Os filmes com orçamento parco eram – não sei se ainda
são - informalmente chamados de cheapies (do
adjetivo barato) nos anos 1950, quando muito da produção de ficção-científica
se encaixava nessa categoria.
Produzidos por estúdios independentes – mas nem sempre
– essas películas reciclavam cenários de outras produções, faziam muitas cenas
noturnas ou brumosas pra disfarçar a pobreza do cenário e também pra poder
gravar em estúdios, onde era fácil conseguir tal ilusão. Externas são mais
caras, porque implicam, dentre outras coisas, pagar logradouros, obter
permissões, sem contar o deslocamento de equipes e equipamentos.
Dessa categoria é O Homem do Planeta X (1951), que se
aproveitou, como diversos outros, do temor causado pela explosão de relatos de aparições de discos-voadores. O orçamento de pouco mais de 50 mil dólares era
escasso mesmo pros padrões da época. Por exemplo, Rocketship X-M, onde já se
nota mambembice, custou quase o dobro.
Os minguados recursos determinam que os enredos dessas
produções amiúde se desenrolassem em localidades remotas, assim se poupava com
extras. Daí, ocorre aquela contradição muito engraçada de tantos filmes de
invasão alienígena. Civilizações supostamente ultra-avançadas, poderosas e
inteligentes escolhem começar seu domínio da Terra numa aldeia perdida no meio
do nada, com apenas uma espaçonave tripulada por um ET. Não diferente da “vida
real”, com relatos de OVNIs que aparecem pra zé-ruelas que não influem nem na
família, mas recebem mensagens de ETs tecnologicamente séculos-luz adiante de
nós.
No caso de The Man From Planet X, o mundo estava a
poucas horas de estar o mais próximo possível do tal planeta X, quando numa afastada
ilha escocesa, nave com seu respectivo tripulante misterioso são descobertos.
Nada de debochar da inocência do roteiro a partir de suposta superioridade
contemporânea: ano passado mesmo, um maluco inglês (note que não foi de país
“subdesenvolvido) disse que o mundo acabaria, porque se chocaria com o
tal de Nibirú. Vai vendo a patetice...
O ET é capturado, mas um cientista do mal o agride pra
tirar-lhe os segredos. O mais importante deles é que os habitantes do planeta X
tencionavam colonizar a Terra, porque seu planeta estava em processo de
congelamento. A criatura tinha o poder de zumbificar as pessoas, submetendo-as
a sua vontade, mas parece que esta não era muito forte, porque as informações
sobre a invasão são arrancadas de um hipnotizado com a maior facilidade. Bastou
perguntar e o suposto dominado deu a ficha completa.
Com atores norte-americanos nem sempre se saindo bem no
sotaque escocês, The Man From Planet X não é essencial prum panorama dos anos
50, mas cultores de obscuridades e de sci
fi da década poderão apreciar.
Corpo de albino encontrado sem cabeça nem membros a leste de Bamako
O corpo de um albino adolescente foi encontrado completamente mutilado sábado em Fana, na região de Koulikoro, a leste de Bamako, soube a PANA de fonte oficial no local.
A descoberta deste corpo sem cabeça nem membros muito menos os órgãos genitais suscitou a ira dos habitantes de Fana que consequentemente vandalizaram, domingo último, uma brigada de gendarmaria, de acordo com a fonte.
As populações furiosas incendiaram igualmente três veículos e uma dezena de motorizadas, libertaram supostos detidos da brigada da gendarmaria antes de destruírem hóteis e bares da cidade considerados como “ninhos” de bandidos, indica a mesma fonte, acrescentando que que não houve perdas de vidas humanas.
As populações de Fana, localidade situada a cerca de 120 quilómetros a leste de Bamako, na estrada de Segou (centro), organizaram uma manifestação de protesto para exprimir o seu descontentamento face aos múltiplos crimes no local e à passividade da gendarmaria.
Informado, o administrador da circunscrição de Dioila, Dedeou Bagna Maiga, que tutela Fana, mobilizou elementos das forças de segurança e da proteção civil a fim de proteger edifícios públicos antes da chegada do governador da região de Koulikoro, e acalmar os espíritos.
Uma mulher e seu filho foram encontrados decapitados nesta mesma localidade, há um pouco mais de um mês.
Segundo algumas fontes, estes crimes odiosos obedecem a sacrifícios recomendados por feiticeiros e por outros iluminados para necessidade de enriquecimento ou de busca de poderes malignos. (Panapress)
Acostumados
a ver tudo pelo momento presente, por vezes esquecemo-nos da fatalidade implacável
do tempo e, assim, deixamos escorrer da memória lembranças explicativas do que
nos tornamos. Pensando a vida familiar, por exemplo, visitando o passado,
indago do significado dos antigos encontros festivos. Aliás, mesmo frente ao
dia a dia, sintonizo mudanças e me encanto com pormenores que espantam o perverso
esquecimento. Como eram nossas refeições diárias, as dificuldades da cozinha
sem a panela de pressão, sem o fogão a gás, os quitutes preparados com muito
menor número de temperos e variantes!... Mesmo a água ou o leite não
industrializados, a inexistência de refrigerantes, as sobremesas do tempo da
vovó, tudo vai ficando reduzido a sensações. Só. Nossa, como as coisas mudaram...
Aprender lidar com dinheiro era muito mais complicado, pois não se falava em
mesada e tudo era contadinho, com prestação de contas: tanto para o ingresso do
cinema, tanto para bala, pipoca, e o troco dado para mamãe ou papai... Os
Natais eram celebrados sim, mas com medidos gastos, tudo bem mais simples. Os
aniversários tinham bolos e docinhos, mas feitos em casa e com receitas
copiadas à mão, em cadernos domésticos. Eu tinha roupa de domingo e lembro-me
bem do cuidado que deveria ter com os sapatos e meias novos. Falando dessas
coisas, parece que os séculos se sucederam em infinitos mais perdidos do que
supomos, contudo não foi bem assim.
Pois
é, a geração que hoje passa dos sessenta anos tem apagados os sentidos das
alterações. O consumismo foi se instalando tão sutilmente que nem notamos que,
aos poucos, às vezes sem querer, deixamos de ter pouca coisa e multiplicamos produtos
trocados velozmente e que perdem valor de estima. Nessa onda, os descartáveis
viraram mania e nos viciamos em novidades que carecem de apreço. Falar dessas
coisas soa saudosista e até melancólico, mas é importante avaliar como em uma
geração deixamos de ser modestamente cuidadosos para nos tornar modernos e
pródigos. Quem não se surpreendeu perguntando como vivia sem televisão,
internet, telefone sem fio ou celular? Ser do tempo da “máquina de retrato”,
dos “cursos de datilografia”, do “footing
na praça”, virou coisa de “novela de tempo”. Causa espécie a facilidade com que
nos atualizamos e então, ver essas coisas como curiosidades se transformou
quase em poesia diletante. Por favor, não pensem que estou no time dos que
evocam o passado como um programa de vida. Busco me atualizar, mas historiador,
me resta convocar o sentido das mudanças para propor entendimento dos
processos. Em países como o Brasil, as alterações são muito bruscas e até sinistras.
Sabe
por que estou retomando tudo isso? Aconteceu em minha vida pessoal algo
inusitado. Há duas semanas, depois de 19 anos, resolvi voltar a um lugar que
fez parte da história de minha geração. Interiorano, integrante de uma classe
média que se fez no processo de industrialização apressada no Vale do Paraíba,
o litoral era perfeita alternativa de férias, um paraíso que, além das belezas,
promovia aventuras ousadas, dessas experimentadas pela juventude que crescia na
evolução econômica do país. Coincidentemente, minha família, por força do
comércio, funcionou um pouco como pequeno agente dessas alterações. Investindo
no ramo hoteleiro, desde logo o papel familiar se repartiu entre promotores e
usufrutuários de tudo. E me afeiçoei às praias, às mudanças de sintonia entre a
pacatez da cidade original e os avessos permitidos nas férias. Como consequência
dos negócios, meu pai acabou por propor a construção de um edifício de
apartamentos onde mantivemos algumas unidades. Casado eu, minha mulher e filhos
aproveitamos muito do nosso quinhão, até que uma reforma completa se fez
projeto de minha mulher que morreu em seguida. Viúvo, retornei uma vez ao
local, e me propus a não mais repetir a experiência. Doeu muito. Demais. Tanto
que optei por evitar voltas. E por longos anos cumpri minha promessa pessoal.
Passado tempo considerável, porém, resolvi enfrentar o problema. Intuitivamente
medroso, convoquei um amigo querido e saudoso para um encontro lá. Amável, o
colega convidou dois outros e, não mais que de repente estávamos os quadros em
torno de uma mesa. É preciso dizer que a cidade praiana se tornou refúgio de
alguns aposentados e cheia de restaurantes modernizou-se aprazível, também como
lócus de pós-aposentados, como os colegas.
O
inédito da situação provocou revisões de cada qual. O primeiro tema foi saúde.
Diria que demoramos muito tempo conferindo debilidades. Todos tínhamos uma historinha
para contar. Um falou da próstata, outro de deficiência imunológica, outro de
coluna, e eu do coração. Celebramos, contudo, os anos passados e retraçamos
trajetos: filhos, dilemas familiares, perspectivas para a velhice que nos resta.
É preciso dizer que os componentes do pequeno grupo têm severas diferenças
ideológicas. Vivemos, contudo, o pressuposto científico que garante que os
opostos se atraem. Diria mais até: se completam, e são até mesmo capazes de
gerar luz. Foi assim que nos entreolhamos, nos abraçamos na hora da foto e
permanecemos emocionadamente unidos pelos séculos e pelas diferenças. Amém...
VELHOS AMIGOS VELHOS
José Carlos Sebe Bom Meihy
Acostumados a ver tudo pelo momento presente, por vezes esquecemo-nos da fatalidade implacável do tempo e, assim, deixamos escorrer da memória lembranças explicativas do que nos tornamos. Pensando a vida familiar, por exemplo, visitando o passado, indago do significado dos antigos encontros festivos. Aliás, mesmo frente ao dia a dia, sintonizo mudanças e me encanto com pormenores que espantam o perverso esquecimento. Como eram nossas refeições diárias, as dificuldades da cozinha sem a panela de pressão, sem o fogão a gás, os quitutes preparados com muito menor número de temperos e variantes!... Mesmo a água ou o leite não industrializados, a inexistência de refrigerantes, as sobremesas do tempo da vovó, tudo vai ficando reduzido a sensações. Só. Nossa, como as coisas mudaram... Aprender lidar com dinheiro era muito mais complicado, pois não se falava em mesada e tudo era contadinho, com prestação de contas: tanto para o ingresso do cinema, tanto para bala, pipoca, e o troco dado para mamãe ou papai... Os Natais eram celebrados sim, mas com medidos gastos, tudo bem mais simples. Os aniversários tinham bolos e docinhos, mas feitos em casa e com receitas copiadas à mão, em cadernos domésticos. Eu tinha roupa de domingo e lembro-me bem do cuidado que deveria ter com os sapatos e meias novos. Falando dessas coisas, parece que os séculos se sucederam em infinitos mais perdidos do que supomos, contudo não foi bem assim.
Pois é, a geração que hoje passa dos sessenta anos tem apagados os sentidos das alterações. O consumismo foi se instalando tão sutilmente que nem notamos que, aos poucos, às vezes sem querer, deixamos de ter pouca coisa e multiplicamos produtos trocados velozmente e que perdem valor de estima. Nessa onda, os descartáveis viraram mania e nos viciamos em novidades que carecem de apreço. Falar dessas coisas soa saudosista e até melancólico, mas é importante avaliar como em uma geração deixamos de ser modestamente cuidadosos para nos tornar modernos e pródigos. Quem não se surpreendeu perguntando como vivia sem televisão, internet, telefone sem fio ou celular? Ser do tempo da “máquina de retrato”, dos “cursos de datilografia”, do “footing na praça”, virou coisa de “novela de tempo”. Causa espécie a facilidade com que nos atualizamos e então, ver essas coisas como curiosidades se transformou quase em poesia diletante. Por favor, não pensem que estou no time dos que evocam o passado como um programa de vida. Busco me atualizar, mas historiador, me resta convocar o sentido das mudanças para propor entendimento dos processos. Em países como o Brasil, as alterações são muito bruscas e até sinistras.
Sabe por que estou retomando tudo isso? Aconteceu em minha vida pessoal algo inusitado. Há duas semanas, depois de 19 anos, resolvi voltar a um lugar que fez parte da história de minha geração. Interiorano, integrante de uma classe média que se fez no processo de industrialização apressada no Vale do Paraíba, o litoral era perfeita alternativa de férias, um paraíso que, além das belezas, promovia aventuras ousadas, dessas experimentadas pela juventude que crescia na evolução econômica do país. Coincidentemente, minha família, por força do comércio, funcionou um pouco como pequeno agente dessas alterações. Investindo no ramo hoteleiro, desde logo o papel familiar se repartiu entre promotores e usufrutuários de tudo. E me afeiçoei às praias, às mudanças de sintonia entre a pacatez da cidade original e os avessos permitidos nas férias. Como consequência dos negócios, meu pai acabou por propor a construção de um edifício de apartamentos onde mantivemos algumas unidades. Casado eu, minha mulher e filhos aproveitamos muito do nosso quinhão, até que uma reforma completa se fez projeto de minha mulher que morreu em seguida. Viúvo, retornei uma vez ao local, e me propus a não mais repetir a experiência. Doeu muito. Demais. Tanto que optei por evitar voltas. E por longos anos cumpri minha promessa pessoal. Passado tempo considerável, porém, resolvi enfrentar o problema. Intuitivamente medroso, convoquei um amigo querido e saudoso para um encontro lá. Amável, o colega convidou dois outros e, não mais que de repente estávamos os quadros em torno de uma mesa. É preciso dizer que a cidade praiana se tornou refúgio de alguns aposentados e cheia de restaurantes modernizou-se aprazível, também como lócus de pós-aposentados, como os colegas.
O inédito da situação provocou revisões de cada qual. O primeiro tema foi saúde. Diria que demoramos muito tempo conferindo debilidades. Todos tínhamos uma historinha para contar. Um falou da próstata, outro de deficiência imunológica, outro de coluna, e eu do coração. Celebramos, contudo, os anos passados e retraçamos trajetos: filhos, dilemas familiares, perspectivas para a velhice que nos resta. É preciso dizer que os componentes do pequeno grupo têm severas diferenças ideológicas. Vivemos, contudo, o pressuposto científico que garante que os opostos se atraem. Diria mais até: se completam, e são até mesmo capazes de gerar luz. Foi assim que nos entreolhamos, nos abraçamos na hora da foto e permanecemos emocionadamente unidos pelos séculos e pelas diferenças. Amém...
O fenômeno classe-média de abandonar os centros urbanos
e se refugiar em áreas ao redor, chamadas suburbs
intensificou-se a partir da bonança econômica do pós-Segunda Guerra, nos EUA.
Depois, irradiou-se para o mundo, inclusive em países que cabem dentro de pequenos
estados ianques, como a teteia Holanda.
Atualmente, tais aglomerados urbanos são rodeados por
muros e protegidos por guaritas, a fim de manter os bichos-papões para fora.
Mas, e se as cercas servirem para mantê-los dentro, pergunta-se personagem de
Safe, minissérie disponibilizada no catálogo da Netflix, dia 10 de maio.
Criada pelo escritor norte-americano Harlan Coben,
coproduzida com o canal francês C8 e ambientada majoritariamente num condomínio
em algum lugar inespecificado da Inglaterra, Safe prende e permite maratona,
mas é tão genérica quanto o sotaque britânico de laboratório de Michael C.
Hall. Críticos têm atacado o ator de Dexter por isso, mas no fim, tem tudo a
ver com a produção. Não se sabe onde na Inglaterra se passa a história; não se
sabe de que mundo real sairia o sotaque de Hall. Suspeito que ele não tenha
pensado nisso, mas daria bom argumento para justificar a artificialidade. Vi no
original, porque sou professor do idioma e amo treinar listening, mas se você não tem esse compromisso, veja dublada (ou,
que tal treinar espanhol?).
Nem a canastrice atroz de Hall consegue estragar Safe, porque
o roteirista domina bem as convenções. Há suficientes revelações, desmentidos e
reviravoltas para garantir aderência à telinha e ansiedade pelo próximo
capítulo, ainda que não dê realmente para se importar com ninguém. Dá até meio
medinho de quão mecanicamente Safe consegue nos enredar.
Em seguro condomínio de classe média-alta murado,
vigiado por câmeras e trancado por portões, a adolescente Jenny Delaney
desaparece. Seu pai, o Dr. Tom, começa investigação paralela e desenreda cadeia
de segredos do passado, porque todo mundo tem algo a esconder, inclusive ele.
Safe é descendente de influente série britânica, que se for citada em resenha,
acaba por entregar o/a assassino(a). Não se preocupe, não estou contando que no
fim Jenny esteja morta; há um assassinato numa piscina logo no começo.
Como de gosto na contemporaneidade, o espectador
precisa se ajustar ao vaivém temporal, que acontece, especialmente no início
dos capítulos, quando ações são repetidas em flashbacks para que percebamos detalhes ou simplesmente para nos
fornecer informações sonegadas. Mas, é bem tranquilo essa calibragem, porque já
fomos bem domes/sofisticados para isso por tantas séries e filmes.
O elenco é eficiente, com destaque para Amanda
Abbington (a Miss Mardle, de Mr. Selfridge, owww!),
como a DS Sophie Mason e o sempre competente para papeis de falastrão vulgar,
Nigel Lindsay, como Jojo. O negócio é tão bem fechadinho, que quando se resolve
a trama e o mundo recebe justiça, você entende porque há um(a) personagem tão
inútil, como.... melhor não dizer, senão entrega o jogo.
Roberto Rillo Bíscaro Nascida em 1939, a vida e a carreira de Mavis Staples misturam-se
com a ascensão do rhythm and blues e do gospel como influenciadores e geradores
de música pop, bem como com o movimento pelos direitos civis, do qual a amiga
pessoal de Martin Luther King foi trilha-sonora.
Staples jamais conheceu outra vida senão a de cantora,
senão a da estrada. Já aos 11 anos, cantava com a família em igrejas da região
de Chicago, onde também participavam dum programa semanal de rádio. The Staple
Singers tiveram certo sucesso radiofônico e viraram superestrelas no circuito
gospel, excursionando por toda parte durante anos. Quando o maridão lhe deu a
escolha de seguir a carreira ou ficar em casa cuidando de família, em 1964,
Mavis respondeu com bom pontapé na bunda e desde então não quis mais casamento.
Nem com Bob Dylan, que lhe pediu a mão. Os dois permanecem amigos, inclusive,
excursionado juntos ano passado.
Como artista-solo, seu primeiro trabalho saiu em 1969 e
desde então tem colaborado com gente do calibre de Prince; cantado com
roqueiros, tipo Arcade Fire e sido sampleada por meio mundo. Há alguns anos,
iniciou parceria com o branquelo Jeff Tweedy, líder do Wilco.
Bem avançada na septuagenaridade, Mavis não dá sinais
de querer parar e dia 17 de novembro saiu seu décimo-sexto álbum solo, If All I
Was Was Black, produzido por Tweedy, que compôs quase todas as 10 canções e
ainda dueta em Ain't No Doubt About It.
As raízes de Tweedy justificam o country/blues/folk
rock da faixa-título e de números como Who Told You So, o dueto e Try Harder.
Ao contrário de divas igualmente poderosas do R’n’B que também lançaram
trabalhos em novembro (leia sobre o espetacular álbum de Syleena Johnson, aqui),
Staples optou por produção nada orquestral, onde menos é mais. Isso funciona em
quase todo o álbum, exceto em No Time For Crying, que poderia ter mais peso
funk pra combinar melhor com a mensagem ativista da letra. Do jeito que está, a
canção fica parecendo mais longa do que realmente é, porque meio monótona.
Desencantada com a vitória do racista Trump, a profusão
de fake news (não só na internet) e a
escalada da violência contra afrodescendentes, não dá pra esquecer o conteúdo
político das letras, ainda que bem genéricas. Sonicamente essa tensão relatada
em palavras não encontra melhor transliteração do que na abertura, Little Bit,
onde guitarras duelam em cada lado de seu ouvido. Mas, os instrumentos não
estão em chave rock metal, mais pra blues.
Staples não vem irada; tá
nervosa e desencantada, mas letras como as de We Go High (Michele Obama,
hello!), Build a Bridge e da gospel Peaceful Dream, tem um quê super Kumbaya anos
60. Será mesmo que quem espalha notícias falsas não sabe o que faz, como afirma
We Go High? Esperemos que tendo vivido e militado em dias bem piores pros
afrodescendentes, Mavis saiba o que diz.
Ricardo é filho de surdos-mudos, mas se comunica por sinais com eles numa boa, embora tenha apenas uma mão. E não é só isso: ele também não tem as pernas, mas pega ônibus todo dia para ir à faculdade de jornalismo. Conheça sua história.
O Manual da Cozinha é um canal do Youtube com mais de 600 receitas fáceis apresentado por Alex Granig, um apaixonado por doces mas que faz de tudo um pouco para agradar aos telespectadores.
Vejamos algumas receitinhas, mas antes, o link pra acesso:
A Bruxa de Blair (1999) não inventou os found footage films, mas foi só a partir
dele que o subgênero invocado pelo infame Cannibal Holocaust (1980 – nunca
assistirei, porque animais foram mortos de verdade) proliferou-se como piolho.
Há mais de um site dedicado apenas a esse tipo de produção, com centenas de
entradas no catálogo de diversos países já há quase 20 anos.
Não surpreende que atraia tantos cineastas de fundo de
quintal. A desculpa narrativa de imagens e som resgatados dalgum acidente
ocorrido com pessoas comuns justifica atuações mequetrefes (naturalistas, é
mais politicamente correto) em filmes pavorosos, monótonos e em sua maioria
genéricos.
Mas, não é que ainda dá pra garimpar objetos
interessantes nessa mina de ouro de tolo? Found Footage 3D apropriadamente
estreou no Bruce Campbell Horror Film Festival, em agosto de 2016. Idealizado e
dirigido por Steven DeGennaro, é o primeiro found
footage em 3D, mas há versão em 2D também, a que vi, aliás, porque não
consigo visualizar 3D. Fosse o aspecto técnico o único diferencial de Found
Footage 3D, ele não estaria neste blog, que defeca e anda pressas coisas.
O subgênero tem aspecto bastante metalinguístico,
porque salienta o filmar, o bisbilhotar a vida/morte alheia mediado por uma
câmera. Os found footage films chamam
bastante a atenção pra forma. Found Footage 3D (FF3D) dá passinho adiante.
Uma equipe empenhada em gravar o primeiro found footage film em terceira dimensão
embrenha-se numa cabana assombrada, no meio duma mata texana. À moda de Pânico,
com os slasher films, FF3D salienta
algumas convenções de seu subgênero pra satirizá-las e às vezes usando-as pra
conveniência de sua própria narrativa. Tipo, por que diabos alguém perseguido
por um demônio, correria pela vida, segurando uma câmera? Bem, se for a noite,
pode ser pra iluminar o caminho. É bem esperto o roteiro e o fim conseguiu me
pregar um susto.
O defeito de Found Footage
3D é que exagera na duração. 108 minutos é tempo demais. 90 estaria de muito
bom tamanho.
No Maru Koala and Animal Park em Grantville, Victoria, um raro wallaby albino foi filmado se alimentando com um grupo de animais da sua espécie, enquanto interagia de forma simpática com os turistas que o rodeavam.
Produções escandinavas costumam não guardar pudor por
nudez, então, chamou atenção cena onde os adolescentes da recém-lançada The
Rain se ducham de cueca e sutiã – dá pra ver uma tetinha e um só, mas bem de
leve. Com a difusão de produções locais financiadas pela Netflix, alguém logo
equivalerá padronização à netflixação. The Rain é bem feita, prende, é
maratonável, mas poderia se passar no Tennessee, na Patagônia ou no outback australiano. Que transcorra na
Dinamarca e Suécia é só acidente geográfico, que quem viu dublado pode nem se
dar conta e crer produto estadunidense. Algo como, incentivam-se produções
locais, desde que não locais.
De certo modo, é pena, porque Dinamarca e Suécia
influenciaram deveras a indústria e a estética da TV no último decênio, através
de seu Nordic Noir. Em The Rain, a nanica península é que segue a trilha de The
Walking Dead e tem até cena remetendo a Cordon.
A população da Escandinávia (do planeta?) foi dizimada
por vírus transmitido por chuva geneticamente manipulada. Os irmãos Simone e
Rasmus são levados pra segurança de um bunker
por seus pais, mas a adolescente e o pivete fazem tantas pirraças
estúpidas, perguntas e comentários energúmenos e atos cretinos, que desperta
desejo de que além do vírus a precipitação contivesse ácido sulfúrico e os
encharcasse até o úmero.
Um problema em The Rain: não há muito com quem se
identificar e torcer, porque a idiotia é geral. Simone é a heroína, mas ela faz
cada pergunta tola pra coisas que sabe não haver resposta, que fica difícil
confiar nela pra repovoar o planeta. Você pode torcer pro vírus, como yo, mas
saiba que se a espécie humana desaparecer, o planeta não ficará verdinho como
em The Rain. Temos muito veneno hipertóxico estocado, cujos contêineres
decompor-se-ão e derreterão tudo.
Bem, os manos ficam 6 anos no abrigo e quando têm de
sair, juntam-se a um bando de sobreviventes, que sai vagando pela
Dinamarca/Suécia semidesabitadas, enfrentando perigos como milícias e até
comunidade namastênica, do tipo da de Slasher. Aquele episódio é legal, não acrescenta
absolutamente nada à jornada, mas é legal. Se você procura por série
intelectualizada, The Rain vai aguar seu cérebro.
The Rain não aceita perguntas muito difíceis, senão o
roteiro revelará seu absurdo. Por que aquela gente não anda com impermeáveis e
guarda-chuvas, se teme aguinha caindo do céu? Se precipitação pluviométrica é o
agente contaminador e disseminador do vírus, de que mesmo adianta um muro pra
isolar quarentemados? E donde bebem água, se a chuva tá podre? Como ainda
dispõem de wi fi e combustível, quando convém? E ainda sobrou comida
industrializada comestível depois de mais de meia década?
Enfim, The Rain é olvidável diversão oportunista da
modinha dos mundos pós-apocalipse (que nós mais velhos já vivenciamos há
décadas). Dá pra seguir sem expectativas e fãs de Scandi Drama curtirão ver
rostos de atores queridos, potencialmente sendo reconhecidos mundialmente e não
só por nós hipsters que nos gabamos
de conhecer BronIBroen, Dicte, Gidseltagningen Jordskott ou Arvingerne. Bem, a
não ser que seu tesão seja precisamente ser um dos escolhidos fora da
Dinamarca/Suécia que os conheçam.
De modo algum soa falsa ou oportunista incursão de
Sting pelo reggae. Desde Roxanne ou Walking On The Moon, ouvem-se ecos
jamaicanos na música do britânico. Músicos da ilha caribenha reconhecem que a
popularização do ska e do reggae mundialmente não se deveu só a Bob Marley, mas
também ao superestrelato do Police há 40 anos. Músicos da ex-colônia inglesa já
fizeram alguns álbuns-tributo ao trio Sting-Copeland-Summers. Confira os volumes de Reggatta Mondatta: Reggae Tribute
Album to The Police ou Spirits In The Material World: A Reggae Tribute To The
Police ou ainda The Police in Dub.
Não deve soar como surpresa, portanto, que após retorno
de leve ao rock com 57th & 9th, Sting tenha optado por meter seu ferrão no
reggae e alguns de seus derivados contemporâneos, através de parceria com o
fusionista Shaggy. O resultado é 44/876, que em sua edição de luxo tem 16
faixas.
Bem fácil atirar pedras no álbum. A voz de Sting
engrossou e em números como Waiting For The Break Of Day soa despersonalizada (o
baixo vai bem, obrigado, confira o reboladão de Fathoms). Shaggy tem voz e
pronúncia que irritam muita gente e Sting ainda tenta escorregar prum
sotaquinho forçado jamaicano, que dá pra rir. E quando esses dois ricaços
reclamam da situação política e, pra fugir dela, vão ao Caribe cantar sobre paz
e amor? Mas, há algo de irresistivelmente pop descartável que dá certo charme
passageiro a 44/876.
Há reggae e derivados pra diversos gostos. No
raggamufin’ da faixa-título, evoca-se o fantasma de Bob Marley, mas o de Peter
Tosh assombra a levada de Night Shift. Tem o dancehall de Don’t Make Me Wait e até reggae encontra Carruagens de
Fogo (do Vangelis), em Love Changes Everything. Há o skank
de Love And Be Loved e muito reggae pop, como Morning Is Coming.
Há o erro de Crooked Tree, onde Shaggy soa como Falcão,
numa levada reggae cuja letra simula julgamento onde o jamaicano é o juiz e
Sting o condenado. De rir ou chorar.
Embora o título homenageie os códigos telefônicos de
seus países de nascimento, Sting e Shaggy amam mesmo são os EUA. Ambos são
imigrantes em Nova York. E é em clima super Grande Maçã, que 22nd Street se
sobressai. Dá vontade de ouvir passeando por Manhattan; nem Shaggy a estraga. E
depois dela vem Dreaming In The USA, que não apenas remete ao clássico Surfin’
In The USA, dos Beach Boys, mas usa harmonias típicas daquele grupo. Soa como
Beach Boys encontra The Police com participação de Shaggy. E toma babação de
ovo pela terra da liberdade!
Outro ponto alto é o soul mod de Gotta Get My Baby, que teria ficado perfeita no álbum
anterior e com parceiro outro, como Paul Weller. Seria um sonho o Modfather
duetando essa delícia.
Sting e Shaggy já não são cool pra mocidade hip há
tempos (Shaggy nunca foi), mas prum lual quarentão/cinquentão na praia 44/876
serve. Só este ano, porém. Quase tudo estará esquecido em 2019, porque é diversão
só pra agora.
Antigamente era bem mais difícil detectar quando uma
produção reciclava cenários ou adereços, porque o único acesso que a maioria do
público tinha a filmes era quando exibidos no cinema e, depois, esporadicamente
na TV. Daí, entre os meses ou anos que separavam uma assistência da outra, o
espectador médio nem se lembrava direito da trama, quanto mais de detalhes
técnicos. Hoje é bem diferente, porque mesmo películas antigas estão no Youtube
ou podem ser baixadas (embora este blog não aconselhe, porque é contra a lei)
Assistência comparada interessante seria ver Fligh to
Mars (1951) imediatamente depois de Rocketship X-M. Apesar de o segundo ser
colorido, se você prestar atenção verá quão parco foi o orçamento dado pela
Monogram Productions: o interior do foguete é o mesmo de Rocketship, e as
roupas dos marcianos idênticas aos uniformes de Destino Lua. Sem contar que os
trajes espaciais dos terráqueos em Flight to Mars (FTM) também não passam de roupas
de aviador ou bombeiro militar. No Brasil chamado Voo Para Marte, FTM é um dos
muitos genéricos da produção sci fi
fordista dos anos 1950.
A Terra está prestes a lançar seu primeiro voo
tripulado ao planeta vermelho; uma nave com cientistas e um jornalista, onde
parece que a maioria se conhece quase na hora do lançamento. Quer mais
pragmático e producente do que colocar bando de estranhos confinados, sem teste
psicológico ou de convivência? O roteiro de FTM é feito nas coxas, afinal,
trata-se dum quickie (do adjetivo
rápido), termo também utilizado até hoje pruma trepadinha veloz. Viu, como foi
nas coxas? Reza a lenda que TFM levou cinco dias pra filmar.
Uma chuva de meteoros iguais aos de Rocketship X-M, mas
vermelhos, avaria a nave, que faz pouso forçado e fica encravada de bico, no
que parece ser neve marciana. Se bem que isso não deveria fazer diferença,
porque no início um dos cientistas afirmara que não faziam ideia de como
retornariam da missão (WTF?).
Em Marte, encontram civilização subterrânea
avançadíssima, capaz de extrair oxigênio e comida de pedra, mas não de construir
foguetes. Todos falam inglês porque captam as múltiplas transmissões de rádio
da Terra, mas sua tecnologia anos-luz mais avançada do que a nossa, não
consegue transmitir de volta. O roteiro tem tanta lógica, como possuo pigmento.
Os marcianos, iguaizinhos a nós e com mulheres usando microvestido, são
supercooperativos, mas logo descobrimos suas segunda intenções.
FTM perde a graça no terço final, quando vira meio
draminha mimimi com sua parte pseudoamorosa. Como o dinheiro acabou, roteiro
teve que fazer os atores ficarem conversando vestindo aquelas roupas
“futuristas”.
A crítica tem sido
demasiado rigorosa com Flight to Mars, porém. Suas roupas coloridas e o nonsense
do roteiro ainda dão caldinho gostoso pra fãs de sci fi.
Dia desses, um amigo de juventude, o Carlinhos, melancólico,
reclamava numa lista de WhatsApp que, vindo da capital, tendo indo a um
barzinho antes muito frequentado na cidade natal, voltou para a casa dos
familiares sem sorriso satisfeito, sem emoções remoçadas e apertado pela lacônica
saudade do que não reviveu. Foi uma notinha solta que ele postou, e que, aliás,
não mereceu comentário algum. Anotei, e no meu recôndito guardei para pensar. E
foi assim que o inventei, na cidade por uns dias, buscando logo um espaço que a
melhor ilusão recriara, um boteco conhecido como Bar do Bigode, reduto de
afetos trançados anos a fio por uma turma que insiste em ainda ser. Não encontrou
ninguém da velha guarda e, por certo desapontado, apressou seus passos para
casa de familiares, contando alguns vazios: desencontros amistosos, tempo desemedado,
lapso das piadas picantes e das novidades presumidas, dos exageros libidinosos
segredados, das indiscrições intimas de tantos.
Em minha meditação sobre o caso do amigo revisitador, imaginei
que seria uma sexta-feira, um fim de tarde preguiçoso, hora de encontros como
nos tempos d’antanhos, onde as vozes podiam sofrer modulações exageradas, sonar
palavrões cabíveis, e até gestos inocentemente obscenos. No devaneio de minha
constatação, também, por certo medi o caminho gorado do colega e supus que
tenha apressado o passo para o aconchego da casa parental que, contudo, seria o
avesso perfeito da farra doce dos que perderam há tempo seus 20, 30, 40 anos de
convívio. No esforço de memória, comigo mesmo, pensando no camarada
entristecido, cheguei a ouvir “conversa de botequim”, do insuperável Noel Rosa
e até ressoou em meus ouvidos algumas notas da gravação do MPB4: ô seu garçom faz o favor de me trazer
depressa, uma boa média que não seja requentada”... Bastou isso para
remontar a vivacidade dos festejos ordinários de encontros marcados pelos
relógios de um passado que não merecia virar silente lembrança.
Pensando no amigo, viajei, fui longe como numa
sequência de goles de cerveja gelada em dia de calor febril e energia
extravagante. E me deixei embeber de saudade de um tempo em que se jogava
conversa fora, comentava-se a gostosura das meninas, os carros novos dos ricaços,
as manobras dos vereadores, as notas baixas na escola, os primeiros cigarros e a
ousadia da ida a zona. E então o debate sobre o futebol era o limite da
contenção. Falar alto não era desiquilíbrio, pelo contrário, era entusiasmo
apenas contido pela proximidade de uma briga apartada pelos “deixa disto”... E
como eram complexas as discussões sobre os jogos, pois ainda que houvesse
prevalência de três ou quatro times alternados, presidia o clima de vingança
abado por torcidas que vingavam derrotas passadas.
Pois é!... Fiquei pensando no meu amigo que “perdeu a
viagem”. Será que ele voltou para a casa e exercitou a solidão dos que não
conseguem mais ser o que foram? Ligou a televisão e se empenhou na Netflix em
alguns episódios como: “Narcos”, “Perdidos no Espaço”, ou o que é pior, na
série “Orange is New Black”, que se arrasta desde 2013? Meu inquieto demônio
inquisidor me cutucava com a maldita pergunta: o que mudou? Seria o preço dos
produtos, a insegurança? Onde teria ido parar o grupo de amigos tão fieis? Sim,
tudo está tão caro, os custos são proibitivos e o medo de assaltos, roubos, estacionamentos,
tudo dificultando tanto a soltura das nossas pressões temerosas, a cada dia
mais internadas em nossas solidões. E como era bom sentar naquelas cadeiras de
botequim. Todo mundo ia para se divertir, bater papo, ter conversa livre, dar
risada. Hoje? Os botequins estão vazios, ou pelo menos cada vez menos
frequentados. Tudo virou muito protocolar e as conversas são sempre sobre
certezas, pontos de vista firmados, definidos. Não se discute, briga-se, e o
partidarismo não mais é para ser debatido e sim imposto. E não há como deixar
de relacionar o esfriamento dos contatos de botequim com a intensificação das
redes sociais. E todos querem resolver as crises políticas, falar de corrupção,
evidenciar os mesmos ministros malditos. Carlinhos, acho que tudo está ficando
muito chato, e o civismo de botequim não satisfaz mais nada, nem ninguém. Todo
mundo anda mal-humorado, ranzinza mesmo, e a guerra entre coxinhas e mortadelas
convida à reclusão. Dói-me muito mesmo ter que dizer que sinto saudade dos
resultados futebolísticos sempre contestados sobre este ou aquele jogo, sobre a
moral da mãe do juiz ladrão, sobre detalhes da vida privada dos jogadores. E
assim concluo que não é o preço da cerveja, a insegurança para chegar até o bar
e nem a dificuldade de estacionamento. Está chato viver, perdemos a alegria do
contato direto, envelhecemos nossas crenças... Sabe, Carlinhos, acho que fizeram
o Bigode do Bar do Bigode...
Terei que retornar à Argentina, em julho, especificamente
pra maratonar séries da Netflix de lá, inexistentes em nosso catálogo. Não
estaria mal curtir o inverno portenho tomando chocolate quente e vendo a
fartura de suspenses espanhóis e séries doutras partes do planeta.
Garimpeiro de produções de países menos “centrais”,
pirei quando vi The Sniffer (2013 -) no catálogo argentino. Duas temporadas
duma série ucraniana, dublada em russo, sei lá se porque é mais viável
comercialmente ou por causa de tretas entre Rússia e Ucrânia, que dificultem ou
impeçam a exibição de programas em idioma X em país Y. Mas, isso é problema
deles, até porque vi as 2 temporadas disponíveis, em espanhol.
O que me levou a dar uma chance a essa espécie de
Sherlock Holmes misturado com House foi apenas o fato de ser de nação bem fora
de minha zona de conforto e d’eu desconhecê-la por completo. Quase me enfurece
o argumento “ah, mas nunca ouvi falar” como desculpa pra não ver/ouvir. Parece
ovelha que não vive sem pastor? Eu, heim?! Veja/ouça por si só e forme opinião;
tão simples.
A minha foi superfavorável com relação aos 16
episódios. The Sniffer traduz-se como O Farejador e isso se explica porque o
protagonista é estiloso e arrogante detetive-consultor dotado de extraordinário
olfato, sendo capaz de deduzir à Holmes, detalhes de suspeitos e vítimas apenas
aspirando profundamente o ar circundante. Só não bote um gato no ambiente, que
a rinite dele grita!
Apesar dalguns ambientes minimalistas demais, a
cinematografia é linda, contando até com profissional de Downton Abbey, na
segunda temporada, quando os produtores perceberam que tinham sucesso nas mãos.
Os episódios são casos independentes, embora como de praxe nas séries atuais,
existam tramas perpassando as temporadas, envolvendo a vida pessoal do
Farejador. Essas são as partes menos interessantes, porque a ex-mulher dele é
uma idiota chata e o filho rebelde não acrescenta nada, ao contrário, desvia o
foco de casos que poderiam ganhar um bocadinho mais de tempo.
A qualidade dramática das histórias melhora
progressivamente nessa série totalmente falocêntrica. As mulheres são vítimas
ou insuportáveis. O centro é o Sniffer e seu amigo superior hierárquico, mas
não intelectual, Major Victor Lebedev, espécie de Dr. Watson, com menos função
dramática. Glutão e xavecador, é a personagem pra gente se identificar, porque
com o Sniffer é difícil. Ele é liso e distanciado demais pra facilitar nossa
empatia, o que está correto, afinal é o fodão do show.
The Sniffer já foi vendido
pra dezenas de países. Netflix brasileira, cadê você que não disponibiliza isso
aqui?
“Aceita que dói menos” é um dos lugares-comuns do
momento, mas que pode ser lema da carreira-solo de Steve Hackett. Ao invés de
negar seu legado junto ao Genesis, o guitarrista tem reinventado as canções de
seu passado setentista em álbuns e turnês muito bem-sucedidas, como seus
Genesis Revisited.
Ano passado, Wind and Wuthering fez 40 anos. O álbum
foi o último de Hackett com Banks-Collins-Rutherford e tem substanciais
contribuições de Steve, então o inglês decidiu que generosa porção de seu show
mais recente – cuja turnê passou por cidades brasileiras este ano – traria
diversas faixas daquele trabalho, assim como clássicos ainda mais antigos.
Isso, claro, sem esquecer de sua produção-solo que incluiu faixas de seu
aclamado álbum do ano passado, The Night Siren.
Dia 26 de janeiro, a Inside Out Music colocou no
mercado o CD/DVD/Blu-Ray Wuthering Nights: Live in Birmingham, registro de um
show de maio de 2017, no Birmingham Symphony Hall. Esta resenha é sobre o CD
duplo apenas.
O nível técnico e artístico é perfeito. Hackett está
com feras entrosadas de tanto tocar junto: Roger King (teclados), Gary O'Toole
(bateria e percussão), Rob Townsend (saxes/flautas), Nick Beggs (baixo e outras
cordas). Jamais se poderia acusar Hackett de primadonismo; todos os
instrumentistas têm chance de brilhar e a guitarra do Mestre resplandece, não
porque precise forçar a barra por ser o chefe, mas, porque tem aquele
diferencial que separa o bom músico do genial. Steve Hackett influenciou Eddie
Van Halen, for Christ’s sake!.
O CD 1 é apanhadão da longa carreira-solo do ex-Genesis.
Traz inescapáveis como Every Day, presente em tudo quanto é show e ao vivo e
que não pode ter arranjos muito alterados: fãs esperam o delirante solo de
Steve, tornando a faixa perfeita para abrir um álbum. Do catálogo perene ao
vivo, digamos, há também a caravana centro-asiática de The Steppes, que forma
bloco com bastantes inflexões orientais com canções de The Night Siren, como El
Niño, Behind the Smoke e In The Skeleton Gallery. Não dá pra reduzir a
diversidade dessas canções a apenas seus elementos “árabes”, mas há fio
condutor entre elas, e Hackett enfileirá-las em enfiada de 4 deu senhora
homogeneidade ao miolo desse CD. Dos álbuns Darktown (1999) e To Watch the
Storms (2003) foram pinçadas Rise Again e Serpentine Song, respectivamente e para
encerrar a primeira parte do espetáculo, Steve reviveu os quase 11 minutos de
Shadow Of The Hierophant, de seu longínquo primeiro álbum, Voyage Of The
Acolyte (1975), quando ainda era do Genesis.Amanda Lehmann preenche a vaga de voz, originalmente ocupada por Sally
Oldfield, provavelmente a cantora mais injustiçada da música britânica.
O segundo CD foca no trabalho do Genesis. Para os
vocais, entra Nad Sylvan, na estrada com Hackett há anos. Ainda há quem
desperdice tempo e energia reclamando que Sylvan não se compara a Peter Gabriel
ou Phil Collins. Cansativo isso. Não se trata do Genesis, mas de um de seus
ex-membros homenageando-o, então, qual é o ponto para mimimizar? As vozes são
parecidas, Nad tenta imitar, claro, mas é mais pra compor um clima, como o Yes
faz quando contrata vocalistas-clones de Jon Anderson. Quase óbvio que nós fãs
preferiremos Phil e/ou Peter, mas de que adianta reclamar de Sylvan, que, acima
de tudo, faz ótimo trabalho dentro de seus limites de não ser Phil/Peter?
Aceita que dói menos. Ou não ouça nada que não seja cantado por
Gabriel/Collins, e pare de encher o saco!
Wuthering Nights é trocadilho com o clássico de Emily
Brontë, que informou títulos em Wind & Wuthering. E como esse é o álbum
homenageado, cinco de suas canções abrem a parte dedicada ao Genesis. Desde a
manjada Afterglow, até as bem mais raras em ao vivo oficial, como Eleventh Earl
Of Mar. Com arranjos o mais fiel possível aos originais – Hackett sabe que seu
público é maduro; queremos o que nos embalou a juventude -, Wuthering Nights
traz a subestimada One For The Vine e Inside and Out, que, vergonhosamente, ficou
de fora de W&W e acabou sendo a única coisa que presta no EP Spot The Pigeon.
Fora do território de seu álbum-despedida do Genesis,
há a versão delirante de Dance On a Vulcano; a máquina demolidora de The Musical Box e a melhor versão ao vivo oficial do solo magnífico de guitarra de
Firth of Fifth.
Impecavelmente feito por um artista que entende
visceralmente de Genesis e que tem carreira-solo monumental, além de perícia
inconteste, Wuthering Nights: Live In Birmingham pode ser o melhor ao vivo de
Hackett, que já lançou diversos.
PGR ignora cidadãos albinos raptados e um deles morto em 2017
A Procuradora-Geral da República (PGR), Beatriz Buchili, faltou à verdade ao Parlamento, na quarta-feira (25), ao afirmar que, no ano passado, não houve tráfico e assassinato de albinos. Todavia, sabe-se que em Janeiro de 2017, no distrito de Ngaúma, província do Niassa, indivíduos desconhecidos raptaram uma criança albina de sete anos de idade. Em Setembro do mesmo ano, um jovem albino de 17 anos foi morto e extraído alguns órgãos, em Benga, Tete, onde em Maio tinha sido detido um casal quando pretendia vender o filho albino. Em Outubro um homem ficou privado de liberdade, acusado de tentativa de venda da sua própria filha, de 13 anos de idade.
No caso do Niassa, os malfeitores arrombaram a porta da casa da família do miúdo enquanto todos estavam a dormir. Na altura, Alves Mate, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) naquele ponto do país, disse que havia esforços no sentido de resgatar a vítima. Mas, nunca mais se soube qual foi o paradeiro da vítima.
Em Tete, o cidadão foi assassinado por indivíduos desconhecidos, no povoado de Nhambaluwalu, e extraíram do seu corpo o cabelo, o cérebro, os membros inferiores e superiores.
Um líder comunitário daquela localidade disse à AIM que o finado “respondia por Chinguirai João. Foi raptado de dia e morto no período da noite”.
Na mesma província, um homem que responde pelo nome de Estefânio Máquina caiu nas mãos da Polícia por tentativa de venda da própria filha, de 13 anos de idade, por pouco mais de 2.360.000 meticais a indivíduos não identificados.
Ainda em Tete, um casal caiu nas mãos das autoridades da lei e ordem por suposta tentativa de venda do próprio filho de dois anos de idade, com problemas de albinismo, por quatro milhões de meticais, em conluio com cinco indivíduos, supostamente por si contactados, e que receberiam cada 50 mil meticais de gratificação.
Segundo a corporação, o casal viajou do distrito de Dôa para o de Moatize, para concretizar o negócio, pois acreditava que era onde se encontravam possíveis e potenciais compradores.
Lurdes Ferreira, porta-voz do Comando Provincial da PRM em Tete, disse que caso o negócio tivesse saído conforme o planeado, os progenitores da criança pretendiam mudar-se para a cidade da Beira.
Estes são apenas alguns exemplos publicados na imprensa e nenhum deles foi mencionado no informe anual da PGR, como também não houve, publicamente, esclarecimento por parte da Polícia e do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC).
Beatriz Buchili disse aos deputados que em 2017 “não registámos casos de tráfico de envolvendo albino, contra sete de 2016”.
Ela apelou para a necessidade de aprovação de um plano nacional de prevenção e combate ao tráfico de pessoas, o qual deverá ainda viabilizar a materialização dos mecanismos de atendimento e acolhimento das vítimas.
O primeiro contato com Milton Nascimento foi quando o
Fantástico apresentou Ponta de Areia, provavelmente em 1975, ano do lançamento
do álbum Minas, contêiner da canção. Pode ser truque mnemônico, mas recordo
direitinho do narrador explicando que Minas Gerais já tivera saída pro mar,
contextualizando a letra e também da belezura do coro infantil e daquela
vocalização inicial de Milton, que me extasia até hoje. Se tudo ocorreu assim,
tinha então oito anos de idade (mas já era fã(nático) pela gritaria psicodélica
de Gal Costa e tinha disco dos Secos & Molhados).
Embora sem comprar seus discos, a “turma de Minas”
sempre me agradou mais do que a da Bahia ou qualquer outra invencionice
mercadológica pra criar grupos e movimentos. Como amo Genesis e Yes acima de
tudo, não estranha a preferência pelos beatlemaníacos do Clube da Esquina
(embora eu mesmo nunca tenha amado Lennon e Cia.; sou pós-Liverpool).
Logo depois da remasterização do álbum Minas, no Abbey
Road, um aluno de inglês me o emprestou. Conhecedor de canções soltas ou
coletâneas, quase enfartei de emoção; que sofisticação, que coisa mais
progressiva de viver. Não me surpreendeu, porque isso só ocorre quando não
esperamos nada de algo/alguém. Desde 1975 sabia que Nascimento era muso, só não
tinha condições de comprar os álbuns, porque tinha prioridades muito bem
definidas e orçamento apertado. A internet democratizou acesso e hoje conheço
muitos discos do povo do Clube da Esquina.
Tinha minhas assunções sobre essa formação cultural
mineiro-cosmopolita, mas jamais lera estudo até deparar-me com Na esquina do mundo: trocas culturais na
música popular brasileira através da obra do Clube da Esquina (1960-1980),
tese de doutoramento de Luiz Henrique Assis Garcia, defendida em 2007, na UFMG.
Por se tratar de texto acadêmico, o historiador tem que
brecar a História a fim de esmiuçar conceitos e justificar ideias, mediante uso
de teóricos como Raymond Williams, Nestor García-Canclini, Angel Rama e Renato
Ortiz. Mas, isso só torna seu trabalho mais útil, porque fazemos um 2 em 1:
aprendemos ideias sobre cultura e as vemos aplicadas na história recente de
nossa música popular, que em algum momento dos anos 60 teve parte chamada de
MPB e outra porção bem maior, desqualificada de várias maneiras.
O trabalho de Assis Garcia identifica o processo de
internacionalização da música popular com o avanço dos mass media ao redor do globo e identifica os efeitos que isso teve
num Brasil que nos anos 60 estava polarizado em debates calorosos entre o
“nacional” e o “estrangeiro”; o “popular” e o “erudito”; o “engajado” e o
“alienado”. Havia canção de protesto com personagem-pescador, cujo autor sequer
sabia pegar numa vara; havia a galera do Tropicalismo, que começara mansa e
certinha, mas radicalizou usando psicodelia e guitarras como elementos de
choque. Mas, que “enfrentava” o sistema amando aparecer nele o mais possível.
Enquanto isso, na provinciana-cosmopolita Belo
Horizonte, grupo de jovens da classe-média usava todas as referências com as
quais crescera, que ia desde música sacra à psicodelia e as sintetizava num som
que, no começo rotulado de “misterioso”, passaria a ser bússola e compasso da
hibridez de “bom gosto” que caracterizaria o pico comercial da MPB, que duraria
a segunda metade dos 70’s até o advento do “rock” brasileiro dos anos 80.
A tese não é uma história do Clube da Esquina, até
porque a ideia duma confraria é mais conveniente constructo midiático do que
realidade de “movimento”. A galera era amiga, gravava junta, mas cada um na
sua, especialmente Milton, que bombou internacionalmente. Seria interessante
ler algo sobre o lado B disso, ou seja, fricções internas, exclusões (será que
não ficou alguém de fora do compadrio endêmico brasuca?), mas a colocada nos
trilhos que proporciona o trabalho do fã confesso Garcia (não se pode perder
isso de vista) é muito eficiente, eficaz, oportuna e interessante.
E olha que legal:
Na esquina do mundo: trocas culturais na música popular brasileira através da
obra do Clube da Esquina (1960-1980) pode ser lida/baixada gratuitamente,
no site
Embora estrelado por Emilia Clarke (a Dull-nerys
Targaryen, de Game Of Thrones), Voice From The Stone não foi visto sequer por
todos os familiares dos envolvidos. A Netflix brasileira apostou tão baixo na
produção do ano passado, que a incorporou na sua grade, sem título brasileiro
ou dublagem, num país que maciçamente prefere ouvir português a ler legendas
(nada de errado nisso, aliás – legenda não é sinônimo de mais cultura).
Não deixa de ser uma pena, porque embora esteja longe
de possuir grandes méritos, Voice From The Stone pode agradar a plateias mais
velhas, acostumadas com lentos filmes antigos de terror psicológico da Hammer
ou Amicus, desde que partindo do princípio que o filme de Andrew Shaw não
acrescenta nada a esse cânone. Pelo contrário, falta-lhe espessura.
Nos anos 50, jovem preceptora inglesa que vai de casa
em casa cuidando de crianças problemáticas, é contratada pra curar menino de 8
anos, que perdera a mãe e emudecera. A minúscula família vive num castelo
enevoado na Toscana e sua fortuna viera duma pedreira, ora desativada. O pequeno
vive com a orelha grudada nas paredes e rochas e logo Verena começa a suspeitar
que algo de sobrenatural entranha-se nas pedras. Ela também passa a viver
situações estranhas.
Voice From the Stone é desavergonhada rapinagem de
todos os lugares-comuns da literatura e cine góticos e derivados. A
protagonista de país protestante enrascada numa nação católica; serviçal de
cara amarrada; velhinha misteriosamente afável (não precisei terminar sua
primeira cena pra sacar o que era). Enfim, tem Mr. Rochester misturado com
Edgar Alan Poe, acasalado com Os Inocentes (1961) rondando pelo Castelo de
Udolpho.
O problema crucial é que nada tem profundidade,
especialmente a protagonista Verena, que não possui nuanças e Clarke não é
Nicole Kidman, é Dull-nerys. Isso, acoplado à morosidade da trama afugenta
gente mais moça e fãs mais típicos de GoT.
Mesmo assim, continuo achando uma pena a falta de
divulgação, porque Voice From The Stone é satisfatório pra quem gosta de filmes
em locações velhas e lindas. Parece aquelas sessões de televisão que nós 50tões
víamos nos anos 70, 80.
Se você não esperar muito além de passatempo e belas
imagens chapadas e estiver com síndrome de abstinência por isso, Voice From the
Stone merece chance. Não
me entediei.