quarta-feira, 27 de julho de 2016

CONTANDO A VIDA 156

Numa demonstração de contemporânea multidisciplinaridade, nosso historiador-cronista une o poeta Gregório de Matos, novela global, Maria Bethânia e mitologia grega. Saiba como lendo a crônica de hoje:

MORTAL LOUCURA: POEMA, MÚSICA, NOVELA E CRÍTICA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

O filósofo e ensaísta Marcos Tavares d’Amaral escreveu inspirado artigo, publicado recentemente n’O Globo. O tema é comentário do poema “Mortal Loucura”, escrito por Gregório de Matos, na turbulenta Bahia, no século XVII. O poeta abrasileirado, também conhecido como “Boca do Inferno”, além de severo crítico da igreja e dos costumes, apologista que foi dos poemas eróticos mais expressivos da língua portuguesa, não poupou a sociedade em geral. E tudo feito com engenho e arte, de tal forma que a evocação da mitologia grega reverberou como eco ferino, oportuno, coerente com o dizer barroco. Verseja o poema “Na oração, que desaterra… a terra/ Quer Deus que a quem está o cuidado… dado/ Pregue que a vida é emprestado… estado/ Mistérios mil que desenterra… enterra/ Quem não cuida de si, que é terra… erra/ Que o alto Rei, por afamado… amado/ É quem lhe assiste ao desvelado… lado/ Da morte ao ar não desaferra… aferra/ Quem do mundo a mortal loucura… cura/ A vontade de Deus sagrada… agrada/ Firmar-lhe a vida em atadura… dura/ O voz zelosa, que dobrada… brada/ Já sei que a flor da formosura… usura/ será no fim dessa jornada… nada”. A par da sofisticação argumentativa que a um tempo demonstra refinado domínio do vernáculo e ácida picardia, o verso cresce provocando ironia e chasco. E quanta graça!...

Sempre admirado, o soneto figura em antologias e libelos exaltativos do melhor uso da norma culta. De tal quilate é o fulgor de “Mortal Loucura” que José Miguel Wisnick, músico de mão cheia e crítico literário dos mais expressivos da nossa cultura, musicou de forma plena, transformando o soneto em canção. Até parece que os dois estavam em um só quando o som musical se juntou às ferinas palavras. Tudo fica exposto e se presta a ser comprovado agora na novela “Velho Chico” do surpreendente Benedito Ruy Barbosa. Supostamente transcorrida na Bahia, com a nordestina voz de Maria Bethânia preenchendo silêncios, como se fosse lamúria antiga, solta o poema/canto que integrou ao enredo do folhetim. E como eco de mensagem que precisa ser dita, o velho soneto virou canção que virou tema de novela, onde o eco do amor imorredouro se repete em corações, de uma geração a outra. Ecos de ecos!...

Em se falando de ecos, por ironia, foi o italiano ensaísta Umberto Eco quem definiu que toda obra colocada à público “é aberta”, isto é, sugere interpretações que escapam do limite intencional dos autores. A recepção pública, portanto, passou a ressignificar enunciados que, no caso, evocam a lenda mitológica grega, da ninfa Eco, amaldiçoada por Hera, mulher de Zeus. Segundo aquela tradição, a ninfa de inigualável voz e amante da natureza, tentava com demais ninfas, entreter o maior dos deuses, Zeus, que fugia da vigilância de Hera. Certa feita, a desconfiada esposa resolveu surpreender o esposo em suas andanças escusas. Para proteger as colegas, Eco que se apartara do grupo, buscou espairecer a enfurecida deusa. Logo descoberta, como castigo Hera amaldiçoou Eco que nunca mais poderia começar nenhuma conversa, apenas repetir as últimas palavras. Destino cruel o da ninfa desgraçada que então passou a pairar mundo afora sempre repetindo palavras de fim.      

Todo enredo que amarra poema, canção, lenda novela fica ainda mais excitante quando pensamos que tudo pode acontecer sem que muitos tomem consciência da beleza da memória requalificada no presente. Avesso disso, muitas pessoas podem apenas gostar de resultados sem necessariamente se deter nos enredos que nutrem visões preocupadas com a história. Nesses casos, como ecos, o aplauso desarmado de expectadores apenas serve para ecoar enredos que entoaram em outras plagas. Aliás, o próprio Gregório de Matos previa isso ao dizer “O voz zelosa, que dobrada… brada/ Já sei que a flor da formosura… usura/ será no fim dessa jornada… nada”. Nada!...

terça-feira, 26 de julho de 2016

TELINHA QUENTE 222

Roberto Rillo Bíscaro

Durante a Segunda Guerra Mundial, a mansão rural Bletchley Park, no condado de Buckinghamshire, serviu de QG prum grupo altamente intelectualizado e especializado, cuja função era decifrar mensagens em código circulantes entre as potências inimigas, leia-se Alemanha. A Government Code & Cypher School quebrou vários códigos nazistas e pode ter abreviado a duração do conflito, por ter frustrado mais de um nefasto plano hitlerista.
A ITV aproveitou esse mote pra criar The Bletchley Circle, que teve 2 temporadas (2012-14) e sete episódios. Ambientada entre 1952-3, a série adicionou outro elemento a esse chão histórico pra criar diferencial no amplo universo dos detetives amadores, que na Inglaterra tem como uma de suas ancestrais mais ilustres Miss Marple, de Agatha Christie. Com a ida de enorme contingente masculino pros campos de batalha, a mulherada teve que sair de casa e pegar no batente em fábricas, escritórios e um sem-número de atividades. Até a então Princesa Elizabeth foi mecânica e motorista de caminhão (embora não possua carteira de motorista, porque ela não é obrigada!). Quando os homens retornaram pra casa, as mulheres também, porque os postos de trabalho voltaram pra eles.
The Bletchley Circle tem como protagonistas 4 ex-decifradoras de códigos, que, entediadas com o papel de rainha do lar nos Anos Dourados (SIC) decidem usar seus dotes de lógica, memória fotográfica, poliglotismo pra investigar casos que a Scotland Yard não dá conta. Capitaneadas por Susan Gray, na primeira temporada investigam assassino serial que poderia estar atuando há anos sem que a polícia percebesse que casos aparentemente isolados e resolvidos eram obra de homem só.
Esses 3 episódios iniciais são os que valem mais ver, porque a história assume contornos sombrios de necrofilia e loucura, além de mostrar como as mulheres passaram de protagonistas – mesmo que em segredo – em parte dos anos 40 e nos 50’s encontravam-se desvalorizadas, em relacionamentos abusivos ou simplesmente entediadas até as unhas com a subserviência a maridão e filhinhos.
A segunda temporada tem 2 histórias em 4 episódios, mas a saída de Susan – interpretada por Anna Maxwell Martin, a Miss Summerson, de Bleak House e a Mary Shelley, de The Frankenstein Chronicles – extrai parte do charme, embora o segundo caso traga trama de garotas do então comunista leste europeu sendo contrabandeadas pra Inglaterra. Depois de ter lido Prostituição à Brasileira e assistido à belga Matrioshki, interessei-me mais sobre o tema. Bora pesquisar se na época da Guerra Fria esse comércio já era relevante.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

CAIXA DE MÚSICA 228



Roberto Rillo Bíscaro

Kandace Springs é da geração despontada no rastro de pólvora da internet. Filha dum produtor musical da não apenas sertaneja Nashville, a jovem jogou vídeos online e foi convidada pra talk shows importantes, jam session na casa de Daryl Hall, gravou EP com produtor badalado e acabou na mansão-estúdio do finado Prince, pra tocar na comemoração dos 30 anos de Purple Rain. Foi aí que o gênio baixinho de Minneapolis deu-lhe o conselho faltante: seja você mesma. Parece óbvio, mas era o que Kandace necessitava ouvir. Pra seu álbum de estreia, Soul Eyes, lançado há um par de semanas, a ex-guardadora de carros deixou a electronica do hip hop e concentrou-se em suas raízes soul, R’n’B e jazz.
Está quase tudo devidamente popificado pra tocar em FMs de coroas e muitas faixas nos fazem pensar que já ouvimos aquilo antes. Tente delicinhas easy listening como Talk To Me, Place to Hide e Thought It Would Be Easier; não importa se a matriz é jazz ou soul, mas existe aquele reconforto de se sentir em território familiar. Isso funciona em outro nível: diversas canções são regravações, mas isso deixo à descoberta do leitor-detetive.
Soul Eyes é jazz esfumaçado com vozeirão Nina Simone e fica ainda mais chiquérrima quando entra o trompete de Terence Blanchard, que volta na igualmente classuda Too Good To Last. Leavin’ é balada gospel com coro e tudo. Neither Old Nor Young é perfeita pra sacar o potencial da voz de Kandace, porque o arranjo é discreto (já ouvi algo do Spyro Gyra com a Basia que lembra isso?). Também é ótima pra mencionar que o ouvinte deve prestar bastante ao criativo piano ao longo de Soul Eyes, tocado pela própria Kandace. Novocaine Heart é pra ouvir patinando; que fofura a melodia mid-tempo com percussão de sambinha-canção.
Kandace Springs ainda está buscando seu nicho, mas Soul Eyes estreia bastante bem e pode agradar desde fãs de Burt Bacharach, passando pelos da New Bossa oitentista do Style Council e Everything But The Girl até a geração Norah Jones. O potencial e qualidade de Springs são tantos que a gravadora que a contratou é a Blue Note, a mesma de Gregory Porter, com o qual faz shows, inclusive. Mundo pequeno, grandes talentos. 

domingo, 24 de julho de 2016

TRANCADOS

A Comovente História da Família de Albinos que Vive Trancada em Porto Rico
Alejandro Millán Valencia
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)
Para a família Nieves Nieves, o exterior, a ideia de lado de fora é como um mar de lava pelo qual poucas vezes se aventuram.
Albinismo
O brilho do sol tem o mesmo efeito de um lança-chamas sobre suas peles e não conseguem ver mais que sombras a 20 metros de distância. Todos têm a Síndrome de Hermansky-Pudlak (HPS), estranho tipo de albinismo que produz despigmentação em vários órgãos do corpo e nesta região de Porto Rico apresenta-se com prevalência maior que em qualquer parte do planeta. Devido a isso, Miguel, o pai; Rita, a mãe e Alejandro, Mayra e Reinaldo, os filhos - todos albinos - são como prisioneiros em sua própria casa.
Seu refúgio de ermitões - no município de Aguadilla, a 90 km a oeste da capital, San Juan de Puerto Rico - é um sobrado verde adornada com poucas coisas: um quadro enorme do Sagrado Coração de Jesus e retratos familiares. Nas camas não há lençóis e na sala, apenas um sofá onde ninguém senta. Essa austeridade tem um sentido: a ausência de objetos serve para que a brisa marinha passe sem problemas desde o quintal plantado com plátanos, até o terraço rodeado de palmeiras.
É sentado ali, sem camisa, escutando a salsa de Maelo Rivera no rádio, coberto por pelos prateados, que contrastam com as manchas escuras que cobrem a totalidade de suas mãos e pescoço, que Miguel Nieves Vázquez aproveita o frescor da aragem.
“Faz 30 anos que não vou à praia”, confidenciou-me. “Não me interessa mais”. O Oceano Atlântico está a apenas 1.500 metros de sua casa. Algumas vezes, quando há suficiente silêncio, escutam-se as ondas golpeando contra as rochas.
Familia Vazquez
Legalmente Cegos
O ser humano pisca cerca de dez vezes por minuto. É um movimento rápido, quase imperceptível, que nos deixa às escuras por 400 milésimas de segundo. No caso de Reinaldo, caçula de Miguel y Rita, acontece o contrário: seu mundo se mantém na penumbra quase o tempo todo e suas pálpebras se abrem poucas vezes durante um minuto, para poder ver.
Essa limitação é apenas o princípio de seu isolamento. Além de machucar sua pele rosada, o reflexo do sol não encontra nenhum filtro quando atravessa o cristal de seus olhos. A íris é transparente como vidro e a luz passa diretamente até a retina. É como se visse a claridade de um espelho diretamente nos olhos, cada vez que os abre.
O oftalmologista Natalio Izquierdo Encarnación é um respeitado médico porto-riquenho – e um dos homens mais altos que vi. Sentados em seu consultório ao sul de San Juan, com um modelo de olho feito de acrílico, ele explica que o processo de despigmentação dos pacientes com HPS não só se apresenta na pele e cabelo, como vemos nas fotos em revistas científicas, mas também na íris e na retina, por isso, os níveis de visão em pessoas como Reinaldo e sua família são muito deficitários. “A maioria são considerados legalmente cegos”, afirma.
Um carro sem motorista
Reinaldo é legalmente cego e isso tem prós e contras. A favor: recebe auxílios do governo, como por exemplo, para comprar um carro. Contra: não pode dirigir.
Em um país onde o transporte público está longe de ser exemplar - além de estar ameaçado seriamente pela crise econômica que a ilha atravessa – o automóvel é quase a única maneira de locomover-se. “Sempre preciso que alguém dirija”, conta Reinaldo, proprietário de um Toyota Yaris, modelo 2012, comprado com o auxílio do governo federal. “Sempre” é toda sexta, quando tem que buscar a filha Génesis no município de Arecibo –a 52 km de Aguadilla - porque não pode viajar até San Juan, onde a menina vive desde que Reinaldo e sua mãe se separaram. Sua ex-mulher viaja de San Juan à Arecibo, onde termina a rodovia, e entrega a garota ao pai. No domingo, a história se repete, ao contrário. “Como poderia pagar um chofer para ir e voltar a San Juan, duas vezes por semana, totalizando quatro horas?” reclama Reinaldo. “Amigos podem te fazer um favor, uma, duas vezes, mas toda semana tenho que juntar uns trocados e dar para alguém ir buscá-la em Arecibo".
O resto da semana, o carro descansa na garagem da casa. "A última vez que fui a San Juan faz sete anos, para resolver um problema de meu irmão Alejandro", relata, enquanto Génesis, de 3 anos e tão morena quanto Reinaldo é translúcido, o abraça pelo pescoço, seu cabelo azeviche sobre a pele rosada de seu pai.
Albinismo
Efeito fundador mutante
Miguel Nieves Vázquez casou-se com sua prima Rita Nieves Vázquez há 40 anos, porque viviam na mesma rua e porque  ela "era como eu, albina". Foram morar em Nova York, mas com os primeiros ventos gelados sobre o rio Hudson, a pele de Rita começou a fragmentar-se e a desprender-se de seus braços. Tiveram que voltar a Aguadilla, onde Rita possuía um pedaço de terra.
Enquanto Miguel sacrificava-se sob o sol do Caribe trabalhando como pedreiro, ela escolheu a cozinha como refúgio: desde que se levanta até ir dormir, por volta das oito da noite, Rita perambula entre caçarolas e colheres de pau, com una artrite que lhe corrói as mãos, os pés escamosos pelo inchaço, os olhos fechados pelo albinismo. Ela é a encarregada de decidir como utilizar as favas descascadas com as netas, o que fazer com o cacho de banana que acaba de cair no quintal e a que horas preparar as ervilhas.

Albinos em Porto Rico
Uma das razões pelas quais Porto Rico tem a prevalência mais alta de albinismo no mundo - e em especial de HPS - é a endogamia, fruto de sua condição insular. Primos segundos que se casam com primos segundos. Primos-irmãos que se apaixonam por primos-irmãos.
"Somos uma ilha e famílias da Holanda e Espanha trouxeram o gene há cinco séculos. Por não ter muito contato com o mundo exterior, ele se transformou no que hoje estamos vendo; em alguns casos no que se conhece como HPS", explica Enid Rivera, médica especializada em hematologia e oncologia da Universidade de Michigan
"Esse fenômeno é conhecido como ‘o efeito dos fundadores", completa Rivera, que é assessora de governo no tema albinismo.
Um em cada 2.000 habitantes da ilha é portador do gene do albinismo. Além da pele clara e da cegueira, a HPS traz consigo duas características inevitáveis: fibrose pulmonar e hemorragias severas devido à escassez de plaquetas no sangue. “Há registros de mulheres com HPS, que morreram por excessiva perda de sangue durante o ciclo menstrual”, conta Rivera.
Óbitos também podem ocorrer no parto. “Reinaldo nasceu quando eu estava de sete meses e quase morri”, assinala Rita, que se lembra de tudo e corrige os demais, quando alteram algum fato do relato dos Nieves Nieves. O óbito quase se deu devido ao sangramento irreprimível. Assim, a morte é uma emboscada constante: sol, frio, partos, pulmões. Há 30 anos os Nieves se escondem da morte. Por isso, as únicas aventuras da família são as idas de Miguel ao jardim para cuidar das bananeiras e os 500 metros que Reinaldo percorre de bicicleta até seu trabalho como repositor em um supermercado.
Mayra, a única filha - e que vive em una casa que Miguel construiu no fundo do quintal -, só vai a uma clínica em um povoado vizinho para levar sua filha que está com bronquite. Por escolha, Rita não sai nunca. “Para que sair, para que correr perigo?”, indaga Miguel, esbaforido após uma saída ao quintal.
Conteo
Pena de morte
O governo de Porto Rico não sabe o número exato de albinos na ilha. Quando se pergunta em qualquer órgão público, a resposta negativa é sempre a mesma.

Sabe-se apenas que ano passado nasceram 74 bebês. A Dra. Rivera se atreve a dar uma cifra aproximada baseada em estudos: uns 800.
Estudando-se os atestados de óbito, a única certeza que os especialistas têm é que os albinos da ilha nunca morrem de velhice.
Na casa dos Nieves Nieves a morte ronda também no peito de cada membro. “Nos últimos meses, tem começado a me faltar ar quando estou no trabalho", explica Reinaldo.
-E por que não vai ao médico?, pergunto.
Ele sorri.
“Meu pai não conseguiu pagar a previdência social na época em que trabalhava, devido a suas limitações. Então, ele não recebe pensão e tenho que ajuda-lo como posso”, lamenta-se Reinaldo. O que ganha, somado aos auxílios do governo, ele usa para sustentar a filha e seus pais, que recebem apenas o equivalente a US$128 por mês em tíquetes-alimentação.
Insisto: "Por que não procura um médico?"
Não me responde, porque talvez tema a resposta.
Ivette Vázquez, presidenta do capítulo porto-riquenho da Fundação Hermansky-Pudlak Syndrome e que trabalha ativamente com os albinos, conta que se sabe que Reinaldo tem indícios de fibrose pulmonar.
Quem me esclarece a história é Yeidyly Vergner, respeitada epidemiologista da Universidade de Porto Rico e que padece de HPS tipo 3 (existem cinco tipos de HPS e pelo menos 14 tipos de albinismo, dos quais sete se encontram em Porto Rico.): “100% das pessoas que sofrem de HPS tipo 1 (como a família Nieves Nieves) desenvolvem algum tipo de fibrose pulmonar".
A fibrose ocorre porque o corpo do albino produz uma substância serosa que se acumula nos pulmões e, depois de um tempo, tira-lhes a capacidade de expansão. Em Porto Rico isso pode ser uma sentença de morte: a única cura possível é um transplante de pulmão e não há nenhum local onde isso seja feito.
Reinaldo talvez saiba disso, ainda que ninguém tenha lhe confirmado. "Acho que se até hoje não me aconteceu nada, é capaz que no dia que vá a essa consulta médica, volte pra casa numa cadeira de rodas", desabafa.
Familia
Na escola confusa
Quando volta do hospital, Mayra fala sobre sua época escolar. "Nos colocavam apelidos, nos agrediam com o que tinham a mão, porque não nos aceitavam. Mas, sempre havia alguém que nos defendia".
É a temporada de chuva: os germes brotados da terra úmida infestaram os pulmões de sua filha mais velha, causando-lhe bronquite severa. Ela só dispõe de alguns minutos para conversar, porque tem que voltar logo para o centro médico de Aguadilla.
“Conforme crescia, tudo mudou, foi melhorando. Já não é como antes, mas ainda tem gente que depois de ficar do seu lado, porque não há outro remédio, se afastam comentando".
Mayra teve que abandonar os estudos mas, ainda que não me revele o motivo, suspeito que a história de muitos albinos com HPS em Porto Rico tenha se repetido: escolas com professores que confundiram cegueira com deficiência cognitiva. Apesar de atualmente existir uma política de inclusão nas escolas, os albinos que não conseguiram superar os obstáculos no passado, hoje lamentam a ajuda que não receberam. Mayra não sabe ler e a principal de suas angustias é não poder ajudar suas filhas nas tarefas da escola e da vida.
"As três se ajudam entre elas.” Seus olhos se enchem de lágrimas e ela segura a respiração. “São inteligentes como o pai e não como eu. Não tive educação ou apoio, mas o pouquinho que posso dar, dou”, diz e perde o fôlego, porque também tem fibrose pulmonar.
Na loja da esquina deste bairro de casas separadas por gramados imensos, encontro Ricardo Vázquez, um vizinho dos Nieves Nieves, a quem pergunto sobre eles: se acha que seus vizinhos albinos são estranhos, como eles mesmos se denominam.
"Olha, eles são um pouco tímidos, só isso. São a família mais amável da rua. Ademais de viverem aqui mais tempo do que nós”, responde com um vozeirão que sacude o local.
Um país que não pode nem perder
Em junho do ano passado, o governador de Porto Rico, Alejandro García Padilla, declarou ao The New York Times que a dívida pública da ilha, que ultrapassa 73 milhões de dólares, era "impagável" e que o "estado livre associado" dos Estados Unidos estava a ponto de ir à falência. Pouco depois, em meio à histeria da revelação, descobriu-se que havia pequeno inconveniente: segundo a constituição dos EUA, nenhum estado livre associado pode declarar-se em bancarrota. "É um país ao qual não deixam nem perder", me disse a escritora porto-riquenha Ana Teresa Toro.
Esta encruzilhada legal produziu terremoto político e social e uma crise que pôs em risco o financiamento de programas-chaves do governo nas áreas de saúde e educação. “O gasto com saúde beira os 3 milhões de dólares, o que é bastante dentro do orçamento da ilha, mas corre risco de ser reduzido severamente", explica Rivera. Parte desse dinheiro é para o atendimento personalizado dos casos de albinismo. Às promessas de sempre, agora se soma a incerteza.
"Em Porto Rico não há uma política de Estado para atender às pessoas com albinismo", sentencia Vergner. "E isso faz com que muitos de nós deixemos o país".
A tarde cai sobre o Atlântico. As primeiras nuvens escuras da temporada de chuvas pairam sobre a casa dos Nieves Nieves e as meninas da casa se preparam para dormir. Elas são diferentes. Nenhuma das quatro netas de Miguel e Rita é albina, ainda que Mayra - mãe de três – desejasse que pelo menos uma tivesse saído como ela.
Génesis aproxima-se de seu pai com os braços abertos e seus cabelos cor de azeviche contrastam com a pele rosada de Reinaldo. “Tinha quase certeza de que minha filha seria albina”, comenta o pai orgulhoso. "Foi uma surpresa ela nascer morena".
O traço genético decide muito mais do que apenas a cor do cabelo de Génesis, porém. Trata-se de salvo-conduto para uma vida bem diferente da de sua família albina.

sábado, 23 de julho de 2016

MAIS COERÇÃO

Organização moçambicana pede julgamentos públicos para casos de albinos

A associação de defesa de albinos Amor à Vida quer que os julgamentos em casos de assassínio, rapto e tráfico de órgãos de pessoas portadoras de albinismo passem a ser públicos como forma de retrair as perseguições em Moçambique.

"Gostaríamos que o julgamento desses casos fossem um ato público, que todas as pessoas pudessem ter acesso à sessão, para termos certeza que essas pessoas estão a ser punidas exemplarmente", disse Adelina Afonso, representante da Associação Amor à Vida na província de Manica, centro de Moçambique.

Apelando à polícia moçambicana para encaminhar para a justiça os casos denunciados pela instituição, Adelina Afonso foi uma das participantes num encontro realizado na segunda-feira em Chimoio, capital de Manica, onde também participaram várias pessoas portadoras de albinismo, polícia e médicos tradicionais.

O obscurantismo e a ignorância são apontados como as principais causas da perseguição a albinos em Moçambique e, em alguns países do continente africano, há pessoas que acreditam que podem enriquecer após passarem por ritos em que são usados órgãos de pessoas com albinismo.

Em 2015, segundo dados apresentados recentemente pela Procuradoria-Geral da República (PGR), 13 pessoas albinas morreram e outras 51 foram atacadas.

A província de Nampula, norte do país, foi a que registou mais casos de ataques a pessoas albinas, com 29 vítimas, incluindo mortes, seguida de Zambézia, com sete, e de Cabo Delgado, com cinco.

Do encontro realizado no Chimoio, saiu também o pedido para medidas que desencorajem raptos e assassínios de albinos, seguindo uma recomendação da Comissão Nacional de Direitos Humanos, que entende as medidas meramente punitivas como insuficientes.

Adelina Afonso apelou ainda para um cadastro de médicos tradicionais em todo o país, além dos meios que usam para o exercício das suas funções, como forma de ajudar a identificar os mandantes de crimes contra albinos.

Moisés Parange, presidente provincial da Aermo (Associação de Ervanários de Moçambique), que reúne médicos tradicionais, lamentou a perseguição dos albinos no país, afastando os membros da sua instituição desses atos.

"Desde há muito em Moçambique que existem médicos tradicionais e nunca estiveram envolvidos nos assassinatos de albinos. Repudiamos o sequestro de albinos", declarou.

Um relatório independente publicado em março por Ikponwosa Ero, especialista sobre os direitos das pessoas com albinismo, aponta Moçambique na lista dos sete países com mais crimes registados contra estas pessoas em África e revela a existência de um "mercado lucrativo e macabro" no continente, onde se chegam a pagar dois mil dólares (1,8 mil euros) por um membro ou 75 mil dólares (67 mil euros) pelo "conjunto completo".

sexta-feira, 22 de julho de 2016

PAPIRO VIRTUAL 108

Roberto Rillo Bíscaro

Não posso ver série baseada em/inspirada por Charles Dickens, que dá vontade de ler o bisavô das telenovelas. Durante a morna Dickensian, comichava por folhetim e assim que pude, peguei David Copperfield, que já lera em forma reduzida – acho que foi meu primeiro livro em inglês – e em português, mas jamais em toda sua volumosa glória original.
Publicado em série entre 1849-50, David Copperfield autonarra sua trajetória. Menino de classe-média, vê-se jogado no mundo do trabalho infantil, quando sua mãe morre e seu malvado padrasto o põe pra labutar limpando e rotulando garrafas. O romance conta como Copperfield superou isso e tornou-se escritor de sucesso. A biografia de Dickens apresenta elementos coincidentes com David Copperfield, que o inglês considerava “filho predileto”. Dickens trabalhou numa fábrica, quando seu pai foi preso por débitos e toda a família foi morar na cadeia (como em Little Dorritt), exceto o pequeno Charles, que, aos 12 anos, teve que viver só e correu o risco de ver seus sonhos de uma vida de mãos sem calos em perigo. Quando o pai saldou as dívidas e saiu do xilindró, a casca de ferida da mãe não tirou Dickens da fábrica, daí há quem diga que os conflitos no romance são espelhos dessa situação. Muito simplista ler literatura como mero reflexo especular de biografias. Óbvio que há algo da vida de Dickens em David Copperfield, mas os conflitos existentes não estão lá porque o autor os teve com seus pais, mas porque conflito é a primeira condição formal pra que houvesse um romance no século XIX.
Tido como romance de formação, aquele onde a personalidade dum protagonista amadurece, essa leitura me chamou atenção pro modo como Dickens disfarça bem a quase não mudança de Copperfield. Claro que a disciplinarização do coração e a perda da ingenuidade acontecem. Ele abandona suas paixões intempestivas e crença nas aparências; o casamento com Dora (ai que mocinha irritante!) e a amizade com Steerforth estão lá pra isso. Mas, David realmente não tem que alterar seu jeito otimista em nada que seja realmente essencial: todo mundo que se lhe interpõe no caminho, morre! É assim, a suposta maturidade copperfieldiana repousa numa série de cadáveres e personagens que se ferram pra que ele possa ser bom. Veja se Emily não funciona pra isso e depois me conte em comentário. Pros materialistas culturais em busca de tema pra TCC/mestrado, talvez fosse a ideia de ver como esse dado formal replica a fase do capitalismo na qual se insere o romance. Me chamem pra banca!
É mais ou menos assim: ele até se dá conta de que o casamento com a paspalha Dora traria infelicidade, porque ela não possui a racionalidade que ele quer. Na verdade, ele não consegue que ela seja como ele quer, coisa a que Agnes caninamente está disposta (os opostos se atraem é bobageira, a sociedade vitoriana amava a sóbria simetria). Ao invés de David ter de lidar com isso, Dora morre nem sabemos de quê e nem sentimos muito, porque ela é construída irritantemente pra isso mesmo. Assim, até eu amadureço: o mundo ficando como quero, pra minha conveniência, ai que sonho!
Esse é apenas um estratagema usado pra maquiar David Copperfield, a personagem. Outro é a deformação de várias personagens através do humor, tornando-as caricatas. Isso funciona pra divertir, sem dúvida (mas não muito hoje em dia, será? Aquela mulher espantando asnos é uma asneira!), mas também garante superioridade de partida a Copperfield, cujos defeitos e imaturidade aparecem minimizados perante a loucura de Mr. Dick, a rudeza gentil e de inglês desviado da norma culta de Mr. Peggotty ou Ham; a vileza cicatrizada de Rosa Dartle. Como narrador, David pode se “limpar” de vícios de linguagem que tornam muitas das personagens caricatas ou estranhas; passa a ser potencialmente o centro de estabilidade e normalidade da narrativa, que é o que acontece, quando ela perde a graça (note como os capítulos finais dos romances da época são curtinhos; é porque o bom da história já tinha passado – cessou conflito, acabou a matéria do romance).
Morro de sono com o papo de ausência de profundidade psicológica das personagens dickensianas, tipo, Mr. Micawber a gente conhece assim que abre a boca e jamais muda. E quem disse que é isso o que importa em biso Dickens?
Quando escreveu David Copperfield, por exemplo, pela primeira vez na História, havia um país onde a população urbana era maior que a rural, com todas as implicações de produção, vivenda, deslocamentos e relacionamentos que isso significava em níveis práticos e simbólicos. Numa Londres inchada e insalubre, Dickens contrastava o mundo do capitalismo hobbesiano, onde um queria comer o outro – não eram poucos os que defendiam o livre mercado total – com uma possibilidade de vida melhor, no caso na classe média, longe da fábrica. Pros meritocratas de plantão, a pergunta: Copperfield teria chance de se tornar escritor de sucesso caso tivesse nascido na classe operária, sem ligação alguma com a média? Veja o que acontece a Ham e pra benefício de quem...
Certo que os livros de Dickens sempre tinham gordurinhas, porque escrevia pra agradar o leitor de sua época; também correto que David Copperfield perde algum interesse quando os problemas de David passam de subsistir pra viver bem. Porém a descrição da violência infantil revolta e dá vontade de trazer David pra casa e a jornada Londres-Dover, faminta e cheia de bolhas no pé, angustia.

Defeitos e mistificações existem, mas ainda dá prazer ler este mestre britânico do século XIX. Pra quem é taxado de “raso” por tantos, Dickens continua mandando bem. 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

VIOLÊNCIA ALÉM-FRONTEIRAS

Cidadão de nacionalidade bengali detido por tentativa de rapto de albino
Um cidadão de nacionalidade bengali está a contas com a Polícia da República de Moçambique (PRM), acusado de tentativa de rapto de um cidadão albino, no posto administrativo de Matsinho, distrito de Vanduzi, em Manica.
Trata-se de Kaisar Mohammad, solteiro de 27 anos de idade, que na companhia do seu colega, agora fugitivo, tentaram raptar um jovem adolescente com problema de pigmentação da pele.
O chefe das Relações Públicas no comando provincial da PRM, em Manica, Leonardo Colher, citado pela nossa fonte disse que a vítima dirigiu-se a uma loja de um cidadão estrangeiro para efectuar compra de alguns produtos para sua barraca.
Colher explicou que quando saiu do referido estabelecimento comercial foi perseguido por dois cidadãos, um dos quais de nacionalidade bengali, que iam numa motorizada. Quando se aproximaram dele tentaram rapta-lo.
Colher disse que vendo-se na situação de vítima, o jovem gritou a pedir socorro e escapou graças a presença de populares que vivem na zona onde ocorreu o crime. Na ocasião, Kaisar Mohammad e seu comparsa fugiram.
O porta-voz disse que a polícia está a trabalhar para neutralizar outro cidadão que está foragido.
http://noticias.mmo.co.mz/2016/07/manica-cidadao-de-nacionalidade-bengali-detido-por-tentativa-de-rapto-de-albino.html

TELONA QUENTE 168

Roberto Rillo Bíscaro

Um dos traços formais mais marcantes do Nordic Nor é a gelidez transmitida através de céus de chumbo, paisagens nevadas, personagens encapotados. Seria possível passar sensação de frio mesmo com cenas e vestuários denotadores de alto verão? O filme alemão Das Letzte Schweigen (2010), do diretor e roteirista suíço Baran bo Odar, é congelante aula provando que sim. Ventiladores, crianças em piscinas, gente com pouca roupa insistentemente exibidos, mas com um tratamento de imagem, personagens e história que ironizam e esfriam a temperatura do verão bávaro, projetando o que realmente importa: o interior gelado de gente destruída.
Em 1986, 2 marmanjos encurralam uma menina no campo e um deles a estupra e mata violentamente. O crime permanece irresoluto, o comissário responsável até se aposenta, mas na mesma data e local, mais de 2 décadas depois, outra menina desaparece nas mesmas condições. Seria cópia ou o assassino original atacando novamente?
Das Letzte Schweigen debruça-se nas diversas vidas de diversas pessoas afetadas por ambos os casos; nos elos formadas entre elas pelos crimes, mesmo que essas nem suspeitem daqueles; nos modos individuais de lidar (ou não) com a dor da perda ou da impotência e, com o advento da resolução da trama, deixa em aberto a desconstrução perversa do estatuto da verdade e a maligna ironia de atitudes pensadas para um fim, mas resultando noutro.
Tempos e núcleos de personagens intercalam-se/justapõem-se numa narrativa lenta e silenciosa, com atuações veementes, que consegue aliar o suspense de história policial ao devastador drama humano que o iluminado verão tenta abafar, sem êxito.
É esse perscrutar na alma machucada das personagens que liga Das Letzte Schweigen a seus primos narrativos escandinavos e, apesar da luminosidade quente das imagens, nos provoca arrepios.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

CONTANDO A VIDA 155

UM RÉQUIEM PARA OS MORTOS EM NICE...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Escrevo amargurado, triste, ainda sob o impacto dos recentes acontecimentos de Nice, linda cidade balneária a sudeste da França, banhada pelo Mediterrâneo. Residência de milionários, donos de mansões suntuosas, a até então pacata mais pareceria um vilarejo, um cromo, cartão postal convidativo ao turismo tranquilo à gouche do alarido das grandes metrópoles europeias. O alarmante número de 84 mortos e mais de 100 feridos, abatidos por um caminhão acelerado, em velocidade progressiva, abriu uma ferida feia na reputação regional.

Era para ser festa, e o famoso Boulevard des Anglais, ladeado de palmeiras exuberantes, seria palco da manifestação cívica mais prestigiosa da França, o 14 de julho, dia em que se comemora a Queda da Bastilha em 1789, marco da Revolução Francesa. Muito mais feia, porém, é imagem redesenhada pela Polícia Francesa que não conseguiu previr o estranho ataque. É verdade que seria difícil prever qualquer atitude transloucada, mas a coleção de atentados com sucesso mostra que algumas medidas deveriam ser tomadas, em particular no que toca à vigilância de espaços em dias de significação nacional e patriótica. Um dos pontos de estrangulamento das explicações corre por conta dos dois quilômetros percorridos pelo caminhão alugado, com prazo vencido, e que conseguiu passar por duas barreiras de soldados. Como isso se deu?

Sabe-se que o esforço internacional tem barrado muitos atos que se armam sob a chancela do autodenominado Estado Islâmico (EI), em particular na Europa Ocidental. O alcance positivo dessas medidas, no entanto, tem motivado reações diversas e de impacto nos segmentos mais exaltados. Com investidas isoladas, autônomas, e sem o suposto preparo, os ataques trocam as elaborações complexas por medidas individuais, não menos loucas, aliás. Com isso, garante-se a multiplicação de atos isolados, de ativistas solitários, donos dos próprios planos. O pior é que mesmo se assumindo o fracionamento desses jihadistas, os resultados não perdem o efeito avassalador, numérico e cada vez mais atemorizante. Com certeza, eles vão se multiplicar. 

Há algo mais a dizer sobre tal evento: pode ser uma atitude terrorista sim, mas também cabe pensar em impulso individual, desesperado. O jovem de 31 anos, Mohamed Lahouaiel Bouhiel, aparentemente não tem ligação com membros do EI. Sequer a responsabilidade ainda foi assumida. Em processo de divórcio, com três filhos e muitas dívidas, o atacante, segundo vizinhos e conhecidos, era deprimido e dono de atos esporádicos de violência, com passagens pela polícia. Mas, tudo isso parece pouco ante a ligação mecânica que se faz com atos terroristas. Contudo, chama-se a atenção para outro ângulo do problema: a ligação imediata entre situações como essa e o mapa do terrorismo internacional. A mera possibilidade desse ser um ato isolado convida a pensar no pânico instalado no mundo. Não se deve também desprezar o fato de existirem manifestações recortadas, de grupos localizados. É erro dramático simplificar tudo e propor que vivemos uma guerra religiosa, como se fora um jogo de cristãos X muçulmanos. Cabe lembrar que o islamismo é pacifista e não é justo colocar no mesmo nível grupos que tem, no mesmo credo,  opções tão diversas. Conheço muitos mulçumanos que reprovam com veemência os atos terroristas.

Mas o grito de dor é inexorável e o medo justificável. Ele é real, e, frente a contabilidade dramática dos mortos temos que perguntar: o que aprendemos com isso tudo? O que se pode fazer, além do medo crescente? E as respostas se fazem de forma mansa, começando pelo apelo da não simplificação dos acontecimentos. O julgamento apressado pode acirrar um dos fenômenos mais crescentes da nossa realidade: o ódio defensivo. Façamos um réquiem para os mortos e em nome deles, na penúria dos que ficam, tentemos um posicionamento, crítico sim, atuante também, mas sereno e vigilantemente inteligente. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

TELINHA QUENTE 221

Roberto Rillo Bíscaro

A bola da vez no telemundo cult parece ser pequena voga de séries belgas. A primeira temporada de Cordon (2014) foi exibida numa das BBCs e ganhou refilmagem norte-americana, chamada Containment. A mesma emissora britânica exibirá a série de humor-negro The Out-Laws. Além disso, li elogios sobre 2 policiais: La Trêve e Enemi Public. Já resenhei Salamander.
O tema das prostitutas estrangeiras na Europa já aparecera em episódios de diversas séries escandinavas e depois que li e resenhei Prostituição à Brasileira, de José Carlos Sebe Bom Meihy, quis saber mais. Pra criar background pra possível onda belga (Cordon está num HD há meses), vi as 2 temporadas de Matrioshki (2005-7), que mostra que Bélgica e Holanda são teteias apenas dependendo do lado em que se vive.
O título alude às bonecas russas vendidas em profusão nos pontos turísticos da terra de Putin. De madeira, há uma série de bonecas idênticas dentro da outra, até a última ser maciça. A metáfora da quantidade e anonimato de massa do vagalhão de moças pobres oriundas da Europa Oriental, que vem à rica parte ocidental e são brutalmente exploradas é oportuna, esperta e triste.
São 20 capítulos, sendo que os 10 da segunda temporada expandem a geografia e mostram como a Tailândia também exporta prostitutas e esposas pra europeus que as veem e tratam como meros objetos.
Não estudei ou li muito sobre o fenômeno, mas a organização retratada em Matrioshki, embora estruturada e tentacular, não é tão eficiente, porque os membros desperdiçam muitas oportunidades e deixam muitas brechas, devido a rusgas internas. Claro que se trata de programa de TV e não documentário, então pra haver conflito talvez o roteiro tenha preferido deixar os caras maus menos eficientes.
Embora não seja sensacional, Matrioshki vale por exibir realidade bem distinta daquela dos noticiários que exalam sentimento de inferioridade perante o suposto fechamento de presídios holandeses ou o elevado IDH belga. Pode até ser birra Bélgica-Holanda, mas a pátria de Van Gogh é temida até pelas prostitutas escravizadas na Bélgica, que não querem ir pra lá pra servirem 20 caras duma vez. Além disso, há intimidação de jornalistas, corrupção policial e um bando de europeus jecas, nada merecedores do título de “desenvolvidos”. E também o triste retrato do leste europeu com locais tão desconhecidos quanto a África, porque afinal, o ex-bloco comunista é a África europeia, onde leilões humanos são realizados e os preços das moças varia de acordo com sua etnia.
A primeira temporada está completa no Youtube, em espanhol. Foi esta versão que vi.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

CAIXA DE MÚSICA 227

Believing is Believing cover art
Roberto Rillo Bíscaro

Em 2008, quatro rapazes interessados em rock que conta histórias, investe na teatralidade e foge da fórmula verso-refrão-verso fundaram uma banda em Nova York. Influenciados por artistas como Frank Zappa, a fase gabriélica do Genesis, Tool, Devo, Gang Of Four, só para citar alguns que não mencionarei na resenha, George Frye e Joe Stratton (compartilhando vocais e guitarras), Mark Jaynes (baixo) e Seth Miller (bateria) forjaram sonoridade que pode agradar tanto a fãs do Ghost, Mike Patton ou de progressivo entendido como complexidade experimental sem necessariamente ser canção de 42 minutos de duração.
A coisa tem dado tão certo que o Not Blood Paint já chegou ao quinto álbum, lançado dia 17 de junho, modernamente financiado por campanha no Kickstarter. Believing Is Believing traz síntese que desagradará puristas rock remanescentes, ou rockistas, como aprendi em rara leitura de comentários em matérias internéticas.
Take Another Chance abre já botando rockistas para correr. Batidão discofunk intercala-se/coexiste com rock da costa oeste. Um dos pontos fortes do álbum são os vocais e aqui vai-se de imitação de falsete a ganidinho rock; Hercules And Love Affair encontra os Chili Peppers. Vocais ótimos e também profissionalmente harmonizados: ouça bluesy Erotic Love Mercy no fone de ouvido e confira 3 timbres de vozes invadindo sua cabeça ou Trial By Fire, que além das preciosas harmonias ainda se desenvolve por mutações. Começa como fosse experimental, mas logo vem clima popaço de acompanhar com o pezinho, mas é rock.
Alternância, fluidez, mutabilidade são características fundantes em Believing Is Believing, que pós-mdernamente não foca em nenhum subgênero. Play Nice vai de esparsa guitarra blues a muralha de som berrada, cujo drama Muse emenda-se com a próxima canção, I Am An Angel, que em clima de lôka Queen traz letra-bravata pseudo-satanista stoner: “you don’t know what I’m capable of/my agenda is beyond your comprehension.” Claro que se tem Muse no cardápio, o ingrediente Radiohead não estaria ausente. One By One e Borderline trazem o hipnotismo de uma fase em que o cerebralismo não dominara por completo a música dos ingleses.
A safada historieta de The French Song, com seu sexo em sauna e policiais corruptíveis, liga o Not Paint Blod a outro cronista de Nova York, Lou Reed. Engraçado como mesmo obras da multiquebrada pós-modernidade seguem seus fios de tradição; não espanta a coexistência da disco music em banda cuja cidade-natal foi berço das discotecas. Continuidades na ruptura. Ou rupturas na continuidade?
Believing Is Believing está disponível para audição e compra no Bandcamp, onde você também escuta e adquire o resto da discografia:

domingo, 17 de julho de 2016

SALVO PELA DANÇA

A dança como um modo de reconstruir a vida e tornar realidade uma esperança. Um jovem bailarino, adotado por um coreógrafo, lançou um livro relatando a infância difícil. Agora, ele projeta um caminho para ser um artista cada vez melhor.

sábado, 16 de julho de 2016

CONDENAÇÕES EM MOÇAMBIQUE

Tenho postado com frequência desanimadora casos de sequestro e/ou mortes de pessoas com albinismo em Moçambique, vitimadas pelo macabro comércio de partes do corpo para poções de magia negra.

Felizmente, esta semana duas notícias que, se não trarão de volta os mortos, pelo menos podem assustar os vivos a não cometerem tamanha atrocidade. Dois casos de condenação em Moçambique envolvendo criminosos contra albinos.

Na província de Nampula, dois acusados de raptar uma pessoa com albinismo em outubro do ano passado foram condenados a 16 anos de prisão:


Em Niassa, Manuel Massinga, de 20 anos, foi condenado a 38 anos de cárcere por haver assassinado um amigo albino a fim de vender sua ossada. Muy amigo, heim!


Os detalhes para cada caso, você confere nos links. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

PAPIRO VIRTUAL 107 (ALBINO)

Roberto Rillo Bíscaro

Helder Maia é um albino de Fortaleza, com o qual troco e-mails esporádicos ao longo dos anos. Igualmente fã de terror e Nordic Noir, temos trocado impressões sobre filmes e séries, não com a frequência com a qual gostaria, mas vez ou outra nos esbarramos online.
Numa das últimas vezes, ele me contou que finalmente publicara seu livro de terror, no site da Amazon. A Origem do Caçador tem 199 páginas e pode ser baixado pra ser lindo no Kindle, ebook da Amazon.
Vejamos a descrição da obra:
Ao ser levado de sua casa, tarde da noite, por um homem misterioso, Rodrigo, de quinze anos, inicia uma terrível jornada a um mundo de perigos, horror e loucura, onde terá que enfrentar as forças das trevas para conseguir sobreviver.
Pelo que li nos comentários dos leitores, A Origem do Caçador utiliza o cenário e lendas do interior nordestino no mundo do horror.
O link pra baixar o livro é este: