quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 270


Roberto Rillo Bíscaro

Fãs de filmes sci fi cinquetistas volta e meia devem se perguntar se as plateias da época associavam tudo ao perigo comunista, a não ser que citado, o que era frequentemente o caso. Mas, será que um louva-a-Deus gigante mutante visto através dum vidro de automóvel num drive in, faria Regular Joe ligá-lo aos russos? Ainda mais se ele estivesse com a mão no meio das pernas da Regular Mary...
O Planeta Vermelho (1952) é daqueles exemplos acadêmicos, de laboratório, de como uma pá de filmes da época usavam a ficção-científica como veículo pra mensagens paranoicas de perigo soviético. Red Planet Mars (RPM) é pura propaganda ideológica; há quase nada de ficção-científica, mas sobram ufanismo ianque e fervor religioso.
A despeito do receio de sua também cientista esposa, o doutor Chris Cronyn começa a mandar mensagens a Marte, porque fotos indicam atividade nos “canais”, que só podiam advir de ação inteligente. Já em 1952, astrônomos haviam descartado a noção século XIX dos canais marcianos. Pra ter ideia da fanfarronice de Red Planet Mars.
Em pouco tempo, Marte começa a enviar mensagens à Terra, sobre os avanços na vida de lá, que faz com que o sistema econômico capitalista colapse. Mas isso está longe de ser o fim, por que o que fazer com os soviéticos? Esses são explicitamente citados e “mostrados”, quando mensagens de Deus começam a ecoar pela Terra. É como se o criador tivesse escolhido Marte pra viver (e ninguém se toca que isso é herético pra chuchu, porque esses produtos mexem com ilogismos). A ateia Cortina de Ferro não resiste às revoluções causadas pelas mensagens divinas (óbvias, óbvias) e o mundo passa a viver numa teocracia. Só não se sabe vivendo do quê, se capitalismo e comunismo parecem ter ruído.
Mas, a coisa não para por aí, porque antes do fim, um vilão invade o laboratório e revelará que parte da destruição do mundo profano foi responsabilidade dele, não de divindade. Olha só, ele era ex-oficial nazista cooptado pelos comunas. Red Planet Mars não esconde nada; é panfletão descarado, tipo, ainda odiamos alemães, cuidado com eles, porque eles são iguais aos comunistas. E não é que ainda hoje no Brasil, muita gente acha que nazismo é de esquerda? Daí tem gente que se pergunta como esse tipo de filme consegue funcionar. Assim, pela desinformação generalizada.
Baseado numa peça teatral, RPM não tem quase externas, é em preto e branco, está cheio de diálogos pomposos e melosos e piadinhas ruins. Quando o garotinho está segurando uma fatia de torta (pie, em inglês) e sugere que se use o Pi (pronunciado como torta, em inglês) pra comunicação com Marte, por ser “universal”, a gente não sabe se ri ou cai em pranto.
E se você acha que uma personagem num filme desse tipo se chama Chris à toa, engana-se. Pra Cristo, em inglês, só falta um t. Assista e veja o que acontece.
Mas, se decidir ver, cuidado. Red Planet Mars pode causar risos histéricos, frêmitos orgásmicos, calafrios reconhecedores ou vômitos diarreicos. Tudo depende de sua posição ideológica. Só é difícil ficar indiferente.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

CAIXA DE MÚSICA 347


Roberto Rillo Bíscaro

Vamos iniciar o ano com uma trinca de vozes negras femininas, que poderiam ter mais reconhecimento?

Quando não se tem a estrutura promocional sequer de gravadora pequena, o artista tem que fazer bastante show e sua fama ir crescendo pelo boca-a-boca. Conya Doss e sua multiplicidade de influências encaixa-se na categoria.
Sua sedosa competência vocal pode não ter fama global, mas longevidade e alta qualidade já lhe garantiram a alcunha The Queen Of Indie Soul.
Natural de Cleveland e fã de Bonnie Raitt, The Doobie Brothers, Stevie Wonder, Prince, Nina Simone e símiles, Conya lançou seu primeiro álbum, em 2002, quando lecionava para crianças com necessidades específicas.
Merecidamente querida de sites especializados em música negra, Conya Doss lançou seu oitavo álbum em outubro. Clear tem treze faixas que agradarão muito a fãs de soul music de fim dos 70’s/primeira metade dos 80’s.
A maioria das faixas navega em variações de urban soul e quiet storm, muito elegantes, deslizáveis. Homogeneidade é bom, mas quando algo apresenta elemento diferenciador, imediatamente se destaca. É o caso do adorável chuvisco de piano em Until; o jazz mais proeminente de Don’t Rain ou a balada mais incisiva de Unbreakable. O único número agitado é a midtempo disco Get Off Of Your Ass e é só no final que aprecem as duas faixas com dado contemporâneo, trap. Em Hurricane, há que se prestar atenção pra detectar o moderado nervosismo que acompanha o doce vocal e o pianinho. Misconception é onde a modernidade se faz mais audível e se Clear fosse inteiro nessa toada, não se destacaria do pedestre da produção atual.
Lynne Fiddmont está na indústria há um bom tempo e experiência é o que não lhe falta. Natural de St. Louis, já fez backing pra Stevie Wonder, Natalie Cole, Phil Collins, Barbara Streisand e Seal.
Em carreira-solo também lhe sobra prática: ano passado, saiu seu quarto álbum, Power Of Love. Dúzia de covers e originais muito bem produzidos e difíceis de desagradar corações sequiosos por slow jams de soul e afins.
Quer dizer, são onze faixas, porque os primeiros segundos são ocupados pela dispensável vinheta Sing It Chace. Que mania esses cantores soul hoje têm de colocar essas coisas nos álbuns; neste caso ainda, uma criança desafinada. Cortei quando fiz a playlist.
A parte musical é hino pra quem ama old school setentista/oitentista. Navegando pelo soul jazz, como em Daylight, Go e Memory Lane, Lynne oferece produto elegante e extremamente bem cantado. Quando se distancia do urban soul predominante, ela também brilha. Power of Love, a faixa-título é jazzy na tradição sexy chique, de Sade, com saxofone e tudo. Walkin’ On Rainbows é disco funk momento mais saltitante de Power Of Love. Groovy People tem sabor Motown e quem amava Djavan nos 80’s, adorará o arranjo. E por falar em Brasil, é no sambinha que pretende virar sambão, de Good Time Party, que o álbum leva seu maior escorregão. Tentando contextualizar a diversão de festa do título, a canção tem incessante ruído de fundo de gente rindo e conversando alto, como se se divertindo. Eles podem estar tendo um tempo bom, mas o ouvinte se irrita com o converseiro. Parece vinheta alargada. Basia e seu Matt Bianco fazem samba melhor. Outra exilada da playlist.
Fiddmont faz duas escolhas corajosas de cover. Imagine - aquela canção anticapitalista ateia, que tantos cristãos privatistas amam – troca o predomínio de piano de Lennon, pela supremacia das cordas e transforma o clássico em soul. Para os fãs deste estilo, porém, o grande desafio é Lovin’ You, da falecida-cedo-demais Minnie Riperton. Se você é jovem demais, melhor contextualizar. Escute a versão original:


Como competir ou rivalizar esse arranjo tão destemidamente doce de Steve Wonder e o alcance vocal de Minnie depois do doo roo doo roo? Essa é uma das canções mais idiossincráticas da soul music. Lynne Fiddmont se sai bem ao não tentar imitar Minnie, num arranjo mais jazz mainstream esfumaçado, cujo vocal intensifica-se e sofistica-se aos poucos. Ficou outra coisa, ficou boa. (mas, sempre dava vontade de ouvir a da Minnie, afinal, sou da época em que tocava no rádio AM e tudo, então, é a versão eterna, a única que me faz sentido). 


Outra grande vocalista, que lança álbuns independentes e possui poucos ouvintes nos Spotifies da vida é Lori Williams. Por isso, é importante rede blogueira/de sites divulgadora e ouvintes curiosos pra procurar novidades, que não aparecem nos hegemônicos Faustão ou SNL.
Filha da rigorosos pais batistas, Lori cresceu ouvindo gospel, na capital norte-americana, mas expandiu seus gostos pra Prince, Michael Jackson e vocalistas de jazz, à Anita Baker, aos quais, aliás, os álbuns de Lori servem como luvas.
Influenciada pela mãe professora e ciente de que deveria ter profissão segura, porque nem todo mundo ganha grana só com música, Williams se formou docente e hoje divide seu tempo entre festivais de jazz ao redor do mundo, lecionar, ensaiar corais, fazer backing vocals pra gente como Maysa Leak e Phil Perry e lançar álbuns.
O mais recente é Out Of the Box (2018), cujo título refere-se a sutil guinada estética. Em 2017, Lori Williams já soltara single “fora de seu quadrado”: Déjà vu foi popularizada mundo afora, em 1979, por Dione Warwick, mas não é jazz, com o qual Lori sempre esteve associada. Trata-se de elegante soul. Esse é o pensar fora da caixa da norte-americana: ela abraçou um estilo mais neo-soul ou soul jazz, que não pode escapar do radar de quem ama Quiet Storm, Acid Jazz e adjacências.
O álbum é deleite do começo ao fim. Desde a elegância dos nuançados arranjos de confeitos dândis, como Sailing On a Dream, que farão a glória de fãs de FM sofisticada de fins dos ‘70’s até hoje. A voz sedosa de Lori merece que retornemos pra ela um dos versos de I Like The Way You Talk (To Me): I love the sound of your sweet, sexy voice. Duvido que fãs de Basia não amem I Can’t Help It.
Quem curte Anita Baker, Maysa Leak, não pode deixar de ouvir Out Of The Box, aliás, Maysa participa de Where’s That Smile. O álbum tem umas 3 ou 4 faixas com bofe duetando ou participando, tem uma que até começa com dialogo meio sexy à Barry White: Let’s Walk, cuja percussão orgulharia Sade. Quando entrar o solo de trompete na mkidtempo Hold On, você começará a desfilar e jogar o cabelo pra tudo quanto é lado. Podre de chique. Our Love is Real parece lenta arrasante da Rose Royce, começando.
O único momento jazz mais denso e só com piano é a clássica ‘Round Midnight, da lavra 194entista de Thelonious Monk. Lori Williams tem voz treinada o suficiente pra dominar o complexo fraseado jazz, mas em um álbum de arranjos tão polidos de neo-soul, a canção fica meio fora de lugar. Mas, longe dizer que compromete. Nada. Recomendo com fervor.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

PAPIRO VIRTUAL 130


Roberto Rillo Bíscaro
Sempre que cabível/possível, comento sobre convenções de meu subgênero de horror predileto, os slasher films, especialmente ao destacar produções que as subvertem ou escancaram.
André Campos Silva, que se doutorou em 2014, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS), prefere chamar esses lugares-comuns de clichês, em sua tese O Processo Comunicacional do Clichê Cinematográfico em Filmes de Terror Slasher. Bem que ele poderia, de vez em quando, ter substituído clichê por convenção, lugar-comum etc. Menos repetitivo.
A pesquisa problematiza o clichê no cinema, entendendo-o como processo comunicacional que ajuda a contribuir com a compreensão da forma e do conteúdo dos filmes. O foco do estudo recai sobre os clichês presentes no subgênero de terror slasher, por meio de conexões com o arquétipo da sombra. Ou seja, o autor tenta abordagem meio psicanalítica. Mas, ela jamais se dá em profundidade (ainda bem, fica mais fácil de ler pra nós que queremos apenas aprender mais sobre a parte “técnica” dos filmes)
Tratando-se de texto acadêmico, há os necessários capítulos de conceituação, dos quais o único não tão interessante pra quem só quer se informar sobre filmes de terror é o terceiro, que aborda o discutível conceito de clichê, usado por André.
O restante é bem informativo ainda que se discorde das ferramentas analíticas. Ele tem que fazer passeio pela diferença de horror, terror, fantasia e ficção-científica; conceito de protagonista, herói.
Ele conta que assistiu a dezenas de filmes slasher (quais?) e escolheu meia dúzia, que representariam a idade de ouro do subgênero. Na verdade, são menos, porque uma das produções é um dos pais dos slashers, o hitchcockiano Psicose. Não entendi sua inclusão na parca lista, uma vez que muitos dos clichês nem se aplicam, porque Psicose é slasher. E há filmes sequer citados que prenunciam e até criam alguns dos clichês, como Black Christmas. Indubitável a necessidade de apontar a importância de Norman Bates como inspiração (O Sam Loomis de Halloween não tem esse nome por acaso), mas daí teria também que ter falado de A Bay Of Blood (1971).
Além do clássico de 1960, André usou Halloween (1978), Sexta-Feira 13 (1980), A Morte Convida para Dançar (1980), Dia dos Namorados Macabro (1981) e A Hora do Pesadelo (1984). Se tivesse usado Acampamento Sinistro (1983), Chamas da Morte (1981) e tantos outros, daria muito mais consistência ao capítulo onde apresenta os clichês, corretos, mas algumas vezes, sub-explorados.
O Processo Comunicacional do Clichê Cinematográfico em Filmes de Terror Slasher está disponível para leitura/download grátis e legal, no link:

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

TELONA QUENTE 269



Roberto Rillo Bíscaro

Larry Hagman vivera mais de meio século com a esposa Maj, ao falecer em 2012. Quando perguntado sobre o segredo pra tal longevidade matrimonial, o eterno JR Ewing respondia que o essencial era ter banheiros separados. A maioria de nós não mora em ótimas mansões em Malibu pra se dar esse luxo, mas metaforicamente, significa que há espaços sagrados, que necessitam ficar desconhecidos até pros mais íntimos.
Os amigos de Perfectos Desconocidos (2017) e Nada a Esconder (2018) estupidamente desobedecem a esse mandamento hagmaniano e têm uma noite cheia de revelações desastrosas. Ambas as produções contam a mesma história, adaptada também na Itália, enfim, trata-se dum hit europeu, que pode chegar aos Estados Unidos em breve. A Netflix possui, respectivamente, as versões espanhola e francesa. Não objetivo discutir as diferenças entre ambas, mas existem, especialmente no tom: a espanhola é mais colorida, vibrante e passional. Isso não significa que seja melhor, afinal, têm a mesma espinha dorsal defeituosa, mas que consegue gerar prazeres culposos: isso ocorre quando você sabe que está vendo bobagem homérica, mas adora.
Em atípica noite de eclipse lunar, sete amigos decidem fazer um jogo. Colocam os celulares sobre a mesa e a regra é tornar público o conteúdo de qualquer chamada, email ou notificação de mensagem. Aos poucos, os segredos afloram e a brincadeira torna-se intensa jornada noite adentro. A premissa é absurda: adultos sujeitando-se a tal estupidez e não parando, quando as coisas começam a complicar, é uma das concessões de descrença que temos de fazer ao roteiro.
O que prende o espectador e desculpa a bobeira é que as revelações acabam por tocar em temas como homofobia, hipocrisia e (in)fidelidade, sobre os quais todos gostamos. Estruturalmente, Perfectos Descooncidos/Nada a Esconder são degradações dos dramas de sala-de-estar e do realismo psicológico norte-americano, que têm dado ao mundo gritarias estridentes em palcos, telonas e telinhas, há décadas. Quem curte teatro filmado, gostará, observadas as ressalvas de aceitar a premissa forçada e a preguiça da “resolução”, que metamorfoseia um dos truques mais baratos e desonestos de construção de roteiros. Mas, não posso falar sem revelar o que acontece.
Na era dos GPSs, smartphones, redes sociais em profusão, dizem que a intimidade está morrendo. Ambas produções tentam criticar essa violação, por vezes voluntária, dos eus. Resulta que a crítica é rasteira como a cultura de que finge não gostar, e, no caso específico da homofobia, a “mensagem” é até conservadora.
De jeito algum dá pra dizer que Perfectos Desconocidos/Nada a Esconder são alta cultura. Também são bofetadas nos tolos que insistem numa suposta superioridade de tudo que é feito na Europa. Nada, eles produzem tolices à mancheia, e, nesse caso, gostosas de ver. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MELHORES DE 2018 – PARTE II

Roberto Rillo Bíscaro

Tradicionalmente, o blog divide seus melhores do ano, segundo os semestres. Assim, pra ver os favoritos da primeira metade de 2018, clique aqui.

Pra quem não sabe, o critério pra entrar nas listagens de melhores de... é ter sido resenhado no blog, não importando o ano de produção.  

Vamos aos mais gostados do segundo semestre do defunto 2018:

CINEMA
My Happy Family – aula de cinema, que mostra os fatos,  ao invés de ruminar sobre eles.
Flores - quem já sofreu perda e consegue avaliar os malabarismos emocionais que faz pra manter certa sanidade, se encantará e até verterá lagrimazinha. 
First They Killed My Father – Angelina Jolie dando aula de direção.
Anomalisa – Obra-prima em stop-motion, sobre um homem em crise de meia-idade.
When the Wind Blows/Grave of the Fireflies – animações de arrebentar o coração, sobre gente muito vulnerável sofrendo por causa da guerra.
Downrange – pérola sangrenta do cinema de horror contemporâneo.

MÚSICA
No Tourists, The Prodigy – Britânicos continuam tão agressivos, como nos anos 90.
Sertanília – Os dois álbuns do grupo baiano são maravilhosos.
A Symphonic Journey, Renaissance – Veteranos do prog inglês ainda encantam.
Ricardo Borges, Inverso – delicado álbum de estreia do jovem gaúcho, que pode ser baixado grátis.
Conrado Pera, Enlaçador de Mundos – Como aponta o título, um amálgama de vertentes da música popular brasileira, mas não só.
La Notte Anche Di Giorno, La Coscienza di Zeno – O segundo álbum dos italianos é obra-prima do prog contemporâneo.
Cabaça D’Água, Alberto Salgado – Dá pra entender, porque Chico Buarque é fã deste álbum.
Ascension, A Flock Of Seagulls – Ótima oportunidade para reavaliar a importância desses New Wavers ingleses.
Il Cerchio d'Oro – Os dois primeiros álbuns da banda italiana são puro sinfônico anos 70.

LITERATURA
Desamparo, Fred di Giacomo – Estreia que entrelaça história com realismo-mágico de forma envolvente.

TV
Hitler’s Circle Of Evil – série documental viciante, que noveliza o núcleo-duro do Nazismo.
King Charles III – telefilme shakespeariano, que imagina um príncipe Charles assumindo o trono e virando déspota.
Mamon – A segunda temporada da série norueguesa é tão superior à primeira, que merece ser vista sozinha.
O Fugitivo – Clássico dos anos 1960 ainda funciona nos dias de hoje.
Mr. Selfridge – Downton Abbey menos pretensiosa e por isso mais ágil.
Succession – A sátira shakespeariana do absurdo da HBO às soap operas norte-americanas é genial na sua amoralidade, pena que pouca gnete viu.
Sorjonen – Outro detetive esquisitão do norte europeu.
The Inbetweeners – comédia adolescente inglesa, rude e deliciosamente vulgar.
Assédio – O Brasil também sabe fazer minissérie boa.
http://www.albinoincoerente.com/2018/12/telinha-quente-341.html

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

TELINHA QUENTE 342



Roberto Rillo Bíscaro

Quando descobri que o original de Segredos e Mentiras era australiano, vi um seguido d’outro: primeiro as duas temporadas da cópia norte-americana (tem na Netflix) e depois a matriz.
Com a minissérie The Slap experimentei. Como Secrets & Lies, a original é australiana e a releitura, ianque. Ambas são adaptações do romance homônimo do greco-australiano Christos Tsiolkas. São leituras do mesmo livro e não série original e adaptação. Mas, como o blog não se presta a discussões acadêmicas, sigamos com minha experiência: por se tratarem de oito episódios, escolhi dias em que tinha tempo de ver dois: primeiro o australiano, imediatamente depois, o estadunidense. Foi assaz instrutivo.
O Tapa envolve o antes e o depois de um incidente em uma festa entre parentes e amigos. O insuportável garotinho Hugo faz tanta pirraça, que um amigo da família o esbofeteia com gosto e vontade, bem no meio da fuça. Isso vira litigio judicial e suas implicações nas vidas e relações das personagens são abordadas em capítulos que levam nomes de alguns deles, como a dizer que o foco está neles no episódio tal.
Se eu me interessasse em ministrar curso de roteiro ou análise de, adotaria esse experimento para compor toda a disciplina. Apesar da espinha dorsal do show australiano estar replicado em detalhes, trata-se de duas abordagens diametralmente distintas. Os australianos fizeram mini centrada nas personagens, ao passo que sua parente americana, tipicamente, salientou a trama.
Tal efeito foi conseguido através de inúmeros estratagemas – daí esse experimento poder virar uma disciplina de pós, facinho, facinho. São tempos diferentes em cada episódio; mudança na ordem de alguns; ocupações e classe social distintas; detalhinhos como um tiozinho preferir cocaína e o outro maconha (maconha é ‘do bem”, até presidenciável defende já, sacam a sutileza?); um ancião que tem ereção matinal e outro que tenta arremedar seu papel de patriarca já sem função, conseguindo um advogado predador; um aborto aqui, uma mãe terminal acolá.
As diferentes abordagens fazem com que a versão australiana tenha certo jeitão de cine indie, ao passo que a posterior,  mais de novelão metida a visual de filme de Woody Allen (a ianque se passa em Nova York). A leitura dos Estados Unidos é mais autocentrada em seu universo de classe-média alta, enquanto a original flui muito mais para questões de multiculturalidade. Sob esse prisma, dá pra perceber direitinho, como o arco-íris de tons de pele na atual TV norte-americana é mera ilusão.
Não posso dizer ter gostado mais duma ou doutra; ambas têm perdas e ganhos, mas uma coisa me incomodava e foi a norte-americana que, mesmo que de raspão, comentou isso. Que bando de gente idiota é aquela que leva aos tribunais um assunto desses, sem jamais questionar esses pais que não deram a menor educação ao pirralho? Mais de um expectador certamente terá ganas de esmurrar o menino, que usa raros discos de jazz como frisbee e cospe em idosos. Sorte que a juíza ianque dá uma lavada naquela gente, que, de verdade, precisava dumas cozinhas bem sujas pra lavar e ocupar as cabeças ocas. Especialmente as da versão norte-americana, mas lembre-se de que a ênfase aí é na trama. Viu? Perdas e ganhos...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 346


Roberto Rillo Bíscaro

Houve tempo em que Burt Bacharach era sinônimo de cafonice. Hoje, a palavra cafona pereceu e houve “reavaliação crítica” (gargalhada) e ninguém se atreve a disputar seu lugar no panteão dos maiores compositores populares do século passado.
Como jamais dei bola pra essas coisas, sempre amei Burt com abandono. Pra mim, a melhor coisa dos anos 60 e uma das melhores da primeira metade dos 70’s (porque daí já havia philly soul, Genesis).
Quando sei dalgum lançamento bacharachiano, ouço. Não que os busque, porque os originais significam tanto pra mim, mesmo repetidos milhares de vezes.
Soube de dois, um deles de material original, então não podia deixar de comentar.

Há meio século, Dionne Warwick era estrela internacional de primeira grandeza. O semiesquecimento de hoje é muito injusto. Negra e gravando em selo independente fundado por mulher, Warwick cravou diversos sucessos nas paradas.
Na Scepter Records, Dionne gravou as primeiras versões, que não poucos julgam definitivas, de músicas de Burt Bacharach e seu parceiro Hal David.
No comecinho deste ano, saiu compilação de 26 faixas, chamada Odds & Ends -Scepter Records Rarities, recomendada especialmente para experientes em Dionne Warwick. Neófitos não deveriam ser expostos a versões alternativas, outtakes e diferentes mixes de pérolas como I Say a Little Prayer ou Don’t Make Me Over. Longe de serem ruins, mas há uma razão porque não foram as escolhidas dentre as várias sessões de gravação para serem os lançamentos oficiais.
Não há só Bacharach nesse repertório, mas ele é o filé mignon. Que devoto não amaria ouvir clássicos como A House Is Not a Home e Walk On By em alemão, francês e italiano? A despeito da imensidão do mercado em língua espanhola, àquela época as gravadoras anglo-sediadas nem lhe davam bola. Provavelmente a pronúncia deixe a desejar, mas quem resiste ao solo de trompete de How Many Days of Sadness, em francês? Dá uma baita saudade de não sei quê. E a voz de Warwick é tão maviosa que pouco importa pra não italianos como ela cante The Windows of the World. Também há o jogo inverso: uma versão em inglês de La Vie em Rose.
O título da coletânea provém da versão alternativa da faixa Odds & Ends. Toda essa geração moleca que se delicia com fofuras indie pop daqui ou de lá fora devia ouvir isso. Burt Bacharach praticamente inventou esse pop assobiável, que dá vontade de estalar dedinhos, fazer papapa e sair pulando pela rua de oclão e maria-chiquinha.
Pessoal do sophistipop também deve muito à Dionne e Burt. Ouça Amanda, que começa discreta até explodir naquelas orquestrações “exageradas”’ dos 60’s, que o Swing Out Sister copiava com perfeição e gosto nos 90’s e começo dos 00’s.
A coleção oferece ainda curiosidades como Warwick cantando Monday, Monday do The Mamas and the Papas. Que modulação que sua voz dá à melodia! Respeito, mas nunca fui muito fã dos branquelos sessentistas; pra mim o melhor da década é soul e R’n’B da Motown, Stax, Atlantic e indies, como a Scepter, claro. Assim, essa versão de Monday, Monday é minha favorita desde o começo de 2018 (não que isso signifique muito, porque nem ouvia a original).
Ainda há o studio mix delicioso de I Love Paris, super big band e o jazzinho sacana de C’est Si Bon. Como a França era paparicada, não? Hoje alguém ainda se importa?
E pra provar que Odds & Ends -Scepter Records Rarities é mais indicada pra quem é mais obsessivo e experiente em Warwick/Bacharach, a última faixa é composta por comerciais de rádio e mensagens da cantora e, no fim, pra arrepiar, o Mestre recomendando duas coletâneas de Dionne.

Jonathan Butler nasceu, em 1961, na segregacionista África do Sul. Lá o apartamento entre brancos e negros era legalizado e o músico fez sua parte pra que essa maldade desaparecesse como instituição. Excursionando desde tenros sete anos de idade e sendo ídolo teen em seu país, Butler começou a compor no fim dos 70’s e logo se mudou pra Londres, onde ficou por anos.
Nunca massivo, seu sucesso sempre foi mais entre pares e o público de smooth jazz, urban soul, R’n’B, enfim, nós que amamos uma boa vibe afro. Dia 24 de agosto, o cantor e guitarrista lançou Close To You, cujo título ref(v)erencia um dos temas mais conhecidos/regravados de Bacharach/Davis. Das 11 faixas, uma dezena é releitura da dupla norte-americana. A exceção fica é Cape Town, ode à cidade natal de Butler, com clima de tema de Olímpiada ou copa do Mundo, à Shakira. Tem até “kaya kaya”, ou seja o que for, na letra. Gostosa a pegada afro, que informa também vários dos standards bacharachianos, como I’ll Never Fall In Love Again.
Como Butler é exímio violonista (confira a lenta A House Is Not a Home) e guitarrista, um par de letras de Hl Davis foi pro espaço, como em I Say A Little Prayer e Do You Know the Way to San Jose? Nada de errado, afinal as homenagens são sempre pra sonoridade que Burt criou e no caso da primeira canção, ficaria até meio estranho o pio Butler cantando sobre pensar no bofe enquanto se maquia. Versões sem letra de Do You Know..., porém, sempre me soam redutivas, porque rompe ironia não sei se proposital, mas cruel: a brejeira melodia acompanha letra que fala de fracasso retumbante e volta pra casa: são os tantos sonhos de estrelato hollywoodianos que não passam de frentistas de posto de gasolina.
Essa canção – a abertura, inclusive – resume bem Close to You, o álbum: é legal, pinta com tons distintos alguns clássicos, mas não supera ou iguala nenhuma versão mais ortodoxa já ouvida.
Dá pra ouvir de boa e gostar dos soul-jazz midtempo em que foram transformadas Walk On By, Alfie e The Look Of Love e se entusiasmar com a maciça influência de Steve Wonder em This Guy’s In Love You. Mas, não recomendo como introdução à Burt Bacharach; melhor versões mais fieis (claro que não indicarei os originais, porque daí é covardia com quem faz homenagem). 
Se você já é convertido, poderá achar interessante e competente.  

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

TELONA QUENTE 268

Roberto Rillo Bíscaro

Até hoje, não consigo ver cabides de arame sem me lembrar da antAlógica cena em que Fae Dunaway, interpretando Joan Crawford, espanca sua filha Christina, no exagerado Mamãezinha Querida (1981). Ao longo das décadas, lixos assim ou como o pavoroso Diana (2013), desavergonhadamente inventam/especulam sobre vidas de celebridades mortas, e, portanto, incapazes de dar sua versão dos fatos. Esses filmes facilmente passam a se constituir como versões oficiais dos fatos. Apareceu na tela (qualquer que seja), é verdade.
Várias dessas produções divertem, porque são tão ruins e é por isso que amo assisti-las. Escolho não acreditar em nada que vejo e mergulho no mar de lixo-luxo. Só mesmo com essa atitude pra “defender” Grace de Mônaco (2014), que eu sequer sabia da existência antes de trombar com no catálogo da Netflix.  
Em 1956, a atriz norte-americana Grace Kelly realizou o sonho conto-fadista do século XX: uma plebeia se casar com um príncipe, no caso, o de Mônaco. Diana era lady, há anos, ao se casar com Charles; sua família mais antiga e inglesa que a do marido; ao passo que Kelly era filha de novo rico ianque. Claro, ambas tinham grana.
Grace de Mônaco retrata a transformação de Grace Kelly em Grace de Mônaco. É meio como um The Crown pro canal Lifetime (aliás, única TV norte-americana que aceitou exibir o filme): a atriz tem que sacrificar sua individualidade, mas ao fazê-lo – ao contrário da série britânica -  tornar-se-á  a monarca monegasca e cumprir sua missão histórica de conduzir seu povo, salvar seu país através de sua individualidade. Dito assim, parece conceito muito esperto de subversões, mas não é; é uma bobeira.
Como a realidade foi bem menos heroica que o necessário pra esse tipo de narrativa, o roteiro quer que acreditemos que seis anos após seu casório, Grace ainda não se adaptara ou aprendera a complexa etiqueta da realeza. Quando uma crise entre Mônaco e o General De Gaulle põe em xeque a existência do principado (mentira, foi tudo bem mais suave!), Grace mostra a que veio. Recorre à ajuda de Derek Jacobi pra aprender a ser princesa (tão vendo, porque amo esses filmes?) e à Hitchcock desvenda trama palaciana e vira ícone em um discurso num evento de gala da Cruz Vermelha. Em meia dúzia de anos, ela não conseguira perceber o que o conde ou sei lá quem, a ensina em dias? Que droga de atriz não observadora era essa?
Exceto pelo figurino, é tudo deliciosamente tolo. Nicole Kidman recebe cada close-up de surtar Norma Desmond; Tim Roth fuma desesperadamente com mãos expressionistas; os sotaques são de teatro de segunda; tem governanta à de Rebecca (Hitchcock, darling); Derek Jacobi tem um papagaio e o roteiro até “explica” como Grace faleceu. Quando ela ficava brava, subia as colinas pra casa dirigindo feito louca. Mais velhos lembrarão que ela morreu, porque despencou dum desses penhascos, então, o propósito da cena é óbvio. Mas, na verdade, ela teve um AVC, por isso, perdeu o controle e voou pra baixo. Pelo menos, essa é a versão oficial... É muito mais glam imaginar como Grace de Mônaco nos induz, pra ser sincero, gente!
É muito ruim, recomendo demais!

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

TELINHA QUENTE 341

Roberto Rillo Bíscaro

Qualquer abuso sexual é indigno, mas o estuprador serial Roger Abdelmassih é especialmente abjeto, porque se aproveitava da posição de macho de prestígio e mando para assediar mulheres fragilizadas. Numa sociedade que eleva a maternidade a níveis quase impossíveis de dedicação e amor, ser infértil deve ser traumatizante. Assim, decidir-se por fertilização artificial tem implicações emocionais e financeiras que deixam mulheres especialmente vulneráveis. E nem falo da literal indefesa causada pela anestesia, que o ex-médico não se furtava de aproveitar.
O roteiro da ótima Assédio, minissérie que a Globoplay adicionou a seu catálogo, há alguns meses, é livremente inspirado no infame caso do Doutor Vida, que infelizmente, ora se repete com renomado médium, outro macho em posição de poder sobre gente desesperada.
Os dez capítulos oferecem repulsiva pintura íntima de Roger Sadala e de algumas das mulheres assediadas. Repulsiva não deve ser entendido como de baixa qualidade, pelo contrário, Assédio está entre as coisas mais poderosas que vi em 2018 e o pra mim tão simpático Antônio Calloni conseguiu me fazer ter nojo dele, ou melhor, da personagem. O mérito não é apenas seu, todo mundo está ótimo, com destaque também pra destruída Stella, de Adriana Esteves.
Assédio é filmada em tons sombrios, com música austera; não é fácil, rápida e divertida de assistir. Amora Mautner, Joana Jabace, Guto Arruda Botelho e equipe não espetacularizaram a miséria de tanta gente. A história de ascensão e queda de Roger é contada de forma temporalmente fragmentada, intercalada com depoimentos das vítimas ficcionais, num trabalho de montagem que, além de competente, empresta caráter quase de docudrama à produção.
Assim que o escândalo eclode, na metade da mini, a narrativa se acelera. É como se a forma acompanhasse a trama, porque, embora saibamos o desfecho do Roger real (“preso” numa casa diversas vezes maior que a minha, de cidadão “livre”), vivemos diegeticamente o nervosismo das denúncias, depoimentos, fugas e captura.
Através do relacionamento consigo mesmas e com suas famílias, percebemos algumas das sequelas menos aparentes da brutalidade a que as mulheres foram submetidas. O medo do opróbrio social; a incerteza da paternidade; os sutis, mas não menos dolorosos, atos falhos de maridos e familiares, que demonstram como a culpabilização muito frequentemente recai na própria agredida. E, paralelamente, mergulhamos cada vez mais na doentia psiquê do médico, que se crê imbuído de poder divino, numa perigosa mistura de pseudo-fé religiosa, falsa ciência e, claro, misoginia abissal.
Assédio é doído e necessário atestado de que o Brasil também está sintonizado com a tão (de)cantada Idade de Ouro da televisão.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 345


Roberto Rillo Bíscaro

Horizon, dos Carpenters, foi um dos primeiros discos que possui, juntamente com os primeiros de Gal Costa e dos Secos & Molhados. Talvez precoce prum menino de 8 anos. Havia uns LPs de canções de roda, também, mas eu preferia esses de “adulto”. Lembro bem de Only Yesterday e Please, Mr. Postman tocando nas rádios, em 1975.
Não sei se conheci Richard e Karen Carpenter assim ou se foi também no apartamento de meus tios em Curitiba, onde passava férias e ouvi Horizon pela primeira vez. Morando ainda em Sampa, quando voltei pra casa, infernizei meus pais até me comprarem uma cópia. Ainda o escuto regularmente, em formato digital, a ponto de cantar junto todas as letras. Tanto que uns dias antes do motivo deste texto, eu o tocara inteiro, via Youtube, enquanto escrevia algo, arrumava notas de alunos, sei lá.
Os Carpenters dominaram as paradas da primeira metade dos anos 70, com seu pop fácil e de ricas harmonias vocais, graças à trágica Karen Carpenter, morta tão nova, aos 32 anos, em 1983. Tanta vida pela frente, mas a anorexia nervosa enfraqueceu demais seu coração. Soube de sua morte, quando o Fantástico anunciou o clipe de Make Believe It’s Your First Time, lançado postumamente. Então, o reinado dos Carpenters já estava findo há anos; a canção sequer entrou no Top 50 da Billboard.
Nada sugere que a dupla reconquistaria seu sucesso nos 80’s, mas a cristalinidade da voz de Karen influencia até hoje, de Madonna a Rumer e a novíssima Harriet (em breve no blog!). Creio que até 1994 não era hipster gostar deles. Daí, saiu o álbum de covers If I Were a Carpenter, com queridinhos da época, como Sonic Youth e Cranberries e o duo foi “reavaliado”, como ocorreu com Burt Bacharach. Ainda bem que jamais necessitei de selo de recomendação pra admitir amar algo, porque não troco nenhum original por qualquer versão. Sequer ouvi If I Were a Carpenter na íntegra, afinal, quem lembra de American Music Club? Mas, dos Carpenters, tantos lembram que até produto novo saiu, dia 7 de dezembro.
Carpenters with the Royal Philharmonic Orchestra foi produzido com esmero e astúcia por Richard Carpenter, o que garante integridade às 18 faixas. Até a capa segue o padrão gráfico de décadas. A edição japonesa e a vendida na rede Target têm 19: Please Mr. Postman vem de bônus. O álbum funciona como mais um grande Best Of, que mantém intactos os vocais de Karen e os arranjos originais, apenas com toques orquestrais. Quem quereria ouvir We’ve Only Just Begun, Hurting Each Other, Superstar ou Top Of the World em versões só com a orquestra, sem aquele charme AM, que as tornam tão queridas e perfeitas?
Um coro aqui, outro ali, jamais se intrometendo muito nas canções, introitos e pontes orquestrais são acrescentados, como por exemplo no início do álbum, que elegantemente abre com uma Overture, citando trechos de clássicos do duo, mas focando em Yesterday Once More, cuja letra fala de canções antigas capazes de despertar nostalgia. Que é o que os Carpenters fazem agora.
Para aproveitar o Natal, Richard rearranjou Merry Christmas, Darling, porque ele nunca foi bobo. Deu certo, até onde acompanhei, pelo menos na Inglaterra, o álbum chegou à oitava posição na parada.
Carpenters with the Royal Philharmonic Orchestra é totalmente desnecessário, mas, como tem Karen, é essencial.

domingo, 23 de dezembro de 2018

TRUFAS DA SUPERAÇÃO

A história de sobrevivência e alegria de Francisca Queiroz, a 'Tia da Trufa' 

“É o meu sustento. Com o dinheiro das trufas consegui formar meus três filhos com bom humor." 

"Chupa que é de uva, "Senta que é de menta que só chupa quem aguenta", "Abacate que a gente chupa e tudo bate": é com estas três frases de efeito que a irreverente Francisca Queiroz, de 62 anos, carinhosamente apelidada de "Tia da Trufa", anuncia os dindins, brigadeiros e claro, as trufas de chocolate que carrega para lá e para cá em sua caixa de isopor. Ela é conhecida por vender todos esses quitutes na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). "Amo levar alegria com o sabor das coisas que vendo. Eu brinco e recebo um carinho sem precedentes", conta em entrevista ao HuffPost Brasil. 

A volta por cima Francisca ocorreu há quase 20 anos. Ela trabalhava como doméstica quando foi surpreendida com a perda de movimento de um dos braços. "Fui ao médico e descobri que estava com Lesão por Esforço Repetitivo (LER). Tive que me afastar do emprego para fazer um tratamento", lembra. Só que Francisca, sozinha, tinha 3 filhos para criar e não podia ficar parada. 

À época, ela ganhava apenas o valor de uma pensão alimentícia de seu ex-marido que não chegava a um salário mínimo. Precisou ir à luta. E disso, vieram as trufas. "Meu filho mais velho deu a ideia de fazer as trufas para vender em universidades. Ele aprendeu a fazer na internet e preparou 70 para eu vender a 1 real", recorda. Ela conta que, no começo, o bombom esgotava em menos de uma hora. 

Assim, a produção de trufas teve que aumentar. E aí, outro dia, Francisca precisou envolveu todos os filhos na venda. "A procura era tão grande que chegava a vender 600 trufas por dia. Com o dinheiro, consegui formar meus filhos, reformar minha casa, além de investir no negócio com a compra de uma moto", diz, orgulhosa. 

O apelido "Tia da Trufa" veio logo depois de um mês vendendo os quitutes. "Um universitário, lindo, lindo, perguntou se podia me chamar assim. Eu disse sim e aí pegou". E, assim, Francisca se transformou automaticamente na "Tia da Trufa" acolhida pelos universitários. 

Desde 2008, ela viaja com alguns grupos para congressos e feiras -- tudo isso, claro, para vender as trufas. Ela só paga a passagem. A hospedagem e alimentação é por conta deles. "Já fui para Curitiba, Rio de Janeiro e lá, é claro, que vendo minhas trufas enquanto eles participam das palestras. São meus amores." 

Hoje tudo o que eu quero compro com meu dinheiro. É libertador. 

Com a venda das trufas, Francisca consegue se manter -- e, de quebra, levar alegria para quem passa. 

Mas o que pouca gente sabe é que muito antes de ser a famosa "Tia da Trufa", Francisca é uma sobrevivente. Ela nasceu em uma família humilde no município de Coari, a 500 km de Manaus (AM). Aos 7 anos, sua mãe precisou viajar para a capital e, por isso, ela e seus irmãos ficaram aos cuidados do pai cearense, linha dura. 

"Um dia, ele [o pai] pediu pra tirar a panela de água do fogo quando fervesse. Minha mãe não deixava a gente fazer isso. Mas ele não se preocupava com isso. Fui brincar e esqueci. Quando me lembrei, corri. Era baixinha, peguei uma caixa de sabão para subir, mas me desequilibrei e a água quente caiu em mim". E assim, enquanto criança, Francisca teve que lutar pela vida. A água tinha queimado 98% do seu corpo. 

Até hoje tenho cicatrizes que me mostram como uma sobrevivente. 

Na época, Coari não tinha hospital. Só existia uma drogaria na cidade. O pai saiu para comprar uma pomada no estabelecimento. "O meu pai me puxou pelos cabelos, me trancou no quarto e disse pra eu não chorar para os vizinhos não ouvirem", lembra. Ela sentiu as dores e precisou aguentar calada. 

"Quando ele saiu, abri a porta do quarto bem devagar e uma vizinha que estava estendendo roupa no nosso quintal me viu e prestou socorro", conta. Francisca deu sorte, e foi levada até um mutirão de consultas e cirurgias que estava acontecendo na cidade. "Fiquei em casa de freiras e entrei em coma por 45 dias. Só consegui me recuperar depois de um ano." 

Pareciam as feridas não saravam. Foi horrível. 

Dois anos depois da queimadura, outro susto: Francisca estava brincando no quintal de sua própria asa quando caiu de um pé de graviolas. "Tive traumatismo craniano. Quebrei vários ossos do meu corpo. Felizmente, já tinham inaugurado um hospital na cidade e aí foi socorrida a tempo. Sobrevivi mais essa", lembra. "Parece estória de pescador, mas não é, viu?", brinca com a reportagem. 

E, assim, sobrevivente, Francisca não perde o bom humor diante das dificuldades e sabe valorizar suas conquistas. Transmitir alegria virou missão de vida para ela, que arranca gargalhadas e sorrisos por onde passa. "Não quero ser rica, só quero continuar sendo a Tia da Trufa. A mulher dos doces que leva alegria para as pessoas." 
https://www.huffpostbrasil.com/2018/12/19/a-historia-de-sobrevivencia-e-alegria-de-francisca-queiroz-a-tia-da-trufa_a_23623075/?utm_hp_ref=br-mulheres&ncid=fcbklnkbrhpmg00000004&fbclid=IwAR2hQn1xEW1_jVEZj7IHn653aGhhmZWL24lKEZTKACR94_hzKyxvHbeWnTU&ec_carp=1290352896472016659&ec_carp=1290352896472016659

sábado, 22 de dezembro de 2018

DE VOLTA PRA CASA

Alba, o único exemplar de orangotango albino está de volta à natureza

A fêmea de orangotango foi resgatada em 2017 antes de ser vendida como uma espécie rara.

Alba, o único exemplar de orangotango albino conhecido no mundo, está de volta à natureza, depois de um processo de recuperação e adaptação ao seu habitat natural.

O orangotango fêmea foi encontrado, em maio de 2017, numa jaula colocada no terreno do homem que se auto-denominava seu dono e que aguardava a sua venda.

O animal acabou por ser resgatado e entrou num processo de recuperação para poder ser devolvida à natureza.



"A Alba tem mostrado boas habilidades de escalada e circulação segura entre os ramos, o que indica que está preparada para viver em estado selvagem", explicou o diretor executivo da BOSF - Borneo Orangutan Survival Foundation que fez toda a recuperação.

Alba vai ficar num parque natural do município de Katingan, na Indonésia, onde existem "limites amplos e naturais" e onde se pode vigiar uma população de 200 orangotangos, já que a fêmea precisa de ser vigiada devido ao seu albinismo e tem de estar protegida dos caçadores de espécies raras.


De acordo com o La Vanguardia , a população de orangotangos de Bornéu, a ilha da Indonésia, reduziu em 148.500 unidades entre 1999 e 2015 devido a caça e também a plantações, especialmente o óleo de palma, tendo em conta um estudo publicado na revista Current Biology.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

TELONA QUENTE 267



Roberto Rillo Bíscaro

Oscarizar o melhor documentário do ano é subproduto da Segunda Guderra Mundial. A categoria foi introduzida em 1941 pra prestigiar as produções que serviam como propaganda antinazista/facista/japonesa, feitas nas diferentes indústrias de cine dos países aliados. Numa época em que comunistas tiveram que estar ao lado dos capitalistas, Hollywood indicou até documentário soviético, Moscow Strikes Back, além de produções australianas, britânicas e canadenses. 
Hollywood participou do esforço de guerra não apenas com atores e atrizes entretendo tropas, mas com muitos de seus profissionais se alistando, inclusive diretores de renome, como John Ford, William Wyler, John Huston, Frank Capra e George Stevens. O documentário Five Came Back (2017) dirigido pelo francês Laurent Bouzereau, aborda o que levou esses homens afamados e poderosos a irem pros fronts, o que produziram e o impacto que o genocídio teve em suas carreiras.
O programa vale não apenas pelas muitas cenas de arquivo, entrevistas e depoimentos, mas também pelo que tem que abordar tangencialmente, como manipulação de imagens; censura por ordens de juntas militares; encenação de eventos já ocorridos, mas vendidos como reais e a própria escolha na forma de demonizar o inimigo. Usado como ferramenta de propaganda ideológica, o cinema escolheu detonar alemães e japoneses de modos distintos. Five Came Back não foge disso, até porque já não tem importância, e parece que muitos não querem fazer inferências com representações feitas hoje de diferentes grupos.
Five Came Back não dispensa o recurso da fala de autoridade pra provar seus pontos. Steven Spielberg, Guillermo Del Toro, Francis Ford Coppola, Lawrence Kasdam e Paul Greengrass adotam cada um dos diretores e intervém sobre eles com autoridade analítica e factual de quem é experto em sua obra. Esse recurso é tão fake como recriar batalhas e mentir que a gravação fora feita durante a retomada da cidade X. O que esses caras falam tá tão ensaiado como as contendas encenadas, afinal, Five Came Back foi baseado num livro.

Dividido em 3 episódios, você acessa Five Came Back, na Netflix. Qualquer interessado em cinema deveria ver. E preste atenção quando falam do banho que os britânicos davam nos ianques na produção de documentários. De certa forma, foi o chute na bunda da ex-metrópole que acordou o Tio Sam pra produzir documentários melhores.