quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

TELONA QUENTE 266

Roberto Rillo Bíscaro

Halloween, mãe de todas as franquias slasher, foi a que mais enfraqueceu com as continuações. A partir de Halloween II (1981), houve até um que nem tinha Michael Myers. A tentativa de reformulação por Rob Zombie não me convenceu, até porque o serial killer de Haddonfield não é meu favorito. Meio paradoxal, considerando-se que o original de John Carpenter, de 1978, é um de meus filmes de horror prediletos. 
Já postei mais de uma vez sobre documentários a respeito do Halloween original ou mesmo da franquia. Além de estabelecer algumas das convenções de meu subgênero favorito, Halloween é exemplo de ambientação e força do underground. Admiro como Carpenter e Debra Hill criaram a mulher empoderada no filme de horror e não canso de apreciar a astúcia de como ambos reutilizaram filmes como Black Christmas e Psicose pra criar sua própria mitologia, copiada até hoje. Carpenter sabe que é foda – ele ainda compôs uma das trilhas mais reconhecíveis da história de qualquer subgênero, é mole? – e todas as decisões dos filmes posteriores, atribui aos diretores, mesmo quando está produzindo. Esperto esse John: criou a obra-prima; o que vem depois não repetirá a originalidade, então, é responsabilidade de outrem.
Planejara rever toda a franquia pra poder opinar mais conscientemente sobre o Halloween, lançado há poucas semanas. Sorte que enviei mensagem ao amigo Carlos Eduardo contando que faria isso, porque ele me avisou que a película era continuação direta da primeira. Acho que eu já sabia, mas esquecera, porque parece que lembro que fui eu que enviei a ele o primeiro link sobre a pré-produção, há muitos meses. Mudei TOTALMENTE (fãs roxos do primeiro Halloween entenderão!) a estratégia. Como o clássico estava fresquinho na cachola, lancei-me direto ao Halloween novo.
Acertada a decisão de desconsiderar os detritos inventados durante a franquia pra explicar o inexplicável: porque Michael não morria e voltava o tempo todo a Haddonfield. Criaram parentesco entre ele e a final girl Laurie Strode, que, inclusive, faleceu numa das sequelas. Como é de conhecimento universal, Strode é Jamie Lee Curtis, que há vinte anos afirmara que o filme em que sua personagem finalmente morreria, seria seu último, encerraria ciclo, blá, blá, blá. Ela repetiu a ladainha pra aceitar o Halloween du jour; resta saber se resistirá. O filme rendeu muito, foi elogiado, e, convenhamos, se ela for lembrada por algo, será pelos fãs de horror e não por Um Peixe Chamado Wanda. E como no planeta slasher tudo é possível, Michael Myers pode voltar dos mortos, afinal, um vilão slasher jamais morre ou vira purpurina.
Quarenta anos depois de ser atacada e ter seus amigos mortos pelo maníaco Myers, Laurie Strode é perturbada por traumas não tratados. Reclusa e paranoica, espera pelo retorno do mascarado, que, efetivamente acontece, quando consegue escapar em uma transferência de manicômios. Como qualquer slasher, Halloween está cheio de decisões estúpidas e furões no roteiro, tudo pra possibilitar o que mais ansiamos: mortes. Essas acontecem no ritmo de hoje, a mais merecida é a mais gore, digna de qualquer Victor Crawley pós-moderno.
Roteiro e diretor demonstraram respeito pelo original e pelos poucos fãs de longa data. Ver Halloween 1978 imediatamente antes foi muito útil, uma vez que o filme atual inverte algumas situações, como fazer Laurie voar pela sacada e não Michael e este se esconder num closet e não ela. Até o querido Doutor Loomis é ref(v)erenciado.
Há defeitos, como a dupla de jornalistas do início, cuja função é apenas expositiva e ser carne-moída. O roteiro de Carpenter é bem superior e nem estou considerando o quesito inovação; é na parte braçal mesmo. Mas, por não se desviar do caminho slasher que esperamos, este Halloween é mesmo o melhor, desde 1981.
Oxalá o sucesso de bilheteria enseje nova febre slasher. Totally. 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

CONTANDO A VIDA 260



CACHORRADAS...

José Carlos Sebe Bom Meihy


Para João Coroa.



Fim de ano... Que escrever? Sentei-me decidido a não falar de política e de perspectivas ideológicas. A ideia era fugir de temas que tanto atormentaram o combalido 2018 coletivo. Também queria esquecer o incêndio do Museu, a divisão do país, o fracasso do meu time de futebol, conjugado com o vexame da Seleção, a morte de tantos amigos e ídolos de todas as áreas, o tratamento injusto a mulheres, gays, índios e negros. Tinha certeza de evitar a greve dos caminhoneiros, os dramas – tão tocantes – dos exilados, imigrantes, deportados, e deixar de lado o aquecimento global e os novos/velhos quadros mandatários. Queria apagar o debate sobre o estado laico, a descriminalização do aborto, os efeitos da judicialização dos três poderes e o amargo espetáculo multiplicador dos moradores de rua. Mariele, nem pensar... Presidia em mim a certeza de que a exaltação reversa, a epifania dos bons momentos, que certamente existiram, seria pouca matéria para emblemar a fatalidade de um calendário que, paradoxalmente, parece ter passado rápido demais. Vapt-vupt, e o ano acabou: feliz ano novo, adeus ano velho...

Houve, porém, um caso que me chamou a atenção e atiçou argumentos que se abraçaram para uma conversa sobre o acabamento desta jornada que, de forma estranha, mistura, em plena primavera, dias de calor intenso e frios repentinos. Sim, há alguma coisa que vai além dos mistérios climáticos e sociais: o tratamento dado aos animais, no caso específico, aos cachorros. De saída, devo dizer que estou comovido com a morte (quase escrevi assassinato) de Manchinha, o cãozinho agredido com uma tacada de ferro no pátio do Supermercado Carrefour, nas imediações de São Paulo. Eu que leio jornal com tesoura na mão, fiquei surpreso com a pequena montanha de recortes feitos sobre o assunto. Não foi sem sentido que me vi motivado a tal pena, pois poucos dias antes também me comovi com a fidelidade elegante do cão de guarda no funeral do presidente Bush-Pai naquele adeus derradeiro. Decidi considerar ambos, e por eles medir meus sentimentos sobre o tempo que se encerra. 

De forma gostosa, declinei lembranças de outros cachorros que afinal compuseram a mitologia bichana que anima meus sentimentos por animais. O primeiro que me alentou foi Marley, o labrador descrito no livro “Marley e eu” (que depois virou filme), de onde guardei uma frase preciosa “Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas nos fazem sentir extraordinários?”. Não teria como deixar de lado as sessões televisivas sobre “Rin Tin Tin” que, desde os anos 1950, animaram o tema “companheirismo”. Certamente, o filme “Beethoven” emocionou o mundo, perdendo, contudo, em enternecimento para o insuperável “Hachiko”, de 2009, película que contava a história de um animalzinho que, mesmo depois de quase dez anos da morte do dono, ia diariamente espera-lo na estação de trem. É lógico que “A Dama e o Vagabundo”, bem como “Os 101 Dálmatas”, não deixaram mais pobre a ladainha de loas. 

Nem vou contar minha história pessoal com os cachorros que tive; apenas permito-me mencionar uma passagem recente que adoçou um reencontro com velhos amigos. Na ocasião, festiva, o colega de juventude evocava um presente que lhe dei, um filhote que além de manter o nome que decidi, “Tango”, se tornou melhor amigo do pai, que havia perdido seu antigo parceiro bichano. Mesmo que sem que os demais notassem, tive que mudar o assunto, pois as lágrimas cabíveis não combinariam com o jantar. Desse embargo interdito resultou um sonho que tive com minha última “cã”, Susy que tanta dor provocou quando a perdi.

É lógico que cabe menção aos cães bravios, aos amedrontadores cachorros maus como o mitológico Cérbero vindo do submundo (de onde adveio a referência ao diabo como cão), mas isto sempre esteve longe de anular a fidelidade de um Argos, amigo de Ulisses, e único a reconhecê-lo depois de 20 anos na guerra. Quero agora falar de Manchinha, um “sem dono”, desses que perambulam por aí em busca de sobrevivência. Indo de cá para lá, sua vida – nem triste, nem alegre – se fazia parte de uma história de valor menor, como alguém que é, no máximo, complemento rotineiro de uma paisagem comum. Não se pode definir com precisão de onde viera, qual sua trajetória, mas é certo que chegou ao tal supermercado em busca de algum resto. Entrou, olhou, foi espantado por zeladores das ordens sanitárias. Até aí, tudo bem, ainda que discutível, pois, por certo era “um cão sem dono”. O que é desalentador é a forma com que foi tratado depois do escorraço. Zeladores de regras o espantaram, mas na pacatez dos desalentados, Manchinha caminhava em marcha lenta. Presumo que sabia de seu destino de continuidades. E foi assim, até que um obstinado pegou uma vergo e o atingiu com convite à morte. Nossa!... As cenas que se seguiram foram cruéis demais. “Desumana” seria adjetivação cabível?

Mas qual seria a lição a ser tomada. Além da solidariedade que se avolumou, uma multidão em nome da justiça tem bradado, e, pelas redes sociais, se impôs. Lembrei-me de Waldick Soriano no segundo verso da cantiga brega “Eu não sou cachorro, não”: Tu não sabes compreender/Quem te ama, quem te adora/ Tu só sabes maltratar-me/ E por isso eu vou embora. E Manchinha se foi. Adeus Manchinha. Feliz ano novo...
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

TELINHA QUENTE 339

Roberto Rillo Bíscaro

Semana passada, a Netflix disponibilizou a terceira temporada de Réttur, série islandesa rebatizada como Case. Os 9 episódios tratam dum caso apenas, ao contrário das 2 temporadas iniciais, que eram mais dramas de tribunal e traziam casos distintos semanalmente, estão não disponíveis.
Elogiada pela imprensa e sites descolados do antigo primeiro mundo, Case foi dirigida por Baldvin Z, um dos codiretores da excelente e mais endinheirada Trapped, também presente na nossa crescente Netflix não-falada em inglês.
A modéstia orçamentária de Case torna-a predominantemente filmada em interiores e os crimes são fora de nossa visão. A produção também deve ter adotado certo tom semidocumental, com imagens e representações mais cruas, menos estilizadas/fetichizadas. A detetive está longe de ter o cabelão de estrela nórdica de Saga Norén ou o notável marcador de personalidade que é o suéter nacionalista de Sara Lund. Gabriela é totalmente cotidiana, pedestre. Nem seus dilemas pessoais tornam-na pesada; até aprendemos que tem problemas com a irmã, mas qual de nós não os possui? Em momento algum, interferem na investigação ou em sua personalidade. Pelo contrário.
Tudo começa, quando promissora bailarina adolescente é encontrada pendurada numa viga do palco do teatro nacional na capital islandesa. Suicídio, por certo, mas logo Gabriela e seu parceiro percebem que há algo sinistro ocorrendo com muitas garotas em Reykjavík. Como a polícia não encontra nada que justifique investigação, um advogado muito problemático, beberrão e sem moral acima dos que investiga, sai buscando informações. Isso abrirá o fosso do submundo das drogas, prostituição e violência contra a mulher da “pacata” Islândia. Pra quem idealiza a Escandinávia, uma informação: os níveis de violência contra mulheres entre parceiros é desproporcional à quantidade de direitos à disposição delas. Esse fenômeno tem até nome, The Nordic Paradox, porque cerca de 30% das norueguesas com parceiro já foram agredidas. Civilizados e superiores, né? 
Chama a atenção em Case, o modo como a exposição das personagens e fatos não é tão pesada, explícita e forçada como em seus congêneres atuais, que fazem coisas quase tipo “oi, sou João da Silva, amigo íntimo do pai da vítima e tenho um grande segredo”, a ser reafirmado, se possível, mais duma vez no episódio inicial. Sendo série lenta, apoiada em diálogos e sem mirabolâncias orçamentárias, Case pode afastar espectadores mais desatentos ou que querem as ligações/implicações mais fáceis, pra poderem mexer no celular, enquanto ouvem. Isso não quer dizer perfeição formal ou inovação, há momentos em que as transições simplesmente acontecem do nada e é curioso aceitar que alguém com culpa no cartório respondesse ás perguntas do advogado Logi, se nem autoridade policial ele tinha.
Pode incomodar também a desinibição escandinava de mostrar adolescentes em situação de abuso de drogas ou sexo. Não que haja orgias explícitas, mas uma teen drogada cavalgando um tiozão não é comum em produções anglo-americanas.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 343


Roberto Rillo Bíscaro

Funkeiros brasileiros deveriam se apressar para aproveitar a grave linha de teclado e a semelhança com o português do baby talk inicial da faixa Boom Boom Tap: tem hora que parece com “tudo bem”, falado bem meiguinho, bem miguxo tchuca-tchuca-miga, parece até homenagem aos momentos Boing Boom Tschak, do Kraftwerk, porque também tem linha de teclado agudo-borbulhante super-referencial. Mas, não é homenagem, é sarcasmo: o balbuciar é cortado por seco e duro FUCK YOU, seguido de célere correnteza jungle.
Lançado no dia de Finados, o sétimo álbum de estúdio do The Prodigy sistematicamente estraçalha qualquer momento de meiguice, com sua agressividade Big Beat. Em mais de um momento durante a dezena de canções, vozinhas finas e momentos que fingem que vão virar pop saltitante são soterrados com sirenes de ataque aéreo e pura artilharia sintética. Títulos como Timebomb Zone e Fight Fire With Fire falam por si, num álbum que não dá trégua ao ouvinte, que, afinal, está numa Londres onde é preciso andar com colete a prova de balas, em certas regiões, de acordo com a nervosa Champions of London.
Poder-se-ia elaborar toda uma teia de referências Brexíticas pra “explicar” a violência de No Tourists, mas Liam Howlett, MC Maxim e Keith Flint nunca necessitaram de razões pontuais pra sua agressividade. O álbum é urgente e rearticula os melhores elementos da carreira do Prodigy num trabalho desinteressado em inovar, mas sem nenhum momento baixo. À parte os momentos iniciais de Resonate – que impressionam ao triturar elementos de drum’n’bass com dubstep vocoderizado – o resto é Prodigy tradicional, como a cyberpunkice de Give Me a Signal
A faixa-título abre com teclados de fundo que dão a impressão de que o Public Enemy está fazendo trilha pra filme de James Bond. Need Some1, a abertura já anuncia o nervo do álbum, com seu teclado lúgubre e baixo/guitarra envolto em pura energia elétrica. Ironicamente, há recorrente sample de Loleatta Holloway gritando “I need someone”, superusado em faixas dance alegres.
Em meio a apenas faixas muito boas, (pelo menos) duas são espetaculares, em termos de dançabilidade violenta, pogueada ou como imaginárias trilhas-sonoras pra conflitos campais de ruas pós-apocalípticas: Light Up Tje Sky e We Live Forever são duas porradas na espinha.
O defeito de The Day Is MyEnemy (2015) – retorno após sete anos sem gravar – foi sua inconsistente duração: faixas boas intercalavam-se com outras nem tanto. Em No Tourists, o Prodigy voltou conciso, sem qualquer adiposidade, todo-poderoso. 

BONECAS INCLUSIVAS

Menina de 10 anos faz bonecas 'inclusivas' em Bagé

Geovanna Petrovichi dos Passos é prenda regional do Movimento Tradicionalista Gaúcho.
No dia internacional da pessoa com deficiência, a prendinha Geovanna Petrovichi dos Passos, 10 anos, de Bagé, dá o exemplo. “Jojô”, como é conhecida, surpreendeu ao organizar uma mostra de bonecas com deficiência, no concurso em que se tornou a primeira-prenda mirim da 18ª Região Tradicionalista.

Aos seis anos, ela já havia doado os cabelos para vítimas de câncer, ao ver uma reportagem na televisão sobre uma professora que tinha a doença.
Seu foco na inclusão é bastante abrangente: tem boneca negra, albina, cega, de muletas e com Síndrome de Down. A avó Anelise dos Anjos conta que o interesse da Geovanna da menina pelo tema surgiu de um trauma quando ela ainda era muito pequena: a prendinha sentia medo ao ver deficientes físicos na rua.

“Pra nós conseguirmos trabalhar esses medos dela, nós começamos a comprar os bonequinhos da AACD com deficiência”, explica a avó.

Ao mesmo tempo, a irmã de Geovana (na foto abaixo) nasceu com uma anomalia que provoca divisão dos lábios. “A primeira boneca inclusiva que ela fez foi com lábio leporino”, conta a avó Anelise. O medo desapareceu.


Incentivada pelo reality Desafio Farroupilha da RBS TV, Geovanna anunciou aos pais seu próximo desejo: confeccionar uma boneca gaiteira e cega para presentear a Natália Guastuci, estrela do reality apresentado pelo Jornal do Almoço. Que prendinha especial!
https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/blog/reporter-farroupilha/post/2018/12/03/crianca-de-10-anos-faz-bonecas-inclusivas-em-bage.ghtml

domingo, 9 de dezembro de 2018

SUPERANDO AS MULETAS

De muletas, mas campeões mundiais

A 4 de novembro, a equipa angolana de futebol para amputados foi campeã mundial no México. Voltaram a Luanda e agora são vistos como motivadores de orgulho.
O maior estádio da Cidadela em Luanda já não é o que era, agora inunda quando há chuvadas - no relvado e à volta do recinto onde proliferam cartazes de todos os negócios, da venda de jantes a seitas religiosas (Igreja do Tabernáculo)... Foi inaugurado nas vésperas da independência e foi lá, em 1977, que a seleção angolana, os Palancas Negras, fizeram o primeiro jogo oficial, ganhando a Cuba.

Para a história ficou o facto de Dinis, o Brinca na Areia, falso lento da ala esquerda, que brilhou no Sporting e na seleção portuguesa, ter jogado pela primeira vez, já em fim de carreira, pelo seu país. E, ainda, o facto de os adversários não terem podido utilizar aquele que porventura foi o melhor futebolista que já jogou pela seleção de Cuba: o angolano França Ndalu, que estudara em Havana e, à data do jogo, já estava perto dos 40 e tinha mais que fazer: era o general dos generais, o mais prestigiado militar da FAPLA. Da guerra da independência, Angola passava à guerra civil e não ia muito em futebóis.

O Cidadela agora moribundo foi substituído pelo estádio da Camama, mais longe do centro e mais pequeno (50 mil espectadores contra os 68 mil do mais velho). A ilusão do tamanho até chegou a ofuscar a Cidadela. Na passagem de ano de 2013, a seita IURD fez lá uma cerimónia: "Vigília da Virada - Dia do Fim." Nas bancadas ergueu-se um luminoso e enorme "F" a celebrar a palavra principal do slogan. Duplo exagero. Meteram dentro do estádio 250 mil pessoas e o fim não foi para todos: morreram 13 pessoas e 120 ficaram feridas por um atropelamento humano.

Há dias, porém, fui encontrar um milagre no velho estádio. Sob as suas bancadas fica a sede do Comité Paralímpico Angolano. Lá dentro há a mais bela das fotos: a albina Rodé Fernandes, cega e esplendorosamente alva, campeã dos 400 metros, corria ao lado do seu acompanhante, o negro Alain Baptista. Mas o milagre de que falo não era tão estético, era de pura determinação.

Deixem-me localizar o assunto: falo de Angola. Um dia vi, numa estrada de leste, um camião com a carroçaria cheia de uma carga de muletas. Eram daquelas com enchumaço protegido por napa garrida, para se pôr sob as axilas. Vi a camioneta sinistra durante a guerra civil.

Nessa altura, Angola era a campeã das muletas e da sua principal causa, as minas. A mina antipessoal é a mais cabra das armas, só traz a pólvora necessária para levar um membro, não mais. Do inimigo não se quer que morra nem mesmo que fique sem duas pernas. Só uma, para que ele passeie a sua desgraça. Tão famosa ficou por esse tamanho drama, que Angola foi visitada várias vezes pela princesa Diana.

Então, neste assunto, Angola era uma desgraça e uma comiseração. Ora, a minha ida o estádio da Cidadela foi para ver como das suas muletas um punhado de jovens angolanos fizeram uma inspiração nacional. A 4 de novembro passado, a equipa angolana de futebol de muletas sagrou-se campeã mundial em Guadalajara, México. Regressaram a Luanda e foram surpreendidos não só pelo carinho mas porque foram vistos como motivadores de orgulho.
Na verdade, o futebol de que falo não é com muletas, daquelas de se apoiar numa axila, mas de canadianas duplas, leves e capazes de dar um andar rápido. Joga-se a sete, num campo mais pequeno (60x40 m) e balizas mais pequenas - os guarda-redes têm as duas pernas mas um só braço. E a modalidade surpreende pela rapidez e jeito com que pode ser praticada. À porta da sede do Comité Paralímpico havia uma gigantesca foto dos seus campeões.

Encontrei-os com penteados exóticos como os de futebolistas comuns, havia riscas depiladas, cabelos pintados de louro e até um de rosa. As caras eram mais duras do que as habituais em recém-campeões - o defesa Celestino Elias, eleito o melhor do torneio, escondia sob as suas tranças caprichadas o olhar zangado que eu já vira numa entrevista na TPA, a televisão oficial. Havia militares feridos em acidentes e camponeses amputados por minas perdidas. Não sem razão, a federação foi fundada no Moxico, em 1992, onde, quatro anos antes, eu vira o camião das muletas.

O defesa Neves Sonhe, do Moxico, resumiu o início do seu drama: "Perdi o membro, gostava de jogar e a vida acabou." O treinador Augusto Baptista conhecia o caminho das pedras: "O desespero é etapa inevitável." Ele quando treina olha sempre para as bancadas. Uma cara desconhecida e com muletas levava-o a fazer a aproximação... O convencimento passa pelo abandono da negação: "Tens de aceitar." Aponta-me a equipa: "A esses podes chamar-lhes deficiente, eles sabem que lhes falta qualquer coisa." Daí a tornarem-se campeões em Guadalajara foi um passo.
Há quatro anos, a equipa angolana já tinha chegado a vice-campeã, contra a Rússia. Campeão do pensamento positivo, o treinador Baptista avisou os jogadores, antes de partir para o México: "O patamar do segundo lugar já está garantido, mas podemos ir mais longe." A Rússia, tendo perdido nas meias-finais com a Turquia, tornou o dilema resolvido: "Só podemos ganhar." A final com a Turquia estava empatada depois das duas partes do jogo, de 25 minutos cada. Empate ainda no prolongamento. Foram a penáltis. O guarda-redes Jesus Mateus disse ao treinador: "Coach, fica calmo. Uma vou defender!"

Os marcadores das duas equipas enganaram os guarda-redes até à última rodada, 4-4. Na quinta, Jesus Mateus cumpriu e, a seguir, o avançado Heno Guilherme desfez o empate. Campeões! Ninguém atirou as muletas ao ar, todos quiseram libertar-se correndo - todos como o órfão Eder em Paris, depois do famoso golo na final do Europeu, não querendo abraços, só sentirem-se completos.

Contei ao Laurindo, do Huambo, que tem paralisia numa perna, que na minha infância havia muitos miúdos com poliomielite: "O melhor jogador de futebol na minha escola primária era um mulato com perna bamba mas dura." Ele sorriu, Laurindo - pudera, um campeão! - era também dos deficientes tão eficientes que encaixam as palavras.

Ao lado, o médio Hilário, de Benguela, fazia jus ao nome, passou a entrevista com um sorriso. Perdera a perna direita aos 10 anos, saltando a brincar do comboio. Perguntei-lhe se gostava de ver o futebol dos com duas pernas. Que sim, nunca perdia um jogo do Petro, quando o seu clube de coração ia a Benguela.

No dia seguinte, houve a receção no Huambo, a segunda cidade do país e berço de cinco dos campeões. Foi povo e foi governadora da província, tudo derreado pelos heróis de muletas. No seguimento da reportagem da TPA, a cadeia televisiva nacional, o noticiário foi até à vizinha Caála, onde o Recreativo treinava para um jogo do campeonato. A câmara focava o relvado, em que entrou alguém que disse alguma coisa aos jogadores que treinavam e apontou para a bancada. Os jogadores olharam, desmobilizaram do treino e correram para a bancada.

A imagem mostrou os campeões de muletas, eram eles que estavam na bancada, a serem cercados pelos profissionais do Girabola, o campeonato maior do futebol angolano. Houve abraços e selfies. Não posso garantir que Hilário, o campeão desastrado com comboios, estivesse lá. Mas gostava que sim, e um dos futebolistas com duas pernas lhe tivesse pedido um autógrafo. O Recreativo da Caála treinava-se para jogar dias depois com o Petro e o médio Hilário Cufula, o campeão de muletas sempre sorridente, merecia ser homenageado pelo adversário.

sábado, 8 de dezembro de 2018

QUÊNIA INCLUINDO - II

O Quénia escolheu o Mister e Miss Albinismo de África de Leste. Um concurso para combater preconceitos.

Os talentos exibidos por vários participantes do Miss Albinism East Africa 2018 na noite de sexta-feira, 30 de Novembro, em Nairóbi, foi uma declaração de que as pessoas com albinismo são bonitas.

Um concurso de beleza inovador para pessoas com albinismo, realizado no Centro de Convenções Internacionais Queniano que estimulou a confiança e a inclusão de pessoas que continuam a ser alvo de um estigma às vezes mortífero no continente africano.

No concurso participaram 30 pessoas. Foi organizado pela associação Albinism Society of Kenya, em parceria com associações do Uganda e da Tanzânia.

A recém-coroada Miss Albinism East Africa 2018, Maryanne Muigai, emocionou-se depois de ter conquistado o título.

Outra participante, Elizabeth James, contou que foi forçada a mudar de escola quando criança, "quando as pessoas olhavam, apontavam para ela e começaram a segui-la a caminho de casa".

O concurso, que visa acabar com estes estigmas, foi intitulado “Aceite-me, inclua-me, eu posso”.

Emmanuel Silas Shedrack, da Tanzânia, de 20 anos, e Maryanne Muigai, queniana de 19 anos, foram coroados vencedores.

Ambos vão receber prémios monetários e serão embaixadores das organizações parceiras ao longo do próximo ano.

Para o presidente da Associação dos Albinos de Moçambique, William Tomás, este tipo de concurso é importante para a auto-estima das pessoas albinas que deveriam aparecer mais vezes em cena.
















quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

TELONA QUENTE 265



Roberto Rillo Bíscaro

(Ab)Usar das convenções dos diversos subgêneros horripilantes tem sido tão frequentemente (ab)usado, que virou convenção. Desde que Wes Craven concebeu A Hora do Pesadelo 7: Novo Pesadelo (1994), que os clichês são explicitados por personagens superintendidas, que tentam escapar da morte evitando erros cometidos pelas vítimas em filmes de horror.
Escrito e dirigido por Owen Egerton, Blood Fest (2018) é a mais recente adição ao longo rol de produções que se querem espertinhas, porque (ab)usam das referências ao cine de terror. Não que não se precise de expertise e conhecimento pra esses roteiros, mas depois de tantos anos metacinemando, fica difícil classificar tais produções como “cabeça”. Detalhe aqui, detalhe acolá tornam-nas divertidas, mas o paródico quase sempre entorpece o terror e fica a sensação de filme cômico (SQN) com fantasia/ação melequenta. Blood Fest paga o preço de zombar dos clichês do horror, ao mesmo tempo que os exalta, afinal, trata-se de filmes-homenagem, mesmo que se finja ironia pós-moderna. 
Quando criança, Dax vê sua mãe ser assassinada por um mascarado. Ao crescer, torna-se especialista em filmes de horror, detentor do conhecimento de todas as convenções, de qualquer subgênero. Mas, seu pai odeia a violência despertada, que culpa por ter matado sua esposa. Por isso, quando descobre que Dax tem ingresso para um gigantesco festival de horror, em enorme área, o Dr. Conway inutiliza a pulseira-identificadora. Claro que Dax consegue jeito de penetrar na celebração, mas logo se dá conta de que o organizador tem espúrias intenções assassinas e daí começa a matança.
Blood Fest funciona não apenas como subvertedor de clichês - celulares sem sinal, virgindade; há um balde deles, todos apontados pro público, porque, afinal, o roteiro tem que provar que é esperto, explicitando o que qualquer fã-roxo sabe; mas daí há outro porém: nem todos são fanáticos, por isso há que explicar. O filme também mescla diversos mundos paralelos do horror: slasher, vampiros, zumbis, palhaços e até o torture-soft porn de Jogos Mortais. São tantos lugares-comuns, que daria tese; o conhecimento de Egerton é enciclopédico.
O resultado é bem movimentado, com reviravolta final, divertido mesmo, pra ver com tapauerzão de pipoca. Mas... Mas, não dá medo; não causa a menor tensão. É só mais um filme pra meninada que se implora hipster. Fã de horror, de verdade, sempre preferirá a simplicidade perturbadora dum Downrange
Uma dica: mesmo em 2018, compensa permanecer virgem, se não quiser morrer.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

CONTANDO A VIDA 259

EMPATIA X SIMPATIA: uma dose de filosofia no debate sobre igualdade.

José Carlos Sebe Bom Meihy 



Já foi dito e até consagrado que nosso tempo, o século XXI, é “da diversidade”. Mais que nunca, efeito de intrincados jogos de detalhes, as “diferenças” emergem de maneira a suscitar convívios definidos em códigos variados. Seja pela necessidade social de planos de sobrevivência, seja pelas regras jurídicas conquistadas, os conceitos se somam dando fundamentação filosófica às condutas que extrapolam normas cotidianas ou simples regras de aceitação. Não mais que de repente precisamos ter clareza de considerações que compõem comportamentos explícitos, muitas vezes tidos como naturais ou sem história. Nada na sociedade humana, nas relações sociais, decorre meramente dos tais instintos de sobrevivência. Em sociedade tudo é constituído e acertado segundo interesses marcados pelo que Rousseau chamou de “contrato social”. É lógico que precisamos dos instintos básicos para a continuidade das espécies, e assim, respiramos, nos alimentados e cumprimos os desígnios reprodutivos. Mas, viver em comunidades exige construções que se materializam em costumes e práticas regulativas e estas sempre são acordadas de maneira a um ordenamento de convívio. É aí que atuam os conceitos e as oposições especulares aos preconceitos. Levando a sério a inevitabilidade de acatamento dos “diferentes” – das minorias antropológicas: negros, deficientes físicos, mulheres, homossexuais, imigrantes – temos que questionar alguns supostos que sustentam tais desempenhos. Nessa linha, o termo “tolerância” se coloca como vulnerável à crítica. Tolerar implica acatar com reserva o “outro”. Seria como ceder lugar por convencimento racional. Seria “admitir”, e num esquema de respeito e direitos, “admitir” é pouco. Há decorrências sérias contidas nessa consideração, e, efeito imediato disso, implica a retomada intelectual que, por fim, discute a agência das coisas. Dizendo de forma direta, pergunta-se: a partir de quem se organiza o espaço do “eu” e o direito do “outro”? Indo ainda mais fundo no mar agitado dos conceitos de paternidade filosófica, cabe mais, e antes, de definir o lugar do “diferente”, o reconhecimento de um darwinismo social, que tem garantido ao mais forte e mais adaptável um posicionamento como regente do ordenamento social. 

Qualquer esclarecimento sobre o progresso deste debate exige evocação de dois pilares que se constituem no suporte das explicações do mundo contemporâneo: o “nascimento do eu” e a incessante briga entre o “objetivismo” versus “subjetivismo”. Não seria pouco dizer que tudo começou com o humanismo renascentista, com a emersão do indivíduo competente como centro da natureza. Desde então, os nomes começaram a aparecer nas obras de arte, os senhores a se notificarem como mecenas e os nomes próprios a progredirem poderes, uns sobre outros, anônimos. É assim, por exemplo, que se diz que Colombo chegou à América, ou que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil. A História (escrita, de feições científicas, oficial e oficializadora) tem eras de construção que, por fim, começaram a ser abaladas pelas conclusões de Freud. Foi ele quem feriu o “eu” na acepção que temos hoje, universalmente acatado na vigência do capitalismo. E também é freudiana a remessa à semente capaz de aliviar a praga do egoísmo social. O “subjetivismo” proposto pelo pai da psicanálise convida a pensar retomadas, agora feitas com base em debates assentados. E sem conhecimento dos percursos anteriores aos comportamentos em voga, pouco progresso se vislumbra. Por certo, o tema merece considerações importantes e sensatas, mas mesmo sob a carência de oportunidades aprofundamento, ressalta-se a presença de dois conceitos que, se contrapostos em sentido filosóficos, podem ajudar o ingresso nos céus abertos dos direitos à história: “simpatia” e “empatia”. Gerações cresceram apreciando o “dever de simpatia”. Aprendeu-se (e ensinou-se) que “simpatia” era uma virtude inscrita na piedade e no reconhecimento da dor de “outra pessoa”. Durante décadas isso abrangeu os chamados bons costumes. De forma retórica, aprendeu-se que é “simpático ser simpático”. Derivado do conceito grego de “sym-pathos” (sim = união; pathos = paixão), valorizou-se o direito do “outro” como atitude de acatamento, algo capaz de favorecer o convívio por um tipo de solidariedade concedida pela dor alheia. 

Ainda que dicionários confundam os dois termos, é importante distingui-los, pois empatia (in = dentro) vai além da condescendência, impetra mesmo “se colocar no lugar do outro”. Há ainda um fator a ser considerado na equação que justifica o “diferente” como objeto de reflexão. Enquanto simpatia permite a compreensão da dor alheia, empatia demanda se colocar na posição do outro. Atua nessa relação o sentido da solidariedade e da paixão. Não pode haver solidariedade sem paixão e o apelo apaixonado ganha sentido humanitário quando um se coloca não ao lado, mas no lugar do outro. O mágico nesse debate é que a diferenciação entre os termos pode ser apreendida e discutida como ensinamento. Assim, não apenas justificar-se-ia o debate no nível da filosofia ou de refinadas contendas intelectuais. A apreensão dessas diferenciações pode ser captada também em nível de ensino, pois é fácil exemplificar e com o exercício tornar pedagógica a explicação dos direitos de tantos que, afinal, justificariam a premissa de que “todos são iguais perante a lei”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

TELINHA QUENTE 338



Roberto Rillo Bíscaro

Não falta quem ache documentários entediantes, especialmente aqueles com as talking heads, cabecinhas falantes depondo. Documentários sobre nazismo então, que deprimentes, e, além do mais, que ângulo novo poderia ser abordado? O que dizer dum doc de dez episódios sobre o tema? Deve ser pileque propício pra levar ao suicídio, certo?
Não, se for a dezena de capítulos de Hitler's Circle of Evil (2018), produção britânica, constante da Netflix.
Desde a ascensão da sociedade urbana industrial, hibridizações não são novidade (embora os nazis não gostassem disso racialmente). Destarte, talvez seja correto afirmar que Hitler's Circle of Evil (HCOE) é uma docusoap, mescla de documentário com novelão anglicano (soap opera). Isso porque a história da ascensão e queda do 3º Reich é contada sob a ótica das intrigas de bastidores de seus seguidores-comparsas mais diretos, como Göring, Himmler, Hess, Goebbels e outros malditos (nem suponham que um resenhista deficiente visual e albino seja imparcial com essa laia que o colocaria num campo de concentração).
Com o ponto de vista focado nas motivações, ambições, fraquezas, recalques, invejas, bajulações e autopromoções individuais pra conseguir poder ou ficar perto de Hitler, HCOE consegue unir História com histórias de vida, criando um todo viciante como uma soap, porque há drogas, traições, homossexualidade, falsidade e pura demência paranoica, como quando Hess pilota um avião até a Escócia pra apresentar um plano de paz prum lorde que vira apenas um vez.
A perspectiva de HCOE é que os nazistas não passavam de facínoras enganadores do povo alemão; então o programa morde e assopra. Own, tadinha da população alemã, que incendiava e linchava judeus e mais. Fazia isso enganada, não porque estivesse predisposta pelas mesmas razões que elevaram à intimidade hitleriana seus compatriotas melhor conectados.
HCOE usa música incidental dramática e encenações, mas não dispensa o narrador, imagens de época e as talking heads (amei o historiador rolando de rir ao imaginar o fedor do bunker hitleriano dos últimos dias.) Essa combinação, aliada à novelização das histórias de vida, tornam HCOE totalmente maratonável, porque você fica doido pra saber o que vem.
Sabemos que a Alemanha perderá a guerra e que todos se ferrarão (os que o documentário mostra, porque há um tantão que jamais foi pego), mas como não sabemos dos lances privados do vaidoso Göring ou do fanático Goebbels (que tinha pernoca deficiente, mas perseguia outros deficientes), a narrativa fica muito interessante.
Até pra quem paga de santinho de luz, HCOE é indicado e aproveitável, porque dá pra se comprazer com gente se lascando sem parecer desalmado ou politicamente incorreto, afinal, são nazistas que colocaram em risco o planeta. Dá pra sermos como eles até, só que “do bem”! 

A segunda temporada de Roma: Império de Sangue recebeu nome distinto, quando adicionado ao catálogo, mas se procurar pelo título citado, o assinante terá acesso igualmente.
Seus cinco capítulos resumem a trajetória de Júlio Cesar, um dos indivíduos mais influentes da história. Considerar herói o responsável por dezenas de milhares de mortes fica a critério de cada um, mas não dá pra ignorar a história dum sujeito que nomeou um mês.
Sanados os problemas de ritmo da temporada um, Júlio César tem menos historiadores interrompendo pra dizer o que já estava sendo mostrado e menos cenas inúteis de gente contemplando janelas etc. Cheio de gente bonita e recriações de ruas romanas e sangrentos campos de batalha, Júlio César é muito gostoso e atraente de se ver, como se fosse série mesmo. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

QUÊNIA INCLUINDO

Participantes se preparam para concurso de Miss e Mister Albinismo no Quênia

População albina sofre com preconceito no Oeste da África, alerta a ONU.
Homens e mulheres albinos participaram nesta quarta-feira (28) do ensaio para o concurso de Mister e Miss Albinismo em Nairóbi, capital do Quênia. O evento, programado para esta sexta-feira, tenta promover a inclusão social dessas pessoas, frequentemente vítimas de discriminação em países da África Oriental.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), os albinos são vítimas de preconceito em algumas comunidades. Na África, a situação é ainda mais grave – em 2016, a ONU alertou para a perseguição em massa das pessoas com albinismo no Malauí, país do sudeste africano.

No Quênia, onde haverá o concurso, a organização reconheceu "melhora" no apoio a essas pessoas. Ainda assim, "há muito o que se fazer no país", segundo relatório de uma especialista da ONU.

CAIXA DE MÚSICA 342



Roberto Rillo Bíscaro

A apaixonada por automóveis Kandace Springs mostrou tanto potencial que não apenas o Príncipe Púrpura a convidou pruma jam em Paisley Park, como foi contratada rapidinho pela legendária Blue Note Records, gravadora de feras do jazz.
Ser filha dum músico que fez backing vocals pra gigantes como Aretha e Chaka ajudou no networking, mas se a cantora-pianista não tivesse talento, não seria fisgada por uma das casas sagradas da música negra.
Ao resenhar Soul Eyes (2016), seu álbum de estreia, afirmei que a norte-americana buscava seu nicho. Seu segundo trabalho, Indigo, saiu pela mesma Blue Note, dia 7 de setembro e soa como se Springs não queira escolher uma etiqueta: entre originais e covers, a trezena de canções e vinhetas remete de Nina Simone a Portishead, com arranjos sofisticados, que unem o tradicional ao contemporâneo.
A sinuosidade da faixa de abertura, Don’t Need the Real Thing, com sua percussão africanizada prenuncia álbum caprichado. Totalmente deliciosa. Outra faixa com percussão bem marcada e interessante é o jazz esfumaçado de 6 8; seria muito legal se houvesse um mix sem ela, pra ver se a languidez dos teclados, a flauta fantasmagórica e os vocais totalmente relax dariam conta de segurar a canção.
A quantidade e frequência de vinhetas em álbuns de soul/R’n’B contemporâneos leva a crer que os compositores possuem criatividade abundante a ponto de desperdiçarem boas ideias melódicas em faixas que duram segundos. Pra que as vinhetas-título, não?
Breakdown é balada de diva sofredora; Fix Me referencia o padrinho Prince na letra e tem piano à Chopin; Unsophisticated é sofisticado jazz defumado, à Chet Baker; People Make the World Go ‘Round é funk hiper-comportado, que você só saca ser funk pela estilização do pianinho e da percussão. Indigo tem pra quase tudo que é gosto: até cover jazzificado muito bonito de The First Time Ever I Saw Your Face, que pouca gente conseguiria achar superior à perfeição de Robert Flack.
E aí está um dos pontos que Kandace tem que considerar pra futuros trabalhos. É tudo muito bem feito/cantado, mas não se distingue ainda um selo Springs. Quando ouvimos Piece Of Me, a Sade de Soldier Of Love vem à cabeça na hora. Quando Springs canta “sometimes love is war”, difícil não imaginar como a Deusa anglo-nigeriana faria. Em Love Sucks, o peso da comparação ainda é mais esmagador: numa melodia com arranjo super 60’s/70’s, Kandace soa perigosamente como clone de Amy Winehouse, até com alguns maneirismos. Ficou bom, mas ela não é Amy (poucas são).
O problema nem é soar como cicrana ou beltrana, a questão posta fica sendo: se a cantora não achar sua própria voz e nicho, como futuras resenhas de artistas iniciantes poderão apontar que tal faixa soa como Kandace Springs?
Que isso não seja desestímulo pra audição de Indigo. É muito gostoso, ouçam só que belezura essa faixa de abertura:

domingo, 2 de dezembro de 2018

ALBINA RESGATADA

Orangotango albino raro é resgatado de cativeiro na Tailândia
Uma fêmea de orangotango albina extremamente rara foi resgatada no último sábado (29) após ser capturada e mantida em cativeiro por moradores da pequena área de Kalimantan, localizada na ilha de Bornéu, na Indonésia.

Com apenas cinco anos de idade, a fêmea foi encontrada por membros da organização de proteção a vida animal "Borneo Orangutan Survival Foundation" e está passando por exames para avaliar seu estado de saúde. Com olhos, pelo e pele mais claros do que semelhantes da espécie, a primata é rara e, segundo o "Metro", é a primeira orangotango albina que teve o resgate registrado.

Em um comunicado oficial, a ONG afirmou que, por ter ficado apenas dois dias com humanos, a orangotango ainda apresenta comportamento selvagem e deve ser devolvida à natureza em breve. "Nós iremos continuar a observá-la e conduzir testes sobre sua saúde. Ela era mantida presa em cativeiro por residentes locais e ainda exibe comportamentos selvagens, o que significa que há uma boa chance de que ela possa, em breve, ser liberada de volta para um habitat natural", informou.

SUPERANDO CENSURAS

Roberto Rillo Bíscaro

A Polônia dos anos 1970 estava sujeita à pesada censura imposta pelo regime comunista. Havia a Igreja Católica que contestava o totalitarismo, mas impunha sua própria censura, a moral. Nesse ambiente, publicar livro sobre sexualidade feminina, que falasse de direito ao orgasmo e técnicas de controle da natalidade, era transgressor política e religiosamente. Pois, a ginecologista Michalina Wislocka escreveu a necessária e revolucionária obra. Essa história é contada no competente A Arte de Amar (2017), dirigido por Maria Sadowska e constante do catálogo da Netflix.
Ziguezagueando temporalmente, mas sempre entendível, A Arte de Amar apresenta preciso painel de como a história pessoal de Michalina importou pra que o livro A Arte de Amar fosse escrito. Tem desde a tentativa de relacionamento à romance de Simone de Beauvoir até o capitão-bofão que descobre seu ponto G e a faz sentir que gozar é vital. O roteiro não deixa de lado a condescendência enfrentada pela médica no mundo acadêmico, apenas por ser mulher. E quando trata da censura a seu livro, de quebra, revela delicioso caso de pura desobediência civil da católica e oprimida população polaca, que, pelo menos, queria aprender a ter prazer na cama.
A Arte de Amar é feminista e especialmente necessário numa época quando até mesmo mulheres dizem não precisar do feminismo, sem se lembrar que se podem votar, dirigir ou gozar hoje, é por causa de gente como Wislocka. 
E, além de todas as qualidades intelectuais, é um filme bonito e gostoso de ver.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

TELONA QUENTE 264

Roberto Rillo Bíscaro

Não cultuo Winston Churchill e acho sacais as representações do relacionamento dele com a esposa, sempre a paciente estoica, que o coloca na linha, quando necessário, na vibe “atrás de um grande homem”. Metido a entender de tudo, de política a pintura e literatura, o estadista é reverenciado frequentemente como o britânico mais importante de todos os tempos e é compreensível pelo papel que teve como líder durante os duros anos da Segunda Guerra.
Meio como Lear ou Hamlet, a personagem Churchill tem sido objeto de desejo de diversos atores. Amados mios, como John LIthgow e Albert Finney interpretaram o charutudo. Quando soube que Brian Cox o fez em Churchill (2017), tive que vê-lo. Não me arrependo: pra quem curte dramas históricos bem dialogados, padrão britânico pra exportação, o filme acerta em cheio. Se havia samba-exaltação, deveria haver a categoria filme-exaltação e Churchill é desse tipo.
O título é bem pouco criativo e representativo, porém. Passa a impressão de cinebiografia abarcante de toda vida ou grande pedaço dela; do processo de formação dum ícone ou coisa assim. Nada disso, Churchill recorta menos de uma semana na vida do Primeiro-Ministro.
Hoje, sabemos que a Operação Overlord foi decisiva pra derrota alemã. Ela teve início com o desembarque dos Aliados nas praias da Normandia, em 6 de junho de 1944, o “Dia D”. Mais de 1 milhão de soldados entraram no território francês ocupado pelos nazistas, em ataque anfíbio. O ancião Sir Winston Churchill descria do plano, baseado em suas experiências da Primeira Guerra, décadas atrás, em um outro mundo.
Churchill é sobre obsolescência e como encará-la com dignidade dolorida. Mais jovens, como Eisenhower, entendem melhor o mundo novo, por isso assumem o controle das operações. E aí reside ponto fulcral que o roteiro não aborda, mas está subentendido: a obsolescência não é apenas a do chefe do governo inglês, mas da própria Inglaterra. Os norte-americanos apenas informam os britânicos sobre os planos pra operação e estes, na figura do general Montgomery, os colocam em ação. Nesse mundo novo, a Europa era segundo escalão.
Brian Cox treme o queixo, expele fumaça pelas narinas feito fumarola, faz um sotaque perfeito e tem até um ou dois momentos de solilóquio shakespeariano: os velhos do Bardo conjuram deuses e bruxas, o pio Churchill reza pedindo que o clima impeça a operação. Muito épico, com fundo musical coral e tudo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

CONTANDO A VIDA 258

SOBRE “VIRAR O DISCO”, “MEIA SOLA” E “PÁ DE CAL”. 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Por acaso, há pouco tempo, havia conversado com amigo sobre palavras e ditos populares que mudam de sentido à medida que o tempo passa. Essas conversas são sempre interessantes, posto darem medida da força da língua viva e do nosso envelhecimento. Por coincidência, dia desses, me vi explicando a um jovem de seus 12 anos o que significava “mudar o disco”. Foi engraçado, pois a expressão ainda é frequente e eu mesmo me vejo aplicando-a constantemente. Depois de detalhar a evolução das gravações dos “biscoitos”, daqueles discos de 78 rotações, pretos, grossos, quebradiços, detalhei o advento dos LPs com repertório bem maior de canções, de qualidade de som inigualável, e com capas artísticas. Falei também dos mini-discs, gravações que continham poucas músicas e às vezes eram até coloridos, de plástico. A conversa se transformou em viagem ao passado e uma ponte para o presente. Passadas as primeiras informações, expliquei que com o tempo “mudar o disco” tinha se convertido no sentido usual de “mudar de assunto”, em particular, quando o tema de conversas tinha chegado a um limite, ou se esgotado. A imagem do jovem interlocutor se iluminou ao relacionar a mudança de música com o “outro lado da gravação” ou mesmo com a substituição de interpretações. 

E foi assim que progredi para explanar a metáfora da “meia sola”, remetendo-me ao aproveitamento do sapato de sola gasta, como se fazia antigamente. Exercitei, neste caso, minhas habilidades históricas, e lembrei que em países colonizados, em particular naqueles que se regeram pelo trabalho escravo, ter sapatos era sinônimo de status social. E até puxei a conversa para os dias de minha infância e juventude, ocasião em que ainda a indústria de calçado não havia alçado os padrões atuais – que, aliás, coloca o Brasil como grande produtor. Novas admirações se estamparam no olhar curioso do quase mocinho. Saber que havia profissionais específicos e estabelecimentos para promover o aproveitamento dos sapatos, com remendos sucessivos, foi novidade para quem hoje goza do privilégio de reposições frequentes. No embalo da conversa fiada, perguntei: você sabe o que significa “colocar pá de cal”? E nem precisei da negativa; fui logo explicando que os enterros de mortos eram feitos em covas rasas e que para evitar o mau-cheiro se colocava cal. A decorrência disto resultou no significado de “fim de conversa”, ou, como seria mais apropriado “fim de papo”. 

Passados momentos do fim desse “papo legal” com o jovem, fiquei meditando sobre o impacto da atualização da linguagem em geral. Encontrei amparo em leituras que tantos prazeres me dão, como as de Marcos Bagno, prezando a dinâmica da língua. Correlato da vida humana, as línguas variam, as expressões mudam, e as palavras ou morrem ou ressuscitam com outras significações. De tal forma, me entretive nessas constatações que me permiti um mergulho mais consequente, quase filosófico: o que me diriam, hoje, tais expressões? E flanando no livre pensar, como se estivesse em estágios loyolanos atentos aos “exercícios espirituais”, fiz ligações convenientes. Considerei minha perplexidade política, em particular com os resultados das últimas eleições, como denominador comum. Foi mecânica a indicação de que era hora de “mudar o disco”. Chega, pensei. O curto período de campanha foi extenso demais para as retaliações, desavenças, brigas e exaltação de temperamentos. Vamos “mudar o disco”, aflorou-me o dito popular atualizado na incapacidade de entendimento do vertiginoso veredito democrático: eles ganharam. Foi quando, então, me veio à cabeça o segundo ditado “meia sola”. Professando a crença no vigor da sabedoria popular, professei que era hora de colocar “meia sola” em minhas ideias e, mais que aceitar a derrota política, deveria remendar meu incontrolado radicalismo e aproveitar da situação. Logo despontou a ideia de que ser oposição era o forte dos seguidores de minha orientação política. E comecei a sentir firmeza na honrosa derrota eleitoral. Percebi também que faria parte da “meia sola” supor o renascimento das ideais que, por falidas, levaram o partido que aprecio a perder sua cara inaugural, e, o que é mais sintomático, ter perdido exatamente nos rincões que lhe serviram de base. Com certo júbilo, por fim, concluí que era necessário por uma “pá de cal” no meu esforço isolado de lutar contra a correnteza. Ser democrata, afinal, deveria me significar “mudar o disco”, pôr “meia sola” e por fim jogar uma “pá de cal” no tema.