terça-feira, 14 de maio de 2019

TELINHA QUENTE 360


Roberto Rillo Bíscaro

Trançar caminhos de personagens aparentemente desconectadas não é novidade, desde, pelo menos, o sucesso crítico de Vidas Cruzadas, de Robert Altman. Em 2015, Paris estendeu esse conceito em minissérie.
A meia dúzia de capítulos aristotelicamente se passa em 24 horas, em diversos pontos da capital francesa, onde gente tão díspar como o Primeiro-Ministro, uma líder sindical, uma ex-drogada que vendeu o filho e muita gente mais, age e sofre ações que têm efeitos sobre as vidas umas das outras. Mesmo que não se encontrem, as personagens em Paris estão interconectadas.
A ideia é passar visão mais realista dos dramas ocorrentes na idealizada Cidade Luz. O drama e os diálogos de Paris realmente não edulcoram muito as coisas, embora alguns destinos de personagens deixem a desejar, especialmente o diálogo final entre a empregada grávida e o patrão Procurador Geral. Mas isso nem é O problema; a questão é que a avalanche de coincidências é tão volumosa que qualquer sonho de realismo se derrete. No fundo, Paris é tão fantasiosa quanto algumas ficções-cientificas. Mas, é muito gostosa e sensível de se ver.
Dentre toda a fauna urbana apresentada, louvor é devido à excelente representação positiva da transgênero Alexia. Concebida como o coração de Paris – provavelmente numa alusão ao caráter camaleônico da cidade – não dá pra não torcer para que, pelo menos pra ela, esse dia acabe bem.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

CAIXA DE MÚSICA 365


Roberto Rillo Bíscaro

Philip Lassiter cresceu tocando música em sua igreja e ouvindo seu pai-pastor pregar até perder o fôlego.  Apelidado de Philthy (trocadilho com filthy [imundo] e o diminutivo Phil), o multi-instrumentista já tocou na New Power Generation, de Prince, e ganhou diversos Grammys, como arranjador para gente como Ariana Grande, Kelly Rowland, Jill Scott e Al Jarreau.

Ano passado, ele se juntou a uma dúzia de músicos e o resultado foi Party Crashers, lançado em julho. Exímio arranjador e cercado por muralha de músicos e vocalistas, Philthy oferece álbum excitante, variado e cheio de detalhes de produção, distribuído em dez canções e uma vinheta.
As quatro faixas iniciais dão a impressão de que será álbum de funk endiabrado (Take a Ride), com velocidades variadas, mas sempre balouçantes e multifacetadas, basta checar o tempero de salsa popificada do miolo de Bump Da Man. Refletindo e repercutindo a miríade de influências de Philthy, o resto do álbum vai para direções distintas, sem jamais perder coerência ou coesão.

Our Love Is Gold abre em clima orquestral para revelar tapeçaria elegante de balada soul, com direito a coro feminino; tudo muito anos 70. Diamond In The Rough é outra slow jam de soul, mas informada pelo jazz. Epidermis tem clima de R’n’B anos 50, com o característico pianinho batido e mais. Também soul são Good Day e Happy Train: a primeira mais romântica, anos 60 e a segunda, conjugada com energia pop-gospel. E para fechar o trabalho, um louvor pop-blues ao sucesso familiar, mais importante que o profissional.

Se Philthy tiver vida pessoal tão exitosa, como a profissional, vive no sétimo céu. Party Crashers indica que merece.

Ouça no Bandcamp:

sexta-feira, 10 de maio de 2019

PAPIRO VIRTUAL 132

Roberto Rillo Bíscaro

Pro bem e/ou pro mal, a Bossa Nova é percebida como amálgama de jazz e samba. Há quem diga que indica modernização, há quem acuse aculturação. Há quem diga que não deu oportunidade a músicos negros; há quem incense como uma das contribuições mais valiosas do Brasil à cultura mundial.
Independentemente de como a encaremos, antes, durante e depois da eclosão da Bossa Nova houve imbricamentos entre o samba e o jazz, gerando termos como sambajazz, jazzsamba, sambop e outros. A dissertação de mestrado A INVENÇÃO DO SAMBAJAZZ: DISCURSOS SOBRE A CENA MUSICAL DE COPACABANA NO FINAL DOS ANOS DE 1950 E INÍCIO DOS ANOS 1960, defendida por Joana Martins Saraiva, na PUC-RIO, em 2007, tem a importância de servir como pequeno guia pra sons que correm o risco de serem esquecidos, devido à gigantesca sombra projetada pela vencedora Bossa de Tom e João.
A autora reconstrói o rico emaranhado de boates que Copacabana abrigava no decênio abrangido por seu estudo. Essas casas noturnas possuíam shows, onde o jazz foi progressivamente misturado à nossa música tradicional, o samba. Joana resgata matérias de jornais, esgoelando contra tal invasão cultural, que mataria nossa cultura e outros louvando a modernidade que representava tal miscigenação.
A autora não deixa escapar que a “tradição” alegada pelos defensores do samba “puro”, era ela mesma ainda meio novidade, porque o Samba do Estácio, linha predominante nos 50’s, também fora considerada estrangeirista nos 30’s. Ou seja, o trabalho fala da perene luta entre “puristas” e “modernizadores”, que, no caso brasileiro, sempre vencem e explicam sua preponderância com discursos antropofágicos.
Desta forma, é muito interessante aprender que o Carinhoso, de Pixinguinha, foi acusado de corrompido, quando hoje ninguém se atreveria. Mas, a mesma pessoa pode reproduzir o discurso, em outros quadrantes, como uso de eletrônica, “contaminação” do funk e outros equivalentes de hoje, desse embate tão velho. Por isso, o texto é tão instrutivo.
Salutar ler a dissertação com papel e caneta ao lado, ou com fácil acesso a serviços de streaming e Youtube, porque a autora cita muita coisa, que corre perigo de ser esquecida, porque o sincretismo entre jazz e samba não se processou nos moldes bossanovistas. Não significa que ouvirei tudo sempre, mas interessados em MPB devem acessar esse repertório pra entender desenvolvimentos.  
A INVENÇÃO DO SAMBAJAZZ: DISCURSOS SOBRE A CENA MUSICAL DE COPACABANA NO FINAL DOS ANOS DE 1950 E INÍCIO DOS ANOS 1960 pode ser acessada legal e gratuitamente, no link:

quinta-feira, 9 de maio de 2019

TELONA QUENTE 287



Roberto Rillo Bíscaro

Embora os Estados Unidos preponderassem na produção de filmes sci fi/horror/trash dos anos 50/60, nações menos importantes, como o Reino Unido, de vez em quando colaboraram com algo. Há quem desconheça que fora do eixo anglofalante tenha havido produções. Claro que teriam melhores (únicas) chances de distribuição se faladas em inglês, mas o Japão tem vários filmes legais, dentre eles o influente Gojira (Godzila no Ocidente) e outros monstros pós-nucleares.
Fora desses três países, há casos isolados, como o dinamarquês Reptilicus (1961), sobre um lagartão que aterroriza Copenhague. Mas, quase sempre foram iniciativas conjuntas com algum estúdio barato dos Estados Unidos. Terror in the Midnight Sun (1959) é coprodução sueco-americana que, por ser facilmente achável no Youtube, pode ser interessante caso de estudo para apreciadores do cine trash da época, não apenas pela inerência da produção. Mas, vamos por partes.
Falado meio em sueco, meio em inglês, Rymdinvasion i Lappland é mistura sem nexo e dinheiro, de King Kong (1933 - esse filme é muito influente!), O Abominável Homem das Neves (1957) e de modo geral, dos filmes de alienígenas pousando em áreas remotas e pouco fazendo, porque faltava grana na produção.
Uma bola de fogo risca os céus da nevada Lapônia e grupo de cientistas, com uma moça enxerida, vão até lá investigar. Sem fundos, boa parte do filme, como de praxe, é falação, e nesse caso, cenas de esqui e montanhas nevadas. A bola ígnea é obviamente uma espaçonave, mas isso é apenas desculpa pra botar um cara vestido com roupa de corpo de gorila e cabeça de monstro, andando pela neve (tipo Robô Monstro), com a berrante mina nos braços.
Esses filmes são apenas prum nicho bem pequeno hoje em dia: apenas nós que nos divertimos com incongruências ou machismos, tipo colocar garota supostamente campeã olímpica de patinação ou algo assim, mas que consegue levar dois tombos feios em menos de 90 minutos. E, depois dum desses tombos, começar a correr como se o joelho estivesse na melhor das formas.

Os cheapies – como eram chamadas essas produções de fundo de quintal – passavam por processos de reciclagem frequentes. Tomadas/Cenas/Sequências inteiras eram reutilizadas em diversos filmes. Adendos eram gravados e inseridos em material existente, gerando filme “novo”’, enfim, os produtores e cineastas independentes sabiam e queriam ganhar alguns dólares sem gastar.
O Youtube permite aula magna desse processo de picotagem, clonagem, reciclagem (picaretagem?) pra quem consegue acompanhar inglês sem legenda, se bem que essas produções eram pra meninada ver em drive ins, em sessões duplas, nem mesmo os nativos ligavam muito pros diálogos.
Um dos produtores suecos vendeu os direitos de Terror In The Midnight Sun pros ianques. Reza a lenda que o escandinavo embolsou toda a bufunfa... Anyway, na linha barata de montagem californiana, a duração foi drasticamente reduzida (e mesmo assim há encheção de linguiça pra fazer uma churrascada) e cenas gravadas pra inserção. O resultado é Invasion of the Animal People, que faz ainda menos sentido que seu genitor, afinal, a película é um verdadeiro Frankenstein; só retalhos.
Tudo começa com o então onipresentemente trash John Carradine fazendo introito sobre a importância da ciência e depois a atriz Barbara Wilson gravou cenas extras, pra inferir que sua personagem já vivera situação traumática envolvendo contatos com alienígenas. Daí, aparecem as notícias da queda da bola de fogo e todo mundo vai pra Suíça (notem que não é mais Suécia, mas depois parece que é, sei lá). Qual a relação de causa e efeito ou qual arco descreve a personagem mediante dois traumas com ETs? Imagine que tem isso; nem há relação entre as experiências da moça. É só pra ter filme, gente! A parte esses extras, todo o restante são cenas do filme sueco, que, se já não fazia muito sentido, nessa versão terá cortes inacreditáveis devido à edição. É muito engraçado e instrutivo pra quem se interessa por filmes B.

terça-feira, 7 de maio de 2019

TELINHA QUENTE 359


Roberto Rillo Bíscaro

É certo que qualquer história de detetive amador sugere incompetência policial, em alguma medida. Aponta também supremacia sobre do trabalho individual, não-treinado sobre o grupal preparado para ações investigativas.
A série Ultravioleta (2017), adicionada discretamente ao catálogo da Netflix, não desmerece a labor grupal, mas demole o supostamente especializado, em nível quase aterrador. Baseados num livro que narra contribuições dum grupo de internautas na resolução de casos considerados insolúveis pela polícia, os dez capítulos traçam o órgão público polícia como basicamente inepto, inapto, estúpido e desprovido de qualquer equipamento humano ou tecnológico.
Ultravioleta é o nome dum grupo de fuçadores internéticos que resolve casos que a polícia de Lódz não consegue ou não quer se dedicar. Não há nada de errado na colaboração entre polícia e expertos de fora da caixa, mas a série exagera na caracterização negativa da força policial: parece que os caras sequer possuem departamento de informática e são incapazes de pensar nas coisas mais óbvias. Pra se ter noção, o único policial que ganha destaque é o bofão que será interesse da protagonista: o cara usa boné com a aba pra trás, que nem moleque!
Liderando o Ultravioleta está a uberista Ola Serafin, que não possui nenhum talento ou treinamento especial, além de protagonizar a série. Na verdade, antes do capítulo primeiro, ela sequer conhecia a organização, mas a partir do segundo já dá palpites e indicações óbvias, que qualquer serviço policial teria feito como parte do procedimento padrão. Além de Ola, há o usual jovem hacker (asiático, porque a Polônia também quer ser multiculti!), duas youtubers que dão dicas de maquiagem (é o predomínio da turba dos comentários!) e um policial aposentado (ué, mas policiais não são incompetentes?).
Todos esses senões são em nível conceitual, de criação, então se os roteiros forem eficientes, basta suspender a descrença e evitar cair na perigosa assunção de que os serviços públicos não funcionam, que Ultravioleta vai de boa? Isso também não é tão simples, porque, pra reforçar o conceito de excelência onisciente do Ultravioleta, as tramas não se aprofundam.
Os temas dos episódios são bem interessantes, como inteligência artificial, imigração (quem quer emigrar pra Polônia?) e, claro, assassino em série. Entretanto, a execução não é de bamba. Tudo se resolve sem solavancos pro Ultravioleta, os únicos capazes de usar a rede e rastreios de celular inteligentemente. Os desvendamentos são por demais simples e imediatistas.
A primeira série polonesa na Netflix brasileira não se destaca, mas a vi inteira, não apenas porque gosto de produções destoantes da hegemonia anglohablante, mas, porque dá pra ver tranquilamente, não é ruim. Só não é nível Hinterland, também presente na Netflix.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

CAIXA DE MÚSICA 364


Roberto Rillo Bíscaro

Hoje, a forma mais fácil de apresentar The O’Jays é indicar o tema de abertura d’O Aprendiz. Adotada pelo original norte-americano que gerou a franquia, For The Love Of Money tem que ser usada em todas as suas versões, inclusive a brasileira.

The O’Jays foi formado no longínquo 1958, em Canton, Ohio. Apesar de algumas entradas nas paradas de R’n’B, o então quinteto só estourou no início da década de 1970. Quando Gamble e Huff os contratou para seu selo Philadelphia International, os O’Jays tornaram-se estrelas de grandeza prima e encetaram clássicos como Love Train e Back Stabbers.

Como ocorre em qualquer nicho de música popular, conforme os gostos foram mudando, a proeminência dos norte-americanos diminuiu e os álbuns de estúdio rarearam.  Há mais de vinte anos um trio, Eddie Levert Sr., Walter Williams Sr. e Eric Nolan Grant jamais pararam de excursionar pesado. É até difícil de imaginar sessenta anos de estrada. Conta a lenda, que antes de cada turnê, o grupo se refugia em Las Vegas, durante semanas, ensaiando uma base de dez horas diárias, sete dias por semana.

Há mais de quinze anos sem lançar novidade de estúdio (álbum de Natal não conta, porque é regravação), ano passado apareceu Too Imagine. Porém, não passava de picaretagem de um selo que apenas maquiou títulos de canções de Together We Are One, de 2004. Nem o trio sabia do lançamento, até ser alertado.

Ao refutarem o lançamento apócrifo, os O’Jays anunciaram que preparavam seu último álbum de estúdio. Em fevereiro, saiu o [apropriadamente intitulado] The Last Word. 2019 está paradisíaco para fãs de black music dos anos 70. Material “perdido” de Marvin Gaye e Nat Turner Rebellion viram a luz do dia e os veteranos de Chicago retornaram.

No curto álbum de nove canções, os O’Jays investem pesado nos metais e cordas doces e harmônicas do som da Filadélfia, em delícias deslizantes, como Start Stoppin’. Dá pra perceber tão nitidamente, como o Phily Soul influenciou a disco music (que não é filha só de Nova York) nessa faixa vibrante, com vocal ainda fresco e aquela capacidade de bolar refrãos aliterativos e infecciosamente grudentos. Gotta keep keeping on/gotta keep keeping on/gotta keep keeping on, ai, desculpa a vitrola quebrada, gente, não paro de cantar isso há dias.

’68 Summer Nights é reminiscência planante e com naipe de cordas sobre a juventude dos O’Jays, época, quando gravaram originalmente a faixa de encerramento, I’ll Be Sweeter Tomorrow (Than I Was Today). Sentido doo wop, ao qual acrescentaram introito falado, explicando que, quando gravaram a faixa, em 1967, não sabiam realmente o que significava ser “mais doce”. Vocais no topo da forma.

Jamais alheios a críticas sociais, os norte-americanos fazem-na diretamente em números mais sombrios, onde predomina o R’n’B, com ênfase no B (blues), como é o caso de Stand Up (Show Love) ou Above The Law. O clima musical não precisa fechar pra gerar farpas: Do You Really Know How I Feel é típico soul anos 60, mas cuja letra solta dardos, embora menos diretos do que nas faixas sombrias. Os negros ainda têm bastante do que reclamar, como desigualdade de renda e no tratamento recebido: uma letra diz que jovem negro, quando pego com droga paga multona e vai pra cadeia; garotinho branco, vai pra rehab).

O legal mesmo é quando conseguem sintetizar amor, dardinho envenenado e Phily Soul, como no caso da faixa de abertura, I Got You. Numa letra sobre conquistar a amada, em meio a metais e cordas, afirmam que conseguirão, mesmo que construam “o tal muro”. Farpa na trumpice anti-imigratória, numa canção que preconiza o amor como revolução salvadora. Eles não negam a origem em outra era...

Sem precisar ou querer inventar moda, a única lasca de contemporaneidade de The Last Word é Enjoy Yourself, composta por Bruno Mars. Isso não significa nenhuma ruptura, até porque Bruno é bem passadistazinho, mas o modo de compor é diferente. A faixa abre meio lembrando Lovefool, dos Cardigans, pra imediatamente virar bongôs com cornetinhas Burt Bacharach e depois cair numa característica cadência deslizante.

Se The Last Word for realmente sua última palavra em estúdio (os coroas estão em turnê divulgando o álbum!), os O’Jays fecharam a boca em grande estilo.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

A ANTA ALBINA

Cidade do Vale do Ribeira abriga a única Anta Albina registrada na natureza
Uma grande curiosidade entre as cidades Vale do Ribeira, é o município de Tapiraí, que pela grande quantidade de antas que vivem livremente, recebeu o nome de “cidade das antas”. Se antes era tida como carne de caça, hoje, a espécie a vista como parceira quando o assunto é a conservação das florestas.

A rara espécie de anta foi vista pela primeira vez em território brasileiro no ano de 2014, pelo biólogo e fotógrafo Luciano Candisani, no bairro da Anta, no Legado das Águas, uma reserva natural da cidade.

O registro da espécie rara do animal, conhecida cientificamente como Tapirus terrestres, foi feito quando o profissional realizava um inventário fotográfico de animais que vivem na reserva natural em Tapiraí. No ano de 2016, o animal também foi registrado nadando no rio Juquiá, por um funcionário de uma empresa ambiental, que estava passando de barco no local.

O Legado das Águas é uma reserva natural do município, sendo a maior reserva privada da mata atlântica do país. De 31 mil hectares que a entidade possui, parte é coberto pela mata atlântica, que é o habitat natural das antas. A proteção da floresta garante a existência de animais como a espécie rara e outros ameaçados de extinção.

A entidade possui mais de 31 mil hectares, e delas, a mata atlântica é habitat natural das antas e a proteção da floresta garante a existência de animais como a espécie rara e outros ameaçados de extinção.

Para manter esse cenário, projetos e atividades de educação ambiental são desenvolvidos pelo Legado das Águas, a maior reserva privada de Mata Atlântica do País. “A cidade é uma das poucas inseridas em uma área tão bem preservada do bioma e, como consequência, é um local onde a anta, espécie em perigo de extinção, está presente no dia a dia das pessoas”, explica Mariana Landis, bióloga responsável pelo projeto de conservação da espécie no Legado.

Para comemorar o Dia da Anta, oficializado em 27 de abril, alunos do 6º ano da Escola Estadual Bairro do Turvo, na cidade de Tapiraí, participam hoje (26) da palestra “As antas do Vale do Ribeira: Mata Atlântica”, oportunidade de conhecer o cotidiano dos pesquisadores na floresta e os equipamentos utilizados para o monitoramento, além de entender mais sobre o comportamento das antas.

“Essa ação é fundamental para despertar nos jovens o interesse pela biodiversidade que o município abriga”, comenta a bióloga, que destaca a importância de valorizar a data destinada ao maior mamífero herbívoro terrestre do Brasil. “A comemoração do Dia da Anta se faz necessária para fomentar a valorização e a proteção da espécie, da Mata Atlântica e da região como um todo”, completa Mariana.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

TELONA QUENTE 286



Roberto Rilo Bíscaro

Em 4 de outubro, de 1957, a União Soviética aterrorizou os cidadãos de bem do mundo ocidental, ao colocar o primeiro objeto humano circulando a Terra. O Sputnik botava a comunista Moscou à frente da corrida espacial. Internamente, o sentimento era de orgulho patriótico, não distinto dos capitalistas EUA. No meio cultural, os soviéticos também produziram filmes de ficção-científica espaciais, com pontadas ao inimigo externo.
Em 1959, saiu Nebo Zovyot, que, de forma lenta e sem recursos, conta sobre fracassadas missões à Marte, por culpa dos cúpidos norte-americanos. Os industriosos russos salvam o dia, porém. Apesar de termos que confiar nas legendas não muito detalhistas da versão no Youtube, percebe-se que a disputa pela dianteira na corrida espacial, faz russos e norte-americanos tratarem viagens espaciais, como se fossem idas a um concerto: ah, se você vai, vou também! Não precisa cálculo; pessoal qualquer entra nas naves e estação espacial. Tudo bem que parte do filme seja um sonho do jornalista.
De qualquer modo, fãs de sci fi que leem inglês não deveriam perder essa pérola.   

Enquanto a cidadania de bem temia e execrava os Vermelhos, espertalhões como Roger Corman não tinham pruridos em comprar filmes soviéticos e reempacotá-los pra consumo em drive-ins ao redor do país. Foi fazendo isso com Nebo Zovygot, que o venerado Francis Ford Coppola começou sua carreira. Ele transformou o filme russo em Battle Beyond The Sun.
Conseguir americanizar a película é uma das picaretagens mais geniais de Corman e Coppola. Bastou dublar os atores, com falas inventadas por Francis Ford. Os atores listados no início, simplesmente inexistem, porque tudo o que o espectador vê é o elenco russo em cenas picotadas, reeditadas e retrabalhadas pra obliterar qualquer símbolo soviético ou letra cirílica. Também foram eximidos os beijões na boca entre os camaradas soviéticos.
No começo, narrador explica que após a guerra nuclear, o mundo estava dividido em duas superpotências: o Hemisfério Norte e o Sul. Elas disputavam a corrida espacial. Ou seja, a espécie humana é tão estúpida, que nem uma aniquilação atômica fez com que aprendesse que lutas territoriais infantis não prestam pra nada. Em termos narrativos, com esse prólogo e a dublagem, a maracutaia estava perfeitamente assegurada. Era a disputa EUA x URSS pra ver quem mijava mais longe, mas de outro jeito.
Pra assegurar um pouco mais de suspense e “ação”, Coppola criou um monstro, vivendo no asteroide onde a nave estava encalhada. São cenas enxertadas, que de fato não produzem bônus algum em suspense, porque obviamente a criatura não interage com qualquer personagem.
O ideal é ver as produções imediatamente em sequência pra se divertir imenso com o empreendedorismo do grande Roger Corman e seu assecla faminto por oportunidade, Francis Ford Coppola.
Felizmente, o Youtube também disponibiliza Battle Beyond The Sun.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

CONTANDO A VIDA 271


BOLSONARISMO CULTURAL.
José Carlos Sebe Bom Meihy

Sem exagero, quase me candidatei a novos stents quando fui apontado por um “amigo” como “agente propagador do marxismo cultural”. Logo eu, perguntei-me ante a afirmativa surpreendente. Como tenho feito recentemente, não dei asas às respostas imediatas que voariam fáceis para picos defensivos. Calado, contudo, nutri certeza desafiadora de respostas, pois, afinal que motivo teria o “interlocutor”? Não me foi difícil desbastar as razões que motivaram o esbravejante “colega”. Sou, com muito orgulho, profissional da História defendida como disciplina curricular efetiva; fui professor da Universidade de São Paulo, onde passei 50 anos estudando, ministrando cursos, pesquisando (e basta citar a USP para irritar incultos); fiz e faço trabalhos com analfabetos e desterrados; apoio o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e dos Sem Teto; defendo as cotas nas universidades. Não bastasse, por anos acompanho as levas de brasileiros que, em plena força produtiva, deixam o país e, nesse projeto de história pública tenho também lidado com mulheres e homens que praticam a prostituição como forma de trabalho no exterior (fato que, em conjunto, acaba por comprometer a imagem do Brasil como paraíso sexual). Junte-se a isso a luta pelo acesso amplo, livre, sem discriminação, ao conhecimento em escolas públicas, gratuitas e de qualidade. Feito o elenco dessas minhas devoções, percebo que me enquadro confortavelmente no esquema rejeitado pelo atual governo federal. Então, segundo eles, sou “agende propagador do marxismo cultural”. Sou? E daí?
Devo dizer que li há tempo Olavo de Carvalho, e agora vendo sua proeminência, me surpreendo com a notoriedade de alguém que subsistindo fora do ambiente universitário acumulou argumentos que mesmo articulados de maneira atabalhoada viraram armas contra o saber formal, edificado por séculos de avanços cumulativos. Sem muito esforço, devo reconhecer que o olavismo cresceu exatamente por não ter sido levado em consideração pelo pensamento crítico que, ironicamente, agora virou alvo de suas colagens discriminatórias e “excludentistas”. Num esforço quase que de remissão pelo silêncio intelectual, nota-se naquele franco-atirador dois tipos que se fundem em um mesmo ideólogo. Uma face da moeda olavista tende a aproximá-lo da figura de “pensador independente”, autônomo, capaz de municiar “emergentes politicólogos” e assim propor regras que não precisam de fundamentos embasados. O outro lado, porém, o percebe como psicopata, maluco, mal formado, e exatamente por isso influenciador de discípulos desprovidos de capacitações mínimas. Breve esforço de entendimento leva reconhecer na lavra do proponente – em particular pelos cursos (pagos) via internet – duas atitudes estratégicas: ao escrever, Olavo de Carvalho obedece a regras mais moderadas, típicas de quem sabe que o código grafado é persistente e passível de exames. Ao tuitar, porém, assume papel esquizofrênico, vomita palavrões, artifício muito apreciado por descontentes que se constroem nos erros dos governos anteriores, agora mostrados como a boca do inferno. É aí que entra o alentado brado contra a corrupção. Numa sociedade de massa e insatisfeita, a chave olavista abriu portas para a vingança do conservadorismo patriarcal, machista, excludente, atrasado. A corrupção – e o combate a ela como emblema de uma virada histórica – virou palavra de toque: seu combate tudo justificaria, mesmo calamidades.  
Assumindo-se conservador, o programa do atual presidente vai galopando e as patas ligeiras de seus ministérios vão fazendo estrada. Custe o que custar, mesmo que seja propagar absurdos comportamentais, tudo vale para empanar os avanços anteriores como as conquistas inequívocas da população pobre – basta, por exemplo, lembrar que desde o Plano Real (1994), a pobreza caiu 31,9% sob FHC, e no período do ex-presidente Lula, até 2010, houve queda de 50,64%. Mas isto não interessa a quantos vêm a presença de pobres nas universidades, em melhores patamares de consumo e até em aeroportos. É exatamente aí que entra a questão do marxismo cultural. Teriam sido os professores, artistas e o pessoal formador de opinião os responsáveis pelo reconhecimento daqueles avanços? E isso teria a ver com que o que Olavo de Carvalho chama de “doutrinação nas escolas”? Pelo sim ou pelo não, aí estão as respostas do governo: cerceamento do acesso às artes bloqueadas pela censura e cortes de verbas; ao invés de motivar direito às escolas públicas e à elevação do padrão universitário, filtrar acesso elegendo inclusive áreas práticas e de rendimento econômico imediato; em vez de motivar o ingresso de minorias nos quadros culturais, exortá-los como marginais, e no lugar propor enquadramentos familiares que não mais respondem às configurações modernas. E o meio ambiente que virou ameaça internacional?
Mas há algo que insurge e que, em termos conceituais, não pode ficar de fora de qualquer juízo, por mediano que seja: no lugar do aludido marxismo cultural estamos tendo que engolir um bolsonarismo cultural. E como é pobre! E como é redutor!! E como é desprovido de belezas e, sobretudo de direitos!!! Por irônico que pareça, há lógica no caos advogado pelos discípulos olavistas, basta ver os pronunciamentos do presidente para concordar com ele, precisamos aprender a ler e escrever (e falar). Ele nos dá exemplo da necessidade de instruir-se adequadamente e a fazer conta (o Ministro Guedes que o diga e explique a diferença entre 3 trilhões e 800 milhões). E até onde irá o bolsonarismo cultural? A pergunta fatal que se faz remete às saídas: temos alguma? Quem se atreve a responder? Será que o vice-presidente ajudará achar atalhos? Tomara que a marchinha triunfante do carnaval de 1950, vibrada na voz de Blecaute, refaça a ordem dada por um general para derrubar uma cerca que atrapalhava o andamento da população “Mourão, Mourão, catuca por baixo que ele cai”. Mourão, Mourão, veja que o Olavo de Carvalho não gosta de militares, portanto “catuca por baixo que ele cai”.

terça-feira, 30 de abril de 2019

TELINHA QUENTE 358


Roberto Rillo Bíscaro

Não são poucos os debates sobre deficiência enfocando o uso do termo “especial”, para descrever pessoas ou necessidades. Estas são específicas e os deficientes nada “especiais”, são gente capaz de maravilhas e canalhices, como qualquer outra, apenas com características próprias, como não poder ver ou andar. O nome da nova sitcom da Netflix, Special, foi escolhido por seu roteirista e ator principal, Ryan O'Connell, autor do livro que a inspirou, I’m Special and other lies we tell ourselves to get through our twenties (2015). Assim, antes de conclusões precipitadas sobre o “especial” titular, perceba que foi retirado de um contexto bastante irônico, dado por uma pessoa com deficiência.

O’Connell afamou-se na blogosfera/twittersfera por começar a falar sem muitos rodeios sobre como é ser gay com deficiência. Ele tem paralisia cerebral em nível não muito forte, o que lhe permite até estrelar a série, parecendo meio que um nerd, ao estilo do garoto autista de Atypical. Pessoas com deficiência ganham cada vez mais espaço protagônico, desde que possam fazer o motorzinho do drama funcionar e pareçam versões excentricamente fofas de qualquer um. Há que louvar a inclusão na TV, mas sempre é preciso discutir se ela não está criando olhares que só enxerguem a deficiência como peculiaridade proporcionadora de momentos de humor e idiossincrasia. Autistas podem ter acessos de raiva; queimar possíveis cânceres de pele com nitrogênio, nos albinos, não é leve e divertido. Se bem que os albinos ainda não foram lembrados pelos estúdios iluminados e que dificultam a abertura dos olhos. A discussão precisa passar pela real validade da propalada inclusão, ou seja, se as pessoas com deficiência não são apenas mais um objeto de curiosidade divertida, sem repercussão educativa real nas representações.

Isto posto – e é necessário que o seja – resta a série e Special é cativante e inovadora. Ryan O'Connell vira Ryan Hayes, que vive sob a asas da mãe até arrumar estágio não-remunerado num blogue, onde esconde sua paralisia cerebral. Como sofreu acidente de carro, atribui suas restrições e diferenças como sequelas. A ideia é que seria mais facilmente aceito. Nesse sentido, a personagem Ryan desenvolve um arco dramático de sair do armário como pessoa com deficiência, porque como gay isso não precisa acontecer, porque sempre foi assumido. Isso confere uma das originalidades de Special e é feito com competência.

Formalmente, o modelo de sitcom passa por processo de redução no tempo diegético. Cada episódio tem meros 15 minutos e todos os episódios podem ser maratonados em pouco mais de duas horas. Mesmo com essa brevidade, o roteiro consegue tocar em ponto bastante importante: o ressentimento na relação entre mãe e filho. Não há dúvida de que Karen Hayes ama seu menino, mas deixou de viver um monte de coisas por sua causa. Tal constatação é o ápice da temporada de estreia e espera-se que seja desenvolvida na possível jornada posterior. No laconismo da geração Twitter, o roteiro de O’Connell consegue desenhar personalidades e trajetórias às personagens coadjuvantes, especialmente à mãe e sua tentativa de romance com o vizinho Phil. Ou seja, Special é também competente exercício de concisão narrativa.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

CAIXA DE MÚSICA 363



Roberto Rillo Bíscaro

Joanna Teters compartilha algo com o barulhento Native Construct: ambos são egressos da Berklee College Of Music. Só que, enquanto estes fazem inovador prog metal, a nova-iorquina sempre amou R’n’B, soul, jazz e reggae. Em carreira-solo ou liderando bandas, Teters tem larga experiência em palcos norte-americanos e europeus e ano passado saiu seu álbum de estreia, Warmer When It Rains. 
Nunca superproduzido, o trabalho funciona quase como um EP, porque são apenas 7 canções e a faixa-título, pouco mais de um minuto de blues sexy. Por que desperdiçar munição assim? Daria canção bem gostosa. Teters percorre o caminho das produções contemporâneas com arzinho de coisa vintage, então o álbum pode apetecer a distintas gerações de fãs de black music.
Ecos de trap estão na sexy abertura de Ride With Me ou no clima latino etéreo de Supreme. Through the Night é soul disco que agradará tanto a jovens revivalistas Nu disco, quanto a fãs de Lisa Stansfield ou remanescentes da primeira metade dos 80’s. A guitarrinha “distante” de Memories Remain empresta tom bem indie à balada soul.  
Midnight traz o clima sexy da onipresente Amy Winehouse, aquela judiazinha inglesa que tanto impactou na música negra do século XXI. Teters está em modo R’n’B, mas os vocais resvalam pro reggaeton ou hip hop, numa combinação envenenada. Joanna também consegue soar pura e cristalina, como na derradeira So Easy to Love, cujo arranjo econômico destaca sua linda voz, num clima bem soul anos 70.
Warmer When It Rains pode ser mais quente, quando chove, mas jamais é frio ou morno. 
Só não ouve quem não, porque está no Bandcamp:

sábado, 27 de abril de 2019

DESAPARECIDOS

“O albino não morre, desaparece”

Scalabriniana brasileira que atua em Moçambique relata as rotas de tráfico humano existentes no país, relacionadas inclusive a crenças populares.

“O albino não morre, desaparece”: este é um dito popular em Moçambique, que explicita a prática ainda atual da comercialização de partes do corpo de pessoas portadoras de albinismo.

A missionária brasileira Ir. Marinês Biasibetti atua no país no combate ao tráfico de seres humanos.

Em entrevista ao Vatican News por ocasião da recente Conferência Internacional em Roma que tratou deste tema, a missionária scalabriniana relata as rotas existentes em Moçambique, relacionadas seja à migração, seja a crenças populares:

sexta-feira, 26 de abril de 2019

QUATI ALBINO

Moradores encontram quati albino em meio à outras espécies em fazenda. Para vê-lo, acesse o link:

quinta-feira, 25 de abril de 2019

TELONA QUENTE 285

Roberto Rillo Bíscaro

Ao que tudo indica, assistimos ao nascimento de franquia de terrir, mistura de horror com comédia. O sucesso de A Morte Te Dá Parabéns (2017) determinou continuação, cujo título no Brasil só foi acréscimo do 2 ao nome e chegou aos cines, em fevereiro.
Os minutos iniciais levam a crer que a armadilha temporal na qual caiu Tree Gelbman desta feita pegou Ryan, personagem de terceira importância no filme um. Como ele é “nipo”-americano deve ter sido mais inclusivo colocá-lo na berlinda por alguns minutos e ele realmente é simpático. Mas, o cetro logo volta às mãos da competente atriz Jessica Rothe: Ryan e seus amigos nerds experimentavam com física quântica e criam loop temporal, que volta a engolir Tree. Nesta fração da franquia, há complicador: além de morrer todo dia e ter que descobrir seu assassino, Tree é transportada também a outra dimensão, onde sua mãe está viva. Daí, há a dura decisão de escolher entre voltar pro seu tempo e dimensão sem a mãe ou ficar na emprestada, com a mama, mas vivendo vida postiça.
A Morte Te Dá Parabéns 2 meio que substitui a fórmula Pânico + Feitiço do Tempo, por Feitiço do Tempo + De Volta Ao Futuro. Em sua maior parte, esperto e atraente, o filme aboliu o terror. Ainda existe o serial killer com máscara de bebê, mas não provoca suspense e nem gera gore. Happy Death Day 2U é mais uma fantasia cômica teen com confeitos de suspense sci fi.
Enfim, uma salada de subgêneros, que funciona em parte. A sequência dos suicídios de Tree é muito bem-bolada. Ela decide que se terá que morrer diariamente de novo, que seja por escolha própria e não à mercê de serial killer. Empoderada! Porém, há momentos sub-aproveitados, como colocar dois Ryans de dimensões distintas numa mesma e não explorar ou explicar por que (porque a caucasiana loira tem que ser a final girl!) e uma sequência dolorosamente desnecessária e estúpida de humor abaixo de pastelão, envolvendo suposta intercambista francesa cega.
Ao contrário da prestação primeira, que podia agradar galerinha teen e alguns fãs mais outonais de slasher films, A Morte Te Dá Parabéns 2 escolheu pender pro primeiro grupo. Fãs de horror “sério”, sem muito senso de humor, mantenham distância.

terça-feira, 23 de abril de 2019

TELINHA QUENTE 357


Roberto Rillo Bíscaro

Em 2010, um líder do Hamas foi assassinado num hotel em Dubai, num crime logo associado ao Mossad, serviço-secreto israelense. O que mais capturou a imaginação, porém, foi o uso de dezenas de passaportes clonados de gente de verdade, da Europa e da Austrália, que, dum segundo pro outro, se viu implicada numa intricada trama engendrada a milhares de quilômetros de seu cotidiano.
Assim, se você tiver a sorte de cruzar com os 8 capítulos de Kfulim (2015) – internacionalmente conhecida como False Flag – cuidado antes de proferir o clássico, “só em séries mesmo...”.
Numa bela e calma manhã, em alguns subúrbios classe-média de Israel, 5 “comuns” veem as páginas de rosto de seus passaportes estampados nas telas dos principais canais de notícia, em escala global. A suspeita: terem sido autores do ousado sequestro dum ministro iraniano num hotel moscovita. Sinta o calibre do problema: árabes e judeus e russos. Pura espoleta atômica.
No começo, não há aparente ligação entre os suspeitos ou sequer cabimento nas alegações. Um químico pai de família; uma tutora bilíngue de inglês, com cara de sonsa; uma contadora prestes a se casar; uma garota que adora o escândalo, porque lhe proporciona seu momento Kardashian; uma espécie de Kadu Moliterno judeu. O que teriam em comum? Mas, aos poucos descobrimos alguns elos, esqueletos nos armários e pior, por que todos estavam fora de Israel no dia do sequestro, inclusive até na capital russa?
Pátria de Fauda, Hostages (ambas na Netflix) e do original de Homeland (preciso ver!), Israel tem sólida reputação quando se trata de thrillers. False Flag não nega a estirpe. O primeiro capítulo é daqueles que poderia constar em qualquer manual de roteiro de série de suspense: apresenta as personagens, nos interessamos por elas e os acontecimentos nos injetam mil dúvidas, que nos fisgam pros próximos episódios, sempre culminantes em cliffhanger reviravoltante ou revelatório. 
Com algumas personagens que descrevem arcos de mudança, como a inicialmente festeira Asia, False Flag não escapa dalguns clichês, como alguém possuir um melhor amigo hacker, disposto a se colocar em perigo de segurança nacional por você.
Qual série não os tem? O que importa é que False Flag entretém e eletriza.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

CAIXA DE MÚSICA 362



Roberto Rillo Bíscaro

Uma das funções do underground é fornecer tendências e estilos, que se tornarão modinha mainstream ou padrões hegemônicos duma época. Geralmente liquefeito e acessibilizado pra se parecer um pouco com o já conhecido, apenas com toques de “revolução”, a nova convenção de gueto é percebida por capitães da indústria cultural ou olheiros como Bowie, Madonna ou Gaga e ressignificada pra consumo maciço.
Grosso modo, as paradas de sucesso britânicas depois de Pump Up The Volume eram um planeta bem diferenciado daquele da primeira metade oitentista. Duran Duran, Ultravox e Culture Club já eram som de irmão mais velho. Moçadinha teen queria diferença, e o fervilhante cenário acid house forneceu elementos pra que o som predominante mudasse, mas não tanto.
No fim do decênio, S’Express, Coldcut e Bomb The Bass tiveram seus 15 minutos de holofote forte, todos oriundos da cena da dance ácida do Reino Unido. Claro que o Top Ten era dominado pelo pop bem mais fácil de Stock, Aitkens e Waterman e que tio Phil Collins e mano mais velho Morrissey ainda davam as caras nas 10 Mais, mas a novidade cultural da garotada era a acid house e ela rendeu bastante grana. Não à toa, o álbum de 1989 da New Order tinha influências de acid house, ou seja, o quarteto de Manchester (Madchester, como apelidada então) agora se adaptava a tendência ao invés de ditá-las.   
Para galgar o Top Tem, via de regra era necessário adaptar-se ao padrão mais “ordeiro”, mesmo que a aparência não fosse esta, aliás, seria melhor que não fosse; rebeldia de butique sempre rendeu dividendos. Sons mais inovadores, com sonoridades “estranhas” permaneciam na parada independente, como o Colourbox. Isso não desmerece o sucesso comercial e o afirmado não se pretende regra pétrea. Muita coisa ótima chegou às paradas. Pra ter boa qualidade não precisa ser inovador ou inacessível.
Em 1988, um álbum-cometa flamejou no firmamento pop britânico e a artista voltou pro espaço sideral sem deixar rastros. Convém mirar nosso telescópio pra Yazz, que soava nova em relação ao Eurythmics, mas visualmente evocava Annie Lennox. Esse revival obviamente passa pelo fato deste blogueiro ter tido o vinil e tentado aderir à sonoridade acid no par de anos finais dos 80’s, mas também, porque a acid house voltou forte, em 2018. Não precisa ir muito mais longe do que a faixa de abertura de Mutant City Acid, do Posthuman pra perceber o teclado “enrolado” da Roland e as linhas de baixo sintetizadas. 


Filha dum jamaicano e duma inglesa, Yazz badalava na cena musical clubber e de moda, desde a primeira metade dos 80’s. Como a acid house se deu melhor nos singles do que nos álbuns, Yazz arrasou com quatro compactos entre 88 e 89. Wanted - álbum lançado em novembro de 1988 – de modo algum se saiu mal nas paradas, atingindo o terceiro lugar, mas não há como negar que o pouco de lembrança que a londrina deixou virá do single The Only Way Is Up.
A novena de faixas em Wanted é prova cabal da antropofagia pop, que destrincha elementos do underground, recombinando-os e familiarizando-os pra gerar algo que soa novo, mas é essencialmente o mesmo de sempre. Como não perceber que a percussão de bongôs psicodelizados de Where Has All The Love Gone, além do teclado “retorcido” tão característico da acid house, são novidade em comparação à sintetização robótica extrema da geração pop anterior? Perceba, entretanto, as cordas tão disco music, que recheiam a canção.
Wanted é cheio dessa hibridização. Got To Share tem metais jazz em um mundo afro. Something Special é totalmente acid jazz popificado: tem contrabaixo obeso, pianinho jazzy, quase que Yazz faz scat singing. Na verdade, há arremedo de um, no final. Fine Time é midtempo dub, atinente com a influência do reggae na Grã-Bretanha do punk adiante. Wanted On The Floor é funkão setentista, mas acidificado com scratches e samples de “hey DJ, turn it up”!,  além do Roland psicodelilzado.
E pra confirmar que Wanted era pra brincadeira dançante metida a hipster, basta (re)ouvir os single-locomotivas The Only Way Is Up e Stand Up For Your Love Rights. São pura disco music “enlouquecidas” com barulhinhos acid. Stand Up.... tem até sirene de polícia, como as que tinham nos discos da Hippopotamu’s, no finalzinho dos 70’s. Que isso não deponha contra; são infecciosamente dançáveis e deliciosas. Soavam enrugadas meses após o lançamento, mas em nosso mundo pós trocentos revivals disco e acid house, dá pra se jogar com vontade
Os “frios” sintetizadores do Human League & Cia preparavam-se pra virar peça de museu. O “consolo” é que Yazz virou uma ainda em 1989. Os ravers raiz de então, devem ter achado Wanted apropriação cultural do underground pelo establishment. Que seja, mas o álbum merecia ser resgatado do limbo; é pop bem gostoso.
Só não recomendo a exagerada reedição tripla da Cherry Red, de 2016. Quem precisa de 2 CDs só de remixes de 4 canções?

quinta-feira, 18 de abril de 2019

TELONA QUENTE 284


Roberto Rillo Bíscaro

Eilean Shona é uma ilha escocesa, que já teve boa população, mas que, em meados do século XIX, passou por emigração maciça e ficou desabitada. Lendas locais atribuíram a deserção a um assassinato e posterior maldição sobre o local, mas o mais plausível é que a fome tenha afugentado os ilhéus. Alugada nos 1920’s, para J. M. Barrie, foi ali que o autor adaptou seu clássico Peter Pan para sua estreia cinematográfica.
Ano passado, Eilean Shona inspirou o diretor Matthew Butler Hart, que escreveu o roteiro de The Isle, com sua esposa Tori Butler Hart, também atriz do filme. Três náufragos vão parar em uma ilha que sequer consta de seus mapas. Habitada por apenas quatro pessoas, não demora pra perceberem que algo estranho ocorre lá.
Filmado em Eilean Shona, The Isle agradará no quesito cinematografia. Quem curte cenários naturais meio desolados, amará. Em ritmo e tom, o filme inspira-se no pequeno ciclo de horror rural britânico dos anos 1970, cujo exemplar mais conhecido é O Homem de Palha (1973). Preferindo a suspense e a sensação de algo sobrenatural à violência e gore, a produção é repleta de névoa, sussurros e discretas sugestões demoníacas. Flashbacks, cada vez mais clarificadores, nos revelam os antecedentes dessa história que mistura folclore rural, com mitologia grega. 
The Isle não preza pela originalidade e o roteiro não enrubesce na exposição meio pesada: apesar de restar apenas um quarteto na ilha, um deles mantém minucioso diário e uma enciclopédia, pro marinheiro que gosta de ler, aprender logo na primeira noite quem foi Perséfone.
Nem de longe, a produção chega ao patamar de excelência de suas inspirações, porque os fios da trama não provocam o curto circuito surpreendente pretendido. A referência às sereias, por exemplo, jamais se integra ao bom drama pessoal. Mas, o elenco é eficiente e o filme distrai.

terça-feira, 16 de abril de 2019

TELINHA QUENTE 356


Roberto Rillo Bíscaro

O mundo árabe é composto por mais de duas dezenas de países, populados por centenas de milhões, com vivências que vão do cosmopolitismo afluente e high-tech de Dubai, ao isolamento faminto do Sudão. São experiências radicalmente distintas e ainda assim, de forma geral, a percepção que temos dos países muçulmanos é de celeiro de terroristas, cegados pelo fundamentalismo religioso e mergulhados numa sociedade tão rígida, que não deve poder acontecer nada, senão o sujeito toma chibatada. Não comparamos Paraguai com Dinamarca, mas cremos que “turco” é tudo a mesma coisa (africano também, “japonês” também....).
A adição dos dezoito episódios da primeira temporada de Justiça (2017) ao catálogo da Netflix é bem-vinda lufada de vento quente do deserto dos Emirados Árabes Unidos. Ambientada no privilegiado mundo da classe alta de Abu Dhabi, o show é drama de tribunal, que contou com a colaboração do departamento de justiça do emirado, que abriu seus arquivos de casos pros produtores basearem as histórias. Nomes importantes da TV norte-americana estão por trás da criação da série, cuja produção é suntuosa.
Há fio condutor e unificador que é a filha dum famoso advogado, que retorna dos EUA, após se formar em direito. Ao invés de se juntar à firma do pai, Farah segue seu caminho. Isso tem bem pouco impacto; o que se destacam em Justiça são os casos. Poder-se-ia alegar que a família de Farah é liberal e boazinha demais com os filhos, que fazem o que bem entendem. Mas, daí, teríamos que lembrar que se acreditarmos que a sociedade norte-americana é igual àquela que vemos em suas séries, então, tratar-se-ia de lócus ideal, integrado racial e sexualmente. Qualquer seriezinha de terror hoje tem gente de toda cor e gênero convivendo de boa. E sabemos que está longe de refletir o real.
O fascínio de Justiça vem dos casos e do olhar que nos permite em cultura tão nossa desconhecida. Sem júri, os casos são decididos por um juiz e envolvem abuso de menores, tráfico de droga, bullying, malandragem da grossa, enfim, Abu Dhabi enfrenta muitos dos mesmos problemas que nós; Alá não cria um oásis tão rigidamente controlado e a ponto de não haver transgressão. Só que isso acontece numa sociedade poligâmica, por exemplo, então é muito diferente pra nós ocidentais ouvirmos que o acusado X se divorciou da segunda esposa, mas essa é concomitante a uma primeira e não subsequente, como estamos acostumados.
Acostumados a representações de árabes cobertos até os olhos (as mulheres, especialmente), atiça a curiosidade de pesquisar, quando se vê jovens com camiseta do Batman ou mulheres sem cobrir a cabeça, mesmo em público. Não todas e nem em todas as situações, mas fica claro que há muito mais sutileza nos códigos do que se supõe.
Obviamente, não podemos tomar o apresentado como modo fiel de como vivem e pensam os cidadãos de Abu Dhabi, senão incorreríamos no erro de imaginar que os EUA são paraíso integracionista à Will and Grace. Mas, como exposição de fatias de vidas e casos de direito, Justiça é muito eficiente e absorvente.

No final do século XVIII, pouquíssima gente podia pagar advogado de defesa, quando seus casos iam pro Old Bailey, o Central Criminal Court. E mesmo quem podia, se via em maus lençóis, caso fosse o acusado. Não havia presunção de inocência, as testemunhas eram chamadas apenas pra declarar sobre o caráter dos envolvidos e não havia todas as acrobacias discursivas, como as conhecemos hoje, através de tantos filmes e séries de tribunal.
Um dos genitores do moderno sistema legal anglo-norte-americano foi William Garrow (1760-1840), agressivo advogado, que ficou décadas esquecido, até ser resgatado no final do século passado. Entre 2009-11, a BBC produziu três curtas temporadas de Garrow’s Law, perfazendo dúzia de episódios.
A cada episódio, Garrow e seu mentor John Southouse defendem um oprimido, que não teria a menor chance de defesa, não fosse pelos dois advogados precursores e criadores de precedentes legais. A tarefa da defesa e das piruetas discursivas sempre recaía em Garrow, para achar soluções possíveis pros casos, retirados dos arquivos do Old Bailey da época. Não que de verdade ele defendeu todos os casos apresentados, mas isso não importa.
Garrow’s Law agrada em cheio quem aprecia dramas legais ou de tribunais, os court dramas, em inglês. Pro espectador contemporâneo, alguns casos e situações são tão alienígenas, quanto para os ocidentais, alguns casos em Justiça. Por outro lado, a já multicultural e metropolitana Londres setecentista enfrentava crimes e transgressões, do mesmo tipo que reclamamos hoje e alguns insistem inexistir antigamente.
A fim de conferir aspecto de seriado, os roteiristas desenvolvem um arco representando o envolvimento de Garrow com Lady Sarah Hill, que foi sua parceira na vida real, mas cuja disputa pela guarda do filho não aconteceu. Embora resolvida de modo bem novelão, esse é o naco menos carnudo. Garrow’s Law vale pelos casos apresentados e seria até mais eficiente, se o formato fosse a de caso da semana.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

CAIXA DE MÚSICA 361


Roberto Rillo Bíscaro

Não foi por acaso que Bárbara Eugênia escolheu lançar seu quarto álbum precisamente no Dia Internacional da Mulher. Empoderada, a carioca coproduziu-o e batizou-o de Tuda e cercou-se de gente daqui e de lá fora, para acompanhá-la na desenvolta dezena de faixas, que perpassam e aglutinam estilos e épocas.

A curta abertura, cantada com o Bloco Pagu, parece ponto de candomblé ou símile e dá impressão de que se trata de álbum “raiz”, ou como se queira chamar a música de cariz mais tradicional. Em Saudação, Bárbara agradece aos seres da mata e do mar e tudo o que vem dos quatro elementos: água, ar, fogo e terra. Telúrico e acústico, cheio de chocalhos e tambores afro.

Mas, esse é só o início de um álbum eminentemente pop, que, como tal, canibaliza o que pode e cospe de forma acessível e grudenta. Logo após Saudação, vem Perdi, cuja introdução de piano logo cede lugar à marcada pancada da bateria eletrônica e teclados bem estilo anos 80, década que informa a faixa mais grudenta de Tuda. Bagunça convida para a dança e tem até solo do instrumento-símbolo dos 80’s: o saxofone. Irremediável e imediatamente viciante, com letra que fala até de disco da Adele e tem a participação de Zeca Baleiro.

Tuda não se restringe a revival macaqueado dos anos 80. Perfeitamente Imperfeita é ijexá pop, com backing de mocinhos fazendo papapa. Sol de Verano tem clima de pop 70’s, porque é reinterpretação de uma canção de 1983, da anglo-hispânica Jeanette, cantante das clássicas Soy Rebelde e Porque Te Vas. Os efeitos, alguns hoje datados e “bregas”, são rasgados por mal-comportada guitarra roquenta. O clima de irmandade hispânica segue com Por La Luz Y Por Tierra, folk argentino, com o grupo Onda Vaga. Também dá vontade de bailar, mas num clima mais chacarero, flaco! Outra que dá vontade de baixar até o chão é Confusão, espécie de synth-carimbó, presente para o mundo da cena tecnobrega do norte. Eugênia dueta com um dos expoentes do subgênero, Felipe Cordeiro.

Querência psicodelilza um bocadinho, meio que misturando Caribe com Oriente Médio/norte africano e dance-rock. Inventiva e mutante, mas, ainda acessível. Essa faixa tem a companhia de Iara Rennó, que, ano passado, lançou delicioso álbum infantil chamado Iaiá e os Erês.

O aspecto de maleabilidade plástica de canções como Querência, faz de Tuda, pop bem pouco óbvio. Esse aspecto camaleônico intrafaixa também se destaca em Apaixonada Feito Gente Não, que vai de solo repetitivo à erudito contemporâneo ao baticum eletroacústico pós-tudo do fim da faixa.

Com produção que jamais exagera – e isso seria fácil num álbum com essa proposta de mistureba pop – Tuda é tudibom.