quinta-feira, 17 de maio de 2018

TELONA QUENTE 236


Roberto Rillo Bíscaro

Os filmes com orçamento parco eram – não sei se ainda são - informalmente chamados de cheapies (do adjetivo barato) nos anos 1950, quando muito da produção de ficção-científica se encaixava nessa categoria.
Produzidos por estúdios independentes – mas nem sempre – essas películas reciclavam cenários de outras produções, faziam muitas cenas noturnas ou brumosas pra disfarçar a pobreza do cenário e também pra poder gravar em estúdios, onde era fácil conseguir tal ilusão. Externas são mais caras, porque implicam, dentre outras coisas, pagar logradouros, obter permissões, sem contar o deslocamento de equipes e equipamentos.
Dessa categoria é O Homem do Planeta X (1951), que se aproveitou, como diversos outros, do temor causado pela explosão de relatos de aparições de discos-voadores. O orçamento de pouco mais de 50 mil dólares era escasso mesmo pros padrões da época. Por exemplo, Rocketship X-M, onde já se nota mambembice, custou quase o dobro.
Os minguados recursos determinam que os enredos dessas produções amiúde se desenrolassem em localidades remotas, assim se poupava com extras. Daí, ocorre aquela contradição muito engraçada de tantos filmes de invasão alienígena. Civilizações supostamente ultra-avançadas, poderosas e inteligentes escolhem começar seu domínio da Terra numa aldeia perdida no meio do nada, com apenas uma espaçonave tripulada por um ET. Não diferente da “vida real”, com relatos de OVNIs que aparecem pra zé-ruelas que não influem nem na família, mas recebem mensagens de ETs tecnologicamente séculos-luz adiante de nós.
No caso de The Man From Planet X, o mundo estava a poucas horas de estar o mais próximo possível do tal planeta X, quando numa afastada ilha escocesa, nave com seu respectivo tripulante misterioso são descobertos. Nada de debochar da inocência do roteiro a partir de suposta superioridade contemporânea: ano passado mesmo, um maluco inglês (note que não foi de país “subdesenvolvido) disse que o mundo acabaria, porque se chocaria com o tal de Nibirú. Vai vendo a patetice...
O ET é capturado, mas um cientista do mal o agride pra tirar-lhe os segredos. O mais importante deles é que os habitantes do planeta X tencionavam colonizar a Terra, porque seu planeta estava em processo de congelamento. A criatura tinha o poder de zumbificar as pessoas, submetendo-as a sua vontade, mas parece que esta não era muito forte, porque as informações sobre a invasão são arrancadas de um hipnotizado com a maior facilidade. Bastou perguntar e o suposto dominado deu a ficha completa.
Com atores norte-americanos nem sempre se saindo bem no sotaque escocês, The Man From Planet X não é essencial prum panorama dos anos 50, mas cultores de obscuridades e de sci fi da década poderão apreciar.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

VIOLÊNCIA CONTRA ALBINO NO MALI



Corpo de albino encontrado sem cabeça nem membros a leste de Bamako


O corpo de um albino adolescente foi encontrado completamente mutilado sábado em Fana, na região de Koulikoro, a leste de Bamako, soube a PANA de fonte oficial no local.

A descoberta deste corpo sem cabeça nem membros muito menos os órgãos genitais suscitou a ira dos habitantes de Fana que consequentemente vandalizaram, domingo último, uma brigada de gendarmaria, de acordo com a fonte.

As populações furiosas incendiaram igualmente três veículos e uma dezena de motorizadas, libertaram supostos detidos da brigada da gendarmaria antes de destruírem hóteis e bares da cidade considerados como “ninhos” de bandidos, indica a mesma fonte, acrescentando que que não houve perdas de vidas humanas.

As populações de Fana, localidade situada a cerca de 120 quilómetros a leste de Bamako, na estrada de Segou (centro), organizaram uma manifestação de protesto para exprimir o seu descontentamento face aos múltiplos crimes no local e à passividade da gendarmaria.

Informado, o administrador da circunscrição de Dioila, Dedeou Bagna Maiga, que tutela Fana, mobilizou elementos das forças de segurança e da proteção civil a fim de proteger edifícios públicos antes da chegada do governador da região de Koulikoro, e acalmar os espíritos.

Uma mulher e seu filho foram encontrados decapitados nesta mesma localidade, há um pouco mais de um mês.

Segundo algumas fontes, estes crimes odiosos obedecem a sacrifícios recomendados por feiticeiros e por outros iluminados para necessidade de enriquecimento ou de busca de poderes malignos. (Panapress)

CONTANDO A VIDA 232


VELHOS AMIGOS VELHOS

José Carlos Sebe Bom Meihy

Acostumados a ver tudo pelo momento presente, por vezes esquecemo-nos da fatalidade implacável do tempo e, assim, deixamos escorrer da memória lembranças explicativas do que nos tornamos. Pensando a vida familiar, por exemplo, visitando o passado, indago do significado dos antigos encontros festivos. Aliás, mesmo frente ao dia a dia, sintonizo mudanças e me encanto com pormenores que espantam o perverso esquecimento. Como eram nossas refeições diárias, as dificuldades da cozinha sem a panela de pressão, sem o fogão a gás, os quitutes preparados com muito menor número de temperos e variantes!... Mesmo a água ou o leite não industrializados, a inexistência de refrigerantes, as sobremesas do tempo da vovó, tudo vai ficando reduzido a sensações. Só. Nossa, como as coisas mudaram... Aprender lidar com dinheiro era muito mais complicado, pois não se falava em mesada e tudo era contadinho, com prestação de contas: tanto para o ingresso do cinema, tanto para bala, pipoca, e o troco dado para mamãe ou papai... Os Natais eram celebrados sim, mas com medidos gastos, tudo bem mais simples. Os aniversários tinham bolos e docinhos, mas feitos em casa e com receitas copiadas à mão, em cadernos domésticos. Eu tinha roupa de domingo e lembro-me bem do cuidado que deveria ter com os sapatos e meias novos. Falando dessas coisas, parece que os séculos se sucederam em infinitos mais perdidos do que supomos, contudo não foi bem assim.

Pois é, a geração que hoje passa dos sessenta anos tem apagados os sentidos das alterações. O consumismo foi se instalando tão sutilmente que nem notamos que, aos poucos, às vezes sem querer, deixamos de ter pouca coisa e multiplicamos produtos trocados velozmente e que perdem valor de estima. Nessa onda, os descartáveis viraram mania e nos viciamos em novidades que carecem de apreço. Falar dessas coisas soa saudosista e até melancólico, mas é importante avaliar como em uma geração deixamos de ser modestamente cuidadosos para nos tornar modernos e pródigos. Quem não se surpreendeu perguntando como vivia sem televisão, internet, telefone sem fio ou celular? Ser do tempo da “máquina de retrato”, dos “cursos de datilografia”, do “footing na praça”, virou coisa de “novela de tempo”. Causa espécie a facilidade com que nos atualizamos e então, ver essas coisas como curiosidades se transformou quase em poesia diletante. Por favor, não pensem que estou no time dos que evocam o passado como um programa de vida. Busco me atualizar, mas historiador, me resta convocar o sentido das mudanças para propor entendimento dos processos. Em países como o Brasil, as alterações são muito bruscas e até sinistras.

Sabe por que estou retomando tudo isso? Aconteceu em minha vida pessoal algo inusitado. Há duas semanas, depois de 19 anos, resolvi voltar a um lugar que fez parte da história de minha geração. Interiorano, integrante de uma classe média que se fez no processo de industrialização apressada no Vale do Paraíba, o litoral era perfeita alternativa de férias, um paraíso que, além das belezas, promovia aventuras ousadas, dessas experimentadas pela juventude que crescia na evolução econômica do país. Coincidentemente, minha família, por força do comércio, funcionou um pouco como pequeno agente dessas alterações. Investindo no ramo hoteleiro, desde logo o papel familiar se repartiu entre promotores e usufrutuários de tudo. E me afeiçoei às praias, às mudanças de sintonia entre a pacatez da cidade original e os avessos permitidos nas férias. Como consequência dos negócios, meu pai acabou por propor a construção de um edifício de apartamentos onde mantivemos algumas unidades. Casado eu, minha mulher e filhos aproveitamos muito do nosso quinhão, até que uma reforma completa se fez projeto de minha mulher que morreu em seguida. Viúvo, retornei uma vez ao local, e me propus a não mais repetir a experiência. Doeu muito. Demais. Tanto que optei por evitar voltas. E por longos anos cumpri minha promessa pessoal. Passado tempo considerável, porém, resolvi enfrentar o problema. Intuitivamente medroso, convoquei um amigo querido e saudoso para um encontro lá. Amável, o colega convidou dois outros e, não mais que de repente estávamos os quadros em torno de uma mesa. É preciso dizer que a cidade praiana se tornou refúgio de alguns aposentados e cheia de restaurantes modernizou-se aprazível, também como lócus de pós-aposentados, como os colegas.

O inédito da situação provocou revisões de cada qual. O primeiro tema foi saúde. Diria que demoramos muito tempo conferindo debilidades. Todos tínhamos uma historinha para contar. Um falou da próstata, outro de deficiência imunológica, outro de coluna, e eu do coração. Celebramos, contudo, os anos passados e retraçamos trajetos: filhos, dilemas familiares, perspectivas para a velhice que nos resta. É preciso dizer que os componentes do pequeno grupo têm severas diferenças ideológicas. Vivemos, contudo, o pressuposto científico que garante que os opostos se atraem. Diria mais até: se completam, e são até mesmo capazes de gerar luz. Foi assim que nos entreolhamos, nos abraçamos na hora da foto e permanecemos emocionadamente unidos pelos séculos e pelas diferenças. Amém...  

VELHOS AMIGOS VELHOS José Carlos Sebe Bom Meihy Acostumados a ver tudo pelo momento presente, por vezes esquecemo-nos da fatalidade implacável do tempo e, assim, deixamos escorrer da memória lembranças explicativas do que nos tornamos. Pensando a vida familiar, por exemplo, visitando o passado, indago do significado dos antigos encontros festivos. Aliás, mesmo frente ao dia a dia, sintonizo mudanças e me encanto com pormenores que espantam o perverso esquecimento. Como eram nossas refeições diárias, as dificuldades da cozinha sem a panela de pressão, sem o fogão a gás, os quitutes preparados com muito menor número de temperos e variantes!... Mesmo a água ou o leite não industrializados, a inexistência de refrigerantes, as sobremesas do tempo da vovó, tudo vai ficando reduzido a sensações. Só. Nossa, como as coisas mudaram... Aprender lidar com dinheiro era muito mais complicado, pois não se falava em mesada e tudo era contadinho, com prestação de contas: tanto para o ingresso do cinema, tanto para bala, pipoca, e o troco dado para mamãe ou papai... Os Natais eram celebrados sim, mas com medidos gastos, tudo bem mais simples. Os aniversários tinham bolos e docinhos, mas feitos em casa e com receitas copiadas à mão, em cadernos domésticos. Eu tinha roupa de domingo e lembro-me bem do cuidado que deveria ter com os sapatos e meias novos. Falando dessas coisas, parece que os séculos se sucederam em infinitos mais perdidos do que supomos, contudo não foi bem assim. Pois é, a geração que hoje passa dos sessenta anos tem apagados os sentidos das alterações. O consumismo foi se instalando tão sutilmente que nem notamos que, aos poucos, às vezes sem querer, deixamos de ter pouca coisa e multiplicamos produtos trocados velozmente e que perdem valor de estima. Nessa onda, os descartáveis viraram mania e nos viciamos em novidades que carecem de apreço. Falar dessas coisas soa saudosista e até melancólico, mas é importante avaliar como em uma geração deixamos de ser modestamente cuidadosos para nos tornar modernos e pródigos. Quem não se surpreendeu perguntando como vivia sem televisão, internet, telefone sem fio ou celular? Ser do tempo da “máquina de retrato”, dos “cursos de datilografia”, do “footing na praça”, virou coisa de “novela de tempo”. Causa espécie a facilidade com que nos atualizamos e então, ver essas coisas como curiosidades se transformou quase em poesia diletante. Por favor, não pensem que estou no time dos que evocam o passado como um programa de vida. Busco me atualizar, mas historiador, me resta convocar o sentido das mudanças para propor entendimento dos processos. Em países como o Brasil, as alterações são muito bruscas e até sinistras. Sabe por que estou retomando tudo isso? Aconteceu em minha vida pessoal algo inusitado. Há duas semanas, depois de 19 anos, resolvi voltar a um lugar que fez parte da história de minha geração. Interiorano, integrante de uma classe média que se fez no processo de industrialização apressada no Vale do Paraíba, o litoral era perfeita alternativa de férias, um paraíso que, além das belezas, promovia aventuras ousadas, dessas experimentadas pela juventude que crescia na evolução econômica do país. Coincidentemente, minha família, por força do comércio, funcionou um pouco como pequeno agente dessas alterações. Investindo no ramo hoteleiro, desde logo o papel familiar se repartiu entre promotores e usufrutuários de tudo. E me afeiçoei às praias, às mudanças de sintonia entre a pacatez da cidade original e os avessos permitidos nas férias. Como consequência dos negócios, meu pai acabou por propor a construção de um edifício de apartamentos onde mantivemos algumas unidades. Casado eu, minha mulher e filhos aproveitamos muito do nosso quinhão, até que uma reforma completa se fez projeto de minha mulher que morreu em seguida. Viúvo, retornei uma vez ao local, e me propus a não mais repetir a experiência. Doeu muito. Demais. Tanto que optei por evitar voltas. E por longos anos cumpri minha promessa pessoal. Passado tempo considerável, porém, resolvi enfrentar o problema. Intuitivamente medroso, convoquei um amigo querido e saudoso para um encontro lá. Amável, o colega convidou dois outros e, não mais que de repente estávamos os quadros em torno de uma mesa. É preciso dizer que a cidade praiana se tornou refúgio de alguns aposentados e cheia de restaurantes modernizou-se aprazível, também como lócus de pós-aposentados, como os colegas. O inédito da situação provocou revisões de cada qual. O primeiro tema foi saúde. Diria que demoramos muito tempo conferindo debilidades. Todos tínhamos uma historinha para contar. Um falou da próstata, outro de deficiência imunológica, outro de coluna, e eu do coração. Celebramos, contudo, os anos passados e retraçamos trajetos: filhos, dilemas familiares, perspectivas para a velhice que nos resta. É preciso dizer que os componentes do pequeno grupo têm severas diferenças ideológicas. Vivemos, contudo, o pressuposto científico que garante que os opostos se atraem. Diria mais até: se completam, e são até mesmo capazes de gerar luz. Foi assim que nos entreolhamos, nos abraçamos na hora da foto e permanecemos emocionadamente unidos pelos séculos e pelas diferenças. Amém...

terça-feira, 15 de maio de 2018

TELINHA QUENTE 309



Roberto Rillo Bíscaro

O fenômeno classe-média de abandonar os centros urbanos e se refugiar em áreas ao redor, chamadas suburbs intensificou-se a partir da bonança econômica do pós-Segunda Guerra, nos EUA. Depois, irradiou-se para o mundo, inclusive em países que cabem dentro de pequenos estados ianques, como a teteia Holanda.
Atualmente, tais aglomerados urbanos são rodeados por muros e protegidos por guaritas, a fim de manter os bichos-papões para fora. Mas, e se as cercas servirem para mantê-los dentro, pergunta-se personagem de Safe, minissérie disponibilizada no catálogo da Netflix, dia 10 de maio.
Criada pelo escritor norte-americano Harlan Coben, coproduzida com o canal francês C8 e ambientada majoritariamente num condomínio em algum lugar inespecificado da Inglaterra, Safe prende e permite maratona, mas é tão genérica quanto o sotaque britânico de laboratório de Michael C. Hall. Críticos têm atacado o ator de Dexter por isso, mas no fim, tem tudo a ver com a produção. Não se sabe onde na Inglaterra se passa a história; não se sabe de que mundo real sairia o sotaque de Hall. Suspeito que ele não tenha pensado nisso, mas daria bom argumento para justificar a artificialidade. Vi no original, porque sou professor do idioma e amo treinar listening, mas se você não tem esse compromisso, veja dublada (ou, que tal treinar espanhol?).
Nem a canastrice atroz de Hall consegue estragar Safe, porque o roteirista domina bem as convenções. Há suficientes revelações, desmentidos e reviravoltas para garantir aderência à telinha e ansiedade pelo próximo capítulo, ainda que não dê realmente para se importar com ninguém. Dá até meio medinho de quão mecanicamente Safe consegue nos enredar.
Em seguro condomínio de classe média-alta murado, vigiado por câmeras e trancado por portões, a adolescente Jenny Delaney desaparece. Seu pai, o Dr. Tom, começa investigação paralela e desenreda cadeia de segredos do passado, porque todo mundo tem algo a esconder, inclusive ele. Safe é descendente de influente série britânica, que se for citada em resenha, acaba por entregar o/a assassino(a). Não se preocupe, não estou contando que no fim Jenny esteja morta; há um assassinato numa piscina logo no começo.
Como de gosto na contemporaneidade, o espectador precisa se ajustar ao vaivém temporal, que acontece, especialmente no início dos capítulos, quando ações são repetidas em flashbacks para que percebamos detalhes ou simplesmente para nos fornecer informações sonegadas. Mas, é bem tranquilo essa calibragem, porque já fomos bem domes/sofisticados para isso por tantas séries e filmes.
O elenco é eficiente, com destaque para Amanda Abbington (a Miss Mardle, de Mr. Selfridge, owww!), como a DS Sophie Mason e o sempre competente para papeis de falastrão vulgar, Nigel Lindsay, como Jojo. O negócio é tão bem fechadinho, que quando se resolve a trama e o mundo recebe justiça, você entende porque há um(a) personagem tão inútil, como.... melhor não dizer, senão entrega o jogo.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

CAIXA DE MÚSICA 314

Roberto Rillo Bíscaro

Nascida em 1939, a vida e a carreira de Mavis Staples misturam-se com a ascensão do rhythm and blues e do gospel como influenciadores e geradores de música pop, bem como com o movimento pelos direitos civis, do qual a amiga pessoal de Martin Luther King foi trilha-sonora.

Staples jamais conheceu outra vida senão a de cantora, senão a da estrada. Já aos 11 anos, cantava com a família em igrejas da região de Chicago, onde também participavam dum programa semanal de rádio. The Staple Singers tiveram certo sucesso radiofônico e viraram superestrelas no circuito gospel, excursionando por toda parte durante anos. Quando o maridão lhe deu a escolha de seguir a carreira ou ficar em casa cuidando de família, em 1964, Mavis respondeu com bom pontapé na bunda e desde então não quis mais casamento. Nem com Bob Dylan, que lhe pediu a mão. Os dois permanecem amigos, inclusive, excursionado juntos ano passado.  

Como artista-solo, seu primeiro trabalho saiu em 1969 e desde então tem colaborado com gente do calibre de Prince; cantado com roqueiros, tipo Arcade Fire e sido sampleada por meio mundo. Há alguns anos, iniciou parceria com o branquelo Jeff Tweedy, líder do Wilco.

Bem avançada na septuagenaridade, Mavis não dá sinais de querer parar e dia 17 de novembro saiu seu décimo-sexto álbum solo, If All I Was Was Black, produzido por Tweedy, que compôs quase todas as 10 canções e ainda dueta em Ain't No Doubt About It.

As raízes de Tweedy justificam o country/blues/folk rock da faixa-título e de números como Who Told You So, o dueto e Try Harder. Ao contrário de divas igualmente poderosas do R’n’B que também lançaram trabalhos em novembro (leia sobre o espetacular álbum de Syleena Johnson, aqui), Staples optou por produção nada orquestral, onde menos é mais. Isso funciona em quase todo o álbum, exceto em No Time For Crying, que poderia ter mais peso funk pra combinar melhor com a mensagem ativista da letra. Do jeito que está, a canção fica parecendo mais longa do que realmente é, porque meio monótona.

Desencantada com a vitória do racista Trump, a profusão de fake news (não só na internet) e a escalada da violência contra afrodescendentes, não dá pra esquecer o conteúdo político das letras, ainda que bem genéricas. Sonicamente essa tensão relatada em palavras não encontra melhor transliteração do que na abertura, Little Bit, onde guitarras duelam em cada lado de seu ouvido. Mas, os instrumentos não estão em chave rock metal, mais pra blues.

Staples não vem irada; tá nervosa e desencantada, mas letras como as de We Go High (Michele Obama, hello!), Build a Bridge e da gospel Peaceful Dream, tem um quê super Kumbaya anos 60. Será mesmo que quem espalha notícias falsas não sabe o que faz, como afirma We Go High? Esperemos que tendo vivido e militado em dias bem piores pros afrodescendentes, Mavis saiba o que diz. 

domingo, 13 de maio de 2018

A SUPERAÇÃO DE RICARDO

Ricardo é filho de surdos-mudos, mas se comunica por sinais com eles numa boa, embora tenha apenas uma mão. E não é só isso: ele também não tem as pernas, mas pega ônibus todo dia para ir à faculdade de jornalismo. Conheça sua história.

sábado, 12 de maio de 2018

ALBINO GOURMET 258

O Manual da Cozinha é um canal do Youtube com mais de 600 receitas fáceis apresentado por Alex Granig, um apaixonado por doces mas que faz de tudo um pouco para agradar aos telespectadores.

Vejamos algumas receitinhas, mas antes, o link pra acesso:

quinta-feira, 10 de maio de 2018

TELONA QUENTE 235

Roberto Rillo Bíscaro

A Bruxa de Blair (1999) não inventou os found footage films, mas foi só a partir dele que o subgênero invocado pelo infame Cannibal Holocaust (1980 – nunca assistirei, porque animais foram mortos de verdade) proliferou-se como piolho. Há mais de um site dedicado apenas a esse tipo de produção, com centenas de entradas no catálogo de diversos países já há quase 20 anos.
Não surpreende que atraia tantos cineastas de fundo de quintal. A desculpa narrativa de imagens e som resgatados dalgum acidente ocorrido com pessoas comuns justifica atuações mequetrefes (naturalistas, é mais politicamente correto) em filmes pavorosos, monótonos e em sua maioria genéricos.
Mas, não é que ainda dá pra garimpar objetos interessantes nessa mina de ouro de tolo? Found Footage 3D apropriadamente estreou no Bruce Campbell Horror Film Festival, em agosto de 2016. Idealizado e dirigido por Steven DeGennaro, é o primeiro found footage em 3D, mas há versão em 2D também, a que vi, aliás, porque não consigo visualizar 3D. Fosse o aspecto técnico o único diferencial de Found Footage 3D, ele não estaria neste blog, que defeca e anda pressas coisas.
O subgênero tem aspecto bastante metalinguístico, porque salienta o filmar, o bisbilhotar a vida/morte alheia mediado por uma câmera. Os found footage films chamam bastante a atenção pra forma. Found Footage 3D (FF3D) dá passinho adiante.
Uma equipe empenhada em gravar o primeiro found footage film em terceira dimensão embrenha-se numa cabana assombrada, no meio duma mata texana. À moda de Pânico, com os slasher films, FF3D salienta algumas convenções de seu subgênero pra satirizá-las e às vezes usando-as pra conveniência de sua própria narrativa. Tipo, por que diabos alguém perseguido por um demônio, correria pela vida, segurando uma câmera? Bem, se for a noite, pode ser pra iluminar o caminho. É bem esperto o roteiro e o fim conseguiu me pregar um susto.
O defeito de Found Footage 3D é que exagera na duração. 108 minutos é tempo demais. 90 estaria de muito bom tamanho.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

RECEPÇÃO ALBINA


No Maru Koala and Animal Park em Grantville, Victoria, um raro wallaby albino foi filmado se alimentando com um grupo de animais da sua espécie, enquanto interagia de forma simpática com os turistas que o rodeavam.

Prepare-se para uma overdose de fofura!

Link de acesso:

terça-feira, 8 de maio de 2018

TELINHA QUENTE 308


Roberto Rillo Bíscaro

Produções escandinavas costumam não guardar pudor por nudez, então, chamou atenção cena onde os adolescentes da recém-lançada The Rain se ducham de cueca e sutiã – dá pra ver uma tetinha e um só, mas bem de leve. Com a difusão de produções locais financiadas pela Netflix, alguém logo equivalerá padronização à netflixação. The Rain é bem feita, prende, é maratonável, mas poderia se passar no Tennessee, na Patagônia ou no outback australiano. Que transcorra na Dinamarca e Suécia é só acidente geográfico, que quem viu dublado pode nem se dar conta e crer produto estadunidense. Algo como, incentivam-se produções locais, desde que não locais.
De certo modo, é pena, porque Dinamarca e Suécia influenciaram deveras a indústria e a estética da TV no último decênio, através de seu Nordic Noir. Em The Rain, a nanica península é que segue a trilha de The Walking Dead e tem até cena remetendo a Cordon.
A população da Escandinávia (do planeta?) foi dizimada por vírus transmitido por chuva geneticamente manipulada. Os irmãos Simone e Rasmus são levados pra segurança de um bunker por seus pais, mas a adolescente e o pivete fazem tantas pirraças estúpidas, perguntas e comentários energúmenos e atos cretinos, que desperta desejo de que além do vírus a precipitação contivesse ácido sulfúrico e os encharcasse até o úmero.
Um problema em The Rain: não há muito com quem se identificar e torcer, porque a idiotia é geral. Simone é a heroína, mas ela faz cada pergunta tola pra coisas que sabe não haver resposta, que fica difícil confiar nela pra repovoar o planeta. Você pode torcer pro vírus, como yo, mas saiba que se a espécie humana desaparecer, o planeta não ficará verdinho como em The Rain. Temos muito veneno hipertóxico estocado, cujos contêineres decompor-se-ão e derreterão tudo. 
Bem, os manos ficam 6 anos no abrigo e quando têm de sair, juntam-se a um bando de sobreviventes, que sai vagando pela Dinamarca/Suécia semidesabitadas, enfrentando perigos como milícias e até comunidade namastênica, do tipo da de Slasher. Aquele episódio é legal, não acrescenta absolutamente nada à jornada, mas é legal. Se você procura por série intelectualizada, The Rain vai aguar seu cérebro.
The Rain não aceita perguntas muito difíceis, senão o roteiro revelará seu absurdo. Por que aquela gente não anda com impermeáveis e guarda-chuvas, se teme aguinha caindo do céu? Se precipitação pluviométrica é o agente contaminador e disseminador do vírus, de que mesmo adianta um muro pra isolar quarentemados? E donde bebem água, se a chuva tá podre? Como ainda dispõem de wi fi e combustível, quando convém? E ainda sobrou comida industrializada comestível depois de mais de meia década?
Enfim, The Rain é olvidável diversão oportunista da modinha dos mundos pós-apocalipse (que nós mais velhos já vivenciamos há décadas). Dá pra seguir sem expectativas e fãs de Scandi Drama curtirão ver rostos de atores queridos, potencialmente sendo reconhecidos mundialmente e não só por nós hipsters que nos gabamos de conhecer BronIBroen, Dicte, Gidseltagningen Jordskott ou Arvingerne. Bem, a não ser que seu tesão seja precisamente ser um dos escolhidos fora da Dinamarca/Suécia que os conheçam.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

CAIXA DE MÚSICA 313


Roberto Rillo Bíscaro

De modo algum soa falsa ou oportunista incursão de Sting pelo reggae. Desde Roxanne ou Walking On The Moon, ouvem-se ecos jamaicanos na música do britânico. Músicos da ilha caribenha reconhecem que a popularização do ska e do reggae mundialmente não se deveu só a Bob Marley, mas também ao superestrelato do Police há 40 anos. Músicos da ex-colônia inglesa já fizeram alguns álbuns-tributo ao trio Sting-Copeland-Summers. Confira os volumes de Reggatta Mondatta: Reggae Tribute Album to The Police ou Spirits In The Material World: A Reggae Tribute To The Police ou ainda The Police in Dub.
Não deve soar como surpresa, portanto, que após retorno de leve ao rock com 57th & 9th, Sting tenha optado por meter seu ferrão no reggae e alguns de seus derivados contemporâneos, através de parceria com o fusionista Shaggy. O resultado é 44/876, que em sua edição de luxo tem 16 faixas.
Bem fácil atirar pedras no álbum. A voz de Sting engrossou e em números como Waiting For The Break Of Day soa despersonalizada (o baixo vai bem, obrigado, confira o reboladão de Fathoms). Shaggy tem voz e pronúncia que irritam muita gente e Sting ainda tenta escorregar prum sotaquinho forçado jamaicano, que dá pra rir. E quando esses dois ricaços reclamam da situação política e, pra fugir dela, vão ao Caribe cantar sobre paz e amor? Mas, há algo de irresistivelmente pop descartável que dá certo charme passageiro a 44/876.
Há reggae e derivados pra diversos gostos. No raggamufin’ da faixa-título, evoca-se o fantasma de Bob Marley, mas o de Peter Tosh assombra a levada de Night Shift. Tem o dancehall de Don’t Make Me Wait e até reggae encontra Carruagens de Fogo (do Vangelis), em Love Changes Everything. Há o skank de Love And Be Loved e muito reggae pop, como Morning Is Coming.
Há o erro de Crooked Tree, onde Shaggy soa como Falcão, numa levada reggae cuja letra simula julgamento onde o jamaicano é o juiz e Sting o condenado. De rir ou chorar.
Embora o título homenageie os códigos telefônicos de seus países de nascimento, Sting e Shaggy amam mesmo são os EUA. Ambos são imigrantes em Nova York. E é em clima super Grande Maçã, que 22nd Street se sobressai. Dá vontade de ouvir passeando por Manhattan; nem Shaggy a estraga. E depois dela vem Dreaming In The USA, que não apenas remete ao clássico Surfin’ In The USA, dos Beach Boys, mas usa harmonias típicas daquele grupo. Soa como Beach Boys encontra The Police com participação de Shaggy. E toma babação de ovo pela terra da liberdade!
Outro ponto alto é o soul mod de Gotta Get My Baby, que teria ficado perfeita no álbum anterior e com parceiro outro, como Paul Weller. Seria um sonho o Modfather duetando essa delícia.
Sting e Shaggy já não são cool pra mocidade hip há tempos (Shaggy nunca foi), mas prum lual quarentão/cinquentão na praia 44/876 serve. Só este ano, porém. Quase tudo estará esquecido em 2019, porque é diversão só pra agora.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

TELONA QUENTE 234


Roberto Rillo Bíscaro

Antigamente era bem mais difícil detectar quando uma produção reciclava cenários ou adereços, porque o único acesso que a maioria do público tinha a filmes era quando exibidos no cinema e, depois, esporadicamente na TV. Daí, entre os meses ou anos que separavam uma assistência da outra, o espectador médio nem se lembrava direito da trama, quanto mais de detalhes técnicos. Hoje é bem diferente, porque mesmo películas antigas estão no Youtube ou podem ser baixadas (embora este blog não aconselhe, porque é contra a lei)
Assistência comparada interessante seria ver Fligh to Mars (1951) imediatamente depois de Rocketship X-M. Apesar de o segundo ser colorido, se você prestar atenção verá quão parco foi o orçamento dado pela Monogram Productions: o interior do foguete é o mesmo de Rocketship, e as roupas dos marcianos idênticas aos uniformes de Destino Lua. Sem contar que os trajes espaciais dos terráqueos em Flight to Mars (FTM) também não passam de roupas de aviador ou bombeiro militar. No Brasil chamado Voo Para Marte, FTM é um dos muitos genéricos da produção sci fi fordista dos anos 1950.
A Terra está prestes a lançar seu primeiro voo tripulado ao planeta vermelho; uma nave com cientistas e um jornalista, onde parece que a maioria se conhece quase na hora do lançamento. Quer mais pragmático e producente do que colocar bando de estranhos confinados, sem teste psicológico ou de convivência? O roteiro de FTM é feito nas coxas, afinal, trata-se dum quickie (do adjetivo rápido), termo também utilizado até hoje pruma trepadinha veloz. Viu, como foi nas coxas? Reza a lenda que TFM levou cinco dias pra filmar.
Uma chuva de meteoros iguais aos de Rocketship X-M, mas vermelhos, avaria a nave, que faz pouso forçado e fica encravada de bico, no que parece ser neve marciana. Se bem que isso não deveria fazer diferença, porque no início um dos cientistas afirmara que não faziam ideia de como retornariam da missão (WTF?).
Em Marte, encontram civilização subterrânea avançadíssima, capaz de extrair oxigênio e comida de pedra, mas não de construir foguetes. Todos falam inglês porque captam as múltiplas transmissões de rádio da Terra, mas sua tecnologia anos-luz mais avançada do que a nossa, não consegue transmitir de volta. O roteiro tem tanta lógica, como possuo pigmento. Os marcianos, iguaizinhos a nós e com mulheres usando microvestido, são supercooperativos, mas logo descobrimos suas segunda intenções. 
FTM perde a graça no terço final, quando vira meio draminha mimimi com sua parte pseudoamorosa. Como o dinheiro acabou, roteiro teve que fazer os atores ficarem conversando vestindo aquelas roupas “futuristas”.
A crítica tem sido demasiado rigorosa com Flight to Mars, porém. Suas roupas coloridas e o nonsense do roteiro ainda dão caldinho gostoso pra fãs de sci fi.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

CONTANDO A VIDA 231


CARLINHOS E O BAR DO BIGODE...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Dia desses, um amigo de juventude, o Carlinhos, melancólico, reclamava numa lista de WhatsApp que, vindo da capital, tendo indo a um barzinho antes muito frequentado na cidade natal, voltou para a casa dos familiares sem sorriso satisfeito, sem emoções remoçadas e apertado pela lacônica saudade do que não reviveu. Foi uma notinha solta que ele postou, e que, aliás, não mereceu comentário algum. Anotei, e no meu recôndito guardei para pensar. E foi assim que o inventei, na cidade por uns dias, buscando logo um espaço que a melhor ilusão recriara, um boteco conhecido como Bar do Bigode, reduto de afetos trançados anos a fio por uma turma que insiste em ainda ser. Não encontrou ninguém da velha guarda e, por certo desapontado, apressou seus passos para casa de familiares, contando alguns vazios: desencontros amistosos, tempo desemedado, lapso das piadas picantes e das novidades presumidas, dos exageros libidinosos segredados, das indiscrições intimas de tantos.

Em minha meditação sobre o caso do amigo revisitador, imaginei que seria uma sexta-feira, um fim de tarde preguiçoso, hora de encontros como nos tempos d’antanhos, onde as vozes podiam sofrer modulações exageradas, sonar palavrões cabíveis, e até gestos inocentemente obscenos. No devaneio de minha constatação, também, por certo medi o caminho gorado do colega e supus que tenha apressado o passo para o aconchego da casa parental que, contudo, seria o avesso perfeito da farra doce dos que perderam há tempo seus 20, 30, 40 anos de convívio. No esforço de memória, comigo mesmo, pensando no camarada entristecido, cheguei a ouvir “conversa de botequim”, do insuperável Noel Rosa e até ressoou em meus ouvidos algumas notas da gravação do MPB4: ô seu garçom faz o favor de me trazer depressa, uma boa média que não seja requentada”... Bastou isso para remontar a vivacidade dos festejos ordinários de encontros marcados pelos relógios de um passado que não merecia virar silente lembrança.

Pensando no amigo, viajei, fui longe como numa sequência de goles de cerveja gelada em dia de calor febril e energia extravagante. E me deixei embeber de saudade de um tempo em que se jogava conversa fora, comentava-se a gostosura das meninas, os carros novos dos ricaços, as manobras dos vereadores, as notas baixas na escola, os primeiros cigarros e a ousadia da ida a zona. E então o debate sobre o futebol era o limite da contenção. Falar alto não era desiquilíbrio, pelo contrário, era entusiasmo apenas contido pela proximidade de uma briga apartada pelos “deixa disto”... E como eram complexas as discussões sobre os jogos, pois ainda que houvesse prevalência de três ou quatro times alternados, presidia o clima de vingança abado por torcidas que vingavam derrotas passadas.

Pois é!... Fiquei pensando no meu amigo que “perdeu a viagem”. Será que ele voltou para a casa e exercitou a solidão dos que não conseguem mais ser o que foram? Ligou a televisão e se empenhou na Netflix em alguns episódios como: “Narcos”, “Perdidos no Espaço”, ou o que é pior, na série “Orange is New Black”, que se arrasta desde 2013? Meu inquieto demônio inquisidor me cutucava com a maldita pergunta: o que mudou? Seria o preço dos produtos, a insegurança? Onde teria ido parar o grupo de amigos tão fieis? Sim, tudo está tão caro, os custos são proibitivos e o medo de assaltos, roubos, estacionamentos, tudo dificultando tanto a soltura das nossas pressões temerosas, a cada dia mais internadas em nossas solidões. E como era bom sentar naquelas cadeiras de botequim. Todo mundo ia para se divertir, bater papo, ter conversa livre, dar risada. Hoje? Os botequins estão vazios, ou pelo menos cada vez menos frequentados. Tudo virou muito protocolar e as conversas são sempre sobre certezas, pontos de vista firmados, definidos. Não se discute, briga-se, e o partidarismo não mais é para ser debatido e sim imposto. E não há como deixar de relacionar o esfriamento dos contatos de botequim com a intensificação das redes sociais. E todos querem resolver as crises políticas, falar de corrupção, evidenciar os mesmos ministros malditos. Carlinhos, acho que tudo está ficando muito chato, e o civismo de botequim não satisfaz mais nada, nem ninguém. Todo mundo anda mal-humorado, ranzinza mesmo, e a guerra entre coxinhas e mortadelas convida à reclusão. Dói-me muito mesmo ter que dizer que sinto saudade dos resultados futebolísticos sempre contestados sobre este ou aquele jogo, sobre a moral da mãe do juiz ladrão, sobre detalhes da vida privada dos jogadores. E assim concluo que não é o preço da cerveja, a insegurança para chegar até o bar e nem a dificuldade de estacionamento. Está chato viver, perdemos a alegria do contato direto, envelhecemos nossas crenças... Sabe, Carlinhos, acho que fizeram o Bigode do Bar do Bigode...

terça-feira, 1 de maio de 2018

TELINHA QUENTE 307

Roberto Rillo Biscaro

Terei que retornar à Argentina, em julho, especificamente pra maratonar séries da Netflix de lá, inexistentes em nosso catálogo. Não estaria mal curtir o inverno portenho tomando chocolate quente e vendo a fartura de suspenses espanhóis e séries doutras partes do planeta.
Garimpeiro de produções de países menos “centrais”, pirei quando vi The Sniffer (2013 -) no catálogo argentino. Duas temporadas duma série ucraniana, dublada em russo, sei lá se porque é mais viável comercialmente ou por causa de tretas entre Rússia e Ucrânia, que dificultem ou impeçam a exibição de programas em idioma X em país Y. Mas, isso é problema deles, até porque vi as 2 temporadas disponíveis, em espanhol.
O que me levou a dar uma chance a essa espécie de Sherlock Holmes misturado com House foi apenas o fato de ser de nação bem fora de minha zona de conforto e d’eu desconhecê-la por completo. Quase me enfurece o argumento “ah, mas nunca ouvi falar” como desculpa pra não ver/ouvir. Parece ovelha que não vive sem pastor? Eu, heim?! Veja/ouça por si só e forme opinião; tão simples.
A minha foi superfavorável com relação aos 16 episódios. The Sniffer traduz-se como O Farejador e isso se explica porque o protagonista é estiloso e arrogante detetive-consultor dotado de extraordinário olfato, sendo capaz de deduzir à Holmes, detalhes de suspeitos e vítimas apenas aspirando profundamente o ar circundante. Só não bote um gato no ambiente, que a rinite dele grita!
Apesar dalguns ambientes minimalistas demais, a cinematografia é linda, contando até com profissional de Downton Abbey, na segunda temporada, quando os produtores perceberam que tinham sucesso nas mãos. Os episódios são casos independentes, embora como de praxe nas séries atuais, existam tramas perpassando as temporadas, envolvendo a vida pessoal do Farejador. Essas são as partes menos interessantes, porque a ex-mulher dele é uma idiota chata e o filho rebelde não acrescenta nada, ao contrário, desvia o foco de casos que poderiam ganhar um bocadinho mais de tempo.
A qualidade dramática das histórias melhora progressivamente nessa série totalmente falocêntrica. As mulheres são vítimas ou insuportáveis. O centro é o Sniffer e seu amigo superior hierárquico, mas não intelectual, Major Victor Lebedev, espécie de Dr. Watson, com menos função dramática. Glutão e xavecador, é a personagem pra gente se identificar, porque com o Sniffer é difícil. Ele é liso e distanciado demais pra facilitar nossa empatia, o que está correto, afinal é o fodão do show.
The Sniffer já foi vendido pra dezenas de países. Netflix brasileira, cadê você que não disponibiliza isso aqui?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

CAIXA DE MÚSICA 312


Roberto Rillo Bíscaro

“Aceita que dói menos” é um dos lugares-comuns do momento, mas que pode ser lema da carreira-solo de Steve Hackett. Ao invés de negar seu legado junto ao Genesis, o guitarrista tem reinventado as canções de seu passado setentista em álbuns e turnês muito bem-sucedidas, como seus Genesis Revisited.
Ano passado, Wind and Wuthering fez 40 anos. O álbum foi o último de Hackett com Banks-Collins-Rutherford e tem substanciais contribuições de Steve, então o inglês decidiu que generosa porção de seu show mais recente – cuja turnê passou por cidades brasileiras este ano – traria diversas faixas daquele trabalho, assim como clássicos ainda mais antigos. Isso, claro, sem esquecer de sua produção-solo que incluiu faixas de seu aclamado álbum do ano passado, The Night Siren.
Dia 26 de janeiro, a Inside Out Music colocou no mercado o CD/DVD/Blu-Ray Wuthering Nights: Live in Birmingham, registro de um show de maio de 2017, no Birmingham Symphony Hall. Esta resenha é sobre o CD duplo apenas.
O nível técnico e artístico é perfeito. Hackett está com feras entrosadas de tanto tocar junto: Roger King (teclados), Gary O'Toole (bateria e percussão), Rob Townsend (saxes/flautas), Nick Beggs (baixo e outras cordas). Jamais se poderia acusar Hackett de primadonismo; todos os instrumentistas têm chance de brilhar e a guitarra do Mestre resplandece, não porque precise forçar a barra por ser o chefe, mas, porque tem aquele diferencial que separa o bom músico do genial. Steve Hackett influenciou Eddie Van Halen, for Christ’s sake!.
O CD 1 é apanhadão da longa carreira-solo do ex-Genesis. Traz inescapáveis como Every Day, presente em tudo quanto é show e ao vivo e que não pode ter arranjos muito alterados: fãs esperam o delirante solo de Steve, tornando a faixa perfeita para abrir um álbum. Do catálogo perene ao vivo, digamos, há também a caravana centro-asiática de The Steppes, que forma bloco com bastantes inflexões orientais com canções de The Night Siren, como El Niño, Behind the Smoke e In The Skeleton Gallery. Não dá pra reduzir a diversidade dessas canções a apenas seus elementos “árabes”, mas há fio condutor entre elas, e Hackett enfileirá-las em enfiada de 4 deu senhora homogeneidade ao miolo desse CD. Dos álbuns Darktown (1999) e To Watch the Storms (2003) foram pinçadas Rise Again e Serpentine Song, respectivamente e para encerrar a primeira parte do espetáculo, Steve reviveu os quase 11 minutos de Shadow Of The Hierophant, de seu longínquo primeiro álbum, Voyage Of The Acolyte (1975), quando ainda era do Genesis.  Amanda Lehmann preenche a vaga de voz, originalmente ocupada por Sally Oldfield, provavelmente a cantora mais injustiçada da música britânica.
O segundo CD foca no trabalho do Genesis. Para os vocais, entra Nad Sylvan, na estrada com Hackett há anos. Ainda há quem desperdice tempo e energia reclamando que Sylvan não se compara a Peter Gabriel ou Phil Collins. Cansativo isso. Não se trata do Genesis, mas de um de seus ex-membros homenageando-o, então, qual é o ponto para mimimizar? As vozes são parecidas, Nad tenta imitar, claro, mas é mais pra compor um clima, como o Yes faz quando contrata vocalistas-clones de Jon Anderson. Quase óbvio que nós fãs preferiremos Phil e/ou Peter, mas de que adianta reclamar de Sylvan, que, acima de tudo, faz ótimo trabalho dentro de seus limites de não ser Phil/Peter? Aceita que dói menos. Ou não ouça nada que não seja cantado por Gabriel/Collins, e pare de encher o saco!
Wuthering Nights é trocadilho com o clássico de Emily Brontë, que informou títulos em Wind & Wuthering. E como esse é o álbum homenageado, cinco de suas canções abrem a parte dedicada ao Genesis. Desde a manjada Afterglow, até as bem mais raras em ao vivo oficial, como Eleventh Earl Of Mar. Com arranjos o mais fiel possível aos originais – Hackett sabe que seu público é maduro; queremos o que nos embalou a juventude -, Wuthering Nights traz a subestimada One For The Vine e Inside and Out, que, vergonhosamente, ficou de fora de W&W e acabou sendo a única coisa que presta no EP Spot The Pigeon.
Fora do território de seu álbum-despedida do Genesis, há a versão delirante de Dance On a Vulcano; a máquina demolidora de The Musical Box e a melhor versão ao vivo oficial do solo magnífico de guitarra de Firth of Fifth.
Impecavelmente feito por um artista que entende visceralmente de Genesis e que tem carreira-solo monumental, além de perícia inconteste, Wuthering Nights: Live In Birmingham pode ser o melhor ao vivo de Hackett, que já lançou diversos.

domingo, 29 de abril de 2018

MENTINDO EM MOÇAMBIQUE

PGR ignora cidadãos albinos raptados e um deles morto em 2017

A Procuradora-Geral da República (PGR), Beatriz Buchili, faltou à verdade ao Parlamento, na quarta-feira (25), ao afirmar que, no ano passado, não houve tráfico e assassinato de albinos. Todavia, sabe-se que em Janeiro de 2017, no distrito de Ngaúma, província do Niassa, indivíduos desconhecidos raptaram uma criança albina de sete anos de idade. Em Setembro do mesmo ano, um jovem albino de 17 anos foi morto e extraído alguns órgãos, em Benga, Tete, onde em Maio tinha sido detido um casal quando pretendia vender o filho albino. Em Outubro um homem ficou privado de liberdade, acusado de tentativa de venda da sua própria filha, de 13 anos de idade.

No caso do Niassa, os malfeitores arrombaram a porta da casa da família do miúdo enquanto todos estavam a dormir. Na altura, Alves Mate, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) naquele ponto do país, disse que havia esforços no sentido de resgatar a vítima. Mas, nunca mais se soube qual foi o paradeiro da vítima.

Em Tete, o cidadão foi assassinado por indivíduos desconhecidos, no povoado de Nhambaluwalu, e extraíram do seu corpo o cabelo, o cérebro, os membros inferiores e superiores.

Um líder comunitário daquela localidade disse à AIM que o finado “respondia por Chinguirai João. Foi raptado de dia e morto no período da noite”.

Na mesma província, um homem que responde pelo nome de Estefânio Máquina caiu nas mãos da Polícia por tentativa de venda da própria filha, de 13 anos de idade, por pouco mais de 2.360.000 meticais a indivíduos não identificados.

Ainda em Tete, um casal caiu nas mãos das autoridades da lei e ordem por suposta tentativa de venda do próprio filho de dois anos de idade, com problemas de albinismo, por quatro milhões de meticais, em conluio com cinco indivíduos, supostamente por si contactados, e que receberiam cada 50 mil meticais de gratificação.

Segundo a corporação, o casal viajou do distrito de Dôa para o de Moatize, para concretizar o negócio, pois acreditava que era onde se encontravam possíveis e potenciais compradores.

Lurdes Ferreira, porta-voz do Comando Provincial da PRM em Tete, disse que caso o negócio tivesse saído conforme o planeado, os progenitores da criança pretendiam mudar-se para a cidade da Beira.

Estes são apenas alguns exemplos publicados na imprensa e nenhum deles foi mencionado no informe anual da PGR, como também não houve, publicamente, esclarecimento por parte da Polícia e do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC).

Beatriz Buchili disse aos deputados que em 2017 “não registámos casos de tráfico de envolvendo albino, contra sete de 2016”.

Ela apelou para a necessidade de aprovação de um plano nacional de prevenção e combate ao tráfico de pessoas, o qual deverá ainda viabilizar a materialização dos mecanismos de atendimento e acolhimento das vítimas.

sábado, 28 de abril de 2018

ALBINO GOURMET 257

sexta-feira, 27 de abril de 2018

PAPIRO VIRTUAL 125


Roberto Rillo Bíscaro

O primeiro contato com Milton Nascimento foi quando o Fantástico apresentou Ponta de Areia, provavelmente em 1975, ano do lançamento do álbum Minas, contêiner da canção. Pode ser truque mnemônico, mas recordo direitinho do narrador explicando que Minas Gerais já tivera saída pro mar, contextualizando a letra e também da belezura do coro infantil e daquela vocalização inicial de Milton, que me extasia até hoje. Se tudo ocorreu assim, tinha então oito anos de idade (mas já era fã(nático) pela gritaria psicodélica de Gal Costa e tinha disco dos Secos & Molhados).
Embora sem comprar seus discos, a “turma de Minas” sempre me agradou mais do que a da Bahia ou qualquer outra invencionice mercadológica pra criar grupos e movimentos. Como amo Genesis e Yes acima de tudo, não estranha a preferência pelos beatlemaníacos do Clube da Esquina (embora eu mesmo nunca tenha amado Lennon e Cia.; sou pós-Liverpool).
Logo depois da remasterização do álbum Minas, no Abbey Road, um aluno de inglês me o emprestou. Conhecedor de canções soltas ou coletâneas, quase enfartei de emoção; que sofisticação, que coisa mais progressiva de viver. Não me surpreendeu, porque isso só ocorre quando não esperamos nada de algo/alguém. Desde 1975 sabia que Nascimento era muso, só não tinha condições de comprar os álbuns, porque tinha prioridades muito bem definidas e orçamento apertado. A internet democratizou acesso e hoje conheço muitos discos do povo do Clube da Esquina.
Tinha minhas assunções sobre essa formação cultural mineiro-cosmopolita, mas jamais lera estudo até deparar-me com Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980), tese de doutoramento de Luiz Henrique Assis Garcia, defendida em 2007, na UFMG.
Por se tratar de texto acadêmico, o historiador tem que brecar a História a fim de esmiuçar conceitos e justificar ideias, mediante uso de teóricos como Raymond Williams, Nestor García-Canclini, Angel Rama e Renato Ortiz. Mas, isso só torna seu trabalho mais útil, porque fazemos um 2 em 1: aprendemos ideias sobre cultura e as vemos aplicadas na história recente de nossa música popular, que em algum momento dos anos 60 teve parte chamada de MPB e outra porção bem maior, desqualificada de várias maneiras.
O trabalho de Assis Garcia identifica o processo de internacionalização da música popular com o avanço dos mass media ao redor do globo e identifica os efeitos que isso teve num Brasil que nos anos 60 estava polarizado em debates calorosos entre o “nacional” e o “estrangeiro”; o “popular” e o “erudito”; o “engajado” e o “alienado”. Havia canção de protesto com personagem-pescador, cujo autor sequer sabia pegar numa vara; havia a galera do Tropicalismo, que começara mansa e certinha, mas radicalizou usando psicodelia e guitarras como elementos de choque. Mas, que “enfrentava” o sistema amando aparecer nele o mais possível.
Enquanto isso, na provinciana-cosmopolita Belo Horizonte, grupo de jovens da classe-média usava todas as referências com as quais crescera, que ia desde música sacra à psicodelia e as sintetizava num som que, no começo rotulado de “misterioso”, passaria a ser bússola e compasso da hibridez de “bom gosto” que caracterizaria o pico comercial da MPB, que duraria a segunda metade dos 70’s até o advento do “rock” brasileiro dos anos 80. 
A tese não é uma história do Clube da Esquina, até porque a ideia duma confraria é mais conveniente constructo midiático do que realidade de “movimento”. A galera era amiga, gravava junta, mas cada um na sua, especialmente Milton, que bombou internacionalmente. Seria interessante ler algo sobre o lado B disso, ou seja, fricções internas, exclusões (será que não ficou alguém de fora do compadrio endêmico brasuca?), mas a colocada nos trilhos que proporciona o trabalho do fã confesso Garcia (não se pode perder isso de vista) é muito eficiente, eficaz, oportuna e interessante.
E olha que legal: Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980) pode ser lida/baixada gratuitamente, no site


quinta-feira, 26 de abril de 2018

TELONA QUENTE 233


Roberto Rillo Bíscaro

Embora estrelado por Emilia Clarke (a Dull- nerys Targaryen, de Game Of Thrones), Voice From The Stone não foi visto sequer por todos os familiares dos envolvidos. A Netflix brasileira apostou tão baixo na produção do ano passado, que a incorporou na sua grade, sem título brasileiro ou dublagem, num país que maciçamente prefere ouvir português a ler legendas (nada de errado nisso, aliás – legenda não é sinônimo de mais cultura).
Não deixa de ser uma pena, porque embora esteja longe de possuir grandes méritos, Voice From The Stone pode agradar a plateias mais velhas, acostumadas com lentos filmes antigos de terror psicológico da Hammer ou Amicus, desde que partindo do princípio que o filme de Andrew Shaw não acrescenta nada a esse cânone. Pelo contrário, falta-lhe espessura.
Nos anos 50, jovem preceptora inglesa que vai de casa em casa cuidando de crianças problemáticas, é contratada pra curar menino de 8 anos, que perdera a mãe e emudecera. A minúscula família vive num castelo enevoado na Toscana e sua fortuna viera duma pedreira, ora desativada. O pequeno vive com a orelha grudada nas paredes e rochas e logo Verena começa a suspeitar que algo de sobrenatural entranha-se nas pedras. Ela também passa a viver situações estranhas.
Voice From the Stone é desavergonhada rapinagem de todos os lugares-comuns da literatura e cine góticos e derivados. A protagonista de país protestante enrascada numa nação católica; serviçal de cara amarrada; velhinha misteriosamente afável (não precisei terminar sua primeira cena pra sacar o que era). Enfim, tem Mr. Rochester misturado com Edgar Alan Poe, acasalado com Os Inocentes (1961) rondando pelo Castelo de Udolpho.
O problema crucial é que nada tem profundidade, especialmente a protagonista Verena, que não possui nuanças e Clarke não é Nicole Kidman, é Dull-nerys. Isso, acoplado à morosidade da trama afugenta gente mais moça e fãs mais típicos de GoT.
Mesmo assim, continuo achando uma pena a falta de divulgação, porque Voice From The Stone é satisfatório pra quem gosta de filmes em locações velhas e lindas. Parece aquelas sessões de televisão que nós 50tões víamos nos anos 70, 80.
Se você não esperar muito além de passatempo e belas imagens chapadas e estiver com síndrome de abstinência por isso, Voice From the Stone merece chance. Não me entediei.