quarta-feira, 12 de agosto de 2020

CONTANDO A VIDA 310

MODERNIZAÇÃO DA CAIPIRAGEM: sertanejos e o telefone. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Há quem acredite em coincidências. Muitos duvidam, e gente séria: Kardec, Marx, Jung; os árabes já diziam “tudo está escrito”. Certo ou errado, aconteceu de ouvir o mais velho dos sambas gravados, “Pelo telefone”, do Donga, e em seguida tocar “Por telefone não” com a dupla Maiara e Maraísa. Pronto, estava dado o sinal para inquietações. Cem anos entre uma e outra canção. Cem anos. E as duas pareciam se conversar desde o título. Logo tratei de buscar ligações e não demorou para que minha curiosidade armasse uma cilada sedutora: por telefone! Meu Deus, pensei, um século entre uma letra e outra e ambas falando do mesmo aparelho. Daí foi mecânico lembrar de 1969 e nele Jorge Ben Jor com “alô, alô Teresinha, aquele abraço”. A voz inconfundível de Tim Maria, em 86 inscrevia o “Telefone” como uma das mais marcantes de sua saudosa carreira. E veio fácil o trecho de Herbert Viana com os Paralamas do Sucesso cantando em 88 “Quase um segundo”. A sequência prometia continuidades quando me perguntei sobre o significado do aparelho inventado pelo escocês Graham Bell para os/as sertanejos/as. Não poderia de ser de outro jeito, pois a interpretação da dupla feminina é muito desafiadora. Dei asas à imaginação, começando por supor o significado da música do campo adaptada às modernidades urbanas. 

Mania de historiador, logo pensei em periodizar a questão. Foi quando então, meu lado saudoso, de alma interiorana, me fez recuar no tempo, lembrar que ainda menino assisti às demonstrações do que se chamava “moda de viola”. Tratava-se de grupos não profissionais, de gente do campo que cantava em conjunto composto por 3, 4, 5 pessoas. Animando festas religiosas, as cantigas eram longas e arrumadas em vozes sincopadas que se harmonizavam, como definiu Mário de Andrade. Não se pode dizer que eram composições espontâneas, mas estavam livres de tempo de duração. E contavam histórias, ah, como contavam! Os temas do campo eram plenos de passarinhada, flores, cavalos, estradas e muitos luares. 

Filha do tempo, a inversão populacional do campo para a cidade foi exigindo adaptações e o controle capitalista impôs limites que se fizeram determinantes nas gravações. Cada dia mais longe, as modas de viola foram diminuindo e duvido que existam muitas. Em compensação, já na cidade, derivações foram se acomodando merecendo a qualificação “sertanejo raiz”. Mesmo renovada, ainda era reconhecida como “música caipira”, até porque a temática era a saudade nostálgica da fazenda. Falava-se do mundão deixado prá trás, mas com tempo de duração menor, tendo que caber nos limites dos velhos discos de 78 rotações. Ao mesmo tempo, as apresentações aconteciam em auditórios, espaços fechados, já demando aparelhagem eletrônica, microfones, instrumentos cada dia mais aperfeiçoados. Os antigos conjuntos de intérpretes foram encolhendo até que se chegou a um padrão condizente com o gosto do mercado: as duplas. Não se pode dizer que a aceitação era pequena. Não, mas era silenciada por uma certo pudor urbana que não resistiu por muito tempo. 

Essa evolução ia se imponto de maneira a chegar nos anos de 1980 e acontecer a explosão das duplas sertanejas. É fácil reconhecer nessa fase, que pode ser chamada de “rurubana”, a troca da observação do campo pelos ajeites na cidade, aliás é aí que o telefone aparece. Geração ponte, era preciso relativizar a tradição campestre. E haja multiplicação destas parcerias que, com raras exceções, eram masculinas. Sim esse processo foi atravessado por algumas presenças femininas, mas eram poucas como Inezita Barroso e as Irmãs Galvão; ah, e havia pares como “Cascatinha e Inhana”, exceções do padrão masculino. Mais tempo corrido e chegou-se a uma outra geração que derivando dos pais ia se deixando permear por coisas da cidade. 

No final dos anos de 1990 já se falava de “sertanejo universitário” e então reinventava-se o uso da bota, da camisa listrada, melhorava-se muito a qualidade do som e um esquema empresarial marcava esse gênero que passou a abrigar nomes solos. E os assuntos abordados se tornam muito mais românticos, perdendo a determinação dos ares campestres. No lugar, os lamentos individuais se combinaram com acordes antigos, memórias que não deixavam de repontar. Aliás, é importante assinalar que este processo não é linear, nunca foi. A persistência de tradições emergia cá e lá, quase que como contraponto ou reserva de lembranças que não se apagam de vez. 

É neste circuito que o telefone se liga como argumento analítico, ou seja, questionando o significado do aparelho no cancioneiro sertanejo? Um breve passeio pelo repertório pode dizer alguma coisa; vejamos. Considerando apenas os sucessos incontestáveis, não levando em conta autorias, temos uma lista reveladora da modernização da caipiragem. O primeiro destaque desta sequência foi “Telefone mudo” com o Trio Parada Dura; em 88 o Trio Carreiro gravou com ampla aceitação “Chamada a cobrar”, dando passagem para as duplas. Sem dúvida o sucesso definidor se deu com “Pense em mim” de Leandro e Leonardo que adaptaram um reggae de 85 e converteram sertanejo festejado. Em 2003, “Ligação urbana” explode com Bruno e Marrone, e, em 2010, outra vez o Trio Parada Dura volta ao tema com “Telefone Mudo”. Entre as mais apimentadas composições, em 2015 Enrique e Diego gravam “Senha do celular” que caiu no gosto popular. Marilia Mendonça, em 2016 aparece como destaque feminino defendendo – já na linha da “sofrência” – o “Me desculpe, mas sou fiel”, e, finalmente “Por telefone não” de Maiara e Maraisa em 2017. 

Mas afinal, o que pode o telefone, como tema, explicar a respeito da música sertaneja? E a resposta vem pronta, exatamente na medida em que mostra mais que uma apropriação de instrumentos da modernidade urbana e industrial, um meio de negociar o ajuste de um segmento que reelabora sua memória no ambiente que se lhe abriu, e eles se impuseram. Telefone é um exemplo, mas poderíamos tomar outros como: automóvel, caminhão, relógio e fotografia. O que não se deve é rebaixar a carga de memória em trânsito de afetos, do campo para a cidade. Negociações...

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

CONTANDO A VIDA 309

SOMOS TODOS RACISTAS: nosso pecado original. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Algumas pautas vieram para ficar. Temas como feminismo e questões de gênero ganharam postos definitivos nas reivindicações por direitos de minorias vulneráveis. Dentre tantas, sem dúvidas, a questão racial reponta como das mais expostas à opinião pública, principalmente depois da publicidade estatística que, via CPI, revelou a assustadora cifra e um jovem negro morto a cada 23 minutos no Brasil. Tendo como referência o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e as reações gerais, a questão exibe vocação planetária e nos coloca todos numa berlinda moral: como chegamos a este ponto? 

Uma das conquistas mais eloquentes dos brados antirracistas está em sua qualificação como estrutural. Mas, em essência, o que significa racismo estrutural? Que condição lhe garante este atributo e que diferença faz? A fatalidade da pergunta demanda reconhecer que a noção de escravismo é antiga, antiquíssima aliás, mas a consciência de sua projeção como problema crônico no presente é jovem e desafiadora de reversões. Desde sempre falamos da escravidão como sistema, e não faltam historiadores que passam a vida desvelando os mecanismos da dominação de uns sobre outros, de brancos sobre negros e indígenas, tudo sob a imposição do lucro. Com o tempo, a absorção mecânica dessa fórmula deformou o lábio, mas, por fim, o cachimbo caiu. Mesmo libertos, no geral, o negro continua marginalizado, lutando para tornar verdade o preceito romântico de liberdade, igualdade e fraternidade. Então, frente ao fracasso, o pretérito se abre para a pergunta que não consegue mais calar: como não notamos isto antes? Por que não entendemos o drama que tanto nos envergonha? 

A, insistência das desigualdades fez o que era cômodo para uns virar insuportável para outros e a explosão não mais segura mágoas acumuladas em transcendentais memórias de dor. A consciência de classe de grupos atingidos ganhou força e organização, e uma solidariedade racial se tece costurando experiências diversas que, aliás, se valem da própria problemática para reclamar direitos estabelecidos. E temos que aprender mais que o diálogo simples, o exercício de convívio como o excluído que se faz notar. Urge superar as cabíveis tramas das diferenças e entender a sanha da raiva e da vingança expressas pelas manifestações comunitárias de quantos padecem submissões, muitas nem sempre tão sutis. Difícil. Difícil sobretudo porque antes temos que acertar uma conta moral, nossa, de brancos que se valeram da cor da pele para dominar. E isto demanda assumir a história. É precisamente neste ponto que atua a questão estrutural. Vejamos um exemplo eloquente, 97% dos nossos parlamentares são brancos, em um país com 54% de negros. 

Racismo estrutural é conceito exercitado para dimensionar experiências de sociedades que se organizaram com base na hierarquia secular de mandos, segundos critérios culturais e práticos, ambos discriminatórios. Proprietários – no caso do Brasil, brancos cristãos – se aparelharam com leis e preceitos de controle de grupos submissos, regidos pelo que foi o maior negócio da humanidade em todos os tempos: o longo tráfico negreiro. Criou-se, portanto, no jogo de relações universais um birrento sistema racista. Com aberturas calibradas e com variações contidas, em diversos espaços, a mobilidade social foi sendo estratificada e tornou-se conveniente. Nesta linha, convém lembrar que o Brasil foi o país que maior número de escravos recebeu – mais de 4,2 milhões – e figura entre os últimos a “libertar os escravos”. E tem mais, a Lei que decretou tal condição foi estabelecida no âmbito do poder dominante que cuidou de não planejar a reinserção do contingente nos projetos nacionais. Pelo contrário, nossa Abolição equivaleu a condenação à marginalidade. 

Libertos sem ter a condição constitucional de cidadania, os negros não puderam integrar, por exemplo, o ensino público ou se valer de cuidados da saúde. Sem meios elementares de competição, não conseguiram concorrer com vantagens favoráveis dadas aos imigrantes que se aproveitaram da Lei de Terras de 1850. Reverso, numa relação de direitos invertidos, os brancos estrangeiros se integraram progressivamente, enquanto os “libertados”, sem educação formal e acesso ao trabalho, vagariam à margem do sistema. Em 1890, a Lei dos Vadios e Capoeiras, por exemplo, cuidava dos negros sem condições de pertencimento à sociedade de classes, e, assim inaugurava-se um problema continuado em nossa realidade: a prisão cheia de descendentes de escravos. E a marginalidade legal, consideremos, perdurou até 1951, com a Lei Afonso Arinos que enquadrou o racismo como crime. Ao longo de anos, sem direitos à participação legítima, a cultura branca cultivou mitos da democracia racial e os morros foram se enchendo de contingentes sem chances de pertencimento efetivo no corpo nacional. Ah, a democracia racial!... Ah o Brasil sem preconceitos... 

Não haveria exagero algum em afirmar que estruturalmente fomos educados para não admitir que somos racistas crônicos e, agora, admitir a premência do reconhecimento de uma cultura de exclusão é o primeiro passo para que se consiga uma sociedade minimamente mais justa e pouco mais igualitária. Comecemos, pois por acatar nosso pecado original: a escravidão mal resolvida. A partir disto poderemos assumir que antirracismo não é ter um amigo ou um vizinho preto, tratar a empregada como alguém da família, ou criticar o que se vê nos Estados Unidos ou na África do Sul. Ser antirracista é, em primeiro lugar, assumir que fomos plasmados numa história que não nos permitiu ver o quanto cruel e violento fomos. Isto implica consentir nosso pecado original e revertê-lo. Falo de cotas raciais em primeiro lugar. Cotas, batismo da remissão necessária porque justa. Amém.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

TELINHA QUENTE 412



Roberto Rillo Bíscaro

A aclamada série Love of Duty centra-se nas atividades do esquadrão anticorrupção da polícia britânica.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

CAIXA DE MÚSICA 420


Roberto Rillo Bíscaro

Promissora estreia do rock progressivo sinfônico italiano, com grande guitarrista, belas melodias e vocais dramáticos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 308

CARTA AOS MEUS BISNETOS. 

José Carlos Bom Meihy

Queridos 

Escrevo-lhes de um dia perdido no início do século XXI, mais precisamente em julho de 2020. O ano é numericamente exato e, na repetição de dois 20, 2020, sugere ilusão especular repetida. Erro dantesco querer alguma “outra vez”, pois este ano, ainda em curso pode ser considerado o pior da vida de muitos. Tudo segue muito intrincado, cheio de esquinas que prometem um futuro próximo trocado de promissor por arriscado, na melhor das hipóteses. É por isto que lhes escrevo, aliás. Quero deixar distinto meu testemunho e revelar um estado de espírito inquietado pelo medo, pela frustração e desalento. Gostaria anunciar um devir melhor, talvez uma saída depurada desta pandemia tão atroz que nos acomete, porém, faltam-me forças e sobram ameaças que abatem esperanças. Deixem-me começar por um fato matriz: imaginem que, devido a covid19, em pouco mais de 100 dias o número de mortos passa de 70 mil, e, estacionados em platô altíssimo, ainda esperamos o declínio estatístico. Por favor, considerem que escrevo sob a média de mil mortos a cada anoitecer, e assim esta carta se faz com um olho retrovisor e outro no agora, imaginando o tempo bisneto projetado numa ordem progressiva de triste matemática. 

A sotto voce, discute-se o fátuo refinamento passado o trauma avassalador. Ouvem-se, cá e lá, falas alvissareiras, predizendo um mundo melhor, mais fraterno, solidário, sábio por aplacar feridas tão expostas que, dizem, “vão passar”. Estamos no presente sangrando por um passado mal vivido, desgastado por exageros e desperdícios, explorações e abusos de toda ordem. Graças, principalmente, ao descuidado com o planeta que se exibe quase esgotado. Sem atenção à ordem natural das coisas, chegamos ao ponto da exaustão confinada em nós mesmos. Não estou otimista. Não consigo estar, desculpem-me, pois, as dores sociais são tão evidentes, as distâncias sócio econômicas tão extremadas entre miséria e riqueza, e a falta de compaixão para com atingidos diretamente só fazem somar fatalidades e apontar para o despenhadeiro que lhes entregamos... 

É verdade que o momento poderia nos convidar a possibilidades provocantes que, sem elas, não nos restaria o mínimo: temos que mudar, há de surgir um “novo normal” - e mesmo sem entender bem que “normal” seria este -, sinto-me compelido a escrever pensando em alguma satisfação a vocês. E fala-se em um voluntarismo pessoal como se tudo dependesse de nós mesmos, de uma mudança que começaria em cada qual. Ilusão, meus bisnetos. Passamos pela Primeira Guerra Mundial, pela Guerra Civil Espanhola que viu seu fim na Segunda Guerra, trazendo o azedume alongado na Guerra Fria. Não podemos nos esquecer da Guerra das Coreias no raiar dos anos de 1950, e que dizer da Guerra do Vietnã, dos conflitos árabes-israelenses, das guerras de independência da África e nela das guerras civis? E nem cabe deixar de lado o rosário de golpes militares na América Latina nos anos de 1960 em diante. E haja Balcãs, Chechênia, Golfo... Nossa! Ah, não tenho como me esquecer embargos, armas químicas e vírus de laboratórios. É muito, meus bisnetos. Muito, e o que aprendemos?... 

E as endemias, epidemias e pandemias? Valeram lições? Florestas abatidas sem piedade, povos indígenas sob ameaça de extinção, racismo e negacionismo à solta. Definiu-se, imaginem meus bisnetos, um “gabinete do ódio” e um “escritório do crime”, temos um presidente que renega a cultura e a ciência, e mesmo acometido pelo vírus maldito (dizem) ainda insiste em priorizar a economia em vez da vida. A soma destas mazelas se me impõe tristezas. As consequências são ameaçadoras: nacionalismos exacerbados e ressurgimento de uma direita propaladora de fechamentos de fronteiras, e daí: exílios, migrações clandestinas, tráfico de pessoas, liberação de armas, privatizações e mais privatizações... No “encolhimento do estado”, a exploração sequente da mão de obra empobrecida a cada dia. 

Trabalho academicamente com o conceito de memória, e sei que nela se opera a seletividade, condição que abriga o esquecimento. Sei também que o mnemônico guarda misterioso efeito subterrâneo que reaparece quando determinadas circunstâncias se combinam. Pois é, neste quesito é que considero o que marcará a sua geração como filhos de pais que se redefiniram na pandemia, que tiveram que se levantar órfãos de um estado incompetente e de um sistema cruel demais. E assim justifico estas linhas deixadas como pedido de desculpas. Triplas desculpas: pelo fracasso de minha geração, pelo legado a seus pais e a vocês a quem caberá reconstruir o mundo. Desculpo-me também por deixar as dívidas de uma coletividade que não soube aproveitar as benesses do tempo, exagerou no apelo consumista, não entendeu os avisos da natureza que reagiu com uma pandemia desafiadora de novos programas. A história contemporânea dividirá o tempo em um antes e um depois do coronavirus19, e, resta esperar que a sua geração aprenda o que a minha não soube. É isto... Junto ao meu beijo final, um fecundo pedido de perdão: falhamos. Que seus pais façam mais do que conseguimos e que vocês reinventem um mundo melhor.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 307

UM GALO EM COPACABANA: Garcia Marques, João Cabral e Renato Teixeira.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Logo no começo do confinamento imposto pela covid19, sem esperar, recebi via WhatsApp uma mensagem do Roberto dizendo que o irmão, o Renatinho Teixeira, havia lhe passado uma nota pândega, revelando supostos barulhos na madrugada. Fiquei atento, entre curioso e amedrontado. Despertado na noite seguinte, cedíssimo, saí para ouvir a agonia da escuridão. Escutei. Foi o que bastou para retrucar a mensagem. Iluminei a telinha com a notícia “tem um galo em Copacabana, Renato”. Sim, acreditem, um galo entoando forte seu chamamento da luz. Gravei. Gravei, precisei gravar, pois era tamanha a inconformidade que não seria crível sem prova. O corococó me aturdiu de maneira tal que foi capaz de despertar a mais adormecida nostalgia, contraste perfeito de minha empedernida civilidade. E arderam em mim os anos cariocados. 

Continuamos por alguns dias trocando notícias que nos levaram ao território tão nosso, o surrealismo. Foi um pulo chegar a Cartagena de Índias e na viagem flanada remeter a Garcia Marques. Depois, quieto, lembrei-me de um livro do laureado com o Nobel em 1984 “Ninguém escreve ao coronel” e me dei releitura. O enredo implicava um velho militar que em sua casinha, esperava a carta de aposentadoria. Os dias se passavam e nada... O romance versa sobre a espera e o vazio causado pela ausência do filho morto misteriosamente. Tudo sem notícias. A amargura do coronel era repartida pela constância de um galo, presente dado pelo filho ausente. E o protagonismo do galo era metáfora da vigília fiel e da repetição.

Andava perdido nesses delírios quando em outra madrugada Renato constatou “Zé, preste atenção, um galo não canta sozinho. Deve ter outro galo por perto”. Estava dada a senha notívaga: ouvir galos. Passei a ser escutador de ladainhas cacarejadas em catedrais imaginadas. E não é que era verdade?! Identifiquei três. Três galos cariocas, e, em confidências intimas, comigo mesmo, recordei versos de João Cabral de Melo Neto. Foi no meio de um desses escuros madrugados que declinei, na lisura da reminiscência melhor, os dizeres “um galo sozinho não tece a manhã/ ele precisará sempre de outros galos/ De um que apanhe esse grito dele/ e o lance a outro”.
Os dias e as madrugadas se sucederam, todas conferidas em cocorocós. Não naturalizei as identificações, de jeito algum. Pelo contrário, repeti ouvidos sempre novos e me entreguei à buscas renovadas: teria mais algum galo? Devo dizer que o correr de meus muitos anos me ensinou a duvidar de acasos. Tudo acontece segundo algum impulso, divino ou diabólico, mas tudo, como a lição dos galos, se fiando enredos que me levaram a uma canção do próprio Renato. O título da cantiga é “Raiz”. Juntei os fatos, emendei ideias, e me permiti uma paródia em diálogo com o amigo encantador: eis o resultado 


Galo cantou                  Galo cantou

Madrugada na Campina      Na madrugada carioca
Manhã menina                   Manhã rapina
Tá na flor do meu jardim          Sem flor no meu jardim
Hoje é domingo             Hoje choramingo
Me desculpe eu tô sem pressa      A vida que corre depressa
Nem preciso de conversa         Preciso de conversa
Não há nada prá cumprir          Pois muito há a redimir
Passar o dia                  Pagar os dias
Ouvindo o som de uma viola         Sem som de uma viola
Eu quero que o mundo agora         Queria que o mundo agora
Se mostre pros bem-te-vi        Me mostrasse um bem-te-vi
Mando daqui das bandas          Bem aqui nestas bandas

do rural lembranças            Do rural lembranças

Vibrações da nova hora      Saudade da nova hora
Prá você que não tá aqui          De você que não tá aqui

Amanhecer                   Amanhecer

é uma lição do universo      Aqui é castigo perverso
Que nos ensina             Que pouco ensina
Que é preciso renascer            E eu preciso renascer
O novo amanhece               Mas novo não acontece
O novo amanhece               Pois o novo só anoitece

Já tem rolinha                    Nem tem galinha

Lá no terreiro varrido               Nem terreiro varrido
E o orvalho brilha               O orvalho não brilha
Como pétalas ao sol           Tudo apagado no farol
Tem uma sombra               Nem uma sombra
Que caminha pras montanhas      Sem contorno as montanhas
Se espelhando feito alma         Se encolhendo em minha alma  
Por dentro do matagal             Tudo triste meio letal
E quanto mais                    E quanto mais
A luz vai invadindo a terra        A luz vai surgindo na serra  
O que a noite não revela          O vazio mais se revela
O dia mostra prá mim              O dia sentença do fim
A rádio agora                     Na alma agora
Tá tocando Rancho Fundo        Tá tocando Rancho Fundo
Somos só eu e mundo             Somos só eu e o mundo
E tudo começa aqui            E tudo termina aqui.

Amanhecer                   Amanhecer carioca

é uma lição do universo      É um castigo perverso
Que nos ensina             Que me ensina
Que é preciso renascer            Que se deve renascer
O novo amanhece               Mas o novo não amanhece.



O novo amanhece               o novo só me envelhece.
Dando vida à clássica oposição entre “cidade e campo”, me vi naturalmente convidado a supor o caso do galo carioca. Ainda bem que na solidão carioca um galo me lembrou a eternidade do que fui... Cocorocó

segunda-feira, 20 de julho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 419



Roberto Rillo Bíscaro

Com mais de quatro décadas de estrada, os norte-americanos do Kansas ainda fazem rock com fôlego.



quarta-feira, 15 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 306

SOMOS TODOS CAIPIRAS; 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Cansado, envolvido em mil problemas acumulados, exausto mesmo, corri quando o telefone tocou. Era o Renato Teixeira em um papo inspirado. Meu céu interior se desanuviou e a conversa fluiu como cantiga entoada numa viola. Diferente de outras tantas trocas nossas, nesta ele tinha um tema: camisa xadrez, roupa de chita, brim riscado e botina. Não precisava mais para me comover. E viajamos na meditação de porquês. Com aquela voz de amigo de infância ele dizia “Zé, precisamos pensar nisto”. O tal “pensar nisto” remetia a explicações de determinados ícones dos quais não abrimos mão. “Pensa um pouco Zé, como o brasileiro gosta de camisa xadrez, como os vestidos de chita são constantes nas festas juninas e no carnaval de São Luiz do Paraitinga. E os riscados das nossas calças não vêm do brim de antigamente?” E continuava “Zé, olha como não abrimos mão das botas, prá homem e prá mulher, bota, botinha, botina não sai de moda, adapta-se, mas está aí”. 

Na mesma cadência eu ia, historicamente, lembrando que podíamos explicar o sucesso da música sertaneja no mesmo impulso explicativo. Interrompendo, entusiasmado, ele me corrigiu “péraí: sertaneja não Zé, caipira mesmo, caipira pô”. E então fomos filtrando casos e declinando situações. O “chuá-chuá” do Renatinho corria solto e eu filtrava alternativas. “Renato, isto é coisa de memória, de memória coletiva, algo transcendente”. O papo não foi curto não, e ao final prometi “olha, vou pensar por escrito nesses devaneios de hoje. Te respondo em uma semana”. E aqui estou eu debruçado nestas mal traçadas linhas, perdido entre as certezas do mais caipira de nossos compositores e uma pequena pilha de livros. Antes de prosseguir, quero que saibam que minha melhor fantasia, sinto-me com uma camisa xadrez bem xadrez, com uma botina sovada e com calça de brim riscado; meu cavalo amarrado na cerca e eu que não fumo com cigarrinho de palha, chapéu de vaqueiro, olhando o estradão, soltando os olhos na eternidade de minha caboclisse... Flaner caipira, na Paris de minha saudade. E que gostoso!... 

Mas nem tudo pode ser só lembranças para um professor de história no exílio de sua essência. A constatação dos símbolos foi fácil, mas os exemplos multiplicados, os lances de cores, o sabor de quitutes, o cheiro de mato, de pasto, tudo, reclamava um outro lastreio de respostas. “Drummondianamente” me restava responder “E agora José?”. Era também como se Guimarães olhasse para mim e exigisse explicações num ardido “mi intende, sô?”. Confesso que passei a semana ruminando o tema como um boi na biblioteca. E minha primeira conclusão remetia a outra equiparação: com os signos da brasilidade produzida. Sempre me impressionou muito o fato de certas tradições serem identificadas como “tipicamente nossas”. O samba, o futebol, a feijoada, a capoeira, a cachaça, juntos ou isoladamente, se constituem em uma espécie de patrimônio referencial do que seria genuíno ou natural do Brasil. Crescemos ouvindo que como a Copa do Mundo é nossa; nossa beleza rítmica está no requebro da gente; o uso das pernas na capoeira ou no esporte dimensionavam um jeito de ser diferente; o sabor de algumas comidas nos distinguiam e igualmente a nossa pinguinha alçaria o pódio consagrado na já internacional caipirinha. E como nos tornamos orgulhosos disto. Nossa! Nem nos faltam teóricos que saúdam com explicações refinadas, abstrações que nos aproximavam de uma suposta miscigenação ideal. Mas, meu Deus, o Renatinho falava de outra coisa, ele se referia a um outro “Brasil brasileiro”. A inerência do mundo caipira plasmado em nossa alma. Desafiador. Demais: camisa xadrez, brim riscado, vestidos de chita. 

Sabe, até doeu pensar em uma resposta acadêmica. Mas, cheguei a um ponto: há um brasilzão urbano, industrial, viajado e rotulado turisticamente. Fabricamos uma identidade que serve para exportação e que muito agrada à classe média e a elite. Tudo verdade, tudo facilmente perceptível. Mas, também tem um outro brasilzão que não se deixa falsear. É como se chegássemos a uma espécie de hora da verdade. Afinal quais os nossos valores verdadeiros? Foi quando me veio à cabeça o texto de Eric Hobsbawum sobre a “invenção das tradições”. Diz o historiador que tudo que julgamos antiquíssimo, sobre as solenidades da realeza britânica por exemplo, é algo bem mais recente, criado no século XIX e consagrado no XX. Antes que minha cabeça desse um nó, busquei argumentos que confirmam a jovialidade das nossas tradições propaladas como identidade nacional. De modo geral, pode-se localizar na “Política da boa vizinhança”, na nascente dos anos de 1940 – e viva Carmem Miranda – a raiz dessas invenções. E assim criamos além do samba e do futebol, a ilusão de que a feijoada, a capoeira, a caipirinha, tudo, como isso estivesse “no nosso sangue”. 

Em termos historiográficos, estaria correto acatar a “moderna tradição” como artefato criado por mecanismos modernizadores da sociedade capitalista com vocação internacional. O que se aventou a partir daquele telefonema, porém, foi algo mais profundo: somos todos caipiras de raiz. Sim, caipira Pirapora, mesmo... O que em essência está em nosso sangue é o xadrez da camisa e o brim riscado que se reafirma a cada São João, mas que reponta nas rodas de modinhas na televisão, no carnaval, na celebração do folclore, nas festinhas infantis. É chique ver as moçoilas de vestidos estampadíssimos nos dias de inversão do cotidiano – carnaval e festas juninas – mas qual delas abre mão de uma bota elegante, ainda que feita na Austrália? E qual o galã da cidade que não tem bem guardada uma camisa xadrez? 

Pois bem, é chegada a hora da verdade. O Brasil se modernizou sim, virou competitivo, figuramos entre as dez maiores economias do mundo. Aprendemos a ser urbanos, somos eletronicamente aparelhados, podemos discutir temas em níveis elevados, viajamos. Tudo certo, mas genuíno mesmo, realmente o que nos une e inconscientemente não abrimos mão é o que se plasmou no nosso espírito natural. E é lindo supor os mecanismos transcendentes que não dependem de políticas objetivas, de consciência depurada por teorias ou de motivações externas. Mesmo a contrapelo do exercitado como verdade acadêmica, de verdade, não abrimos mão do que não sai de nosso gosto: a camisa xadrez, o vestido de chita, o tal riscado de brim e a botina. Somos todos uns caipiras. Resta nos descobrir...

CENSO ALBINO EM ANGOLA

Associação de albinos defende censo nacional

“Não temos noção de quantos albinos existem no país. Nas seis províncias em que está implantada, a associação controla 600 albinos”, decla-rou à imprensa, a porta-voz da Associação, Benvinda Esperança, à saída do encontro com o Vice-Presidente da República, na Cidade Alta.

Entre as propostas apresentadas ao Vice-Presidente, para que sejam melhoradas as condições das pessoas com albinismo, destaque vai para as facilidades no acesso aos produtos cosméticos (sobretudo cremes para protecção da pele) e às consultas de dermatologia e oftalmologia.

Benvinda Esperança garantiu ter recebido de Bornito de Sousa uma reacção “muito positiva”, sobre todas as preocupações colocadas, salientando que o Estado deve prestar maior atenção aos albinos, para que estes não continuem a ser discriminados.

Numa outra audiência, o Vice-Presidente da Repúbli-ca recebeu o director-geral do grupo teatral Excesso de Cor, Anderson Manuel, com quem, também, abordou questões relacionadas com as causas da consciencialização da sociedade sobre o albinismo.

Em declarações à imprensa, Anderson Manuel defendeu que a luta pela consciencialização das pessoas em prol da defesa das pessoas albinas deve iniciar nas escolas primárias, com a realização de palestras e actividades teatrais.

Ainda ontem, o Vice-Presidente da República teve um encontro com o presidente do Movimento Pro-Albino, de quem também ouviu preocupações, que têm a ver, sobretudo, com a discriminação de que são vítimas os albinos, sempre que pretendem inscrever-se para o primeiro em-prego. Falou, também, de dificuldades no pagamento de consultas em hospitais e a aquisição de cremes.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 418


Roberto Rillo Bíscaro 

Melódico e empolgante prog italiano com toques hard. O álbum A piedi nudi sull'arcobaleno, do Sintonia Distorta traz emoção em altas doses. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 305


UMA LÁGRIMA PARA A CASA ABRAHÃO. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Para Manuela, Gabriel e Anna. 

Difícil dizer alguma coisa sobre a loja de meus pais, a Casa Abrahão. Sei pouco da origem familiar do lado paterno; na surdina, fala-se que meu avô havia morrido de fome no Líbano durante a Primeira Guerra Mundial. Há alguma documentação referente ao local de origem do ramo Bom Meihy, Djbeil, na lindíssima costa mediterrânea. Órfão, restava a meu pai um tio, Habib, boêmio conhecido na Lapa carioca. Aos 13 anos, sozinho, Abrahão foi trazido para o Brasil. O Rio de Janeiro foi cenário adequado para o “turquinho”, que logo ficou conhecido pela bela estampa e prosa sempre decantada... 

O lado materno era mais exposto, pois compunha a leva de libaneses vindos do Vale do Bekaa, depois de 1880, motivados pela visita do Imperador Dom Pedro II. É segura a afirmativa que, sendo cristãos, iriam dar início ao comércio religioso em Aparecida do Norte, SP. Juntamente com outros ramos oriundos da mesma área: Abdalla, Samaha, Chad, em conjunto, esses “turcos” deram vida a um rosário de barraquinhas que, mais tarde, se foram adaptadas à dinâmica da proposta e viraram lojas, depois hotéis, restaurantes. 

Papai era filho único, contraste absoluto de minha mãe, que tinha mais 17 irmãos. Não bastasse, meus avós ainda cuidaram de mais 4 netos. Complicado imaginar como em uma casa, sobrado com três quartos e dois banheiros, conviviam 24 pessoas. O deslocamento de Aparecida para Guaratinguetá, logo ao lado, foi resultado da necessidade de variação dos negócios aproveitando o momento em que os armazéns de secos e molhados se apresentavam como alternativa promissora. Decisão de meu avô Felipe: seria conveniente espalhar filhos por diferentes localidades do Vale, e assim temos Sebe por algumas praças vizinhas, sempre com lojas. 

Reza a lenda que meus pais se viram apenas uma vez antes do casamento. Arranjo comum entre os árabes, minha mãe, filha do meio, deveria se casar logo, pois sua irmã menor imediata estava com tudo arranjado para matrimônio. Mas, havia de se cumprir um preceito respeitado: a ordem por idade. A julgar por ditado que minha avó Sarah repetia - primeiro case, depois ame - este mantra teve fundamento. Sou testemunho de uma dedicação amorosa incontestável: nunca vi e sequer suponho, alguém amar mais o cônjuge do que minha mãe. Meu pai, sempre dedicado à família, era muito (mas muito mesmo) cobiçados pelas freguesas que o conheciam como “turco dos olhos verdes” - soube de uma que “tomou veneno” por causa dele. 

Delego obediência à tradição o fato de minha mãe levar dote no ato do casório. E, imaginem, era uma bolsa com contornos em ouro. Soube depois que tal lastro foi vendido para o proeminente médico Dr Cembranelli que presenteara sua esposa. Com o produto, em 1931, surgiu a primeira loja, no Largo do Mercado, na esquina da rua Dr Silva Barros. Sem qualquer arrogância devo dizer que esperteza e determinação para o trabalho foram sempre os eixos familiares dos Sebe Bom Meihy. E em 1932, com o dinheiro advindo do dote, meu pai abasteceu sua loja, deixando de ser mascate em Bananal, virando dono de loja. E veio 1932... A Revolução Paulista surpreendeu os comerciantes sem mercadorias, mas a Casa Abrahão... 

A família haveria de crescer e isto se deu depois de algumas tentativas frustradas, após a morte do primogênito em 1935; em 39 nascia minha irmã Mirna. Dimensionando a expectativa de um homem, eu vim em 1943, e meu irmão Marcelo em 45. Outro momento marcante nesta saga se deu na retomada da economia depois do fim da Segunda Guerra; foi quando, em 1948 meu tio Nicolau, irmão mais velho de minha mãe, e que também tinha também loja no Largo do Mercado, resolveu abrir uma fábrica de tecidos no bairro da Estiva. Pronto: a Casa Abrahão mudava para seu segundo endereço, agora em frente ao Mercado, num sobrado novo que, em meus sonhos, era um castelo. E o sucesso continuava pelas mãos laboriosas da família. Trabalho, trabalho, trabalho... 

No novo endereço, meu pai optou por mudar a vocação do estoque que até então se destinava a roceiros. Aliás, devo dizer que meu pai sempre acreditou no progresso do Vale, e apostou no surgimento de uma classe média local dinâmica. E deu certo. Incrível, em 1950 ele adivinhou que Taubaté se vincularia a Ubatuba e imaginou lá um hotel moderno. Precisaria de muito espaço para contar a façanha que foi construir o São Charbel, sob aquelas condições. Hercúleo... 

“Adão não se vestia, porque a Casa Abrahão não existia” cantava o palhaço Pimentinha aos sábados à porta da loja sempre muito frequentada. Aconteceu que em 1975, papai se aproveitou da herança dos Sebe e partiu para a construção da sede dos negócios na Praça Dom Epaminondas. E se fez a terceira Casa Abrahão. Os negócios de meu pai se diversificaram, e com eles afastava-se o passado de pobreza. Papai sempre gostou de carro, mas nunca aprendeu a dirigir; sempre gostou de esportes, mas nunca praticou algum; sempre gostou de dançar, mas nunca levava minha mãe a bailes. Viva cantarolando, adorava Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira... Ninguém gostava mais da vida do que ele! As risadas de meu pai eram contagiantes; contava causos hilários, e como poucos amou o Esporte Clube Taubaté. Com tantas conquistas os olhos de papai irradiavam luz ao ver a tabuleta da Casa Abrahão... Quantas vezes eu o surpreendi na calçada olhando a placa: Casa Abrahão... 

O tempo passou, meus pais morreram, meu irmão também. Mirna vive momento difícil, e eu tenho que cumprir o destino. São poucas as costureiras, a roupa feita teve sucesso decisivo, os shoppings estão aí, e meus filhos têm outras prioridades. E a pandemia selou o destino. O que resta? Estão aí as lembranças, a memória apreendida na canção do amigo Renato Teixeira “O turco do mercado” que, aliás, serve, de trilha sonora ao trajeto de um sonho... 

Corre uma lágrima de adeus. Adeus Casa Abrão... Adeus... O sonho foi bem sonhado, diria Drummond...
  

sexta-feira, 3 de julho de 2020

MELHORES DE 2020 – PARTE I



Que difícil este 2020, não? Mesmo assim – ou, por isso mesmo – nada melhor que conferir o que resenhei de melhor nas áreas de cinema, literatura, música e TV.

Não importa ano de lançamento; para constar na lista de melhores do ano, basta ter aparecido no blog.

CINEMA
Vastidão da Noite - No período da Guerra Fria, dois adolescentes descobrem uma estranha frequência de ondas aéreas. Suas vidas e o mundo inteiro podem estar prestes a mudar drasticamente.
O Incrível Homem que Encolheu – O clássico da ficção-científica resiste bravamente ao tempo e ainda empolga e faz pensar.
Os Brutos Também Amam - Neste faroeste clássico, um ex-pistoleiro determinado a evitar confusão enfrenta barões do gado que ameaçam um grupo de pequenos produtores rurais.
O Planeta Proibido – Outro clássico da ficção-científica, que resiste bem ao tempo. http://www.albinoincoerente.com/2020/02/telona-quente-321.html

LIVROS
Belgravia - O criador de Downton Abbey escreveu um romance com tons de século XIX, mas totalmente legível para nosso gosto por velocidade narrativa do século XXI.
Le Freak - Nile Rodgers compôs e produziu canções e discos que transformaram a música pop e estão entre os maiores sucessos de todos os tempos. Le Freak narra a incrível história de como um dos grandes gênios do pop transformou sua vida dramática - de garoto negro, magricelo e asmático nascido no gueto - na brilhante e alegre playlist de várias gerações.
Unknown Pleasures - O baixista da banda mais influente do pós-punk inglês, conta sua infância, a formação da Joy Division, rixas internas e o suicídio de Ian Curtis.

MÚSICA
Shea Butter Baby, de Ari Lennox - O álbum de estreia da norte-americana é esfuziante coquetel de Neo-Soul, que vai de sexy a Paulo Coelho.
Gathering Swans, de Choir Boy - Em seu segundo álbum, os norte-americanos estão mais mergulhados nos anos 80 e os vocais sensíveis e dramáticos de Adam Klopp se destacam.
Il Velo Dei Riflessi, de Quel Che Disse Il Tuono - O quarteto de rock progressivo italiano estreia em alto estilo sinfônico, resgatando o melhor dos anos 70, mas com produção excelente.
Shlon, de Omar Souleyman - O sírio usa instrumentos tradicionais para fazer dabke delirantemente dançante.
Seeking Thrills, de Georgia - Em seu segundo álbum, a britânica apresenta boas melodias, emolduradas em sons eletrônicos provenientes do eletropop, house, techno e synthpop.
Hotspot, de Pet Shop Boys - A dupla britânica se mantém relevante e criativa, mesmo após décadas de carreira.
Chaos and a Dancing Star, de Marc Almond - O veterano reaparece com linda coleção de canções cheias de temas "góticos".


TV
Prime Suspect (temporada 1) - Em 1991, a TV britânica lançou Prime Suspect, série estrelada por Helen Mirren, que alterou o cenário das produções policiais e influencia até hoje.
Unforgotten - Casos policiais não-resolvidos são reabertos e provocam terríveis consequências nas vidas de todos os envolvidos.
Der Pass/Pagan Peak - Crimes brutais na fronteira entre a Alemanha e a Áustria colocam dois detetives em busca de um assassino em série.
The Missing (temporada 2) - Depois de ano desaparecida, Alice Webster reaparece e inicia-se um drama policial complexo, desenvolvido em mais de um local e tempo.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

CONTANDO A VIDA 304

O QUE APRENDI NA QUARENTENA?! 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Fiquei pensando na perversidade de estar só, confinado por opção e obediência ao bom senso. Pensei e logo entendi que pensar é um ato soberano e que se coroa quando nos distanciamos das coisas ditas corriqueiras. Estranho. Sobretudo estranho porque tudo que nos é corriqueiro ganha o vigor inverso, de algo novo ou pelo menos reinaugurado. As coisas, os objetos, estão no mesmo ambiente, mas o olhar interior exige requalificação. Acho o termo “ressignificar” que tanto tem sido gasto faz algum sentido nestas situações. O livro esteve no mesmo lugar há tempo, e lá continua, mas de repente dou uma olhada na lombada e acho o vermelho bonito, o título em branco se destaca e lembro-me das cores do Salgueiro. Viro o rosto e olho a modesta garrafa de água mineral, a mesma de sempre que acompanha minhas noites solitárias, e me pergunto de sua forma acinturada, da cor da tampinha “amarelada” (não seria melhor que fosse verde?). E o silêncio da casa que combina melhor com a noite que com o dia? As panelas da cozinha experimentaram minhas mãos limpando-as como nunca e sabe, até passei as achá-las mais simpáticas, dignas de certo brilho que nunca leguei. 

Resolvi dar uma limpada nos CDs. Pois é, ainda há poucas semanas pensava em como me livrar deles, agora que têm substitutos tão competentes. Mas, quando os acariciei em nome da liberdade do pó, me comovi. Lembrei-me de quando comprei uns, da circunstância do presente de outro. Sabe que cheguei, imagine, a me ver dançando nos salões do passado quando peguei em um azul, orquestrado. Nem precisei tomar a decisão de não os doar tão logo. Fui mais longe, cheguei a pensar que alguns não sairiam jamais de minhas paradas saudosistas e nem das prateleiras em que estavam silentes e condenadas. 

Converso com plantas. Sempre foi assim e não tenho pejo em reafirmar. Mas eram conversas rápidas coisa do momento de molhá-las e nada mais. Agora?! Agora confidencio intimidades, desabafo mágoas políticas irremediáveis, faço-as interlocutoras de sonhos libertários, de vagos planos futuros. E não é que suas folhas estão mais brilhantes, mais vistosas. Tenho certeza de que a fotossíntese partilhada agora purifica mais meu ar. 

Nunca tinha imaginado que os lenços dobrados, na gaveta, pudessem parecer quadros ou instalações artística. Nunquinha, mas não é que ontem imaginei Matisse, confesso, contudo, que como estavam tão espontâneas e à vontade, achei que iam mais para Braque. E meu Deus, não tenho só lenços brancos, ou com discretas listas azuis ou marrons. Não, tenho alguns bem coloridos que sequer sei de onde vieram. E aquele com minhas iniciais, nossa, que lindos! 

Acreditem: que beleza me pareceu o suporte do abajur da sala. Que contornos sensuais, delicados e sugestivo da languidez do objeto que deixar vazar luz. Entendi a diferença do erótico e do pornográfico quando supus outra leitura do prosaico detalhe, disposto no canto da sala. Nem preciso dizer que a banqueta de madeira, a mesma que me acompanha desde a primeira casa que tive como minha, me pareceu peça de museu. E de um museu especialíssimo, objeto biográfico capaz de conter narrativas de minha história pessoal. 

Os quadros das paredes!... Gente, que coisa mais bonita! Ajeitei um que estava tortinho e pensei na combinação deles. Acertei quando os coloquei lado a lado, e até saudei meu bom gosto e sensibilidade decorativa. Se é verdade que a casa da gente tem que se parecer conosco, aquelas pinturas legitimam minha história. Tentei dar enredo à composição das telas que juntei em diferentes momentos, e fui entendendo melhor minha história pessoal, um depois do outro, alternados na parede, do jeito que me sinto agora. Foi como ordenar as memórias não pelo tempo de aquisição, mas pelos ajustes temáticos. 

Criei coragem e fui lá. Sim, mexi na caixa de cartas. Sabia que ia doer, mas sabia também que eram dores de cura. E foram. Fui descobrindo que não restaram só cartas escritas aqui e ali, sempre com amor devoto, mas havia também cartões, cardápios de restaurantes, invólucros de balas, programas de cinema. Enfim, retalhos de um amor que precisou aprender a ser só. 

Foi triste mexer na caixa de joias. O roubo surpreendente do ladrão deixou algumas poucas peças que gritavam de solidão. Ouvi atentamente cada lamento: a medalha que ficou sem o cordão, o velho relógio que certamente não enriqueceria o assaltante, as três pérolas soltas do colar debulhado de minha mãe, a velha carteira sem os poucos dólares e euros que a valorizavam. Restos. Restos sim, mas tão ricos em cernes. 

Sentei-me para escrever sobre estas minudências e me perguntei dos próximos dias de quarentena. Que vou fazer? Quais os novos acontecimentos emocionais? Que eu sairá deste meu convívio pessoal? Poderia desdobrar perguntas mil, mas amedrontado me questionei sobre o limite desta condição de confinamento. Será que estou com medo? Medo do quê?

terça-feira, 30 de junho de 2020

TELINHA QUENTE 411

Roberto Rillo Bíscaro

Um crime abala a comunidade anglo-caribenha de Londres e a detetive Jane Tennison enfrenta o racismo estrutural da Grã-Bretanha, na segunda temporada de Prime Suspect.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

CAIXA DE MÚSICA 417


Roberto Rillo Bíscaro

O álbum de estreia da norte-americana Ari Lennox é esfuziante coquetel de Neo-Soul, que vai de sexy a Paulo Coelho.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

PAPIRO VIRTUAL 166

Roberto Rillo Bíscaro

Quando a polícia reabre a investigação sobre o desaparecimento de Amanda Mallory, a vida e algumas certezas de Isla colapsam. Além disso, um grande trauma da história australiana desempenha papel importante nesse drama.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

TELONA QUENTE 329



No período da Guerra Fria, dois adolescentes descobrem uma estranha frequência de ondas aéreas. Suas vidas e o mundo inteiro podem estar prestes a mudar drasticamente.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

CONTANDO A VIDA 303

DERRUBAR ESTÁTUAS, DESTRUIR MONUMENTOS, QUEBRAR IMAGENS. 



José Carlos Sebe Bom Meihy 

Esta história é mais velha do que se pensa. Muito mais. E tem nome: iconoclastia. A raiz etimológica mostra que este termo vem do grego eikon (imagem), kasten (quebrar). Pesquisas históricas registram um movimento ocorrido no século VIII, em pleno Império Bizantino. Tratava-se de contestação religiosa que pregava contra o culto às imagens ou idolatria. Com fôlego no âmbito religioso, a sanha contra a adoração de imagens, ao longo de séculos, foi ganhando outras pautas, estendendo-se às artes e a homenageados distintos por feitos tidos como polêmicos e condenáveis. Estranho este mimetismo psicológico que tanto se expressa individualmente como no âmbito coletivo. De um ou de outro jeito, a violência e a agressão são sempre componentes à contrapelo da história. 

Um dos aspectos mais tenebrosos desta prática culmina na destruição de símbolos que afetam, direta ou por tangência, o sentido público materializado em peças postas em praças, museus, igrejas. Em termos religiosos, no Brasil, por exemplo, tivemos episódios marcantes que nos trazem a amarga lembrança da ação empreendida por um jovem, em maio de 1978, quando então retirou do altar-mor da Basílica Nacional de Aparecida a imagem da Padroeira do Brasil. No atropelo do ato, descuidado, deixou cair a imagem que restou partida em pedaços. Alguns anos depois, o bispo neopentecostal Sérgio von Helder, em 1995, em uma apresentação televisiva, chutou outra imagem de Nossa Senhora manifestando teatralmente sua posição anticatólica. Na mesma linha, muito recentemente temos assistido ataques a terreiros de umbanda e de candomblé, também dimensionando grave preconceito religioso. No exterior essas manifestações ocorrem com certa frequência, sendo que, em alguns casos com destaque e indignação internacional, como aliás aconteceu com a destruição das duas maiores estátuas de Buda (55 e 38 metros de altura) no Afeganistão em março de 2001. 

No campo das artes o fenômeno é bastante comum e alarmante. Há situações memoráveis como o da pintura “Mona Lisa” roubada em 1911 por um italiano, atingida por pedra em 1956, colorida por spray vermelho no Japão em 1974, seriamente danificada por uma dose de ácido em 1956, e agredida com uma caneca de cerâmica em 2009. De forma bizarra “Vênus no Espelho”, de Velásquez foi esfaqueada em Londres, em 1914, e, em 1974 “Guernica”, de Picasso, também sofreu pichação por spray, quando ainda estava em exposição, em Nova York. Rembrandt teve sua “Dânae”, esfaqueada em 1975 na Rússia, e a “Ronda Noturna” igualmente agredida em Amsterdã, em 1976. A sequência é grande, mas chama atenção atentados contra imagens e instalações. São vários registos de ataques à estátuas famosas como a Pietá de Miguelangelo (Vaticano), ao dedo de Davi arrancado do pé, à martelada (Florença), mas nenhum foi tão estranho como a insistência nos ataques à “Pequena Sereia”, estátua esculpida por Edvard Eriksen em 1913 e situada na entrada do porto de Copenhague, na Dinamarca – no caso foram, de diferentes formas, desfechados 12 ataques. Num rápido inventário, cabe listar no ano de 2016, mais de mil ataques, em 76 países. 

Convém não ver isoladamente este comportamento que além de ser dimensionado como prática exercia ao longo dos tempos, merece ser considerado em seus aspectos constelares. Agressões assim eclodem por algum motivo explícito e extremado. De toda forma, não é justo reduzir o significado do fenômeno diagnosticado como hiperculturemia. Este termo aliás, foi reconhecido a partir da famosa reação - um desmaio longo, sofrido por Stendhal na Catedral de Florença, ante o conjunto de obras de arte e túmulos famosos, em 1817. Os efeitos de peças artísticas, de homenagem ou religiosas são muito sutiis e mexem com valores complexos pouco percebidos na lógica cotidiana. 

Recentemente, um fenômeno tem chamado a atenção: as manifestações antirracistas que incidem em derrubadas de estátuas expostas em locais significativos. O mais recente, a derrocada da homenagem feita a Edward Colton, traficante de escravos, em Bristol, no Reino Unido, tem chamado atenção de todos. O movimento antirracista tem alertado o mundo para a atualização de manifestações que mudam seu sentido na medida em que os acontecimentos ganham novos protagonistas. O tema é grave e não cabe reduzi-lo a “vandalismo”. É muito mais. O importante é considerar a gravidade do caso e encontrar alternativas que não sejam a mera destruição, pois não se apaga a história simplesmente supondo eliminar documentos. Lembre-se da gravidade da destruição dos registros sobre a escravidão, proposto no Brasil por Rui Barbosa. Tão consequente é este tipo de atitude que, no Rio de Janeiro, há quem fale da destruição do monumento a Zumbi, pois no Quilombo de Palmares vigiam regras escravistas. 

Mas, que fazer? Vale simplesmente mudar de lugar? Como a história não se apaga, por lógico, a medida indicada é a propositura de explicações em diálogo. É difícil, mas não dá para destruir também a possibilidade de se pensar em esclarecimentos, em elucidações que ao invés de recalcar mágoas, deem espaços para debates sobre as consequências de atos e movimentos que deixam marcas que precisam ser levadas em conta. Este debate, se não esgotado em polarizações, traz outra virtude fundamental: medidas de reparação e direito de ofendidos. É hora de pensar isto além das raivas – ainda que muitas vezes justificadas.