quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CONTANDO A VIDA 215

MINHA CARTA NATALINA: 2018





Jose Carlos Sebe Bom Meihy


Antes, rezava-se diante dos presépios singelos, em casa, invocando Deus-menino. 

Suplicava-se por graças domésticas, coisa pequena, restrita ao âmbito do lar. Parece que o mundo cresceu em ordem progressiva, e assim os negócios se alargaram, e, então passou-se a escrever cartas para o Papai Noel. Sim, os natais mudaram – já anunciava Machado de Assis – mas não se esperava tanto. Na largura dos novos tempos, ainda se pede paz, harmonia, felicidade, mas, menos esperançosos, acabamos por detalhar medos. Reparem que ao evocar qualquer qualidade, o fazemos pensando em possíveis temores próximos. 

Comecemos pelos convencionais votos correntes nesta época: Feliz Natal, Boas Festas, Próspero Ano Novo... Ups, Próspero Ano Novo?! Há alguma perspectiva desse último pregão? Próspero Ano Novo?! Em que sentido?! Qualquer resposta a tal questão implica explanações. Vivemos dias difíceis, sabe-se. Entre tantas arestas a serem arredondadas no circuito da vida contemporânea, algumas ganham destaques: no panorama internacional, além dos ameaçadores temas ambientais, dos apocalíticos dizeres de guerra nuclear, temos um temerário líder, Kim Jong-Woon lançando misseis de longo alcance. Do outro lado, um rival, Trump, ironiza a situação, pondo em riscos uma guerra intercontinental. O mesmo presidente dos Estados Unidos, aliás, joga o mundo árabe em possível guerra ao mudar a capital de Telavive para Jerusalém, apenas para manter promessa de campanha. As notícias de leilão, na Líbia, de homens foragidos à caminho da Europa se completam com a divulgação de casos como das mulheres mauritanas, duas irmãs, Magboula e Sahida Mohamed, contratadas como empregadas domésticas na Arábia Saudita, mas que acabaram escravizadas e barbarizadas em torturas.

Nem é preciso ir longe para diagnosticar a barbárie em que se vive. No Brasil, dói admitir que balas perdidas atingem até fetos em ventre maternos e que 132 policiais foram mortos este ano no Rio de Janeiro, motivados pelas guerras aos bandidos organizados em bandos. E o que dizer do aumento do número de moradores de rua que, em seis meses, na capital carioca, passou de 8 para 15 mil? Isso ao mesmo tempo em que um governo venal anuncia aumento da economia e dos níveis de emprego. Por certo os bancos, as grandes empresas, os safados do alto comando estão sorrindo, mas os vitimados pelas reformas trabalhista e ameaçados pela previdenciária... O inventário seria longo e trágico demais para caber numa carta natalina. Vale contudo, enumerar algumas urgências que precisam ser filtradas. Depois de muito pensar, a questão da divisão do pais em dois blocos que se odeiam, coloca entre as prioridades o pacto político. O ano que avança trará como prioridade o tema sucessório. O lado bom dessa oportunidade, a renovação desejável, convive com a ameaça cada vez mais gigantesca de acirramentos e discórdias. À complicar tudo, o piadismo nas redes sociais, as ironias e apontamentos grotescos de personagens públicos, garante combustível para agregações ameaçadoras. Isso, por sua vez, extrema diferenças que anulam diálogos mais que necessários. O risco imediato é que tenhamos uma campanha sem diálogo. A decantada unidade nacional, a tal fala que nos distinguia como cultura da alegria e da concórdia, está muito longe de ser exercitada.

Mas, é fim de ano, tempo de “boas festas”. Para exercitar isso, para não perder o fôlego em anúncio negativo, resta reverter em nível pessoal o caminho andado em direção da velha tradição. Temos que voltar a rezar. Como crença ou não, com ardor ou sem ele, vale recobrar a postura antiga que colocava os pressupostos do cristianismo como ponto de partida para novos começos. Assim, minha carta natalina perde o sentido comercial e num gesto de boa vontade, humildemente, volta a ser uma oração quase religiosa. Sinto-me aliviado, pois, para desejar a todos FELIZ NATAL.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

TELINHA QUENTE 289


Roberto Rillo Bíscaro

Walter Presents é um programa que apresenta séries estrangeiras – mormente policiais - ao público britânico acostumado a ler legendas após o sucesso de Forbrydelsen. Exibido na plataforma de streaming do classudo Channel 4, o nome deriva de seu curador e apresentador Walter Iuzzolino.
A ideia é que os espectadores estão assistindo ao que passou pelo sofisticado crivo de Walter, que afirma ter como parâmetros o sucesso de público e crítica das séries, representativas do melhor que seu país tem a oferecer em termos de escrita, direção e atuação. Convenientemente se “esquece” que o conteúdo exibido depende de licenças de exibição, preços etc. Não se trata apenas do refinado gosto de Iuzzolino – não me agrada a ideia de ter alguém tão ostensivamente pontificando o que é de bom gosto, bem questionável, diga-se, quando pegamos Nordic Noirs zicados, tipo a primeira temporada de Mammon (dizem que a segunda melhorou bem!).
Seja o que for, o programa é muito louvável, porque já trouxe até séries brasileiras, tchecas e chilenas, países dificilmente exibidos na TV fora de seus domínios (claro que descontadas nossas novelas, mas daí o público é distinto). Enquanto via a meia dúzia de capítulos da francesa Le Passager (2014) não pude deixar de me divertir com a incongruência de promovê-lo como o que há de melhor da teledramaturgia dalgum país ou a pretensão de curador querendo me fazer crer que seja “inteligente”, “sofisticado” ou sei lá quê. Não que seja ruim, longe disso, mas é só diversão, não tem pé nem cabeça. É só bobagem com boas referências.
Capitã Chatelet investiga uma série de assassinatos na nortista Bordeaux. Algum maluco está matando homens (geralmente são mulheres; ponto pra Le Passager!) em sofisticadas reproduções de mitos gregos, então, a primeira vítima é encontrada decapitada e no lugar da cabeça, uma de boi, simbolizando o Minotauro. Convenientemente entra em cena Mathias Freire, psiquiatra que explica os mitos a todo mundo. Ele passa a auxiliar Anais na investigação, que se adensa, porque envolverá megacorporação, a ditadura pinocheteana e multíplices identidades de uma personagem. É tudo envernizado com explicações psicanalíticas superssimbólicas pra aparentar minissérie mais “cabeça”, digna de ser apresentada prum público culturetchy.
A meia dúzia de capítulos exibidos pelo canal France 2 entretém, mas são tão ilógicos quanto, sei lá, Revenge ou Whitechapel (mas essa é beeeem mais divertida). Parece não haver burocracia na polícia francesa: quer um civil como parça na investigação? Fácil. Os 2 assassinos carecas e silentes acertam todo mundo menos o principal, enfim, parece que nunca lhes ocorre atirar primeiro em quem querem matar prioritariamente. Mocinha vai de carro a Marselha pra depois aparecer saindo da estação de trem ou busão em Bordeaux. Daí estão em Paris; daí em Bordeaux, sem muita transição.
Le Passager está a anos luz de ter a alta qualidade pretendida por Walter Presents. Tendo isso em mente, até que é assistível.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 295


Roberto Rillo Bíscaro

Na primeira década deste milênio, o Lucky Soul chamou atenção dos fãs de retro e sophistipop, de pop soul, mas não apenas, porque sua modernização de blue-eyed e northern soul conquistou paradas de sucesso. Singles viciantes, como Lips Are Unhappy, não prejudicaram em nada a escalada de popularidade dos britânicos, que chegaram a abrir a turnê de Bryan Ferry pra promover Dylanesque.
Formado em 2005, o Lucky Soul lançou CDs em 2007 e 2010, antes de silenciar por 7 anos, o equivalente a diversos períodos geológicos na cronologia pop. Dia 11 de agosto, o Lucky Soul retornou com Hard Lines e como sexteto. A formação atual tem Andrew Laidlaw e Ivor Sims, nas guitarras; Ali Howard (en)canta; Russell Grooms, no baixo; Paul Atkins, na bateria e a adição de Art Terry, nos teclados. O grupo se metamorfoseou de revivalistas e modernizadores dos aspectos mais pop do soul em campeões ingleses da disco music. Antes eles juravam que viviam numa espécie de eternos anos 60; agora se instalaram na segunda metade dos 70’s.
Hard Lines tem 10 faixas, mais uma versão editada do primeiro single pra tocar em rádios. Os momentos mais sensacionais são as 2 primeiras faixas: More Like Mavis é descomunal paulada disco funk e No Ti Amo – o primeiro single – um pouco mais eletronizada na linha ítalo-disco. A diversidade do álbum reside nas diversas facetas da disco music. Livin’ On a Question Mark tem pegada meio reggae, meio numa vibe Ottawan, ao passo que Too Much bebe da mesma fonte disco-soul que Madonna se banhou pro LP de estreia. O resto de Hard Lines é composto por midtempos como a faixa-título e baladas, como a Rose royciana Stonewashed.
Todos os músicos têm tempo pra brilhar, mas o destaque é a voz de ninfeta sapeca de Ali Howard, espécie de cruza entre Tina Charles (dance, little lady, dance) e Kylie Minogue. E é pela interação entre essa voz e o instrumental dance pop, que Hard Lines agradará a fãs de Bananarama, Little Boots, Sophie Ellis Baxter, Saint Etienne e tantas moças mais.

No atacado, Hard Lines não condensa tantas delícias juntas como os álbuns anteriores (recomendados), mas contém algumas peças no varejo que são irresistíveis.

domingo, 10 de dezembro de 2017

SUPERAÇÃO PARACICLÍSTICA


Conheça a história de superação de Rayr Barreto, paraciclista itabaianense 

sábado, 9 de dezembro de 2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

TELONA QUENTE 214

Roberto Rillo Bíscaro

Visões panorâmicas da história do horror não têm como evitar um ou mais blocos a respeito dos filmes de monstro dos anos 1930, vide a ótima A History Of Horror.
Os interessados em mais especificidade deveriam procurar Universal Horror (1998), cujos 90 minutos narrados por Kenneth Branagh, focam na produção do estúdio Universal, que deu ao mundo Drácula, Frankenstein, a Múmia, O Homem Invisível, só pra citar os mais famosos; muitos representados tão iconicamente que ainda hoje representações seguem seu visual.
Geralmente desprezado pela intelligentsia, o terror tem sido responsável por farta parcela da subsistência de muita companhia cinematográfica. Não foi diferente com a Universal, que, começou como grande fábrica de filmes B pra baixo.
Nos Depressivos anos 30, filmes de horror abarrotaram os cofres do estúdio, porque baratos de produzir e lucrativos. As plateias amavam: podiam escapulir um pouco do horror real da Crise de 29, nos reinos de terror egípcios, transilvânicos, londrinos. Curioso esses documentários jamais abordarem porque o terror era quase sempre localizado fora do solo norte-americano. Mesmo quando ameaçava Nova York, no caso de King Kong, era importado de terras exóticas e primitivas. Como o sucesso das películas da Universal fez outros estúdios copiarem a fórmula, produções inevitáveis como a do gigante gorila estão em Universal Horror. Kong era da RKO.
O documentário é excelente, embora panorâmico. Atores, críticos e personalidades como o escritor de ficção-científica Ray Bradbury revelam detalhes técnicos e de recepção desses filmes que hoje não assustariam criança, mas à época deixavam a moçada histérica, de cabelo em pé, claro, com alguma ajuda do estúdio, que contratava gente pra desmaiar ou sair correndo aos berros e assim gerar burburinho.
Deveras influenciado por correntes vanguardistas europeias, como o Expressionismo alemão, esse primeiro ciclo de horror falado foi precedido por farta produção muda. Universal Horror dedica generoso tempo em apontar e discutir superficialmente esses precursores, que tiveram até a estreante Joan Crawford nos elencos. Os familiarizados com a primeira fase dourada do horror falado certamente preferirão as referências aos filmes mudos, que não ficam só nos manjados Metropolis e Gabinete do Dr. Caligari.
Atando o fascínio exercido por deformados como Quasímodo e Frankenstein às mutilações em massa tornadas rotineiras pela Primeira Guerra, Universal Horror informa, entretém, encanta e desperta curiosidade danada pelos filmes mudos até em caras como eu, que não os suporta. Mas, resistirei facilmente à tentação; tenho saco, não, sorry.
Se você entende inglês, tá no Youtube:

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

THANDO FALA À REVISTA ÉPOCA


"Sofri muita discriminação", diz modelo albina que é o nome da vez no mundo fashion

Thando Hopa largou a carreira de advogada para modelar

Nascida em Johannesburgo, a modelo albina Thando Hopa tem feito sucesso no mundo fashion. Mas, ao contrário de suas colegas de profissão, ela não sonha somente com capas de grandes revistas e desfiles para grifes badaladas. Thando encara a visibilidade alcançada como missão.

"Larguei o Direito por uma causa. E se é a moda que me faz conscientizar as pessoas sobre o albinismo, então vou abraçar essa profissão até o fim", diz ela, uma das estrelas da próxima edição do Calendário Pirelli, que aos 25 anos deixou a carreira de advogada para modelar.

Sofreu discriminação por ser albina?

Muito. Principalmente na África do Sul, onde nasci. Na juventude, não saía de casa sem muita maquiagem para escurecer a pele. E, mesmo assim, me apontavam na rua, diziam que eu era filha do demônio e cuspiam quando passava. Lá o albinismo pressupõe debilitação física, um drama social. Os coleguinhas da escola não tocavam em mim.

Foi difícil vencer o preconceito?

Um dia acordei, me vi no espelho e decidi ser linda. Deu certo. Mas não vou descansar enquanto souber que ainda existem crianças passando pelo que passei, principalmente em países como a Nigéria, onde, segundo estatísticas, uma em cada 5 mil pessoas é albina. Lá e também na Tanzânia, o infanticídio de bebês albinos é comum.

Crianças ainda sofrem dessa forma?

Sim, muito. As pessoas não fazem ideia. E isso precisa ser falado. Na Tanzânia, acredite se quiser, ainda hoje muita gente crê que partes de corpos de albinos tragam poder e sorte. Por lá, pessoas com albinismo são mortas e seus corpos usados em rituais supersticiosos e macabros. Na África não é diferente. 

Como largou o Direito para ser modelo?

Estava em Johannesburgo, na rua, e fui abordada por Gert-Johan Coetzee, um estilista muito conhecido lá. Ele se aproximou, disse que eu era muito bonita e perguntou se não gostaria de fazer umas fotos. Não levei a sério, mas peguei seu cartão. Dias depois liguei e marcamos um encontro. Desde então, tudo tem acontecido bem rápido. O mundo da moda é muito glamouroso, cada dia estou num país diferente. Mas luto a todo momento para não me deslumbrar e esquecer o motivo de eu estar aqui.


CONTANDO A VIDA 214

REDES SOCIAIS: velhos e jovens.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Diria que em termos de calendário, o ano corrente (que envelheceu sem dar mostras que há de cair de podre), lentamente mudará em ideias, assinalando apenas a variação cronológica de 2017 para 2018. As expectativas são sombreadas de pessimismos, e não convém afastar os gravames de um ano eleitoral que não se enxuga de falcatruas, escândalos, e lances escusos. Certamente, teremos expostas diferenças assustadoras que, infelizmente, dimensionam ódios incontidos, recalques arraigados, achaques agressivos, porque não conseguem se renovar em essência. Não basta, contudo, identificar os sintomas em suas planuras reveladas por manifestações que percorrem redes sociais, notícias de jornais e até afetam convívios íntimos. Qualquer diagnóstico mais consequente demanda combinar causas arcaicas com novos modos de expressão. Ainda não assimilamos o impacto das tecnologias e, quase sempre, aproveitando facilidades, consagramos enfermidades incrustradas em insatisfações que, sinceramente, não dizem muito de projetos que precisam nascer. E a voz no coletivo, o tal semianonimato, sem mostrar o rosto ou a responsabilidade da interlocução argumentativa, faz amanhecer o pão nutritivo da troca de ideias, da ventilação de opiniões e mobilidades. E como é resistente, petulante, inflexível a firmeza da raiva política! Dói muito dizer, mas o mundo está dividido e o que é pior, sob o fado de extremar-se ainda mais.
E não vale apenas dizer que a corrupção é sistêmica, que os maus políticos são históricos, ou que as eleições resolverão o problema se votarmos “certo” (entendendo como “certo” os nossos candidatos). Junto com a resistência dos problemas, há recursos que merecem cuidados conceituais que, se compreendidos, podem favorecer entendimentos. Por lógico, não se almeja saudar consensos, mas é desejável o favorecimento de diálogos mais inteligentes do que o ataque cego e polarizado. Partamos do suposto que reza virtudes na alteração de posicionamentos. Por que não mudar? Por que não pensar nos argumentos contrários, se expostos de maneira outra que não o ataque? Ah! que saudade da metamorfose ambulante. Ambulante, porque variada, conformada com as demandas do mundo moderno.
O discurso racional está saturado e não mais se sustenta. A lógica construída em argumentos esticados do passado padece de furos consequentes e ocasiona vazios. É exatamente aí que se abrigam os argumentos carcomidos pelo passadismo. Sem admitir mudanças nos meios de comunicação, por exemplo, corre-se o risco de se manterem binarismos que não mais se explicam. A sociedade é dinâmica e reclama por consciência disso. O mundo se organiza, com os novos modelos de comunicação, em redes, mas, de que elas valem se insistirmos nos mesmos pregões? O plural é o desejo maior da democracia que precisa trocar ideias e permitir pertencimentos, integração, participação amplíssima. Não vale mais o “certo/errado”, “bonito/feio”, “bom/mau”. Basta um giro rápido pelas redes sociais para ver como, sob o jugo da modernização, se colocam em causas velhas proclamações que, aliás, assumem os fatigados supostos passados como critérios para futuros. A velocidade alucinante permitida pelos trilhos da internet (e agora da realidade ampliada) ainda conduzem as cargas azaradas pelos argumentos pretéritos. O mundo mudou e precisamos mudar com ele. E que sejam o diálogo e a instrução livre os ponteiros de bússolas navegantes. Chega de dogmas e fundamentalismos.   
Mas, haveria esperança? Pode-se admitir algum otimismo? Ou, pelo contrário, há de prevalecer a eletrônica atualizada em uso nas mãos de velhos que não se renovam e não a entendem, por embrutecidos que se tornaram? Creio no porvir. Com força, acredito que a nova geração saberá lidar com o mundo em rede e promoverá os avanços necessários para uma vida social mais justa. A noção de “novo mundo” se anuncia por meio de concepções libertárias da padronagem que ainda insiste em grassar nos segmentos que não aprenderam com a realidade horrível que nos cerca. Que fiquem avisados, diga-se, que alguns direitos humanos são irreversíveis. As mulheres, os racialmente segregados, os gêneros sexualmente reconhecidos, são arautos de um novo tempo, melhor, porque mais tolerante e flexível. Democrático. Em conjunto, grupos silenciados emergem e, tomara, que eles saibam lidar com o atraso e resistência da grande parte da “ velha” classe média brasileira. E que as redes sociais se constituam em reais teias de solidariedade e respeito.
Vivemos uma era de mudanças. Tudo parece ruir. Caem os tais “valores” antes fixos, estáveis e acomodados em cinismos e hipocrisias. Paradoxo das mudanças, é bom que assim seja. É bom que tenhamos ciência de que por mais insistentes que sejam os teores odientos, na medida da inexorável conexão do mundo, aprenderemos a lição fatal: os jovens estão em rede. Bem-vindos os não jovens que fiam nessa trama. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ALBINO SHERLOCK


Sherlock, o patudo albino que foi abandonado tem uma nova vida e é famoso

Sherlock é um cão de raça Schnauzer que nasceu albino e que foi abandonado ainda recém-nascido, possivelmente devido à sua condição rara e a tudo o que esta implica.

O animal não pode ser exposto a luz solar direta por longos períodos de tempo, pois corre o risco de sofrer queimaduras graves e de ficar com cancro da pele. Deste modo, Sherlock necessita de usar protetor solar especial para cães e óculos de sol.

Os seus olhos azuis que, à primeira vista, podem parecer lindos, podem trazer-lhe problemas graves de visão, assim como o albinismo pode causar também problemas de audição.

O cão foi encontrado depois de ter sido abandonado e colocado ao cuidado de Netta Mckay, sendo que depois deveria ser adotado por uma família. Contudo, a mulher e o marido apaixonaram-se pelo cão e acharam que seriam as pessoas ideais para lhe dar as condições que precisa para ser feliz e viver em segurança.

Agora, Sherlock é um membro oficial da família McKay e tornou-se uma estrela das redes sociais, principalmente pela sua necessidade de usar óculos.

O patudo chegou mesmo a ter um contrato de publicidade com uma agência de modelos para cães, mas Netta alerta para o facto de, apesar de serem bonitos, este tipo de cães terem verdadeiros problemas.





















TELINHA QUENTE 288



Roberto Rillo Bíscaro

É senso-comum o fato de depois de morta a pessoa ser lembrada apenas por supostas qualidades, reais ou inventadas, tendo seus defeitos suavizados, quando não obliterados. Quando se trata de jovem, com futuro todo pela frente, a coisa é ainda mais ch/tocante, porque de certo modo, adolescentes ainda são meio conectados ao estatuto angelical infantil. Fato é que há séculos a juventude é glorificada pelo vigor e pela garantia da espécie.
O roteiro da controversa 13 Reasons Why, da Netflix, conta, dentre outras coisas, com essa romantização do indivíduo após a morte para que o suicídio de Hannah Baker tenha sido percebido por não poucos como saga de 13 capítulos de martírio pra protagonista, sem se darem conta dos defeitos da garota e da reprodução desse mesmo sofrimento em outras personagens, que não passaram de ferramentas pra que sentíssemos dó da narradora-defunta.
Essa manipulação faz de 13 Reasons Why perigosa, mas muito interessante. Perigosa, porque temos que reiterar a todo momento que sim, é uma pena que Hannah tenha se matado, que não estamos desconsiderando sua dor, que ninguém merece morrer blá, blá, blá. Interessante, porque Baker não é santificada; é cheia de defeitos e não é nada especial, mas a adoção de seu ponto de vista como guia do telespectador tem o poder de fazer com que até a tragédia dos outros seja sugada feito buraco negro pela protagonista e transformada em dor pra si – estando nem aí pra quem a sofreu – a ponto de muitos sequer considerarem a parcela de responsabilidade de Hannah em sua queda e o grau elevado de narcisismo da moçoila, que filtrava tudo e todos a partir de seu centro. Hannah Baker não é monstra; não merecia ser estuprada; nem todo mundo aguenta as pressões mesmo, mas, ela não submeteu Clay ao mesmo que acusa os demais de terem feito consigo?
O tímido Clay Jensen – que ótimo aquele ator! – é o herói da trama, no sentido de ser ele a personagem que descreve o tal círculo do herói, que leva de um ponto de desconhecimento a um de esclarecimento. Pra que isso ocorra, tem que passar pelo mesmo bullying pelo qual Hannah passou e quem é a principal executora desse assédio psicológico? Hannah Baker, que faz o moço ouvir quase todas as fitas (isso das fitas é podre, vamos combinar?) antes de absolvê-lo, ao mesmo tempo que afirma que negligência foi seu único delito? Epa, mas Clay tentou falar com ela na festa onde quase transam e Hannah o rechaçou. Como fica a tal cultura que também preza tanto pela individualidade? Se ele forçasse a barra seria intrometido, se atende o pedido dela é negligente, qual é?
O “problema” sempre é a forma. O drama burguês não dá conta de assuntos sociais, então, suicídio tem que ser filtrado pelo viés individual. Daí tem que ter herói, alguém pra se identificar e tal, e tudo vira um rol de motivos pessoais. A morte de Hannah é “culpa” dos outros. Sou professor e identifiquei-me com o psicólogo da escola. Quase na véspera do suicídio, ela o procura e, nos termos das fitas, ele foi a última porta que se fechou em sua cara. Ela foi falar sobre o estupro na jacuzzi de Bryce, mas é evasiva nível hard! O profissional sugere que ela deva tocar a vida pra frente. O que poderia fazer se ela não lhe deu informações pra agir? Ela talvez tivesse medo, mas se uma aluna viesse apenas aludindo sobre abuso, o que se esperaria que eu fizesse? Estamos numa época de caça às bruxas, onde bastou delatar com achismo e já se destroem reputações e reitores se suicidam como consequência. Mas o conselheiro educacional fez correto: como ele acusaria alguém se Hannah foi irritantemente reticente? Recusar-me-ia a levar a culpa pela morte dalgum estudante nessas condições! O roteiro sugere que temos que ter poderes psíquicos pra ler mentes?
“Sem consultar o Google, diga o nome do garoto que morreu no acidente de carro devido a derrubada da placa”, perguntei como teste, no Facebook, e das 3 respostas apenas 1 acertou: Jeff. Se fosse pesquisa científica, a amostragem seria pífia, mas serve como começo de discussão – esta postagem não é resenha, é isca pra pensar.  Sua morte não teve um décimo do pesar como a de Hannah, especialmente por parte dela. Isso porque Jeff serviu apenas como instrumento pra sentirmos mais pena da suicida, ou seja, sua morte não teve repercussão intrínseca, serviu apenas pra mostrar como o mundo era cruel com Hannah. Mas, espera, Jeff não mereceria mais que isso? Sim, mas se o roteiro “perdesse tempo” com esse sacrifício expiatório, haveria problema com a identificação com a personagem. Então, a morte dela deve ser chorada, a de Jeff apenas catalogada como mais uma porrada em Hannah.
Na mesma noite do desastre de carro, ocorre o estupro de Jessica, uma vez melhor amiga de Baker. Tirando que achei draminha exagerado essa história de Alex e Jessica terem “abandonado” Hannah (me deixa, quantos amigos não se distanciaram de você, caro leitor? Ou você se afastou. Isso chama-se vida, meu bem), a violência sexual também foi basicamente interpretada por Hannah como algo mais danoso a ela do que à ex-amiga! E agora vem outro ponto muito perigoso, porque poderão chamar de protetor do agressor quem levanta essa lebre. Então, já adianto: Bryce é indefensável, estuprador em série maldito! Mas, meu, Hannah sabia disso, porque o viu em ação e mesmo assim vai pra sua casa e fica na jacuzzi depois de todos terem ido embora. Por Deus! Claro que Bryce é safado sem-vergonha, mas a situação do abuso de Hannah não é a mesma de uma menina andando na rua e atacada a esmo. Claro que traumatizou, óbvio que contribuiu muito pra seu suicídio, mas, a cultura norte-americana vive insistindo na responsabilidade, nas consequências dos atos, e nesse caso?
Hannah Baker não procurou fazer amigos, dava patadas mil em Clay, enfim, sabe o que acho que faltou em 13 Reasons Why? Uma fita sobre Hannah Baker, que botou a culpa em todo mundo, menos nela mesma e olha que essa garota pensava só nela parece. Cadê uma notinha que seja pros pais? Ela atacou todo mundo, mas deixou os pais no limbo.
O roteiro quer mostrar que minúsculas ações podem ter repercussão maciça na vida de outrem, mas do jeito que a coisa está posta, parece que inviabiliza qualquer relação social! A gente não pode falar nada que já seria pazinha de terra na cova dum suicida. Eu, hein, nenêm!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 294

Roberto Rillo Bíscaro

Para os não-entusiastas do subgênero, pode surpreender que o sambado e funkeado Rio de Janeiro tenha cena fértil de rock progressivo. Mas, tem. E é de lá que vem o segundo LP do Caravela Escarlate.
Idealizado por David Paiva no longínquo início dos anos 90, a Caravela tem passado longos períodos no estaleiro e trocado diversas vezes de tripulação, que atualmente é composta por David Paiva (vocais, guitarra, baixo, violão), Ronaldo Rodrigues (teclados) e Élcio Cáfaro (bateria).
Em 2016, o Caravela lançou seu primeiro álbum, Rascunho, mas ainda como dupla (Paiva e Rodrigues). Como trio plenamente sinfônico, o álbum homônimo lançado dia 30 de novembro é o primeiro. Nas oito faixas com vocais evocativos dos anos 70 e letras ecológico-sci fi, a predominância sinfônica permite laivos de psicodelia e MPB, afinal, que progger brasileiro conseguiu passar imune não apenas a ancestrais veneráveis como Terço ou Moto-Perpétuo, mas também ao Clube da Esquina? Além disso, o batera Cáfaro já tocou com medalhões como Edu Lobo e Chico Buarque.
Atmosfera abre em clima meio fusion com temperos até de MPB, para se sinfonizar no meio e já antever (anteouvir?) um trabalho cheio de ótimos solos de teclado, baixo inquieto e bateria sofisticada; os caras tocam muito. E atmosfera é algo que o Caravela sabe muito bem criar, como seus contemporâneos italianos do Ingranaggi della Valle; confira Planeta-Estrela: começa com efeitos de viagem sideral, que se vitamina pra virar hard prog quase, tem larga ponte muito climática meio jazz-rock e de repente tudo para para um solo de teclado fantasmagórico de filme sci fi anos 50; só então entra um bocadinho de vocal, enquanto o instrumental prepara para o arranque dos dois minutos finais, quando baixo e bateria ziguezagueiam sob solaço de teclado. Uma senhora faixa!
Mesmo soando contemporâneas, a construção das canções mostra como a rapaziada conhece bem as várias tradições em que está inserida; dá para sentir como o prog clássico de bandas como PFM ou ELP está no DNA de faixas como Futuro Passado, onde até o título remete ao clássico cinquentenário do The Moody Blues, sem falar do final evocativo de The Prophet, do Yes. Longe de ser cópia, é esse rearranjar de sonoridades com a adição de toques pessoais, que torna bandas prog sinfônicas contemporâneas, como o Wobbler, tão interessantes e dignas de escuta. Como o Caravela, que evoca um Vangelis psicodélico, em Cosmos.
E quem sabe, se estivéssemos entre 1978-1981, Toque de Constelações, em versão editada, não viraria single para tocar em rádios FM? Sua pegada pop-prog não desagradaria a fãs de Flávio Venturini, Azymuth & Cia.
“A caravela escarlate agora está fora do mar/entre as nuvens e aves/agora ela está a voar” declaram os versos de abertura da faixa-título. Se essa nau prefere o céu, problema dela, viva a diversidade. Só esperemos que esse voo prossiga cada vez mais alto e que ela aterrisse mais vezes, pelo menos de vez em quando, para nos trazer música tão boa.
Mais informações sobre a banda e aquisição do CD na página do Caravela no Facebook:


domingo, 3 de dezembro de 2017

ESCULPINDO A SUPERAÇÃO

Abiane Souza vai até a cidade de Itajubá/MG para conhecer o escultor Reginaldo, que após um acidente ficou tetraplégico, mas não desistiu de viver. Confira!

sábado, 2 de dezembro de 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

TELONA QUENTE 213


Roberto Rillo Bíscaro

É bem grandona a lista de filmes de horror que retratam como se dão mal pessoas que cometem a bobagem de sair do Primeiro Mundo pra se aventurar no Terceiro. A selva do Peru, cultos na América Central, hostels na Eslováquia (Europa Oriental não é Primeiro Mundo) enfim, o primitivismo com que somos associados (Brasil não é Primeiro Mundo, né?) é potente no mundo Horroroso.
Quando selecionei Aftershock (2013), no menu da Netflix, nem pensava nisso. Tudo que queria era ver um disaster film fora do eixo Nova York-Los Angeles. Se A Onda foi legal, quem sabe um terremoto no Chile também não poderia ser? A sinopse apontava pra isso e não estava errada, apenas não assinalava que a película seria mistura de horror em clima de filme de sobrevivência pós-apocalítica bem ao estilo lixo, de produtoras como a legendária Troma. A presença de Eli Roth no elenco deveria ter me alertado que o negócio não seria muito bem comportado.
Em filme-catástrofe, às vezes quase dois terços são gastos com exposição e construção de suspense (redundante, porque escolhemos o filme X, pois sucederá um tsunami). Isso tem a ver com economia orçamentária, mas também tem a função de domar o espectador sobre quem deve gostar, pra quem torcer, com quem se emocionar e anestesiá-lo pras dezenas de outras mortes, que podem constar na categoria “divertida”, porque é de personagem que “merece” perecer ou de figurantes e, quem não conhecemos pode se ferrar que tá de boa!
Em Aftershock, um terço ou mais da parte inicial é usada pra mostrar os amigos se divertindo à beça na colorida e praiana Valparaíso. Estabelecem-se os arrogantes, cusões, piranhas, enfim, todos os que podem morrer e não ligaremos, porque são ou fizeram algo “desabonador”. Há uma final girl que só faltava ter isso tatuado na testa; há o papai com filhota em Los Angeles, ou seja, tem gente “de bem”.
Daí, ocorre o terremoto, mas em na estrutura de Aftershock a apresentação não vale pra absolutamente nada. Não é exagero; você pode tranquilamente botar o filme pra rodar e fazer qualquer outra coisa, porque todo esse tempo não constrói ou prepara pra nada. Comece a prestar atenção, quando a discoteca tremer.
Quem sabe leituras acadêmicas não possam ser feitas no sentido de interpretar todo o introito preparatório como metáfora cínica pós-verdadeira de que nada prepara ou atenua ou justifica nada? Mesmo que assim o seja, a estrutura de Aftershock é cerzida, porque tempo demais é perdido numa exposição que leva a nada.   
O terremoto propicia a fuga de presos, então Aftershock vira exploitation film anos 70, com violência, estupro e nojeira barata. E nenhuma informação disponibilizada na parte pré-terremoto – mal-gravada a ponto de parecer vídeo feito com celular – terá importância no pós-catástrofe, porque o foco é em ver morte sem distinção.
Tem filme que ganha respeitabilidade de parcela “cabeça” de cinéfilos, porque é tão ruim que vira bom; sabe aquela vibe Plan 9 From Outer Space (1959)? Aftershock é tão ruim que não vira bom, mas quem ama mambembice trash pode gostar. Ri gostoso em algumas partes. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

BEIJADOS PELO SOL - II


O autor Rogério Andrade discorre sobre o tema em sua nova obra, que leva o título Beijados pelo Sol

No mês da Consciência Negra, o Tarde Nacional recebe o escritor Rogério Andrade para falar sobre seu novo livro, “Beijados pelo Sol”. O professor e contador de histórias discorre sobre os casos de albinismo na África e a perseguição que pessoas albinas sofrem naquele continente. 

Na entrevista, ele também fala sobre a história oral do povo africano e suas pesquisas mais recentes. Comenta, ainda, a escravidão no Brasil e a dívida social que o país tem com os afrobrasileiros. 

Rogério Andrade foi professor voluntário pela ONU na África por dois anos.

Para ouvir a entrevista, acesse o link:

terça-feira, 28 de novembro de 2017

TELINHA QUENTE 287

Roberto Rillo Bíscaro

Comparadas a outros gêneros, comédias são meio raras em minha dieta ficcional de qualquer plataforma. Já resenhei sitcoms tipo 3rd From The Sun, Hot In Cleveland, The Golden Girls e até algumas temporadas de séries desistidas, como Mike and Molly. Não destituído de senso de humor, identifico-me mais, de geral modo, com certa vertente meio “malvada” de humor britânico, que acho irônico, mordaz, autodepreciativo, polimorficamente perversinho. Mesmo assim, também não vejo muito, mas quando o faço, curto, como com Twenty Twelve. Mas, prefiro dramas, thrillers, horror, policiais e eles predominam.
Há meses, olhando o cardápio da Netflix, constatei que disponibilizava as 3 curtas temporadas de Cuckoo, exibidas pela BBC Three a partir de 2012. Como existe a opção de assistir off-line, baixei tudo pra ver no tablet, naquelas horas ocas de espera pelo horário de pegar a van pra voltar pra casa, percursos de ônibus e afins. Como sitcom tem duração inferior a 30 minutos, é conveniente. Minha escolha por comédias é bem utilitária.
Que acertado pra passar o tempo! Cuckoo preserva certa excentricidade tipicamente inglesa, enquanto a adequa pra ser mais palatável, sem cair na padronização globalizante que deixa tudo ianquizado. A menção aos EUA não é mera farpa colonial; o país é capital na trama da série.
Quando o casal Ken e Lorna Thompson vão ao aeroporto buscar sua sem-sal filha Rachel, descobrem-na casada com um estadunidense new age, que não curte muito trabalhar, fala sobre paz e amor o tempo todo, enfim, um hippie em meio ao neoliberal cenário das Middlands. O contraste desse anacronismo ambulante, mais as patetices do filho boca-suja e escroto Dylan e dum casal de amigos, compõem o humor de Cuckoo, nome do marido de Rachel. Nas temporadas 2 e 3, a personagem não aparece, porque o ator Andy Samberg devia estar ocupado em seu país-natal com Brooklyn Nine-Nine. Cuckoo desaparece no Himalaia, mas em seu lugar aparece o filho - que vivera isolado num bizarro culto asiático e depois na máfia chinesa - mantendo o mesmo nível de nonsense domesticado que seu genitor garantira. Pras leitoras e leitores gays (acho que agora o termo da moda é “não-binário, correto?), o bônus é que Dale é simpaticamente interpretado por Taylor Lautner, da séries Crepúsculo e outras adolescentices. Claro que jamais ouvira falar dele, mas achei-o bom.
É que essa parte do Cuckoo e seu filho era o que menos me interessou. Lógico que parte fulcral da trama e do humor origina-se da idiotice das personagens ianques (tem vingança colonial; e vingança ex-metropolitana existe?) e até me acostumei com Dale pai e depois filho. Mas, do que gostei mesmo foi dos Thompsons (exceto Rachel que é uó de nada a ver!), especialmente do papai Ken, advogado gigantesco, que sempre faz merda; de Dylan mandando os pais tomarem no rabo o tempo todo; de Steve Chance, o amigo escroto que todo mundo detesta; e do resto do universo inglês.
Ou seja, pra variar, o que me atraiu mais foi o criado supostamente pra ser periférico à história do invasor norte-americano. E isso, porque há momentos bem doentinhos de humor negro inglês, como quando Ken acha que seu velho chefe se masturbara vendo um vídeo de Rachel transando na despensa da firma de advocacia. A revelação da verdade, numa reunião onde se celebrava a promoção de Ken é tão politicamente incorreta... Ou quando um molho estragado de batatas recheadas faz uma rave caseira acabar em vomitaço e Dylan... bem, assistam pra ver, mas envolve o sistema excretor.
Cuckoo pode ser acusado de meio que aguar certa particularidade hardcore atribuída ao suposto “humor britânico”, mas qual nacionalidade de humor não tem seu quinhão de vulgaridade? O que fica é que quem curte escapar do que “todo mundo está vendo” e gosta de ser excêntrico na medida, tem que descer ao porão da Netflix e ver Cuckoo. É muito gostoso.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 293


Roberto Rillo Bíscaro

Fãs de rock progressivo sinfônico com farto uso de teclados vintage, tipo Hammond, Moog e MiniMoog, além de instrumentos raros, como cravo, dulcimer e glockenspiel, certamente estão familiarizados com a sonoridade ultra-anos 70 do Wobbler.
Formado em 1999, na pequenina Hønefoss, hoje o Wobbler está sediado em Oslo, capital de seu país natal. A formação conta com Lars Fredrik Frøislie (teclados), Kristian Karl Hultgren (baixo), Martin Nordrum Kneppen (bateria e percussão), Andreas Wettergreen Strømman Prestmo (vocais, guitarra, glockenspiel, percussão) e Geir Marius Bergom Halleland (guitarra e vocais).
Apesar de influenciados por prog mais moderno escandinavo, à Anglagard ou Anekdoten, os noruegueses sempre tiraram sua força muito mais da safra prog clássica inglesa e italiana, como atesta magistralmente seu quarto álbum, From Silence to Somewhere, lançado dia 20 de outubro.
Versando sobre temas como alquimia e metamorfose, o quinteto voltou mais intenso e sombrio, mas sem soar heavy prog. É o mais puro sinfônico contemporâneo – aquela síntese dialético-alquímica de tantas bandas-influência – para amantes de perícia técnica e de estrutura beirando o rococó. As quatro canções abundam em lirismo, grandiloquência, superposição de instrumentos, câmbios repentinos de andamento e textura.
Os quase 21 minutos da faixa-título abrem o álbum com intensidade e força dignas de um Relayer, no sentido do turbilhão corrediço e bombástico do instrumental, que, se claramente evoca o Yes, não para por aí. Como o melhor sinfônico pós-moderno, o Wobbler sabe que não pode desperdiçar a tradição na qual escolheu estar. Assim, a excelência da canção vem também pelo fato de às vezes num mesmo momento presenciarmos a coexistência de dois modos de executar o prog sinfônico. Algo como pensar em mashups de Genesis e Gryphon, de Jethro Tull com ELP e diversos outros. A flauta empresta ar folk durante vários minutos e bem no meio há interlúdio de calma meio experimental à King Crimson.
Depois de longa cavalgada emocional é necessário desadrenalizar e o madrigal mimoso de Rendered In Shades Of Green cumpre essa função em seus modestos dois minutos, antes de nos precipitar para novas, elétricas e eletrizantes torrentes sônicas.
Fermented Hours abre psych, com harmonia vocal chupada de Yes e guitarra pesada, apetecível até para fãs de Led Zeppelin ou Black Sabbath. Alucinante descreve mais ou menos corretamente uma canção que intercala esses momentos mais heavy prog com outros mais longos de sinfônico-virtuose que flerta com flamenco, teclado à Supper’s Ready, ELP, PFM.
O fecho de mais de treze minutos é Foxlight, que começa com outro momento de relaxamento para que o ouvinte se refaça da extravagância anterior. Mas isso dura apenas uns quatro minutos de clima pastoral meio Celeste, Genesis, daí há ponte flamenca que nos devolve ao drama de alto nível do prog sinfônico que medievalizará, será folk, será torturantemente intrincado. E um clássico instantâneo acaba.
From Silence to Somewhere tem tudo que detratores do prog sinfônico adoram jogar na cara de orgulhosos fãs do subgênero. Seu rigor formal é tamanho, que merece ser entronado no rarefeito panteão reservado para obras do calibre de Close to The Edge ou Days Of Future Passed.
Outra banda que você não pode alegar ser inacessível; olha só a discografia completa no Bandcamp!

domingo, 26 de novembro de 2017

DJ DA SUPERAÇÃO

Murilo Lambert conta como superou uma depressão vivida enquanto morava em São Paulo e enfrentava preconceito por ser maranhense e dividia uma quitinete minúscula com mais 4 pessoas. Mas, Murilo usou esse percalço para fazer o bem. Conheça sua história.

sábado, 25 de novembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

TELONA QUENTE 212


Todo Dia Ela Acorda e Faz Sempre Igual

Roberto Rillo Bíscaro

As grandes vedetes do lucro na indústria cinematográfica este ano são filmes de terror. A maioria tem baixos orçamentos e quando bem-sucedidos multiplicam os investimentos feito coelhos, diferentemente dos blockbusters milionários que precisam de muito público no mundo todo pra dar lucro. 2017 teve até filme de horror conquistando status de “filme sério”: há quem cogite que Corra! pode receber indicação a algum Oscar.
O mais recente tira-fôlego de caixa-registradora é A Morte Te Dá Parabéns, que com uma fração do orçamento, já bateu nas bilheterias o queridinho cult Blade Runner sei lá o quê, além de ter dado sova nos super-heróis na relação custo-benefício.
Escrito por Scott Lobdell e dirigido por Christopher B. Landon, Happy Death Day é ágil, divertida, original e esperta variação do subgênero slasher. A entojada Theresa revive repetidamente o dia de seu assassinato por um maníaco mascarado. Mistura de Pânico (1996) com Feitiço do Tempo (1993), A Morte Te Dá Parabéns foca na tentativa da jovem em quebrar o ciclo, que ela logo percebe não poderá ser eterno. Assim, embora algumas mortes colaterais ocorram, esse slasher basicamente consegue ser do subgênero matando apenas uma personagem. É algo como a história duma garota lutando pra ser a final girl, elemento consagrado da convenção slasher.
Moralista por natureza, o horror já não pode mais punir não-virgens em 2017, assim, em A Morte Te Dá Parabéns, a redenção de Theresa poderá ocorrer se ela deixar de se achar. Ou não. E isso será mais um ponto pro roteiro.
O público-alvo de filmes de horror é a adolescência e Happy Death Day consegue satisfazer muito bem essa fatia de mercado, com seu elenco bonito, atuando bem, com trilha-sonora maneira.
O resultado tem munição pra atirar e acertar em um monte de gente; desde público teen que quer comer pipoca e zuar no cinema com a galera, até fãs outonais, que poderão curtir mais essa mutação do bem no subgênero slasher e torcer pra que gere nova modinha de assassinos mascarados.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CONTANDO A VIDA 213

VELHOS E NOVOS ESTEREÓTIPOS POLÍTICOS: voto popular e Venezuela.

José Carlos Sebe Bom Meihy


A complexidade da compreensão cultural do povo brasileiro mostra-se a cada vez mais intrincada. A medida em que se mergulha na busca de entendimentos de manifestações individuais ou coletivas, vive-se o significado clássico do “só sei que nada sei”. É assim mesmo, e bom que seja dessa forma. Embrulhado é quando fechamos conversas explicando detalhes da vida, como se fosse possível dar conta de lógicas subjetivas, arraigadas no subterrâneo profundo da História. Não se afirma, contudo, que os esforços sejam inúteis. A ciência – em particular as ciências sociais - se organizam nesse sentido, e louva-se o ordenamento metodológico que preza o conhecimento racional, formal, cumulativo, como dimensão instruída da opinião pública. Aliás, é exatamente essa premissa que nos convida ao direito de acesso à crítica. Fala-se, portanto, da sagrada prerrogativa de todos terem escolas disponíveis, livres, abertas e acessíveis.


O enunciado desta crônica remete a um dos pontos mais instigantes do atual momento político nacional: o direito universal ao voto. No Brasil, tal condição apenas foi definida na Constituição de 1988, que aliás coroou a Abertura Política. Pode-se dizer que, de forma cabal, apenas com a atual Constituição se colocou termo no golpe civil/militar iniciado em 1964, definido pelos atos autoritários do que eufemisticamente se chamava “revolução”. Sem dúvida, entre alguns avanços, o voto do analfabeto foi a grande virtude conquistada. Antes, iletrados teriam que pagar impostos e demais encargos cidadãos, mas, votar lhes era impedido. Essa arcaica percepção decorre de uma esclerose diretiva que supõe que apenas quem sabe ler, escrever e contar tem domínio das faculdades decisivas comunitárias e nacionais. Os outros não. Decorrência natural dessa excrescência conceitual, quem tem curso universitário, por perverso e assassino que seja, até merece ter prisão especial. O absurdo dessa norma – que desmente a igualdade de direitos – tem por princípio privilegiar a cultura escrita, hierarquizando saberes, excluindo peremptoriamente os demais.

A proximidade do novo processo eleitoral, importante como todos os outros anteriores, traz à flor d’água o velho debate sobe quem sabe/pode votar, ou não. E assim emerge o mais agudo de nossos defeitos políticos, o direito de usar o conceito de “povo” como argumento seletivo para reivindicar a capacidade eleitoral de correntes contrárias a “nossa” opinião. Recuperando os mais arraigados princípios da soberania pela equivalência do grau de escolaridade e capital acumulado (lembrando que por muito tempo só poderia votar e ser eleito quem tivesse posse de terra), ousamos dizer com a boca cheia que “povo não sabe votar”. Como se os “cultos” fossem melhores, honestos, preparados para o comando de todos, excluía-se mecanicamente o “povo” da potência decisória nacional. Dois pontos merecem destaque nesse artifício aberrante. O primeiro diz respeito ao não reconhecimento do direito a escola por meio de cotas. Exatamente para que todos tenham, democraticamente, direito à educação formal, postula-se o livre trânsito letrado. Outro ponto permite constar que a classe média, justamente pessoas que se valeram dos benefícios gerais do estado, se aparta do composto coletivo quando percebe direcionamento diverso do seu, em termos de preferências eleitorais. Dá-se então o quase cômico contraditório: quando as manifestações públicas e coletivas são coerentes com os desideratos da classe média, então “somos povo”, e juntos vestimos a camisa da seleção de futebol, empunhamos bandeiras e cantamos as toadas desdobradas desde o velho “este é um país que vai pra frente”. O reverso se dá quando se nota que o “povo” tem posições que não condizem com o coro pretendido, e, nesse caso vale o conveniente “povo não sabe votar”. Nessas circunstâncias, aliás, evoca-se o chavão eternamente útil que apregoa “que a educação salva”, entendendo por educação o acesso à escola. Lembremos que o direito à escola, constitucionalmente estabelecido, é exatamente negado quando se fala de cotas para desfavorecidos social e etnicamente.

Em meio ao carnaval de confusões, uma novidade ganha corpo: “o Brasil vai virar Venezuela”. Na realidade, esse pressuposto alarmista tem certa idade, pois atualiza o que foi na geração passada Cuba e antes a União Soviética. Por trás da ignorância arrepiante sobre História e condições geopolíticas, esconde-se um maldoso fator que aterroriza a nossa incipiente classe média: o medo. Revivescendo o infantil pânico causado pelo comunismo ou pelo socialismo em qualquer versão, pessoas que temem a democracia plena, e em cega defesa própria, exercitam o que não conhecem, favorecendo assim fantasias improváveis, soluções políticas adversas ao gosto nacional. O Brasil não tem e nunca teve vocação para regimes comunistas, socialistas ou correlatos. Jamais seremos a “nova Venezuela”, como nunca fomos Cuba, China, Armênia. Nosso perfil histórico é outro, e se deixarem abertas as comportas das eleições poderemos sim encontrar o caminho sempre interrompido por segmentos que temem o povo e lhes negam condições que, afinal, consagram o dito “a voz do povo é a voz de Deus”. Só há democracia com o pacto consagrado em eleições livres. E que não seja agora que fundamentalistas que confundem os democratas intransigentes com a existência de uma esquerda radical entre nós. Somos povo e pronto. Queremos democracia ampla, direito de voto respeitados de todos, para todos e por todos.