domingo, 23 de julho de 2017

EXPOSIÇÃO PORTUGUESA

Daniel Rodrigues fotografou a perseguição aos albinos


O trabalho foi feito para o New York Times, correu mundo e fez parte do portfólio que valeu a Daniel Rodrigues o Prémio POY Latino.A repórter Barbara Baldaia visitou a exposição na companhia do autor, o fotojornalista do New York Times, Daniel Rodrigues


A exposição dá conta da violência e dos crimes cometidos sobre os albinos de Moçambique e do Malawi
Vamos parar na fotografia em que se vê um homem albino rodeado de quatro crianças não albinas.
A história por trás desta imagem impressionou o fotógrafo. O homem que vemos na imagem chama-se Ricardo: "Agora ele anda cheio de medo, porque a irmã foi assassinada por encomenda do marido, ou seja, o cunhado dele. E anda com medo porque sabe que o cunhado agora anda atrás dele".
O melhor da TSF no seu email

Depois da irmã de Ricardo, também albina, ter sido encontrada morta, o cunhado apareceu com um carro. Daniel Rodrigues explica que um corpo de um albino pode render 40 mil euros. "Já não me recordo quanto, mas as mãos podem valer dinheiro, os pés podem valer saúde, a cabeça pode valer ainda mais coisas, ou seja, o corpo é partido aos pedaços e vendido", explica.

Vendido a quem? Não se sabe ao certo. Todos falam num "boss". O fotojornalista explica que o esquema estará relacionado com a magia negra e o tráfico de órgãos.

Noutra fotografia vemos a cara de uma mulher escondida por uma moldura com o retrato de um albino.
A mulher chama-se Flávia e o pai morreu com diabetes. "Acontece muito que as campas sejam vandalizadas, retiram os restos mortais e depois vão vender" - foi isso que aconteceu neste caso.

E ali ao lado, a fotografia de um homem com feridas abertas no rosto e a cabeça coberta com gaze
"É o Peter, do Malawi, é muito inteligente, fala muito bem inglês, tem 26 anos, infelizmente tem um cancro e ninguém o trata porque é albino. Uma das coisas que me impressionou é que a carne já está podre e havia um cheiro intenso quando eu cheguei lá", descreve o vencedor do WPP.

Peter, do Malawi, Flávia e Ricardo, de Moçambique, são três das histórias com que Daniel Rodrigues se cruzou. São exemplos que dão rosto à frase "albino não morre, desaparece", associada à profecia que existe naqueles países de que quem tiver parte de corpo de um albino pode enriquecer ou ter sorte na vida.

A exposição vai estar na Galeria Manifesto, em Matosinhos, até meados de Setembro

NOTA DO DR. ALBEE: ACESSE O LINK PARA OUVIR A ENTREVISTA E VER ALGUMAS FOTOS:

sábado, 22 de julho de 2017

SUSTO ALBINO


Jovem é picado por cobra albina dentro de ônibus: 'Susto'


Rapaz ia de Auriflama para General Salgado. Ele foi socorrido até a Santa Casa de Votuporanga, onde ficou em observação e já foi liberado.

Cobra foi colocada em garrafa pet e levada à Polícia Ambiental (Foto: Reprodução/TV TEM)

Um administrador de empresas de 26 anos foi picado por uma cobra albina enquanto viajava de ônibus de Auriflama para General Salgado (SP), na noite deste domingo (16). Segundo o rapaz, que preferiu não ser identificado, ele pegou o ônibus às 20h30 em Auriflama e ia para sua casa em General Salgado, quando sentiu a picada.


"Foi um verdadeiro susto. De repente, quase chegando em General Salgado, senti uma picada no pé. Acendi a lanterna do celular para ver o que era. Quando clareei o chão, vi uma cobra. Ela tinha tamanho médio", conta.

O administrador foi socorrido até a Santa Casa de Votuporanga, onde ficou em observação e já foi liberado. Ele afirma que usava sapato fechado e ainda não entendeu o que fazia uma cobra dentro do ônibus.

O motorista colocou a cobra dentro de uma garrafa plástica e a entregou à Polícia Ambiental de Votuporanga. A polícia também investiga se o réptil era de alguém de dentro do ônibus.

Havia suspeita de a cobra ser venenosa, mas a Polícia Ambiental confirmou que o animal é da espécie cobra do milho snow, e é exótica, mas não peçonhenta.

A empresa Expresso Itamarati, que fazia a linha, disse que vai abrir uma ocorrência para investigar o caso. A empresa também disse que faz a limpeza constantemente nos veículos e que onde a cobra foi achada irá passar por vistoria.

ALBINO GOURMET 235

sexta-feira, 21 de julho de 2017

BEM ESTAR APRESENTANDO RESULTADOS

Uma família de Vila Velha, Espírito Santo, vivia um drama: os pais não sabiam se Arthur, de quase 2 anos, era albino. Desde quando ele nasceu a família aguarda pra fazer simples exames pelo SUS pra descobrir, mas, até então não conseguiram. 
Ao ver a série Invisíveis, do Programa Bem Estar, a mãe pediu ajuda. Eles foram pra Santa Casa em São Paulo e fizeram o exame. 
O resultado está na reportagem do Bem Estar, que você assiste no link:

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PRÊMIO ALBINO

Filme sobre a relação dos albinos com o sol de Cuiabá é vencedor de Mostra Sesc de Cinema
Filme sobre a relação dos albinos com o sol de Cuiabá é vencedor de Mostra Sesc de Cinema
O curta-metragem “Filhos da Lua na Terra do Sol”, de Danielle Bertolini, foi o vencedor de Mato Grosso na Mostra Sesc de Cinema na última semana. O documentário trata a relação entre as pessoas albinas e o sol de Cuiabá.

O anúncio dos vencedores das mostras regionais foi feito no último dia 13 de julho, quinta-feira, em uma cerimônia realizada no Cine Odeon, na cidade do Rio de Janeiro. Ao todo, 34 filmes foram premiados com o licenciamento para exibição pelo Sesc em suas unidades no Brasil e que compõem a primeira edição da Mostra Sesc de Cinema (2016/2017).
 
Danielle concorreu com outros filmes como: “Hirigaray na cidade das artes”, de João Manteufel, “Três tipos de medo”, de Bruno Bini, “Meu Rio Vermelho”, de Rafael Irineu, e outros.
 
De acordo com a assessoria do Sesc, no total foram 1.250 filmes inscritos na mostra e 957 habilitados a participar do concurso. Destes, 640 vieram das capitais e 317 do interior.
 
Além disso, dos 957 filmes, 467 compuseram o programa das mostras estaduais, sendo 424 curta metragens (174 documentários e 250 ficções) e 43 longa metragens (35 documentários e 8 ficções) concorrendo à indicação para seguir no concurso. Cento e vinte e um filmes foram premiados nas mostras estaduais, com licenciamento para exibição no âmbito de seus estados de origem.
 
As inscrições para a Mostra Sesc de Cinema 2017/2018 começam no próximo dia 1º de agosto e seguem até o dia 1º de outubro de 2017. O edital já pode ser acessado AQUI. Mais informações AQUI.

TELONA QUENTE 194

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Roberto Rillo Bíscaro

A Idade Média e a Igreja Católica não infrequentemente são as únicas associadas à caça e morte às bruxas. Embora a Inquisição envergonhará eternamente a Santa Madre Igreja, a Reforma Protestante foi responsável por um banho de sangue e carne queimada em várias partes da Europa, já na Idade Moderna. Dramaturgicamente, os mais famosos julgamentos por bruxaria são os de Salem, cidade norte-americana nas cercanias de Boston. Arthur Miller e Hollywood se encarregaram disso.
Na protestante Europa setentrional, houve ferozes e interesseiras perseguições a hereges, em sua maioria mulheres. Estimativas que chegam a muitas dezenas ou centenas de milhares de óbitos, sem contar as torturas. Na Escandinávia, os julgamentos e execuções de quase 100 mulheres, em Vardø (1621), são o primeiro caso de histeria maciça provocada pelo temor às forças satânicas.
Ano passado, a diretora Saara Cantell tematizou a primeira caça sistemática às bruxas na Finlândia, que aconteceu em 1666, na ilha de Åland, a meio caminho entre o país e a Suécia. Embora na Finlândia a maioria dos condenados por bruxaria tenha sido homens – grande exceção – A Noiva do Diabo apresenta o familiar cenário de mulheres pobres e/ou meio doidivanas acusadas de pactos diabólicos, os quais confessam por livre e espontânea tortura.
Um juiz sueco metido a proto-Iluminista chega à ilha e fica chocado com a fluidez com que a fé cristã se entrelaça com crendices e superstições pagãs. Saber que a Finlândia era famosa em toda a Europa por sua suposta feitiçaria e que pertencia à Suécia enriquecem o contexto interpretativo, pois a caçada aos costumes religiosos não-cristãos também está imbricada em relações colonizador/colonizado, não explicitadas pelo filme. Enquanto Nils Psilander crescentemente acredita e aplica nos indefesos sua vontade de acabar com a corrupção (discurso anticorrupção, flexível trampolim pra arbitrariedade) moral, a adolescente Ana apaixona-se pelo marido duma amiga e não hesita em denunciá-la.
Além da belíssima cinematografia, A Noiva do Diabo se sai melhor na parte histórica, digamos. O roteiro mostra como interesses pessoais, inclusive do clero, conduziam mulheres à m/corte. Papito estupra vigem, daí denuncia como bruxa a mulher que ameaçava denunciá-lo publicamente. Nossa milenar misoginia é escancarada e dói constatá-la.
A parte a que se propõe o título, porém, fica léguas a desejar. Ana e o amante não têm química, porque quase nem aparecem juntos; não dá pra empatizar direito com ninguém e por aí vai. A impressão é que Cantell queria falar sobre a situação sócio-histórica e usou o tal caso como mera desculpa. Se tivesse optado por entregar a alma ao incidente de perseguição religiosa, apenas usando os motivadores das denúncias pra que as entendêssemos melhor, A Noiva do Diabo seria superior e provavelmente teria outro nome.
Como ferramenta pedagógica pra despertar interesse de aluno, A Noiva do Diabo vai além de propiciar óbvio projeto multidisciplinar de História e Geografia. Em tempos onde mídia e redes sociais suspeitam, julgam, condenam e apedrejam tudo na mesma reportagem/postagem, podemos realmente olhar com superioridade aqueles caçadores de bruxas do passado?

A Noiva do diabo consta do catálogo brasileiro da Netflix.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

INCRÍVEL ALBINISMO


O albinismo é causado por uma deficiência na produção de melanina, proteína que dá cor à pele e ao cabelo - e protege contra a radiação ultravioleta. Sem ela, os albinos apresentam pele extremamente branca, olhos e cabelos claros. 

Essa condição pode provocar doenças na pele e deficiência visual. Além de afetar todas as etnias do mundo. E acredite, até animais e plantas podem ser albinos. 
Ficou surpreso? E olha que só estamos começando.
Esses são os 5 fatos incríveis sobre Albinos.

CONTANDO A VIDA 196

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DE PASSAGEM PELO ISLAMISMO.

Como sempre, andava atarefado com afazeres atrasados. Na correria comum a professores em fim de semestre, não tive tempo de me preparar como gosto para longa e acalentada viagem, e olha que se tratava de uma experiência importante em minha vida. O destino marcado era a terra de meus pais, o Líbano, para onde eu iria em busca de reconhecimento de familiares e melhor compreensão de uma cultura que, apesar de ter crescido com, me parecia distante, talvez distorcida ou quiçá desatualizada. Nem sei dizer por que demorei tantos anos para tomar a decisão de, finalmente, me dedicar à busca de minha própria identidade.

Foi agradável surpresa saber que a passagem para Beirute daria direito a uma parada em Dubai, nos Emirados Árabes. Aceitei a proposta como presente complementar. Antes, devo dizer que havia estado em Dubai, de passagem, há uns dez anos, mas numa situação deveras complicada, pois houve enorme desacerto na conexão que faria no Cairo, a caminho da Índia, e acabei por perder três dias preciosos. Apenas dormi na cidade do pouco que vi, não me lembrava de praticamente nada. Além disso, meio sem querer, entrei numa dessas discussões das redes sociais e me vi convidado a tomar a defesa de grupos islâmicos que, sempre, acabam condenados a generalizações. Mesmo sendo contra querelas eletrônicas, coletivas e indiretas, no caso, por se tratar de interlocutora querida, e por portar conteúdo preconceituoso, delicadamente objetei. Isso, contudo ficou em minha cabeça e já no avião, insone, retomei o caso e me propus verificar, nos limites de cinco dias de turismo, como veria a situação.

Dubai me foi revelação absoluta. Mesmo preferindo cidades que se constroem com o tempo e com as contradições inerentes ao mundo tradicional exposto à modernidade, fiquei deslumbrado com o que se abria a cada passo. E não poderia ser de outra forma, pois um país de apenas 44 anos de vida, e com uma população nativa de apenas 2 milhões de pessoas, teria mesmo que se preparar para receber outros 7 milhões de imigrantes. Pronto, bastaria esse enunciado para ferver minha curiosidade: como se daria o encontro de tantas culturas em um país oficialmente mulçumano? Devo lembrar que só naquela cidade existem mais de 150 nacionalidades e que, para citar um exemplo, a comunidade indiana sozinha é representada por cerca de 400 mil pessoas.

Diria que cumpri um programa corriqueiro. Passado o tempo de ajuste de 7 horas de fuso horário, fiz um tour pela cidade, no outro dia fui a Abu Dabhi, pois queria conhecer a magnífica mesquita e ter a dimensão do progresso permitido pelo petróleo; em seguida, um dia inteiro no deserto, e outro mais para a visita ao maior edifício do mundo e algumas compras. Durante todos os trajetos travei contato com pessoas diferentes, não apenas turistas. Chamou-me a atenção a variedade de aspectos, em particular das vestimentas. Mulheres com burca, chador, homens com as mais variadas soluções de roupas, todos convivendo aparentemente bem com os modos ocidentais em shorts, bermudas, chinelos. E não poderia ser de outra forma, para um país que quer se distinguir no manejo do turismo globalizado. Ironicamente, em minha cabeça retraçavam-se alguns dilemas: avesso da reputação de invasores, nos Emirados o que se via era o oposto, ou seja, os estrangeiros “invadindo”. E como ficava então o caso da “intolerância”, pois lá via-se de tudo. 

Creio ser dispensável dizer da qualidade da comida. A culinária internacional concorria (com desvantagem) com a árabe, mas isso se tornou detalhe. Realmente me impressionou a higiene dos espaços públicos. Sei que a cultura islâmica é bastante severa com a limpeza, e que o asseio absoluto faz parte de todos os rituais cotidianos. Entra-se em casa sem sapatos, lava-se a mão com frequência, ingere-se hortelã para a limpeza dos dentes. Tudo isso eu sabia, tendo aprendido em vários países de cultura islâmica. O que representou novidade, foi o acatamento do diferente: respeito como nunca vi.  Delicadeza exagerada e simpatia de sobra, em cada gesto singular. Procurei conversar com pessoas sobre o assunto, e as respostas sempre levavam para o mesmo ponto: a leitura do Corão. Nada a ver com interpretações vulgares de quantos ouvem notícias sem entendimento e conferem ao islamismo a pecha de “fanáticos” ou “terroristas”. Nada a ver com o islã que reza, que aceita o outro e nos surpreende.

Dói ver a ignorância sobre o oriente em geral, mas particularmente sobre os mulçumanos. Imagine, por exemplo, que no mesmo país, ante mulheres cobertas por vestes pretas e sem mostrar sequer os cabelos, a dança do ventre tem lugar de maneira espetacular e pública. E que dizer das campanhas em favor da concórdia mundial? Nos corredores dos shoppings sempre se veem campanhas em favor de crianças africanas ou das pesquisas contra o câncer. E tudo com naturalidade. Intriga o reverso disso, pois, afinal, por que tanta divulgação e agressividade contra eles? Como suportar o simplismo implicado da hipótese de que todos são potenciais Bin Laden?

Vamos a um pouco de História. Quando no ano 711 os árabes invadiram a Península Ibérica, programou-se uma reação memorável que resultou na definição de Portugal e Espanha como os primeiros estados modernos. Iniciava-se assim o estabelecimento de uma linha divisória calcada na intolerância, fixada pela fronteira religiosa. Então, cristãos se portavam com judeus, ciganos e islâmicos. O xenofobismo, séculos afora, cresceu junto com a determinação dos estados nacionais, mas, paradoxalmente hoje, em plena globalização, ainda assistimos pessoas clamando a discórdia em nome da defesa da pátria e de supostos religiosos. Duas indagações se constroem: 1- por que se estabelece uma imagem generalizada, negativa, de um bilhão e seiscentas mil pessoas – a segunda maior unidade religiosa do planeta – em detrimento de grupos minoritários? Qual razão explica o fato de pessoas que nunca leram o Corão serem levadas a reduzir tudo a vingança e violência?


De passagem pelo universo islâmico, aprendo ver o mundo por outros olhos. Aprendo também a perceber a fragilidade de nossos conhecimentos de um mundo que ignoramos e que, exatamente por isso, refutamos. Não gosto de supor as contradições da globalização, pois ao mesmo tempo em que se internacionaliza o capital, gera-se exagerado preconceito contra o outro. Afinal, diferentes somos nós, ou eles?

terça-feira, 18 de julho de 2017

PANORAMA ALBINO DE ANGOLA

Guilherme Santos é ligado ao movimento em prol das pessoas com albinismo, em Angola. Em ocasião do Dia de Conscientização Sobre o Albinismo, ele escreveu um texto sobre a situação dos albinos de seu país e resolveu compartilhá-lo conosco. 
Valeu Guilherme! 


Os albinos de Angola - avanços, recuos e ausências
Por: Guilherme Santos
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12 de Junho de 2017

13  de  Junho, DIA DE CONSCIENCIALIZAÇÃO SOBRE O ALBINISMO, proclamado pelas Nações Unidas faz dois anos. Existem três dificuldades principais que as pessoas com albinismo passam:) a sensibilidade da pele por falta de melanina que a protege e, por via disso, susceptível ao cancro da pele; ii) a baixa visão ou subvisão que condiciona o seu desenvolvimento intelectual e social; iii) os preconceitos, tabus e estereótipos negativos em relação aos albinos/as, e que são fatores inibidores ao desenvolvimento emocional e efetivo de albinos/as.

Desde a comemoração do Dia 13 de Junho do ano passado, qual é o balanço? Dentre outras, a visibilidade mediático e partilha nas redes sociais sobre o albinismo mantém-se e é algo útil que contribui para superar crenças negativas profundamente enraizados nas sociedades, nos grupos, nas instituições, nas famílias e nos indivídus. Tem havido mais pesquisas e estudos  académicos cujos resultados são pouco divulgadas e debatidas. É objectivamente observável, e cada vez mais, que pessoas com albinismo se destacam na sociedade e, são figuras notáveis com protagonismo público, desde jornalistas e outros profissionais, académicos, parlamentares e candidatos a deputado, tecnocratas, directores, líderes de organizações sociais, etc. Aparentemente, os níveis de auto-organização de pessoas com albinismo está a crescer, mas há uma variabilidade grande a tomar em conta de lugar para lugar. Conheço e participo em Grupos de Ajuda Mútua (GAM) de albinos/as em Luanda, no Uíge e no Lubango. No Uíge há pequenas iniciativas de intermediação em que pessoas vuneráveis com albinismo são encaminhadas à Luanda para fazer consultas da pele ou da visão com apoio de familiares e de voluntários albinos e não albinos. Ainda no Uíge está em curso o diagnóstico da vulnerabilidade e riscos, no quadro da Municipalização da Acção Social do Governo de Angola que inclui uma abordagem sobre albinismo.

A Associação de Apoio de Albinos de Angola (4As) está a fazer acordos com casas de óptica, em vista à saúde ocular de albinos/nas para terem acesso, qualidade e desconto dos serviços clínicos de oftalmologia e serviços técnicos de optometria e aquisição artigos ópticos.  Os artigos ópticos albinos são caros e a maior parte das famílias não aguenta.

Foram criados mais Núcleos Provinciais da Associação de Apoio de Albinos de Angola (4As), todavia, em termos estruturais, organizacionais e institucionais a Associação ainda é incipiente, ademais, somente com quase 4 anos de existência legal. Aparentemente, o movimento em prol ao albinismo está a perder vigor e vibração. Por exemplo, o Grupo de Contactos de Alto Nível constituído por pessoas com albinismo que são notáveis na sociedade, praticamente deixou de ter acções enquanto grupo.  Porém, estão a surgir outras inicitivas e dinâmicas sociais e organizativas. É assim que se perde de um lado e se ganha do outro.

Em algumas capitais provinciais (menos de metade no país) há condições de serviços públicos de assistência em dermatologia e, lá, médicos, enfermeiros e outro pessoal de apoio em hospitais fazem tudo para salvar vidas de albinos/as com doenças evitáveis. É preciso discutir, aprovar e desenvolver políticas públicas, prática e investimento focalizado na prevenção para reduzir ou parar com mortes de gente na flor da idade. Ademais, além da prevenção, é também necessário a protecção que ajuda a salvar, bem como a promoção que poderia aumentar e ampliar a inclusão de pessoas com albinismo.

Conheci pessoalmente alguns albinos/as que pereceram nos últimos dois anos em Luanda, entre outros, a Suzana dos Gambos/Huíla, de 22 anos de idade, o Benedito do Luena, de 28 anos de idade, o Nzambi do Saurimo, de 27 anos de idade, a Paula do Rangel, o Varela do Cuanza Sul, o Isaac Ngola César, todos muitos novos de idade. Os protetores solares são caríssimos ao bolso das pessoas com albinismo. Mesmo os que têm algum rendimento não é possível manter um nível regular do uso de protetores solares.

Sabe-se que existem crenças em algumas partes do continente africano que se acredita que partes de corpos de albinos são peças preciosas para a prática de magia e são em lugares como a Tanzania e norte de Moçambique há relatos antigos e recentes destas prática.

Entretanto, seja no global ou local não existem estratágias também globais para lidar com este drama de seres humanos que são caçados para fins obscuros. É preciso resitir contras estas indiferenças e resistências em não acelerar processos concretos para lidar de forma estrutural com os problemas complexos e complicados que os albinos/as anfrentem, sobre tudo os mais vulneráveis.  


Ainda vamos a tempo!

TELINHA QUENTE 268

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Roberto Rillo Bíscaro

Você sabe que está vendo TV escandinava demais pra padrões sul-americanos quando, mesmo sem entender os idiomas, pressupõe que uma personagem numa série dinamarquesa é, na verdade, sueca, apenas porque falou um monossílabo que você sabe significar “legal”, de tanto que Saga Norén usou nas 3 vezes que você viu as 2 temporadas iniciais de Bron/Broen.
Isso aconteceu enquanto via a primeira temporada de Bedrag (2016): já percebera que o ritmo de fala do coroa barbudo e do mal era distinto dos demais personagens, mas quando ele soltou um “bra” até a cara dele me pareceu realmente sueca. E era mesmo. Ainda bem que já saquei faz tempo que os 2 países são rivais pra aproveitar mais a ironia de ter um matador de aluguel sueco numa série dinamarquesa. Mas, nesse caso, os dinamarqueses não têm muito do que se orgulhar, porque Bedrag tá repleta de gente sem escrúpulos de colarinho muito alvo.
A BBC facilitou muito a vida de quem quer ver TV “diferente”, quando passou a importar massivamente da Noruega, Islândia, Suécia, Dinamarca e agora até da Bélgica. Se pelo menos você lê inglês, já tem repertório bem maior pra ver. Bedrag significa ilusão, mas os ingleses decerto evitaram o título Deception pra não dar ideia de soap, então chamaram-no de Follow The Money.
Prefiro referir-me à produção como Bedrag, mas o título em inglês ressalta bem o caráter de ciranda financeira, que é esse thriller que se pretende ‘sério’, mas é soap na alma e nos muitos furos – quase absurdos por vezes – de roteiro. Importante situar que não estamos no altíssimo nível de Matador, Borgen ou Forbrydelsen. Mas também não é má TV como a Deception ianque; dá pra ver e melhora a cada episódio, até a conclusão absorvente.
A dezena de capítulos da primeira temporada centra-se na Energreen, produtora de energia renovável, grande orgulho da Dinamarca, o “país do vento”. A energia pode até ser limpa, mas Alexander Sødergren, o CEO que tem tapete de pele de animal em sua sala minimalista (viram como ele é malvado?), é mais sujo que pá de lixeiro. Ele tem Claudia Moreno e Ulrik pra ajudá-lo corporativamente e O Sueco pra limpar obstáculos físicos. A morte dum empregado ucraniano leva o detetive Mads Justesen pro caso. Aos poucos, descobrimos ramificações, falcatruas, propinas e até uma história semiparalela de núcleo pobre (bem coisa de novela), que também persegue o dinheiro e se conecta com a trama corporativa.
O interesse aumenta progressivamente e no fim dá até pra se divertir bem, o problema é que o roteiro deixa suas tosquices muito explícitas e é fácil de ser implodido/atacado. Num dia, Mads está em blitz pra checar bicicletas (a ação se passa em Copenhague), no outro no esquadrão de fraudes, investigando e opinando dentro do altamente especializado mundo das finanças. A polícia dinamarquesa não tem treinamento? Transferência é assim, num estalar de dedos? Tio quer fugir em jatinho particular e ilude a polícia no trânsito a caminho do aeroporto. Polícia desespera. Não tem celular e agentes da polícia federal no aeroporto pra barrar essa maldita aeronave? Até no Burundi deve ter, roteiristas, assim fica difícil defender. Será que na reservada Escandinávia um colega de trabalho de pouco mais de uma semana já vai morar na casa do outro porque a esposa chifrou? Acho que até no nosso falacioso Brasil cordial isso é improvável.
Se há indivíduos que passam o tempo observando e anotando a numeração de trens, deve haver quem preencha o tempo pegando furos de roteiro. Berdrag é uma peneira. Isso a coloca na categoria soap financeira. É legal, mas é caca.
No fim das contas, a personagem mais interessante é o sueco barbudo, que merecia um Nordic Noir só dele pra o conhecermos melhor. E não é que ele é Claes Ljungmark, meu amado Viggo Norlander, de Arne Dahl?!
A segunda temporada, também de 2016, atendeu meus desejos e aprendemos até o nome do sueco, lá pela reta final da dezena de capítulos.
Um ano e meio após o escândalo da Energreen, a divisão de crimes financeiros depara-se com fusão bancária, que esconde plano bem mais diabolicamente ambicioso. Bedrag mais over do que antes em todos os aspectos: mais violenta; a história financeira é ainda mais mirabolante e a motivação por trás da maquiavelice toda é digna de roteiro de soap. Por ser mais exagerada – dentro da moderação dinamarquesa, assista pra entender – é mais divertida que a primeira.

Exceto por Claudia Moreno, as demais personagens não nos apresentam novas facetas. O Sueco continua mal pra diabo; Nicky vai se envolvendo tanto com a violência do chão de fábrica pros capitalistas banqueiros que desencadeia uma bola de neve de tragédias pessoais; Mads está há mais de um ano naquela divisão superespecializada e apresenta o mesmo nível de expertise da temporada inicial. Ou seja, quem curte incongruências roteirísticas, siga Follow The Money.  

Já que citei Claes Ljungmark, não sacanearei outro amado, o dinamarquês Waage Sandø, esquecendo-o. O Kaj Holger, de Kroniken, está ótimo como o vilão capitalista Knud Christiensen, com seu estapafúrdio motivo pra destruir a economia de seu país.
Pelo jeito do final, que meritocraticamente premia e pune cada personagem, não deverá haver terceira temporada, porque não sobraram fios soltos.
Se há alguma “lição” a se extrair de Bedrag, é a de que não existe capitalismo bozninho.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

CAIXA DE MÚSICA 274 (ALBINA)

Hermeto Pascoal: A MPB "precisa voltar a jogar bola"


por Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches — publicado 09/07/2017 00h30

Com 81 anos de criatividade, o instrumentista-inventor lamenta o comercialismo de Tom Jobim, Gilberto Gil e Fagner

Em tom de brincadeira, mas com um leve fundo de verdade, o albino Hermeto Pascoal reclama de ter de trabalhar demais no dia de seu 81o aniversário. Nesse 22 de junho, o alagoano de Lagoa da Canoa que ganhou o mundo como instrumentista-inventor de jazz (ou de música universal, na denominação que prefere) concede entrevista a CartaCapital antes de fazer show paulistano no Bourbon Street.

Sem demonstrar cansaço físico nem menos ainda mental, prepara-se para lançar, pela primeira vez, um registro em disco com uma banda de jazz, Hermeto Pascoal e Big Band, pela Natura Musical.

Numa conversa concisa de menos de uma hora num hotel paulistano, Hermeto fala da condição de albino que não enxerga muito bem, como o classificou um dos compositores baianos um pouco mais jovens com quem guarda relação de afeto e de alguma competitividade.

Descreve como enxerga a situação política de “mundo virado” dos dias atuais, mesmo após ensaiar se esquivar do tema, afirmando que sua única política é a música, com o forró como matriz. Fala da teimosia da lenda brasileira Tom Jobim, menor que a de Hermeto, e defende a lenda norte-americana Miles Davis, que lhe teria surrupiado as composições Selim, Nem um Talvez e Igrejinha (essa sob o título Little Church), em 1971. 

CartaCapital: Você conheceu músicos albinos pelo mundo afora?

Hermeto Pascoal: Não, nenhum. Conheci o Sivuca, né? Quem quiser ver muito albino no Brasil tem que ir a Caruaru. Na Rua Preta 90% são albinos. Quiseram criar uma coisa meio preconceituosa, como se o albino tivesse sofrimento só porque é albino.

Para ser feliz e para sofrer não tem cor. Meu corpo ser assim para mim é uma dádiva também. Meu carma na Terra que Deus me deu é ser assim, e estar falando com vocês agora, com meus 81 anos, que é pouco. Eu acho, modéstia à parte, que pessoas como eu, que fazem muita coisa aqui, deveriam viver muito. O ser humano não devia viver menos de 200 anos.

Muitos, com 70 anos, já começam a ficar debilitados. O cara parece que já começa a pagar os pecados porque fez uma coisa linda pelo mundo. Isso acontece com religiosos, com todo o mundo. Já falei com Deus, ele me disse: “Olha, antes de você vir para cá já vou garantir, só não posso te dar jeito agora porque o teu carrinho tem pouco tempo aí...” “Mais 50 anos?” “Não, 40.”

CC: Como é Deus, Hermeto? É albino?

HP: Deus é tão maravilhoso que ele é como a gente imagina. É mentira que Deus é uma fisionomia só. Existe a cor, existe a diferenciação de pessoas. Mas ele diz logo: chamem vocês aí de diferente, mas o meu diferente é semelhante, é a semelhança.

Se a gente vivesse 200 anos, ia dar tempo até para acertar o errado de tudo. Ou quem não acertasse ia pegar mais anos de carga, ia sofrer mais e envelhecer também. Essa é a vida.

CC: Nos anos 1960, você foi tocar para a Rhodia, e dizem que não quiseram que aparecesse junto aos outros artistas por causa da sua aparência, por ser albino.

HP: Foi, foi. O rapaz que era presidente da Rhodia hoje já está lá onde Deus quer, não vou dizer o nome dele porque ninguém conhece, não adianta. Estava lá tocando com Geraldo Vandré, com o Trio Novo. O Quarteto Novo nem estava formado.

O pianista Cido Bianchi é que trabalhava na Rhodia e convidou essa turma, Airto Moreira, e eu fui convidado também. Mas, quando o rapaz me viu, disse que eu era feio, destoante para o desfile. Para resumir, eu toquei e ele acabou consentindo. Eu vestia as roupas e esse cara começou a se agradar do meu jeito.

Eu tinha o cabelo compridão, chego na Rhodia, vem convite para eu ser o quê? Modelo da Rhodia, meu amigo. O que você diz disso? Aí já notei que veio o lado “abichaiado” (risos). Abichaiado, que eu falo, não estou criticando os bichas, não, sabe? Eu só não dou, mas eu tenho um pouquinho também de bicha.

Veio ele pessoalmente e me pediu desculpas pelos mal-entendidos. Para ele era um mal-entendido. Aí eu digo: “Não, que é isso? Eu me amo. Eu me amo, eu me amo, não adianta me falarem nada”. Claro que não aceitei, eu não tinha tempo, estava na fase jovem, na fase de estudar e tocar mais, já com meus filhos e tudo. 

CC: Contam que nos Estados Unidos começou a tocar Tom Jobim no som ambiente, Garota de Ipanema, e Tom falou para você que não aguentava mais ouvir Garota de Ipanema. É verdade?

HP: É. Eu fiquei surpreso, porque ele estava no auge. A bossa nova estava no auge. Para tocar em elevador é porque a música fez sucesso. Eu ia subindo no elevador com ele, fui para tocar uma flauta baixo no disco do Tom.

Quando vejo ele tira aquele chapéu dele, nervoso, nervoso mesmo. A intenção que ele tinha da bossa nova era de que ela fosse uma música num nível de estar tocando nos teatros. Mas aí os culpados maiores são os parceiros dele, não era ele.

Tom falou no elevador, para uma das pessoas que sentiam a música, que era eu: “Eu queria fazer um som parecido como aquele do Quarteto Novo”. Ainda bem que o elevador demorou, eu gostei, pude dizer assim para ele: “Você mora nos Estados Unidos.

Airto Moreira, Flora Purime e Hermeto, exilados nos EUA (Foto: Hulton Arhive/Getty Images)

Uma experiência que tenho, quando saio do Brasil, é que, se eu demorar dois meses fora, já começo a sentir falta. Agora, Tom, quando a gente fala Brasil, a gente fala no povo”. Ele queria evoluir mais, como eu fiz com o forró. Forró não é um ritmo só. Forró tem variedades. O forró que nós falamos é no sentido de chamar uma pessoa para a festa, para a farra. Mas aí criaram um estilo de música e botaram esse nome de forró.

É bonito o nome, o estilo, mas que não seja uma coisa só. Por exemplo, eu fiz um disco de forró, já faz um tempo, vai ser lançado logo, logo. Você vai escutar meu disco de forró, tem chorinho, maracatu, frevo, tem de tudo, porque tudo é forró. Jazz, clássico, todos os estilos eu toco, sem preconceito nenhum.

É uma mistura que eu chamo de música universal. No comecinho, eu já comecei a incendiar o forró com a flauta, com Edu Lobo, no Ponteio (do Festival da TV Record de 1967). O Edu não fez música pronta, ele fez uma música, uma letra bonita, e nós ganhamos o festival, mostrando sem palavras, na prática. Para o público não precisa mostrar nada, o público está aberto. O público é o deus da música. 

CC: Você abordou levemente a questão da morte, de viver 200 anos. Chegou a tocar com Belchior?

HP: Não. Tive um convite uma vez. Me ligaram, tinha uma turma do Ceará que queria falar comigo. Era uma turma nova, ninguém tinha nome ainda. Marcaram, foram. Aí foi que conheci o Fagner, o Belchior.

E para que eles foram lá? Você vê o que é a meninada, né? Foram lá para a gente fazer uma onda, competir, como se fosse um tipo de competição, claro que sadia, musical, com os baianos, com a onda que estava dos baianos. Eu nunca acho que música é moda. A música, para mim, está em todas as modas, em todos os contextos.

Eu digo: “Não, eu agradeço muito a vocês”. É aquela história, quando você convida uma pessoa para fazer uma coisa, ela tem o direito de querer ou não, né? E tem que ser sincera também. Ficamos amigos, eu não quis porque estava com essa ideia do meu grupo, que é o que estou fazendo hoje.

Eles aí continuaram, e tudo bem e, quando foi daqui a uns tempos, o Fagner me convidou para fazer os arranjos do disco com nome Orós (1977), antológico. O difícil do músico é segurar a qualidade da música.

Não é que ele não segurou, é que ele ficou mais comercial. Não estou criticando, gente, estou sendo amoroso, estou sendo de pai para filho. Os produtores induzem, a coisa que eu tinha mais medo era quando eu via o produtor se aproximando de mim.

Tinha produtor que dizia que eu podia, em 15 dias, ter o grupo mais famoso do Brasil. “Só que tem umas coisinhas que eu queria te pedir, Hermeto. A roupa, esse jeito do grupo se vestir... E a música, para você maneirar um pouquinho, tocar uma música mais simples.” Como quem diz “toca brega”, né?

Quando o cara fala isso para mim ele está praticamente ofendendo a minha mãe. Não adianta, ninguém tirou e ninguém tira a minha maneira, o meu ser. Eu não premedito, eu sinto. E sou 100% intuitivo.

CC: Com 8 anos, quando começou a tocar, você já era assim?

HP: Com 8 anos. Quando saí de casa, no bom sentido, quando fui embora para o Recife, com 14 anos, muita gente pensa que minha mãe e meu pai ficaram chorando. Mas eles confiavam naquela coisa espiritual, lá do interior.

Mamãe dizia: “Meu filho parece um homem”. Assim mesmo. Sempre fui brincalhão, aí, quando cresci, ela dizia, com seus 86 pra 87 já: “Mas, meu filho, nunca vi você ser homem” (risos). Eu, para brincar com ela, digo: “Mãe, a senhora não tem os seus netinhos já? Como a senhora diz que eu não sou homem?” “Não, meu filho, eu estou dizendo isso porque você brinca muito, desde quando era pequenininho.”

Eu não sinto a diferença da minha idade. Não sinto, não é porque não quero, é porque não sinto mesmo. Minha avó dizia: “Meu filho, os dias são iguais perante Deus”. Como se Deus cometesse uma gafe dessas.

E eu, pequenininho, já sorria, já era “ironiquinho”. Se eu souber como vai ser meu show hoje, para mim, não é novidade. Nem vou. Quero viver o agora, o hoje, meu amanhã é hoje, sempre. Se eu morrer, vou morrer hoje. No dia que eu morrer é hoje.

CC: Você já ouviu Hermeto no elevador? Ou no rádio, no táxi?

HP: Não, porque a imprensa não tem gabarito para isso, não tem alcance. Eu não estou ofendendo a imprensa, estou sendo sincero. A imprensa devia se sentir envergonhada, como é que eu loto teatro mais do que muita gente?

Já estive em teatro com o meu amigão Gilberto Gil assistindo ao meu show, de eu chegar e Gil sentado, e eu sabia que ele tinha um show no mesmo dia.

Estou lá tocando, olho, vejo o Gil, ele já sabe que eu não enxergo, né? “Ih, rapaz, você aqui?” Ele disse: “Não tinha ninguém lá no meu, tinha pouca gente, não teve o show, vim assistir ao seu”. Olha que humildade, que pessoa maravilhosa.

Não falei na imprensa generalizando, falei naqueles que sabem muito bem o que não fazem para a música. A carapuça que caia.

CC: Você falou que não enxerga, mas enxergou o Gil. Quanto enxerga ou não?

HP: Não, eu enxergo, eu enxergo pouquinho. O Gil estava perto. O Gil é muito musical. Por isso eu não perdoo os músicos que têm a musicalidade e não exploram. Rapaz, o Gil, no tempo da Record, você precisava ver o Gil tocar violão.

Depois eles formaram uma música para fazer sucesso, tudo bem, mas que continuasse com aquele nível. Gil é um músico maravilhoso. Só que na prática é igual a um grande time de futebol que não está jogando bola. Precisa voltar a jogar bola.

Com o mestre paraibano Jackson do Pandeiro (Foto: Facebook/Hermeto Pascoal)

CC: Quando Caetano fala de “hermetismos pascoais”, ou “o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem”, ele se refere à sua música como hermética, como uma música difícil.

HP: Genial, é outro poeta maravilhoso. O Gil e o Caetano, eles representam demais. São os baianos. O Sivuca até dizia para mim: “A Bahia é a África brasileira”. Ele achava isso. 

CC: A bossa nova tirou a sanfona da música brasileira. Portanto, tirou o forró?

HP: É, para você ver como é que pode... Você acha que um Tom Jobim ia ter uma ideia dessa, um genial músico que era o Tom Jobim, para achar que uma sanfona não pode tocar qualquer música?

Não digo levado, ele foi educado pelos produtores, que queriam fazer as coisas mais comerciais. Foram eles que levaram o Tom a ser educado. O que tinha ao redor, para ele se firmar cada vez mais, não estava à altura dele. Ele não era assim como o Hermeto, teimoso. Tom era mais educado do que eu. Por isso ele cedeu.

CC: O que está enxergando da atual situação política do Brasil. Já tinha visto, na sua vida, um período como este?

HP: Não, com 81 anos eu nunca vi falar. E eu me lembro que alcancei o tempo da ditadura. Era o tempo que eu estava assim num lugar, por exemplo, tocando na Argentina, para ir pro teatro tinha que passar pelos lugares com mandado. Como aqui no Brasil. Aquela época era ruim, coitados dos caras que morreram, que mataram.

Aí não vou nesse assunto, porque a minha política, digo sempre, é a música. Não me meto em política, mas eu sou um cidadão também. O que eu sinto é que o mundo está virado, cara, não é só aqui, não. É no mundo inteiro. Não é normal o Brasil ser esse país que é, com essa beleza, ser um dos países mais duros do mundo.

Quem guarda dinheiro, para mim, não demora, demora, mas vai ser guardado. Dinheiro é uma doença. Como é que o cara é tão bom, estuda, se forma, e guarda bilhões, sabendo que não vai viver 100 anos? Se fosse pra gastar, mas ele nem vai poder gastar. Mas eu achei, mesmo assim, que está melhorando, pelo menos aparentemente.

Estão descobrindo os nomes. Só que, quando descobre o nome de uma pessoa, aquele que descobre também vai depois. Eu acho que ele fez isso exatamente pra se encontrar depois, “pode deixar que eu estou indo também”. Porque todo mundo sabe o que fez. 

CC: Miles Davis nunca deu o crédito de Igrejinha para você, ou deu? Airto Moreira falou que era sua.

HP: Houve uma onda lá... Airto falou, mas eu não falei, eu não confirmei. É só pedir as provas para o Airto, pede para ver se ele dá as provas. Eu defendo o Miles, porque conheci pessoalmente. Miles era rico, não precisa de dinheiro.

Sabe o que eu fiz para acabar com a festa? Eu tinha umas 4 mil músicas, pedi para dizer para o advogado: “Olha, essas músicas eu tenho, se Miles Davis quiser... Doutor, não é por causa de duas músicas. Se eu, dono das músicas, não estou brigando, quem quer dinheiro? Eu não quero”.

CC: Herbie Hancock e Wayne Shorter entraram com uma ação.

HP: Sim, mas eu não pedi. Eles tinham raiva do Miles, sabe por quê? Ele gravou uma música popular mexicana e botou no nome dele. Era um cara tão desligado, assim como eu, a gente que é músico de verdade não liga pra dinheiro.

Eles queriam fazer uma onda, como já sentiram que eu estava sendo muito forte nos Estados Unidos. Tanto é que, agora, vocês têm que me chamar de doutor. Como brasileiro, ganhar um prêmio desses nos Estados Unidos, não é qualquer um.