quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

TELONA QUENTE 275


Roberto Rillo Bíscaro

Uma das várias distinções entre horror e ficção científica é que o perigo, no primeiro, restringe-se a um ou poucos indivíduos, ao passo que no segundo, a escala é bem maior, podendo ser global. Essas regras não são pétreas e sempre houve intersecção entre os (sub)gêneros, mas, é um começo de discussão. Assim, quando temos uma criatura ameaçando uma cidade é mais ficção-científica com horror, do que o contrário.
Como a ameaça em Await Further Instructions (2018) não só é expressa por um aparato tecnológico, mas dá a entender que o grupo em perigo é apenas parte isolada de um todo, a produção britânica fica na prateleira horror sci fi. Durante celebração natalina, uma família tem sua casa misteriosamente vedada pro mundo e seu aparelho de TV passa a distribuir instruções pra se proteger dum perigo, que parece de escala nacional. Seria terrorismo islâmico? E não é que o júnior trouxe pro jantar sua namorada de origem paquistanesa/indiana! Seu avô, pai, irmã e irmão racistas não têm pruridos em esconder seu preconceito e ódio raciais e as ordens dúbias emanadas da telinha são cumpridas à risca, com resultados temerosos.
Await Further Instructions tem clima de episódio de série de TV meio antiquada, mas no fim, a coisa fica mais Cronemberg/Black Mirror. Pena que jamais alcance os níveis de qualidade de nenhuma das referências citadas. Há desejo indisfarçado de que a história seja fábula contemporânea sobre xenofobia Brexítica e o poder manipulador da malvada mídia. Mas, as ideias são batidas e as personagens monodimensionais.
Como distração Await Further Instructions dá pro gasto, mas não espere nada mais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

CONTANDO A VIDA 265

RENATO TEIXEIRA: EM QUALQUER LUGAR.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Assumi o ridículo e nem liguei para as pessoas que me ladeavam, e até riam discretamente, vendo um senhor de 75 anos cantarolando pela rua. A letra era de “Vamos celebrar”, do Oswaldo Montenegro, e que servira de fechamento do Show com Renato Teixeira, no VivoRio, num calorento sábado, dia 09/02/19. E lá ia eu no encalço de um táxi, meio que dançando, meio que flanando, meio que bobo com o enredo da vida: “Eu gosto de andar pela rua/ bater papo, de lua e de amigo engraçado/ Eu gosto do estilo do Zorro/  o visual lá do morro e de abraço apertado/ Eu gosto mais de bicho com asa/ mais de ficar em casa e mais de tênis usado/ Eu gosto do volume, do perfume/ do ciúme, do desvelo e do cabelo enrolado...” Repeti por vezes como um longo poema, admirado por me lembrar de cada verso, mas, por fim, lá pelas tantas, parei no tal do “cabelo enrolado”. Dei uma repentina travada, e troquei o passo alegórico pela dúvida paralisante: Cabelo enrolado, como assim? O Oswaldo pode, como ninguém, pois ostenta uma vasta e invejável coleção de fios lisos escorregados. Mas eu sou careca, e o que me resta de cabelo, uns 20%, não permite nada próximo de cabelo enrolado. O Renato, sim, bem definido em sua postura de compositor, libertou-se de aparas e soltou seus caracóis agora nevados.
Outra canção do Oswaldo atiçou minhas lembranças “não sei se o poema é bonito, mas preciso escrever”. Ato contínuo, deixei o espetáculo, abracei longamente o amigo, e vim para casa. Tentei, mas não consegui dormir. Agitado, levantei-me e novamente Oswaldo me veio à cabeça e me autorizava retraçar os nós que a vida me permitiu com o gentil amigo Renato Teixeira. E foi assim que o passado se me abriu como azul céu taubateano. E lá atrás, escondida entre as nuvens que mostram a beleza sempre pretérita, me via em várias situações ao lado dele. No interior, as pessoas não se apresentam, todos se trançam e nem me lembro dos nossos primeiros encontros. Sei só que, certa feita, estávamos juntos na casa de nossas namoradinhas que eram irmãs. Depois, fiz uns poeminhas e ele musicou (certamente esqueceu-se, mas eu ainda cantarolo “seus olhos grandes, sua boca pequena, o seu jeitinho, sua pele morena); o interessante dessa passagem é que fomos juntos a uma Rádio local, a Cacique de Taubaté, e em um programa do amigo comum Robson Barone nos apresentamos. O rádio era importante veículo de comunicação, em particular em um tempo que a televisão ainda não dominava todos os lares. E foi pela voz do Renato que se investira em radialista que, pela Rádio Difusora Taubaté, todos os dias às 6 horas da manhã ele lia crônicas que eu assinava. De minha parte, comemoro com lágrimas as leituras desses textos que ainda tenho bem guardados. Mais tarde virei, ainda muito jovem, diretor cultural do Clube da cidade, e, com empenho pouco traduzido, revelo que me esmerei em dar dimensão a um show escrito por ele e seu irmão Roberto, intitulado “Samba em três tempos” – sinceramente, daria alguma coisa valiosa em troca de ver reencenado esse espetáculo. Certa feita, fui como estudante de intercâmbio para os Estados Unidos e trouxe-lhe de presente dois LPs, um do Bob Dylan e outro de country music.
Para seguir carreira, Renato e eu saímos de Taubaté. Como rizomas que brotam em outros quintais, ele seguiu a carreira musical e eu virei historiador. Nunca nos deixamos de maneira consequente. Encarregado dos alunos estrangeiros na USP, diretor de estudos sobre a Contemporaneidade Brasileira, por anos seguidos convidava o Renato para apresentações no campus. E assim íamos costurando nossas histórias: casamentos, filhos e mil amigos. Mais recentemente, por dever acadêmico, me vi convidado a escrever sobre música de raiz interiorana, e então redigi um texto intitulado “Nossa Senhora Sertaneja” dedicado a ele, colocando “Romaria” como aposse de um processo de louvação. E, por ocasião dos trezentos anos da aparição da Imagem da Santa de Aparecida, supusemos escrever uma ópera que, talvez, um dia se torne realidade. Há um evento, contudo, que me comove mais que todos. Em dado momento, Renato compôs uma canção linda, chamada “O Turco do mercado”, e a inspiração foi meu pai. Confesso que poucas atitudes marcantes em minha vida têm a força dessa menção. Não posso ouvi-la sem chorar. Em ocasião anterior, mesmo sem avisar, fui ver um show do amigo querido, pois não é que ele me vendo na plateia, introduziu a peça e me fez despencar a ponto de precisar de apoio de amigos. Tenho outras passagens que guardo na melhor gaveta de minhas emoções, mas retomo Oswaldo Montenegro para sintetizar o que sinto ouvindo a canção “Velhos amigos” detalhando que “velhos amigos sempre hão de se encontrar seja onde for/ seja em qualquer lugar”. Pois é, quem conhece Renato Teixeira sabe que ele é dos que estão, sempre, no coração de seus amigos... em qualquer lugar e que vamos sempre nos encontrar.
  

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

TELINHA QUENTE 347



Roberto Rillo Bíscaro

Séries norte-americanas como Ugly Betty e Jane, The Virgin incorporam elementos das populares telenovelas latino-americanas em suas tramas. Quando soube que a Netflix inserira em seu catálogo os 13 capítulos de La Casa de las Flores (2018), apressei-me em vê-la. Curioso por saber como os famosos mexicanos releram seu maior gênero de exportação dramática à luz do gosto indie de consumo, das séries inclusivas da ianquelândia.
México é tão baluarte no subgênero telenovela, que, no Brasil, qualquer folhetim televisivo hablado en español recebe o nome de novela mexicana. Não importa que tenha sido feita na Colômbia.
Além disso, o elenco de La Casa de las Flores é encabeçado por ninguém menos que a rainha Verónica Castro, a Rosa Selvagem, em pessoa! Castro foi ponta de lança pra internacionalização das telenovelas “mexicanas”, quando Os Ricos Também Choram conquistou a metropolitana TV espanhola e consolidou o subgênero por lá, até hoje.
Criada por Manolo Caro, La Casa de las Flores (LCDLF) centra-se na posuda família De La Mora, tida e havida como perfeita. Donos duma floricultura, essa imagem começa a murchar, quando a amante do patriarca aparece com sua filha, bem no dia do aniversário do papi e apronta uma, no centro da sala-de-estar.
Com abertura inspirada na de Desperate Housewives, LCDLF implora pra colocar o México nos países produtores de séries hipster com famílias alternativas. Tem filho revelando bissexualidade, mamis tendo que vender maconha pra saldar dívidas, transexual, cabaré. E com isso vai se transmitindo a mensagem de que não há família “perfeita”. Epa, mas então, todas essas modernices inclusivas são imperfeições? Oops.
O cenário multicolorido propositalmente “brega” indica a irrealidade desse mundo onde tudo é permissível. Tudo tão de mentirinha, quanto uma telenovela, mas na tradição modernete dos filmes e séries hipsters, como o oscarizado e esquecido A Excêntrica Família de Antônia e Transparent (mas, sem as pseudodiscussões acadêmicas).
Série muito simpática, inclusiva, mas que não faz jus à comédia, como querem vende-la. É tudo premeditado demais pra ter graça. Nesse quesito, os norte-americanos jogaram bem melhor com as convenções da telenovela, na viciante Devious Maids.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 352

Roberto Rillo Bíscaro

Indra Rios-Moore tem nome de divindade indiana e é filha de porto-riquenha e afro-sírio-americano, baixista de jazz. Estudou vocalização lírica, participava de acampamentos, onde se praticava música balcânica e cresceu na multicultural Nova Iorque.
A Grande Maçã é tão madura de oportunidades pra quem as busca, que, enquanto trabalhava como garçonete, Indra conheceu o saxofonista de jazz dinamarquês Benjamin Traerup. Logo estavam casados e desde então, a moça vive a chata vida de se dividir entra a Nova Roma e a pobre Escandinávia. Seus músicos de apoio são todos da região, onde faturou prêmios e excursiona sempre.
A aderente mania de catalogar, enquadra Rios-Moore como cantora de jazz, mas seu som aglutina muito mais que apenas o que se convencionou imaginar como clichê jazzístico. Claro que há muito saxofone – uma das marcas de certa facção do subgênero – e sua divisão no cantar é de grande do jazz, porém, seus dois álbuns aventuram-se com muita competência até por terrenos art-rock, conseguindo transformar em seu, clássicos de alguém tão personalista quanto David Bowie. E, caso você não conheça como o Camaleão inovou em seu auge, acredite, o que Indra fez é muita coisa. Presente no álbum Heartland (2015), até predatou o canto de cisne de Blackstar.
O onipresente sax do maridón sueco introduz o esparso início de Heroes, que Rios-Moore despiu e deixou praticamente irreconhecível a não ser que você entenda a letra. Embora haja elementos de free jazz, aquilo tem art-rock no DNA.
A moça é atrevida. A versão de Money, do Pink Floyd, mantém a estrutura melódica, especialmente no baixo e na guitarra acentuadamente mais bluesy. Mas, Indra também resgatou a canção pra si. Não é o caso de procurar melhores, mas de reconhecer que a cantora nos apresentou outra grande possibilidade de desfrutar do clássico de Dark Side Of The Moon.
Território de jazz tradicional só mesmo o encerramento Solitude, que volta ao Duke Ellington, dos anos 1930. Talvez por influência da mãe latina, Indra tenha tido contato com boleros e isso se traduz em Hacia Donde. Por qualquer língua e subgênero que tateie, a norte-americana se sai bem, até mesmo cantando em algum idioma africano, em Oshun.
From Silence pode agradar quem ama folk, alt country e o sentimento spiritual, entre gospel e R’n’B, está em números como Little Black Train, Your Long Journey e Blue Railroad Train.
Com voz tão educada e expressiva, os arranjos têm mesmo que evidenciá-la e a releitura de What Becomes Of a Broken Heart é tão esparsamente sublime que lembra a intensidade quieta das Trinity Sessions, dos Cowboy Junkies, que completa 30 anos. Indra Rios-Moore está na mesma liga de bambas como Lizz Wright e Margo Timmins.
Conta-se que Heartland foi gravado em três dias, um mês após a morte da mãe, da qual Indra cuidou por muito tempo. Carry My Heart saiu este ano e seu pontapé veio também de uma situação de tristeza pra norte-americana. No dia seguinte à eleição de Donald Trump, um afroancião percebeu que Indra estava desolada na rua. Acercando-se, deu-lhe um abraço, do nada, e garantiu-lhe que tudo ficaria bem, afinal já haviam passado por coisa pior.
O clima de conforto espiritual deve ter influenciado no tom gospel/spiritual de várias escolhas no repertório, como a abertura, que batiza o álbum, além de Keep On Pushing (tem até coro de haleluia) e Come Sunday, que tem o arranjo mais ousadinho, num álbum cujas melodias são mais lineares, o que não significa queda na qualidade. Pelo contrário, o caráter esparso de quase tudo, realça o espantoso vocal de Rios-Moore.
Seria bem mais correto e descritivo rotular o trabalho de Indra com o abrangente “Americana”. Carry My Heart tem baladona soul em Don’t Say Goodnight (It’s Time For Love) e acenos para o country, em Give It Your Best e para o folk à Indigo Girls, em Be Mine. I Loved You é a coisa mais tradicionalmente jazz de um álbum que também tem covers de Creedence Clearwater Revival (I Can See Clearly Now) e Steely Dan (Any Major Dude Will Tell You). Love Walked In soa como valsinha jazzificada à Billie Holiday.
Muito maior do que qualquer tentativa de reduzi-la a um subgênero, Indra Rios-Moore é uma das grandes vocalistas da atualidade; esse é o único mínimo comum sobre ela.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

MEDO DE DORMIR

'Tenho medo de dormir': a cruel caçada por ossos de albinos no Malauí

Femia Tchulani é uma vendedora de legumes que sobreviveu a uma tentativa de sequestro organizada por "caçadores" de albinos, que queriam matá-la para tirar partes de seu corpo.


Ela narrou o caso, ocorrido em sua casa no Malauí há dois anos, a Patience Atuhaire, da BBC África.

Tchulani conta como é viver sob ameaça, com medo das pessoas que acreditam que partes dos corpos sem pigmentação de albinos trazem saúde e sorte.

Leia o depoimento dela:

"Era uma sexta-feira. Cinco homens e uma mulher chegaram à minha casa por volta das 19h. Quando apareceram, eu estava na cozinha preparando o jantar. Meu marido estava do lado de fora.

Disseram que procuravam por mim. Disseram que eram policiais e estavam ali para me proteger porque receberam a informação de que queriam me matar.

Fiquei assustada. Eram pessoas desconhecidas, nunca as tinha visto antes. A chegada deles criou uma certa comoção e fez com que alguns dos nossos vizinhos se reunissem.

Apesar de terem dito que eram policiais, não usavam uniforme. No começo, não me convenceram. Mas então mencionaram o nome do chefe de polícia da nossa área. Nós até pedimos para que descrevessem o chefe; e eles os fizeram.

Na verdade, nos mostraram armas e até carteiras de identificação. Mas claro, a gente não tinha como saber se eram verdadeiros ou não.

Meu marido e eu, além de alguns vizinhos, concordamos em ir com eles a uma unidade policial. Quando chegamos lá, o posto estava trancado.

Os cinco que alegavam ser policiais chamaram outras três pessoas que estavam num bar próximo. Eles tentaram forçar eu e meu marido a irmos até outra unidade policial, mais longe da nossa área.

Foi tudo muito estranho, porque mandaram embora todos os curiosos que pararam perto da gente. Ficamos apenas eu, meu marido e os vizinhos que vieram conosco.

Meu marido insistiu que eles não deveriam me levar sozinha. Ele ficou argumentando que não tínhamos cometido nenhum crime; e, por isso, por que ir à polícia?

Quando perceberam que a gente não ia sair dali, ficaram nervosos e simplesmente foram embora.

Eu nunca os vi novamente desde aquele dia. Conhecemos os policiais que trabalham na nossa área, e essas pessoas eram desconhecidas, ninguém as conhecia.

Minha vida mudou completamente desde então.

Tenho oito filhos, alguns ainda na escola. Antes do incidente, eu comprava legumes e verduras no atacado e os vendia de porta em porta. Agora, tenho medo de andar pela cidade. Uso um banco para expor meus produtos na feira.
O dinheiro que ganho com este ponto fixo na feira não é suficiente para pagar mensalidades da escola, comprar uniformes e mesmo comida para meus filhos. Alguns já não podem mais frequentar as aulas.

Eu não acho que a polícia ou o governo estejam fazendo algo para proteger albinos como eu.

Vivo com a graça de Deus. E agradeço a Deus quando acordo todas as manhãs. Ainda não me sinto segura.

Por exemplo, teve uma noite no mês passado em que algumas pessoas tentaram entrar na minha casa pelo telhado. Eu acordei e fiquei alerta. A gente saiu de casa e gritou. Só assim eles fugiram.

A nossa comunidade está atenta aos riscos, especialmente vizinhos e as mulheres no mercado. É por isso que eles fizeram esse monte de pergunta à equipe da BBC. Eles sabem o que aconteceu comigo e não querem que se repita.

Olhe para minha casa, nem tenho boas portas para me proteger à noite.

Então, à noite para mim é como se fosse dia. Tenho medo e mal consigo dormir. Tenho medo que essas pessoas voltem. Eu adoraria que o governo me ajudasse com uma boa casa.

Também gostaria que o governo cuidasse do meu bem-estar porque estou impossibilitada de trabalhar e ganhar dinheiro suficiente para minha família por causa do que aconteceu.

Se isso acontecesse, eu seria uma pessoa feliz."

Perseguição a albinos

- No ano passado, a ONU emitiu um alerta no qual afirmava que 10 mil albinos no Malauí estão sob ameaça de morte por causa do interesse em partes dos corpos deles - que muitos acreditam dar sorte.

- Desde novembro de 2014, 19 albinos foram mortos e houve mais de 100 casos de desaparecimento ou tentativa de sequestro.

- Covas de albinos também são alvos de criminosos que removem os ossos dos cadáveres para vendê-los.

- A Anistia Internacional afirma que a maioria dos ataques contra albinos fica sem solução por causa da falta de capacidade da polícia de investigar.

- Ativistas dizem que a pobreza contribui para alimentar a crença de que partes do corpo de albinos trazem sorte e fortuna e também para sustentar esse comércio macabro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

TELONA QUENTE 274



Roberto Rillo Bíscaro

Deve ser infinitesimal a probabilidade de alguém alertar prum tsunami, não ser ouvido, salvar várias vidas, quando a catástrofe se instaura e, três anos depois, prever um terremoto, ninguém acreditar e o sujeito conseguir salvar pelo menos parte de sua família. Como a Noruega corre risco de terremoto e A Onda fez sucesso (tem na Netflix), os produtores decidiram dar uma de Sharknado e botar o geólogo Kristian enfrentando novo desastre natural. Não que Skjelvet (2018) seja absurdamente podre como a série dos tornados de tubarão. Ao contrário, como seu antecessor, é muito recomendável.
Depois da submersão de Geiranger, Kristian não superou seu trauma e vive isolado numa cabana, evitando contato até com sua filhotinha. A morte misteriosa dum colega de profissão faz com que o trêmulo protagonista se dirija à Oslo, onde tenta alertar autoridades que os cortes de energia e rachaduras estruturais, cada vez mais frequentes, são prenúncios dum megaterremoto. O sucesso d’A Onda elevou orçamento pra sequela, por isso a crível escolha da capital norueguesa: agora há prédios pra derrubar, usando computação gráfica. Eficiente, e bem mais discreta que os congêneres estadunidenses. Até em cataclisma os escandinavos são mais quietos.  
The Quake, como é chamado internacionalmente, tem a mesma fórmula de seu irmão mais velho. Há longa construção de suspense e tempo pra que nos importemos com as personagens, para só então jogá-las na catástrofe e concentrar todo o investimento (em todos os sentidos) apenas nelas. Isso afastará os maníacos por velocidade narrativa. Perda deles, porque os sinais preliminares da catástrofe são prato cheio pra fãs de suspense. Skjelvet funciona bastante como thriller com momentos de cine catástrofe e não o contrário. E quando três personagens estão presas num último andar, sai de baixo (literalmente)!
O roteiro tem defeitos, dentre eles nos fazer crer que a palavra dum herói nacional não fosse sequer considerada por ninguém até quando fosse tarde demais uma segunda vez. Também não dá pra entender, porque introduzir o filho de Kristian, coloca-lo numa situação de perigo em outro local, mas não mostrar seu desenvolvimento. Claramente, a narrativa foca no arco de Kristian, o terremoto é dele, pra servir os propósitos de redenção dele.
Mas, Skjelvet diverte bastante, faz a gente roer as unhas e ainda por cima reconforta – como de praxe nesses filmes – ao nos fazer saber que o sacrifício de milhões de pessoas foi o responsável pela reconciliação de pai e filha. Awwww.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CONTANDO A VIDA 264


HISTÓRIAS QUE GOSTO DE CONTAR: o caipira perdido.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Já disse que, quando morto, quero ser cremado, mas... Mas se tivesse uma lápide, ou outra qualquer homenagem feita em material duradouro, ficaria agradecido com uma inscrição singela dizendo “aqui jaz um contador de histórias”. Sim, gosto muito de ouvir e de narrar casos. Os fatos me seduzem mais que as variações filosóficas ou teóricas. Talvez esta seja minha completa tradução de interiorano, de filho de imigrante que adorava conversar. Ouvir, contar e principalmente recontar histórias era a mais praticada experiência de meu pai. Lembro-me que a cada jantar, todos juntos, ouvíamos os melhores casos. E não presidia nenhum tom crítico negativo. Pelo contrário, tudo era narrado como epopeias deliciosas e os caipiras viravam, magicamente, heróis: Ulisses, Zeus, Argos.
Havia tanto encanto que chego a dizer que foram estas historietas que me fizeram optar pela História como matéria profissional. Mais do que Weber, Marx, Bauman, foram as lendas refeitas pelo pai que me enterneceram e conduziram à academia. E essas falas se estenderam a outros campos da percepção, como a música caipira, as rezas e até o herbário, que cura falta de sono, dor de estômago, e falhas do amor. A imagem do “caipira picando fumo” da tela de Almeida Júnior, por exemplo, me encanta pela imponência e pela autonomia em assumir um tempo dedicado ao que dá prazer. O semblante do “picador,” seu olhar atento ao fumo de rolo, me faz evocar saudade de circunstâncias que não se têm mais. Ninguém mais conta casos. Ficamos mudos, e nos restringimos à leituras de mensagens instantâneas, vivenciando o que de pior os aparelhos eletrônicos causam. No meu caso, jogar conversa fora, contando histórias, funciona como antídoto a tudo que temos passado. E luto por reviver as “lendatórias”, então claras e explícitas em personagens que conheci.
E há uma história que gosto de recordar mais que outra qualquer e, antes, vale lembrar que a “contação” caipira implica enredos com começo, meio e fim. Por vital, o sentido trágico ambienta tudo e convida lagrimas que me rolam fáceis. Basta enunciar isso para se ter clareza do impacto de canções como “Menino da porteira”, na intepretação memorável de Sergio Reis. Seria fácil declinar muitas outras “modas de viola”, que se pronunciam nessa direção, mas há algumas histórias que merecem viso. Repasso uma que, particularmente, me acomete sempre. Lembro-me, menino ainda, assombrado com um caso de um tal Seu Dito da Serra. Ele, morador do campo, teria se afastado, interior adentro, a cada vez que a estrada aberta pelo governo chegava próximo à sua casa. Interiorando-se mais e mais, mudava, mudava, mudava, e junto ia toda família com os poucos pertences. Foi indo, indo, indo, indo mais, até que avistou o mar. Assustado, temendo o fim do caminho, depois de noites acordado, meditando, resolveu que ia pegar a estrada e, de volta, descobrir onde ela teria começado. Era como uma vingança, ou raiva matadora de seu destino de fugitivo do tal progresso
Sem avisar ninguém, numa madrugada, juntou algumas coisinhas, fez uma trouxa e a amarrou no cajado que levava às costas. E foi sem se despedir de ninguém. Andou, andou, andou... Viu porteiras novas, as primeiras vendas, as incipientes casinhas que se avizinhavam, outras mais densas, mais algumas, até que chegou à cidade. Continuou, mais outra cidade, outra ainda. Tanto caminhou que o Seu Dito da Serra chegou a outra serra e, perdido entre tantos começos, nunca mais voltou. Não sabia dos retornos. Perdeu-se para sempre e sozinho. De tal maneira este “causo” me marcou, que a cada vez que ouço a expressão “caminho sem volta”, me vem à mente o caso do caipira desvalido. Por lógico, não me faltam digressões filosóficas e até faço ilações com o cancioneiro da MPB e me pergunto se a música “Ponteio” não é decorrência do caso do Seu Dito da Serra: parado no meio do mundo...
O tempo fluiu. Rápido demais para quem contempla o passado da altura de mais de 75 anos de idade. E quando olho o tempo decorrido, quando medito sobre tudo que vivi, me lembro com afeto esparramado da historinha preferida, contada por meu pai. Os olhos verdes e penetrantes dele se fazem voz e entonação para supor o paradoxo de própria trajetória: sai também do interior, mas fiz o roteiro inverso, fui em busca de cidade, cada vez mais, e perdido, desaprendi onde está o lugar de origem. Mas continuo buscando.     

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

TELINHA QUENTE 346

Roberto Rillo Bíscaro

West Wing terminou há bastantes anos, mas sua influência segue inspirando realizadores. Da Dinamarca veio a superior Borgen e da França, as três temporadas de seis capítulos cada de Les Hommes de l'ombre (2012-16).
Mais sexualmente desinibida do que sua matriz estadunidense, Spin, como conhecida internacionalmente, é maratonante suspense sobre políticos, onde estes chegam a ser secundários em relação a seus consultores de imagem e relações públicas.
Os Homens da Sombra, tradução livre do título, são Simon Kapita e Ludovic Desmeuze, marqueteiros da agência mais influente de Paris. Kapita treinara Desmeuze antes de ir-se a Nova York, de onde retorna às pressas pra capital francesa, quando convocado a ajudar a presidência a manejar a crise desencadeada por atentado contra o presidente. Acontece que Ludo quer o pedaço só pra ele e, freudianamente, precisa eliminar o pai, então inicia-se batalha entre ambos.
Les Hommes de l'ombre indica seu falocentrismo já no nome. Política e alto poder são brinquedos de meninos-machos. Mulheres são boas pra cama e quando ativas são bitches, como diriam Alexis Carrington e Bette Davis.
Ao longo das temporadas, o teor político escandaloso sobrepuja o duelo freudiano e a batalha KapitaxDesmeuze é ofuscada por coisas muito mais estimulantes, como infidelidade conjugal, atentados de radicais islâmicos e/ou de direita, homossexualidade reprimida, primeira-dama bipolar, jornalista teimosa se metendo numa enrascada trás d’outra.
Políticos de direita e esquerda indistintamente jogam sujo e os dois lados são exibidos como interdependentes. É como se o poder por si só corrompesse; a ele é atribuído essa caráter absoluto, transcendental e eterno. Nesse sentido, Les Hommes de l'ombre justifica o discurso de que todo político é igual, convenientemente sacada quando seu político de estimação está em beco indefensável, mas não se quer reconhecer, apenas generalizar pra poder justificar sua escolha.
Para gerar interesse, esse tipo de série “política” não pode se debruçar em decisões e ações que realmente mostrem o lado vital das políticas públicas – exceto Borgen, de vez em quando, e por isso é tão cotada. Queremos ver grandes dilemas internacionais ou becos-sem-saída internos, experimentados por gente bem-vestida e poderosa, capaz de mudar destinos de multidões com simples telefonema ou promessa de apoio em votação. Ou, mais deliciosamente ainda, chantageando sem vergonha ou dó.
Isso tudo não desmerece Les Hommes de l'ombre. Pelo contrário, devorei gulosamente e sou fã do presidente Alain Marjorie e da primeira-dama aloucada Elizabeth, chiquééeéééérrima. Só há que reconhecer que na categoria thriller político em que se classifica, a ênfase está no primeiro termo. Sobre Scandal, Obama disse que seus dias eram bem mais tediosos do que os de Cyrus e Mellie, na Casa Branca. A rotina no Elyyse também deve ser bem menos visceral do que em Spin. Por isso, preferimos as séries.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 351



Dedicado à memória de Steven Young, falecido em 13 de julho, de 2016



Roberto Rillo Bíscaro


Em 1987, uma canção mudou o rumo da música pop. Parece exagero de saudosista 80’s, mas não é. Pump Up the Volume, constituída basicamente por samples de inúmeras canções e falação sobre base hip hop, cravou primeiro lugar na parada britânica e quase conseguiu entrar no Top Ten ianque. Isso por si só seria um feito, dada à impenetrabilidade norte-americana pro alternativo.

Pump Up the Volume era música feita por e pra DJs, pra clubes hipsters e desafiava o conceito de autoria. Hoje é segunda natureza surrupiar trechos de qualquer coisa pra compor qualquer coisa, mas há três décadas as gravadoras ainda tinham poder sacrossanto sobre direitos autorais. Além disso, o single marcou a chegada do independente selo 4AD ao cume do Top Ten. A gravadora dos etéreos Cocteau Twins batendo majors como Rick Astley e até Wacko Jacko. Até nos rincões do conservador noroeste paulista dançávamos ao som de M/A/R/R/S, nome dos anônimos compositores da canção, até nisso precursores. Hoje é tão comum nomes de artistas que nem sabemos quem são, com grafias ingrafáveis.
O fundamental M/A/R/R/S foi evento único constituído por duas bandas da 4AD, que provavelmente não constarão nem no rodapé dos futuros volumes de história da música pop: AR Kane e Colourbox.
O Colourbox foi formado em 1982, pelos irmãos Steve e Martyn Young, e sua cantora “clássica” é Lorita Grahame, que entrou em 83 e é a voz das gravações mais conhecidas. Até 87, lançaram esparsos singles, EPs e um par de álbuns, nunca obtendo sucesso de massa. O trio é cult desde a época em que atuou, mas agora o acesso é facilitado pelo Spotify, que tem praticamente tudo. Escolhi o álbum homônimo de 1985, a versão com 14 faixas, porque no serviço há umas duas bem mais vitaminadas. Na verdade, essa já é maiorzinha, porque o álbum original possuía uma dezena de canções e chegou ao topo da parada indie.
O underground tem servido de farto pasto pro mainstream, que o digam Bowie e Madonna, sempre antenados pra transformar o alternativo em mais palatável pra consumo maior. A batida alucinada de Punch e Manic, que viraria estouro de sucesso até nas paradas da Billboard, já estava dada pelo Colourbox, em 85. Compare as locomotivas do álbum de estreia de Taylor Dayne, que entrariam até pra trilha de novela global, com essas duas canções dos britânicos: as estruturas rítmicas de percussão e linhas de teclado são similares, parte de uma estrutura de sentido muito comum mais pro final da década.
Desde que ouvi pela primeira vez – no fim do século passado, creio – formulei teoria pro fracasso do Colourbox em se popularizar. Ou foi problema de divulgação da 4AD ou o que pra mim é mais provável: a produção não é tão bombástica, quanto à do mainstream da época; o som parece meio “distanciado’, tem hora que parece vir d’outra dimensão. Novamente, evoco a comparação com Dayne, digamos Tell It To My Heart e/ou Prove Your Love para notar como a sonoridade é diferente. O Coloubox soaria algo interplanetário pro ouvinte apenas do Top Ten.
Repertório não deve ter sido empecilho pra popularidade, porque é acessível e eclético (alguns dirão que até demais). Tem reggae/dub (Say You e Hipnition), balada à anos 50 (The Moon Is Blue), balada pop à anos 80 (Arena e Arena II), eletrosoul (Inside Informer), puro pop (Suspicion) e até Motown, na cover de You Keep Me Hanging On, das Supremes. Kim Wilde também regravaria o clássico, em 1986. Ouça as duas em seguida e veja como a do Colourbox é mais “esparsa” Isso não significa melhor, apenas diferente. Amo Kim Wilde e Taylor Dayne.
E como boa parte do M/A/R/R/S estava no Coloubor, claro haver precursora de Pump Up the Volume. Just Give’m Whisky é uma espécie de cavalgada spaghetti punk, cheia de samples de filmes de velho oeste e séries obscuras, como The Prisoner (you are number six!) e até solo de guitarra. O repertório é tão diversificado que abre com instrumental em piano elétrico, que parece anunciar um álbum dalgum de seus companheiros mais etéreos de 4AD.
Colourbox pra sempre permanecerá pra poucos, mas os leitores deste blog podem fazer parte dessa seleta minoria.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

SUPERANDO A SOLIDÃO


Roberto Rillo Bíscaro

Viuvez/divórcio, filhos vivendo suas próprias vidas com respectivas famílias são duas das razões para a alta taxa de solidão entre idosos. O problema é tão sério, que, ano passado, na Grã-Bretanha, a Primeira-Ministra Theresa May criou uma espécie de secretária da solidão, órgão que visa a desenvolver estratégias para diminuir o problema. Diz-se que falta continuada de interação social pode ser tão danosa como consumir muitos cigarros ao dia. 

A Netflix tem um filme muito bonito sobre um homem (Robert Redford) e uma mulher (Jane Fonda), que deixam de dar ouvidos às possíveis fofocas e decidem ser felizes juntos. O começo é algo surpreendente: uma noite, Addie bate à porta de seu vizinho Louis e à tira-roupa propõe que passem as noites juntos. Nada de sexual na proposta; é apenas para ter companhia no pior momento do dia, segundo ela. Por isso o título: Nossas Noites.

Vizinhos há décadas, num daqueles subúrbios longe de tudo, ambos mal se conhecem, mas aos poucos forjam amizade/aliança, que envolve a formação de um tipo de família extensa. Nossas Noites não está muito interessado em dramatizar sacarinamente a terceira idade, mas mostra como a bagagem emocional e dos atos pesa nas decisões e sonhos do presente. Mas, também ressalta que há mais de um tipo de relacionamento/arranjo possível para domesticar a solidão e tentar ser feliz, mesmo que convivendo com os inevitáveis fantasmas do passado.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 273



Roberto Rillo Bíscaro

Desde a antiguidade clássica, fantasia-se sobre mundos governados e habitados apenas por mulheres. O medo da perda do fálico cetro masculino tem inspirado diversos exageros, criando sociedades homogeneamente femininas, que odeiam homens.
Em termos fílmicos, há praticamente um sub-subgênero envolvendo sociedades femininas perdidas (em mais dum sentido). Houve exemplos dentro do subgênero das aventuras na selva, dos anos 40, mas o que interessa aqui são alguns da safra de ficção-científica dos anos 1950.
Não dá pra intelectualizar a intenção dos roteiristas e/ou diretores, no sentido de dizer que criticavam o patriarcado, representavam as ansiedades dos homens norte-americanos que voltavam de guerras como a mundial e da Coreia e viam seus empregos tomados por mulheres e daí pra fora. Tais leituras são válidas, mas, a posteriori. Os filmes não eram “intencionais”. Eram baratas produções B, orientadas especialmente pra sessões duplas em drive ins. Bolar trama que envolvesse bastante mulher, potencialmente atrairia a homarada teen e, nos anos 50, perna era como tetinha em filme de terror mais tarde.
 
Mulheres-Gato da Lua (1953) é um dos obscuros cult classics mais deliciosos da década. Feito com orçamento microscópico, tanto o roteiro, quanto cenários, adereços e figurinos são reciclados d’outras produções ou do dia-a-dia. Tem aranhona de pelúcia quase sem movimento despencando de teto, que aposto que quem tem boa visão deve ver até os fios. Tem incongruências tipo acender fogo na ausência de ar lunar (repare que fazem isso antes de entrarem na caverna). Mas, tem uma aura quase surreal em alguns momentos, devido a tantas maluquices e minimalismos (escassez é o correto).
Essa sensação outromundista é reforçada pela enigmática e sinuosa trilha-sonora composta por ninguém menos que Elmer Bernstein, ganhador de Oscar, Globo de Ouro, Grammy e Emmy. O começo dos 50’s foi marcado pela inquisição anticomunista do macarthismo e como o compositor se recusou a nomear nomes pro comitê de atividades antiamericanas, durante um tempo ficou marcado em Hollywood. Por isso, teve que fazer trilhas pra filmes como Catwomen Of The Moon (CWOTM) e Robot Monster (1953), um dos mais toscos já feitos. Atente pra como o sobrenome Bernstein está grafado errado nos créditos iniciais.
Como não havia dinheiro e esses filmes eram exibidos em sessões duplas (viu como as coisas se encaixam na linha de produção fordista da cultura?),CWOTM é curtinho - tem pouco mais de hora – e não perde tempo com exposição, começa com o foguete subindo pra missão à lua.
Uma tripulação composta por 4 caras e uma garota dirigem-se a nosso satélite em nave mobiliada com mesinha de madeira e cadeira de rodinha, daquelas de escritório. Mas, há algo estranho, porque a tripulante Helen começa a ter uns palpites e certezas inexplicáveis, tipo decidir pousar no lado escuro da lua, porque sabe que perto do ponto há uma caverna. Como pode isso?
Na lua, descobrem as descendentes duma civilização altamente avançada, que, como em Flight to Mars, parecia poder tudo, exceto construir foguete, daí querem roubar o terráqueo pra fugir pra Terra e dominá-la mediante telepatia. Porque elas não usaram esse poderoso instrumento pra comandar que os homens da Terra lhes enviassem espaçonaves salvadoras não vem ao caso...
Na verdade, nada pode vir ao caso em CWOTM, a não ser suspender a descrença por 64 minutos e procurar defeitos pra rir ou se estupeificar, como perceber que só quando Helen é amassada pelo áspero Laird, o poder das mulheres-gato sobre ela esvanece. As cenas de agarra-agarra entre os 2 são puro assédio sexual! Bom que deixamos isso pra trás, não? 

Em 1958, a Layton Film Productions reciclou Catwomen Of The Moon em Missile to the Moon (MTTM) e o resultado é ainda mais pobre, embora sem a estranheza do “original”, se bem que minha percepção advém de só conhecer a versão colorizada. Mas, considerando-se que Catwomen foi em 3D e Misssile, não, já é indício. Surpreendente pras gerações atuais, a primeira onda dessa tecnologia foi na primeira metade dos 50’s e sci fi sempre foi apropriada pra seu uso, devido ao fantasioso dos temas.
MTTM acrescenta elementos à história das Mulheres-Gato e embora essas sejam pérfidas, no desespero de salvar a lua em extinção, a violência na relação homem-mulher é mais discreta.
Tem a mesma (literalmente!) aranha de Catwomen; tripulação que recebeu nenhum treinamento pra viagem espacial; gente que pega fogo na superfície lunar, onde não há oxigênio, portanto, não pode haver combustão. Tem impostor se passando por selenita, mas, pelo menos na versão colorizada, os nascidos em nosso satélite têm pele azul, então como ele enganava? Ah, a Lido era cega...mas o resto, não! E o ar que não escapa pela boca da caverna, mas sim pela janela?
Missile to the Moon é outra daquelas pérolas pra ver e rir um bocado, destacando ilogismos. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

CONTANDO A VIDA 263

NOVA (IN)DECIFRAÇÃO DO BRASIL.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Já escrevi que sempre achei muito difícil explicar o Brasil para estrangeiros. Repetidas experiências me fizeram acumular preocupações renovadas a cada tentativa, todas algo frustrantes. Juro que achava ser essaa uma das tarefas mais complexas da formulação lógica dos acontecimentos que, afinal, nos implicam como seres políticos, entes inscritos na política. A certeza de que nosso percurso histórico é/seria peculiar, me obriga garantir que “sim”, que há uma originalidade no desempenho de nosso papel no universo, e que a marca do Brasil tinha que ser reconhecida como garantia de uma combinação única, mescla de segmentos étnicos colocados no mesmo espaço de redefinição miscigenada (pelo menos culturalmente, já que a propalada democracia racial é um mito resistente). Esta garantia, por forte que é, nos convoca a relativizações, é verdade, pois olhando cada outra realidade chegaríamos a constatações de particularidades também evocadas como diferentes. Tal posicionamento, contudo, nos obriga a uma hierarquia expositiva que, obrigatoriamente, nos faz acatar que há mais fragmentos de singularidades entre nossas manifestações do que a de muitos países ou culturas que somam semelhanças menos esdruxulas, ou mais facilmente justificadas. Tamanho geográfico, áreas florestais, secas e ao mesmo tempo fartura de água, tudo juntado a etapas de povoamento que agrupam sobrevivências indígenas com o maior contingente de escravos vindos da África, portugueses que se desafiaram em uma experiência formidável, e uma imigração branca mais recente, nos distingue com facilidade, e tudo junto, nos faz peculiares e relevantes.   
 
Julgava essas explicações para gringos entre as mais difíceis missões dos historiadores, e até admitia de saída que o esforço, por mais bem resolvido que fosse, seria falho. De tal forma me consolava, que consegui firmar uma máxima: o estrangeiro tem que aceitar o Brasil como dogma de amor, pois compreende-lo é impossível. Houve, contudo, um momento mais recente, em que rebaixei essa escalação. Falar para brasileiros fora do Brasil tornou-se proposta ainda mais intrincada. Justifico minha afirmativa garantindo que há uma natural e imediata relação de poder e julgamento de quem está fora do meio e quer se sentir parte integrante. Explico-me: como o processo de desligamento identitário dos nossos patrícios é manhoso e insistente, insinuante, e porque ao invés de assumir coerência entre a distância física ou geográfica, os evadidos em todos os níveis, mais se ligam e não largam da identidade original. Aprendi que eles perdem o processo em movimento e coisificam fatos e os tratam como se fossem fenômenos isolados. Tudo fica mais concreto e palpável, pois a vertiginosa velocidade das consequências locais, nossas, se lhes ficam a um tempo minoradas pela distância, agravada pela impossibilidade de participação no espaço e tempo imediatos.

Por favor, não pensem que as coisas pararam aí. Não mesmo. Tive que propor outra escala, também renovada na surpresa dos acontecimentos recentes sem os quais não seria viável qualquer esforço explicativo. Assim, mais do que admitir que explicar o Brasil para os estrangeiros, ou para os brasileiros que deixam o país, tem sido ainda mais embaraçoso explicar o Brasil para os próprios brasileiros. Em tempo, ainda antes que me julguem pretencioso, transfiro os méritos e defeitos de tal pretensão ao coletivo nacional, pois é visível que, de repente, todos se tornaram explicadores, donos de visões pessoais que autorizam a garantir que, afinal, somos historiadores natos, com ou sem necessidade de formação acadêmica. E nesse caldo de explicadores, pouco vale se somos ou não profissionais especializados. O pior é que a garantia disso decorre do princípio de igualdade política, no dizer já expresso por Millôr Fernandes que garantia: a lei é igual para todos, aí começa a injustiça.     

Em conversa recente com uma colega também historiadora, em vista dos acontecimentos recentes, contabilizando uma vida de trabalho em escolas, em particular em nível universitário, sentimo-nos abalados e tendo que admitir nosso esforço vão. Um breve giro pelas redes sociais é prova cabal de nosso fracasso: ninguém sabe nada de História. Se para alguns pode parecer chocante essa afirmativa, cabe convidar a uma olhada nas redes sociais. A perda da credibilidade dos historiadores de ofício transparece um nivelamento raso que delega a todos direitos sobre visões do passado. A negação da ditadura como processo político drástico e consequente, por exemplo, é prova de que se apaga um passado, colocando-se no lugar um nacionalismo sem cabimento no conjunto das culturas politicamente desenvolvidas. E junto vem a liberação de armas, o desprezo ao meio ambiente, o sexismo descabido e todos os preconceitos. Sem uma revisão do pretérito com vistas no presente, sem um diagnóstico cabível da comédia de erros que vivemos em termos de governo, antes de explicarmos o Brasil para os brasileiros que estão fora de nosso quadrante geográfico e antes de explicá-lo para os estrangeiros, temos que nos entender, internamente. Então, como pensar escola sem partido? Como, por favor, expliquem-me e expliquem-se.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

TELINHA QUENTE 345


Roberto Rillo Bíscaro

Ken Bruen é prosista policial nascido na Irlanda, cuja produção impressiona pela quantidade. São várias séries protagonizadas por distintos detetives e policiais. Um deles é o ex-guarda Jack Taylor, cujas aventuras em livro ganharam adição, em 2017, com o lançamento de The Ghosts Of Galway.
Galway é a cidade de cerca de 80 mil habitantes, onde se passa a maior parte das aventuras de Taylor, se bem que algumas cenas dalguns episódios da série irlandesa Jack Taylor foram gravadas na Alemanha, porque a TV3 a coproduziu com parceiros germânicos. Desde 2010, 9 filmes de cerca de 90 min. cada foram produzidos e estão na Netflix.
Afastado da guarda municipal de Galway por haver se metido com figurão político, Taylor é malquisto pela força policial local, apesar de resolver os casos que essa não consegue, quando contratado por clientes insatisfeitos com os resultados policiais. Conforme avançam os episódios, não dá pra evitar de pensar que a animosidade para com Jack chega a ser quase gratuita, apenas mais uma convenção ou arbitrariedade do roteiro pra garantir estatuto noir à personagem.
Jack Taylor é praticamente protótipo do detetive durão noir, beberrão e sempre apanhando, mas que tem bom coração, apesar de autocentrado e atormentado. O aspecto cartoonish é dolorosamente evidenciado pela vestimenta. Ao ser expulso da polícia, Taylor mantem o casacão azul-marinho do uniforme e o usa em todos os episódios. Personagem de quadrinhos e desenhos é que vestem a mesma roupa eternamente. Na série, mesmo após anos do rompimento entre Jack e a polícia, o casaco parece ainda OK.
Iain Glen  afirmou mais de uma vez que o divertido em interpretar Jack Taylor é poder soltar seu lado Scarface ou Clint Eastwood. Tudo muito bem, mas sua interpretação meio declamatória e enfática, além do vozão grave murmurante, podem resultar em overdose de teatralidade, junto com todo o resto de clichês. Fãs demais de Downton Abbey e Game Of Thrones poderão se interessar ao saber que Glen é Sir Richard Carlisle na primeira e Ser Jorah Mormont, na segunda. O ator é bom e Jack é gostável, mas enjoa se consumido seguidamente de perto.
Progressivamente os episódios tornam-se mais sombrios, especialmente porque aos casos somam-se as muitas desventuras de Jack Taylor e dos azarados que cruzam seu caminho.
Não desgostei, mas igualmente não posso recomendar, porque Jack Taylor é por demais genérico. Fãs completistas de qualquer coisa noir ou obcecados por qualquer coisa Downton/GoT são as únicas criaturas pras quais eu indicaria.

Mais interessantes, porém, mais difícil de ver, porque fora da Netflix, são as curtas quatro temporadas de Single-Handed. A RTÉ One produziu seis histórias, divididas em temporadas de dois capítulos, cada (exceto a última), que foram ao ar entre 2007 e 2010.
Ambientada na linda, mas meio desoladora costa atlântica da Irlanda, Single-Handed foca no policial Jack Driscoll, que retorna à cidadezinha natal e, além dos crimes, tem que enfrentar fantasmas familiares, especialmente conjurados pelo pai, ex-policial não de todo honesto. No fundo, Single-Handed é o confronto de duas Irlandas: aquela do passado, pobre, corrupta e cheia de abusos contra crianças e fracos e uma do presente, que quer se livrar dessas práticas. Embora as histórias sejam independentes, é útil ver a série em ordem e na íntegra, porque o último episódio revelará se Jack consegue se libertar totalmente das práticas do pai/da velha Irlanda.
Assim como historiadores de slasher films apontam Black Christmas como precursor do subgênero, cronistas atentos anotariam Single-Handed como Celtic Noir avant la lettre. Ou terão que dizer que mesmo sem o Nordic Noir, o clima de séries como Hinterland (tem na Netflix) e Shetland prenuncia-se na produção irlandesa. Quando da primeira temporada, Forbrydelsen mal fora ao ar em sua nativa Dinamarca, mas o policial irlandês já apresenta os céus carregados e o prevalente clima depressivo da miséria humana, que se tornaria tão em moda nos anos vindouros.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 350

Roberto Rillo Bíscaro

Jean-Philip Grobler nasceu e criou-se na África do Sul, estudou música na Liverpool dos Beatles e se mudou pra Nova York, onde está até hoje.
Influenciado por Phil Collins, Sting, Radiohead, Fleetwood Mac, Boys II Men, Michael Jackson e boa parte boa da cambada oitentista, Grobler grava sob o nome St. Lucia. Ele até tem banda, mas St. Lucia é ele mesmo.
When the Night, o primeiro álbum, saiu em 8 de agosto, de 2013, pela Columbia, selo onde permanece. Quem vibrou com o segundo álbum-solo de Brandon Flowers ou o supergrupo indie Dreamcar, ou, para simplificar, quem ama o pop sintetizado da década de 1980, não tem porque não venerar St. Lucia. O melhor da produção está nas 11 faixas, sem o excesso das baterias eletrônicas.
A versão do Spotify tem uma dúzia de faixas, porque traz acústico dispensável de Closer Than This, que em sua deliciosa aparição original, lembra o easy listening oitentista do Fleetwood Mac. Dá até pra imaginar Stevie Nicks entrando nos vocais. The Way You Remember me é daqueles new waves pra dirigir em freeway; tem até sax, instrumento-símbolo da saxodécada. Phil Collins realmente impactava nesse primeiro álbum: The Night Comes Again não tem como não lembrar seu No Jacket Required, mas sem soar cópia. E quer mais Phil do que o naipe de metais fake de Elevate? Wait For Love tem aquele climazinho de aldeia africana recriada em estúdio nortista frio, tão Nick Kershaw, Howard Johnson ou símiles. Too Close é uma das delícias dançáveis com seus barulhinhos eletrofuturistas e bateriona bem cadenciada. Ouça When The Night e me diga qual grupo synthpop oitentista não usou esse riff de teclado. Mas o álbum não é cópia descarada: September tem cheirinho de Giorgio Moroder, mas sua estrutura repetitiva lembra mais o estouro techno já dos anos 90 ou um daqueles remixes que vinham nas edições de luxo dos álbuns do Pet Shop Boys

No ocaso de janeiro de 2016, saiu Matter, que alcançou a altíssima posição 97 na Billboard, mas deverá ser obrigatoriamente conferido por todos amantes da sonoridade da década de 1980, especialmente a da primeira metade, talvez mais especificamente entre 83-6. As 11 canções têm arranjos mais encorpados que as da estreia e a fluência do St. Lucia nos idiomas musicais oitentistas deslumbra.
São tiques e retoques que se sucedem/reptem/sobrepõem, criando a sensação de uma década de oitenta inventada pro álbum. Home, por exemplo, não tem como negar o parentesco com alguma coisa de Michael Jackson imediatamente pré-Thriller, mas a chave é synthpop. Os seis minutos e meio de Rescue Me são locomotivas possantes, repletas de toda sorte de barulhinhos 80’s, mas sem deixar de piscar bem forte pra 1999, de Prince. A caça por referências pode ir tão longe a ponto de identificar quais canções de Matter tiveram homônimos no decênio: aqui dou duas dicas, Do You Remember e Physical, esta última, quase inacreditável paulada eletrodançante, nível New Order
Help Me Run Away é o tipo de power pop, que deixou Rick Springfield famoso e o arranjo de Stay é pra ser estudado, de tão criativo e bem-feito. Abre com apitinhos de Carnaval e durante boa parte parece nem ter percussão, que, quando surge, enfim, não é bombástica, como a esperada num revival 80’s. Estudo de caso pra arranjos que se metamorfoseiam aos poucos. Não quer ouvir álbum pra estudar, apenas pra se divertir? Apoio! Não faltarão riffs adoráveis de teclado, como em Dancing On Glass e fofuchices, tipo The Winds Of Change. 

Dia 21 de setembro, de 2018, saiu Hyperion, novamente com texturas luxuosas, mesclando elementos que não necessariamente caminhavam juntos nos anos 80. Em Walking Away, teclado grave e algo lúgubre coexiste com a aguda guitarra funkeada à Nile Rodgers. Em Gun, o St. Lucia faz quase um synth-AOR: é um clima bem powerpop, daqueles roqueiros, quase, cujo refrão soa ótimo pruma trilha de comercial dos cigarros Hollywood, nos 80’s. Na calma Next To You, a batida é de bossa-nova.
Nesse álbum, percebe-se a procura por caminhos além-anos 80. Na catártica Paradise Is Waiting, o sul-africano lança mão da mesma batida e coro gospel que George Michael usou em Freedom, levando a um clima início dos anos 90. A deliciosamente pulante China Shop sintetiza elementos de música chinesa, com vocal que remete ao de Morten Harket e, mais pro fim, encaixar-se-ia tranquilamente num dos álbuns do Pet Shop Boys, da primeira metade dos 90’s. Nos seis minutos da derradeira You Should Know Better, o pop não se torna inacessível, mas há menos preocupação em melodia instantaneamente fácil. A gente fica curioso pela trilha escolhida pro próximo álbum.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 272

Roberto Rillo Bíscaro

Lázaro é o personagem bíblico ressuscitado por Jesus, mesmo depois de estar fedendo. Essa é apenas uma das inúmeras referências que dão profundidade e multiplicidade de interpretações a Lazzaro Felice (2018), escrito e dirigido por Alice Rohrwacher e constante do catálogo da Netflix.
A italiana produziu um daqueles longas que não devem nada a qualquer filme de arte europeu, especialmente os de seu país. Alice caminha com extrema segurança por caminhos de pedras que indicam sua familiaridade com o Neo-Realismo e o Cinéma Vérité e, típico de sua geração, não teme misturar Realismo Mágico a essas formas mais engajadas de mostrar realidades nuas e cruas. Há até quê de Forrest Gump.
O angelical Lazzaro vive feliz, fazendo o bem sem olhar a quem, em uma comunidade rural isolada, que, apesar de situar-se temporalmente em algo que se assemelha aos anos 90, vive sob o jugo duma marquesa, que fuma como chaminé e vê a vida como Hobbes. Os lobos mencionados são metaforizações do filósofo inglês. Pra ela é conveniente essa visão de relação humana, visto ser quem explora mais. Mas, os campesinos não são anjos de candura explorados. Replicam o comportamento, quando podem, especialmente com Lazzaro. Apesar de provar conhecer bem a tradição marxista de cineastas conterrâneos, a italiana não idealiza a classe trabalhadora e sequer aponta visão otimista, de vitória do proletariado. No meio da narrativa, há mágico salto temporal e o grupo, agora na Europa eurada e emigrada, aparece na mesma pindaíba e sucateamento de antes, só que agora têm TV e comem salgadinhos (roubados).
Ligando esses dois mundos aparentemente tão distintos, mas no fundo tão iguais, está Lazzaro, cujo nome significa Deus ajudou. Mas, será que o Criador ajuda mesmo nesses dias de economia dominada por banqueiros e ruas cheias de gente de bem civilizada?
Lazzaro Felice poderá ser lido como fábula, como denúncia de exploração, como mistério, só não poderá ser acusado de imparcial. Merecidamente premiado, o filme de Rohrwacher não tem vergonha de ser didático, acusação feita por quem – tola ou manipuladoramente – acha ou quer que achem, que a novela das oito também não o seja.