sexta-feira, 21 de setembro de 2018

UM URUBU MUITO BRANCO

Urubu-albino é registrado na zona rural de Estiva (MG)

O flagrante raro mostra a ave com penas, bico e patas brancas; o albinismo também pode afetar a visão da ave e comprometer a busca por alimento.

Que ave você identifica nessa imagem? É difícil acreditar que esse seja um urubu, já que o animal é conhecido pelas penas, cabeça e bico pretos. No entanto, o flagrante mostra um indivíduo do urubu-de-cabeça-preta, conhecido também por urubu-comum, corvo e urubu-preto.

O encontro com a ave surpreendeu Sofia Pereira, que registrou a espécie sem conseguir identifica-la. “Nunca tinha visto um urubu albino. No começo foi difícil identificar, achei que era outra ave”, explica a estudante, que pôde observar os comportamentos do bicho em um sítio em Esitva (MG).

“Ele estava incluso aos outros urubus, porém era arisco e só se juntava ao grupo quando tinha comida. Nas vezes que tentava interagir com os outros, era expulso”, completa.

PRETO OU BRANCO?
A ausência total de pigmentos é resultado do albinismo, um fenômeno genético que impede a produção de melanina e carotenoides. Penas, bico e patas são afetados, assim como os olhos que, por não possuírem coloração, apresentam a cor vermelha dos vasos sanguíneos.

Além da baixa resistência ao sol, a ave pode ter a visão afetada, o que dificulta a alimentação e a sobrevivência na natureza. “No caso do urubu-de-cabeça-preta a visão mais debilitada pode afetar a capacidade da ave de localizar as carcaças, já que ela é conduzida pela visão, e não pelo olfato”, explica o biólogo Willian Menq.

A ESPÉCIE
Considerada a mais comum entre os urubus, a espécie se distribui por todo o País e pode ser observada sobrevoando centros das cidades, fazendas e áreas abertas. Nos voos é possível notar as penas brancas nas pontas das asas, características que ajudam a diferenciar a ave de outras espécies.

No período reprodutivo o urubu nidifica em ocos de árvores e entre pedras. Os dois ovos são incubados por até 39 dias e o filhote nasce com penugem amarelada.

Habituada a viver em grupo de até 10 indivíduos a ave é considerada migratória e é amplamente distribuída nas Américas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

TELONA QUENTE 254

Roberto Rillo Bíscaro

Até meio difícil de crer hoje, mas durante toda a década de 1950 até talvez a de 80, floresceu indústria dedicada à criação de abrigos subterrâneos pra quando estourasse a inevitável guerra nucelar entre as superpotências.
Não só nos EUA; em Praga há um que recebe visitas turísticas; parece que na Bósnia, também. Mas, nos EUA o negócio realmente pegou fogo, porque a população classe-média pra cima tinha dinheiro e acreditava que ficar a poucos metros da superfície por alguns dias a salvaria do holocausto.
Revistas como a Popular Science publicaram vários artigos a respeito de modelos de bunkers, a maioria em tom “faça você mesmo” tão caro ao empreendedorismo ianque. Havia até dicas de como aproveitar o porão pra construir um abrigo subterrâneo pra se proteger da Bomba.

Paranoia de se esconder da Bomba feito tatu, aliada à influências de Julio Verne e Edgar Rice Burroughs informam Unknown World (1951), hoje e mesmo na época, tão obscuro quanto o mundo que pretende explorar, mas não tem dinheiro.
Produzido pela mesma equipe e companhia de Rocketship X-M, Unknown World (UW) mostra equipe de cientistas que desce ao centro da Terra, em busca dum lugar habitável, pra que parte da espécie humana se refugie pra quando venha a guerra, inevitável, aos olhos do exagerado Dr. Morley.
Embora situado nos “avançados” anos 50, quando a energia nuclear podia inclusive ser usada pra impulsionar a engenhoca que cava seu caminho superfície abaixo, UW parece tirar seus conceitos científicos do século XIX. A premissa pra descida é que o interior de nosso planeta não é composto por magma, mas um labirinto de cavernas e que pode haver sítio com água, luz (!) e ar, que permita vida. Eles descem pela cratera dum vulcão extinto, mas o roteiro não se importa com a incongruência de usar um canal trafegado pela lava, negada na cena anterior.
Na verdade, o roteiro de UW não se importa com coisa alguma, porque não há grana e então nada acontece na maior parte do tempo. Muita cena na escuridão de cavernas, escalada e rapel, o interior paupérrimo da suposta nave e nada mais. Mesmo, porque não há vida no centro da terra, embora haja luz (!). Se hão há monstro ou homem-tatu pra servir como antagonista, que ação dramática é possível?
A viagem ao centro da terra desses cientistas valeu tanto quanto os bunkers serviriam numa guerra atômica real
Vi no Youtube e o som está ruim.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

CONTANDO A VIDA 249

UM MUNDO SEM CELULARES: riscos da Nomophobia 

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Muito se tem falado sobre avanços da medicina e não são poucos os que se encantam como a chamada robótica médica. A tecnologia empregada a favor das ciências tem produzido milagres surpreendentes. Basta termos alguém que necessite de amparo clínico para que se note os passos grandes dados em favor de bons diagnósticos, monitoramentos precisos e possibilidades ampliadas de recuperação. Uma coisa leva a outra e o mesmo se diz do aparato eletrônico empregado em escalas crescentes também em outras áreas como nos serviços domésticos, nas atividades de recreação e esportes. É claro que temos que saudar a tecnologia como virtude, mas, exatamente para que se a legitime como conquista é de se considerar também seu avesso, ou seja, os malefícios que pode produzir. É aí que a medicina volta a significar. 

Como mercadoria, os celulares têm cumprido a tarefa de democratizar a comunicação em geral e, nessa linha, os preços a cada dia mais acessíveis facilitam contatos e podem promover aproximações variadas. Assim, progressivamente somando possibilidades, de tal forma os celulares se tornaram usáveis que não se consegue pensar o mundo sem eles. Os tais aparelhinhos, por sua vez, sorrateiramente se integraram no cotidiano como se fossem órgãos ou componentes inerentes ao nosso corpo. “São como parte da gente”, há quem diga. Dia desses, ouvi uma colega dizer, sem muito pudor, que sem o celular, esquecido em casa, ela se sentia como que mastectomizada. Fiquei chocado, quis explorar mais a figura de linguagem empregada e de volta ouvi algo ainda mais estarrecedor “ué, com você não é assim? Se fosse homem, sem celular eu me sentiria capado”. Calei. Não respondi... Não respondi, mas levei para pensar. 

Não há dúvidas que o mundo ficou inimaginável sem os tais dispositivos eletrônicos. A existência de um profícuo ramo de negócios voltados a isso nem mais espanta. Onde quer que se vá, lá estão pessoas “passando o tempo” com as telinhas brilhantes, iluminadas e latejantes. Seja no metrô, ônibus, no mercado ou nos consultórios, é imediato constatar pessoas entretidas, mergulhadas em informações e contatos. Parece feitiço... Confesso que já vi pessoas em igrejas, cemitérios, teatro e cinemas como os equipamentos em funcionamento sem nenhum constrangimento. Nas escolas o celular virou tema de conflitos entre professores e alunos, e a linha divisória entre poder ou não ingressar com esses aparelhos tornou-se objeto de pesquisas educacionais e muita discussão. Dentre tantas experiências recentes, uma me impactou bastante. Indo para a Universidade de Stanford, na Califórnia, entre as mais reputadas do mundo, fiquei pasmado em saber que os alunos não podem usar máquinas – celulares ou computadores – durante as aulas regulares, em muitos cursos. Nem mesmo para as tais consultas suplementares ou para registros e anotações são permitidas tais presenças que, segundo explicações competentes, se formulam como forma de derivação da concentração. 

Pois é, o grau de gravidade da situação tornou-se tamanho que o fenômeno virou doença já descrita por especialistas. Sob o nome de Nomophobia, termo derivado de no-mobile-phobia, ou seja, pavor de ficar sem acesso às redes sociais e à comunicação imediata, a situação já é tratada como doença. Os dramáticos efeitos são próximos da conhecida síndrome de pânico, e decorrem de casos corriqueiros como a falta de energia elétrica, pane no aparelho ou mesmo o prosaico fim das cargas de baterias ou dos vazios de cobertura. De modo geral, nosso cérebro vai ficando dependente a tal ponto que há pessoas que acordam a noite com a sensação irresistível de verificar o que chegou. Sabe-se de casos de tipos que ouvem sinais de chamada mesmo quando o aparelho não está ativado. De tal forma a privação eletrônica se manifesta que as crises de ansiedade levam a depressão mais ou menos prolongada, fato que ameaça a vulgarização desses casos tidos já como epidêmicos. Em conjunto, a expressão desses tiques se constitui no que tem sido reconhecido com “Reação FOMO” (Fear of missing out) ou, em tradução livre: medo de estar perdendo algo. O pior é que tudo tende a se agravar posto que ao mesmo tempo em que se diagnosticam casos e se descrevem detalhes dessa manifestação, novos avanços colocam no mercado de consumo aparelhos cada vez mais sofisticados. O grande paradoxo notado, porém, é que exatamente a medicina, uma das áreas mais beneficiadas pela eletrônica é ela mesma a denunciadora de malefícios. Médicos atentos ao agravamento da situação já prenunciam que as doenças nomofóbicas serão o mal do século XXI. Temendo, desliguei o meu aparelho... Vou ficar assim uns quinze minutos. Depois conto o resultado.    

terça-feira, 18 de setembro de 2018

TELINHA QUENTE 327

Roberto Rillo Bíscaro

Antes da ITV lançar a série Mr. Selfridge, em 2013, o fundador da famosa loja londrina andava meio esquecido. A primeira vista, estranho, nesta era que preza, incentiva e acredita tanto no empreendedorismo. Mas, deve ser meio duro explicar como um sujeito tão esperto comercialmente morreu na miséria, depois de expulso pelo conselho diretor da empresa que criou, por torrar dinheiro com mulheres e jogatina.
Supostamente autor da platitude comercial que o freguês sempre tem razão, o norte-americano Harry Gordon Selfridge introduziu conceito revolucionário na Inglaterra eduardiana: ir a uma loja pra passear e, se der vontade, comprar algo que talvez nem soubesse que precisa ou mesmo sem necessitar, porque a disposição das mercadorias se encarregará de despertar essa falsa necessidade. Tão óbvio hoje, isso não acontecia na metropolitana Londres de início do século XX, quando os consumidores iam às lojas pra comprar sabendo o que queriam, sem ter acesso ao estoque. Numa época em que mulher de classe-média pra cima sair sozinha era vulgar, imagine vagar por um estabelecimento comercial. Selfridge democratizou o acesso ao comércio; usou truques publicitários pra chamar freguesia; apoiou causas sociais, desde que percebesse possibilidade de lucro; tratou melhor os funcionários (desde que não ameaçassem casar com seu filho, claro!).
Secrets of Selfridge’s é boa introdução pra acompanhar a série, até porque ambos estão na Netflix.
Desde que você não acredite em tudo e não saia falando que viu uma série que conta a vida do cara que fundou aquela loja famosa em Londres - não a Harod’s, a outra -, os 40 capítulos das 4 temporadas de Mr. Selfridge (2013-16) são totalmente maratonáveis pra galera que ama série “de época”.
Mr. Selfridge é Downton Abbey em loja de departamentos. A diferença é ser menos pretensiosa. A série de Andrew Davies (criador de Bleak House, dentre outras) é novelão descarado e uma coisa há que reconhecer: Downton, também da ITV, não foi regular em padrão de entretenimento; há episódio que dá sono, porque nada de consequente acontece. Em Mr. Selfridge o motorzinho do drama funciona que é uma belezoca; é ação, conflito, drama, fofura em ritmo acelerado. Amo Mr. Crabb; Mr. Grove; Miss Mardle, depois Mrs. Grove; KItty, depois Mrs. Edwards; Lady Loxley, assim como amo Mr. Carson, Mrs. Hughes, O’Brian, Lady Mary, em Downton Abbey.
Pra ficção ficar mais interessante e assistível, não dá pra seguir à risca a biografia dos envolvidos. Tem que ficcionalizar; quer saber a “verdade” (sabe nada inocente!) vai ler biografia ou ver documentário. Então, pra haver mixagem entre classes sociais, o Mr. Selfridge ficcional se mistura bem mais com seu staff, a ponto de conduzir funcionária ao altar, porque ela não tinha família. Na vida real, Mr. Selfridge tinha seu próprio elevador.

Seu fim também é edulcorado pra virar caída em pé, de protagonista exemplar de novela. Não combinaria com o tom prevalente e empreendedor, mostrar um Mr. Selfridge ancião, de roupas gastas, rondando a frente de sua ex-loja, nos anos 1940, então providenciemos um quê de esperança.
Gostei de ter visto o documentário antes e lido na Wikepedia sobre as Dolly Sisters, por exemplo, e comparar com o material da série. Constatei diferenças, atalhos, suavizações e embelezamentos do roteiro, mas curtí a série pelo que é, e não como proposta de biografia. Até porque Mr. Selfridge mesmo não me interessou: seu espalhafato empreendedor otimista me fazia amar ainda mais a reserva britânica de Mr. Edwards e George Towler. Mr. Selfridge é um mal necessário em Mr. Selfridge: se pra eu ver as caras de espanto de Mr. Crabb era mister acompanhar as peripécias de seu chefe, que fosse.
Embora o tempo não passe pra quase  nenhuma personagem – acho que a única a envelhecer perceptivelmente é Mae; e não conto as crianças, porque daí seria inverossímil demais – a produção é opulenta e os detalhes e roupas enchem os olhos. Mr. Selfridge é escapismo sem vergonha de sê-lo.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 332



Roberto Rillo Bíscaro

Tanta coisa pra comentar, álbuns envelhecendo na fila de espera de audição/postagem. Isso requer dobradinhas mais frequentes. Hoje, vamos de duas divas negras, que uniram soul music a outros subgêneros. Uma se deu bem; a outra, não.

Priscilla Renea manda muito bem como compositora, tendo canções em álbuns de consagrados como Rihanna, Madonna, Demi Lovato, Selena Gomez e mais. Isso não se repete na trajetória como cantante: seu álbum de estreia – Ujkebox (2009) – vendeu umas cinco mil cópias globalmente.
Deve ter sido por isso que a norte-americana só lançou seu segundo trabalho nove anos mais tarde, em 22 de junho. Coloured ainda não teve dados de vendagem divulgados, mas não deve ter feito muito melhor que seu predecessor. Chato, porque algumas letras sobre problemas raciais e a adição de elementos country, recomendam-no.
Criada na parte rural da Flórida e expulsa de casa pela mãe, quando começou a lutar pelas próprias opiniões, Priscilla junta suas raízes country e tom confessional de agora-vencedora, na abertura Family Tree, cujo country é meio alternativo, daquele do tipo da Handsome Family. Ela respeita tanto o subgênero que foi à sua capital, Nashville. Por isso que Jonjo tem suave aroma rural, mas sobreposto por produção meio trap, com refrão grudento. E, claro, não podia faltar baladaça country: If I Ever Loved You não deixa pedra sobre pedra e tem até solo de guitarra meio country rock.
E por falar em pedras, ela sugere ao amado construir uma casa com as pedras atiradas pelos desafetos, em Let’s Build a House, puro drama de diva soul country. Drama gritado com sua possante voz. E é isso, Coloured pode ter indícios country e até faixa reggae (Different Color), mas Coloured é soul music de grande qualidade. Heavenly é paradisíaca pra nós que amamos diva R’n’B gritando, acompanhada de dedos estalando e pianinho. You Shaped Box também é puro drama, mas a letra é de incentivo e a melodia levada por violões, que se tornam hispânicos em seu auge.
Em Gentle Hands ela sapecamente pede a papai do céu um bofe escândalo, devoto, grandão e de mãos suaves. Essa idealização vem sensualizada numa espécie de blues com salamaleques trap.
Que pena que ainda exista tanto racismo, senão a linda Land Of the Free poderia ser sobre outra coisa e não violência policial contra afrodescendentes. Tem até o hino nacional estadunidense solado na guitarra, como apêndice.
Priscilla Renea não inventou a fusão entre soul e country – aqui no blog mesmo resenhei um álbum de K. Michelle que possui traços comuns -, mas Coloured merecia tê-la colocado mais forte no radar do público que ainda consome black music não totalmente produzida como trap.

Jhené Aiko parece personagem dessas séries modernas de TV que querem passar desesperadamente imagem de paz étnica nos EUA. Filha da mãe nipo-americana e pai afro-americano, a moça circula nos meios musicais desde o início do milênio, mas seu álbum de estreia por grande gravadora veio apenas em 2014, com Souled Out. Compensou a espera, porque Aiko desfrutou de sucesso comercial e crítico, descolando 3 indicações pro Grammy, em 2015.
Dia 22 de setembro do ano passado, a cantora lançou de surpresa, seu segundo trabalho: Trip. Na era dos vazamentos na internet, ela conseguiu surpreender no marketing gerado pela “inusitado” do lançamento. Pena que as surpresas tenham parado por aí.
Trip significa viagem, que pode ser entendida em sentido alucinógeno, vide o número de canções com títulos como Lsd, Sativa, Psilocybin, Mystic Journey, Trip, mas também em termos de egotrip, como em Jukai, que alude ao salvamento de alguém que tencionava se suicidar na conhecida floresta japonesa famosa por esses atos. Parece que Aiko quis fazer álbum conceitual de soul psicodélico (olhe essa capa, que lôka!).
Mas, a jornada proposta provavelmente só poderá ser desfrutada por alguém viajando sob os efeitos dalgum dos narcóticos de escolha da cantora. Trip é longo demais pra muito pouca variedade nos arranjos, ritmos e andamentos. São mais de 80 minutos de música lânguida, de electronica diluída, com uma ou outra diferençazinha, tipo aqui um pianinho ou trompete jazz, mas o essencial acaba parecendo a mesma canção, não depois de muito tempo que se começa a ouvir o álbum. O único número mais animado é OLLA, que sequer chega a ser dance mediano e mesmo pros chapados deve cortar a viagem malemolente do restante.
Ano passado, o essencial Brown Sugar, do D’Angelo, completou 20 anos (nossa e eu ainda me refiro a ele, como artista/álbum novo!...). Dá só uma escutada na faixa-título, ode meio mal disfarçada à maconha, e veja como reduz todo o álbum de Jhené Aiko à pó, ou fumaça. Ou whatever.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

ALBINO INCOERENTE EM CAPIVARÍ

Ontem estive na cidade paulista de Capivari, no campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Foi um dia intenso, com viagem de 5 horas pela manhã e outras 5 à noite e uma tarde com bate-papos com alunos e professores sobre inclusão, minhas experiências como estudante e docente com albinismo/deficiência visual. Tudo muito leve, com risadas, sem vitimismo, gente muito simpática e atenciosa.

Naquele campus, há uma aluna com albinismo, a Alexia, que faz curso técnico integrado em química. Que maravilha ver pessoas com albinismo se qualificando, interagindo, indo à luta. Química requer experimentos e manuseio de instrumentos que exigem leituras precisas de pesos e medidas. Alexia me contou suas táticas para alguns dos desafios e foi muito interessante. 

Obrigado a todos pelo carinho, especialmetne aos colegas-servidores Everton e Glauciane que dirigiram quase mil quilômetros para me buscar em casa e me trazer de volta. Foi muito gostoso. Gratídão.











TELONA QUENTE 253

Roberto Rillo Bíscaro

Depois de adicionar o bastante adulto A Ganha-Pão à grade brasileira, a Netflix disponibilizou o totalmente maduro Anomalisa (2015), do cultuado Charlie Kaufman. Cuidado se planeja ver o longa com seu júnior, porque há nu frontal e tórrida cena de sexo entre os bonecos.
Anomalisa é feito em stop motion tão perfeito e sofisticado, que às vezes esquecemos estar diante de bonecos, o que apenas aumenta a estranheza desse filme, cuja trama é bastante acessível e se enquadra no vasto sub-subgênero das crises de meia-idade em machos adultos brancos, mas, sem cair no chavão de botar algum despossuído trazendo de volta a alegria de viver pro bofe, que volta a curtir sua carteira cheia, enquanto o desvalido segue sem valia.
Michael Stone é bem-sucedido autor de livros sobre atendimento ao cliente e palestrante motivacional. Essa fortaleza indicada até pelo pétreo sobrenome é apenas fachada, porém. Insatisfeito e provavelmente incapaz de empatizar, todo mundo pro coroa tem a mesma cara e voz.
Não é à toa que se hospeda no Hotel Fregoli, alusão à síndrome homônima, raro distúrbio em que o paciente delira que diferentes pessoas são de fato uma única, que muda de aparência ou está disfarçada.
É no hotel que conhece a interiorana, insegura e cicatrizada Lisa, que considera adorável anomalia, porque tem voz e rosto distintos dos demais. A propósito, ao discutirem, na cama, o conceito de anomalia, o Brasil é usado como exemplo: todos nossos vizinhos falam espanhol, menos nós.
Anomalisa é fascinante e hipnótico em sua minúcia técnica e narrativa. É o cartão-magnético pra abrir o quarto, que falha várias vezes; é o trajeto da recepção até o quarto pelos corredores do impessoal hotel; é o tédio existencial e a rotina que carcomeram o afável e externamente simpático Stone. E na hora em que seu discurso se desintegra, não deu pra não recordar de seu ancestral humano, Harry Stoner, interpretado pelo grande Jack Lemmon, em Save The Tiger (1973).

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CONTANDO A VIDA 248

“GENTILEZA GERA GENTILEZA”, JÁ VIOLÊNCIA...


José Carlos Sebe Bom Meihy

Em um texto sedicioso, Artur Xexéo troça sobre um dos temas mais perturbadores de quantos escrevem crônicas. Sob o título “A falta de assunto” (O GLOBO, 09/09/18), o autor evoca outros tempos, quando cronistas como Rubem Braga, José Carlos Oliveira, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, mestres do gênero, colocaram em palavras um dos mais expressivos dilemas de cronistas: a falta do que abordar, fenômeno também conhecido como “síndrome do papel em branco”. Humildemente, confesso que raras vezes padeci desse trauma, e me filio a Xexéo ao reclamar do reverso, ou seja, da fartura de assuntos a serem abordados. No cenário internacional, a começar pelas estripulias de Donald Trump, passando pelas tragédias da onda de imigração africana e da Venezuela, pela crise argentina, e da leva de corrupção na América Latina, as escolhas são infindáveis. Minha dificuldade não é, pois, com a carência de tema, mas sim de tempo.

Um giro rápido pela cena brasileira pode confundir ainda mais qualquer escolha temática, e, basta ilustrar isso com uma semana que se iniciou com o incêndio do Museu Nacional, teve dois dias depois, o esfaqueamento de um candidato a Presidente da República, em plena campanha. Não bastasse, tivemos em seguida a declaração de impedimento eleitoral de outro político, preso por corrupção, e ainda a substituição da chefia da chapa. Como a vida está movimentada, não? Pautas não faltam, e desgraças multiplicadas desmentem o aguardado setembro que viria soterrar o difícil agosto, “mês do cachorro louco”... A mim, como historiador, não há como deixar algumas relações históricas de temas do passado, continuados nos fatos imediatos. Atento ao que Gumbrechet chama de “produção do presente”, no entanto, cabe avisar a picardia da história no tocante às agressões políticas que, inexplicavelmente, têm sido mostradas como novidade, fato sem precedente. Bobagem, a história de nossa política institucional tem sido superpovoada de extremismos. 

Tomando como ponto de partida outros atentados políticos, me veio à mente um acontecimento ocorrido em 5 de novembro de 1897 quando o jornal Folha da Tarde noticiou que “O soldado Marcellino B. de Miranda, investira contra o Sr. Presidente da República. Neste momento o S. Marechal Ministro da Guerra, em um rasgo de sublime heroicidade colocou-se entre o soldado e cobiçada vítima dos furores jacobinos, protegendo-se com seu corpo e com sua espada... A arma homicida penetrou fundo no coração do bravo e leal ministro”. Atenção ao nome do perpetrador: o “B” de Marcellino era Bispo. Notem bem: Bispo de Mello. Infeliz coincidência o nome do atual agressor do ex-capitão Jair Bolsonaro ser Adélio Bispo de Oliveira, personagem que se diz mandante de Deus. Pior ainda, os dois Bispo agiram com facas em atos políticos. Antes, porém de admitir maldição ao nome Bispo, convém lembrar que houve outro homônimo, Artur Bispo do Rosário, “profeta” que viveu o reverso e que, em vez de matar apregoava concórdia, harmonia. Paradoxo, pois este homem que ficou conhecido como criador da famosa frase “gentileza gera gentileza”, também dizia agir em nome do Criador. 

Façamos uma viagem pelo reino da ironia histórica. Os dois bandidos – Marcellino Bispo de Mello e Adélio Bispo de Oliveira – foram autores de atos extremos e violentos. Já o Bispo do Rosário, queria a paz, vestia-se de branco e declarava amor a humanidade. Este extremo entre a brutalidade e a harmonia convoca reflexões. Convém lembrar que as paixões políticas, principalmente no Brasil republicano, têm se repetido mais do que a vã memória deixa vazar. Mesmo sem chegar ao (convenientemente) inexplicado caso Marielle, é bom trazer à lembrança o crime contra o senador Pinheiro Machado, em 1915, apunhalado pelas costas, no Rio de Janeiro. Em 1930, João Pessoa, então candidato a vice-presidente na chapa com Vargas, foi assassinado à tiros no Recife. Depois, e, em 1954, tivemos o famoso atentado a Carlos Lacerda, também no Rio. Não bastasse, em 1963, o senador Arnon de Melo, pai de Collor, desferiu um tiro em opositor e tendo errado matou outro colega em pleno Senado.

Seria mecânico terminar esta crônica constando a insistência do nome Bispo em polos diferentes - dois do mal, um do bem. Derrubando a barreira perversa que ilude a tradição política como pacto cordial, cabe mostrar a extrema violência da política nacional. É exatamente aí que vale mais a lição do Bispo do Rosário: gentileza gera gentileza. Já violência... Violência expressa ódio e legitima e certos políticos que ferem a sociedade como um todo apregoando radicalismos.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

TELINHA QUENTE 326

Roberto Rillo Bíscaro

Dia de dobradinha. Duas deliciosas minisséries de suspense, cujo nome em inglês é o mesmo: The Disappearance.

O Canadá está se saindo melhor que a encomenda com séries fofentas tipo a primeira temporada de Anne With An E e também a inicial do Canoir, Cardinal.
Entre outubro e novembro do ano passado, a CTV cravou outra joia na coroa televisiva canadense com a meia dúzia de capítulos de The Disappearance.
O pequeno Anthony tinha que apresentar trabalho escolar sobre os hábitos e costumes de sua comunidade suburbana ou de pequena urbe, não dá pra perceber. Para isso, saiu fotografando por entre as ruas frequentemente úmidas. Na hora de apresentar em classe, a baita surpresa: o pequeno bisbilhotara e registrara a roupa-suja de toda a vizinhança. O primeiro episódio – e o menos legal, porque é quase pura exposição – também nos apresenta os pais divididos pelo divórcio e o vovozinho ex-juiz, um amor de senhor, mas, epa, há flashback pra aprendermos que seu passado tem segredo nervoso.
Como é aniversário de Anthony, apesar das broncas pela indiscrição, vozinho tá preparando caça ao tesouro, com pistas pregadas no cemitério, em loja de imigrante, enfim, tudo normal. Afinal, que família não encoraja seus guris a perambularem sozinhos por cemitérios e florestas? Daí, o precoce Anthony desaparece.
Dispondo de pletora de suspeitos em potencial, devido à arte do pequerrucho, The Disappearance evita o caminho Broadchurch. Ao invés, passam-se 2 anos e evidências afloram de que Anthony esteja ainda vivo. O carrinho da montanha-russa dramática, que apenas subira, dá a primeira descida e os restantes cinco capítulos são desvairados loopings, que envolvem de mamãe dando pra estranho pra conseguir prova e pistas que dependem de conhecer o peso atômico do arsênio. Afinal, que detetive desconhece a tabela periódica?
Se você consegue suspender a descrença o tempo todo e genuinamente adora tramas melodramáticas, onde planos bolados com anos de antecedência ocorrem quase sem falhas, então a mini estrelada por Peter Coyote, (já fazendo papel de avô!), de ET – O Extraterrestre, é pra você.
Como não rolar de rir com a pista do arsênio? Mas, não riso de escárnio. Imagine. Risadona gostosa de excitação por reviravoltas, revelações, bomba, drama, afinal, tédio a gente já vive no dia-a-dia.
The Disappearance não imita estilo Nordic Noir, também não reinventa nenhuma roda. Não detetive depressivo vasculhando ambientes nevados. É mais sobre família devastada pelo passado, que, segundo opinião prevalente nos roteiros de cine e TV, jamais consegue camuflar totalmente.
Pra maratonar.

Ao pé da letra, Disparue (2015) traduz-se como Desaparecida, mas quando a BBC4 a transmitiu, os oito capítulos foram anglicizados pra The Disappearence. Como sua posterior xará canadense, a mini francesa evita referência direta ao Nordic Noir, mas os cromossomos das primeiras temporadas de Forbrydelsen e Broadchurch estão nesse genoma.
Na véspera de seu aniversário de 17 anos, a estonteante Léa Morel desaparece e Disparue dispara pra esmiuçar não apenas a investigação policial, mas os devastadores efeitos psicológicos nas famílias envolvidas. Matematicamente, o roteiro se divide em 4 capítulos pra descobrir o que houve com a loira e os restantes pra deslindar as consequências.
Não faltam suspeitos, pistas, decisões estúpidas/questionáveis, segredos & mentiras e, claro, reviravoltas, dentro dos conformes duma história de detetives. Também coincidências inverossímeis, que tem de ser aceitas pra efeito de dramaticidade e valor de choque. Entretanto, isso está acoplado a ótimas atuações de gente bonita, na linda Lyon e conectado emocionalmente com o espectador, porque bastante tempo é devotado a detalhes dos relacionamentos e cotidianos, antes e depois de aprendermos porque Léa sumiu.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 331

Roberto Rillo Bíscaro

Ao ouvir o belo álbum de estreia de Conrado Pera, você jurará tratar-se dum nordestino cordelista, conhecedor da tradição psicodélica de estados como Pernambuco, além dos cirandados ritmos locais.
Como local de nascimento pode não passar de acidente geográfico, Pera é, na verdade, paulista, embora radicado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Multi-instrumentista e filho de músico, dedica-se à intensa pesquisa de ritmos e canções populares desse imenso Brasil, desconhecido pra tantos de nós.
Um dos resultados desse trabalho de prospecção musical é o intenso Enlaçador de Mundos, lançado independentemente, em 2015. Como bem dita o título, a dezena de canções percorre e une diversos subgêneros e culturas, além de reunir convidados.
Vem Plantar Tudo de Novo enlaça Nordeste com cítara indiana e Jangadeiros é maracatu atômico, ao misturar berimbau com guitarra. Quilombola tem participação de Janaína Pereira nas vocalizações sem letra duma canção que africaniza, mas guarda parentesco com certa hipnose psicodélica.
Num álbum farto de instrumentos e timbres/harmonias vocais, Corredeira emocionará e sacudirá fãs de som tipo Dorothy e Dércio Marques, Elomar, Shangai, Luli e Lucina e tantos outros que pesquisa(ra)m nossos ritmos; neste caso, Conrado mistura moda de viola com baião. Ele ainda vem com frevo fervido em Fervim e coco, em Quebra-Coco (A Barra Pesa).
Cigana Vida realiza a integração de nossas raízes com as de nossos hermanos latino-americanos, com ritmo andino e letra bilíngue com espanhol. Fãs de MPB não se decepcionarão com faixas como Caminho, que tem o violino do ocupado Ricardo Herz.
Enlaçador de Mundos faz jus ao nome não apenas por reunir culturas, mas por enredar o ouvinte em seu planeta de belezas sonoras.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

CAVIAR ALBINO

A ova do esturjão é considerada o símbolo da riqueza por muita gente – o que faz sentido, já que o ingrediente é bastante caro. O caviar mais famoso é o do esturjão-beluga, espécie ameaçada de extinção e encontrada apenas no Mar Cáspio e no Mar Negro. Para que o peixe comece a produzir o caviar é preciso esperar pelo menos dois anos, até que ele atinja a maturidade, e para retirar suas ovas é preciso matar o peixe. O caviar mais caro do mundo foi o de um esturjão-albino, vendido por US$ 34,5 mil o quilo.

TELONA QUENTE 252


Roberto Rillo Bíscaro

Há tempos que o ancião sub-subgênero slasher vem tendo suas convenções subvertidas/explicitadas/confundidas/modificadas/parodiadas. O marco é o influente Pânico (1996), de Wes Craven. Poder-se-ia citar Cherry Falls (2000), em que as vítimas do maníaco são virgens; Terror nos Bastidores (2015), que problematiza as clássicas final girls, além de injetar A Rosa Púrpura do Cairo, no horror e A Morte Te Dá Parabéns (2017), que ao aludir a elemento de Feitiço do Tempo (1993) no roteiro, prevê a possibilidade de mudança no destino das personagens.
Mesmo em seu auge comercial, na primeira metade dos 80’s, slashers continham elementos de humor, por vezes involuntários, como o clássico final de Sleepaway Camp (1983). Neste milênio, o tom cômico/paródico prevalece, pra satisfazer uma geração esperta, irônica, cheia de referências, que já viu “tudo” (da segurança de suas telinhas).
Ano passado, passou quase batida uma espécie de fusão slasher com Patricinhas de Beverly Hills (1995) caça-curtidas de rede social.
Tragedy Girls, escrito por Chris Lee Hill e Tyler MacIntyre, com direção deste último, brinca com algumas convenções slasher, ao mesmo tempo que comenta a fome insaciável pós-moderna por atenção internética. Curioso, que a associação dos jovens atuais com vício em redes sociais já esteja tão velhusco quanto a forma slasher. Tempos velozes!
As superfofas e melhores “migas” McKayla Hooper e Sadie Cunningham são na verdade, duas psico/socipatazinhas, que, pra bombar seu canal na internet, assumem a vez do assassino mascarado, legendário nos filmes slasher. Provavelmente, o pedaço mais subversivo seja a cena de abertura, que distorce a clássica convenção dos namorados se catando no carro, quando um deles ouve um barulho e sai pra investigar, ao invés de simplesmente ligar a p**** do automóvel e vazar!
Tragedy Girls poderia ter mais mortes, mas as poucas são até interessantes, inclusive uma que parodia a franquia Premonição, que o roteiro faz questão de frisar, caso sua audiência não entenda a piada. Tem citação a Dario Argento pra mostrar que os criadores são hipster e conhecem o que a maioria de seu público provavelmente não, e as falas das meninas (ótimas) são repletas de farpas e naquele estilo meio na garganta ou com voz de caricatura de desenha animado.
Pra nós, fãs mais antigos de slasher (cada vez menos existimos, claro), faz falta histórias “sérias”, como a segunda temporada de Slasher (tem na Netflix), mas Tragedy Girls saciará a fissura e quem sabe, ocasionará boas risadinhas se você simpatizar com esse tipo de guria. Eu amo.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

PASSEIO ALBINO

Cobra albina de quase 2 metros passeia por rua de cidade britânica (FOTO)


Uma cobra albina medindo cerca de 2 metros de comprimento foi encontrada deslizando por uma rua em Newcastle, no Reino Unido, relatou Sky News.


A polícia disse que os funcionários ficaram perplexos quando uma grande caixa de papelão, perfurada por buracos, foi levada até à unidade policial.

Duas mulheres que passavam pela rua não se intimidaram com o tamanho da cobra. Elas a capturaram e a colocaram dentro de uma caixa de papelão.


A polícia de Northumbria elogiou a coragem das mulheres e informou que a serpente é da espécie Pantherophis guttatus, conhecida popularmente como cobra-do-milho.

A cobra foi batizada pelos policias da delegacia com o nome de Sandra antes de ser recolhida pela Sociedade Real para a Prevenção de Crueldade Contra Animais (RSPCA, na sigla em inglês). 

A RSPCA informou que as cobras-do-milho, originárias dos EUA, não são venenosas e usam o método de constrição para matar suas presas.




CONTANDO A VIDA 247

ADEUS MUSEU NACIONAL, ADEUS... AH DEUS!

José Carlos Sebe Bom Meihy

Havia pautado escrever sobre o 10 de setembro “dia mundial de combate ao suicídio”. Juntei dados, reli parte dos textos de Camus e Durkheim, e estava pronto para enfrentar a tarefa. Desde logo, porém, se me abateu um dilema, pois tivemos um agosto tão penoso, tão trágico em acontecimentos em todos os níveis da vida (pessoal e coletiva), valeria a pena desbotar a esperança emblemada pelo mês de setembro? Setembro foi saudado em seu primeiro dia como tempo de promissão, carregador da primavera regeneradora. Enquanto alentava tais ambiguidades, nutria um sentimento suportável. Tudo mudou, muito, com os acontecimentos alarmados pelo espanto do incêndio do Museu Nacional, no belo espaço imperial no Campo de São Cristóvão no Rio de Janeiro.

O choque das cenas transmitidas ao vivo, no começo da noite de domingo desolaram o país e nos fizeram pensar. Pronto, estava definido o novo mote da crônica. Por onde começar, contudo, foi minha dúvida decorrente. Parei por um momento e logo me veio o primeiro passeio que fiz àquele lugar encantado. Houve até uma trilha sonora musicada pelo querido Renato Teixeira que historia a primeira viagem feita por um menino interiorano à Cidade Maravilhosa. Deixe-me então dizer como foi a minha estreia no Museu Nacional.

Sou de uma família libanesa que cabe perfeitamente no estereótipo do turco do mercado. Quem me conhece sabe que chorão, sequer consigo enunciar a canção (também do Renato Teixeira) sobre o comerciante que tinha loja e se fez tema de pequena epopeia. Pois é, minha mãe, mulher muito trabalhadora, nutria algumas veleidades que seriam estranhas às “turcas”: gostava de, uma vez por ano, nos levar de férias a lugares frequentados pela classe média abastada. E era uma festa completa, pois nossas modestas roupas eram renovadas, havia preparo premeditado, e assim alternavam-se os lugares: um ano estação de águas (São Lourenço, Poços de Caldas, Caxambu), outro Rio de Janeiro. Foi dessa forma que me introduzi no mundo do turismo, e na então capital federal ia aos cartões postais. O curioso é que mamãe incluía Museus em seus roteiros. Foi assim que em 1953 pela primeira vez fui ao Museu Nacional. E não há como me esquecer do prédio magnífico. Com nitidez recordo-me de que avisado que ia a um palácio, supus um castelo com torres pontiagudas e protegido por pontes e rios circundantes. Acho que minha primeira lição nesse processo inicial foi exatamente saber que palácio era onde vivera parte da nossa corte, e castelo seria fortaleza diferente. Esta lição não foi um detalhe. Por lógico, fiquei impressionadíssimo com os esqueletos monumentais colocados desde a entrada principal e lembro-me do espanto ao ver a tal múmia (que aliás nunca permanece muito tempo fora de minhas cenas infantis), mas, de verdade, o que me fascinou foi saber que a Família Real tinha vivido naquele local. Por aqueles dias, o trono imperial ainda estava lá e fazia parte da reconstrução do ambiente. Isto significou momento decisivo na escolha de minha vocação de historiador.

Ao longo de décadas o Museu Nacional foi se fazendo instituição de respeito. Não foram poucos os projetos que verticalizaram a tendência inicial, desde que se optou por transformar o palácio para ser o Museu de História Natural. A aparente inconformidade era dada pela coleção de objetos antigos reunida por diferentes membros da Família Real. Dona Leopoldina trouxe como presente afrescos de Pompeia, raridade maravilhosa. Dom Pedro II comprou peças egípcias preciosas, e assim a coleção se compunha com série de aves, animais empalhados, mas também com esqueletos e moveis reais.

Já formado, professor de História, fiz pesquisa na Biblioteca do Museu Nacional e me lembro da emoção ao ver os escritos do antropólogo incrível, alemão, que mudou seu nome para Imuendajú. Ao ver alguns desenhos dos viajantes do século XIX me perguntava sobre a falta de divulgação de tantas coleções. E diria o mesmo das telas monumentais que precisavam de conhecimento. Aproveitei todas as oportunidades de visita ao espaço e creio que não passava um ano, enquanto morava no Brasil, em que não ia àquele local. Cheguei mesmo a ver dois ou três concertos de música nos gramados do entorno e me vali de várias conferências oferecidas no Curso de Antropologia, um dos melhores do Brasil.

Por lógico, não bastariam lembranças pessoais para resenhar o significado do incêndio de 2 de setembro. Nem mesmo minhas impressões de profissional da História. O que vale mesmo é pensar que esta tragédia se explica pelo desprezo à História e falo da disciplina História... Não basta achar culpados e a discussão precisa sair do plano discursivo para a política. Meu único recado nessa meditação remete ao desafio de ver com zelo e apuro os programas dos candidatos que concorrem às próximas eleições. Notar que existem pautas que pensam que da parca verba devem ser destinados montantes maiores para o ensino básico é um erro imperdoável. Por evidente, muito precisa ser empregado no nível elementar, mas jamais pode-se tirar de outros estágios comunicantes. É tudo junto, reunido, misturado, circulado. Vejamos bem o alerta dado pela fatalidade. Não é tirando de um nível e pondo em outro que se teria resultado. Seria penosa e sem efeito uma longa espera, para daqui a 15 anos. A única lição que se pode tirar é que precisamos de mais atenção ao ensino/educação como um todo. Tudo pela cultura em todos os estratos sociais, pois só assim valeria chorar pelas lições do Museu Nacional. Pensemos a política como saída. Leiamos os projetos dos candidatos.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O BACURAU ALBINO

Flagrante raro: bacurau albino foi registrado em Iguaba Grande (RJ)

De penas brancas e olhos vermelhos, a ave chamou atenção do observador Sandro Paixão; o fenômeno tem origem genética e pode afetar a visão da ave. 


Durante uma passarinhada em Iguaba Grande (RJ) com a esposa, o observador de aves Sandro Paixão foi surpreendido ao avistar um bacurau albino. Os primeiros cliques foram difíceis, já que a ave estava escondida entre os galhos, mas o observador persistiu até conseguir registrar a espécie. 

Foram 10 passarinhadas na mesma trilha, muitas sem sucesso. “No sexto dia finalmente consegui registrar o bacurau, mas a identificação da espécie seria possível somente com a vocalização do indivíduo, essa, registrada na nona expedição”, conta. 

A partir dos primeiros registros Sandro constatou que a ave era albina. “Ele apresentava penas totalmente brancas, bico claro e olhos vermelhos”, conta o fotógrafo, que se alegra em registrar um fenômeno como este. “Como observador de aves, fotógrafo amador e amante da natureza, fico feliz em contribuir para incrementar o conhecimento sobre essa espécie. O registro me estimula a continuar com a observação de aves, atividade que contribui para a preservação das espécies e faz parte da rotina de minha família”, completa. 

O orgulho em ser autor do flagrante não é exagero. De acordo com o ornitólogo Thiago Vernaschi existem poucos registros de albinismo em bacuraus. “É realmente raro encontrar um indivíduo albino dessa espécie, esse registro foi realmente um fato inusitado”, diz. 

A raridade se deve principalmente ao fato de muitos indivíduos albinos não chegarem à vida adulta. “No caso dos bacuraus a camuflagem é a principal estratégia de defesa, ou seja, a perda da coloração da plumagem pode arruinar essa estratégia e tornar a ave mais vulnerável, ainda que não seja possível afirmar essa hipótese com certeza”, explica o ornitólogo. 

Thiago ressalta que, embora seja possível que as aves estejam mais expostas à predação, não há registros documentados, o que dificulta afirmar se a predação é maior em um indivíduo albino. 

O ornitólogo também aponta a alteração na visão dos albinos como uma característica que dificulta a sobrevivência da espécie. “Aparentemente o albinismo aumenta a sensibilidade do indivíduo à luz e afeta sua acuidade visual. Provavelmente é esse o fato que os torna mais vulneráveis, e não exatamente a coloração da plumagem”, diz. 

COLORAÇÃO DO BACURAU 

Além do albinismo, registrado pelo observador Sandro, existem casos de leucismo em bacuraus, quando apenas partes do corpo da ave apresentam plumagem despigmentada, de forma assimétrica. “A pigmentação da íris dos olhos nos casos de leucismo permanece normal, enquanto no albinos a despigmentação é completa”, explica o ornitólogo, que ressalta a importância de observar bem os detalhes da ave antes de determinar se há ou não alterações de pigmentação. 

“Os bacuraus são bem conhecidos pela grande variação intraespecífica na tonalidade da plumagem, existindo indivíduos mais claros, mais escuros ou rufos dentro da mesma espécie, como uma variação natural”, diz Thiago. 

IDENTIFICAÇÃO DIFÍCIL 
O empenho em registrar a ave em detalhes permitiu ao observador constatar que se tratava de um bacurau-tesoura. “De antemão já sabia que registros do bacurau, bacurau-chintã e bacurau-tesoura foram feitos na região. Ao comparar as fotografias eu arriscava dizer que o bacurau albino era fêmea da espécie bacurau-tesoura, pois as feições do bico eram parecidas e, como o rabo não era comprido, seria a fêmea. Com a resposta da ave ao playback da espécie pude comprovar minha hipótese”, lembra Sandro, que observou um macho do bacurau-tesoura no mesmo local. 

De acordo com o ornitólogo Thiago, a identificação pelos registros é difícil, mas a resposta da ave à vocalização pode confirmar a hipótese de ser um bacurau-tesoura. 


O ALBINISMO NAS AVES 
Thiago Vernaschi explica que o albinismo altera a coloração de todas as estruturas onde há pigmento, incluindo penas, íris e bico. “Dessa forma, os albinos têm a plumagem toda branca, olhos vermelhos, bico e pés rosados”. 

De acordo com o ornitólogo, as alterações de coloração na plumagem são resultado de mutações genéticas que afetam processos de síntese ou distribuição de pigmentos. “Fenômenos como esses resultam em alterações como leucismo, melanismo, albinismo, entre outros”, explica o especialista. “Algumas doenças ou deficiências nutricionais também podem acarretar variações de coloração de plumagem”, completa. 

Comuns entre as populações animais, o albinismo é resultado de um gene recessivo, ou seja, a proporção de indivíduos que carregam o gene é provavelmente muito maior do que se imagina, mas para ser albino o indivíduo precisa receber a mutação do pai e da mãe.

TELINHA QUENTE 325


Roberto Rillo Bíscaro

Evito usar a palavra surpresa em resenhas, porque a considero mais ofensiva/paternalista do que elogiosa. Surpresa é algo inesperado. Ora, se alguém diz que está surpreendido com algo que fiz, é porque não esperava que fosse capaz.
No caso de Fallet (2017), que a Netflix adicionou a seu catálogo recentemente, não tenho como evitar. Não esperava nada dessa sátira sueca ao Nordic Noir. Não porque desconfie da expertise escandinava. Ao contrário, devem sorrir com ironia os leitores mais assíduos. É que não sou muito de comédias mesmo.
Como os episódios têm cerca de meia hora, são apenas 8 e são escandinavos (ai ai) resolvi dar oportunidade. E não me arrependo; é bem inteligente e funciona mais ou menos até como caso (fallet, em sueco) policial.
Apreciarão melhor os mais acostumados às convenções das séries policiais anglo-escandinavas, mas especialmente dessas últimas. Recomenda-se imersão nas temporadas de BronIBroen, porque Fallet tem até vilão mascarado de porco. Mas não é condição sine qua non: dá pra entender/curtir de boa sem sequer saber quem foi Inspetor Morse ou os Midsomer Murders, mencionados (pelo menos nas legendas em inglês, que foi como assisti).
Um inspetor-chefe incompetente britânico e uma policial sueca igualmente desastrada e que tende a atirar pra matar em inocentes, são reunidos pra resolver o assassinato dum cidadão britânico na pequena Norrbacka, na Suécia. Deflagrada por The Bridge, a cooperação entre policiais de distintos países é cada vez mais criticadas por fãs de Scandi Drama, porque perpetra sofríveis interpretações em inglês. Em Fallet ela faz todo sentido, porque satiriza essa estratégia oportunista escandi pra conquistar mercados.
Fallet tem todos os chavões formo-temáticos dos Nordic Noirs: Suécia escura e sinistra; chefe de polícia prestes a se aposentar; detetive emocionalmente remota (não há dúvida de que Sophie Borg seja a versão negativa da antológica Saga Norén). Mas, como é sátira, quase sempre sai errado ou a cena é feita no sentido de mostrar como a convenção é, na verdade, até meio estúpida.
Exemplo: em qualquer série de detetive, existe um mural na chefatura, cheio de fotos e setas sobre o caso, para o qual o detetive passa largo tempo olhando, até que epifania ocorre e ele raciocina algo que estava na sua fuça, mas passara despercebido. Em Fallet, o policial bocó olha, olha, olha e nada acontece.
Há um caso a ser resolvido, porém, então nem tudo falha, mas mesmo assim, Fallet mostra o quão improvável é o material satirizado. Depois de absurda reviravolta melodramática na trama, o DCI Tom Brown relembra em minuciosos flashes, uma torrente de detalhes e consegue desvendar o mistério.
Com personagens secundárias interessantes e até Dag Malmberg no elenco, pra ficar claro que a sacanagem mor é direcionada a BronIBroen (Dag é o Hans, das primeiras – e melhores – duas temporadas), Fallet garante bons momentos de diversão leve, pra contrabalançar a sisudez mórbida do Nordic Noir.