quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

CONTANDO A VIDA 261

MAU DE MATEMÁTICA: NÃO ESTOU SOZINHO... 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Sou daquele time que, na escola, sempre foi mal em matemática. A matéria me era pesadelo e minha briga com ela chegou a causar algo que mais tarde se fez conhecida como “depressão adolescente”. Mais ainda, era mesmo um enigma de difícil explicação, pois afinal, como ser bom aluno em todas as demais áreas, menos naquela que comanda os números, inclusive para a aprovação de um ano para o outro (naquele tempo, para “passar” era preciso estar quites, “com média”, em todas as disciplinas). O pior é que meu suplício pessoal atingia também outras pessoas, inclusive professores, isso porque nos usuais “conselhos de classes” havia os que achavam que eu merecia crédito por ser melhor como aluno em humanidades, e que minha “deficiência crônica” era mesmo pela absoluta “falta de jeito na matéria”. Foi exatamente por isso, pela necessidade de provar que não estou isolado no universo dos que têm dificuldade nesse enredo complicado, que me vi convidado a buscar exemplos históricos. E me deleita saber que pessoas que se distinguiram no cenário mundial tiveram os mesmos percalços que eu, pobre mortal. Não quero dizer que não ser solitário nesse segmento é motivo de orgulho, mas serve de alento. 

Quando aprendi que Michael Faraday (1791 – 1867), o primeiro a equacionar as peças do motor e do gerador elétricos, aquele que criou o utilíssimo botão de “liga e desliga”, sofreu com o enredo dos números, fico com vontade de mostrar a língua para a humanidade. E tudo ganha força ainda mais luzidia quando evoco a aversão que Charles Darwin, pai da teoria evolutiva – que a ministra Damares não nos ouça –, o mesmo que concebeu a complexa explicação científica da seleção natural, quando jovem, era sempre preterido na matéria. Sinceramente, para mim, sua descrição sobre as dificuldades soam como música, eis o que disse “tentei aprender matemática, mas era muito difícil, e a absorção lenta, tudo muito devagar”. Desesperados, seus pais até contrataram professor particular que, desistiu do esforço. Aliás, outro parceiro também personagem do mundo da evolução e do evolucionismo, Jack Horner, contemporâneo nosso – que recentemente viu transposto para o cinema suas teorias sobre o fim dos dinossauros nos filmes que abordam o intrigante “Jurassic Park” – também padeceu do mesmo mal. Horner teve que brigar com os adaptadores do roteiro, pois a contagem dos séculos não batia com a racionalidade do enredo. E. O. Wilson, também nosso contemporâneo, o maior especialista em sociedade das formigas, deixou registrado no seu livro “Cartas para um cientista jovem” que “todo esforço para superar as dificuldades nos cálculos deve ser feito, pois os resultados justificam”. 

Outra que achava que os números deveriam ser subordinados às palavras e à história, Agatha Christie, precisava de ajuda de terceiros, pois em livros que eventualmente implicavam cálculos – até mesmo distâncias de datas e anos entre um evento e outro – tinha que se valer de auxiliares para descrever as aventuras de suas tramas policiais, sempre incríveis. Diz a lenda que os editores corrigiram várias vezes os cálculos usados em seus romances. Em particular, dois tipos deliciosos da mais importante escritora de policiais tiveram revistos seus cálculos: Miss Marple e o insuperável Hercule Poirot. 

Mas a lista é bem longa e antiga (felizmente). Em 1870, o grande Alexander Graham Bell, publicamente declarou sua dificuldade em aplicar lições da matemática e reforçou a afirmativa dizendo que sempre precisava de alguém para conferir seus cálculos, reavaliar se estavam corretos, mesmo nas “continhas” domésticas. O inventor do telefone não sabia bem a tabuada e sempre que em dúvidas, usava os dedos para operações simples de soma ou subtração. 

Fiquei incontido quando, outro dia, li artigo que retomava um ensinamento importante do empresário Stephen Jobs, um dos fundadores da Apple. Dizia ele que com o uso dos aparelhos eletrônicos, a matemática poderia ser assunto de especialistas e que os cidadãos comuns a precisavam apenas para efeitos práticos do dia a dia. Completando, afirmava que “a matemática é fundamental nas escolas para exercitar o raciocínio e deve ser motivada com alavanca”. É claro que me valem referências das dificuldades que também assolaram atores como Elizabeth Taylor e Marlon Brando; saber que Maria Callas e Maysa eram ruins de calculo foi tão bom quanto registrar que Carlos Drummond de Andrade e João Cabral também pelejavam com a matéria. É claro que respeito os adeptos da disciplina. Claríssimo. Na verdade, sinto até a tal “inveja branca”, mas confesso também que se não fosse pelos problemas que enfrentei vida a fora com essa área, talvez, não estivesse tão feliz por ser quem sou como modesto historiador.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

TELINHA QUENTE 343



Roberto Rillo Bíscaro

Reconforta que a Netflix lance séries de países fora do circuito anglófono, ou melhor, fora dos Estados Unidos, porque anglófono englobaria Nova Zelândia, mas o mais próximo dela no serviço é Top Of The Lake. O sucesso da espanhola La Casa de Papel e da catalã Merlí prova que bem divulgadas e boas, produções “estrangeiras” (nos termos das categorias propostas pela Netflix, como se ianques não o fossem) podem ser bem-sucedidas.
A Noruega foi o penúltimo dos países escandinavos a ser descoberto por suas séries e a nossa Netflix já adicionara Nobel a seu catálogo no fim de 2017. Em março de 2018, foi a vez dos 8 capítulos de Grenseland, chamada pelo nome internacional em inglês, Borderliner.
Anima a curta defasagem entre sua exibição pela TV2, na Noruega, em novembro, de 2017, e a oferta, inclusive dublada, no catálogo brasileiro. Dizem que é por se tratar de coprodução com a Netflix. Se é assim, por que, então, a finlandesa Sorjonen ainda não fora oferecida pra nós, uma vez que foi ao ar originalmente, em 2016 e está creditada como coprodução também? E é mais legal do que Grenseland...
Não que a norueguesa não seja competente, mas há melhores no cardápio do próprio país, como Frikjent, Okkupert ou a sensacional segunda temporada de Mammon.
Grenseland é Nordic Noir tipo exportação; parece que os roteiristas iam ticando as características formo-temáticas do subgênero, mas sempre fica uma nota abaixo de obras-primas como Forbrydelsen ou Bron/Broen (talvez eu queira demais, também).
Em pequena, brumosa, cinza e fria cidade na fronteira com a Suécia, um crime é cometido, além dum suspeito desastre de automóvel. De Oslo, chega o policial Niko, meio de licença, porque está prestes a testemunhar contra veterano colega de farda, popular e amado pela corporação. Niko não é intrinsicamente atormentado como sua predecessora Sara Lund ou socialmente inapto como sua contemporânea Saga Norén, mas tem seu segredinho, que, no contexto escandinavo pesará mais pelo aspecto ético da investigação do que por fardo de opróbrio social.
O problema é que o paladino da transparência, honestidade e ética policiais logo descobre que seu irmão, também meganha, está atolado até o pescoço não apenas no crime, mas em seus antecedentes e desdobramentos. Como lei é só pra zinimiga, Niko ajuda o mano, mas claro que tudo se transforma numa bola de neve com policial local desconfiando, ramificações com o caso do policial em Oslo, drogas, o pai e alguma coisa mais. 
Grenseland consegue aliar tensão e clima macambúzio com aquela incidental veladamente ameaçadora e sombria. Mas, não todo o tempo, como em seus congêneres mais famosos. Pra quem é mais paciente com certa lentidão, funciona, mas quem não dá conta de certo vagar e momentos sem diálogo, estranhará.
Se você já é escandinófilo ou se acostumou a produções europeias menos bombásticas que a Netflix disponibiliza, tipo A Louva-a-Deus ou Glacê, manda brasa. Se não, tente antes botar os olhos em algumas das norueguesas citadas lá em cima ou em Forbrydelsen (tinha na Netflix, sob o título The Killing, mas cuidado pra não cair na armadilha da porcaria da releitura norte-americana!) ou Bron/Broen (não vale a refilmagem The Bridge que também tem na Netflix).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ANDREZA ARRASA

Andreza Aguida, a albina que faz de sua autoimagem uma forma de ativismo
"O albinismo traz limitações e cuidados, mas não impossibilita a gente."
Começa de costas, com dois ventiladores em funcionamento, um de cada lado. O longo cabelo branco se move de acordo com o vento. Aos poucos, Andreza Aguida, 38 anos, se vira. Às vezes fecha os olhos por alguns instantes, altera a velocidade dos ventiladores e o cabelo continua voando pelo seu rosto de forma aleatória. Ao fundo, coloca uma projeção de tempo ruim e segue ali, em pé, entre o vento. Esta é uma das performances criadas por ela. “Chama ‘Brincando com a Tempestade’ e dialogo muito como o meu processo histórico. Questiono essa questão da figura da mulher, vista como frágil, aliada ao albinismo e às questões de pele sensível, problemas de visão e fico brincando e me movimentando e a mensagem é estar firme e íntegra em meio às tempestades da vida, porque elas passam”. Andreza passou por várias delas ao longo da vida e resolveu colocar essa experiência pessoal em seus trabalhos artísticos. “Eu vivo isso ainda, as pessoas me fragilizam muito por causa da condição de albina e também pelo feminino. Uso todas essas indagações para criar”.
Hoje, grande parte de seus trabalhos está diretamente ligado a sua identidade e sua imagem. Considerada uma doença pelo Classificação Internacional de Doenças (CID), Andreza tem albinismo, mas não gosta de associar sua condição a um estado de saúde frágil. “Não falo que sou doente, falo que sou albina. É uma doença, mas o albinismo em si não te mata, mas traz consequências que podem te matar. Eu prefiro definir como uma condição genética porque o que acontece é que muita gente vê os albinos como coitadinhos e estamos num processo de quebrar isso. É uma doença porque está no Código Internacional de Doenças, mas estamos vivendo, eu trabalho, estudo, faço um monte de coisa. Traz limitações e cuidados, mas não impossibilita a gente”.



E ela que o diga. Formada em engenharia elétrica, trabalhou durante dez anos na área. Depois, após uma demissão e uma desilusão com a carreira, foi fazer, aos 28 anos, uma nova formação em educação física. Fez intercâmbio, morou em Portugal por seis meses, viajou sozinha, fez um curso no Japão, fez mochilão. Deu aula de elétrica na Fundação Casa e de alongamento no Parque da Água Branca, em São Paulo. Em meio a tudo isso, começou a se envolver com trabalhos artísticos. Hoje, faz performances, canta em hospitais e atua como modelo também. Além disso, participa de grupos de albinos para disseminar e trocar informações e promover debates sobre o tema.

O grande objetivo que tem com todas as suas atuações é mostrar que ela, assim como qualquer outra pessoa albina, é capaz. “Tem albino que se aposenta precocemente porque é pessoa com deficiência e pode fazer isso. Mas eu não quero ser uma pessoa que pode se aposentar, quero que se vejam como capazes de trabalhar e conseguir coisas. A aposentadoria existe, é um direito, mas não justifica me aposentar por invalidez porque eu não sou inválida. Tento mostrar que é mais interessante você vislumbrar um emprego, conviver com outras pessoas, fazer, agir, existir e não ficar em casa, porque muitos se submetem e a isso e é uma batalha não cair nessa visão do assistencialismo”.


Outra via forte do trabalho de Andreza é em relação aos processos de aceitação – sempre passando pelo seu próprio também. “Como comecei a dar minha cara a tapa, mostrar minha imagem, sair com o cabelo sem pintar, outros albinos também começaram a ressignificar esse olhar, ver beleza na própria imagem porque muitos escondem, pintam a sobrancelha e o cabelo para passar despercebida e eu não passo despercebida, não tem jeito”. E nem quer isso. Exibe com orgulho seus cabelos e se mostra confortável com sua condição hoje. “Não condeno quem queira pintar, mas acho que o intuito é mostrar que ela pode pintar, mas ao mesmo tempo também pode valorizar e ver beleza em sua essência, que é o branco. Sem condenar, um monte de gente pinta o cabelo, mas uma coisa é pintar porque quer diversificar e outra porque quer se esconder”.

Mas sabe que não é um processo fácil. Desde adolescente enfrenta limitações e deixa claro há dificuldades. Andreza lembra que com seus 13 anos era “bem rebelde”. O tipo de albinismo que ela tem afeta a visão – por causa da ausência de pigmentação isso pode acontecer, mas não afeta todo os albinos. Andreza tem acuidade visual de 10% – e isso era algo difícil para ela. Conta que queria andar de bicicleta, fazer as coisas sozinha e se sentia limitada. “Mas com uma 16 anos me deu um clique de que precisava me aceitar e que as coisas não iam mudar, a realidade é essa”.

Assim encarou a vida e suas vontades. E não se deixou abater. Foi estudar, buscou suas coisas. Sofreu durante a faculdade, mas concluiu o curso e criou uma carreira. E depois resolveu mudar tudo quando sentiu que algo estava faltando. “Na engenharia faltava uma humanidade e para mim foi mais difícil ser mulher do que ser albina, ouvi muita coisa, sofri bullying, a turma dos maldosos chacotavam mesmo, me colocavam lá embaixo, era um alvo de piadas e fui engolindo sapo”.

E quando mudou tudo, junto com a nova carreira, encontrou o seu próprio corpo. A presença em academia começou na época em que era engenheira, para desestressar, e ficou encantada com a relação entre professor e aluno e quis investir nessa profissão. “Na educação física descobri a corporeidade, eu não tinha nada, era só área técnica, nunca tinha olhado para o corpo e fui descobrindo isso”. Começou a participar de workshops, eventos e logo estava criando projetos com suas performances – e sendo contemplada. “O primeiro eu chamei de ‘Percebendo’ e eu dialogava com o espaço físico, sem privilegiar a visão. Eu questionava o que você acessava do espaço, sentir as texturas porque geralmente você faz a leitura visual, mas não encostou em nada. E a partir disso deu certo, comecei a dialogar com a minha imagem e foram acontecendo as coisas”.

Abraçou essa nova carreira. E paralelo a isso, Andreza já atuava há bastante tempo com o grupo de albinos. Ela criou uma comunidade nas redes sociais a partir da vontade de conhecer outras pessoas como ela. “Eu tenho mais dois irmãos albinos e queria ver outros, não tinha visto mais nenhum na vida e fui pesquisar na internet e só tinha comunidade negativa. Era coisa como ‘tenho medo e nojo de albinos’, ‘brancos feios’, era horrível e aí resolvi criar uma”. Hoje o grupo já migrou de plataforma e conta com cerca de 1700 membros, entre albinos e pais de crianças albinas. No futuro, ela gostaria de criar uma associação de albinos e pretende atingir mais pessoas.

Segundo Andreza, quem mais precisa de assistência são aquelas que não acessam a internet. “Minha preocupação é com essas pessoas. Mas hoje tem mais informação. E acompanho os projetos de lei no senado, escrevo para os deputados, falo da necessidade de políticas públicas, mostro que a gente existe, que não é uma ilusão. Há um projeto de política nacional voltado a quem tem albinismo para distribuição de protetor solar para pessoas de baixa renda, distribuição de óculos. Isso é importante”.

Acredita que será possível conquistar esses direitos. Pode levar um pouco de tempo, mas isso faz parte, ela bem sabe. E está tranquila e disposta a esperar – e batalhar – por essas mudanças. Como fez em outros momentos de sua vida. “Fui levando mais na esportiva até os apelidos. Quando me chamavam de ‘branquela’ eu odiava. Hoje, se falam isso, eu digo que sou mesmo. Se estão me olhando muito, eu mando um beijo, dou tchau, comecei a mudar a forma como dialogava com isso. Hoje eu uso a minha imagem a meu favor. Tudo que eu vivi, fez eu ser o que eu sou”.

Não importa o tamanho – e a força – da tempestade.

CAIXA DE MÚSICA 348


Roberto Rillo Bíscaro

Em 1979, o vocalista/tecladista Gary Daly e o guitarrista Eddie Lundon formaram o China Crisis. Como eram dos arredores de Liverpool, assim como o OMD, Echo & The Bunnymen e A Flock Of Seagulls, a imprensa musical inventou uma espécie de cena, que jamais houve. Eram (hmmmm, são, porque todas ainda existem) propostas diferentes.
Com formação flutuante, o China Crisis (CC) não passou de sucesso mediano: a colocação mais alta nas paradas britânicas de álbuns/singles não passou de oitavo e isso se repetiu no resto do mundo com dinheiro pra consumir, dos anos 80.
Gary e Eddie descontinuaram o CC, em 1995, mas faziam ocasional show aqui e acolá; de vez em muito quando, até nos EUA e mais frequentemente naqueles lugares sedentos por velharias 80’s, tipo Filipinas.
Não me recordo de China Crisis nas FMs do sertanejo oeste paulista, na minha década favorita. Pelo menos não de 83 pra frente, quando obtive acesso a essa frequência modulada. Conheci-os na era do Youtube, quando me inteirei de delícias ora amadas como Nowhere Girl, do ainda mais obscuro B Movie. CC não me convenceu, ouvi diversas faixas e me soaram sem sal, com alguns maneirismos de produção superfaceless, daí não tentei mais.
Os algoritmos do Spotify perceberam que pesquiso e escuto bastante coisa relacionada aos 80’s e há algumas semanas sugeriram-me lançamento do China Crisis. Constava que Autumn in the Neighbourhood fora lançado ano passado. Como sempre dou chance a oitentistas, aventurei-me na primeira canção e a sonoridade estava bem mais orgânica, acústica, sem aquele verniz genérico de quando quiseram ser New Wave.
Dois ou três trechos mais e já baixava pra ouvir offline, enquanto procurava por informações sobre. Confiar em data do Spotify é como crer em promessa de campanha: Autumn in the Neighbourhood saíra em junho de 2015! Como o Swing Out Sister, Daly e Lundon recorreram à vaquinha no PledgeMusic para produzir as onze faixas.
Eliminadas as camadas de teclados despersonalizados e a bateria eletrônica artificial, Autumn In The Neighbourhood ficou uma delicinha naquela vibe adult contemporary.
Smile começa os trabalhos com arremedo de música “clássica”, que me remeteu imediatamente à versão extended de Since Yesterday, do Strawberry Switchblade, antes de se transformar numa espécie de New Wave semiacústica, composta por quem ouviu muito Ashes To Ashes, quando adolescente. E é também em clima New Wave, mas em registro mais midtempo, que termina o álbum. Quem ouvia FM no início dos 80’s, não terá objeção alguma.
Cheio de melodias lindas, o China Crisis compôs um álbum integralmente agradável. Quem curte Prefab Sprout encantar-se-á com Down Here On Earth, mas aposto que muito devoto de Burt Bacharach não resistirá ao charme easy listening de Fool. Totalmente Tears For Fears, encarnação Advice to the Young at Heart, até com guitarrazinha soft rock.
Easy = fácil. Assim é tudo, independentemente das inflexões. A faixa-título, Being In Love e Bernard incursionam pelo blue-eyed soul. Essa última tem até coro de menina fazendo papapapa; assim não guento!
Because My Heart tem guitarrinha country, que também assombra a maior parte da longa introdução de Tell Tale Signs. Wonderful New World passeia bem pelo gosto do indie rock atual, que pode ser apreciada por certos fãs de Belle And Sebastian (sonicamente, não em termos de letra, claro). Joy And the Spark é tão balada oitentista que tem até discreto saxofone, instrumento-símbolo da década. My Sweet Delight faz jus ao nome, com seu delicado clima de valsinha folk, com acordeão e tudo.
Quem diria que o China Crisis me conquistaria apenas em sua encarnação século XXI? Pra ver como os anos 1980 recusam-se a morrer.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 270


Roberto Rillo Bíscaro

Fãs de filmes sci fi cinquetistas volta e meia devem se perguntar se as plateias da época associavam tudo ao perigo comunista, a não ser que citado, o que era frequentemente o caso. Mas, será que um louva-a-Deus gigante mutante visto através dum vidro de automóvel num drive in, faria Regular Joe ligá-lo aos russos? Ainda mais se ele estivesse com a mão no meio das pernas da Regular Mary...
O Planeta Vermelho (1952) é daqueles exemplos acadêmicos, de laboratório, de como uma pá de filmes da época usavam a ficção-científica como veículo pra mensagens paranoicas de perigo soviético. Red Planet Mars (RPM) é pura propaganda ideológica; há quase nada de ficção-científica, mas sobram ufanismo ianque e fervor religioso.
A despeito do receio de sua também cientista esposa, o doutor Chris Cronyn começa a mandar mensagens a Marte, porque fotos indicam atividade nos “canais”, que só podiam advir de ação inteligente. Já em 1952, astrônomos haviam descartado a noção século XIX dos canais marcianos. Pra ter ideia da fanfarronice de Red Planet Mars.
Em pouco tempo, Marte começa a enviar mensagens à Terra, sobre os avanços na vida de lá, que faz com que o sistema econômico capitalista colapse. Mas isso está longe de ser o fim, por que o que fazer com os soviéticos? Esses são explicitamente citados e “mostrados”, quando mensagens de Deus começam a ecoar pela Terra. É como se o criador tivesse escolhido Marte pra viver (e ninguém se toca que isso é herético pra chuchu, porque esses produtos mexem com ilogismos). A ateia Cortina de Ferro não resiste às revoluções causadas pelas mensagens divinas (óbvias, óbvias) e o mundo passa a viver numa teocracia. Só não se sabe vivendo do quê, se capitalismo e comunismo parecem ter ruído.
Mas, a coisa não para por aí, porque antes do fim, um vilão invade o laboratório e revelará que parte da destruição do mundo profano foi responsabilidade dele, não de divindade. Olha só, ele era ex-oficial nazista cooptado pelos comunas. Red Planet Mars não esconde nada; é panfletão descarado, tipo, ainda odiamos alemães, cuidado com eles, porque eles são iguais aos comunistas. E não é que ainda hoje no Brasil, muita gente acha que nazismo é de esquerda? Daí tem gente que se pergunta como esse tipo de filme consegue funcionar. Assim, pela desinformação generalizada.
Baseado numa peça teatral, RPM não tem quase externas, é em preto e branco, está cheio de diálogos pomposos e melosos e piadinhas ruins. Quando o garotinho está segurando uma fatia de torta (pie, em inglês) e sugere que se use o Pi (pronunciado como torta, em inglês) pra comunicação com Marte, por ser “universal”, a gente não sabe se ri ou cai em pranto.
E se você acha que uma personagem num filme desse tipo se chama Chris à toa, engana-se. Pra Cristo, em inglês, só falta um t. Assista e veja o que acontece.
Mas, se decidir ver, cuidado. Red Planet Mars pode causar risos histéricos, frêmitos orgásmicos, calafrios reconhecedores ou vômitos diarreicos. Tudo depende de sua posição ideológica. Só é difícil ficar indiferente.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 347


Roberto Rillo Bíscaro

Vamos iniciar o ano com uma trinca de vozes negras femininas, que poderiam ter mais reconhecimento?

Quando não se tem a estrutura promocional sequer de gravadora pequena, o artista tem que fazer bastante show e sua fama ir crescendo pelo boca-a-boca. Conya Doss e sua multiplicidade de influências encaixa-se na categoria.
Sua sedosa competência vocal pode não ter fama global, mas longevidade e alta qualidade já lhe garantiram a alcunha The Queen Of Indie Soul.
Natural de Cleveland e fã de Bonnie Raitt, The Doobie Brothers, Stevie Wonder, Prince, Nina Simone e símiles, Conya lançou seu primeiro álbum, em 2002, quando lecionava para crianças com necessidades específicas.
Merecidamente querida de sites especializados em música negra, Conya Doss lançou seu oitavo álbum em outubro. Clear tem treze faixas que agradarão muito a fãs de soul music de fim dos 70’s/primeira metade dos 80’s.
A maioria das faixas navega em variações de urban soul e quiet storm, muito elegantes, deslizáveis. Homogeneidade é bom, mas quando algo apresenta elemento diferenciador, imediatamente se destaca. É o caso do adorável chuvisco de piano em Until; o jazz mais proeminente de Don’t Rain ou a balada mais incisiva de Unbreakable. O único número agitado é a midtempo disco Get Off Of Your Ass e é só no final que aprecem as duas faixas com dado contemporâneo, trap. Em Hurricane, há que se prestar atenção pra detectar o moderado nervosismo que acompanha o doce vocal e o pianinho. Misconception é onde a modernidade se faz mais audível e se Clear fosse inteiro nessa toada, não se destacaria do pedestre da produção atual.
Lynne Fiddmont está na indústria há um bom tempo e experiência é o que não lhe falta. Natural de St. Louis, já fez backing pra Stevie Wonder, Natalie Cole, Phil Collins, Barbara Streisand e Seal.
Em carreira-solo também lhe sobra prática: ano passado, saiu seu quarto álbum, Power Of Love. Dúzia de covers e originais muito bem produzidos e difíceis de desagradar corações sequiosos por slow jams de soul e afins.
Quer dizer, são onze faixas, porque os primeiros segundos são ocupados pela dispensável vinheta Sing It Chace. Que mania esses cantores soul hoje têm de colocar essas coisas nos álbuns; neste caso ainda, uma criança desafinada. Cortei quando fiz a playlist.
A parte musical é hino pra quem ama old school setentista/oitentista. Navegando pelo soul jazz, como em Daylight, Go e Memory Lane, Lynne oferece produto elegante e extremamente bem cantado. Quando se distancia do urban soul predominante, ela também brilha. Power of Love, a faixa-título é jazzy na tradição sexy chique, de Sade, com saxofone e tudo. Walkin’ On Rainbows é disco funk momento mais saltitante de Power Of Love. Groovy People tem sabor Motown e quem amava Djavan nos 80’s, adorará o arranjo. E por falar em Brasil, é no sambinha que pretende virar sambão, de Good Time Party, que o álbum leva seu maior escorregão. Tentando contextualizar a diversão de festa do título, a canção tem incessante ruído de fundo de gente rindo e conversando alto, como se se divertindo. Eles podem estar tendo um tempo bom, mas o ouvinte se irrita com o converseiro. Parece vinheta alargada. Basia e seu Matt Bianco fazem samba melhor. Outra exilada da playlist.
Fiddmont faz duas escolhas corajosas de cover. Imagine - aquela canção anticapitalista ateia, que tantos cristãos privatistas amam – troca o predomínio de piano de Lennon, pela supremacia das cordas e transforma o clássico em soul. Para os fãs deste estilo, porém, o grande desafio é Lovin’ You, da falecida-cedo-demais Minnie Riperton. Se você é jovem demais, melhor contextualizar. Escute a versão original:


Como competir ou rivalizar esse arranjo tão destemidamente doce de Steve Wonder e o alcance vocal de Minnie depois do doo roo doo roo? Essa é uma das canções mais idiossincráticas da soul music. Lynne Fiddmont se sai bem ao não tentar imitar Minnie, num arranjo mais jazz mainstream esfumaçado, cujo vocal intensifica-se e sofistica-se aos poucos. Ficou outra coisa, ficou boa. (mas, sempre dava vontade de ouvir a da Minnie, afinal, sou da época em que tocava no rádio AM e tudo, então, é a versão eterna, a única que me faz sentido). 


Outra grande vocalista, que lança álbuns independentes e possui poucos ouvintes nos Spotifies da vida é Lori Williams. Por isso, é importante rede blogueira/de sites divulgadora e ouvintes curiosos pra procurar novidades, que não aparecem nos hegemônicos Faustão ou SNL.
Filha da rigorosos pais batistas, Lori cresceu ouvindo gospel, na capital norte-americana, mas expandiu seus gostos pra Prince, Michael Jackson e vocalistas de jazz, à Anita Baker, aos quais, aliás, os álbuns de Lori servem como luvas.
Influenciada pela mãe professora e ciente de que deveria ter profissão segura, porque nem todo mundo ganha grana só com música, Williams se formou docente e hoje divide seu tempo entre festivais de jazz ao redor do mundo, lecionar, ensaiar corais, fazer backing vocals pra gente como Maysa Leak e Phil Perry e lançar álbuns.
O mais recente é Out Of the Box (2018), cujo título refere-se a sutil guinada estética. Em 2017, Lori Williams já soltara single “fora de seu quadrado”: Déjà vu foi popularizada mundo afora, em 1979, por Dione Warwick, mas não é jazz, com o qual Lori sempre esteve associada. Trata-se de elegante soul. Esse é o pensar fora da caixa da norte-americana: ela abraçou um estilo mais neo-soul ou soul jazz, que não pode escapar do radar de quem ama Quiet Storm, Acid Jazz e adjacências.
O álbum é deleite do começo ao fim. Desde a elegância dos nuançados arranjos de confeitos dândis, como Sailing On a Dream, que farão a glória de fãs de FM sofisticada de fins dos ‘70’s até hoje. A voz sedosa de Lori merece que retornemos pra ela um dos versos de I Like The Way You Talk (To Me): I love the sound of your sweet, sexy voice. Duvido que fãs de Basia não amem I Can’t Help It.
Quem curte Anita Baker, Maysa Leak, não pode deixar de ouvir Out Of The Box, aliás, Maysa participa de Where’s That Smile. O álbum tem umas 3 ou 4 faixas com bofe duetando ou participando, tem uma que até começa com dialogo meio sexy à Barry White: Let’s Walk, cuja percussão orgulharia Sade. Quando entrar o solo de trompete na mkidtempo Hold On, você começará a desfilar e jogar o cabelo pra tudo quanto é lado. Podre de chique. Our Love is Real parece lenta arrasante da Rose Royce, começando.
O único momento jazz mais denso e só com piano é a clássica ‘Round Midnight, da lavra 194entista de Thelonious Monk. Lori Williams tem voz treinada o suficiente pra dominar o complexo fraseado jazz, mas em um álbum de arranjos tão polidos de neo-soul, a canção fica meio fora de lugar. Mas, longe dizer que compromete. Nada. Recomendo com fervor.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

PAPIRO VIRTUAL 130


Roberto Rillo Bíscaro
Sempre que cabível/possível, comento sobre convenções de meu subgênero de horror predileto, os slasher films, especialmente ao destacar produções que as subvertem ou escancaram.
André Campos Silva, que se doutorou em 2014, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS), prefere chamar esses lugares-comuns de clichês, em sua tese O Processo Comunicacional do Clichê Cinematográfico em Filmes de Terror Slasher. Bem que ele poderia, de vez em quando, ter substituído clichê por convenção, lugar-comum etc. Menos repetitivo.
A pesquisa problematiza o clichê no cinema, entendendo-o como processo comunicacional que ajuda a contribuir com a compreensão da forma e do conteúdo dos filmes. O foco do estudo recai sobre os clichês presentes no subgênero de terror slasher, por meio de conexões com o arquétipo da sombra. Ou seja, o autor tenta abordagem meio psicanalítica. Mas, ela jamais se dá em profundidade (ainda bem, fica mais fácil de ler pra nós que queremos apenas aprender mais sobre a parte “técnica” dos filmes)
Tratando-se de texto acadêmico, há os necessários capítulos de conceituação, dos quais o único não tão interessante pra quem só quer se informar sobre filmes de terror é o terceiro, que aborda o discutível conceito de clichê, usado por André.
O restante é bem informativo ainda que se discorde das ferramentas analíticas. Ele tem que fazer passeio pela diferença de horror, terror, fantasia e ficção-científica; conceito de protagonista, herói.
Ele conta que assistiu a dezenas de filmes slasher (quais?) e escolheu meia dúzia, que representariam a idade de ouro do subgênero. Na verdade, são menos, porque uma das produções é um dos pais dos slashers, o hitchcockiano Psicose. Não entendi sua inclusão na parca lista, uma vez que muitos dos clichês nem se aplicam, porque Psicose é slasher. E há filmes sequer citados que prenunciam e até criam alguns dos clichês, como Black Christmas. Indubitável a necessidade de apontar a importância de Norman Bates como inspiração (O Sam Loomis de Halloween não tem esse nome por acaso), mas daí teria também que ter falado de A Bay Of Blood (1971).
Além do clássico de 1960, André usou Halloween (1978), Sexta-Feira 13 (1980), A Morte Convida para Dançar (1980), Dia dos Namorados Macabro (1981) e A Hora do Pesadelo (1984). Se tivesse usado Acampamento Sinistro (1983), Chamas da Morte (1981) e tantos outros, daria muito mais consistência ao capítulo onde apresenta os clichês, corretos, mas algumas vezes, sub-explorados.
O Processo Comunicacional do Clichê Cinematográfico em Filmes de Terror Slasher está disponível para leitura/download grátis e legal, no link:

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 269



Roberto Rillo Bíscaro

Larry Hagman vivera mais de meio século com a esposa Maj, ao falecer em 2012. Quando perguntado sobre o segredo pra tal longevidade matrimonial, o eterno JR Ewing respondia que o essencial era ter banheiros separados. A maioria de nós não mora em ótimas mansões em Malibu pra se dar esse luxo, mas metaforicamente, significa que há espaços sagrados, que necessitam ficar desconhecidos até pros mais íntimos.
Os amigos de Perfectos Desconocidos (2017) e Nada a Esconder (2018) estupidamente desobedecem a esse mandamento hagmaniano e têm uma noite cheia de revelações desastrosas. Ambas as produções contam a mesma história, adaptada também na Itália, enfim, trata-se dum hit europeu, que pode chegar aos Estados Unidos em breve. A Netflix possui, respectivamente, as versões espanhola e francesa. Não objetivo discutir as diferenças entre ambas, mas existem, especialmente no tom: a espanhola é mais colorida, vibrante e passional. Isso não significa que seja melhor, afinal, têm a mesma espinha dorsal defeituosa, mas que consegue gerar prazeres culposos: isso ocorre quando você sabe que está vendo bobagem homérica, mas adora.
Em atípica noite de eclipse lunar, sete amigos decidem fazer um jogo. Colocam os celulares sobre a mesa e a regra é tornar público o conteúdo de qualquer chamada, email ou notificação de mensagem. Aos poucos, os segredos afloram e a brincadeira torna-se intensa jornada noite adentro. A premissa é absurda: adultos sujeitando-se a tal estupidez e não parando, quando as coisas começam a complicar, é uma das concessões de descrença que temos de fazer ao roteiro.
O que prende o espectador e desculpa a bobeira é que as revelações acabam por tocar em temas como homofobia, hipocrisia e (in)fidelidade, sobre os quais todos gostamos. Estruturalmente, Perfectos Descooncidos/Nada a Esconder são degradações dos dramas de sala-de-estar e do realismo psicológico norte-americano, que têm dado ao mundo gritarias estridentes em palcos, telonas e telinhas, há décadas. Quem curte teatro filmado, gostará, observadas as ressalvas de aceitar a premissa forçada e a preguiça da “resolução”, que metamorfoseia um dos truques mais baratos e desonestos de construção de roteiros. Mas, não posso falar sem revelar o que acontece.
Na era dos GPSs, smartphones, redes sociais em profusão, dizem que a intimidade está morrendo. Ambas produções tentam criticar essa violação, por vezes voluntária, dos eus. Resulta que a crítica é rasteira como a cultura de que finge não gostar, e, no caso específico da homofobia, a “mensagem” é até conservadora.
De jeito algum dá pra dizer que Perfectos Desconocidos/Nada a Esconder são alta cultura. Também são bofetadas nos tolos que insistem numa suposta superioridade de tudo que é feito na Europa. Nada, eles produzem tolices à mancheia, e, nesse caso, gostosas de ver. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MELHORES DE 2018 – PARTE II

Roberto Rillo Bíscaro

Tradicionalmente, o blog divide seus melhores do ano, segundo os semestres. Assim, pra ver os favoritos da primeira metade de 2018, clique aqui.

Pra quem não sabe, o critério pra entrar nas listagens de melhores de... é ter sido resenhado no blog, não importando o ano de produção.  

Vamos aos mais gostados do segundo semestre do defunto 2018:

CINEMA
My Happy Family – aula de cinema, que mostra os fatos,  ao invés de ruminar sobre eles.
Flores - quem já sofreu perda e consegue avaliar os malabarismos emocionais que faz pra manter certa sanidade, se encantará e até verterá lagrimazinha. 
First They Killed My Father – Angelina Jolie dando aula de direção.
Anomalisa – Obra-prima em stop-motion, sobre um homem em crise de meia-idade.
When the Wind Blows/Grave of the Fireflies – animações de arrebentar o coração, sobre gente muito vulnerável sofrendo por causa da guerra.
Downrange – pérola sangrenta do cinema de horror contemporâneo.

MÚSICA
No Tourists, The Prodigy – Britânicos continuam tão agressivos, como nos anos 90.
Sertanília – Os dois álbuns do grupo baiano são maravilhosos.
A Symphonic Journey, Renaissance – Veteranos do prog inglês ainda encantam.
Ricardo Borges, Inverso – delicado álbum de estreia do jovem gaúcho, que pode ser baixado grátis.
Conrado Pera, Enlaçador de Mundos – Como aponta o título, um amálgama de vertentes da música popular brasileira, mas não só.
La Notte Anche Di Giorno, La Coscienza di Zeno – O segundo álbum dos italianos é obra-prima do prog contemporâneo.
Cabaça D’Água, Alberto Salgado – Dá pra entender, porque Chico Buarque é fã deste álbum.
Ascension, A Flock Of Seagulls – Ótima oportunidade para reavaliar a importância desses New Wavers ingleses.
Il Cerchio d'Oro – Os dois primeiros álbuns da banda italiana são puro sinfônico anos 70.

LITERATURA
Desamparo, Fred di Giacomo – Estreia que entrelaça história com realismo-mágico de forma envolvente.

TV
Hitler’s Circle Of Evil – série documental viciante, que noveliza o núcleo-duro do Nazismo.
King Charles III – telefilme shakespeariano, que imagina um príncipe Charles assumindo o trono e virando déspota.
Mamon – A segunda temporada da série norueguesa é tão superior à primeira, que merece ser vista sozinha.
O Fugitivo – Clássico dos anos 1960 ainda funciona nos dias de hoje.
Mr. Selfridge – Downton Abbey menos pretensiosa e por isso mais ágil.
Succession – A sátira shakespeariana do absurdo da HBO às soap operas norte-americanas é genial na sua amoralidade, pena que pouca gnete viu.
Sorjonen – Outro detetive esquisitão do norte europeu.
The Inbetweeners – comédia adolescente inglesa, rude e deliciosamente vulgar.
Assédio – O Brasil também sabe fazer minissérie boa.
http://www.albinoincoerente.com/2018/12/telinha-quente-341.html

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TELINHA QUENTE 342



Roberto Rillo Bíscaro

Quando descobri que o original de Segredos e Mentiras era australiano, vi um seguido d’outro: primeiro as duas temporadas da cópia norte-americana (tem na Netflix) e depois a matriz.
Com a minissérie The Slap experimentei. Como Secrets & Lies, a original é australiana e a releitura, ianque. Ambas são adaptações do romance homônimo do greco-australiano Christos Tsiolkas. São leituras do mesmo livro e não série original e adaptação. Mas, como o blog não se presta a discussões acadêmicas, sigamos com minha experiência: por se tratarem de oito episódios, escolhi dias em que tinha tempo de ver dois: primeiro o australiano, imediatamente depois, o estadunidense. Foi assaz instrutivo.
O Tapa envolve o antes e o depois de um incidente em uma festa entre parentes e amigos. O insuportável garotinho Hugo faz tanta pirraça, que um amigo da família o esbofeteia com gosto e vontade, bem no meio da fuça. Isso vira litigio judicial e suas implicações nas vidas e relações das personagens são abordadas em capítulos que levam nomes de alguns deles, como a dizer que o foco está neles no episódio tal.
Se eu me interessasse em ministrar curso de roteiro ou análise de, adotaria esse experimento para compor toda a disciplina. Apesar da espinha dorsal do show australiano estar replicado em detalhes, trata-se de duas abordagens diametralmente distintas. Os australianos fizeram mini centrada nas personagens, ao passo que sua parente americana, tipicamente, salientou a trama.
Tal efeito foi conseguido através de inúmeros estratagemas – daí esse experimento poder virar uma disciplina de pós, facinho, facinho. São tempos diferentes em cada episódio; mudança na ordem de alguns; ocupações e classe social distintas; detalhinhos como um tiozinho preferir cocaína e o outro maconha (maconha é ‘do bem”, até presidenciável defende já, sacam a sutileza?); um ancião que tem ereção matinal e outro que tenta arremedar seu papel de patriarca já sem função, conseguindo um advogado predador; um aborto aqui, uma mãe terminal acolá.
As diferentes abordagens fazem com que a versão australiana tenha certo jeitão de cine indie, ao passo que a posterior,  mais de novelão metida a visual de filme de Woody Allen (a ianque se passa em Nova York). A leitura dos Estados Unidos é mais autocentrada em seu universo de classe-média alta, enquanto a original flui muito mais para questões de multiculturalidade. Sob esse prisma, dá pra perceber direitinho, como o arco-íris de tons de pele na atual TV norte-americana é mera ilusão.
Não posso dizer ter gostado mais duma ou doutra; ambas têm perdas e ganhos, mas uma coisa me incomodava e foi a norte-americana que, mesmo que de raspão, comentou isso. Que bando de gente idiota é aquela que leva aos tribunais um assunto desses, sem jamais questionar esses pais que não deram a menor educação ao pirralho? Mais de um expectador certamente terá ganas de esmurrar o menino, que usa raros discos de jazz como frisbee e cospe em idosos. Sorte que a juíza ianque dá uma lavada naquela gente, que, de verdade, precisava dumas cozinhas bem sujas pra lavar e ocupar as cabeças ocas. Especialmente as da versão norte-americana, mas lembre-se de que a ênfase aí é na trama. Viu? Perdas e ganhos...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 346


Roberto Rillo Bíscaro

Houve tempo em que Burt Bacharach era sinônimo de cafonice. Hoje, a palavra cafona pereceu e houve “reavaliação crítica” (gargalhada) e ninguém se atreve a disputar seu lugar no panteão dos maiores compositores populares do século passado.
Como jamais dei bola pra essas coisas, sempre amei Burt com abandono. Pra mim, a melhor coisa dos anos 60 e uma das melhores da primeira metade dos 70’s (porque daí já havia philly soul, Genesis).
Quando sei dalgum lançamento bacharachiano, ouço. Não que os busque, porque os originais significam tanto pra mim, mesmo repetidos milhares de vezes.
Soube de dois, um deles de material original, então não podia deixar de comentar.

Há meio século, Dionne Warwick era estrela internacional de primeira grandeza. O semiesquecimento de hoje é muito injusto. Negra e gravando em selo independente fundado por mulher, Warwick cravou diversos sucessos nas paradas.
Na Scepter Records, Dionne gravou as primeiras versões, que não poucos julgam definitivas, de músicas de Burt Bacharach e seu parceiro Hal David.
No comecinho deste ano, saiu compilação de 26 faixas, chamada Odds & Ends -Scepter Records Rarities, recomendada especialmente para experientes em Dionne Warwick. Neófitos não deveriam ser expostos a versões alternativas, outtakes e diferentes mixes de pérolas como I Say a Little Prayer ou Don’t Make Me Over. Longe de serem ruins, mas há uma razão porque não foram as escolhidas dentre as várias sessões de gravação para serem os lançamentos oficiais.
Não há só Bacharach nesse repertório, mas ele é o filé mignon. Que devoto não amaria ouvir clássicos como A House Is Not a Home e Walk On By em alemão, francês e italiano? A despeito da imensidão do mercado em língua espanhola, àquela época as gravadoras anglo-sediadas nem lhe davam bola. Provavelmente a pronúncia deixe a desejar, mas quem resiste ao solo de trompete de How Many Days of Sadness, em francês? Dá uma baita saudade de não sei quê. E a voz de Warwick é tão maviosa que pouco importa pra não italianos como ela cante The Windows of the World. Também há o jogo inverso: uma versão em inglês de La Vie em Rose.
O título da coletânea provém da versão alternativa da faixa Odds & Ends. Toda essa geração moleca que se delicia com fofuras indie pop daqui ou de lá fora devia ouvir isso. Burt Bacharach praticamente inventou esse pop assobiável, que dá vontade de estalar dedinhos, fazer papapa e sair pulando pela rua de oclão e maria-chiquinha.
Pessoal do sophistipop também deve muito à Dionne e Burt. Ouça Amanda, que começa discreta até explodir naquelas orquestrações “exageradas”’ dos 60’s, que o Swing Out Sister copiava com perfeição e gosto nos 90’s e começo dos 00’s.
A coleção oferece ainda curiosidades como Warwick cantando Monday, Monday do The Mamas and the Papas. Que modulação que sua voz dá à melodia! Respeito, mas nunca fui muito fã dos branquelos sessentistas; pra mim o melhor da década é soul e R’n’B da Motown, Stax, Atlantic e indies, como a Scepter, claro. Assim, essa versão de Monday, Monday é minha favorita desde o começo de 2018 (não que isso signifique muito, porque nem ouvia a original).
Ainda há o studio mix delicioso de I Love Paris, super big band e o jazzinho sacana de C’est Si Bon. Como a França era paparicada, não? Hoje alguém ainda se importa?
E pra provar que Odds & Ends -Scepter Records Rarities é mais indicada pra quem é mais obsessivo e experiente em Warwick/Bacharach, a última faixa é composta por comerciais de rádio e mensagens da cantora e, no fim, pra arrepiar, o Mestre recomendando duas coletâneas de Dionne.

Jonathan Butler nasceu, em 1961, na segregacionista África do Sul. Lá o apartamento entre brancos e negros era legalizado e o músico fez sua parte pra que essa maldade desaparecesse como instituição. Excursionando desde tenros sete anos de idade e sendo ídolo teen em seu país, Butler começou a compor no fim dos 70’s e logo se mudou pra Londres, onde ficou por anos.
Nunca massivo, seu sucesso sempre foi mais entre pares e o público de smooth jazz, urban soul, R’n’B, enfim, nós que amamos uma boa vibe afro. Dia 24 de agosto, o cantor e guitarrista lançou Close To You, cujo título ref(v)erencia um dos temas mais conhecidos/regravados de Bacharach/Davis. Das 11 faixas, uma dezena é releitura da dupla norte-americana. A exceção fica é Cape Town, ode à cidade natal de Butler, com clima de tema de Olímpiada ou copa do Mundo, à Shakira. Tem até “kaya kaya”, ou seja o que for, na letra. Gostosa a pegada afro, que informa também vários dos standards bacharachianos, como I’ll Never Fall In Love Again.
Como Butler é exímio violonista (confira a lenta A House Is Not a Home) e guitarrista, um par de letras de Hl Davis foi pro espaço, como em I Say A Little Prayer e Do You Know the Way to San Jose? Nada de errado, afinal as homenagens são sempre pra sonoridade que Burt criou e no caso da primeira canção, ficaria até meio estranho o pio Butler cantando sobre pensar no bofe enquanto se maquia. Versões sem letra de Do You Know..., porém, sempre me soam redutivas, porque rompe ironia não sei se proposital, mas cruel: a brejeira melodia acompanha letra que fala de fracasso retumbante e volta pra casa: são os tantos sonhos de estrelato hollywoodianos que não passam de frentistas de posto de gasolina.
Essa canção – a abertura, inclusive – resume bem Close to You, o álbum: é legal, pinta com tons distintos alguns clássicos, mas não supera ou iguala nenhuma versão mais ortodoxa já ouvida.
Dá pra ouvir de boa e gostar dos soul-jazz midtempo em que foram transformadas Walk On By, Alfie e The Look Of Love e se entusiasmar com a maciça influência de Steve Wonder em This Guy’s In Love You. Mas, não recomendo como introdução à Burt Bacharach; melhor versões mais fieis (claro que não indicarei os originais, porque daí é covardia com quem faz homenagem). 
Se você já é convertido, poderá achar interessante e competente.