terça-feira, 28 de maio de 2013

TELINHA QUENTE 80

Revenge-PosterHQ

Roberto Rillo Bíscaro

Amigos sabem – alguns estão cansados – de minha fixação em séries (melo)dramáticas, onde gente rica sofre e faz maldade. Numa fria noite em Baltimore, janeiro retrasado, meu anfitrião Bob intimou-me a ver capítulo dum show. Ele tinha certeza; eu amaria. Acertou, gostei.
Nos Hamptons, bilionários se enfrentavam como galos e quem azarava estar/entrar na rinha, pagava(,) c(l)aro. No episódio, a protagonista incendiava a casa dum escritor truqueiro. Tinha heroína etérea e loira, antagonista venenosa, papai do mal. Prometia. Quando cheguei ao Brasil providenciei os episódios, mas só vi a afamada Revenge, depois de assistir a genéricos e outras séries.
Ver os filhotes de Revenge antes da mãe-inspiradora foi bom: deu pra arriscar palpite sobre porque falharam. Ver duma enfiada as 2 temporadas da maior audiência da ABC desde Lost foi bom: deu pra arriscar palpite sobre a fratura interna com potencial de aniquilar Revenge.
A trama criada por Mike Kelley é novelão despudorado, por isso não se disfarça de série policial, como Deception. Emily Thorne, née Amanda Clarke, retorna pra vingar seu pai, injustamente acusado de envolvimento com um grupo terrorista. A família Grayson e seus asseclas terão que pagar pela ruína de David Clarke.
Amanda/Emily fica bilionária e tem recursos ilimitados pra se infiltrar no mundo dos Graysons e financiar toda sorte de rocambolice pra consumar sua vingança (revenge!). Convenientemente, elementos-surpresa surgem pra jogar mais lenha na fogueira e provar a Emily que seu caminho tem que ser o da revanche. A primeira temporada é obstinadamente centrada na caça e punição dos destruidores da vida afluente dos Clarke. Malgrado diversos flashbacks, o novelo de Revenge não é tão complicado quanto o da infelizmente fracassada Ringer.

A vingança de Emily Thorne vem cruel e espetacular, levando-a a cometer atrocidades rivais às de seus malfeitores. O estratagema dos roteiristas pra manter o público do lado de Emily é somar maldades aos Grayson, tornando a história de Emily um vale lacrimejante cada vez mais salgado por injustiças e sofrimentos traumatizantes. Revenge justifica e atiça a Lei de Talião em progressão geométrica. Reacionário, mas perversamente divertido, com uma história cheia de reviravoltas absurdas e revelações sensacionais.
Quem viu Dynasty, não deixará de notar que Revenge é reedição do luxo e escapismo da série oitentista (mas Alexis Colby sabia andar num salto alto muito melhor do que a megera Victoria Grayson). Referência proposital pra fãs das soaps noturnas dos 80’s ou não, Revenge tem a pousada Southfork Inn (Southfork é o rancho dos Ewing, em DALLAS), não-sei-o-que Crest e a hacker Falcon (Falcon Crest, novelão que passava logo após DALLAS). E o que dizer da família Grayson, cujo sobrenome compunha o catálogo de DALLAS (Mark Grayson, namorado de Pamela Ewing).
Como a concorrência atual é bem mais brutal, a série nem de longe alcançou a hoje impossível cifra de 350 milhões de espectadores grudados num episódio, como DALLAS em seu auge. A brutalidade contemporânea escorre sangrenta pela trama. As maldades dos Grayson (e as de Emily) fazem as dos Ewings, Colbys, Channings e Carringtons parecerem brincadeiras pueris. Horas há que parece Quentin Tarantino escrevendo novela. Pra se ter uma ideia, até eu – fã repetidamente confesso de papais maléficos – sinto-me coagido a se não torcer por Emily, pelo menos a não gostar de Conrad Grayson. Sobra Victoria, porém, que, a despeito de viperina parece ter conquistado o público e o roteiro concede-lhe pitadinhas de indecisão, arrependimento e fraqueza. Na verdade, a questão mesmo é que quem controla o capital é Conrad, daí a certa redução na amplitude de ações de sua esposa; Madeleine Stowe numa mistura de Moritciaa Adams com a Mona Lisa. Tudo, Victoria Grayson já entrou pra minha galeria de divas-vilãs eternas. Sou vassalo escravizado e hipnotizado.
A segunda temporada embola e o resultado foi perda de audiência. A vingança de Emily atrasa num emaranhado de manobras corporativas pelo controle da Greyson Global e da Nolcorp. O grupo terrorista American Initiative cresce em presença e a resolução no fim da temporada - pra tornar Conrad candidato perfeito a pagar sozinho pelos pecados dos Greyson – pareceu-me contraditória.
Acostumado a perdoar exageros noveleiros – na verdade, amo-os – ficou difícil de crer que alguém sacrificaria uma bilionária corporação por amizade e lealdade. Senões como o desaparecimento das câmeras de Emily e Nolan que sabiam até dos movimentos intestinais dos Grayson, substituídas pelas da Initiative (se Conrad era a organização, pra que isso tudo, aliás?), não cortaram meu vício em Revenge, assistida sofregamente. Mas, atestam pra caída na qualidade da segunda temporada.
Possivelmente desde MelrosePlace, o horário noturno ianque não era assaltado por um show tão deliciosamente infame quanto Revenge.

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