quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

SALVAMENTO ALBINO

Polícia moçambicana resgata criança albina sequestrada para rituais

Grupo que tinha a criança de 11 anos era constituído por cinco pessoas

A polícia moçambicana recuperou uma criança albina das mãos de raptores que já lhe tinham cortado as orelhas e rapado a cabeça com o objetivo de usar diferentes partes do corpo em rituais mágicos, anunciou a corporação.

A criança de 11 anos foi resgatada na última semana na província central da Zambézia, perto da fronteira com o Malaui, de acordo com fonte policial citada hoje pela Agência de Informação de Moçambique (AIM).

O grupo era constituído por cinco traficantes de partes do corpo humano.
A vítima residente na província da Zambézia protagonizou o mais recente caso de sequestro de albinos, depois de o último caso conhecido pela polícia ter sido registado há meio ano, referiu a mesma fonte.
Os albinos atraem crenças em vários locais de África de que os respetivos órgãos e até as ossadas podem ser usados em rituais para atrair riqueza e poder.

De acordo com o relatório anual da Procuradoria-Geral da República de Moçambique, em 2016 foram movimentados 19 processos relacionados com casos de tráfico humano dos quais sete tinham como vítimas cidadãos com albinismo.

Estima-se que um número indeterminado de casos não chegue sequer à justiça.

TELONA QUENTE 219


Roberto Rillo Bíscaro

Disco-voador é a versão brasileira para flying saucer, literalmente pires-voador. A expressão parece que surgiu em 1930, para descrever um meteoro que caiu no Texas, mas só se popularizou, em 1947, quando a Associated Press divulgou o relato de Kenneth Arnold. Enquanto pilotava seu avião numa região montanhosa do estado de Washington, o norte-americano viu luzes se deslocando em vertiginosa velocidade. Ao relatar à imprensa, que cunhou o termo flying saucer, Arnold oficialmente abria a era dos discos-voadores.
Se na Idade-Média, viam-se bruxas a granel, nos EUA pós-Segunda Guerra, observavam-se OVNIs, nosso equivalente ao UFO (Unindentified Flying Object), que a Força Aérea norte-americana popularizou pra tentar tirar o sensacionalismo dos pires-voadores, cujos relatos entupiam manchetes.
Vencidos os germânicos e entrando num período de décadas de bonança econômica (quem disse que guerras são prejudiciais a todos?), os EUA passaram a temer invasões: alienígena, comunista, bactereológica, homossexual, tem pra escolher; a neurose cinquentista é tremenda e estava presente em todo canto, especialmente nos cinemas, prenhe de produções sobre monstros atômicos e ETs.
O primeiro filme a capitalizar com a febre dos discos voadores e associá-la ao “perigo vermelho” foi The Flying Saucer (1950), caracteristicamente, não produzido por grande estúdio, mas pela independente Colonial Productions. Isso implica orçamento quase inexistente, que aleija essa produção, cujo valor é mais de efeméride. O crítico do The New York Times confessou até ter dó de malhar o filme de tão pífio o orçamento. E olha que haveria muito a detonar, porque o roteiro não faz sentido.
Discos-voadores são avistados em várias cidades e o serviço de inteligência norte-americano teme que os soviéticos se apoderem da tecnologia dos OVNIs pra usá-la como despejadora de bombas atômicas sobre os EUA. Assunto tão vital pra segurança nacional exige que o governo use mão-de-obra altamente treinada, por isso o escolhido é um playboy mulherengo e beberrão, que irá ao Alasca em companhia duma agente-secreta, que acaba não fazendo nada, porque é mulher e o ano é 1950, quando as mulheres já tinham voltado pra casa de seus empregos de Guerra, pra deixar lugar aos homens.
É claro que o local mais apropriado pra se fabricar artefato tão tecnologicamente sofisticado era o isolado Alasca, né? Bobos eram os EUA que faziam suas armas em regiões conectadas facilmente a fornecedores! Cheio de cenários espetaculares, era prato cheio pra encher linguiça de tempo de exibição pra disfarçar verba minguada. Tem cena em que pessoas sequestradas vagam pela paisagem fabulosa ao som de trilha de violinos e harpas. Realmente, muito tenso! E linda, adoro essas trilhas dos anos 40, 50 e 60. O Alasca se justifica nessa narrativa nada a ver, porque é o estado ianque mais próximo da temida, malvada e fria em todos os sentidos, URSS. Bastava atravessar o Estreito de Bering, mas pera, em The Flying Saucer há um túnel secreto. Curiosidade: à época, o Alasca ainda era um território; sua elevação a estado ocorreu apenas em 1959.
Também há empregado chamado Hans. Em 1950, personagem com nome germânico era o equivalente a ter bandana escarlate na testa escrita “sou do mal”. The Flying Saucer pode ser considerado sementinha da florada de ficção-científica dos 1950’s, mas ainda está mais para película de aventura e espionagem, que transicionava da histeria antialemã pra anticomunista. É sabido que posteriormente os discos-voadores passaram a ser associados exclusivamente a meio de transporte de ETs, então The Flying Saucer também tem valor histórico por ser testemunho dum momento em que aparições no céu eram temidas por serem artefatos humanos, dalguma das superpotências beligerantes. Isso ocorreu também em outros países, como o Brasil.
Hoje The Flying Saucer só é assistível pra fãs devotos dalgum dos subgêneros por ele tocados. No meu caso, amante de filmes B antigos, revi The Flying Saucer com o respeito de sempre. Sem deixar de apontar que não é antológico, me divertindo muito com um protagonista que fuma o tempo todo e nem hesita em jogar bituca na natureza.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

MADONNA ALBINA

Em 2009, um urubu albino apelidado de Michael Jackson virou notícia devido a seu trágico fim na mão de ladrões. Já que teve ave de rapina em homenagem ao Rei do Pop, tinha que celebrar também a Rainha Madonna.
E não é que tem uma urubu-fêmea com esse nome?
Veja na reportagem do Domingo Espetacular:

CONTANDO A VIDA 217

EPICURO E A FELICIDADE MODERNA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Não sou do tipo que faz transferências ligeiras de fatos históricos projetado no presente. Pelo menos não deveria ser. Como profissional da História, sei que o passado não se repete e que, mesmo respeitando Marx, nem mesmo como farsa acredito na reedição do pretérito. Essas noções me vieram à cabeça ao retomar alguns pontos do epicurismo grego. Lembrando que a morte de Epícuro sempre foi um dos episódios que mais empolgantes de minha memória de estudante de filosofia, restou-me refazer pressupostos que justificam a tentação “presentificadora”.
Nascido numa colônia ateniense (Samos 341 – 271 a.C.), jovem ainda, Epicuro prestou serviços militares em Atenas onde se aprofundou na contemplação sistemática da vida. Voltou ao solo natal, mas retornou a Atenas onde foi professor por 35 anos. Independentemente de traços biográficos, vale lembrar o radicalismo epicurista. Passados sete anos da morte do mestre Platão, em plena era de desconstrução do apogeu grego, Epicuro pregava o prazer imediato, em detrimento dos projetos imperiais, a longo prazo. Em síntese, para ele, o melhor a ser feito por qualquer um seria acumular boas lembranças, guardar as sensações extraordinárias para, na velhice ou nos momentos aflitivos, ter o que recordar. Morrer bem era o melhor da meta epicurista. Dizem que no caso pessoal, depois de graves dores motivadas por pedras nos rins, ele se despediu da vida rodeado de amigos e, quando pressentiu a chegada do fim, desnudou-se, entrou em banheira com água morna e sorveu boa taça do vinho mais reputado. Tudo cercado de admiradores. Assim, entrando em êxtase teria transcendido. Verdade ou não, essa narrativa sempre me encantou. Tanto pelo exercício da guarda de frações de ocorrências boas, como pela consciência, e até controle e escolha da própria morte. Sinceramente, fico fascinado com as lições epicuristas.
O que mais me atrai na possibilidade de pensar essas lições transpostas para o presente é que vivemos também uma época de confusão e desorganização progressiva de valores tidos como fundamentais para o convívio social. Segundo Epicuro, é exatamente nesse contexto que cabe a busca de compensações pessoais, dos tais pequenos brindes. “Ser feliz e buscar o prazer” essa era sua meta e isso contagiava seus pares decepcionados com o mundo em que viviam. Convém dizer que o epicurismo vingou por muito tempo, até que 200 anos mais tarde, Cícero, com veemência, desmereceu tais preceitos acusando-os de hedonistas. Interessante assinalar que a noção de paraíso alcançável na Terra, fora uma tentativa testada por Epicuro que criou o chamado “Jardim”, espaço apartado de Atenas, onde os adeptos teriam ampla liberdade de ação. As regras do espaço utópico e imediato eram curiosas, pois, por exemplo, mantinha-se a propriedade privada e os estatutos pessoais (como a escravidão por exemplo), mas os indivíduos tinham o respeito como base de convívio e a ajuda mútua como prática rotineira. Alguns discípulos de Epicuro, como Timócrates, o estóico Epicteto e principalmente Diógenes Laércio trataram de distorcer o ordenamento epicurista e isso contribuiu para seu descrédito como grande pensador. Epicuro escreveu muito, mas apenas em 1928 foram encontrados fragmentos de sua extensa produção. O descalabro do mundo contemporâneo, agora, se preocupa em reestudar esse pensador carismático, provocativo que, afinal, coloca em questão alguns dos grandes dilemas da contemporaneidade: somos felizes sozinhos, com nossas memórias boas, de gozo e prazer, ou apenas seremos felizes se somarmos coletivamente nossas alegrias e esquecermos os pontos ruins?
O aclamado prazer pessoal, individual proposto por Epicuro, em análise mais profunda é complexo, posto que para ter validade, precisava ser contado em público. Os ouvintes, ou a plateia, seriam parte inerente a uma espécie de vanguarda da “sociedade do espetáculo”. Nessa linha, Epicuro difundia a imperiosidade do afeto social. Para quem trabalha com questões da análise da memória social, os preceitos epicuristas são fundamentais, pois implicam seleção (de fatos bons, gostosos, entusiastas) com o esquecimento das atrocidades da vida. É neste sentido que se encontra razão para retomar o estudo de Epicuro. Sem dúvida, de maneira mecânica, numa sociedade capitalista e que tem como base o consumo e a cumulação de bens, temos que perguntar: o que é felicidade e prazer num contexto tão rápido e exigente de reposições? E a que público temos que nos remeter? A metáfora do “Jardim” permanece no nosso imaginário, mas sem noções epicuristas, ele é apenas um lugar físico. Que Epicuro nos salve, agora e na hora de nossa morte. Amém! 

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

TELINHA QUENTE 292


Roberto Rillo Bíscaro
Medo de pestes devastadoras, como a Negra ou a Gripe Espanhola, incomoda há milênios e volta e meia compraz a fome incessante da mídia por drama e pavor. A gripe aviária d’alguns anos atrás ensejou cenários extintores fartamente explorados.
Os 10 capítulos da temporada primeira de Cordon (2014), da belga VTM, imaginam um desse cenários hecatômbicos, provocado por vírus mortalmente contagioso, propagável por contato com mucosas e secreções.
Tudo começa quando uma professora leva seus aluninhos pruma visita ao Instituto Nacional de Doenças Infecciosas. Realmente, excelente escolha: um bando de crianças curiosamente inquietas e vivendo fase obsessivamente tátil num viveiro de infecções em potencial. Isso é o que chamo de procurar vírus pra se contaminar. Cordon exige bastante desarmamento da descrença.
O problema com a visita e com toda uma seção de Antuérpia é que um container chegara carregando vírus 100% letal, que começa a se alastrar, daí as autoridades instituem o cordão sanitário aludido no título. As crianças não podem sair do Instituto e ninguém pode deixar a parte isolada da cidade. Não pergunte pelos petizes lá pelo capítulo 5, porque sua função dramática já desaparecera, então não precisam mais ser vistas.
Cordon tem todos os elementos padrão duma representação de catástrofe bacteriológica, viral, quem se importa?: em poucos dias, o tecido social se dilacera e a barbárie se espalha feito praga na área isolada, indicando que o ser-humano não é tão diferente de irracionais unicelulares. Há também mistério que aponta a possibilidade de tudo ser esquema muito maior, deflagrado e camuflado por esse Lobo Mau chamado Governo (que no caso europeu ajuda no financiamento dessas séries), que, claro, tenta se esquivar da culpa culpando os afegãos por bioterrorismo.
Um dos núcleos é um laboratório de informática, onde técnicos recuperam arquivos perdidos. Alguém me explica, porque num local assim, haveria estoque aparentemente inesgotável de roupas isolantes, com touca, luva e tudo? Uma das coisas mais divertidas dessas séries é fazer essas perguntas, mas aceitar o mundo dramático, porque dói menos.
Semivedete do mundo televisivo cult – a Inglaterra descobriu séries belgas há um tempinho e já exibiu umas 3 ou 4 – o pequenino país não possui orçamento pra superprodução, então as ruas são bem desertas, não há muitos extras e nem grana pra pensar em helicóptero pra tirar um menino que poderia conter genética benéfica pra se achar cura.
Duro de crer que a rica Bélgica não teria grana pra isso, mas pro mundo dramático de Cordon a modéstia não é ruim, até porque não se trata de produção mambembe ou esquálida. Apenas não é bombástica como se esperaria nos centros anglófilos do dinheiro.
Orçamento cont(i)ado resultou numa narrativa quieta, intimista, mas que prende, por isso chamou a atenção dos norte-americanos, que compraram os direitos e fizeram sua própria versão, Containment, exibido pela The CW, ano retrasado.
Uma vez que não se trata de spoiler, cumpre apontar que o vírus veio do Brasil. Incrível como a imagem de refúgio pra bandido e origem de violência/mal perdura por décadas. No cine noir não era incomum bandidos fugirem pro Rio. E não é que na contemporânea Bedrag acontece o mesmo?
Cordon teve segunda temporada não muito bem-sucedida, em 2016, mas a primeira pode ser assistida de boa sem se preocupar com a segunda, porque tem um fecho.

Encasquetei se os roteiristas norte-americanos teriam a ideia de enviar um helicóptero pra apanhar o moleque potencialmente carregador da cura; afinal, a seção de Atlanta isolada pelo cordão sanitário possuía prédios altos. Será que não daria pra pousar ali? Pois não é que mantiveram a solução da prima pobre belga?!
Os 13 capítulos de Containment são mais ricos, coloridos, explosivos, patrióticos, dramáticos e, óbvio, mais bem produzidos. Todos os maneirismos de série ianque estão ali: aquelas histórias do passado contadas em momentos-chave; discursos patrióticos e motivadores; a crença de que um homem pode mudar o sistema (ilusão, porque tudo o que consegue é pequena correção de curso). A história básica é mantida até em detalhes com quem morre e sobrevive, mas a adição de 3 capítulos forçou o esticamento d’algumas subtramas. Todo mundo com pele sem manchas e dentes simetricamente alvos; gente do mau com corpão sarado e subtrama de criança que tem que enterrar os pais cortada, claro.
Containment é bem-feita, como negar? Mas, é mais uma na multidão de filmes e séries sobre catástrofes. Tem a moça que na hora do perigo faz o escritório voar pelos ares, enfim, é mais do mesmo, ao passo que o clima da belga – até por ser duma TV não muito conhecida – é mais sombrio e quieto, onde o caos social ocasionado pela epidemia é mais opressor do que com todo o dinheiro e multidões de extras da releitura anglófona.

O público doméstico dos EUA provavelmente sentiu a generalidade do produto, o que determinou a não renovação pra segunda temporada. Eu veria a segunda vinda de Cordon, mas não a de Containment.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 298


Roberto Rillo Bíscaro

Kim Tibbs nasceu em Huntsville, no sulista Alabama. Filha de um pastor batista, que também tocava órgão, a menina estava sentada à frente do instrumento aos dois anos de idade e quando frequentava o jardim da infância já tocava nos cultos de sua congregação. Sempre envolvida no meio musical, a norte-americana tocou com todo mundo que importa em vários mundos musicais. A lista vai de The Blind Boys Of Alabama e Percy Sledge a Billy Ray Cyrus. Empresas como a Hammond e a Roland, a têm em seu rol de divulgadores de produtos.
Contando sua experiência infantil, Tibbs tem 30 anos de carreira e até ano retrasado não lançara nada solo. Uma sucessão de singles bem-sucedidos na parada soul britânica –lá é a terra do blue-eyed e do northern soul – captou a atenção e interesse do produtor Ralph Tee. Conclusão, o tardio álbum de estreia da R’n’Bueseira foi lançado pela gravadora inglesa Expansion, no fim de agosto. Como dizem que música é universal, acreditemos: Kim é tão competente, que poderia ter sido lançado em Plutão e ninguém reclamaria. Kim, o álbum, é estreia; Kim, sua cantora, está pronta há décadas, então as interpretações são, no mínimo, assertivas, coisa de profissional.
Os singles de sucesso na Inglaterra estão no álbum e dá pra perceber porque Kim caiu nas graças lá. A maior parte das 12 faixas é muito amigável pra execução em rádios e se encaixa na tradição britânica sophistipop. Basta conferir o pop soul de I Need You For Your Love e o disco soul de Soul, pra ver porque a pátria de Lisa Stansfield e Lucky Soul avalizou Kim Tibbs. Drifting é northern soul com metais jazzificados.
Às vezes, a voz de Kim lembra uma Diana Ross começo dos anos 80, como em My Better Side. Ela não canta tanto, mas dá bem pro gasto, exceto em momentos como Could I Make a Life With You, slow jam que se beneficiaria de vocais mais personalizados. Bem segunda metade dos 70’s; já a imaginei na trilha-sonora dalguma novela global da época, tipo Marrom Glacê ou O Astro (jovens, boiem nas referências!). Mas, quando a moça não está muito preocupada com as rádios, como na fluidez quase hipnótica do piano de The River, sua voz não precisa ser melhor pra melodia.
Lá pelo meio, há um par de números mais “raiz”, mas meio domesticados. Move é R’n’B com ênfase no B, bem 50’s/60’s e Como On By é gospel bluesado ou blues gospelizado, afinal Tibbs é de perto do Delta do Mississippi! Não é suficiente pra agradar o púbico mais tradicionalista, mas esse é o primeiro CD de alguém que esperou 3 décadas pela oportunidade, então não espanta querer contemplar mais de um público.
Kim é esforço bem decente desta veterana. Torçamos pra que não se passe muito antes do segundo LP.

domingo, 14 de janeiro de 2018

RUBY

Garota albina ultrapassa conceito e quebra padrões de beleza nas redes (FOTOS)

Ruby Vizcarra, que na infância foi vítima de bullying por sua pele e cor de cabelo incomuns, conseguiu lidar com o problema e se tornou modelo.

A mexicana Ruby Vizcarra, de 24 anos, que nasceu com albinismo, tornou-se uma modelo apesar da sua aparência incomum nas passarelas.
De acordo com o Daily Mail, durante sua infância e adolescência, Vizcarra teve que enfrentar bullying por causa de sua pele e cabelo incrivelmente brancos. No entanto, ela aprendeu a aceitar sua aparência visual e agora é modelo, mostrando ao mundo a beleza do povo albino.

"O albinismo é uma condição genética que consiste na falta de pigmento [melanina] na pele, nos cabelos e nos olhos, as pessoas com albinismo são muito sensíveis ao sol e às luzes fortes, temos uma visão reduzida. Somos como qualquer outra pessoa ", explicou Ruby ao se descrever em uma publicação no Facebook.

A jovem nasceu albina, bem como sua avó, sua irmã e sua tia, mas ninguém explicou por que era tão diferente e que era normal, acrescenta ela no artigo.

Ela também não sabia como lidar com bullying na escola, onde seus colegas da turma a chamavam de "fantasma" ou "estranha".

"Eu me vi como um fenômeno, não sabia o que era o albinismo", explicou no Facebook. "Eu sempre me perguntei: ‘Por que nasci tão branca?', ‘Por que era difícil para eu abrir meus olhos quando havia sol e olhar de longe?', ‘Por que as pessoas me olham o tempo todo?".

Tudo isso fazia com que a moça ficasse deprimida e que fugisse das pessoas. Ela escondia seu aspecto físico com maquiagem e pintando o cabelo.

Quando cresceu, tudo mudou e Ruby não só aprendeu a cuidar de sua aparência, mas também decidiu mostrar isso ao mundo.

Agora, a jovem trabalha para revistas e campanhas publicitárias e tem mais de 17 mil seguidores no Facebook. Ele também fundou a organização chamada Latino Albino Movement, para apoiar aqueles nascidos com este transtorno genético.









sábado, 13 de janeiro de 2018

ALBININHO ESTILOSO

Filhotinho albino precisa de óculos especial para sobreviver



Um cão é considerado albino quando seu corpo não produz uma quantidade adequada de melanina, pigmento responsável pela coloração dos tecidos e proteção contra raios solares.

Isto significa que os animais com albinismo têm uma condição genética (e congênita) rara em que a pigmentação da pele, cabelo e olhos está completamente ausente.

Sherlock foi abandonado como recém-nascido por seus antigos proprietários. Netta McKay, que faz um trabalho maravilhoso de abrigar cães desabrigados para levá-los a novas casas, foi responsável por hospedar esse adorável schnauzer.

Sem a intenção de manter o cachorro, o inesperado aconteceu. Sherlock, com sua maneira especial e afetuosa, conquistou toda a família: que deu um óculos especial para o filhotinho conseguir enxergar melhor <3 .="" i="">

Não é um amorzinhoo?








sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PAPIRO VIRTUAL 119

Roberto Rillo Bíscaro

A produção de filmes de ficção-científica dos anos 1950 não se deu apenas nos EUA, mas lá aconteceu com mais vigor, porque a infraestrutura estava montada há décadas e o pós-Guerra trouxe bonança econômica e aumento populacional (mais público). Paralelamente, a histeria pelos discos-voadores, a competição bélico-espacial com a URSS e o medo da infiltração comunista forneceram temas férteis pruma produção fordista de filmes que se sucediam e repetiam com variações diminutas. Em 1957, por exemplo, louva-a-Deus, escorpião, caranguejo, gafanhoto e moluscos radioativamente agigantados colocaram em perigo a espécie humana em produções distintas, copiadas de precursores então recentes como Them! (1954), sobre formigas avantajadas e Tarantula (1955). Mais do mesmo em proporções de linha de montagem.
Metaforizar essas películas como expressões da ansiedade gerada pelo medo da energia atômica e da invasão ou despersonalização comunista tornou-se prevalente a ponto de se transformar numa espécie de memória globalizada. O que essa visão esquece é que em diferentes países a recepção pode ter variado um pouco;
A Grã-Bretanha vivia tempos bem diferentes de sua ex-colônia ianque. As 2 guerras mundiais endividaram a nação, que, além disso, precisou importar maciçamente mão-de-obra imigrante bem antes do que os EUA. Sem contar o processo de descolonização, que esfacelou o império onde outrora o sol jamais se punha. A pomposa, mas empobrecida Inglaterra passou a ser júnior dos EUA em tudo e até humilhada mundialmente, como na crise do Canal de Suez, em 1956, como se pode conferir na segunda temporada de The Crown.
Matthew William Jones problematiza a visão americanocêntrica da leitura da produção sci fi cinquestista, em sua tese The British Reception of 1950s Science Fiction Cinema, para a Universidade de Manchester, em 2012.
Não se trata de jogar fora o corpus sobre o tema e nem propor que os britânicos tenham tido leitura radicalmente distinta da do público norte-americano, mas investigar possíveis especificidades de interpretação devido a contextos culturais diversos. A Grã-Bretanha enfrentava sérios problemas de geração de eletricidade numa década em que menos de dez por cento da população tinha geladeira em casa. Foi a primeira nação a adotar programa civil de construção de usinas atômicas pra produção de eletricidade. Assim, mesmo com certo receio das consequências, provavelmente no início dos anos 50 o público via com fascínio e esperança a possibilidade de ter luz na residência, realidade bem diferente experimentada pela abundância elétrica dos norte-americanos, que talvez pudesse se dar ao luxo de recear, em sua fartura de luz.
O capítulo 1 é dividido em 2 partes. Na primeira, Jones percorre a fortuna crítica abundante, que coloca o cine sci fi dos 50’’s, como lócus de articulação das várias ansiedades do pós-Guerra. Quem estreou tal visão foi Susan Sontag em seu influente ensaio The Imagination of Disaster (1964), que famosamente começa com a afirmação “ours is indeed an age of extremity”. Sorte que a falecida não está mais aqui pra ver como hoje está mais extremista ainda. Pra quem curte ler sobre cinema, essa parte da tese abunda com referências, como a obra de Cyndy Hendershot, Paranoia, the bomb, and 1950s science fiction films (1999). Dá vontade de ler tudo.
Preparando o terreno pra apontar e justificar a originalidade de sua ideia de vasculhar interpretações particulares ao público britânico, Jones também elenca autores destoantes das interpretações prevalentes. Há quem ache que filmes como Invasores de Corpos não são crítica ao comunismo, mas sim, contra aspectos padronizadores que a cultura norte-americana assumia. Há quem veja os insetos gigantes como expressões do medo sentido por insetos e não metáforas. Há quem veja nos discos-voadores expressões a-historicizadas do Id. Enfim, essa polissemia de interpretações permitirá a Jones colaborar com a sua pra fortuna crítica.
Sempre me chama a atenção que em vários momentos esses estudos afirmam categoricamente que o público deve ter interpretado algo assim ou assado. Sabe-se que muito da produção sci fi cinquentista era exibida em drive ins, um dos únicos locais onde um casal não-casado podia gozar de certa privacidade socialmente aceitável. Será que esse público lia metaforicamente os filmes? Será que os Bolsominions funcionalmente analfabetos que vão ver Wolverine dar porrada, hoje, leem os X-Men como metáfora da diversidade, como alegam alguns intelectualetes? Leituras possíveis não significam leituras feitas. Ainda bem que essas leituras universalistas não passaram batido pra Jones, que alerta pro perigo de transferir pro público em geral interpretações que, afinal, são individuais.  
No capítulo seguinte, o acadêmico afirma que o perigo comunista provavelmente era articulado de forma distinta em produções e na recepção de filmes norte-americanos e britânicos. Os primeiros tendiam a apresentar a invasão Vermelha através de “pessoas comuns”. Enquanto na Grã-Bretanha a ansiedade era mais que os soviéticos – metaforizados em alienígenas – estivessem se infiltrando em instituições governamentais, mimetizando alguns casos de defecção pra Moscou ocorridos nos anos 50 ingleses. Ele usa o ianque It Came From Outer Space (1953) e o inglês The Quaternass Experiment (1955), além de uma série de menções a “traidores” do governo britânico, mencionados nos jornais da época. Resta saber, quanto do público dos cines lia jornal...
Mesmo que superespecífica e difícil de provar, porque os anos 50 estão distantes demais e não há documentação comprovando que muita gente interpretava os filmes como Jones o fez – nem todo mundo é doutorando em cinema e conhece teorias de recepção, hermenêutica etc - The British Reception of 1950s Science Fiction Cinema é bem gostosa de ler e interessará não apenas a cinéfilos, mas a interessados na recente história inglesa, devido à serie de dados apresentados pra sustentar as possibilidades interpretativas desenvolvidas por Jones.
Você pode baixar o trabalho em PDF ou lê-lo online, acessando:

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

TELONA QUENTE 218

Roberto Rillo Bíscaro

Graças à Disney e à Jeannie é um Gênio, temos visão bastante redutora e açucarada dos gênios da mitologia islâmica. Os jinna não são tão bonzinhos e engraçados como num desenho do Aladim.
Segundo uma lenda, os jinna foram criados dois mil anos antes de Adão e gozavam de elevada posição no Paraíso, meio como os anjos, mas provavelmente inferiores. Depois que Deus fez Adão, todavia, sob a liderança do seu orgulhoso líder Iblis, os gênios se recusaram a curvar-se perante a nova criatura. Pela má conduta, foram expulsos do Paraíso, tornando-se perversos e asquerosos. Iblis, que foi atirado com eles à Terra, tornou-se o equivalente do Satanás cristão. Fontes atestam que até podem ajudar o homem, mas especialmente quando lhes traz alguma vantagem.
Em seu excelente filme de estreia, o diretor iraniano radicado em Londres, Babak Anvari, usa a suposta habilidade dos gênios de se aproveitar da fragilidade humana para causar caos para imbricá-la com possíveis delírios experimentados por mãe e filha na repressora e bombardeada Teerã oitentista.
Naquela década, Iraque e Irã guerreavam e em 1988 muita gente abandonava a capital iraniana por medo dos misseis de Sadam Hussein. Viver assim e ser mulher numa sociedade onde podia levar chibatada caso saísse pra rua sem cobrir a cabeça, mesmo que estivesse em pânico por um bombardeio, era parte da pressão vivida por Shideh.
Parte, porque a jovem ainda tinha que conter seu espírito diferente. Ex-ativista política, havia sido expulsa do curso de medicina, o qual ansiava concluir pra satisfazer desejo da mãe recentemente falecida. Sob a Sombra (À Sombra do Medo, segundo algumas fontes) abre com funcionário da universidade dizendo que ela podia esquecer esse sonho.
Numa sociedade onde era prudente esconder aparelhos de videocassete, Shideh gostava de fazer aeróbica com os vídeos de Jane Fonda e curtia Yazoo, imagine que rebelde!
Quando o marido é convocado pra prestar serviços médicos num longínquo hospital de guerra, Shideh tem que ficar sozinha no apartamento com sua filha Dorsa, que possui bonequinha, que trata como se fora filha.
O primeiro ato de drama familiar, que expõe com cuidado os vários indícios de susceptibilidade a devaneios e fantasias, de ambas, lentamente cede lugar a thriller psicológico bem tenso, quando coisas misteriosas começam a ocorrer e não sabemos se são ação de um Gênio ou da cabeça estressada da mãe. Ou da filha.
Sob a Sombra é metáfora de como a repressão pode esmerilhar a psique feminina e o roteiro faz isso admiravelmente. Há que se notar o pavor da decepção na relação mãe e filha. Shideh teme ter desapontado a mãe e morre de pânico de não ser boa mãe pra Dorsa, a qual, embora sem entender muito bem as coisas, também vive sufocada por achar que não cuida bem da boneca, perdida durante boa parte do filme. O roteiro assemelha-se àquelas bonecas russas, que se encaixam uma dentro da outra, cada vez menores, mas idênticas fora isso.
Esse amontoado de neuras; o confinamento no prédio cada vez mais vazio; a profusão de sirenas, bombas, orações em alto-falantes; a fofoca e o medo de vizinhos supersticiosos, tudo vai se somando nesse filme opressivo, influenciado por Polanski, Guillermo Del Toro, Jennifer Kent (The Babadook), Hideo Nakata (porque a refilmagem de Dark Water, por Walter Salles não tem sal) e um bocadinho de Poltergaist, no final.
Bem atuado no idioma farsi, climático, denso, multicamadas, Sob a Sombra é um filmão e está na Netflix brasileira, olha que luxo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

SAIDINHA DE FIM DE ANO

Sempre um prazer trabalhar no blog, que no primeiro semestre resultou em ida ao Encontro, com a Fátima Bernardes e depois grande matéria sobre albinismo no programa Bem Estar.
Mas, chegou a hora da saidinha de fim de ano, que, não planejada com antecedência, acontecerá por uns 15 dias.
Hora de levar a mama para passear um pouquinho, ela merece!
Nos vemos em meados de janeiro!
Feliz 2018 para todos nós!!!!

MELHORES DE 2017 – PARTE II


Roberto Rillo Bíscaro

Vez mais, elejo o melhor do semestre, agora, pra juntar com a lista do primeiro (acesse-a aqui) e compor o melhor de 2017. 

CINEMA
Gloria – filme chileno sobre uma mulher “comum”, que se empodera.

Os Árabes Também Dançam – a dureza de ser minoria étnica numa nação sempre envolvida em conflitos.

A Tempestade de Areia – filme israelense que mostra como o patriarcado é hipócrita e nocivo às mulheres.

El Bosque de Karadima – as consequências nefastas do abuso sexual a partir dum caso verídico envolvendo a igreja católica chilena.

MÚSICA
Caravela Escarlate: Caravela Escarlate – quem diz que no Brasil não se faz excelente rock progressivo?

Wobbler: From Silence to Somewhere – álbum de rock progressivo norueguês, que já nasce clássico.

The Smiths: The Queen Is Dead – um dos álbuns mais importantes do rock relançado em edição tripla.

OMD: English Electric – o álbum de 2013 dos synthpopers ingleses é bom do começo ao fim.

Unreal City: Frammenti Noturnni: álbum de prog rock italiano deste ano, que não deve nada ao apogeu setentista do subgênero.

Jamila Woods: HEAVN – o nome do álbum já diz muito, Paraíso. Sem mais.

Ingranaggi della Valle: In Hoc Signo – o primeiro álbum dos proggers italianos não deixa signo sobre signo.

Avery Sunshine: Twenty Sixty-Four – nãoo é a toa que diva Aretha Franklin é fã desta ensolarada da soul music moderna.

TV
Slasher – a segunda temporada da série de terror é uma delícia pra fãs do subgênero cujo apogeu foi nos anos 80.

Hostages – as duas temporadas da série israelense são pura adrenalina pra maratonar.

Wallander – gostei de todas as versões desse detetive sueco, mas a favorita é com Krister Henriksson.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

TELONA QUENTE 217



Roberto Rillo Bíscaro
Ano que vem, Halloween fará 40 anos e Jamie Lee Curtis voltará a interpretar Laurie Strode, icônico papel que transformou a filha de Janet Leigh e Tony Curtis na final girl mais famosa do universo slasher. Jamie afirmou que será a última vez que encarnará a personagem, mas fãs devem se lembrar que ela disse o mesmo, em 1998, quando de Halloween H20. Nem é necessário vasculhar arquivos pra checar a informação, basta assistir a Halloween: The Inside Story (2010), disponível em inglês sem legendas no Youtube.
Em seus 90 minutos, o documentário foca na produção do clássico mambembe de John Carpenter, que além de influenciar toda uma geração de cineastas trash, ainda tem uma das trilhas-sonoras mais reconhecíveis da história do cinema em qualquer subgênero. E composta por Carpenter! O desgramado é bom e sabe disso, basta ver a atitude blasê, de quem se acha. OK, ele até que pode.
Cuidadosamente evitando o anterior Black Christmas (1974) – que influenciou em muito Halloween - Halloween: The Inside Story é farto em minúcias e anedotas de produção, como explicar a profusão de folhas secas outonais de Illinois num filme gravado em plena primavera californiana. Canonizado em seu estatuto de clássico, já se pode até apontar alguns erros grosseiros, como membros da equipe aparecendo por detrás de arbustos e que tais.
Até personagens menores e extras dão depoimentos, além de críticos e executivos, então, é prato cheio pra fãs não apenas da franquia, mas de slasher films e horror em geral. Mas, admiradores da indústria cinematográfica gostarão de saber como era o esquema de lançamento dum filme no fim dos anos 70, quando a crítica especializada tinha forte poder pra (des)fazer uma película. Detonada nos jornais, a película só engatou nas bilheterias, depois que 2 críticos respeitados viram seu valor. Isso e o boca-a-boca fizeram de uma produção barata de 325 mil dólares (25 mil foi o salário de Donald Pleasence), o filme indie mais lucrativo durante uma década. 
Finalmente, um documentário que abordou o uso de “totally”, pela personagem Lynda. Hoje tão comum entre descolados, a atriz PJ Soles dá aula de “totally”. Você também aprenderá de qual ícone sci fi originou-se a máscara de Michael Myers, enfim, é muito divertido e totalmente informativo.
Falando em P. J. Soles, ela não solta nenhum totally enquanto narra os quase noventa minutos de Halloween: 25 Years of Terror (2006), que oferece visão bem mais panorâmica da franquia, inclusive com o impacto das comunidades de fãs impulsionadas pela internet e que influenciariam roteiros e produção dos filmes do século XXI.
O documentário abre obviamente falando da importância do original de John Carpenter, que tem em sua cotidianidade um diferencial enorme no horror ambientado em mansões góticas, sarcófagos, castelos medievais ou mesmo no sinistro Bates Motel, mais mundano que a Transilvânia, mas ainda muito rococó. Halloween se passa num subúrbio indistinto de milhares ao redor do mundo desenvolvido.
O que torna Halloween: 25 Years of Terror valioso é o passeio diacrônico, que pela data não pode englobar as releituras de Rob Zombie, mas em seu percurso de  quarto de século detecta as tensões e pressões que passaram a existir, quando Halloween deixou de ser produto indie pra se tornar peça valiosa do lucro corporativo. É por causa desse jogo de interesses – acoplado a crescente explicação do mal de Michael Myers – que os Halloweens dos anos 80 em diante, passaram a ser cada vez mais como qualquer slasher film inspirado no Halloween original. Mortes melequentas passaram a sobrepor o suspense.


Será que alguma sequência suplanta a aura do original? Por mais que ame Sexta-Feira IV, o primeiro filme – cópia de Halloween, que nem tem Jason Voorhees – tem um quê imbatível. No caso da obra de Carpenter isso é inconteste, porque Halloween praticamente deu as coordenadas dum subgênero do horror e depois se rendeu à sanguinolência de suas tantas imitações.
De todas as franquias “clássicas”, Halloween deu o escorregão mais espetacular. A parte 3 nada tem a ver com a mitologia de Michael Myers; onde já se viu isso? Lembro-me da raiva por ter me sentido enganado. Por mais que produtores expliquem que o conceito de franquia ainda era incipiente e que a trama proto-Black Mirror/pós-Invasores de Corpos nem seja ruim, o que importa é que a marca Halloween passou a significar filme com a personificação mascarada do mal e se possível com o Dr. Loomis, enquanto Donald Pleasance respirava. A resposta do público foi fracassar o filme na bilheteria, fazendo com que a franquia hibernasse pela maior parte dos 80’s, enquanto Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo enchiam cofres.
Em 1988, algum estúdio decidiu ressuscitar Myers e nos próximos anos pelo menos mais 3 sequências foram feitas, antes da repaginação de H20, em 1998. Como explica o título, o documentário Halloween 4, 5 & 6 (2013) minucia a produção dessas sequelas, com entrevistas com elencos, o relacionamento desses com a estrela Pleasance e seu sucesso ou fracasso comercial/”artístico”. Mesmo com filmes consagrados, é normal nesses documentários a inflação da importância, enfim, a construção de hype mitificante. Mas, quando isso acontece com bombas como as partes 5 e 6 fica difícil de engolir sem rir. Até se admitem os erros e entraves que implodiram os 2 filmes, mas elogiar tanto o 4 é duro. Assim, esse é o documentário menos essencial pra não fãs de carteirinha da franquia ou de horror (meu caso, nunca cultuei Michael Myers; sou bem mais o Dr. Loomis).

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

CONTANDO A VIDA 216


HORÓSCOPO: 2018

José Carlos Sebe Bom Meihy

Adeus ano velho. Xô 2017. Vai tarde. Eita ano difícil!... Até para acabar, 2017 dá trabalho. Mas há de virar. Pelas perspectivas, porém, não é plausível garantir que o “novo tempo” seja mais fácil ou melhor. Tomara que a boa saúde de todos compense o “pouco dinheiro no bolso”. As possibilidades positivas são remotas e, em troca, as expectativas assustam, pois, além de tudo teremos Copa do Mundo e eleições. A continuidade dos escândalos políticos se mistura com o desequilíbrio dos três poderes que, aliás, apresentam-se a cada dia mais “desempoderados” e distantes do povo. Num esforço adivinho nos é permitido supor alguns lances mostrados à guisa de horóscopo imaginário.


JANEIRO: calor e chuvas com deslizamentos que atingirão comunidades pobres. O ano começará com o fracasso do governo na tentativa de recuperar algum prestígio. Apesar das férias escolares e do natural esvaziamento provocado pelo verão, as bases sindicais tentarão articular campanhas que, contudo, não emplacarão. Nova edição do BBB apresentará facetas do gosto público pelos vexames transmitidos pela Rede Globo (negros, velhos e trans estarão representados, reafirmando mitos: da democracia racial, tolerância etária e de gênero); 

FEVEREIRO: mais calor e chuvas torrenciais. O Carnaval será magnífico, mesmo sem a ajuda das diversas prefeituras. A celebração do centenário do Cordão do Bola Preta arrastará milhões de pessoas pelas ruas do centro do Rio, justificando ser aquele “o maior bloco carnavalesco do mundo” (ainda que os pernambucanos contestem, afirmando que o Galo da Madrugada seja imbatível). A Campanha da Fraternidade será anunciada, mas sua duração precária se apagará logo devido a superposição de problemas urgentes reportados pela mídia. Políticos se rearranjarão para disputas eleitorais, e uma série de denúncias será propagada pelas redes sociais. O almejado alento de harmonia pelo ano novo já terá se dissipado, dando lugar a mais ódio e ameaças;

MARÇO: as águas do mês famoso pelas chuvas se mostrarão ameaçadoras. Na arena cultural, muito há de se falar sobre os 50 anos dos eventos de 1968. No final do mês, a fração democrática fará crítica aos “anos de chumbo”, e a crescente onda ultraconservadora defenderá as causas reacionárias, ligadas também aos segmentos que pretendem converter o país em imensa igreja;

ABRIL: a Semana Santa motivará movimentação mostrada como inigualável pelo governo que insistirá em convencer a população iludida pela recuperação econômica, apagando a certeza de que ela é fato exclusivo das grandes empresas e dos bancos que atingirão lucros nunca revelados. Em nível eleitoral, novos escândalos serão revelados;

MAIO: os preparativos para ida da Seleção à Rússia quase ofuscarão os debates políticos. As ruas começarão a se colorir com bandeirinhas e embalos exagerados, mas explicáveis pela lei da compensação psicológica. O técnico Tite será o nome mais citado em todas as mídias. O frio não afugentará as torcidas organizadas e as acusações políticas serão trocadas por cenas de apoio esportivos;

JUNHO: o país vestido de verde e amarelo encarnará uma identidade fantasiosa e como nunca se cantará “sou brasileiro, com muito orgulho”... Os temas ligados ao preconceito racial, machismo, distâncias sociais e demais mazelas ficarão encolhidos ante a euforia do campeonato do mundo. Apesar do bom desempenho, o Brasil que tão bonita campanha fará, não se sagrará, mais uma vez, campeão. No dia 18, alguns jornais noticiarão o centenário do nascimento de Nelson Mandela e as festas juninas se estenderão pelos meses seguintes;

JULHO: mês de férias escolares e pleno envolvimento do país na crítica à seleção de futebol que foi modestamente recebida nos aeroportos. Denúncias políticas ocuparão os noticiários fartos de explicações pelo fracasso esportivo.

AGOSTO: a disputa eleitoral retomará fôlego, e as agressões dos candidatos refletirão na população que, como nunca, mostrará os riscos dos extremos. Como se tivéssemos uma esquerda, os “direitistas” abusarão do palavreado de terror para amedrontar a todos. O típico pessimismo do “mês dos cachorros loucos” se revelará nas pesquisas que apontarão a “vitória da oposição”, como se existisse alguma. Apologistas do apocalipse político acenarão com possibilidade de intervenção militar. Os fundamentalistas religiosos começarão a movimentar seus fieis, orientando formas dogmáticas de votação;

SETEMBRO: a velha lenga de que podemos virar uma Venezuela chegará às páginas dos jornais, que serão preenchidas com alusões quase terroristas. Alguns temas aventados ao longo do ano, contudo, permitirão que novos nomes sejam apontados como promessas políticas, mas para futuro pleito. Cá e lá repontarão artigos lembrando que o avassalador surto de Gripe Espanhola grassara o Brasil há cem anos;

OUTUBRO: sempre o mês mais difícil do ano, nessa oportunidade exibirá ainda mais complicado. As eleições ocorrerão com as usuais reclamações, e mesmo com as urnas eletrônicas denunciadas por fraudes, os resultados serão comemorados como “novo tempo”. A “vitória da oposição” não explicitará grandes mudanças. O cansaço do primeiro turno será intensificado imediatamente com novas/velhas alianças;

NOVEMBRO: já cansado, o ano mostrará sinais de fadiga. A segunda fase eleitoral, cumprirá o enredo das repetições que iludem o eleitorado que votará como sempre. No dia 4, depois do anuncio do novo presidente, o horário de verão vai começar. Aos poucos, se iniciarão as musiquinhas de Natal e as campanhas de vendas mudarão os temas sociais gastos pelo teor exaustivo do ano. “Então é Natal” começará a ser ouvida progressivamente. Os ódios levemente aplacados terão teores trocados, evidenciando mais do mesmo;

DEZEMBRO: num esforço para esquecer as agruras do ano, amaldiçoando o andamento do “ano velho”, renovando o estoque de votos de felicidades, o último mês do ano revigorará a mania de desejar “feliz ano novo”... E novo horóscopo será feito na certeza de que o melhor do ano foi a garantia que teremos para depois de 2019 uma nova geração de políticos.


De toda forma, vale pensar que os horóscopos sempre são contrariados. Tomara que este acerte na esperança e erre nos titubeios ilusórios que garantem que “este é um país que vai pra frente”.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

TELINHA QUENTE 291


Roberto Rillo Bíscaro

O primeiro conto estrelado pelo sempre popular Sherlock Holmes foi A Scandal in Bohemia, em 1891, na The Strand Magazine. O rei de fictício país germânico procura o detetive pra recuperar foto comprometedora: o monarca estava prestes a se casar, mas sua ex possuía registro a seu lado. Mais dum século adiante, tal preocupação soaria ridícula; até tetinha da Realeza britânica saiu em jornal e Charles manifestou desejo de ser Tampax.
Há que modernizar enredos e tramas. TV mira especialmente pro público até 40 e poucos anos; esta é a faixa que mais consome a montoeira de bobagens anunciada. Difícil querer que uma garota contemporânea não caia na gargalhada e mande à merda uma donzelinha do século XIX, cujo “problema” é ser chamada ou não pelo nome cristão pelo pretendente (leia Rachel Ray, do Trollope) E quem poderia culpa-la por não se importar com esse “dilema”? Não tem mais nada a ver com a experiência do século XXI, quando (parte (d)a mulherada ameaça com porrada e bomba.
Isso veio à cabeça, quando soube das muitas críticas à Anne With An E (2017), da Netflix. Muitos fãs da ruivinha esbravejaram que os 7 capítulos da coprodução com a TV canadense CBC acrescentaram faceta psicológica ausente nos livros. A despeito do rebuliço, a produção foi renovada, significando que deu audiência.
Senhor 50tão, entendo a reclamação. Houve versão anterior na TV canadense, então é essa que vive no coração da geração mais antiga. Senti o mesmo quando vi a malfadada reedição de DALLAS e experimento de novo o sentimento de dessacralização com a nova leitura de Dynasty. Embora não esteja ruim e até seja bem fiel à original, Blake sempre será John Forsythe, esbravejando “what the devil, Alexis!”
Não vi a Anne antiga, nem tenciono, mas só a sentimentalismo água com açúcar de Anne Shirley provavelmente não segurasse essa moçada em frente à telinhona.
Anne With An E é mais uma adaptação do romance Anne of Green Gables (1908) da canadense L. M. Montgomery. Narra o crescimento e as aventuras de Anne Shirley, órfã enviada por engano à fazenda dos irmãos Mathew e Marilla Cuthbert, na Ilha do Príncipe Eduardo. Eles queriam um menino pra ajudar no serviço, mas recebem a loquaz sardenta, que, aos poucos conquista a todos, vencendo o preconceito inicial por sua orfandade. O sentimentalismo de 119 anos atrás não se sustentaria perante o público jovem. Na verdade, nem nós 50tões mais cínicos aguentaríamos tanta sacarina, provavelmente.
Pra tornar Anne mais profunda, a versão Netflix/CBC mostra cenas de flashback, onde vemos o pão amassado pelo diabo que a menina comeu sob forma de pesado bullying físico e psicológico. A Anne da era em que setembro é dedicado à prevenção do suicídio, é uma garota profundamente traumatizada e insegura. Isso explica muito seus delírios, simpáticos, sim, mas surtos; fugas pra idealizados mundos onde não sofra. Único estranhamento é que as cenas do passado são com a mesma atriz – a perfeita Amybeth McNulty – dando a sensação de que Anne vive preservada em formol.
Anne Shirley é a clássica outsider, a alma especial em meio aos comuns. Sonhadora de devanear, a garota usa palavras difíceis, é obcecada por drama e romance e cita Jane Eyre à profusão. Realmente, a personagem de Charlote Brontë é o molde do qual nasceu Anne. Considerando-se o tanto de trabalho, a aparente não-permanência por longo período com família alguma e a quase inexistência de educação formal, a erudição de Anne é bastante improvável. Não que sem escolaridade não se possa desenvolver rico vocabulário, mas imaginamos onde ela arrumava tempo entre tantas surras e faxinas, pra obter os volumes literários que lhe permitiam decorar passagens que a transportassem pra dimensões onde não sofresse tanto.
Anne With An E só funciona pra quem suspende o descrédito e o cinismo pós-moderno. Pra mim foi bem fácil, porque adoro produções “de época” (ugh!) e porque Anne é tão verborrágica, louca e brilhante, que se torna irresistível. A gente não quer que ninguém sofra, mas pruma alma tão vivaz e gentil como a da sardenta, não dá pra querer nada mais que um destino esfuziantemente maravilhoso (ela gostaria dessas palavras). Às vezes a tagarelice irrita, mas até nisso o show acerta: quem conviveu com criança que de vez em quando temos que mandar calar a boca, entenderá. Isso quando não me pegava com os olhos marejados, mas de repente gargalhava com algum delicioso disparate de devaneio metralhado por Anne.
A “Princesa Cordélia” ganhou segunda temporada de 10 capítulos. Não duvido que a atualização da personagem tenha contribuído pra que nos conquistasse os corações aos milhares. Saber da pavorosa infância de Anne só nos fez querê-la ainda melhor.