segunda-feira, 25 de abril de 2016

CAIXA DE MÚSICA 215


Roberto Rillo Bíscaro

Por seus antropofagismos e tropicalismos, o Brasil gosta de dizer que aprecia geleias gerais, tudo junto e misturado. Tropix, quarto álbum de Céu, derrete diversos estilos num caldeirão eletronizado e o resultado é MPB, Música POP Brasileira, ultramoderna, cosmopolita e acessível. O próprio título popifica e computadoriza não apenas a referência à Tropicália, mas também os próprios trópicos, ainda tão fadados ao atraso em tudo.
Um título e uma canção explicam à perfeição a tônica desse trabalho da paulistana.  Pixel é um ponto luminoso do monitor que, juntamente com outros do mesmo tipo, forma as imagens na tela. Amor Pixelado é uma das canções desse álbum pixelado, onde não dá pra dizer que tal faixa é isso ou aquilo. Tropix é composto de minúcias extraídas de diversos (sub-)estilos por quem sabia o que queria.
Perfume do Invisível intercala gotejar esparso de electronica com disco-funk que não ficaria deslocado na fase Jesus Não Tem Dentes, dos Titãs. A Menina e o Monstro transiciona o tempo todo entre caixa de música e piscodelismo guitarrado. Arrastar-te-ei e Minhas Bics têm ecos de ritmos nordestinos transurbanizados. A Nave Vai é disco music com guitarrinha sapeca. Varanda Suspensa é uma delícia de synthpop tropical i.e. misturado com brega. Chico Buarque Song é regravação do paulistano Fellini, que gravou pela independente Baratos e Afins nos 80’s. Indie rock meio neopsicodélico, mas aquela batidinha de teclado/guitarra na verdade é batuque de samba, que ficaria em casa nalgum antigo álbum de Dulce Quental.
Uma das formas de se entender a discreta e diáfana Bossa Nova é vê-la como tendência de gosto hegemônica sucessora dos derramados boleros e sambas-canções. E não é que Sangria traz um fiapo de bolero cantado à Bossa Nova? Une 2 inimigos estéticos e é a canção que melhor explica Tropix. E mais pro fim, Sangria vira twee pop com papapa à Sarah CracknellQue antenada essa Céu!
Esta playlist traz o álbum completo:

domingo, 24 de abril de 2016

A SUPERAÇÃO DE KAYTH

Conheça a história de Kayth Lyra, que perdeu a visão aos 36 anos. Determinado, ele aprendeu a conviver com esta realidade e deu continuidade ao curso de Direito.

sábado, 23 de abril de 2016

ALBINO GOURMET 203

quinta-feira, 21 de abril de 2016

TELONA QUENTE 155

Roberto Rillo Bíscaro

Há algumas semanas estreou série de horror nas telinhas, chamada Damien. Trata-se do agora adulto (como, se ele morrera no terceiro filme?!) filho do Coisa Ruim, que faturou alto nas telonas nos anos 70, a demodécada. A Profecia foi lançado em 1976, na onda satanista nascida com o Bebê de Rosemary e beatificada pelo Exorcista. Não decidi se darei chance ao Damien seriado, porque as experiências com prequels/sequels, como Hannibal e Bates Motel não me agradaram a ponto de desistir após poucos episódios e sequer resenhá-las. A exceção fica a cargo da deliciosa Ash Vs.Evil Dead.
Enquanto não escolho dar chance a Damien, vi a curta franquia iniciada por The Omen, inclusive a refilmagem de 2006, evitada até agora.
O original de 76 veio com status de produção “séria” - o subgênero demoníaco estava em alta, inclusive criticamente – ma no troppo. A coprodução anglo-americana foi dirigida pelo então novato Richard Donner, que mais tarde consolidaria seu prestígio com Super-Homem (1978) e Máquina Mortífera (1987) (meu favorito dele, porém, é uma fofurita boba obscura de 1969 chamada Twinky, onde a ninfeta Susan George se apaixona por um nada característico Charles Bronson, puro fetiche com aquela musiquinha Twinky, I think you’re growing up too soon, girl...). A trilha sonora ótima cheia de corais sacrossatânicos foi composta por incensado Jerry Goldsmith, que tinha no CV as elogiadas trilhas pra Planeta dos Macacos, Pappillon, Patton e Chinatown. Pra completar a fantasia de superprodução, o elenco foi encabeçado por Gregory Peck e Lee Remick. Dois supernomes, mas aí está a falácia; já não eram mais A-listers fazia tempo. The Omen não é filme B, mas também não foi A.
Seja o que tenha sido, A Profecia trata da vinda do Anticristo. Desta feita, o demo foi um pouquinho mais esperto e ao invés de encarnar numa família sem posses ou acesso algum aos altos escalões pra dominação global, foi parar na família dum embaixador norte-americano que tinha chances de se tornar presidente, ou pelo menos, acesso fácil ao homem mais poderoso do globo. Porque não nasceu logo como filho do presidente ou porque tantas coisas são complicadas pruma entidade que parece ser tão poderosa fazem parte daqueles detalhes que você desconsidera, senão nem adianta começar a ver esse tipo de filme.
Poderia ser um bocadinho mais curto, porque há partes morosas e Gregory Peck está pavoroso (e quando ele foi bom ator?), mas até que há mortes legais (embora poucas) e bem gore pra cinemão mainstream de meados dos 70’s. Pras plateias de hoje, talvez mais suspense do que propriamente terror, A Profecia ainda funciona mais ou menos bem no sub-subgênero da possessão demoníaca.

Em 1978, o foco político foi transferido pro econômico. Watergate distanciava-se da memória, mas a recessão grassava nos EUA embalados por disco music. Assim, em Damien: A Profecia II, o filho do Tinhoso toma consciência de quem é seu papai e assegura-se de que o império econômico da família Thorn seja dele e não do primo, herdeiro legítimo, já que  Damien era filho do embaixador falecido e não do dono da corporação.  Tudo não passa de desculpa pra várias mortes, algumas legaizinhas, uma delas pelo menos prenunciando a toada da franquia Premonição. A trilha sonora ainda é de Goldsmith, mas menos inspirada, porque não mais novidadeira. No elenco, nomes respeitáveis com cachês já nem tanto, como o ex-galã William Holden e a ex-perseguida por McCarthy, Lee Grant. Pra fãs de soap oitentista, há Robert Foxworth, o cara que recusou o papel de JR Ewing e acabou estrelando a genérica de segundo escalão Falcon Crest.
Fica meio monótono no meio, mas ainda funciona pros “antigos”, que víamos esses filmes na TV nos 80’s e ficávamos com medo ou nos divertíamos com as mortes, hoje menos marcantes que em filme de Sessão da Tarde.

A Profecia não emplacou nos anos 80. A única entrada da franquia na década foi  A Profecia 3: Conflito Final, que não tem medalhão no elenco desconhecido a não ser pelo começando a ficar famoso Sam Neill, interpretando Damien. Agora comandando a corporação Thorn, o filho do diabo arma pra descolar posição de embaixador na Inglaterra, mas tem que se preocupar com a segunda vinda de Cristo, nascido na ilha. Nazareno era porque JC nasceu em Nazaré, mas mesmo sendo britânico nessa nova encarnação chamam-no nazareno. E isso nem é o pior desse filme tedioso, que não tem quase mortes – como você faria pra matar bebês cenicamente? Nem nós fãs de horror gostaríamos, quanto mais o público mainstream. Como a trama prevê o extermínio de nenês nascidos em tal data, isso é tratado através de sugestões ou simplesmente aludido. Filme de horror sem cena de terror fica difícil, né? E aguentar os solilóquios “blasfemos” de Neill e a febre neopentecostal do fim? Uma porcaria.

Sepultada há uma década nas telonas, a TV tentou ressuscitar A Profecia em 1991, com a parte IV, O Despertar. Elenco desconhecido até do FBI numa história que além de não empolgar, passa pelos estágios de puerilidade e desonestidade. Um casal adota menina que parece que será a reencarnação do mal apenas pra num final estapafúrdio descobrirmos que essa aparente transgressão não passou de pista falsa pros telespectadores. Isso depois duma trama sem dinheiro pra criar mortes legais – embora 2 das ideias mereçam louvor. Se a parte III foi porcaria, essa foi lixo. O fim denota desejo de continuações, mas felizmente a sandice foi brecada aí.

A refilmagem de 2006 é bem semelhante ao original; marquei touca em demorar quase um decênio pra conferir. Criticada por ser tão fiel, não vejo mal nisso: as gerações mais novas às vezes não veem filmes antigos pela qualidade da imagem, então que há de errado em refazer? Os poucos desvios no roteiro são pequenas variações do original e a filmagem elegante peca um pouco por ser meio distanciada às vezes. Não dá muito pra se importar com os pais de Damian e os ambientes tendem à assepsia. Como o original, A Profecia (2006) não é um grande filme, é mais passatempo eficaz. O roteiro atualizou os sinais da vinda do Anticristo usando o tsunami asiático e o 11 de Setembro, mas a origem política de Damien permanece, afinal, é ali que Satanás pode realmente danificar o mundo (há países que nem precisam da ajuda dele...). A trilha sonora é inferior à de 76, mas essa versão conta com Mia Farrow, que dá noção de linhagem ao filme, afinal, ela também já foi mãe de bebê-demônio, aliás, a mãe original, a eterna enquanto dure Rosemary. Também há microparticipação de Sir Michael Gambon e as mortes são legais, uma delas influenciada por Premonição, enfim, dá pra ver de boa. Sugiro uma noite de pipoca e refri com amigos pra ver em seguida as versões de 76 e a de 30 anos depois, pra comparar.

terça-feira, 19 de abril de 2016

TELINHA QUENTE 208

Roberto Rillo Bíscaro

Duns tempos pra cá, tem história de tudo quanto é coisa: do diabo, da menstruação, da homossexualidade, da representação disso ou daquilo em tal época ou cultura. Detratores acusam que se perde o todo da História; partidários defendem que se ganham minúcias e especificidades.
Eu queria um pouco de História, mas não estava a fim de deixar meu extenso romance norueguês de lado, daí fui de história pop mesmo, em mais de um sentido. Não só porque era de documentário do History Channel, mas porque era dessas bem segmentadas. Em cada um dos 8 episódios vistos de How Sex Changed the World, o narrador avisa que pularemos as partes chatas da História e vamos ao mais gostoso: sexo!
Superacessível, com letreiros grandes, resumos após cada seção, depoimentos e opiniões de “comuns” e não apenas de expertos. Bem longe do formato ao qual eu estava acostumado, com as “cabeças falantes” e mais solenes, parodiado no horror O Misterioso Caso de Judy Winstead.
As opiniões asneirentas de muitos “comuns” me pareceram perda total de tempo; quem se importa com o que um(a) anônimo(a) faria na cama se soubesse que aquele era seu último dia de vida? Ainda bem que isso tomava poucos segundos de cada episódio, mas mesmo assim, eu descartaria.
O programa fala da ambiguidade da relação norte-americana com o sexo. Eles têm fama de serem reprimidos, mas o show mostra que o sexo tem sido força motora poderosa da história do país, e por conseguinte, mundo. Caracteristicamente, um letreiro adverte o espectador pra ser discreto com relação ao conteúdo. 

Ep. 1 Sex Pioneers – Puritanos eram rebeldes no sentido de não concordarem com a igreja anglicana e apesar de terem tantos tabus comm relação a sexo, uma das tarefas dos maridos era manter as esposas satisfeitas, a tal obrigação conjugal. Isso cumpria função econômica também pra crescer a população. Mas, ao mesmo tempo Thomas Morton, um neopagão inglês ficou bem perto das primeiras colônias puritanas, legal esse paradoxo tão simbólico. Na Corrida do Ouro (1850’s) construiu-se a riqueza de San Francisco e uma nova aristocracia. Parte de tudo isso foi com dinheiro ganho em prostituição, porque a mulherada caiu de boca na proporção de 50 bofes pra cada uma na época.
Ep. 2 Sex For Sale– A Igreja explorava e usava muito o serviço de prostitutas e bordéis, antes da Reforma Protestante, que fez com que a Igreja mudasse essa estratégia monopolista muito lucrativa. Em New Orleans, por uns 20 anos, no final do século XIX, designou-se uma área onde a prostituição era livre e isso atraiu muita grana, além de contribuir com a integração racial e oportunidades pra músicos negros do nascente jazz, como Louis Armstrong 
Ep. 3: Sex Rebels exageradamente defende que o alto apetite sexual e extravagâncias na cama de governantes como Catarina a Grande ou a Imperatriz Messalina mudaram a história. Sabe-se lá se são verdadeiras todas as histórias atribuídas a essa gente.
Lyndon Johnson é descrito como sexo-maníaco que mostrava o pau pra quem quisesse ver, o qual ele supostamente apelidou de Jumbo, por causa do tamanho, mas essas escapadas não afetaram necessariamente as políticas de seu governo. 
Ep 4 – Sexpocalipse mostra notórios casos de perseguição à sexualidade, como o Dr. Kellogg’s que em parte criou os sucrilhos pra tentar diminuir a masturbação, baseado numa ideia pseudocientífica da Idade Média de que havia alimentos facilitadores do celibato. Também fala dos campões de cruzadas morais, como Charlie Keating, que perseguiu tanto a pornografia, mas acabou condenado como estelionatário e por crimes financeiros milionários. A história está cheia dessas figuras. No Brasil atual há tantas, e o pessoal não aprende. Pensando bem, é um episódio pouco animador pra pensar sobre a espécie humana. 
Ep 5 – Sex and Power tenta provar que a História poderia ter sido diferente em alguns casos, devido a comportamentos sexuais de líderes como Kennedy, que não perdoava rabo de saia, mas quase se enrascou por ter transado com uma alemã oriental, caindo nas garras de J. Edgar Hoover, que, subsequentemente também usou dossiês com escapadas sexuais de senadores pra coibir problemas no Senado pra JFK.
Ep 6 – Superheroes of Sex fala sobre indivíduos que exerceram influência positiva ou negativa sobre a educação sexual ou informação sobre o sexo. Aprendemos que os talentos de Da Vinci pareciam inesgotáveis, porque também estudou as causas da ereção peniana pra constatar se a acepção religiosa de que o pipiu endurecia porque se enchia de ar era verdade. Como dissecar cadáveres era proibido, o pintor da Mona Lisa pagou ladrões de sepultura pra descolar presuntos. Outra figura abordada foi o masturbador contumaz Anthony Comstock, que, bem caracteristicamente desses infames perseguidores por motivos sexuais, influiu pra efetivação duma lei que proibia a veiculação pelo correio de qualquer material considerado pornô. Bem EUA mesmo, prega tanto a liberdade do indivíduo, mas tem um problema danado em aceitá-la. Ep 7 – Sex and War – desde sempre sabemos que guerra anda junto com sexo, prostituição e propagação de DNA e doenças e o documentário dá diversos exemplos, como Gengis Khan que transou com tantas que atualmente porcentagem significativa de asiáticos pode ser descendente do mongol. Outa parte interessante demais é a britânica que não hesitou em usar o corpão pra tirar informações do governo francês colaboracionista dos nazistas; viraria um filme bem legal. Ep. 8 – Extreme Sex aborda o sexo levado ao extremo e cita as batidas histórias de Nero (bocejo) e Aleister Crowley, mas a parte que interessa mesmo é comoo Ted Roosevelt no afã de combater a superpopulação de prostitutas em Nova York terminou por facilitar seu serviço. Isso na virada do século XIX pro XX; muito bom pros dedicados a afirmar que “antigamente o povo tinha mais vergonha na cara” e asneiras afins.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

CAIXA DE MÚSICA 214

Pet Shop Boys: Super
Roberto Rillo Bíscaro

Os Pet Shop Boys (PSB) são da segunda geração synthpop, aquela que já utilizava sequenciadores, seguindo a trilha aberta pelo fundamental single Blue Monday, da New Order (1983). A partir da segunda metade dos anos 80, a popularidade da dupla ascendeu e o ápice aconteceu no início dos anos 90. Foram tão poderosos que Morrissey reclama em sua autobiografia que os executivos se preocupavam bastante se as declarações polêmicas do ex-Smiths afetariam a imagem [leia-se vendas] de Neil Tennant e Chris Lowe, seus companheiros de gravadora.
Os Garotos da Loja de Animais de Estimação jamais pararam de lançar álbuns ou excursionar, mas aparecer em programas populares de TV e tocar em rádios de audiência maciça é outra história. Assim, ouvintes ocasionais não têm mais o duo em seus radares, a ponto de o vocalista Tennant relatar que motoristas de táxi ocasionalmente perguntam se estão aposentados.
Há algumas semanas, os britânicos voltaram em muito boa forma com Super, delícia eletrônica vibrante que não se esquece de suas raízes 80’s e 90’s, porque sabe que os fãs esperam certo som característico, mas não falha em dialogar com modernidades retrô como o Hot Chip. Porque muito do pop sintetizado atual bebe da fonte disco ou da própria synth dance que o PSB ajudou a inventar, eles soam muito contemporâneos, mas ainda confortáveis pra ouvintes da época de seu distante auge comercial.
Happiness abre Super parecendo que será techno minimalistas curtível só pra quem dance nalguma boate hip de Berlim, mas logo é acessibilizada pelos Pop Kids (título duma faixa meio autobiográfica), que aprenderam a lição de Papai Bowie: popificar o underground. Tennant afirmou ser filho de Bowie, ao comentar a morte do Camaleão.
Super está cheio de pauladas dance. Groovy tem clima de Ao Vivo em Ibiza; Inner Sanctum parece saída dalguma deluxe edition de álbum noventista do PSB, cheias de remixes; Burn é pra incendiar boates, como quer seu refrão e não duvido da possibilidade, com aquele letimotiv-locomotiva no teclado.
Pazzo, quase instrumental que acena pra Giorgio Moroder e New Order circa Technique (1989), não é grande momento; algo tola. A lenta Sad Robot World obviamente referencia vô Kraftwerk – e também o esquecido Gary Numan – com letra inteligente sobre nosso descaso pra com os pobres robôs, “tratados com indiferença, embora sempre entre nós”.
Com história tão rica e longa, cacoetes e sonoridades de distintas eras do próprio Pet saltitam lá e acolá. Into Thin Air tem trechos sacados de Being Boring, de Bahaviour (1990) e Sad Dictator não se encaixaria em Introspective (1988)? Say It To Me é bem Electronic, dupla formada por Bernard Summer (New Order) e Johnny Marr (The Smiths), com a qual Tennant/Lowe colaboraram na manhã dos 90’s.
Super é super.

domingo, 17 de abril de 2016

ALBINO INCOERENTE NO FUTURO

Roberto Rillo Bíscaro

Ontem tive uma manhã muito especial. Seria mais um daqueles dias burocráticos, porque tinha 3 bancos pra visitar depois das 11:00, mas às 8:00 fui ao Colégio Futuro, em Penápolis (SP), conversar com 2 salas de alunos da oitava série.
O professor de português das turmas, Rodrigo Santiago, pediu que os alunos lessem minha autobiografia, Escolhi Ser Albino, como leitura obrigatória do bimestre. A ideia seria complementar a leitura com uma conversa com o autor. 
E foi uma delícia. As perguntas foram muito inteligentes e perspicazes. Muitos compraram o livro e tive que autografar vários e tirar muitas fotos. Foi muito divertido e alargou o círculo de conhecidos. 
Depois, a chatice dos 3 bancos - e foi muito tedioso, creiam - ficou mais fácil de tolerar.
Obrigado à direção, à equipe de coordenação, ao Rodrigo Santiago e aos alunos do Futuro pela oportunidade de divulgar um pouco sobre albinismo e de minha história.






O professor Rodrigo Santiago fez um vídeo com alguns momentos do encontro, valeu Rodrigo!

sábado, 16 de abril de 2016

ASSASSINARAM WHITNEY

Morte de menina albina reativa debate sobre proteção de minoria no Malawi

Menina albina de 2 anos estava desaparecida desde 3 de abril.
Whitney Chilumpha foi sequestrada enquanto sua mãe dormia.
A descoberta no Malawi de um crânio, os dentes e a roupa de uma menina albina de dois anos desaparecida em 3 de abril demonstra o fracasso das autoridades na hora de proteger as pessoas com albinismo, denunciou nesta sexta-feira (15) a Anistia Internacional (AI).
Foto da Anistia Internacional mostra bebé albino que foi abandonada em Lilongwe, no Malawi (Foto: Reprodução/Amnesty.org)Foto da Anistia Internacional mostra bebé albino que foi abandonada em Lilongwe, no Malawi  (Foto: Reprodução/Amnesty.org)
"O assassinato desta menina inocente faz parte de um terrível ciclo de desaparições e assassinatos de pessoas com albinismo no Malawi, onde as partes de seus corpos são vendidas para ser utilizadas em rituais de bruxaria", declarou o subdiretor da AI para a África Meridional, Muleya Mwananyanda.
Whitney Chilumpha foi sequestrada enquanto dormia com sua mãe na cidade de Chiziya, no distrito de Kasungu, e é a 12ª pessoa com albinismo assassinada no Malawi desde dezembro de 2014.
O pai da menina e outro homem foram detidos pela suposta relação com o sequestro e o assassinato.
"Este terrível incidente deve levar as autoridades a atuar", afirmou Mwananyanda no comunicado, publicado em Johanesburgo.
"Não se trata unicamente de levar perante a justiça os responsáveis, mas também de oferecer proteção às pessoas com albinismo", acrescentou o dirigente da AI, que pediu ao governo do Malawi que faça o possível para pôr fim a estes atos.
Durante 2015 foram registrados 45 casos de tentativas de sequestro e assassinato de pessoas albinas, embora AI acredite que o número real de fatos contra este coletivo vulnerável pode ser muito maior.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

TELONA QUENTE 154

Roberto Rillo Bíscaro

Há anos planejava-se a adaptação do livro Orgulho e Preconceito e Zumbis, resenhado aqui. Não acompanhei rumores, mas soube que em fevereiro finalmente chegava às telonas coprodução anglo-ianque dessa paródia do clássico de Jane Austen. Como lera o livro, fatalmente veria a película, mas a presença de Charles Dance e Lena Headey - parte de meus amados Lannisters -  no elenco acelerou o processo.
Numa Inglaterra georgiana empesteada pela praga zumbi – provavelmente vinda da França; ah quanto ódio civilizado – as moças de família preocupavam-se com o brutal mercado do casamento, mas também aprendiam artes marciais pra se autodefenderem /dizimarem mortos-vivos. É nesse contexto que se desenrola a manjada história das irmãs Bennett, o envolvimento de Lydia com Mr. Wickham (um dos personagens mais alterados do original austeniano) e a superação do orgulho e do preconceito por Elizabeth Bennnett e o protótipo do marido ideal, Mr. Darcy, aqui, Coronel Darcy, porque a Inglaterra estava em guerra contra os defuntos devoradores de cérebro.
Orgulho e Preconceito e Zumbis é uma espécie de “terrir” miguxo pra meninas teens que acham que curtem zumbis. Só mesmo nesse nicho de mercado pode funcionar um filme de ação com pouca ou um que se quer de horror, mas tem menos cenas violentas ou impactantes do que um capítulo de Game Of Thrones.
Tudo é realmente de época, a produção até que capricha prum produto barato de menos de 30 milhões de dólares, há a atípica valorização da personagem feminina como heroína de filme de ação, mas Orgulho e Preconceito e Zumbis é desesperadoramente desprovido de ironia, a qual, aliás, dá tanta graça à obra de Jane Austen. É piada que não sabe que é chiste. No fundo, acaba uma historieta de amor temperada com algum tiro em cabeça de zumbi, incapaz de incitar medo nem em criança que jogue videogame ou veja Datena.
Se você não for menina de trança e smartphone com capinha de Crepúsculo, distancie-se. Ou prefira a minissérie Pride and Prejudice, da BBC, seguida dalgum George Romero, daí sim, dá um excelente Orgulho e Preconceito e zumbis.

terça-feira, 12 de abril de 2016

TELINHA QUENTE 207

Roberto Rillo Bíscaro

Ironia informa o título e momentos-chave de Happy Valley, desolad(or)a série policial da BBC, que já teve 2 temporadas, totalizando dúzia de capítulos.
De feliz, o vale onde se passa a ação não tem nada. A protagonista Detective Sergeant Catherine Cawood jamais se recuperou do suicídio da filha, estuprada (será mesmo?) por um sociopata. O casamento não resistiu à perda e ela acabou tendo que cuidar do neto – indesejado por setores da família – e da irmã recuperando-se do vício em álcool e heroína (a maquiavélica O’Brian, de Downton Abbey, aqui sofredora e boazinha). E essa é só a história de fundo pra essa policial boa, correta, mas fascinantemente complexa, interpretada à perfeição por Sarah Lancashire.
A primeira temporada lida com a saída da prisão de Tomy Lee Royce, suposto abusador da filha da policial e de um sequestro, que acontece por pura ironia dramática. 6 episódios tensos e viciantes. A segunda continua alguns temas da primeira e adiciona um serial killler, mas a história que rouba a cena até do vale de lágrimas da DS Cawood é a do DI John Wadsworth, sujeito decente levado a cometer um crime, em outro caso de perversa ironia dramática. Kevin Doyle, o adorável Mr. Moleseley, de Downton Abbey, deveria concorrer junto com Lancashire às indicações de prêmios que a temporada deveria angariar.
Um dos diferenciais de Happy Valley no populoso mundo sinistro, escuro, úmido e frio dos detetives deprimidos é que as ações e personagens têm cotidianidade diversa da de River ou dos Nordic Noirs tipo BronIBroen. E isso não é crítica negativa a esses shows, que amo muito demais da conta. É que Happy Valley mergulha numa Inglaterra de classe média baixa, onde o sotaque é difícil de entender até pra falantes nativos (reclamações abundaram nos jornais britânicos), onde a porrada e a droga comem soltas e os policiais também sofrem, porque são parte do tecido social. Embora tenham autonomia de policial, claro, são afetados pela desgraceira reinante. Os diálogos são de uma sinceridade brutal e se você esperar pra ver no nosso inverno, sugiro muito chá, pra entrar no clima, porque a todo momento há o fatídico “would you like a cuppa tea?”
Outro trunfo é que não há verdades incontestáveis. A beatitude da falecida filha de Cawood é questionada pelo irmão, que em mais de uma cena despeja a bile do ressentimento na mãe que o negligenciou após o suicídio da filha. Happy Vallley é pra quem tem estômago bom pra alguma violência e realismo. Nesse universo dramático não há espaço pro “tudo vai ficar bem”, açucaramento irritante de tantos roteiros.
I strongly recommend it, luv (atenção pro número de vezes, que usam luv, supercomum na Inglaterra.) E se é pra ser infeliz, escolheria ser miserável em Happy Valley, pra poder ser consolado pela DS Catherine Cawood e ficar amigo dos Gallagher. Amei demais.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

CAIXA DE MÚSICA 213 (ALBINA)

Elric de Melniboné - A Traição ao Imperador - Livro 1
Roberto Rillo Bíscaro

 Há algumas semanas, resenhei o livro Elric de Melniboné – A Traição ao Imperador, V.1, cujo protagonista é albino (leia aqui). Como a literatura sempre influenciou o mundo do rock, as tramas e heróis de Moorcock inspiraram mais de um roqueiro; alguns até trabalhando com o próprio escritor como letrista. Vejamos alguns exemplos: 

Em 1985, o Hawkwind lançou The Chronicles of the Black Sword, baseado na personagem e com letras do próprio Moorcock, que já colaborara com os space rockers anteriormente. Em 1980, o Blue Oyster Cult, lançou Black Blade, presente no álbum Cultösaurus Erectus. A espada negra, claro, é Sotrmbringer e a letra é de Moorcock, que também colaborara com a banda antes.  
Em 1982, os metallers britânicos do Diamond Head lançaram o álbum Borrowed Time, onde muitas letras e arte da capa são inspiradas em Elric.  
Em 1985, os thrashers/black metallers norte-americanos do NME lançaram canção intitulada Stormbringer. Os alemães do Blind Guardian escreveram diversas canções baseadas em Elric, como esta, por exemplo: Os italianos do Domine escreveram mais de um álbum baseado na obra de Moorcock. Este de 97, por exemplo, usa o conceito de Campeão Eterno do escritor, no título do LP: O terceiro lançamento dos speed metallers do Skelaton, Agents of Power (2012), contém longa suíte com a saga de Elric. Os sérvios do Numenor inspiraram seu black metal épico mais de uma vez na obra de Moorcock, inclusive o álbum do ano passado chama-se Sword and Sorcery (Espada e Feitiçaria), elementos citados o tempo todo nos livros do inglês: Ativa na segunda metade dos 90’s, os death/black metallers suecos do Sacramentum basearam algumas das canções de seu derradeiro álbum, The Black Destiny (1999), na obra de Moorcock. Quando a banda de power metal grega Battleroar estreou no mundo do LP com o álbum homônimo de 2003, inseriram a canção Mourning Sword, sobre Stormbringer: Os britânicos do Magnum homenagearam a espada Stormbringer nessa canção funekada: O álbum Stormbringer (1974), do Deep Purple nada tem a ver com a espada homônima dos livros de Elric. Na época, David Coverdale afirmou que soube da existência do livro Elric of Melniboné após o lançamento do álbum.

domingo, 10 de abril de 2016

PINTANDO O AUTISMO

Conheça Daniel, 14 anos, que tem autismo, mas se expressa através da pintura, desenho, escultura e agora um novo talento. Descubra qual, assistindo ao vídeo.

sábado, 9 de abril de 2016

ALBINO GOURMET 202

quinta-feira, 7 de abril de 2016

TELONA QUENTE 153

Roberto Rillo Bíscaro

Sou bem pós-Beatles. Concordo com tudo sobre a importância dos 4 de Liverpool, mas cantarolo quase nenhuma de suas canções, exceto o refrão de Strawberry Fields, que vira “slasher films forever, slasher films forever”. Como esta é não a Caixa de Música, a anedota serve pra dimensionar meu apreço pelo subgênero de horror hegemônico nos primeiros anos dos 80’s e que desde então está mais ou menos presente nas telonas e linhas.
Deve ser ponto pacífico que Halloween (1978) estabeleceu as regras do slice’n’dice clássico, além de criar uma das franquias da trindade slasher oitentista (as outras 2 são Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, que não é bem slasher). Como tudo tem antecedentes, tenho apontado alguns em resenhas, como O Caso dos Dez Negrinhos, livro de Agatha Christie e o pouco visto The City That Dreaded Sundwon (1976), cujo assassino com saco de batata na cabeça, lembra o Jason Voorhees da segunda Sexta-Feira 13.
Em meio a frenesi slasher, revi o canadense Black Christmas (1974), na época desprezado pelo mainstream, mas visto por gente antenada que percebeu sua originalidade e o usou como referência. Quando a ficha dos críticos caiu, “reavaliaram” a película, que passou a ser cult. John Carpenter e o comediante Steve Martin estão entre os fãs desse quieto suspense
psicológico invernal, introdutor de mais de um tropo cinematográfico.
Numa pequena cidade universitária, um maníaco faz ligações telefônicas obsceno-ameaçadoras e eventualmente invade incógnito uma república de moças, as famosas sororities, que ambientaram mais de um slasher e até série recente de TV (Scream Queens). Ambientado no feriado escolar do Natal, o filme abre com o maluco subindo uma escada e infiltrando-se no casarão, onde matará um punhadinho (body count e gore não importam pra essa produção independente e de baixo orçamento).
A câmera se movimenta/posiciona sob o ponto de vista do assassino, o qual ouvimos até ofegar. Uma data festiva é escolhida como forma de chocar e marketear, mas também como desculpa pra personagens não serem percebidas como mortas e também com motivação simbólica, porque paralelo ao nascimento de Jesus, há uma gravidez envolvida (não tema, porque não há discussão pseudo-filosófica). Há personagem beberrona e boca suja que serve como alivio cômico. Há moça mal-comportada que morre. Há adultos/autoridades que custam a acreditar nos jovens. Black Christmas é minicompêndio de ideias reaproveitadas/rearranjadas por Carpenter em Halloween e depois cristalizadas em clichês. Destarte, Black Christmas tem função também didática.
A insanidade do psicopata ao telefone incomoda ainda hoje e o final ambíguo e aberto também virou obrigatório na futura era das franquias. Roteiro batuta esse de A. Roy Moore!
No elenco, o uma vez ubíquo John Saxon, d’A Hora do Pesadelo; a Lois Lane da geração hoje 50tona, Margot Kidder (que também estaria no Amityville original) e a Julieta de Zefirelli, Olivia “minha carreira então já naufragara” Hussey. 

Dia 25 de dezembro de 2006, pra desgosto de grupos religiosos que protestaram e ajudaram na divulgação de seu desafeto, foi lançado Black Xmas, anunciado como “livremente” baseado no filme de Bob Clark. 9 anos se passaram até que eu perdesse o medo de ver o que fizeram com a preciosidade canadense. Vi as 2 versões duma enfiada, como fiz com A Hora do Pesadelo e concluo que se não tivessem incitado a comparação com o original e se o final não tivesse sido forçado demais até pra padrões slasher, o filme poderia ganhar um 6,5 ou 7.
Bobagem acreditar que Black Xmas criaria tantos clichês ou seria tão original quanto sua matriz, mas quem trouxe sobre si o peso da inevitável comparação foi a própria produção, então que arque com ele. Há a república de moças, é Natal, há um maníaco a solta, mas o que Black Christmas deixava a nossa imaginação – talvez por falta de grana? – Black Xmas irritantemente tenta explicar.
No filme de 1974, o maluco fala sobre Billy e Agnes ao telefone por mais duma vez. Se nem ele sabemos quem é, imagine se o roteiro se preocupou em explicar sobre os 2 citados. Na era CSI, onde tudo tem que ser esmiuçado, Black Xmas gasta um tempão concretizando e explicando o demente, Billy e Agnes. Por que não pegaram essa ideia, então, e desenvolveram um roteiro original? Talvez ficasse até slasher decente, mas atrair a comparação com o misterioso original só prejudicou o remake, entulhado de detalhes e elementos que nem fazem sentido. Se em 74, a tônica era menos é mais, em 2006, mais virou menos. Pra que aquele final com ressurreição demais até pra slasher?
Sem contar que a produção é certinha demais. Isso até daria pra passar, porque tem um par de mortes legaizinhas, mas o acima pôs muito a perder. Tem a scream queen Katie Cassidy (essa menina estava em todo slasher da década passada?), mas parece festa de Natal de escritório, ou seja, caretão. Pra treinar o espanhol nessa versão que espero esteja completa, serve,

quarta-feira, 6 de abril de 2016

ALIEN NADA!

'Peixe alien' pescado no México era na verdade um raro tubarão albino

No início da semana um pescador fisgou um estranho peixe na costa de Cabo, no México. As imagens revelam uma criatura rosa e branca com olhos que parecem muito 'alienígenas' e um umbigo muito dilatado. As informações são do Mail Online.
Chamado de "Peixe Alien", o animal na verdade foi identificado como um raro tubarão albino. A espécie se enche de ar ou água através do umbigo para fugir de predadores. A aparência estranha, explicam os cientistas, é pelo motivo de que o tubarão tinha falta de pigmentação.
Normalmente, os tubarões desta espécie têm uma cor amarelada, com manchas pretas. A coloração rosa significa que o animal pescado não tinha quase que nenhuma pigmentação na pele. Eles são comumente encontrados nas águas da Califórnia (EUA) até o Chile.

CONTANDO A VIDA 145

Em época de explosiva polarização político-ideológica, nosso historiador-cronista fala sobre canções que expressam diferentes visões de Brasil, or críticas, ora ufanistas.   

O PAIS TROPICAL MOSTRA SUA CARA. MOSTRA?

José Carlos Sebe Bom Meihy
                                       

Nossa! Como nós brasileiros somos complicados! A realidade miúda do dia a dia político e a polarização de percepções a favor ou contra o governo, convidam a colocar à contrapelo os estereótipos consagrados em canções que destilam alegria e ufanismo nacionalistas. Boa mostra disso são, por exemplo, os versos assinados por Jorge Benjor e Wilson Simonal, “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Muitas outras letras de músicas se somam nessa direção, como é o caso dado por João de Barro que, inspirado em Casimiro de Abreu, repetia “Todo mundo canta sua terra/ Eu também vou cantar a minha/ Modéstia à parte seu moço/ Minha terra é uma belezinha”. Em contraste, esquecendo-se dessas marcas exaltativas, é exagerado o ódio expresso em frases panfletárias, piadinhas causticas, ironias baratas, contra ou a favor do governo. Não precisamos de muito esforço para lembrar de outras canções que dialogam com tantas triunfantes, mas na direção contrária.  Entre dúzias, duas remetem à contramão da positividade alienante, uma delas é “Querelas do Brasil”, parodiando a “Aquarela do Brasil de Ari Barroso”, onde Aldir Blanc, imortalizou na voz de Elis Regina versos implacáveis “O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil/ Tapir, jabuti, liana, alamandra, alialaúde/ Piau, ururau, aqui, ataúde/ Piá, carioca, porecramecrã/ Jobim akarore Jobim-açu/ Oh, oh, oh/ Pererê, câmara, tororó, olererê/ Piriri, ratatá, karatê, olará/ O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil ta matando o Brasil/ Jereba, saci, caandrades/ Cunhãs, ariranha, aranha/ Sertões, Guimarães, bachianas, águas/ E Marionaíma, ariraribóia/ Na aura das mãos do Jobim-açu/ Oh, oh, oh/ Jererê, sarará, cururu, olerê/ lablablá, bafafá, sururu, olará/ Do Brasil, SoS ao Brasil/ Do Brasil, SoS ao Brasil/ Do Brasil, SoS ao Brasil/
Tinhorão, urutu, sucuri/ O Jobim, sabiá, bem-te-vi/ Cabuçu, Cordovil, Cachambi, olerê/ Madureira, Olaria e Bangu, Olará/ Cascadura, Água Santa, Acari, Olerê/ Ipanema e Nova Iguaçu, Olará/ Do Brasil, SoS ao Brasil/ Do Brasil, SoS ao Brasil”. Não bastasse este nada gentil tapa na cara, Cazuza, George Israel e Nilo Romero se juntaram para dizer na canção chamada “Brasil” o seguinte: “Não me convidaram/ Pra essa festa pobre/ Que os homens armaram pra me convencer/ A pagar sem ver/ Toda essa droga/ Que já vem malhada antes de eu nascer”.

É verdade que nunca ousamos opor uma linhagem de pensamento musicado a outro. Pelo contrário, o que fazemos é alternar aleatoriamente uma ou outra postura, de acordo com o tônus do momento. E isto até se explica, pois vivemos em um país que, como nos avisou Tom Jobim “não é para principiantes”. Não mesmo. Somos complexos e complicados, contraditórios e, assim, fazemos jus ao título dado por Sergio Buarque de Holanda com nos chamou de “homens cordiais”, emotivos e apaixonados. Pois é, nossa lógica é disparatada e essa constatação, aliás, faz recordar outra referência musical, da lavra de Tim Maia que dizia que “o Brasil é o único país do mundo onde puta tem orgasmo; cafetão sente ciúme e traficante é viciado”. Ancorado nessa premissa, Ancelmo Góis, jornalista d’O Globo, expressa espanto ao constatar que não dá para compreender um país onde detratores de atrizes negras nas redes sociais são mais escuros dos que as lindas morenas que eles tentam diminuir. Outro exemplo acachapante se repete na composição da atual Comissão do Impeachment composta por, nada mais nada menos, de um tipo como Paulo Maluf. Entre uma conduta exaltativa e outra desairosa, resta esperar que alguém faça uma nova canção, dando conta de nossas ambiguidades. Mas, como colocar em um só verso a esperança reconhecida e o ódio incrustado? Se alguém souber, ajude a nação que está mais perdida do que nunca.  

terça-feira, 5 de abril de 2016

TELINHA QUENTE 206

Roberto Rillo Bíscaro

“Commissario Montalbano Sono!”

A boa impressão deixada por Il Commissario De Luca, o gosto de explorar águas pouco conhecidas e divulgadas e a necessidade de diversificar as postagens sobre televisão, muito centradas em séries policiais de Nordic e Celtic Noir ultimamente, levaram-me a ver diversas temporadas de Il Commissario Montalbano, que, anualmente desde 1999, aparece em 3 ou 4 episódios de duração de longa-metragem na TV italiana.
Baseado no detetive dos romances e contos de Andrea Camilleri, o careca Salvo Montalbano chegou até às telas da BBC, em 2008, seguindo a trilha legendada aberta por Forbrydelsen. A série, no entanto, tem muito mais a ver com as clássicas histórias de detetive-gênio, que remontam a Edgar Allan Poe, do que com a soturnidade escandinava. Montalbano é como se fosse um herói de Agatha Christie, mas falando alto, gesticulando muito e comendo macarrão; traços pra dar cor local a uma personagem velha conhecida do subgênero policial.
Os primeiros episódios trazem um Salvo não muito simpático, assumidamente egocêntrico e o tom é mais soturno e “filosófico” do que as temporadas seguintes. Essas explodem em cores e sóis sicilianos, Montalbano fica adorável, embora explosivo, há diversos alívios cômicos, muita gente bonita, gritaria italiana e comida e vinho. O contraste com os congêneres anglo-escandinavos é gritante: Montalbano interroga suspeitos em cafés, discute seus casos em restaurantes e até instiga um policial casado a dormir com uma ricaça ninfomaníaca pra arrancar-lhe informações. Imagine se Saga Norén falaria pra Martin Rohde trair a esposa (se bem que nem precisou...). O relacionamento dele com o legista também choca, porque às vezes, o velhote se recusa a dar informações. OK que esse antagonismo amigável seja parte da parte supostamente cômica do show, mas há momentos não críveis.
De modo geral, Il Commissario Montalbano garante bons momentos, mas há muitos episódios que poderiam ser mais curtos. Algumas tramas pessoais às vezes tomam tempo demais a ponto de perceber que o roteiro tá enchendo linguiça duma história que não tem tanto sumo. Outro desabono pralguns espectadores será que as soluções normalmente brotam da mente privilegiada de Salvo sem que pistas nos tenham sido dadas pra concluir pelo menos uma parte. Típico Agatha Christie que escondia informações do leitor. Montalbano sempre reconstrói as causas e circunstâncias dos crimes com minúcia inverossímil. Enfim, a série é fantasia policial sob o sol da Sicilia, não espere muito mais.
Este ano saíram uns 2 episódios e ano que vem tem mais. Além disso, como no modelo Inspector Morse, a RAI fez uma série sobre o jovem Montalbano. Mas, essa não creio que assista. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

CAIXA DE MÚSICA 212

K. Michelle, More Issues Than Vogue.jpg
Roberto Rillo Bíscaro

Antigamente havia profusão de divas negras no mercado corporativo norte-americano. Hoje, a maioria grava por selos independentes e as poucas restantes sofrem grandes imposições das gravadoras. O mercado é dominado por “brancas com vozes negras”, como Adele. Às negras com vozes negras resta se promover mediante reality shows e aproveitar o pouco espaço ainda existente fora do circuito indie. Esse é o panorama descrito por quem têm aberto a boca contra essa situação, tipo Jazmine Sullivan e K. Michelle.    
Esta última está de volta com o criativamente intitulado More Issues Than Vogue (MITV). Como o antecessor Anybody Wanna Buy a Heart? (resenhado aqui), MITV é composto de R’n’B com produção contemporânea e sem faixa dance. K Michelle é diva dramática, não dançável. A treta com Drake ainda rende e os eu-líricos realmente têm muitas questões, daí o trocadilho do título que aproveita 2 sentidos da palavra “issue”: edição e questão (no sentido de problema).
Em canções com arranjos discretos como Ain’t You e Nightstand (pelo menos em boa parte dela), quem conduz a melodia é a poderosa voz de Michelle, que destroça em baladaças dramáticas como These Men e All I Got. Lentas arrasadoras não faltam, às vezes com pitadas de outros subgêneros, como If it Ain’t Love e sua guitarra country. Em Make The Bed a influência é power pop de matriz africanizada comum nos 80’s. Tem até corinho feminino de oh oh oh no fundo.
Apesar de contemporâneo, o soul de K. Michelle sabe que pertence a tradição muito rica. A abertura de Time parece Philly Soul e Not a Little Bit é sonho black: abre com piano elétrico, segue como R’n’B bem atual pra dali a pouco entrar um coro feminino com o refrão, saído da lavra celeste da época em que Diana Ross duetava com Marvin Gaye, em You Are Everything. Pra apertar repeat, ajoelhar-se e ouvir olhando pro céu.   
Recheado com letras sobre relacionamentos, a exceção fica por conta de Rich, R’n’B ostentação pra essa época onde tantos escondem seu complexo de inferioridade projetando poder mais fingido que real. Pra cantar dando muitos beijinhos nos ombros.


Álbuns como os de Vivian Green, Lizz Wright, Maysa Leak - e hoje esta maravilha da K. Michelle - só provam a sacanagem de privar o mundo de  divulgação pra essas vozes fenomenais. No que depender deste blog, divas negras sempre imperarão!

domingo, 3 de abril de 2016

TRÍPLICE SUPERAÇÃO

Conheça os irmãos cearenses, Onofre, Reinaldo e Leandro, que ficaram cegos, aprenderam a tocar instrumentos na raça e hoje dão shows.

sábado, 2 de abril de 2016

ALBINO GOURMET 201