio que representando na forma a alienação tematizada. Conseguir que essa aparente desconexão forme todo adorável seja marca da genialidade da banda.
O clima rockabilly de Vicar in a Tutu, com sua guitarra totalmente jangling e sua letra divertida sobre ladrão que vê um vigário vestindo saia de balé e no dia seguinte pregando moral no púlpito é ataque corrosivo à hipocrisia.
Quando Morrissey apresenta-se no Brasil, e põe a canção na setlist, a plateia canta o refrão de There’s a Light That Never Goes Out em uníssono. Em todo canto é assim; nos países latinos – que amam Morrissey de paixão – é mais. Indubitavelmente clássico entre fãs, a maturidade nos faz superar o refrão. Não é prazer ou privilégio morrer esmagado por ônibus de dois andares ou caminhão de dez toneladas, nem que seja ao lado da pessoa amada. Mas, não há como não se emocionar com o arranjo de cordas e a letra sobre desejo de viver plenamente, mas não poder fazê-lo por medo, timidez ou opressão. Dramaticidade digna do Romantismo.
Só mesmo uma banda no auge de seu poder de fogo e autoconfiança para se dar ao luxo de não usar a faixa anterior para fechar o álbum em clima de estratosfera lírica apoteótica. Ao invés, o encerramento se dá com a melodia circular e de começo falso de Some Girls Are Bigger Than Others, com (outro!) achado guitarrístico de Johnny Marr. A letra é a mais leve de The Queen is Dead, sobre um cara que acaba de descobrir a única preocupação da humanidade desde o começo dos tempos: o tamanho dos seios. Pobre de quem não consegue perceber o banho de ácido sulfúrico candidamente cantado.
O CD 2 traz demos e lados B dos singles, além de uma versão estendida da faixa-título, que, mesmo sem a introdução do coro infantil da época da I Guerra Mundial, dura mais de sete minutos. Ideal para quando você deseja apenas a pauleira, sem o introito lúdico.
Com relação aos lados B, mesmo no distante e atrasado Brasil, a maioria já havia saído nos anos 80, seja no 45 Rpm de The Boy With The Thorn In his Side, seja na coletânea The World Won’t Listen, versão empobrecida do então duplo Louder Than Bombs. Assim, a única “novidade” para ouvintes tupiniquins que nunca puseram os ouvidos em edições gringas ou piratas é a instrumental Money Changes Everything, que, se não faz falta, é curiosa porque originou The Right Stuff, do álbum Bête Noire (1987), de Bryan Ferry. O ex-Roxy Music ouviu o lado B de Bigmouth Strikes Again e percebeu que se colocasse letra, teria hit nas mãos. Chamou seu fã Johnny Marr para tocar guitarra na faixa, que, claro, fez sucesso na versão podre de chique de Ferry. Mesmo conhecidas, é ótimo ouvir a canção de ninar suicida de Asleep ou o reggae de Rubber Ring em versões remasterizadas, além de em um contexto do qual realmente fazem parte.
Quanto às versões demo, o que salta aos ouvidos é a solidez da visão que Morrissey e Marr tinham com relação a como a banda deveria soar. Decepcionar-se-á quem espera versões bem diferentes daquelas da obra-prima. São apenas detalhes na letra ou arranjos, polidos por Marr, que não usava sintetizadores, mas gerava sofisticadas superposições de camadas de guitarra ou inclusão de efeitos como a voz de Morrissey em rotação alterada para obter aquela vozinha de fundo em Bigmouth Strikes Again, ausente na demo version. Até a aparente desconexão entre instrumentação e vocal de The Boy... se faz presente na demo. A crueza da versão preliminar de Frankly, Mr. Shankly revelará melhor ainda a sofisticação das cordas de Johnny Marr. Ouvida com fones, a demo soará como se o cara estivesse esbanjando linhas melódicas, porque é uma em cada ouvido. Brilhante.
A mudança mais radical entre demo e versão oficial de The Queen Is Dead é na faixa Never Had No One Ever, com quase o dobro do tempo e seção final cheia de metais dissonantes de free jazz. Como sabido, a versão do álbum dispensou isso em troca de camadas de efeitos e até simulação de choro, muito mais em sintonia com o estado mental do narrador, deprimido e envergonhado com tanta solidão. Além disso, na demo, Morrissey “dialoga” com o pistão, que é até meio sexy. Mas, para isso os anos 80 já tinham Jimmy Sommerville e o próprio Mozz já soltara a franga na gritaria em falsete de Miserable Lie, do primeiro LP.
O CD 3 traz a apresentação ao vivo em Boston, do dia 5 de agosto de 1986. Dá pra entender que os curadores desejavam manter a mesma qualidade de som e apresentar um show inteiro, mas quase metade das 13 canções já fora lançada oficialmente ao vivo, no LP Rank (1988). Seria muito mais aproveitável se versões ao vivo de Frankly, Mr. Shankly e Meat Is Murder estivessem no lugar de Rubber Ring/What She Said e Is It Really So Strange, por exemplo.
Os Smiths se recusaram a usar sintetizadores, mas Johnny Marr jamais teve pudores em tratar o som de sua guitarra, sobrepondo-a em camadas. Isso fazia com que a experiência ao vivo fosse mais crua do que a de estúdio. Pra viciados na pureza experimental de estúdio, como este resenhista, os Silvas resultavam menos fascinantes no palco, ainda que lá demonstrassem ser feroz banda de rock. A competência do quarteto era tamanha que agrada7vam as 2 facções. Mesmo ao vivo, nós amantes de estúdio não podemos reclamar de tudo. Em turnês, a banda empregava Craig Gannon como segundo guitarrista, então, Marr até consegue semi-reproduzir a hipnose circular do arranjo de How Soon Is Now. Pra quem ama visceralidade roqueira, confira a demolição de The Queen Is Dead.
Os Smiths alcançaram seu pico de criatividade com The Queen is Dead e um par de singles subsequentes indicava que a usina de boas ideias ainda geraria muita energia.
Ledo engano. As datas finais da turnê do clássico foram canceladas por exaustão e porque as tensões já eram insuportáveis. Menos de um ano depois de The Queen Is Dead, os Smiths se desintegraram, levando a uma mini-onda de suicídios na Inglaterra e Japão (sério!).
Quando Strangeways, Here We Come saiu, em setembro de 87, o grupo não mais existia. Talvez tenha sido melhor assim, visto que o canto do cisne não alcançou a qualidade do material anterior.
Seguiu-se feia e sangrenta batalha judicial por direitos autorais. Frustrações, exaustão, drogas, alcoolismo, falta de empresário mais competente foram algumas das razões dadas por diferentes membros para explicar o fim de uma era.
Quaisquer que tenham sido as razões para o fim dos Smiths, o que realmente importa é que é deles o Sgt. Peppers do indie rock. Realizando o desejo expresso na letra de Frankly, Mr. Shankly, Morrissey, Marr, Rourke e Joyce entraram para a história da música.