terça-feira, 23 de janeiro de 2018

TELINHA QUENTE 293


Roberto Rillo Bíscaro

Dia 8 de dezembro a Netflix entregou a segunda dezena de capítulos de sua série mais cara, The Crown. Um show cuja protagonista está impedida constitucionalmente de protagonizar (leia resenha da temporada 1, onde isso é explicado) tinha tudo pra ser tão excitante quanto um hipopótamo passeando na lama.
Mas, a produção minuciosa, interpretações magistrais, roteiros nuançados e nosso fascínio pela Família Real somam um todo às vezes hipnótico, quase sempre muito sagaz e totalmente respeitoso com a figura de Elizabeth II. Quem a cerca pode ser um bando de esnobes privilegiados que reclamam de barriga cheia, como Philip e Margaret, mas Lilibet triunfa até sobre uma desbocada, debochada, drogada e dominada Jackie O. Aliás, finalmente John Kennedy foi representado como o cusão arrogante que era.
The Crown II vai de 1956 – quando a Grã-Bretanha foi internacionalmente humilhada com a crise do Canal de Suez – até 1964, quando nasce o Príncipe Edward, aquele que vive tendo que negar que não é gay.
Como a série sabiamente se chama A Coroa e a família disfuncional mais pública do planeta cresce, há espaço pra conhecermos melhor o Príncipe Philip, consorte da rainha; a Princesa Margaret, sua irmã que acendia um cigarro na bituca do outro; e o sensível Príncipe Charles, cuja infância foi infernal numa escola espartana no gélido norte escocês.
Peter Morgan faz exímio trabalho para que entendamos o que movia e dilacerava essas pessoas. O Príncipe Philip teve infância e adolescência abomináveis, então dá pra compreender sua personalidade e atitudes, o que não significa que necessitemos aprova-las ou mesmo gostar dele; pelo contrário, nos dá razões concretas pra justificar porque não dá pra apreciá-lo.
Uma das coisas que mais chama a atenção nessa temporada é como tem macho adulto branco privilegiado sempre se queixando, porque no fundo é inseguro e lotado de ódio. Sabe aquela coisa de tio-jurista véio endinheirado e branco chorando que heterossexual está perdendo direitos, sem falar exatamente quais são? Se você acha que isso é discurso “esquerdopata”, então Sua Majestade também é, porque é nesses termos que detona um de seus primeiros-ministros, chamando-o de fraco pra baixo.
O background Real de Philip sempre o fez saber muitíssimo bem qual seria seu papel ao se casar com Elizabeth – que ele voluntariamente cortejou – mas mesmo assim passa um tempão se lamuriando que não é reconhecido, nhém, nhém, nhém. Ah, vovozinho, seu “sofrimento” por isso não convence. Vai ser leiloado como escravo na Líbia pra ver se tu ia gostar! Eles não têm escolha; Philip teve. Margaret também.
Que fique claro que afirmo isso com base na ficcionalização dessa gente. Não me importa se na “vida real” deles ocorreu isso ou aquilo, assim ou assado. Interessa o que acontece e como essas personagens são construídas e mostradas em The Crown, uma série. Não é documentário, não é de verdade, please!
Pela idade e fragilidade, o único que não teve chance foi o pobre Charles. Nossa, dói ver o capítulo dedicado a seu relacionamento com o pai e o bullying enfrentado por longos anos. Mas isso é na temporada 2, depois quando virar adulto, ele terá mais liberdade de escolha, então que não venha com choraminguice de mártir sofredora! Quer dizer, pode vir, porque pra série dramática isso funciona, mas não espere que me compadeça como se fosse no caso dum diagnóstico de aneurisma cerebral.
Claro que essa profusão de gente (quase) abominável cercando Elizabeth, também executa o truque de desviar nossa atenção de suas culpas nos cartórios. No fim, tudo é construído pra que a Rainha se saia acima de todos moralmente. As escolhas intempestivas e o comportamento abertamente antipático de sua irmã naturalmente nos fazem apreciar mais a reserva cheia de “of courses” da Rainha e numa cena Lilibet alfineta que das 2, Margaret sempre fora a menos igualitária.

Mas eu não esquecera da cena, capítulos antes, quando a monarca é forçada a abrir Buuckingham prum jantar pra comuns numa espécie de sorteio de fim de ano pra jantar com a rainha, a fim de trazer o Coroa mais pra perto do povo. O roteiro põe todo o desprazer da situação na boca da Rainha-Mãe (uma víbora, segundo diria Diana, anos depois), num semimonólogo encharcado de ressentimento, orgulho ferido e impotência. Elizabeth nada diz, porque dominou a arte de não dar opinião até pra mãe. Boa desculpa do roteiro pra não admitir que quem cala, consente.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 299


Roberto Rillo Bíscaro

2017 foi ocupado para o Silhouette: lançaram DVD com a íntegra do LP de 2014, Beyond the Seventh Wave, e álbum de inéditas, The World Is Flat And Other Alternative Facts, que saiu dia 23 de setembro. Pena que graves problemas familiares do baixista Jurjen Bergsma obrigaram os holandeses a cancelar os shows de setembro em conjunto com o britânico The Gift, que teriam sido chave de ouro na celebração do lançamento.
Lançando álbuns desde 2006, a formação do Silhouette é Brian de Graeve (vocais e violão de 12 cordas), Daniel van der Weijde (guitarras), Erik Laan (teclados), Jurjen Bergsma (baixo) e Rob van Nieuwenhuijzen (bateria e percussão). Frequentemente classificada como Neo Prog, a banda realmente deve parte de sua sonoridade a grupos como o Saga, mas o Silhouette sempre teve mais tempero do que a sensaboria imperante no subgênero praticamente advindo da influência do Genesis.
A propósito, a maciça sombra da veneranda banda inglesa – que cobre Beyond the Seventh Wave quase por completo – deu lugar à paleta sonora mais diversa e personalizada em The World Is Flat And Other Alternative Facts. A referência à terra chata não indica pertença à cretinice terraplanista. Pelo contrário, o Silhouette explica que os abomináveis caminhos e perspectivas atuais tornam o planeta um lugar sem profundidade, assim, o LP trata de temas como belicismo, mas o tom geral não é depressivo e sim de alerta e constatação.
Em termos de som, nada de canções sombrias também. O quinteto aborda seus temas de modo bem apropriado ao prog sinfônico: com pompa e circunstância. Com músicos convidados que tocam flauta, oboé e violino, além de soprano fazendo vocais de apoio, a meia dúzia de canções de The World Is Flat And Other Alternative Facts não desapontará fãs de rock progressivo setentista amantes de seu lado mais esfuziante e pirotécnico.
O título da abertura March Of Peace já entrega ritmo e tema. O clima marcial bem marcado e energético acaba por salientar uma debilidade do Silhouette: os vocais fraquinhos às vezes. Legal, mas se o álbum todo fosse no nível, seria apenas mais um LP de Neo Prog num mundo já por demais repleto deles. O mesmo pode ser afirmado sobre Turn It Off a faixa final, que embora cheia de momentos líricos, retoma tema e um pouquinho do leitmotiv musical de March Of Peace.
Da segunda faixa adiante, as coisas melhoram sensivelmente. The Flow introduz a fartura de belos momentos melódicos e a intercalação de criativos solos de guitarra e teclado analógico. Six Feet Underground confirma a subida da qualidade e inaugura o miolo sublime. A faixa abre com piano, mas torna-se bem vibrante, não sem antes arrepiar a espinha de fãs prog com um senhor trechinho de órgão eclesiástico/Procul Harum. São 9 minutos e meio que farão o ouvinte dar graças por não estar a sete palmos, como sugere o título.
Quão frequentemente na história das artes o título de uma obra refletiu tão especularmente a experiência de apreciá-la? Os quase 18 minutos de Symphony for a Perfect Moment são exatamente o prometido: é uma sinfonia e deixa o momento perfeito. A participação de outro cantor, harmonias vocais no nível de um Gentle Giant e uma melodia mais condizente com a voz de Brian – tem um “paaaaaast” que quase chega a Yes, meu Deus do céu! – eliminam até esse problema recorrente. Sem dúvida, a canção mais bem-sucedida e acabada da carreira do Silhouette. Não há segundo feio ou desagradável, os arranjos são de um esmero e dinâmica de cair o queixo e a profusão de solos é humilhante pra concorrência. Especialmente os de guitarra plangente. Chora, guitarrão, nessa moda de prog sinfônico!
Não é aconselhável manter a adrenalina em nível sempre tão elevado; deve ser por isso que em seguida vem os 3 minutos de candura violônica de Sakura. De boa, eu toparia correr o risco de sobrecarregar o coração com uma Simphony for a Perfect Moment que pegasse o álbum inteiro com aquele nível de emoção e maestria.
Inacessivel uma banda prog dos Países Baixos? Que nada, tá no Bandcamp!

domingo, 21 de janeiro de 2018

ADVOCACIA DA SUPERAÇÃO

Aos 11 anos, Gervásio Lins sofreu acidente que lhe custou ambas as pernas e um braço. Conheça a história de superação do hoje advogado.

sábado, 20 de janeiro de 2018

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PRIMEIRA MORTE ALBINA DE 2018

Moçambique. Um rapaz albino de 11 anos apareceu morto. A polícia deteve dois suspeitos de o quererem usar em rituais

A Polícia da República de Moçambique (PRM) deteve dois suspeitos de matar um rapaz albino de 11 anos, no distrito de Milange, centro do país, junto à fronteira com o Maláui, disse hoje à Lusa fonte da corporação.

O corpo com as orelhas cortadas e a cabeça rapada foi encontrado pela PRM no mato, no sábado, após um alerta da população, relatou Miguel Caetano, porta-voz da PRM na província da Zambézia.

Os indícios sugerem que o objetivo dos autores do crime seria usar partes do corpo da vítima em rituais, prática comum em muitos locais de África em que se crê que as partes do corpo de albinos têm poderes sobrenaturais para atrair poder e riqueza.

Este foi o primeiro homicídio de um albino registado em Moçambique este ano.

Ao contrário do que chegou a ser noticiado na segunda-feira sobre um alegado resgate da criança, tal não chegou a acontecer: quando a Polícia da República de Moçambique (PRM) chegou ao local, já a encontrou morta, precisou Miguel Caetano à Lusa.

A vítima tinha sido raptada de casa dos pais, no distrito de Milange, durante a noite, e a PRM suspeita que haja outros três suspeitos envolvidos ainda a monte.

De acordo com o informe anual da Procuradoria-Geral da República de Moçambique, em 2016 foram movimentados 19 processos relacionados com casos de tráfico humano dos quais sete tinham como vítimas cidadãos com albinismo.

Estima-se que um número indeterminado de casos não chegue sequer à justiça.

PAPIRO VIRTUAL 120


Roberto Rillo Bíscaro

Em 1946, a Suécia experimentou surto de relatos sobre objetos não identificados sobrevoando superssonicamente seus céus. A ideia de que fossem discos-voadores tripulados por ETs sequer passou pela cabeça dos observadores e da imprensa. O termo flying saucer, na verdade, só seria inventado no ano seguinte, nos EUA e nem então se cogitaria tripulação alienígena. Suspeitaram de arma soviética desenvolvida a partir de pesquisas nazistas. A Segunda Guerra mal acabara, então os alemães ainda eram vilões (nem pra todos na colaboracionista Suécia, mas isso é outra história) e a Guerra Fria já começara, ou alguém acha que as bombas atômicas sobre um já derrotado Japão não foram também, demonstração de força pelos norte-americanos?
Fato é que aparições que fogem ao registro cognitivo são interpretadas à luz do que é culturalmente possível de imaginar. Num primeiro momento, a torrente de avistamentos aéreos no mundo todo não foi associado a ETs. Até na indústria cultural pode-se atestar isso, víde o filme The Flying Saucer (1950), que rapidamente usou a sensação dos discos-voadores no roteiro, mas articulou-o como possível arma do inimigo vermelho. Com mais de 22 milhões de quilômetros quadrados de território, os soviéticos arriscariam queda e detecção em céus capitalistas; realmente muito esperto...
Com a crescente certeza de que o homem se lançaria à exploração espacial – no mesmo 1950 já houve dois clássicos sci fi com esse tema – o raciocínio inverso não tardou: se o homem pode, por que não haveria civilizações mais adiantadas que já estivessem singrando o espaço sideral? Poucos anos após a febre de discos voadores de 1947, os ETs venceram a batalha pelo imaginário da mídia e do público em geral e qualquer luzinha não identificada no céu era marciano (na época achavam que poderia haver vegetação lá) nos fiscalizando.
No Brasil, o processo foi bem parecido, guardadas as especificidades locais, muito bem elencadas na dissertação de mestrado A invenção dos discos voadores. Guerra Fria, imprensa e ciência no Brasil (1947-1958), defendida na UNCAMP, em 2009, por Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos.
O historiador traça painel muito interessante das ondas de avistamentos no período estudado, destacando como a mídia impressa insuflava, mas também se alimentava do candente tema das supostas naves espaciais. Gente importante como Rachel de Queiroz escreveu crônica apavorada sobre possível invasão. Gauthier também relata as falcatruas da imprensa na fabricação do que ora se chama fake news, que garantiram fama de publicações como O Cruzeiro.
Embora reconheça o poder da indústria cultural (termo polêmico que acertadamente problematizado), o autor prova que as pessoas não eram simples marionetes na mão da mídia ou das ideias vindas do Tio Sam. Por exemplo, as teorias conspiratórias de lá, nunca colaram aqui, porque nossos militares foram mais abertos do que os estadunidenses (porque mais despreparados, por outro lado) e porque que segredo teríamos pra esconder em termos de armas e pesquisas secretas, pobres de nós?
Gauthier não deixa de perceber, por exemplo, que após o estrondoso sucesso do filme O Dia Em Que a Terra Parou (1951), afloraram inúmeros relatos de gente afirmando ter recebido mensagens de advertência aos perigos do uso de armas atômicas. Exatamente como no filme. Engraçado como civilizações altamente tecnologizadas perderiam tempo e energia vindo pra cá pra dar o recado prum zé-ruela qualquer no meio do nada. É como digo sobre as possessões demoníacas: ao invés de pegar um presidente norte-americano, o demo prefere uma menina suburbana. Xô Cão, burro!
A questão nem é acreditar ou não na existências dos OVNIS, porque o trabalho nem se propõe tal missão impossível. O mais fascinante é aprender como nossos antepassados foram afetados por questões como o holocausto nuclear e a corrida espacial, que, com a suposta aparição dos discos-voadores deixavam de ser temas remotos. E no caso brasuca, a popularidade de teorias espíritas (nem sempre bem entendidas) entre a classe média pra cima facilitou a aceitação dos discos como naves extraterrenas. Isso mereceria estudo a parte, porque Gauthier não tem como se aprofundar no tema, porque seu recorte é outro.

A invenção dos discos voadores. Guerra Fria, imprensa e ciência no Brasil (1947-1958) pode ser acessada no link abaixo:


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

SALVAMENTO ALBINO

Polícia moçambicana resgata criança albina sequestrada para rituais

Grupo que tinha a criança de 11 anos era constituído por cinco pessoas

A polícia moçambicana recuperou uma criança albina das mãos de raptores que já lhe tinham cortado as orelhas e rapado a cabeça com o objetivo de usar diferentes partes do corpo em rituais mágicos, anunciou a corporação.

A criança de 11 anos foi resgatada na última semana na província central da Zambézia, perto da fronteira com o Malaui, de acordo com fonte policial citada hoje pela Agência de Informação de Moçambique (AIM).

O grupo era constituído por cinco traficantes de partes do corpo humano.
A vítima residente na província da Zambézia protagonizou o mais recente caso de sequestro de albinos, depois de o último caso conhecido pela polícia ter sido registado há meio ano, referiu a mesma fonte.
Os albinos atraem crenças em vários locais de África de que os respetivos órgãos e até as ossadas podem ser usados em rituais para atrair riqueza e poder.

De acordo com o relatório anual da Procuradoria-Geral da República de Moçambique, em 2016 foram movimentados 19 processos relacionados com casos de tráfico humano dos quais sete tinham como vítimas cidadãos com albinismo.

Estima-se que um número indeterminado de casos não chegue sequer à justiça.

TELONA QUENTE 219


Roberto Rillo Bíscaro

Disco-voador é a versão brasileira para flying saucer, literalmente pires-voador. A expressão parece que surgiu em 1930, para descrever um meteoro que caiu no Texas, mas só se popularizou, em 1947, quando a Associated Press divulgou o relato de Kenneth Arnold. Enquanto pilotava seu avião numa região montanhosa do estado de Washington, o norte-americano viu luzes se deslocando em vertiginosa velocidade. Ao relatar à imprensa, que cunhou o termo flying saucer, Arnold oficialmente abria a era dos discos-voadores.
Se na Idade-Média, viam-se bruxas a granel, nos EUA pós-Segunda Guerra, observavam-se OVNIs, nosso equivalente ao UFO (Unindentified Flying Object), que a Força Aérea norte-americana popularizou pra tentar tirar o sensacionalismo dos pires-voadores, cujos relatos entupiam manchetes.
Vencidos os germânicos e entrando num período de décadas de bonança econômica (quem disse que guerras são prejudiciais a todos?), os EUA passaram a temer invasões: alienígena, comunista, bactereológica, homossexual, tem pra escolher; a neurose cinquentista é tremenda e estava presente em todo canto, especialmente nos cinemas, prenhe de produções sobre monstros atômicos e ETs.
O primeiro filme a capitalizar com a febre dos discos voadores e associá-la ao “perigo vermelho” foi The Flying Saucer (1950), caracteristicamente, não produzido por grande estúdio, mas pela independente Colonial Productions. Isso implica orçamento quase inexistente, que aleija essa produção, cujo valor é mais de efeméride. O crítico do The New York Times confessou até ter dó de malhar o filme de tão pífio o orçamento. E olha que haveria muito a detonar, porque o roteiro não faz sentido.
Discos-voadores são avistados em várias cidades e o serviço de inteligência norte-americano teme que os soviéticos se apoderem da tecnologia dos OVNIs pra usá-la como despejadora de bombas atômicas sobre os EUA. Assunto tão vital pra segurança nacional exige que o governo use mão-de-obra altamente treinada, por isso o escolhido é um playboy mulherengo e beberrão, que irá ao Alasca em companhia duma agente-secreta, que acaba não fazendo nada, porque é mulher e o ano é 1950, quando as mulheres já tinham voltado pra casa de seus empregos de Guerra, pra deixar lugar aos homens.
É claro que o local mais apropriado pra se fabricar artefato tão tecnologicamente sofisticado era o isolado Alasca, né? Bobos eram os EUA que faziam suas armas em regiões conectadas facilmente a fornecedores! Cheio de cenários espetaculares, era prato cheio pra encher linguiça de tempo de exibição pra disfarçar verba minguada. Tem cena em que pessoas sequestradas vagam pela paisagem fabulosa ao som de trilha de violinos e harpas. Realmente, muito tenso! E linda, adoro essas trilhas dos anos 40, 50 e 60. O Alasca se justifica nessa narrativa nada a ver, porque é o estado ianque mais próximo da temida, malvada e fria em todos os sentidos, URSS. Bastava atravessar o Estreito de Bering, mas pera, em The Flying Saucer há um túnel secreto. Curiosidade: à época, o Alasca ainda era um território; sua elevação a estado ocorreu apenas em 1959.
Também há empregado chamado Hans. Em 1950, personagem com nome germânico era o equivalente a ter bandana escarlate na testa escrita “sou do mal”. The Flying Saucer pode ser considerado sementinha da florada de ficção-científica dos 1950’s, mas ainda está mais para película de aventura e espionagem, que transicionava da histeria antialemã pra anticomunista. É sabido que posteriormente os discos-voadores passaram a ser associados exclusivamente a meio de transporte de ETs, então The Flying Saucer também tem valor histórico por ser testemunho dum momento em que aparições no céu eram temidas por serem artefatos humanos, dalguma das superpotências beligerantes. Isso ocorreu também em outros países, como o Brasil.
Hoje The Flying Saucer só é assistível pra fãs devotos dalgum dos subgêneros por ele tocados. No meu caso, amante de filmes B antigos, revi The Flying Saucer com o respeito de sempre. Sem deixar de apontar que não é antológico, me divertindo muito com um protagonista que fuma o tempo todo e nem hesita em jogar bituca na natureza.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

MADONNA ALBINA

Em 2009, um urubu albino apelidado de Michael Jackson virou notícia devido a seu trágico fim na mão de ladrões. Já que teve ave de rapina em homenagem ao Rei do Pop, tinha que celebrar também a Rainha Madonna.
E não é que tem uma urubu-fêmea com esse nome?
Veja na reportagem do Domingo Espetacular:

CONTANDO A VIDA 217

EPICURO E A FELICIDADE MODERNA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Não sou do tipo que faz transferências ligeiras de fatos históricos projetado no presente. Pelo menos não deveria ser. Como profissional da História, sei que o passado não se repete e que, mesmo respeitando Marx, nem mesmo como farsa acredito na reedição do pretérito. Essas noções me vieram à cabeça ao retomar alguns pontos do epicurismo grego. Lembrando que a morte de Epícuro sempre foi um dos episódios que mais empolgantes de minha memória de estudante de filosofia, restou-me refazer pressupostos que justificam a tentação “presentificadora”.
Nascido numa colônia ateniense (Samos 341 – 271 a.C.), jovem ainda, Epicuro prestou serviços militares em Atenas onde se aprofundou na contemplação sistemática da vida. Voltou ao solo natal, mas retornou a Atenas onde foi professor por 35 anos. Independentemente de traços biográficos, vale lembrar o radicalismo epicurista. Passados sete anos da morte do mestre Platão, em plena era de desconstrução do apogeu grego, Epicuro pregava o prazer imediato, em detrimento dos projetos imperiais, a longo prazo. Em síntese, para ele, o melhor a ser feito por qualquer um seria acumular boas lembranças, guardar as sensações extraordinárias para, na velhice ou nos momentos aflitivos, ter o que recordar. Morrer bem era o melhor da meta epicurista. Dizem que no caso pessoal, depois de graves dores motivadas por pedras nos rins, ele se despediu da vida rodeado de amigos e, quando pressentiu a chegada do fim, desnudou-se, entrou em banheira com água morna e sorveu boa taça do vinho mais reputado. Tudo cercado de admiradores. Assim, entrando em êxtase teria transcendido. Verdade ou não, essa narrativa sempre me encantou. Tanto pelo exercício da guarda de frações de ocorrências boas, como pela consciência, e até controle e escolha da própria morte. Sinceramente, fico fascinado com as lições epicuristas.
O que mais me atrai na possibilidade de pensar essas lições transpostas para o presente é que vivemos também uma época de confusão e desorganização progressiva de valores tidos como fundamentais para o convívio social. Segundo Epicuro, é exatamente nesse contexto que cabe a busca de compensações pessoais, dos tais pequenos brindes. “Ser feliz e buscar o prazer” essa era sua meta e isso contagiava seus pares decepcionados com o mundo em que viviam. Convém dizer que o epicurismo vingou por muito tempo, até que 200 anos mais tarde, Cícero, com veemência, desmereceu tais preceitos acusando-os de hedonistas. Interessante assinalar que a noção de paraíso alcançável na Terra, fora uma tentativa testada por Epicuro que criou o chamado “Jardim”, espaço apartado de Atenas, onde os adeptos teriam ampla liberdade de ação. As regras do espaço utópico e imediato eram curiosas, pois, por exemplo, mantinha-se a propriedade privada e os estatutos pessoais (como a escravidão por exemplo), mas os indivíduos tinham o respeito como base de convívio e a ajuda mútua como prática rotineira. Alguns discípulos de Epicuro, como Timócrates, o estóico Epicteto e principalmente Diógenes Laércio trataram de distorcer o ordenamento epicurista e isso contribuiu para seu descrédito como grande pensador. Epicuro escreveu muito, mas apenas em 1928 foram encontrados fragmentos de sua extensa produção. O descalabro do mundo contemporâneo, agora, se preocupa em reestudar esse pensador carismático, provocativo que, afinal, coloca em questão alguns dos grandes dilemas da contemporaneidade: somos felizes sozinhos, com nossas memórias boas, de gozo e prazer, ou apenas seremos felizes se somarmos coletivamente nossas alegrias e esquecermos os pontos ruins?
O aclamado prazer pessoal, individual proposto por Epicuro, em análise mais profunda é complexo, posto que para ter validade, precisava ser contado em público. Os ouvintes, ou a plateia, seriam parte inerente a uma espécie de vanguarda da “sociedade do espetáculo”. Nessa linha, Epicuro difundia a imperiosidade do afeto social. Para quem trabalha com questões da análise da memória social, os preceitos epicuristas são fundamentais, pois implicam seleção (de fatos bons, gostosos, entusiastas) com o esquecimento das atrocidades da vida. É neste sentido que se encontra razão para retomar o estudo de Epicuro. Sem dúvida, de maneira mecânica, numa sociedade capitalista e que tem como base o consumo e a cumulação de bens, temos que perguntar: o que é felicidade e prazer num contexto tão rápido e exigente de reposições? E a que público temos que nos remeter? A metáfora do “Jardim” permanece no nosso imaginário, mas sem noções epicuristas, ele é apenas um lugar físico. Que Epicuro nos salve, agora e na hora de nossa morte. Amém! 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

TELINHA QUENTE 292


Roberto Rillo Bíscaro
Medo de pestes devastadoras, como a Negra ou a Gripe Espanhola, incomoda há milênios e volta e meia compraz a fome incessante da mídia por drama e pavor. A gripe aviária d’alguns anos atrás ensejou cenários extintores fartamente explorados.
Os 10 capítulos da temporada primeira de Cordon (2014), da belga VTM, imaginam um desse cenários hecatômbicos, provocado por vírus mortalmente contagioso, propagável por contato com mucosas e secreções.
Tudo começa quando uma professora leva seus aluninhos pruma visita ao Instituto Nacional de Doenças Infecciosas. Realmente, excelente escolha: um bando de crianças curiosamente inquietas e vivendo fase obsessivamente tátil num viveiro de infecções em potencial. Isso é o que chamo de procurar vírus pra se contaminar. Cordon exige bastante desarmamento da descrença.
O problema com a visita e com toda uma seção de Antuérpia é que um container chegara carregando vírus 100% letal, que começa a se alastrar, daí as autoridades instituem o cordão sanitário aludido no título. As crianças não podem sair do Instituto e ninguém pode deixar a parte isolada da cidade. Não pergunte pelos petizes lá pelo capítulo 5, porque sua função dramática já desaparecera, então não precisam mais ser vistas.
Cordon tem todos os elementos padrão duma representação de catástrofe bacteriológica, viral, quem se importa?: em poucos dias, o tecido social se dilacera e a barbárie se espalha feito praga na área isolada, indicando que o ser-humano não é tão diferente de irracionais unicelulares. Há também mistério que aponta a possibilidade de tudo ser esquema muito maior, deflagrado e camuflado por esse Lobo Mau chamado Governo (que no caso europeu ajuda no financiamento dessas séries), que, claro, tenta se esquivar da culpa culpando os afegãos por bioterrorismo.
Um dos núcleos é um laboratório de informática, onde técnicos recuperam arquivos perdidos. Alguém me explica, porque num local assim, haveria estoque aparentemente inesgotável de roupas isolantes, com touca, luva e tudo? Uma das coisas mais divertidas dessas séries é fazer essas perguntas, mas aceitar o mundo dramático, porque dói menos.
Semivedete do mundo televisivo cult – a Inglaterra descobriu séries belgas há um tempinho e já exibiu umas 3 ou 4 – o pequenino país não possui orçamento pra superprodução, então as ruas são bem desertas, não há muitos extras e nem grana pra pensar em helicóptero pra tirar um menino que poderia conter genética benéfica pra se achar cura.
Duro de crer que a rica Bélgica não teria grana pra isso, mas pro mundo dramático de Cordon a modéstia não é ruim, até porque não se trata de produção mambembe ou esquálida. Apenas não é bombástica como se esperaria nos centros anglófilos do dinheiro.
Orçamento cont(i)ado resultou numa narrativa quieta, intimista, mas que prende, por isso chamou a atenção dos norte-americanos, que compraram os direitos e fizeram sua própria versão, Containment, exibido pela The CW, ano retrasado.
Uma vez que não se trata de spoiler, cumpre apontar que o vírus veio do Brasil. Incrível como a imagem de refúgio pra bandido e origem de violência/mal perdura por décadas. No cine noir não era incomum bandidos fugirem pro Rio. E não é que na contemporânea Bedrag acontece o mesmo?
Cordon teve segunda temporada não muito bem-sucedida, em 2016, mas a primeira pode ser assistida de boa sem se preocupar com a segunda, porque tem um fecho.

Encasquetei se os roteiristas norte-americanos teriam a ideia de enviar um helicóptero pra apanhar o moleque potencialmente carregador da cura; afinal, a seção de Atlanta isolada pelo cordão sanitário possuía prédios altos. Será que não daria pra pousar ali? Pois não é que mantiveram a solução da prima pobre belga?!
Os 13 capítulos de Containment são mais ricos, coloridos, explosivos, patrióticos, dramáticos e, óbvio, mais bem produzidos. Todos os maneirismos de série ianque estão ali: aquelas histórias do passado contadas em momentos-chave; discursos patrióticos e motivadores; a crença de que um homem pode mudar o sistema (ilusão, porque tudo o que consegue é pequena correção de curso). A história básica é mantida até em detalhes com quem morre e sobrevive, mas a adição de 3 capítulos forçou o esticamento d’algumas subtramas. Todo mundo com pele sem manchas e dentes simetricamente alvos; gente do mau com corpão sarado e subtrama de criança que tem que enterrar os pais cortada, claro.
Containment é bem-feita, como negar? Mas, é mais uma na multidão de filmes e séries sobre catástrofes. Tem a moça que na hora do perigo faz o escritório voar pelos ares, enfim, é mais do mesmo, ao passo que o clima da belga – até por ser duma TV não muito conhecida – é mais sombrio e quieto, onde o caos social ocasionado pela epidemia é mais opressor do que com todo o dinheiro e multidões de extras da releitura anglófona.

O público doméstico dos EUA provavelmente sentiu a generalidade do produto, o que determinou a não renovação pra segunda temporada. Eu veria a segunda vinda de Cordon, mas não a de Containment.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 298


Roberto Rillo Bíscaro

Kim Tibbs nasceu em Huntsville, no sulista Alabama. Filha de um pastor batista, que também tocava órgão, a menina estava sentada à frente do instrumento aos dois anos de idade e quando frequentava o jardim da infância já tocava nos cultos de sua congregação. Sempre envolvida no meio musical, a norte-americana tocou com todo mundo que importa em vários mundos musicais. A lista vai de The Blind Boys Of Alabama e Percy Sledge a Billy Ray Cyrus. Empresas como a Hammond e a Roland, a têm em seu rol de divulgadores de produtos.
Contando sua experiência infantil, Tibbs tem 30 anos de carreira e até ano retrasado não lançara nada solo. Uma sucessão de singles bem-sucedidos na parada soul britânica –lá é a terra do blue-eyed e do northern soul – captou a atenção e interesse do produtor Ralph Tee. Conclusão, o tardio álbum de estreia da R’n’Bueseira foi lançado pela gravadora inglesa Expansion, no fim de agosto. Como dizem que música é universal, acreditemos: Kim é tão competente, que poderia ter sido lançado em Plutão e ninguém reclamaria. Kim, o álbum, é estreia; Kim, sua cantora, está pronta há décadas, então as interpretações são, no mínimo, assertivas, coisa de profissional.
Os singles de sucesso na Inglaterra estão no álbum e dá pra perceber porque Kim caiu nas graças lá. A maior parte das 12 faixas é muito amigável pra execução em rádios e se encaixa na tradição britânica sophistipop. Basta conferir o pop soul de I Need You For Your Love e o disco soul de Soul, pra ver porque a pátria de Lisa Stansfield e Lucky Soul avalizou Kim Tibbs. Drifting é northern soul com metais jazzificados.
Às vezes, a voz de Kim lembra uma Diana Ross começo dos anos 80, como em My Better Side. Ela não canta tanto, mas dá bem pro gasto, exceto em momentos como Could I Make a Life With You, slow jam que se beneficiaria de vocais mais personalizados. Bem segunda metade dos 70’s; já a imaginei na trilha-sonora dalguma novela global da época, tipo Marrom Glacê ou O Astro (jovens, boiem nas referências!). Mas, quando a moça não está muito preocupada com as rádios, como na fluidez quase hipnótica do piano de The River, sua voz não precisa ser melhor pra melodia.
Lá pelo meio, há um par de números mais “raiz”, mas meio domesticados. Move é R’n’B com ênfase no B, bem 50’s/60’s e Como On By é gospel bluesado ou blues gospelizado, afinal Tibbs é de perto do Delta do Mississippi! Não é suficiente pra agradar o púbico mais tradicionalista, mas esse é o primeiro CD de alguém que esperou 3 décadas pela oportunidade, então não espanta querer contemplar mais de um público.
Kim é esforço bem decente desta veterana. Torçamos pra que não se passe muito antes do segundo LP.

domingo, 14 de janeiro de 2018

RUBY

Garota albina ultrapassa conceito e quebra padrões de beleza nas redes (FOTOS)

Ruby Vizcarra, que na infância foi vítima de bullying por sua pele e cor de cabelo incomuns, conseguiu lidar com o problema e se tornou modelo.

A mexicana Ruby Vizcarra, de 24 anos, que nasceu com albinismo, tornou-se uma modelo apesar da sua aparência incomum nas passarelas.
De acordo com o Daily Mail, durante sua infância e adolescência, Vizcarra teve que enfrentar bullying por causa de sua pele e cabelo incrivelmente brancos. No entanto, ela aprendeu a aceitar sua aparência visual e agora é modelo, mostrando ao mundo a beleza do povo albino.

"O albinismo é uma condição genética que consiste na falta de pigmento [melanina] na pele, nos cabelos e nos olhos, as pessoas com albinismo são muito sensíveis ao sol e às luzes fortes, temos uma visão reduzida. Somos como qualquer outra pessoa ", explicou Ruby ao se descrever em uma publicação no Facebook.

A jovem nasceu albina, bem como sua avó, sua irmã e sua tia, mas ninguém explicou por que era tão diferente e que era normal, acrescenta ela no artigo.

Ela também não sabia como lidar com bullying na escola, onde seus colegas da turma a chamavam de "fantasma" ou "estranha".

"Eu me vi como um fenômeno, não sabia o que era o albinismo", explicou no Facebook. "Eu sempre me perguntei: ‘Por que nasci tão branca?', ‘Por que era difícil para eu abrir meus olhos quando havia sol e olhar de longe?', ‘Por que as pessoas me olham o tempo todo?".

Tudo isso fazia com que a moça ficasse deprimida e que fugisse das pessoas. Ela escondia seu aspecto físico com maquiagem e pintando o cabelo.

Quando cresceu, tudo mudou e Ruby não só aprendeu a cuidar de sua aparência, mas também decidiu mostrar isso ao mundo.

Agora, a jovem trabalha para revistas e campanhas publicitárias e tem mais de 17 mil seguidores no Facebook. Ele também fundou a organização chamada Latino Albino Movement, para apoiar aqueles nascidos com este transtorno genético.









sábado, 13 de janeiro de 2018

ALBININHO ESTILOSO

Filhotinho albino precisa de óculos especial para sobreviver



Um cão é considerado albino quando seu corpo não produz uma quantidade adequada de melanina, pigmento responsável pela coloração dos tecidos e proteção contra raios solares.

Isto significa que os animais com albinismo têm uma condição genética (e congênita) rara em que a pigmentação da pele, cabelo e olhos está completamente ausente.

Sherlock foi abandonado como recém-nascido por seus antigos proprietários. Netta McKay, que faz um trabalho maravilhoso de abrigar cães desabrigados para levá-los a novas casas, foi responsável por hospedar esse adorável schnauzer.

Sem a intenção de manter o cachorro, o inesperado aconteceu. Sherlock, com sua maneira especial e afetuosa, conquistou toda a família: que deu um óculos especial para o filhotinho conseguir enxergar melhor <3 .="" i="">

Não é um amorzinhoo?








sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PAPIRO VIRTUAL 119

Roberto Rillo Bíscaro

A produção de filmes de ficção-científica dos anos 1950 não se deu apenas nos EUA, mas lá aconteceu com mais vigor, porque a infraestrutura estava montada há décadas e o pós-Guerra trouxe bonança econômica e aumento populacional (mais público). Paralelamente, a histeria pelos discos-voadores, a competição bélico-espacial com a URSS e o medo da infiltração comunista forneceram temas férteis pruma produção fordista de filmes que se sucediam e repetiam com variações diminutas. Em 1957, por exemplo, louva-a-Deus, escorpião, caranguejo, gafanhoto e moluscos radioativamente agigantados colocaram em perigo a espécie humana em produções distintas, copiadas de precursores então recentes como Them! (1954), sobre formigas avantajadas e Tarantula (1955). Mais do mesmo em proporções de linha de montagem.
Metaforizar essas películas como expressões da ansiedade gerada pelo medo da energia atômica e da invasão ou despersonalização comunista tornou-se prevalente a ponto de se transformar numa espécie de memória globalizada. O que essa visão esquece é que em diferentes países a recepção pode ter variado um pouco;
A Grã-Bretanha vivia tempos bem diferentes de sua ex-colônia ianque. As 2 guerras mundiais endividaram a nação, que, além disso, precisou importar maciçamente mão-de-obra imigrante bem antes do que os EUA. Sem contar o processo de descolonização, que esfacelou o império onde outrora o sol jamais se punha. A pomposa, mas empobrecida Inglaterra passou a ser júnior dos EUA em tudo e até humilhada mundialmente, como na crise do Canal de Suez, em 1956, como se pode conferir na segunda temporada de The Crown.
Matthew William Jones problematiza a visão americanocêntrica da leitura da produção sci fi cinquestista, em sua tese The British Reception of 1950s Science Fiction Cinema, para a Universidade de Manchester, em 2012.
Não se trata de jogar fora o corpus sobre o tema e nem propor que os britânicos tenham tido leitura radicalmente distinta da do público norte-americano, mas investigar possíveis especificidades de interpretação devido a contextos culturais diversos. A Grã-Bretanha enfrentava sérios problemas de geração de eletricidade numa década em que menos de dez por cento da população tinha geladeira em casa. Foi a primeira nação a adotar programa civil de construção de usinas atômicas pra produção de eletricidade. Assim, mesmo com certo receio das consequências, provavelmente no início dos anos 50 o público via com fascínio e esperança a possibilidade de ter luz na residência, realidade bem diferente experimentada pela abundância elétrica dos norte-americanos, que talvez pudesse se dar ao luxo de recear, em sua fartura de luz.
O capítulo 1 é dividido em 2 partes. Na primeira, Jones percorre a fortuna crítica abundante, que coloca o cine sci fi dos 50’’s, como lócus de articulação das várias ansiedades do pós-Guerra. Quem estreou tal visão foi Susan Sontag em seu influente ensaio The Imagination of Disaster (1964), que famosamente começa com a afirmação “ours is indeed an age of extremity”. Sorte que a falecida não está mais aqui pra ver como hoje está mais extremista ainda. Pra quem curte ler sobre cinema, essa parte da tese abunda com referências, como a obra de Cyndy Hendershot, Paranoia, the bomb, and 1950s science fiction films (1999). Dá vontade de ler tudo.
Preparando o terreno pra apontar e justificar a originalidade de sua ideia de vasculhar interpretações particulares ao público britânico, Jones também elenca autores destoantes das interpretações prevalentes. Há quem ache que filmes como Invasores de Corpos não são crítica ao comunismo, mas sim, contra aspectos padronizadores que a cultura norte-americana assumia. Há quem veja os insetos gigantes como expressões do medo sentido por insetos e não metáforas. Há quem veja nos discos-voadores expressões a-historicizadas do Id. Enfim, essa polissemia de interpretações permitirá a Jones colaborar com a sua pra fortuna crítica.
Sempre me chama a atenção que em vários momentos esses estudos afirmam categoricamente que o público deve ter interpretado algo assim ou assado. Sabe-se que muito da produção sci fi cinquentista era exibida em drive ins, um dos únicos locais onde um casal não-casado podia gozar de certa privacidade socialmente aceitável. Será que esse público lia metaforicamente os filmes? Será que os Bolsominions funcionalmente analfabetos que vão ver Wolverine dar porrada, hoje, leem os X-Men como metáfora da diversidade, como alegam alguns intelectualetes? Leituras possíveis não significam leituras feitas. Ainda bem que essas leituras universalistas não passaram batido pra Jones, que alerta pro perigo de transferir pro público em geral interpretações que, afinal, são individuais.  
No capítulo seguinte, o acadêmico afirma que o perigo comunista provavelmente era articulado de forma distinta em produções e na recepção de filmes norte-americanos e britânicos. Os primeiros tendiam a apresentar a invasão Vermelha através de “pessoas comuns”. Enquanto na Grã-Bretanha a ansiedade era mais que os soviéticos – metaforizados em alienígenas – estivessem se infiltrando em instituições governamentais, mimetizando alguns casos de defecção pra Moscou ocorridos nos anos 50 ingleses. Ele usa o ianque It Came From Outer Space (1953) e o inglês The Quaternass Experiment (1955), além de uma série de menções a “traidores” do governo britânico, mencionados nos jornais da época. Resta saber, quanto do público dos cines lia jornal...
Mesmo que superespecífica e difícil de provar, porque os anos 50 estão distantes demais e não há documentação comprovando que muita gente interpretava os filmes como Jones o fez – nem todo mundo é doutorando em cinema e conhece teorias de recepção, hermenêutica etc - The British Reception of 1950s Science Fiction Cinema é bem gostosa de ler e interessará não apenas a cinéfilos, mas a interessados na recente história inglesa, devido à serie de dados apresentados pra sustentar as possibilidades interpretativas desenvolvidas por Jones.
Você pode baixar o trabalho em PDF ou lê-lo online, acessando:

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

TELONA QUENTE 218

Roberto Rillo Bíscaro

Graças à Disney e à Jeannie é um Gênio, temos visão bastante redutora e açucarada dos gênios da mitologia islâmica. Os jinna não são tão bonzinhos e engraçados como num desenho do Aladim.
Segundo uma lenda, os jinna foram criados dois mil anos antes de Adão e gozavam de elevada posição no Paraíso, meio como os anjos, mas provavelmente inferiores. Depois que Deus fez Adão, todavia, sob a liderança do seu orgulhoso líder Iblis, os gênios se recusaram a curvar-se perante a nova criatura. Pela má conduta, foram expulsos do Paraíso, tornando-se perversos e asquerosos. Iblis, que foi atirado com eles à Terra, tornou-se o equivalente do Satanás cristão. Fontes atestam que até podem ajudar o homem, mas especialmente quando lhes traz alguma vantagem.
Em seu excelente filme de estreia, o diretor iraniano radicado em Londres, Babak Anvari, usa a suposta habilidade dos gênios de se aproveitar da fragilidade humana para causar caos para imbricá-la com possíveis delírios experimentados por mãe e filha na repressora e bombardeada Teerã oitentista.
Naquela década, Iraque e Irã guerreavam e em 1988 muita gente abandonava a capital iraniana por medo dos misseis de Sadam Hussein. Viver assim e ser mulher numa sociedade onde podia levar chibatada caso saísse pra rua sem cobrir a cabeça, mesmo que estivesse em pânico por um bombardeio, era parte da pressão vivida por Shideh.
Parte, porque a jovem ainda tinha que conter seu espírito diferente. Ex-ativista política, havia sido expulsa do curso de medicina, o qual ansiava concluir pra satisfazer desejo da mãe recentemente falecida. Sob a Sombra (À Sombra do Medo, segundo algumas fontes) abre com funcionário da universidade dizendo que ela podia esquecer esse sonho.
Numa sociedade onde era prudente esconder aparelhos de videocassete, Shideh gostava de fazer aeróbica com os vídeos de Jane Fonda e curtia Yazoo, imagine que rebelde!
Quando o marido é convocado pra prestar serviços médicos num longínquo hospital de guerra, Shideh tem que ficar sozinha no apartamento com sua filha Dorsa, que possui bonequinha, que trata como se fora filha.
O primeiro ato de drama familiar, que expõe com cuidado os vários indícios de susceptibilidade a devaneios e fantasias, de ambas, lentamente cede lugar a thriller psicológico bem tenso, quando coisas misteriosas começam a ocorrer e não sabemos se são ação de um Gênio ou da cabeça estressada da mãe. Ou da filha.
Sob a Sombra é metáfora de como a repressão pode esmerilhar a psique feminina e o roteiro faz isso admiravelmente. Há que se notar o pavor da decepção na relação mãe e filha. Shideh teme ter desapontado a mãe e morre de pânico de não ser boa mãe pra Dorsa, a qual, embora sem entender muito bem as coisas, também vive sufocada por achar que não cuida bem da boneca, perdida durante boa parte do filme. O roteiro assemelha-se àquelas bonecas russas, que se encaixam uma dentro da outra, cada vez menores, mas idênticas fora isso.
Esse amontoado de neuras; o confinamento no prédio cada vez mais vazio; a profusão de sirenas, bombas, orações em alto-falantes; a fofoca e o medo de vizinhos supersticiosos, tudo vai se somando nesse filme opressivo, influenciado por Polanski, Guillermo Del Toro, Jennifer Kent (The Babadook), Hideo Nakata (porque a refilmagem de Dark Water, por Walter Salles não tem sal) e um bocadinho de Poltergaist, no final.
Bem atuado no idioma farsi, climático, denso, multicamadas, Sob a Sombra é um filmão e está na Netflix brasileira, olha que luxo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

SAIDINHA DE FIM DE ANO

Sempre um prazer trabalhar no blog, que no primeiro semestre resultou em ida ao Encontro, com a Fátima Bernardes e depois grande matéria sobre albinismo no programa Bem Estar.
Mas, chegou a hora da saidinha de fim de ano, que, não planejada com antecedência, acontecerá por uns 15 dias.
Hora de levar a mama para passear um pouquinho, ela merece!
Nos vemos em meados de janeiro!
Feliz 2018 para todos nós!!!!

MELHORES DE 2017 – PARTE II


Roberto Rillo Bíscaro

Vez mais, elejo o melhor do semestre, agora, pra juntar com a lista do primeiro (acesse-a aqui) e compor o melhor de 2017. 

CINEMA
Gloria – filme chileno sobre uma mulher “comum”, que se empodera.

Os Árabes Também Dançam – a dureza de ser minoria étnica numa nação sempre envolvida em conflitos.

A Tempestade de Areia – filme israelense que mostra como o patriarcado é hipócrita e nocivo às mulheres.

El Bosque de Karadima – as consequências nefastas do abuso sexual a partir dum caso verídico envolvendo a igreja católica chilena.

MÚSICA
Caravela Escarlate: Caravela Escarlate – quem diz que no Brasil não se faz excelente rock progressivo?

Wobbler: From Silence to Somewhere – álbum de rock progressivo norueguês, que já nasce clássico.

The Smiths: The Queen Is Dead – um dos álbuns mais importantes do rock relançado em edição tripla.

OMD: English Electric – o álbum de 2013 dos synthpopers ingleses é bom do começo ao fim.

Unreal City: Frammenti Noturnni: álbum de prog rock italiano deste ano, que não deve nada ao apogeu setentista do subgênero.

Jamila Woods: HEAVN – o nome do álbum já diz muito, Paraíso. Sem mais.

Ingranaggi della Valle: In Hoc Signo – o primeiro álbum dos proggers italianos não deixa signo sobre signo.

Avery Sunshine: Twenty Sixty-Four – nãoo é a toa que diva Aretha Franklin é fã desta ensolarada da soul music moderna.

TV
Slasher – a segunda temporada da série de terror é uma delícia pra fãs do subgênero cujo apogeu foi nos anos 80.

Hostages – as duas temporadas da série israelense são pura adrenalina pra maratonar.

Wallander – gostei de todas as versões desse detetive sueco, mas a favorita é com Krister Henriksson.