sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

BATE, CORAÇÃO

Tartaruga albina nasce com o coração batendo para fora do corpo

Condição do pequeno réptil é tão rara que os médicos veterinários não deram uma denominação específica para a anomalia



Hope ("Esperança", em português) é uma tartaruga que nasceu em novembro de 2018 com uma característica diferenciada: o coração fora do corpo. Nascida em Nova Jersey (Estados Unidos), a tartaruga também é albina, o que a torna "raríssima". Ela foi adotada no final de 2018 por Mike Aquilina, um apaixonado por animais aquáticos. 

Em entrevista ao jornal americano Daily Mail, Mike explica que a tartaruga tem sido criada separada de outros animais por conta da sua condição física. Ele teme que o contato com outros bichos possa perfurar acidentalmente o coração dela.

"Eu mantenho a água dela a mais limpa possível, dou a ela uma área de descanso que é a mais macia possível e mexo nela o mínimo que eu posso. Fui de uma abordagem mais natural a uma completamente estéril. O objetivo é manter a deformidade dela limpa e o sistema imunológico forte", disse.

Mike disse ainda que não há planos para a correção da deformidade, mas destacada que o animal é motivo de inspiração.

"Ela é tão pequena e frágil, a coisinha mais delicada, mas ela é destemida. As pessoas conseguem ver isso e ela tem muitas pessoas torcendo por ela mundo afora. Ela está espalhando esperança enquanto me dá esperança. Hope mudou minha vida para melhor em muito pouco tempo."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

TELONA QUENTE 276


Roberto Rillo Bíscaro

Talvez porque fosse adaptação de consagrado livro de H.G. Wells, The War of The Worlds (1953) foi produzido pela major Paramount Pictures, com orçamento milionário. Mas, como era ficção-científica, o elenco ainda é B, ou muita gente realmente se lembra de Gene Barry e Ann Robinson? Isso não depõe contra o filme, apenas atesta pra posição secundário que ficção-científica e horror sempre tiveram em Hollywood e que repercute até hoje na recepção dessas narrativas por setores (que se sonham) mais intelectualizados.
Um dos mais influentes e elogiados filmes sci fi cinquentistas, A Guerra dos Mundos (AGDM) ainda se sustenta bem em várias partes, fazendo jus ao Oscar de efeitos especiais, que ganhou.
Os marcianos invadem a Terra, porque seu planeta está morrendo, mas não previram que ao invadirem nosso habitat estariam expostos a micro-organismos pros quais nós já estamos imunes.
Esse arquétipo de Davi e Golias tira qualquer possibilidade de agência efetiva por parte da espécie humana – sabe aquela história de “a gente não é nada mesmo!”? Mas, enquanto em Wells a ênfase era bem biológica, no filme de George Pal os termos são praticamente religiosos, de milagre divino agindo através de micróbios. Nada surpreendente na década em que Billy Grahan arrastava multidões até na anglicana e supostamente gélida Inglaterra. Quem dirá nos sempre carolas Estados Unidos.  Nos termos do filme, Deus permitiu que o planeta todo se ferrasse, inclusive boa parte dos EUA, antes de atender às preces numa igrejinha de Los Angeles, parece que a única digna de salvação. E depois somos todos iguais perante o Criador, certo? Certo, mas se você estiver perto de Hollywood é mais igual!
Qualquer um que tenha passado a infância/adolescência vendo TV nos anos 70 e 80 reconhecerá como o barulho das armas marcianas foi usado em incontáveis filmes e desenhos animados a ponto de se tornar quase convenção. Quando imagino raio desintegrador, o barulho é o de A Guerra dos Mundos.
Houve diversas releituras da obra de Wells, inclusive uma de Spielberg, estrelada por Tom Cruise, em 2005. Nunca me interessei em ver nenhuma que não fosse essa de 1953.
Ah, e vejam como os olhos-câmera dos marcianos pré-datam o layout do jogo de memória oitentista Genius!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

CONTANDO A VIDA 266


É PROIBIDO GARGALHAR, RISADINHA PODE, MAS...


José Carlos Sebe Bom Meihy


Lembro-me com nitidez do conselho ouvido quando ainda era menino e queria escrever como gente grande. Explicava o saudoso professor que todo texto bom deve “fisgar o leitor pelo título”. E quantas vezes não compramos livros ou lemos um artigo por essas indicações? Tudo ganha ainda mais sentido e demanda especial cuidado ao se tratar de assuntos sérios, tristes, sisudos, ou de impacto social dramático. Meio atordoado, já crescidinho em termos de redação para público amplo, retomo aquelas dicas, tendo em mira declarações de pessoas que dizem “pois é, o título prometia”, “comecei ler, mas...”, ou ainda, “o título diz uma coisa, mas o texto fala de outra”. Frente a tais supostos, a responsabilidade em dar bom nome aos escritos aumenta muito, e o estabelecimento de uma lógica entre o título e o conteúdo, entre a provocação e o argumento deve marcar a fluidez de uma proposta. Em termos de crônicas, isso é vital, pois os espaços reduzidos exigem costura fina.

Pois bem, resolvi abordar algumas loucuras do discurso político brasileiro atual assumindo um mar de preocupações ameaçadoras (tive cuidado com a metáfora, pois quase disse “mar de lama”, de tal forma estou tomado pelo inaceitável impacto da catástrofe ambiental de Brumadinho). Assim, os ensinamentos daquele tempo de estudante, agora, recobraram sentido em minha cabeça, quando pensei tanger o tema desta crônica atenta aos limites do riso X tragédia. É que pretendi trançar fatos explícitos da desgraça nacional com interpretações políticas exaradas de autoridades que se dizem competentes – algumas, aliás, falam até em nome de Deus. Foi assim que se me aflorou a gasta menção expressa por Caetano Veloso em 1968, no Terceiro Festival da Canção: “é proibido proibir”. E dei forma à essa latejante alusão evocando aquele tempo fechado, de ditadura civil-militar, recorrendo ao título “ é proibido gargalhar”. Isso porque, ao ouvir tanta besteira dita, repetida e “viralizada”, a vontade é mesmo de soltar o riso, sonorizar gargalhadas que fariam a alegria de trupes pândegas. E são tantas! Tantas, tantas, que poderíamos fazer uma ladainha ou boa ópera bufa, justificadora da perplexidade do ex-ministro Mangabeira Unger, professor e filósofo lotado em Harvard, ao dizer sobre a vitória do atual presidente que o resultado eleitoral foi “uma resposta popular tosca”. Sem medo de errar, acrescentaria “tosca e burra”. Em que se pesem exceções, a melhor tradução dos equívocos está na composição ministerial. E neste caso, não há como deixar a abertura dessas loas à outra pessoa que não Damares Regina Alves, regente (“Regina/ regente” é mesmo irônico, não?!) da pasta Da Mulher, Direitos Humanos e da Família. Além da alusão decantada que é “terrivelmente cristã” ainda que o “estado seja laico”, e de sua sonora preferência cromática em termos de gênero (“azul para meninos, rosa para meninas”), outras pérolas engrossam o anedotário coerente com as políticas que defende. Eis algumas pérolas selecionadas, e publicamente desmentidas, pelo “detetive virtual”, no programa “Fantástico”: “Estamos vivendo uma ditadura gay”, “a Europa já está ensinando que precisamos masturbar bebês”, “no Brasil tem muitos hotéis-fazenda de fachada, que é para turistas transarem com animais”.

Mas, infelizmente, a ministra-pastora não está sozinha em suas pregações idiotas. O discurso de posse do ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, concorre como capolavoro das sandices universais. Ao misturar citações em latim, grego e tupi, quase provou que somos mesmo uma república das bananas, pois o público imediato, a seleta e refinada elite diplomática e os representantes eleitos, sequer podiam, pela etiqueta conveniente a uma posse, exibir a perplexidades. Reinou o silêncio; o silêncio dos que entenderam e dos que estavam ali por obrigação do cargo e nada entenderam. Em continuidade, o ministro representante da Educação, Vèlèz Rodrigues, poderia ter ficado calado em vista do caudaloso encadeamento de besteiras sobre ensino público, reinstauração das disciplinas de moral e cívica e de direito amplo e acesso aos níveis superiores de estudos. É claro que não cabe minorar seus doutos comentários sobre o comportamento de brasileiros no exterior, e nem mesmo sua alusão besta à frase supostamente atribuída a Cazuza. E o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, que, mesmo se reconhecendo ignorante em vista da figura de Chico Mendes, o percebeu como alguém que agia em benefício próprio? 

O problema não minora quando escapamos do discurso federal. O Rio de Janeiro – que apesar da avassaladora onda de desgraças padece também com um prefeito que frente ao desabamento de encosta da Avenida Niemayer afirmou publicamente, com ar de quem sabe o que está falando, que “estávamos preparados para enfrentar as ondas do mar, não para os deslizamentos das montanhas”. Seria fácil continuar arrolando estapafúrdios que se atropelam em velocidade geométrica. O difícil mesmo é entender a combinação dos discursos que provocam risadas. Mais complicado ainda é ter que admitir que tais discursos são expressos por autoridades que ostentam poder e manipulam ações consequentes para todos. É triste admitir uma verdade que se plasma na consciência nacional “o que dá pra rir, da pra chorar”. Creio que deveremos verter muitas lágrimas antes de achar tudo isso engraçado, portanto, por enquanto é proibido gargalhar...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

TELINHA QUENTE 348


Roberto Rillo Bíscaro

A Bélgica é pequenina e étnica/linguisticamente fragmentada. Seus 10 milhões e meio de habitantes vivem numa área de 30 mil quilômetros quadrados e falam flamengo, francês e alemão. Isso oficialmente, porque há dialetos e além disso, não há garantias de que todo mundo seja trilíngue.
Imagine isso pras estações de TV: podem produzir uma série em flamengo que não será assistida pela parte francofalante da população. Assim, as audiências são potencialmente pequenas e os orçamentos, por conseguinte, ínfimos. O preço dum capítulo de The Crown pode produzir uma temporada toda na sede da União Europeia.
E ainda assim, a Bélgica é considerada a bola da vez nos círculos hipsters. Canais como o Hulu, o Chanell 4 e o Sky Atlantic tem transmitido séries de lá, resenhadas em jornais, tipo Variety e The Guardian. Como este blog e seus leitores sempre fomos hispters, você já leu resenhas sobre Salamander, Cordon e Matrioshki. As 3 faladas em flamengo.
Chegou a vez duma produção da parte francófona da Bélgica. Ennemi Public (2016) foi produzida pelo canal La Une e comparada por operadoras anglo-americanas, onde recebeu o nome Public Enemy.
A diretora Indra Siera afirmou que pra se distinguir da montanha de séries estrangeiras, e também pra refletir a diversidade cultural de seu país, uma das características dos shows belgas é a não aderência a um subgênero. Séries de lá, tendem a ser meio “estranhas”, e isso tem captado a imaginação de audiências internacionais.
A dezena de capítulos de Ennemi Public não chega a ser esquisita, mas lhes falta foco. Há umas 3 histórias lutando por atenção – uma delas, um thriller policial ótimo – mas o resultado é apenas bom, porque nada é desenvolvido a pleno contento.
Depois de 2 décadas na cadeia, o pedófilo assassino Guy Béranger é solto em liberdade condicional pra iniciar seu noviciado numa abadia numa aldeia incrustada na floresta. A presença do serial killler provoca ira dentro e fora da abadia e cidadãos de bem provam não serem assim tão de bem. Especialmente, quando crianças começam a ser mortas na comunidade. Daí, chega uma policial de Bruxelas, que, de tão perturbada, vê e fala com a irmãzinha desaparecida (superapta ao trabalho, como sempre nessas séries). Também há uma família tradicional local que tem um projeto pruma cervejaria, um irmão marginal e outro monge, abade, whatever.
Como em toda série policial, esses fios se encontram, de modo até algo surpreendente, mas Bérarger começa muito enigmático pra no meio perder todo o destaque. O tal irmão religioso nem sabemos porque está ali, a não ser porque talvez seja galã belga, porque sua personagem não influi em nada.
A conclusão é que Ennemi Public satisfaria muito mais se tivesse metade dos capítulos, mas fosse o thriller policial competente sufocado pelo roteiro entulhado. Não seria história original, mas do jeito que está além de também não o ser, não deixa impressão duradoura.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 353

Roberto Rillo Bíscaro

A estreia de Judith Hill teve as bênçãos de ninguém menos que Prince, que participou do processo de criação e execução de Back In Time (2015), resenhado aqui. A norte-americana não parou de se apresentar, mas não lançou nada durante três anos. Em entrevista, contou que a morte de seu mentor e amigo ainda lhe dói e foi um dos motivos pela ausência de lançamentos.

Dia 13 de novembro, finalmente, saiu seu segundo álbum, Golden Child, que intercala canções de cunho pessoal com letras sobre a necessidade de união, nesse planeta tão cindido. Demonstrando amadurecimento como compositora, o que chama mais a atenção, porém, em termos técnicos, é a extrema elasticidade do vocal, que pode ir do cristalino gorjeio etéreo à Minnie Riperton, no urban soul de Chasing Rainbows à voz raspada à Janis Joplin, no blues-rock de I Can Only Love You By Fire. De uma faixa a outra, parece que há intérpretes distintas.
Sua Majestade Púrpura informa o funk de You Can’t Blame Me, desde os arranjos aos vocais e ao infeccioso riff. Não que seja cópia, é que Prince influencia meio mundo há décadas; não tem muita escapatória. A porção funk do álbum é deliciosa e conta ainda com grandes faixas como The Pepper Club e a setentista Gipsy Lover. Queen Of The Hill também é funkeada, mas com a produção mais contemporânea do álbum, com vocais altamente processados.
Os tributos ao Rhythm and blues são prestados com Hey Stranger e a balada-bluesy Irreplaceable Love. E é com uma espécie de power-ballad oitentista, empoderada com coro gospel, que Hill fecha Golden Child: sonicamente, We Are One não tem muito a ver com o resto do material, mas o clamor por unidade da letra, resume tematicamente um trabalho que demonstra bem o crescimento de Judith Hill como compositora e intérprete.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

TELONA QUENTE 275


Roberto Rillo Bíscaro

Uma das várias distinções entre horror e ficção científica é que o perigo, no primeiro, restringe-se a um ou poucos indivíduos, ao passo que no segundo, a escala é bem maior, podendo ser global. Essas regras não são pétreas e sempre houve intersecção entre os (sub)gêneros, mas, é um começo de discussão. Assim, quando temos uma criatura ameaçando uma cidade é mais ficção-científica com horror, do que o contrário.
Como a ameaça em Await Further Instructions (2018) não só é expressa por um aparato tecnológico, mas dá a entender que o grupo em perigo é apenas parte isolada de um todo, a produção britânica fica na prateleira horror sci fi. Durante celebração natalina, uma família tem sua casa misteriosamente vedada pro mundo e seu aparelho de TV passa a distribuir instruções pra se proteger dum perigo, que parece de escala nacional. Seria terrorismo islâmico? E não é que o júnior trouxe pro jantar sua namorada de origem paquistanesa/indiana! Seu avô, pai, irmã e irmão racistas não têm pruridos em esconder seu preconceito e ódio raciais e as ordens dúbias emanadas da telinha são cumpridas à risca, com resultados temerosos.
Await Further Instructions tem clima de episódio de série de TV meio antiquada, mas no fim, a coisa fica mais Cronemberg/Black Mirror. Pena que jamais alcance os níveis de qualidade de nenhuma das referências citadas. Há desejo indisfarçado de que a história seja fábula contemporânea sobre xenofobia Brexítica e o poder manipulador da malvada mídia. Mas, as ideias são batidas e as personagens monodimensionais.
Como distração Await Further Instructions dá pro gasto, mas não espere nada mais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

CONTANDO A VIDA 265

RENATO TEIXEIRA: EM QUALQUER LUGAR.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Assumi o ridículo e nem liguei para as pessoas que me ladeavam, e até riam discretamente, vendo um senhor de 75 anos cantarolando pela rua. A letra era de “Vamos celebrar”, do Oswaldo Montenegro, e que servira de fechamento do Show com Renato Teixeira, no VivoRio, num calorento sábado, dia 09/02/19. E lá ia eu no encalço de um táxi, meio que dançando, meio que flanando, meio que bobo com o enredo da vida: “Eu gosto de andar pela rua/ bater papo, de lua e de amigo engraçado/ Eu gosto do estilo do Zorro/  o visual lá do morro e de abraço apertado/ Eu gosto mais de bicho com asa/ mais de ficar em casa e mais de tênis usado/ Eu gosto do volume, do perfume/ do ciúme, do desvelo e do cabelo enrolado...” Repeti por vezes como um longo poema, admirado por me lembrar de cada verso, mas, por fim, lá pelas tantas, parei no tal do “cabelo enrolado”. Dei uma repentina travada, e troquei o passo alegórico pela dúvida paralisante: Cabelo enrolado, como assim? O Oswaldo pode, como ninguém, pois ostenta uma vasta e invejável coleção de fios lisos escorregados. Mas eu sou careca, e o que me resta de cabelo, uns 20%, não permite nada próximo de cabelo enrolado. O Renato, sim, bem definido em sua postura de compositor, libertou-se de aparas e soltou seus caracóis agora nevados.
Outra canção do Oswaldo atiçou minhas lembranças “não sei se o poema é bonito, mas preciso escrever”. Ato contínuo, deixei o espetáculo, abracei longamente o amigo, e vim para casa. Tentei, mas não consegui dormir. Agitado, levantei-me e novamente Oswaldo me veio à cabeça e me autorizava retraçar os nós que a vida me permitiu com o gentil amigo Renato Teixeira. E foi assim que o passado se me abriu como azul céu taubateano. E lá atrás, escondida entre as nuvens que mostram a beleza sempre pretérita, me via em várias situações ao lado dele. No interior, as pessoas não se apresentam, todos se trançam e nem me lembro dos nossos primeiros encontros. Sei só que, certa feita, estávamos juntos na casa de nossas namoradinhas que eram irmãs. Depois, fiz uns poeminhas e ele musicou (certamente esqueceu-se, mas eu ainda cantarolo “seus olhos grandes, sua boca pequena, o seu jeitinho, sua pele morena); o interessante dessa passagem é que fomos juntos a uma Rádio local, a Cacique de Taubaté, e em um programa do amigo comum Robson Barone nos apresentamos. O rádio era importante veículo de comunicação, em particular em um tempo que a televisão ainda não dominava todos os lares. E foi pela voz do Renato que se investira em radialista que, pela Rádio Difusora Taubaté, todos os dias às 6 horas da manhã ele lia crônicas que eu assinava. De minha parte, comemoro com lágrimas as leituras desses textos que ainda tenho bem guardados. Mais tarde virei, ainda muito jovem, diretor cultural do Clube da cidade, e, com empenho pouco traduzido, revelo que me esmerei em dar dimensão a um show escrito por ele e seu irmão Roberto, intitulado “Samba em três tempos” – sinceramente, daria alguma coisa valiosa em troca de ver reencenado esse espetáculo. Certa feita, fui como estudante de intercâmbio para os Estados Unidos e trouxe-lhe de presente dois LPs, um do Bob Dylan e outro de country music.
Para seguir carreira, Renato e eu saímos de Taubaté. Como rizomas que brotam em outros quintais, ele seguiu a carreira musical e eu virei historiador. Nunca nos deixamos de maneira consequente. Encarregado dos alunos estrangeiros na USP, diretor de estudos sobre a Contemporaneidade Brasileira, por anos seguidos convidava o Renato para apresentações no campus. E assim íamos costurando nossas histórias: casamentos, filhos e mil amigos. Mais recentemente, por dever acadêmico, me vi convidado a escrever sobre música de raiz interiorana, e então redigi um texto intitulado “Nossa Senhora Sertaneja” dedicado a ele, colocando “Romaria” como aposse de um processo de louvação. E, por ocasião dos trezentos anos da aparição da Imagem da Santa de Aparecida, supusemos escrever uma ópera que, talvez, um dia se torne realidade. Há um evento, contudo, que me comove mais que todos. Em dado momento, Renato compôs uma canção linda, chamada “O Turco do mercado”, e a inspiração foi meu pai. Confesso que poucas atitudes marcantes em minha vida têm a força dessa menção. Não posso ouvi-la sem chorar. Em ocasião anterior, mesmo sem avisar, fui ver um show do amigo querido, pois não é que ele me vendo na plateia, introduziu a peça e me fez despencar a ponto de precisar de apoio de amigos. Tenho outras passagens que guardo na melhor gaveta de minhas emoções, mas retomo Oswaldo Montenegro para sintetizar o que sinto ouvindo a canção “Velhos amigos” detalhando que “velhos amigos sempre hão de se encontrar seja onde for/ seja em qualquer lugar”. Pois é, quem conhece Renato Teixeira sabe que ele é dos que estão, sempre, no coração de seus amigos... em qualquer lugar e que vamos sempre nos encontrar.
  

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

TELINHA QUENTE 347



Roberto Rillo Bíscaro

Séries norte-americanas como Ugly Betty e Jane, The Virgin incorporam elementos das populares telenovelas latino-americanas em suas tramas. Quando soube que a Netflix inserira em seu catálogo os 13 capítulos de La Casa de las Flores (2018), apressei-me em vê-la. Curioso por saber como os famosos mexicanos releram seu maior gênero de exportação dramática à luz do gosto indie de consumo, das séries inclusivas da ianquelândia.
México é tão baluarte no subgênero telenovela, que, no Brasil, qualquer folhetim televisivo hablado en español recebe o nome de novela mexicana. Não importa que tenha sido feita na Colômbia.
Além disso, o elenco de La Casa de las Flores é encabeçado por ninguém menos que a rainha Verónica Castro, a Rosa Selvagem, em pessoa! Castro foi ponta de lança pra internacionalização das telenovelas “mexicanas”, quando Os Ricos Também Choram conquistou a metropolitana TV espanhola e consolidou o subgênero por lá, até hoje.
Criada por Manolo Caro, La Casa de las Flores (LCDLF) centra-se na posuda família De La Mora, tida e havida como perfeita. Donos duma floricultura, essa imagem começa a murchar, quando a amante do patriarca aparece com sua filha, bem no dia do aniversário do papi e apronta uma, no centro da sala-de-estar.
Com abertura inspirada na de Desperate Housewives, LCDLF implora pra colocar o México nos países produtores de séries hipster com famílias alternativas. Tem filho revelando bissexualidade, mamis tendo que vender maconha pra saldar dívidas, transexual, cabaré. E com isso vai se transmitindo a mensagem de que não há família “perfeita”. Epa, mas então, todas essas modernices inclusivas são imperfeições? Oops.
O cenário multicolorido propositalmente “brega” indica a irrealidade desse mundo onde tudo é permissível. Tudo tão de mentirinha, quanto uma telenovela, mas na tradição modernete dos filmes e séries hipsters, como o oscarizado e esquecido A Excêntrica Família de Antônia e Transparent (mas, sem as pseudodiscussões acadêmicas).
Série muito simpática, inclusiva, mas que não faz jus à comédia, como querem vende-la. É tudo premeditado demais pra ter graça. Nesse quesito, os norte-americanos jogaram bem melhor com as convenções da telenovela, na viciante Devious Maids.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 352

Roberto Rillo Bíscaro

Indra Rios-Moore tem nome de divindade indiana e é filha de porto-riquenha e afro-sírio-americano, baixista de jazz. Estudou vocalização lírica, participava de acampamentos, onde se praticava música balcânica e cresceu na multicultural Nova Iorque.
A Grande Maçã é tão madura de oportunidades pra quem as busca, que, enquanto trabalhava como garçonete, Indra conheceu o saxofonista de jazz dinamarquês Benjamin Traerup. Logo estavam casados e desde então, a moça vive a chata vida de se dividir entra a Nova Roma e a pobre Escandinávia. Seus músicos de apoio são todos da região, onde faturou prêmios e excursiona sempre.
A aderente mania de catalogar, enquadra Rios-Moore como cantora de jazz, mas seu som aglutina muito mais que apenas o que se convencionou imaginar como clichê jazzístico. Claro que há muito saxofone – uma das marcas de certa facção do subgênero – e sua divisão no cantar é de grande do jazz, porém, seus dois álbuns aventuram-se com muita competência até por terrenos art-rock, conseguindo transformar em seu, clássicos de alguém tão personalista quanto David Bowie. E, caso você não conheça como o Camaleão inovou em seu auge, acredite, o que Indra fez é muita coisa. Presente no álbum Heartland (2015), até predatou o canto de cisne de Blackstar.
O onipresente sax do maridón sueco introduz o esparso início de Heroes, que Rios-Moore despiu e deixou praticamente irreconhecível a não ser que você entenda a letra. Embora haja elementos de free jazz, aquilo tem art-rock no DNA.
A moça é atrevida. A versão de Money, do Pink Floyd, mantém a estrutura melódica, especialmente no baixo e na guitarra acentuadamente mais bluesy. Mas, Indra também resgatou a canção pra si. Não é o caso de procurar melhores, mas de reconhecer que a cantora nos apresentou outra grande possibilidade de desfrutar do clássico de Dark Side Of The Moon.
Território de jazz tradicional só mesmo o encerramento Solitude, que volta ao Duke Ellington, dos anos 1930. Talvez por influência da mãe latina, Indra tenha tido contato com boleros e isso se traduz em Hacia Donde. Por qualquer língua e subgênero que tateie, a norte-americana se sai bem, até mesmo cantando em algum idioma africano, em Oshun.
From Silence pode agradar quem ama folk, alt country e o sentimento spiritual, entre gospel e R’n’B, está em números como Little Black Train, Your Long Journey e Blue Railroad Train.
Com voz tão educada e expressiva, os arranjos têm mesmo que evidenciá-la e a releitura de What Becomes Of a Broken Heart é tão esparsamente sublime que lembra a intensidade quieta das Trinity Sessions, dos Cowboy Junkies, que completa 30 anos. Indra Rios-Moore está na mesma liga de bambas como Lizz Wright e Margo Timmins.
Conta-se que Heartland foi gravado em três dias, um mês após a morte da mãe, da qual Indra cuidou por muito tempo. Carry My Heart saiu este ano e seu pontapé veio também de uma situação de tristeza pra norte-americana. No dia seguinte à eleição de Donald Trump, um afroancião percebeu que Indra estava desolada na rua. Acercando-se, deu-lhe um abraço, do nada, e garantiu-lhe que tudo ficaria bem, afinal já haviam passado por coisa pior.
O clima de conforto espiritual deve ter influenciado no tom gospel/spiritual de várias escolhas no repertório, como a abertura, que batiza o álbum, além de Keep On Pushing (tem até coro de haleluia) e Come Sunday, que tem o arranjo mais ousadinho, num álbum cujas melodias são mais lineares, o que não significa queda na qualidade. Pelo contrário, o caráter esparso de quase tudo, realça o espantoso vocal de Rios-Moore.
Seria bem mais correto e descritivo rotular o trabalho de Indra com o abrangente “Americana”. Carry My Heart tem baladona soul em Don’t Say Goodnight (It’s Time For Love) e acenos para o country, em Give It Your Best e para o folk à Indigo Girls, em Be Mine. I Loved You é a coisa mais tradicionalmente jazz de um álbum que também tem covers de Creedence Clearwater Revival (I Can See Clearly Now) e Steely Dan (Any Major Dude Will Tell You). Love Walked In soa como valsinha jazzificada à Billie Holiday.
Muito maior do que qualquer tentativa de reduzi-la a um subgênero, Indra Rios-Moore é uma das grandes vocalistas da atualidade; esse é o único mínimo comum sobre ela.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

MEDO DE DORMIR

'Tenho medo de dormir': a cruel caçada por ossos de albinos no Malauí

Femia Tchulani é uma vendedora de legumes que sobreviveu a uma tentativa de sequestro organizada por "caçadores" de albinos, que queriam matá-la para tirar partes de seu corpo.


Ela narrou o caso, ocorrido em sua casa no Malauí há dois anos, a Patience Atuhaire, da BBC África.

Tchulani conta como é viver sob ameaça, com medo das pessoas que acreditam que partes dos corpos sem pigmentação de albinos trazem saúde e sorte.

Leia o depoimento dela:

"Era uma sexta-feira. Cinco homens e uma mulher chegaram à minha casa por volta das 19h. Quando apareceram, eu estava na cozinha preparando o jantar. Meu marido estava do lado de fora.

Disseram que procuravam por mim. Disseram que eram policiais e estavam ali para me proteger porque receberam a informação de que queriam me matar.

Fiquei assustada. Eram pessoas desconhecidas, nunca as tinha visto antes. A chegada deles criou uma certa comoção e fez com que alguns dos nossos vizinhos se reunissem.

Apesar de terem dito que eram policiais, não usavam uniforme. No começo, não me convenceram. Mas então mencionaram o nome do chefe de polícia da nossa área. Nós até pedimos para que descrevessem o chefe; e eles os fizeram.

Na verdade, nos mostraram armas e até carteiras de identificação. Mas claro, a gente não tinha como saber se eram verdadeiros ou não.

Meu marido e eu, além de alguns vizinhos, concordamos em ir com eles a uma unidade policial. Quando chegamos lá, o posto estava trancado.

Os cinco que alegavam ser policiais chamaram outras três pessoas que estavam num bar próximo. Eles tentaram forçar eu e meu marido a irmos até outra unidade policial, mais longe da nossa área.

Foi tudo muito estranho, porque mandaram embora todos os curiosos que pararam perto da gente. Ficamos apenas eu, meu marido e os vizinhos que vieram conosco.

Meu marido insistiu que eles não deveriam me levar sozinha. Ele ficou argumentando que não tínhamos cometido nenhum crime; e, por isso, por que ir à polícia?

Quando perceberam que a gente não ia sair dali, ficaram nervosos e simplesmente foram embora.

Eu nunca os vi novamente desde aquele dia. Conhecemos os policiais que trabalham na nossa área, e essas pessoas eram desconhecidas, ninguém as conhecia.

Minha vida mudou completamente desde então.

Tenho oito filhos, alguns ainda na escola. Antes do incidente, eu comprava legumes e verduras no atacado e os vendia de porta em porta. Agora, tenho medo de andar pela cidade. Uso um banco para expor meus produtos na feira.
O dinheiro que ganho com este ponto fixo na feira não é suficiente para pagar mensalidades da escola, comprar uniformes e mesmo comida para meus filhos. Alguns já não podem mais frequentar as aulas.

Eu não acho que a polícia ou o governo estejam fazendo algo para proteger albinos como eu.

Vivo com a graça de Deus. E agradeço a Deus quando acordo todas as manhãs. Ainda não me sinto segura.

Por exemplo, teve uma noite no mês passado em que algumas pessoas tentaram entrar na minha casa pelo telhado. Eu acordei e fiquei alerta. A gente saiu de casa e gritou. Só assim eles fugiram.

A nossa comunidade está atenta aos riscos, especialmente vizinhos e as mulheres no mercado. É por isso que eles fizeram esse monte de pergunta à equipe da BBC. Eles sabem o que aconteceu comigo e não querem que se repita.

Olhe para minha casa, nem tenho boas portas para me proteger à noite.

Então, à noite para mim é como se fosse dia. Tenho medo e mal consigo dormir. Tenho medo que essas pessoas voltem. Eu adoraria que o governo me ajudasse com uma boa casa.

Também gostaria que o governo cuidasse do meu bem-estar porque estou impossibilitada de trabalhar e ganhar dinheiro suficiente para minha família por causa do que aconteceu.

Se isso acontecesse, eu seria uma pessoa feliz."

Perseguição a albinos

- No ano passado, a ONU emitiu um alerta no qual afirmava que 10 mil albinos no Malauí estão sob ameaça de morte por causa do interesse em partes dos corpos deles - que muitos acreditam dar sorte.

- Desde novembro de 2014, 19 albinos foram mortos e houve mais de 100 casos de desaparecimento ou tentativa de sequestro.

- Covas de albinos também são alvos de criminosos que removem os ossos dos cadáveres para vendê-los.

- A Anistia Internacional afirma que a maioria dos ataques contra albinos fica sem solução por causa da falta de capacidade da polícia de investigar.

- Ativistas dizem que a pobreza contribui para alimentar a crença de que partes do corpo de albinos trazem sorte e fortuna e também para sustentar esse comércio macabro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

TELONA QUENTE 274



Roberto Rillo Bíscaro

Deve ser infinitesimal a probabilidade de alguém alertar prum tsunami, não ser ouvido, salvar várias vidas, quando a catástrofe se instaura e, três anos depois, prever um terremoto, ninguém acreditar e o sujeito conseguir salvar pelo menos parte de sua família. Como a Noruega corre risco de terremoto e A Onda fez sucesso (tem na Netflix), os produtores decidiram dar uma de Sharknado e botar o geólogo Kristian enfrentando novo desastre natural. Não que Skjelvet (2018) seja absurdamente podre como a série dos tornados de tubarão. Ao contrário, como seu antecessor, é muito recomendável.
Depois da submersão de Geiranger, Kristian não superou seu trauma e vive isolado numa cabana, evitando contato até com sua filhotinha. A morte misteriosa dum colega de profissão faz com que o trêmulo protagonista se dirija à Oslo, onde tenta alertar autoridades que os cortes de energia e rachaduras estruturais, cada vez mais frequentes, são prenúncios dum megaterremoto. O sucesso d’A Onda elevou orçamento pra sequela, por isso a crível escolha da capital norueguesa: agora há prédios pra derrubar, usando computação gráfica. Eficiente, e bem mais discreta que os congêneres estadunidenses. Até em cataclisma os escandinavos são mais quietos.  
The Quake, como é chamado internacionalmente, tem a mesma fórmula de seu irmão mais velho. Há longa construção de suspense e tempo pra que nos importemos com as personagens, para só então jogá-las na catástrofe e concentrar todo o investimento (em todos os sentidos) apenas nelas. Isso afastará os maníacos por velocidade narrativa. Perda deles, porque os sinais preliminares da catástrofe são prato cheio pra fãs de suspense. Skjelvet funciona bastante como thriller com momentos de cine catástrofe e não o contrário. E quando três personagens estão presas num último andar, sai de baixo (literalmente)!
O roteiro tem defeitos, dentre eles nos fazer crer que a palavra dum herói nacional não fosse sequer considerada por ninguém até quando fosse tarde demais uma segunda vez. Também não dá pra entender, porque introduzir o filho de Kristian, coloca-lo numa situação de perigo em outro local, mas não mostrar seu desenvolvimento. Claramente, a narrativa foca no arco de Kristian, o terremoto é dele, pra servir os propósitos de redenção dele.
Mas, Skjelvet diverte bastante, faz a gente roer as unhas e ainda por cima reconforta – como de praxe nesses filmes – ao nos fazer saber que o sacrifício de milhões de pessoas foi o responsável pela reconciliação de pai e filha. Awwww.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CONTANDO A VIDA 264


HISTÓRIAS QUE GOSTO DE CONTAR: o caipira perdido.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Já disse que, quando morto, quero ser cremado, mas... Mas se tivesse uma lápide, ou outra qualquer homenagem feita em material duradouro, ficaria agradecido com uma inscrição singela dizendo “aqui jaz um contador de histórias”. Sim, gosto muito de ouvir e de narrar casos. Os fatos me seduzem mais que as variações filosóficas ou teóricas. Talvez esta seja minha completa tradução de interiorano, de filho de imigrante que adorava conversar. Ouvir, contar e principalmente recontar histórias era a mais praticada experiência de meu pai. Lembro-me que a cada jantar, todos juntos, ouvíamos os melhores casos. E não presidia nenhum tom crítico negativo. Pelo contrário, tudo era narrado como epopeias deliciosas e os caipiras viravam, magicamente, heróis: Ulisses, Zeus, Argos.
Havia tanto encanto que chego a dizer que foram estas historietas que me fizeram optar pela História como matéria profissional. Mais do que Weber, Marx, Bauman, foram as lendas refeitas pelo pai que me enterneceram e conduziram à academia. E essas falas se estenderam a outros campos da percepção, como a música caipira, as rezas e até o herbário, que cura falta de sono, dor de estômago, e falhas do amor. A imagem do “caipira picando fumo” da tela de Almeida Júnior, por exemplo, me encanta pela imponência e pela autonomia em assumir um tempo dedicado ao que dá prazer. O semblante do “picador,” seu olhar atento ao fumo de rolo, me faz evocar saudade de circunstâncias que não se têm mais. Ninguém mais conta casos. Ficamos mudos, e nos restringimos à leituras de mensagens instantâneas, vivenciando o que de pior os aparelhos eletrônicos causam. No meu caso, jogar conversa fora, contando histórias, funciona como antídoto a tudo que temos passado. E luto por reviver as “lendatórias”, então claras e explícitas em personagens que conheci.
E há uma história que gosto de recordar mais que outra qualquer e, antes, vale lembrar que a “contação” caipira implica enredos com começo, meio e fim. Por vital, o sentido trágico ambienta tudo e convida lagrimas que me rolam fáceis. Basta enunciar isso para se ter clareza do impacto de canções como “Menino da porteira”, na intepretação memorável de Sergio Reis. Seria fácil declinar muitas outras “modas de viola”, que se pronunciam nessa direção, mas há algumas histórias que merecem viso. Repasso uma que, particularmente, me acomete sempre. Lembro-me, menino ainda, assombrado com um caso de um tal Seu Dito da Serra. Ele, morador do campo, teria se afastado, interior adentro, a cada vez que a estrada aberta pelo governo chegava próximo à sua casa. Interiorando-se mais e mais, mudava, mudava, mudava, e junto ia toda família com os poucos pertences. Foi indo, indo, indo, indo mais, até que avistou o mar. Assustado, temendo o fim do caminho, depois de noites acordado, meditando, resolveu que ia pegar a estrada e, de volta, descobrir onde ela teria começado. Era como uma vingança, ou raiva matadora de seu destino de fugitivo do tal progresso
Sem avisar ninguém, numa madrugada, juntou algumas coisinhas, fez uma trouxa e a amarrou no cajado que levava às costas. E foi sem se despedir de ninguém. Andou, andou, andou... Viu porteiras novas, as primeiras vendas, as incipientes casinhas que se avizinhavam, outras mais densas, mais algumas, até que chegou à cidade. Continuou, mais outra cidade, outra ainda. Tanto caminhou que o Seu Dito da Serra chegou a outra serra e, perdido entre tantos começos, nunca mais voltou. Não sabia dos retornos. Perdeu-se para sempre e sozinho. De tal maneira este “causo” me marcou, que a cada vez que ouço a expressão “caminho sem volta”, me vem à mente o caso do caipira desvalido. Por lógico, não me faltam digressões filosóficas e até faço ilações com o cancioneiro da MPB e me pergunto se a música “Ponteio” não é decorrência do caso do Seu Dito da Serra: parado no meio do mundo...
O tempo fluiu. Rápido demais para quem contempla o passado da altura de mais de 75 anos de idade. E quando olho o tempo decorrido, quando medito sobre tudo que vivi, me lembro com afeto esparramado da historinha preferida, contada por meu pai. Os olhos verdes e penetrantes dele se fazem voz e entonação para supor o paradoxo de própria trajetória: sai também do interior, mas fiz o roteiro inverso, fui em busca de cidade, cada vez mais, e perdido, desaprendi onde está o lugar de origem. Mas continuo buscando.     

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

TELINHA QUENTE 346

Roberto Rillo Bíscaro

West Wing terminou há bastantes anos, mas sua influência segue inspirando realizadores. Da Dinamarca veio a superior Borgen e da França, as três temporadas de seis capítulos cada de Les Hommes de l'ombre (2012-16).
Mais sexualmente desinibida do que sua matriz estadunidense, Spin, como conhecida internacionalmente, é maratonante suspense sobre políticos, onde estes chegam a ser secundários em relação a seus consultores de imagem e relações públicas.
Os Homens da Sombra, tradução livre do título, são Simon Kapita e Ludovic Desmeuze, marqueteiros da agência mais influente de Paris. Kapita treinara Desmeuze antes de ir-se a Nova York, de onde retorna às pressas pra capital francesa, quando convocado a ajudar a presidência a manejar a crise desencadeada por atentado contra o presidente. Acontece que Ludo quer o pedaço só pra ele e, freudianamente, precisa eliminar o pai, então inicia-se batalha entre ambos.
Les Hommes de l'ombre indica seu falocentrismo já no nome. Política e alto poder são brinquedos de meninos-machos. Mulheres são boas pra cama e quando ativas são bitches, como diriam Alexis Carrington e Bette Davis.
Ao longo das temporadas, o teor político escandaloso sobrepuja o duelo freudiano e a batalha KapitaxDesmeuze é ofuscada por coisas muito mais estimulantes, como infidelidade conjugal, atentados de radicais islâmicos e/ou de direita, homossexualidade reprimida, primeira-dama bipolar, jornalista teimosa se metendo numa enrascada trás d’outra.
Políticos de direita e esquerda indistintamente jogam sujo e os dois lados são exibidos como interdependentes. É como se o poder por si só corrompesse; a ele é atribuído essa caráter absoluto, transcendental e eterno. Nesse sentido, Les Hommes de l'ombre justifica o discurso de que todo político é igual, convenientemente sacada quando seu político de estimação está em beco indefensável, mas não se quer reconhecer, apenas generalizar pra poder justificar sua escolha.
Para gerar interesse, esse tipo de série “política” não pode se debruçar em decisões e ações que realmente mostrem o lado vital das políticas públicas – exceto Borgen, de vez em quando, e por isso é tão cotada. Queremos ver grandes dilemas internacionais ou becos-sem-saída internos, experimentados por gente bem-vestida e poderosa, capaz de mudar destinos de multidões com simples telefonema ou promessa de apoio em votação. Ou, mais deliciosamente ainda, chantageando sem vergonha ou dó.
Isso tudo não desmerece Les Hommes de l'ombre. Pelo contrário, devorei gulosamente e sou fã do presidente Alain Marjorie e da primeira-dama aloucada Elizabeth, chiquééeéééérrima. Só há que reconhecer que na categoria thriller político em que se classifica, a ênfase está no primeiro termo. Sobre Scandal, Obama disse que seus dias eram bem mais tediosos do que os de Cyrus e Mellie, na Casa Branca. A rotina no Elyyse também deve ser bem menos visceral do que em Spin. Por isso, preferimos as séries.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 351



Dedicado à memória de Steven Young, falecido em 13 de julho, de 2016



Roberto Rillo Bíscaro


Em 1987, uma canção mudou o rumo da música pop. Parece exagero de saudosista 80’s, mas não é. Pump Up the Volume, constituída basicamente por samples de inúmeras canções e falação sobre base hip hop, cravou primeiro lugar na parada britânica e quase conseguiu entrar no Top Ten ianque. Isso por si só seria um feito, dada à impenetrabilidade norte-americana pro alternativo.

Pump Up the Volume era música feita por e pra DJs, pra clubes hipsters e desafiava o conceito de autoria. Hoje é segunda natureza surrupiar trechos de qualquer coisa pra compor qualquer coisa, mas há três décadas as gravadoras ainda tinham poder sacrossanto sobre direitos autorais. Além disso, o single marcou a chegada do independente selo 4AD ao cume do Top Ten. A gravadora dos etéreos Cocteau Twins batendo majors como Rick Astley e até Wacko Jacko. Até nos rincões do conservador noroeste paulista dançávamos ao som de M/A/R/R/S, nome dos anônimos compositores da canção, até nisso precursores. Hoje é tão comum nomes de artistas que nem sabemos quem são, com grafias ingrafáveis.
O fundamental M/A/R/R/S foi evento único constituído por duas bandas da 4AD, que provavelmente não constarão nem no rodapé dos futuros volumes de história da música pop: AR Kane e Colourbox.
O Colourbox foi formado em 1982, pelos irmãos Steve e Martyn Young, e sua cantora “clássica” é Lorita Grahame, que entrou em 83 e é a voz das gravações mais conhecidas. Até 87, lançaram esparsos singles, EPs e um par de álbuns, nunca obtendo sucesso de massa. O trio é cult desde a época em que atuou, mas agora o acesso é facilitado pelo Spotify, que tem praticamente tudo. Escolhi o álbum homônimo de 1985, a versão com 14 faixas, porque no serviço há umas duas bem mais vitaminadas. Na verdade, essa já é maiorzinha, porque o álbum original possuía uma dezena de canções e chegou ao topo da parada indie.
O underground tem servido de farto pasto pro mainstream, que o digam Bowie e Madonna, sempre antenados pra transformar o alternativo em mais palatável pra consumo maior. A batida alucinada de Punch e Manic, que viraria estouro de sucesso até nas paradas da Billboard, já estava dada pelo Colourbox, em 85. Compare as locomotivas do álbum de estreia de Taylor Dayne, que entrariam até pra trilha de novela global, com essas duas canções dos britânicos: as estruturas rítmicas de percussão e linhas de teclado são similares, parte de uma estrutura de sentido muito comum mais pro final da década.
Desde que ouvi pela primeira vez – no fim do século passado, creio – formulei teoria pro fracasso do Colourbox em se popularizar. Ou foi problema de divulgação da 4AD ou o que pra mim é mais provável: a produção não é tão bombástica, quanto à do mainstream da época; o som parece meio “distanciado’, tem hora que parece vir d’outra dimensão. Novamente, evoco a comparação com Dayne, digamos Tell It To My Heart e/ou Prove Your Love para notar como a sonoridade é diferente. O Coloubox soaria algo interplanetário pro ouvinte apenas do Top Ten.
Repertório não deve ter sido empecilho pra popularidade, porque é acessível e eclético (alguns dirão que até demais). Tem reggae/dub (Say You e Hipnition), balada à anos 50 (The Moon Is Blue), balada pop à anos 80 (Arena e Arena II), eletrosoul (Inside Informer), puro pop (Suspicion) e até Motown, na cover de You Keep Me Hanging On, das Supremes. Kim Wilde também regravaria o clássico, em 1986. Ouça as duas em seguida e veja como a do Colourbox é mais “esparsa” Isso não significa melhor, apenas diferente. Amo Kim Wilde e Taylor Dayne.
E como boa parte do M/A/R/R/S estava no Coloubor, claro haver precursora de Pump Up the Volume. Just Give’m Whisky é uma espécie de cavalgada spaghetti punk, cheia de samples de filmes de velho oeste e séries obscuras, como The Prisoner (you are number six!) e até solo de guitarra. O repertório é tão diversificado que abre com instrumental em piano elétrico, que parece anunciar um álbum dalgum de seus companheiros mais etéreos de 4AD.
Colourbox pra sempre permanecerá pra poucos, mas os leitores deste blog podem fazer parte dessa seleta minoria.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

SUPERANDO A SOLIDÃO


Roberto Rillo Bíscaro

Viuvez/divórcio, filhos vivendo suas próprias vidas com respectivas famílias são duas das razões para a alta taxa de solidão entre idosos. O problema é tão sério, que, ano passado, na Grã-Bretanha, a Primeira-Ministra Theresa May criou uma espécie de secretária da solidão, órgão que visa a desenvolver estratégias para diminuir o problema. Diz-se que falta continuada de interação social pode ser tão danosa como consumir muitos cigarros ao dia. 

A Netflix tem um filme muito bonito sobre um homem (Robert Redford) e uma mulher (Jane Fonda), que deixam de dar ouvidos às possíveis fofocas e decidem ser felizes juntos. O começo é algo surpreendente: uma noite, Addie bate à porta de seu vizinho Louis e à tira-roupa propõe que passem as noites juntos. Nada de sexual na proposta; é apenas para ter companhia no pior momento do dia, segundo ela. Por isso o título: Nossas Noites.

Vizinhos há décadas, num daqueles subúrbios longe de tudo, ambos mal se conhecem, mas aos poucos forjam amizade/aliança, que envolve a formação de um tipo de família extensa. Nossas Noites não está muito interessado em dramatizar sacarinamente a terceira idade, mas mostra como a bagagem emocional e dos atos pesa nas decisões e sonhos do presente. Mas, também ressalta que há mais de um tipo de relacionamento/arranjo possível para domesticar a solidão e tentar ser feliz, mesmo que convivendo com os inevitáveis fantasmas do passado.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 273



Roberto Rillo Bíscaro

Desde a antiguidade clássica, fantasia-se sobre mundos governados e habitados apenas por mulheres. O medo da perda do fálico cetro masculino tem inspirado diversos exageros, criando sociedades homogeneamente femininas, que odeiam homens.
Em termos fílmicos, há praticamente um sub-subgênero envolvendo sociedades femininas perdidas (em mais dum sentido). Houve exemplos dentro do subgênero das aventuras na selva, dos anos 40, mas o que interessa aqui são alguns da safra de ficção-científica dos anos 1950.
Não dá pra intelectualizar a intenção dos roteiristas e/ou diretores, no sentido de dizer que criticavam o patriarcado, representavam as ansiedades dos homens norte-americanos que voltavam de guerras como a mundial e da Coreia e viam seus empregos tomados por mulheres e daí pra fora. Tais leituras são válidas, mas, a posteriori. Os filmes não eram “intencionais”. Eram baratas produções B, orientadas especialmente pra sessões duplas em drive ins. Bolar trama que envolvesse bastante mulher, potencialmente atrairia a homarada teen e, nos anos 50, perna era como tetinha em filme de terror mais tarde.
 
Mulheres-Gato da Lua (1953) é um dos obscuros cult classics mais deliciosos da década. Feito com orçamento microscópico, tanto o roteiro, quanto cenários, adereços e figurinos são reciclados d’outras produções ou do dia-a-dia. Tem aranhona de pelúcia quase sem movimento despencando de teto, que aposto que quem tem boa visão deve ver até os fios. Tem incongruências tipo acender fogo na ausência de ar lunar (repare que fazem isso antes de entrarem na caverna). Mas, tem uma aura quase surreal em alguns momentos, devido a tantas maluquices e minimalismos (escassez é o correto).
Essa sensação outromundista é reforçada pela enigmática e sinuosa trilha-sonora composta por ninguém menos que Elmer Bernstein, ganhador de Oscar, Globo de Ouro, Grammy e Emmy. O começo dos 50’s foi marcado pela inquisição anticomunista do macarthismo e como o compositor se recusou a nomear nomes pro comitê de atividades antiamericanas, durante um tempo ficou marcado em Hollywood. Por isso, teve que fazer trilhas pra filmes como Catwomen Of The Moon (CWOTM) e Robot Monster (1953), um dos mais toscos já feitos. Atente pra como o sobrenome Bernstein está grafado errado nos créditos iniciais.
Como não havia dinheiro e esses filmes eram exibidos em sessões duplas (viu como as coisas se encaixam na linha de produção fordista da cultura?),CWOTM é curtinho - tem pouco mais de hora – e não perde tempo com exposição, começa com o foguete subindo pra missão à lua.
Uma tripulação composta por 4 caras e uma garota dirigem-se a nosso satélite em nave mobiliada com mesinha de madeira e cadeira de rodinha, daquelas de escritório. Mas, há algo estranho, porque a tripulante Helen começa a ter uns palpites e certezas inexplicáveis, tipo decidir pousar no lado escuro da lua, porque sabe que perto do ponto há uma caverna. Como pode isso?
Na lua, descobrem as descendentes duma civilização altamente avançada, que, como em Flight to Mars, parecia poder tudo, exceto construir foguete, daí querem roubar o terráqueo pra fugir pra Terra e dominá-la mediante telepatia. Porque elas não usaram esse poderoso instrumento pra comandar que os homens da Terra lhes enviassem espaçonaves salvadoras não vem ao caso...
Na verdade, nada pode vir ao caso em CWOTM, a não ser suspender a descrença por 64 minutos e procurar defeitos pra rir ou se estupeificar, como perceber que só quando Helen é amassada pelo áspero Laird, o poder das mulheres-gato sobre ela esvanece. As cenas de agarra-agarra entre os 2 são puro assédio sexual! Bom que deixamos isso pra trás, não? 

Em 1958, a Layton Film Productions reciclou Catwomen Of The Moon em Missile to the Moon (MTTM) e o resultado é ainda mais pobre, embora sem a estranheza do “original”, se bem que minha percepção advém de só conhecer a versão colorizada. Mas, considerando-se que Catwomen foi em 3D e Misssile, não, já é indício. Surpreendente pras gerações atuais, a primeira onda dessa tecnologia foi na primeira metade dos 50’s e sci fi sempre foi apropriada pra seu uso, devido ao fantasioso dos temas.
MTTM acrescenta elementos à história das Mulheres-Gato e embora essas sejam pérfidas, no desespero de salvar a lua em extinção, a violência na relação homem-mulher é mais discreta.
Tem a mesma (literalmente!) aranha de Catwomen; tripulação que recebeu nenhum treinamento pra viagem espacial; gente que pega fogo na superfície lunar, onde não há oxigênio, portanto, não pode haver combustão. Tem impostor se passando por selenita, mas, pelo menos na versão colorizada, os nascidos em nosso satélite têm pele azul, então como ele enganava? Ah, a Lido era cega...mas o resto, não! E o ar que não escapa pela boca da caverna, mas sim pela janela?
Missile to the Moon é outra daquelas pérolas pra ver e rir um bocado, destacando ilogismos.