quarta-feira, 5 de setembro de 2018

PASSEIO ALBINO

Cobra albina de quase 2 metros passeia por rua de cidade britânica (FOTO)


Uma cobra albina medindo cerca de 2 metros de comprimento foi encontrada deslizando por uma rua em Newcastle, no Reino Unido, relatou Sky News.


A polícia disse que os funcionários ficaram perplexos quando uma grande caixa de papelão, perfurada por buracos, foi levada até à unidade policial.

Duas mulheres que passavam pela rua não se intimidaram com o tamanho da cobra. Elas a capturaram e a colocaram dentro de uma caixa de papelão.


A polícia de Northumbria elogiou a coragem das mulheres e informou que a serpente é da espécie Pantherophis guttatus, conhecida popularmente como cobra-do-milho.

A cobra foi batizada pelos policias da delegacia com o nome de Sandra antes de ser recolhida pela Sociedade Real para a Prevenção de Crueldade Contra Animais (RSPCA, na sigla em inglês). 

A RSPCA informou que as cobras-do-milho, originárias dos EUA, não são venenosas e usam o método de constrição para matar suas presas.




CONTANDO A VIDA 247

ADEUS MUSEU NACIONAL, ADEUS... AH DEUS!

José Carlos Sebe Bom Meihy

Havia pautado escrever sobre o 10 de setembro “dia mundial de combate ao suicídio”. Juntei dados, reli parte dos textos de Camus e Durkheim, e estava pronto para enfrentar a tarefa. Desde logo, porém, se me abateu um dilema, pois tivemos um agosto tão penoso, tão trágico em acontecimentos em todos os níveis da vida (pessoal e coletiva), valeria a pena desbotar a esperança emblemada pelo mês de setembro? Setembro foi saudado em seu primeiro dia como tempo de promissão, carregador da primavera regeneradora. Enquanto alentava tais ambiguidades, nutria um sentimento suportável. Tudo mudou, muito, com os acontecimentos alarmados pelo espanto do incêndio do Museu Nacional, no belo espaço imperial no Campo de São Cristóvão no Rio de Janeiro.

O choque das cenas transmitidas ao vivo, no começo da noite de domingo desolaram o país e nos fizeram pensar. Pronto, estava definido o novo mote da crônica. Por onde começar, contudo, foi minha dúvida decorrente. Parei por um momento e logo me veio o primeiro passeio que fiz àquele lugar encantado. Houve até uma trilha sonora musicada pelo querido Renato Teixeira que historia a primeira viagem feita por um menino interiorano à Cidade Maravilhosa. Deixe-me então dizer como foi a minha estreia no Museu Nacional.

Sou de uma família libanesa que cabe perfeitamente no estereótipo do turco do mercado. Quem me conhece sabe que chorão, sequer consigo enunciar a canção (também do Renato Teixeira) sobre o comerciante que tinha loja e se fez tema de pequena epopeia. Pois é, minha mãe, mulher muito trabalhadora, nutria algumas veleidades que seriam estranhas às “turcas”: gostava de, uma vez por ano, nos levar de férias a lugares frequentados pela classe média abastada. E era uma festa completa, pois nossas modestas roupas eram renovadas, havia preparo premeditado, e assim alternavam-se os lugares: um ano estação de águas (São Lourenço, Poços de Caldas, Caxambu), outro Rio de Janeiro. Foi dessa forma que me introduzi no mundo do turismo, e na então capital federal ia aos cartões postais. O curioso é que mamãe incluía Museus em seus roteiros. Foi assim que em 1953 pela primeira vez fui ao Museu Nacional. E não há como me esquecer do prédio magnífico. Com nitidez recordo-me de que avisado que ia a um palácio, supus um castelo com torres pontiagudas e protegido por pontes e rios circundantes. Acho que minha primeira lição nesse processo inicial foi exatamente saber que palácio era onde vivera parte da nossa corte, e castelo seria fortaleza diferente. Esta lição não foi um detalhe. Por lógico, fiquei impressionadíssimo com os esqueletos monumentais colocados desde a entrada principal e lembro-me do espanto ao ver a tal múmia (que aliás nunca permanece muito tempo fora de minhas cenas infantis), mas, de verdade, o que me fascinou foi saber que a Família Real tinha vivido naquele local. Por aqueles dias, o trono imperial ainda estava lá e fazia parte da reconstrução do ambiente. Isto significou momento decisivo na escolha de minha vocação de historiador.

Ao longo de décadas o Museu Nacional foi se fazendo instituição de respeito. Não foram poucos os projetos que verticalizaram a tendência inicial, desde que se optou por transformar o palácio para ser o Museu de História Natural. A aparente inconformidade era dada pela coleção de objetos antigos reunida por diferentes membros da Família Real. Dona Leopoldina trouxe como presente afrescos de Pompeia, raridade maravilhosa. Dom Pedro II comprou peças egípcias preciosas, e assim a coleção se compunha com série de aves, animais empalhados, mas também com esqueletos e moveis reais.

Já formado, professor de História, fiz pesquisa na Biblioteca do Museu Nacional e me lembro da emoção ao ver os escritos do antropólogo incrível, alemão, que mudou seu nome para Imuendajú. Ao ver alguns desenhos dos viajantes do século XIX me perguntava sobre a falta de divulgação de tantas coleções. E diria o mesmo das telas monumentais que precisavam de conhecimento. Aproveitei todas as oportunidades de visita ao espaço e creio que não passava um ano, enquanto morava no Brasil, em que não ia àquele local. Cheguei mesmo a ver dois ou três concertos de música nos gramados do entorno e me vali de várias conferências oferecidas no Curso de Antropologia, um dos melhores do Brasil.

Por lógico, não bastariam lembranças pessoais para resenhar o significado do incêndio de 2 de setembro. Nem mesmo minhas impressões de profissional da História. O que vale mesmo é pensar que esta tragédia se explica pelo desprezo à História e falo da disciplina História... Não basta achar culpados e a discussão precisa sair do plano discursivo para a política. Meu único recado nessa meditação remete ao desafio de ver com zelo e apuro os programas dos candidatos que concorrem às próximas eleições. Notar que existem pautas que pensam que da parca verba devem ser destinados montantes maiores para o ensino básico é um erro imperdoável. Por evidente, muito precisa ser empregado no nível elementar, mas jamais pode-se tirar de outros estágios comunicantes. É tudo junto, reunido, misturado, circulado. Vejamos bem o alerta dado pela fatalidade. Não é tirando de um nível e pondo em outro que se teria resultado. Seria penosa e sem efeito uma longa espera, para daqui a 15 anos. A única lição que se pode tirar é que precisamos de mais atenção ao ensino/educação como um todo. Tudo pela cultura em todos os estratos sociais, pois só assim valeria chorar pelas lições do Museu Nacional. Pensemos a política como saída. Leiamos os projetos dos candidatos.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O BACURAU ALBINO

Flagrante raro: bacurau albino foi registrado em Iguaba Grande (RJ)

De penas brancas e olhos vermelhos, a ave chamou atenção do observador Sandro Paixão; o fenômeno tem origem genética e pode afetar a visão da ave. 


Durante uma passarinhada em Iguaba Grande (RJ) com a esposa, o observador de aves Sandro Paixão foi surpreendido ao avistar um bacurau albino. Os primeiros cliques foram difíceis, já que a ave estava escondida entre os galhos, mas o observador persistiu até conseguir registrar a espécie. 

Foram 10 passarinhadas na mesma trilha, muitas sem sucesso. “No sexto dia finalmente consegui registrar o bacurau, mas a identificação da espécie seria possível somente com a vocalização do indivíduo, essa, registrada na nona expedição”, conta. 

A partir dos primeiros registros Sandro constatou que a ave era albina. “Ele apresentava penas totalmente brancas, bico claro e olhos vermelhos”, conta o fotógrafo, que se alegra em registrar um fenômeno como este. “Como observador de aves, fotógrafo amador e amante da natureza, fico feliz em contribuir para incrementar o conhecimento sobre essa espécie. O registro me estimula a continuar com a observação de aves, atividade que contribui para a preservação das espécies e faz parte da rotina de minha família”, completa. 

O orgulho em ser autor do flagrante não é exagero. De acordo com o ornitólogo Thiago Vernaschi existem poucos registros de albinismo em bacuraus. “É realmente raro encontrar um indivíduo albino dessa espécie, esse registro foi realmente um fato inusitado”, diz. 

A raridade se deve principalmente ao fato de muitos indivíduos albinos não chegarem à vida adulta. “No caso dos bacuraus a camuflagem é a principal estratégia de defesa, ou seja, a perda da coloração da plumagem pode arruinar essa estratégia e tornar a ave mais vulnerável, ainda que não seja possível afirmar essa hipótese com certeza”, explica o ornitólogo. 

Thiago ressalta que, embora seja possível que as aves estejam mais expostas à predação, não há registros documentados, o que dificulta afirmar se a predação é maior em um indivíduo albino. 

O ornitólogo também aponta a alteração na visão dos albinos como uma característica que dificulta a sobrevivência da espécie. “Aparentemente o albinismo aumenta a sensibilidade do indivíduo à luz e afeta sua acuidade visual. Provavelmente é esse o fato que os torna mais vulneráveis, e não exatamente a coloração da plumagem”, diz. 

COLORAÇÃO DO BACURAU 

Além do albinismo, registrado pelo observador Sandro, existem casos de leucismo em bacuraus, quando apenas partes do corpo da ave apresentam plumagem despigmentada, de forma assimétrica. “A pigmentação da íris dos olhos nos casos de leucismo permanece normal, enquanto no albinos a despigmentação é completa”, explica o ornitólogo, que ressalta a importância de observar bem os detalhes da ave antes de determinar se há ou não alterações de pigmentação. 

“Os bacuraus são bem conhecidos pela grande variação intraespecífica na tonalidade da plumagem, existindo indivíduos mais claros, mais escuros ou rufos dentro da mesma espécie, como uma variação natural”, diz Thiago. 

IDENTIFICAÇÃO DIFÍCIL 
O empenho em registrar a ave em detalhes permitiu ao observador constatar que se tratava de um bacurau-tesoura. “De antemão já sabia que registros do bacurau, bacurau-chintã e bacurau-tesoura foram feitos na região. Ao comparar as fotografias eu arriscava dizer que o bacurau albino era fêmea da espécie bacurau-tesoura, pois as feições do bico eram parecidas e, como o rabo não era comprido, seria a fêmea. Com a resposta da ave ao playback da espécie pude comprovar minha hipótese”, lembra Sandro, que observou um macho do bacurau-tesoura no mesmo local. 

De acordo com o ornitólogo Thiago, a identificação pelos registros é difícil, mas a resposta da ave à vocalização pode confirmar a hipótese de ser um bacurau-tesoura. 


O ALBINISMO NAS AVES 
Thiago Vernaschi explica que o albinismo altera a coloração de todas as estruturas onde há pigmento, incluindo penas, íris e bico. “Dessa forma, os albinos têm a plumagem toda branca, olhos vermelhos, bico e pés rosados”. 

De acordo com o ornitólogo, as alterações de coloração na plumagem são resultado de mutações genéticas que afetam processos de síntese ou distribuição de pigmentos. “Fenômenos como esses resultam em alterações como leucismo, melanismo, albinismo, entre outros”, explica o especialista. “Algumas doenças ou deficiências nutricionais também podem acarretar variações de coloração de plumagem”, completa. 

Comuns entre as populações animais, o albinismo é resultado de um gene recessivo, ou seja, a proporção de indivíduos que carregam o gene é provavelmente muito maior do que se imagina, mas para ser albino o indivíduo precisa receber a mutação do pai e da mãe.

TELINHA QUENTE 325


Roberto Rillo Bíscaro

Evito usar a palavra surpresa em resenhas, porque a considero mais ofensiva/paternalista do que elogiosa. Surpresa é algo inesperado. Ora, se alguém diz que está surpreendido com algo que fiz, é porque não esperava que fosse capaz.
No caso de Fallet (2017), que a Netflix adicionou a seu catálogo recentemente, não tenho como evitar. Não esperava nada dessa sátira sueca ao Nordic Noir. Não porque desconfie da expertise escandinava. Ao contrário, devem sorrir com ironia os leitores mais assíduos. É que não sou muito de comédias mesmo.
Como os episódios têm cerca de meia hora, são apenas 8 e são escandinavos (ai ai) resolvi dar oportunidade. E não me arrependo; é bem inteligente e funciona mais ou menos até como caso (fallet, em sueco) policial.
Apreciarão melhor os mais acostumados às convenções das séries policiais anglo-escandinavas, mas especialmente dessas últimas. Recomenda-se imersão nas temporadas de BronIBroen, porque Fallet tem até vilão mascarado de porco. Mas não é condição sine qua non: dá pra entender/curtir de boa sem sequer saber quem foi Inspetor Morse ou os Midsomer Murders, mencionados (pelo menos nas legendas em inglês, que foi como assisti).
Um inspetor-chefe incompetente britânico e uma policial sueca igualmente desastrada e que tende a atirar pra matar em inocentes, são reunidos pra resolver o assassinato dum cidadão britânico na pequena Norrbacka, na Suécia. Deflagrada por The Bridge, a cooperação entre policiais de distintos países é cada vez mais criticadas por fãs de Scandi Drama, porque perpetra sofríveis interpretações em inglês. Em Fallet ela faz todo sentido, porque satiriza essa estratégia oportunista escandi pra conquistar mercados.
Fallet tem todos os chavões formo-temáticos dos Nordic Noirs: Suécia escura e sinistra; chefe de polícia prestes a se aposentar; detetive emocionalmente remota (não há dúvida de que Sophie Borg seja a versão negativa da antológica Saga Norén). Mas, como é sátira, quase sempre sai errado ou a cena é feita no sentido de mostrar como a convenção é, na verdade, até meio estúpida.
Exemplo: em qualquer série de detetive, existe um mural na chefatura, cheio de fotos e setas sobre o caso, para o qual o detetive passa largo tempo olhando, até que epifania ocorre e ele raciocina algo que estava na sua fuça, mas passara despercebido. Em Fallet, o policial bocó olha, olha, olha e nada acontece.
Há um caso a ser resolvido, porém, então nem tudo falha, mas mesmo assim, Fallet mostra o quão improvável é o material satirizado. Depois de absurda reviravolta melodramática na trama, o DCI Tom Brown relembra em minuciosos flashes, uma torrente de detalhes e consegue desvendar o mistério.
Com personagens secundárias interessantes e até Dag Malmberg no elenco, pra ficar claro que a sacanagem mor é direcionada a BronIBroen (Dag é o Hans, das primeiras – e melhores – duas temporadas), Fallet garante bons momentos de diversão leve, pra contrabalançar a sisudez mórbida do Nordic Noir.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAIXA DE MÚSICA 330


Roberto Rillo Bíscaro

Embora tenha acesso ao Spotify, não o usava muito, por falta de costume (foi assim com o Youtube e a Netflix; coisa de velho) e porque as discografias têm buracos, além dos irritantes erros nas datas de lançamento. Desejava, porém, conhecer mais La Coscienza di Zeno (CoZ), cujo segundo álbum, Sensitivitá, esteve na minha lista de melhores de 2015.
Pra variar, falta o primeiro álbum no serviço de streaming, mas achei La Notte Anche Di Giorno (2015), terceiro álbum dos genoveses.
A formação do CoZ para esse incrível trabalho foi Alessio Calandriello (vocais); Davide Serpico (guitarras e violões); Luca Scherani (pianos, teclados, órgãos e bouzouki; instrumento de cordas grego); Stefano Agnini (sintetizadores e órgãos); Domenico Ingenito (violino); Gabriele Colombi (baixo) e Andrea Orlando (bateria e percussão). Para ampliar a luxuriante paisagem sonora, chamaram Simona Angioloni, para os vocais em Lenta Discesa All’Averno; Melissa Del Lucchese (violoncelo) e Joanne Roan (flauta).
La Notte Anche Di Giorno é constituído de duas longas suítes: Giovane Figlia, com 24 minutos e Madre Antica, de 20. Ambas subdividas em seções, procedimento tradicional no mundo prog, desde os Moody Blues.
CoZ sabe que pode haver vocalista igual (duvido), mas não superior, na atual cena progressiva da Bota e por isso abre Giovane Figlia com o potente e bombástico Alessio Calandriello. Sua voz é cristalina, poderosa, sobe, desce, dramatiza, comove, excita. A Ritrosa sobrepõe esse vocal a cinco minutos exultantes de puro prog sinfônico ITALIANO, não há outra definição. Se você não gostar da canção, nem adianta prosseguir, mas difícil um fã de rock progressivo sinfônico, cantado em italiano, desgostar do passeio de montanha-italiana que se inicia com A Ritrosa. Sempre melódica, a suíte intercala puro fogo com momentos de derreter o coração.
Il Giro del Cappio pode arrancar lágrimas dos saudosos pelos anos 70, mas a produção é impecavelmente contemporânea. Calandriello, violino com teclado sutil e o idioma italiano juntam-se em segundos de arrepiar, seguidos por intensificação em melodia e vocais vigorosos. E é o tempo todo assim: diferentes órgãos ejaculam com guitarras, numa orgia de mudanças de ritmo, tempo e clima. Milagrosas ressurgências melódicas, quando menos se espera. Tem hora que lembra Piazolla, há momento que entra o vocal em francês de Simona Angioloni e o clima vai pra folk medieval. Impecável.
Num trabalho onde títulos indicam antíteses, como notte e giorno, a segunda suíte chama-se Madre Antica, estabelecendo antipodismo etário, uma vez que à juventude da filha do título da suíte inicial, contrapõe-se a madureza da mãe desse conjunto de 4 canções.
Em sintonia com os opostos, o clima geral é mais desacelerado e a canção de abertura, Il Paese Ferito, começa mesmo sinistra, lembrando alguns trechos mais arrastados de The Lamb Lies Down On Broadway. Clima mais operístico, como o de Giovana Figlia só mesmo em La Staffetta, onde a melodia linda e vibrante unida ao vocal de Alessio logo dão espaço pra delicado madrigal de piano.
La Notte Anche Dio Giorno é daqueles álbuns que fornecem munição para detratores e amantes da grandiosidade de certo rock progressivo italiano. Caí de joelhos e, de quebra, passei a usar mais o Spotify.
Não paga pelo serviço? Nada de vitimismo, tipo "ah, é só pra quem pode" etc. Tem no Bandcamp e dá pra ouvir de graça!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 251


Roberto Rillo Bíscaro

Numa pequena cidade colombiana - presumivelmente na década de 1970, devido à intromissão dos militares um par de vezes - o padre pensa que manda e desmanda. Substituto dum pároco mais leniente, o grisalho se recusa a rezar missa pro suicida Aimer, apesar desse pertencer à tradicional família católica. Intransigente, o reverendo ordena que o corpo de Aimer seja retirado do cemitério religioso. Se a família Zapata não o fizer em 24 horas, o vigário suspenderá a realização de todos os sacramentos (batismo, crisma, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio).
Essa é a premissa de O Suborno do Céu, (2016), do roteirista/diretor Lisandro Duque Naranjo, constante do catálogo de nossa Netflix.
Diante do autoritarismo do prelado, o ateu Allfer Zapata o desafia e não remove o corpo do irmão. Quando os sacramentos são cancelados – às vésperas da lucrativa Semana Santa – a cidade se divide e o roteiro explora diversos desdobramentos da rixa, como o desenvolvimento dum comércio paralelo e até mesmo a abertura do terreno pros evangélicos, que se aproveitam da inflexibilidade católica de se adequar a novos tempos.
Com simpatia claramente pendendo pro lado contestador, O Suborno do Céu também é a luta pelo poder entre um homem velho e um novo, ambos bastante inflexíveis em suas posições, a ponto de em nenhum momento questionarem porque diabos há tantos suicídios naquele lugar, que permite que longa lista seja elaborada.
O filme tem algumas cenas desnecessárias à trama central, cujo tempo poderia ter sido utilizado pra aprofundar questões que deveriam importar mais ao roteiro.
Mesmo assim, O Suborno do Céu tem o mérito de desencadear discussões, fazer refletir sobre hipocrisias e miopias dogmáticas, além de apresentar aos brasileiros, exemplar da filmografia colombiana, tão alienígena à maioria do público.
E já que o assunto é denúncia de abuso religioso em filmografias não tão populares entre nós, a Netflix também tem o poderoso El Bosque de Karadima, produção chilena, de 2015.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

CONTANDO A VIDA 246

NEM SÓ DA CORRUPÇÃO VIVE A POLÍTICA BRASILEIRA

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Para Paulo Pereira 

Estamos fartos de ouvir sobre o andamento deste ano como exceção. O curto tempo para as campanhas, espremidas entre a Copa do Mundo e a proximidade da agenda de final de ano, condensou tensões naturais de qualquer processo eleitoral. Os novidadeiros buscam atualizar temas na tentativa de mostrar que muito mais que nas disputas anteriores, certos assuntos respondem ao presente e ao imediato, como se fossem desafios inéditos. Entre tantas pautas, duas merecem cuidados especiais: a corrupção e a falta de perspectivas. Falemos de ambas, tentando uma saída para o panorama geral e para a esperança que precisa ser, mais que nunca, a última que morre. 

Certamente, o tema da corrupção é impactante. Manifestação asquerosa da vida social, a contrafação é convite irrecusável à descrença. A ela, aliás, se atribuem dois predicados que, contudo, se suplementam. Ao afirmar que a corrupção é “histórica”, garantem-se duas situações: uma que ela sempre existiu, e que é inerente à condição humana desde os tempos bíblicos; outra que é “sistêmica”, ou seja está instalada culturalmente em todos os setores da vida, sem deixar campo livre. Prefiro esta segunda explicação, pois percebo que a corrupção é parte do sistema de exploração capitalista sem o qual não temos como sobreviver no atual estágio da vida globalizada. Em sociedades em que o progresso e o lucro se fazem faróis que guiam a política, não há como deixar por menos o sentido do lucro. Do lucro à ganância, os passos são mecânicos e apressados. Já a garantia do acompanhamento “histórico” exigiria coerência com a aceitação processual que sempre viu, no caso brasileiro, a implacável emergência do papel das empreiteiras participando das gigantescas obras operadas no país e fora dele. Desde a construção de Brasília, passando pela ditadura - que até o presente não revela suas contas, deixando assim odor desconfiado -, seguindo dos governos da abertura democrática até as decepcionantes mostras do petismo, aceita-se com mais lógica a constatação da corrupção moderna, recente e desafiante. A abordagem desse mal, contudo, carrega mais enigmas do que se pensa. Não é segredo que ela existe aqui ou alhures. Em países progressistas economicamente e com economias consolidadas, como Estados Unidos, Japão ou Reino Unido, ela existe e se expressa com a mesma sordidez. O caso da América Latina assusta pela proximidade, e assim vemos sem surpresa o que se passa na Argentina, Peru, México. Há alentos, é verdade, e nessa linha o Chile a Colômbia se apresentam na vizinhança. Em termos oficiais, é bom que se reconheça, ocupamos o 96º lugar entre 180 países segundo a Transparência Internacional, no mesmo nível, portanto, da Índia, China e Kuwait que se apresentam como fenômenos de emergência e superação de passados de penúria. 

A abordagem da corrupção merece outras companhias, pois não é a única senhora dona do caos que vivemos. Sou daqueles que creditam à inexperiência eleitoral a grande razão de nossa vacilaria político-eleitoral. É lógico que não concordo com a frase infeliz pronunciada por Pelé em 1972, quando em defesa da ditadura dizia que “povo não sabe votar”. Em correção, garanto que povo não pôde manter o aprendizado por ter um espaço de 21 anos de ditadura onde o voto livre e universal tinha regras exclusivas dadas aos chamados colégios, sem participação popular. Desde então, os direitos têm sido exercitados com titubeios de aprendizado. Não há, contudo, regime melhor que o democrático. É nesse sentido que se advoga o direito de todos. E temos que aprender custe o que custar. No cenário presente, devemos destacar a indigência dos argumentos mais expostos. Há aqueles que defendem o não diálogo e a ordem imposta à bala, à castração química de estupradores, à pena de morte, à militarização das escolas, ao fechamento das fronteiras e, claramente, são contrários ao direito de equiparação das mulheres aos homens e a todas as diferenças, em particular contra os negros e homossexuais. Isso, porém, por sofrido que seja, é legítimo num espaço de discussão pública. Vai da maioria do eleitorado querer ou não. O que se torna difícil, é admitir que os contrários não têm se contraposto com programas minimamente sólidos, baseados em princípios e compromissos partidários coerentes. O que temos no plantel disponível é uma individualização dos candidatos. Cada um falando por si, e poucos replicam os mandos arbitrários que sim estão mais claramente colocados. Nessa perspectiva, os debates não têm servido para muita coisa. Aberrações como o Pastor-Cabo-candidato oferece a sugestiva URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) como tópico de debate ganham proeminência. Em complemento, uma ladainha de promessas sem cabimento se alinha às falas que se esgotam em números estatísticos e promessas desarticuladas. Mas é o que temos... É exatamente sobre o vazio de propostas e ideias que haveremos que decidir. Decidir e pagar para ver. Dói dizer que não temos outro caminho, e que caminhando, mesmo com eventuais tombos, haveremos de aprender a dura lição da democracia. Estamos juntos. Estamos? Vejamos...

terça-feira, 28 de agosto de 2018

TELINHA QUENTE 324



Roberto Rillo Bíscaro

Succession foi a coisa mais mordaz que vi este ano na TV e a melhor sátira familiar que conheço, desde Sopranos. Tenho sua atenção? Comecemos, ora pois.

Quando li o nome Succession em um site, me deu comichão. Parecia novelão, tipo DALLAS, Revenge, Deception, que dinossauramente amo. Até à flopada reedição de Dynasty, que passa na Netflix,, eu vejo.
Só que Succession é da HBO, então não poderia ser soap. Mas, a premissa era uma família bilionária, cujo pai ensaiava deixar a chefia do megaconglomerado midiático pro filho mais velho, até que se decidia por outra coisa e a guerra civil começava. Rei Lear.
Próximo passo: ver quem interpretava o patriarca. Quando li que o shakespeariano Brian Cox seria Logan Roy, Succession se tornou obrigação. Além disso, havia ainda Hiam Abbass, a atriz palestina de preciosidades como A Noiva Siria, The Lemmon Tree e O Visitante. Sem contar Matthew Macfadyen, que já foi Mr. Darcy, e até cameo do James Cromwell. Como escapar de tantas sinas?
Criada pelo britânico Jesse Armstrong, a dezena de capítulos de Succession foi exibida entre 3 de junho e 5 de agosto, pra audiências muito reduzidas. Não pertença a essa maioria.
Claramente paralelizando o infame clã do magnata midiático Rupert Murdoch, Logan Roy e seus quatro filhos - mais agregados – descortinam corrosiva moralidade esvaziada, onde cada detalhe conta pra entendermos esse grupo de sociopatas, com os quais é difícil se identificar, porque são todos amorais passivo-agressivos. Bem, Logan é agressivo só, mas a antológica cena final é digna dum Poderoso Chefão sem sangue (pelo menos não dos Roy) ou gritos.
Com memorável e grandiloquente tema de abertura, que sugere mundo de fausto febril, Succession é sucessão de brutais ironias dramáticas, que mostra que apesar dos helicópteros, carros com chofer e casamentos em castelos britânicos, essa gente tem bem pouco de épico.
Uma das chaves pra desfrutar dos diálogos lotados de palavrões e trocas muitas vezes beirando o nonsense, é entender Succession como comédia de erros de humor negro.
A despeito da baixa audiência, a HBO renovou o show pruma segunda temporada, embora a primeira não tenha propriamente um cliffhanger. Caso a rede desistisse de Succession, não restaria nenhuma pendência. Ficamos curiosos pra saber o desenrolar, mas praticamente todo mundo atinge situação de “equilíbrio”. Curioso pra ver o que Armstrong aprontará ano que vem.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 329


Roberto Rillo Bíscaro

Deve ser sonho de muito músico ter a foto de seu CD segurada por Chico Buarque de Holanda, que ao mesmo tempo o recomenda em seu Istagram. O álbum Cabaça D’Água (2017) conseguiu tal distinção e deve ter enchido Alberto Salgado de merecido orgulho. Reconhecimento dos pares sempre envaidece, ainda mais quando vem dum monstro sagrado.
Há quase duas décadas na cena, Salgado começou na sua nativa Brasília e seu contato inicial com o mundo da música deu-se através da capoeira, daí o berimbau ser tempero frequente de sua modalidade de MPB. Multi-instrumentista, Salgado é músico, intérprete, compositor, arranjador e professor de violão.
Cabaça D’Água é seu segundo álbum e ao ouvi-lo entende-se a recomendação baurquiana: ótima instrumentação casada com letras inteligentes e poéticas. No tenso baião de Ói, onde as cordas são plena ansiedade, a letra recorre ao popular zóio e ói, corruptela de olha, pra logo depois usar o pronome correto na construção “pra eu viver”, conforme dita a norma culta. Poesia boa, que não descarta o popular, mas não precisa ser funcionalmente analfabeta pra isso. A latinidad de Oferenda tem até aquela predileção por proparoxítonas, como o Chico, de Construção. E o arretado xaxado de Pele Debaixo da Unha, expele  um puta que pariu. Palavrões são palavras, porque não usá-los em letras de boa MPB? Quem não solta nome feio quando caceta dedo do pé?
Cabaça D’Água não pretende passar sequinho pelo avesso pelo qual passa a nação. Na abertura afro, Da Jangada em Pleno Mar, o poeta canta que seu peito está como jangada em pleno mar, a mercê de ondas colossais, em meio às injustiças sociais. A solução é povoar o mundo de poesia. Inocente – criminosos nazistas gostavam de Goethe também – mas bonito. Utopia reinventada, como pede a letra.
A faixa-título é bem mais direta e muito sincrética. A letra é referência à tragédia ambiental de Mariana (alguém já foi punido?), inclusive com clipe sonoro de notícia de telejornal, numa faixa em que o berimbau convive com climão lúgubre de triphop.
Ainda há espaço pro afrojazz djavanesco Histórias do Vento; pra toada-oração campesina de Ave de Mim e pra fofura twee  de Força da Fé. Delícia como essa nova geração sempre incorpora alguma coisa indie pop pra estalar dedidnhos, em seus álbuns. Força da Fé tem voz de moça, assobio e rabeca, violoncelo ou algo parecido. Pra ouvir batendo palma ou de maria-chiquinha.
Unindo tradição musical e poética com laivos de modernidade, Alberto Salgado mereceu os prêmios que ganhou com o álbum.

domingo, 26 de agosto de 2018

SUPERAÇÃO NÁUTICA


Emílio sofreu oito cânceres.  Em um deles perdeu a perna, mas isso não  o impediu de se tornar um dos velejadores de cruzeiro mais conhecidos, queridos e experientes do Rio Grande do Sul. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 250

Roberto Rillo Bíscaro

O documentário Watch The Skies - onde diretores cultuados, como Spielberg e George Lucas falam sobre os filmes de ficção-científica cinquetistas que os inspiraram – tirou seu nome duma das produções mais respeitadas dos “anos dourados”: The Thing From Another World (1951), no Brasil conhecido como O Monstro do Ártico. A fala final é dum jornalista, advertindo o público a ficar sempre olhando pro céu, em busca de sinais de possíveis invasores. Pobres americanos, dominavam o mundo, mas não tinham sossego, né? Mas, quem disse que paranoia não gera muita grana e permite melhor controle?
The Thing, como é mais conhecido, é um dos marcos da década, porque introduz os elementos usados até hoje em produções de monstros atacando. Baseado numa novela de 1938, incorreto afirmar que John Carpenter o refilmou em 1982, quando no Brasil se chamou O Enigma de Outro Mundo. Ele refilmou o livro, não o filme. Ou alguém diz que o diretor tal refilmou a primeira versão cinematográfica de Jane Eyre? Não; diz-se que é nova interpretação do livro de Charlotte Bronté. Então, apliquemos a mesma regra pra tudo.
Numa base científica no Ártico, um OVNI caído é encontrado. A operação pra desenterrá-lo é tão estúpida e não-planejada que culmina em sua destruição. Mas, um bloco de gelo com um tripulante congelado é resgatado e levado pra estação. Ocorre que ao derreter, o gelo liberta criatura vegetal, que se alimenta de sangue e começa a matar pessoas e catiorros até ser destruído por eletricidade.
A sorte de The Thing é que o baixo orçamento estava nas mãos de estúdio renomado, o RKO, e a produção (maldosos dizem que boa parte da direção também) a cargo de Howard Hawks, que sabia o que fazia. O cara foi responsável por pérolas noir e de western; não era qualquer zé-ruela querendo ganhar trocados fáceis fazendo filme pra drive-in, um dos grandes consumidores da produção B sci fi de então.
Diálogos crispados e frequentemente sobrepostos, além de competente direção de atores, não deixam o baixo orçamento tornar The Thing a comum falação tediosa pra comer tempo diegético e não mostrar o que não se tem grana para. Óbvio que você não vai compará-lo com a velocidade pós-moderna, mas The Thing é tão tenso e bem feito que dá até pra esquecer que tudo foi gravado num galpão com algumas portas e escada, com cenário bem modesto.
Soluções cênicas pra driblar falta de bufunfa são igualmente criativas: como não havia pra construir um disco-voador, que apareceria por menos de 10 minutos, anyway, os caras colocaram uma espécie de barbatana metálica enterrada na neve e o tamanho da circunferência do UFO pode ser intuído quando vemos a quantidade necessária de homens pra circular a área.
The Thing também introduz convenções, como apresentar a criatura só depois que bastante suspense foi criado e, mesmo assim, não muito de perto ou claro (pra driblar a mambembice da produção). E a personagem bobona que acha que pode fazer amizade com o ET? Também está em The Thing. E também se ferra.
Capitalizando em cima da histeria dos discos-voadores e do perigo soviético, The Thing não se poupa em justificar a pressa de enviar equipe militar pra verificar a veracidade do relato da queda do OVNI em função da presença russa no local. Alguém aventa que possa ser um objeto soviético, afinal, eles voam pelo polo Norte, “feito moscas”.
Também tendência nos anos pós-Segunda Guerra e pré-Vietnã, os militares são os salvadores da pátria e do dia, ao passo que para com os cientistas, a relação é dúbia. Se gênios essenciais pra que as casas tivessem suas TVs e geladeiras, homens da ciência também eram responsáveis por se meter em territórios melhor deixados sem explorar. Daí, The Thing ter um doutor que parece ficar maluquete e dizer que o conhecimento é mais importante do que algumas vidas.
Essa louvação dos militares “esquece” que a decisão de jogar as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki foi deles e que o Japão já estava vencido praticamente, tendo as 2 cidades sido escolhidas bastante como teste pra ver quanto estrago a bomba atômica causava, já que no contexto japonês, eram urbes relativamente pouco afetadas pelos bombardeios. 
Mas, levantar essa lebre não era tarefa de The Thing, cuja função era apenas divertir e, sabendo ou não, fustigar a paranoia contra invasores de toda espécie que assombrariam a década (como se já não existisse isso; basta lembrar do primeiro Red Scare, logo após a Revolução Russa, de 1917).
Mas, em qual outro filme da época você verá uma moça dando bebida alcoólica na boquinha dum capitão que tem as mãos amarradas pra trás, numa cadeira? E tudo de brincadeirinha; fetchichy, gentchy! E claro que o bofe se livra sozinho, tá? Pode fazer bondage, mas militar continua macho e não tem mulher que prenda, não, qual é? 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CONTANDO A VIDA 245

A MULHER ELEITORA E A SAÚDE POLÍTICA NACIONAL: direito de resposta.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Poucas vezes em minha produção de crônicas – e olhe que a lista é longa, passa de 500 – falo de política no sentido estrito do termo. Acontece que a coleção de tensões acumuladas ao longo dos últimos anos tem posto em questão o uso de espaços que precisam ser exercitados e exibidos como urgentes. Foi nesse sentido que resolvi aproveitar minhas colunas semanais para ousar um pouco mais, sempre na busca de acertos. Depois de duas investidas recentes, recebi comentários de alguns leitores amigos. E não foram bons... A primeira crítica veio de uma ex-aluna que dizia “professor, não gostei dos seus comentários sobre política... seu estilo não combina com o conteúdo e a leitura não foi agradável”. Outra, mais contundente, revela que “suas opiniões não parecem sinceras porque se diz neutro, mas os comentários não disfarçam”. Confesso que fiquei cabreiro. Pensei em agradecer, pegar o chapéu (ou pendurar a chuteira) e voltar para as temáticas de sempre, para os acarinhados assuntos culturais ou de comportamento, menos políticas no sentido das opiniões eleitorais próximas. Não foram poucas as meditações sobre isso, e nem faltaram temas oportunos fora da agenda corrente. Mas... mas, resolvi insistir ainda um pouco, e assim dar vasão ao conteúdo represado em comportas de silêncio, decepções e alienação. Por lógico, considerei as duas opiniões francas e procedidas na direção do diálogo. Frente ao primeiro caso, devo concordar, pois meu estilo (se é que posso dizer assim) é menos sóbrio ou neutro, sutilmente mais ameno e sempre tendente a sensibilizar os leitores. Gosto do jeito meio manso de explanar e. sei bem, isso não condiz com o conteúdo analítico que pretendi dar ao escolher tópicos. A outra observação remete à minha incapacidade de traduzir posições que se esgotam na imparcialidade. Esta doeu mais, pois atingia em cheio minha boa vontade em ponderar sobre a necessidade de falar de temas sem tomar partido. É claro que a contradição emergiu, pois me declaro publicamente contra a besteira que é indicada em posições como “escola sem partido”. Vesti a carapuça. E agora?

Somando e dividindo, acabei por fazer um exame de consciência e emoldurar tudo no quadro atual. Creio que achei uma resposta: continuar, mas sem me esconder. Meu impulso para alvejar o tema político se deve a dois fenômenos novos: a individualização da política e à mídia, ou seja, às soluções de divulgação das propostas dos candidatos. Antes de avançar, convém reconhecer que nenhuma das apresentações até o presente permitiu profundidade no exame de programas. Duvida-se mesmo que eles existam. Talvez o novo modelo de controle dos gastos eleitorais, o empobrecimento das participações, sempre comprometidas com o dinheiro privado, seja um dos responsáveis mais diretos pelo formato dos debates televisivos. Sem dúvida, isso aliado ao pouco tempo de campanha, tem produzido exposições aberrantes do caráter de cada candidato. A identificação dos prepostos com dizeres rápidos e demais personalizados tem produzido efeitos que valorizam pessoas e não questões político-partidárias, nem causas sociais de implicações continuadas e amplas. Tudo é muito tópico, a favor ou contra (uso de armas, aborto, igualdade de gênero, cancelamento de dívidas no serviço de proteção ao crédito, indicação apresada de ministros). Desdobramento imediato dessa individualização remete a reprodução também em flashes fugidios nas redes sociais. Tudo é muito instantâneo e convida à polarização indesejável. Por certo há novidades promissoras e entre algumas, seguramente, o papel das mulheres merece destaque. A mera constatação de que mais de 50% do eleitorado é feminino alenta muito.

A questão da mulher eleitora se torna vital não apenas pelo reconhecimento do papel social delas no conjunto da vida nacional, mas também, e até porque, representam elos fundamentais na problemática nacional. Veja-se sob esta chave a questão da saúde. Sendo que o ventre materno é o primeiro meio ambiente, gestacionário da vida, implica a mãe em situações como cuidado com a gravidez, parto, cuidados neonatais, vacinas. A multiplicação desses fatores eleva a relevância da mulher com ser político que tem protagonismo essencial. A educação formal, o acompanhamento dos filhos na infância e adolescência, o encaminhamento do trabalho pelo primeiro emprego, o zelo familiar até a senilidade, tudo, passa pela mulher. Nessa linha, a meditação sobre o voto feminino convoca posicionamentos que vão além de preconceitos e da moralidade cínica do mercado de trabalho. A igualdade de direitos é um dever, não pauta temática isolada.

Em termos práticos, sabe-se que mais de 40 % dos lares brasileiros são conduzidos por mães de baixa renda e são elas que decidirão os resultados. É fácil ficar pasmado ao se ouvir que o grande contingente de intenções de votos nulos ou brancos é dessas mulheres. Acredita-se, contudo, que isso mude. E há de se transformar na medida em que os argumentos sejam expressos. Neste sentido, muito além de estilo de redação, tentativa de neutralidade, vale-se do diálogo para descer do muro e se posicionar claramente. A primeira certeza que tenho encaminha minha decisão pública a candidaturas que centralizem o papel da mulher como ser dotado de direitos políticos compatíveis com os homens. E que além de tudo são responsáveis pelos destinos políticos do nosso estado.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

TELINHA QUENTE 323


Roberto Rillo Bíscaro

Na dramaturgia de Henrik Ibsen, amiúde uma personagem retornava ao lar, onde a situação estava aparentemente sob controle, e sua volta trazia à tona problemas do passado não-resolvidos e tudo acabava muito mal. Também era frequente no teatro do norueguês que algum problema social fosse responsável ou servisse de desculpa pra tragédia pessoal sequente.
As 2 temporadas de Frikjent (2015-16), produção da pátria de Ibsen, têm muito desse antecessor ilustre e também flerta com elementos trágicos, devidamente contemporanizados com um espectro de Nordic Noir e migalhas melodramáticas, vestidas de drama familiar complexo, denso, com personagens martirizadas pelo passado, obstinadas em seus objetivos e bastante nuançadas, bem ao gosto da TV moderna de boa qualidade.
Lifjord é linda cidadezinha incrustrada num espetacular fiorde no noroeste da rica Noruega. Encravada entre a água e a montanha, a vida econômica do local depende da Solar Tech, gerida pelos Hansteen, ou melhor, por Eva, a matriarca que domina a família e a aldeia.
O motorzinho do drama começa a funcionar aloprado, quando a empresa entra em bancarrota e passa ao controle dos chineses. Incentivado pelo marido de Eva, William Hansteen, originalmente o dono do dinheiro, quem vem a Lifjord tratar da aquisição da Solar Tech é Aksel Borgen, nativo da vila, mas, que há 20 anos não punha os pés ali.
Aksel se exilara voluntariamente da Noruega, porque nos 90’s fora condenado, mas depois absolvido (título em inglês para o mercado internacional, Acquitted) pelo assassinato da adolescente Karine. Mesmo absolto, a cidade jamais acreditou na inocência de Aksel, que é dado a crises de violência cega e quando jovem, a black outs. Às vezes, até ele duvida da inocência. Para piorar, complicar e dramatizar mais a situação, Karine era filha do casal Eva e William Hansteen.
Imagine um cara odiado pela cidade, que volta pra tirar dela sua fonte de renda, mantida pela família cuja filha podia ter morrido em suas mãos. Quando Aksel retorna, as portas do inferno se abrem e os vikings demonstram como sabem ser dramáticos e contar uma história profundamente triste, cheia de reviravoltas, revelações, segredos que vem à tona, ditos e desditos, incesto, alcoolismo, traição.
Os arquétipos do injustamente condenado que retorna à casa para limpar seu nome e o do filho pródigo que reaparece bem-sucedido se coadunam – às vezes, se cancelam -  numa narrativa em que, como na trágica, tudo acontece como o estouro de um dique. O mundo isolado, autocontido e claustrofóbico de Lijfurd funciona como imã mortal que prende e atrai de volta seus habitantes e parece existir quase que com regras próprias, por isso há repetições de julgamentos, tudo meio acelerado demais, mas a trama fascina tanto que nem nos damos conta quase.
A natureza tem papel metafórico fundamental, uma vez que cumpre pelo menos duas funções. Primeiro, a velha noção do Nordic Noir de nos perguntarmos como tanta miséria humana pode ocorrer em cenário tão deslumbrante. Segundo, a vastidão da montanha e os grandes corpos aquáticos reforçam o isolamento de Lifjurd, mesmo em nossa era globalizada.
Se Frikjent funciona espetacularmente como drama familiar, a tentativa de abordar o social se sufoca perante tanta angústia individual. Há sufocada subtrama que pretende a remunicipalização da Solar Tech. Para acadêmicos materialistas é passaporte pra comunicações em congressos, pois dá tranquilamente origem a dissertação ou tese, mas pros espectadores apenas desvia do que realmente interessa ao roteiro: botar aquelas personagens pra se autodestruírem pra nossa diversão.
Com elenco estelar pros escandinavos (ou pra nós fãs deles); correlação com caso policial real que sacudiu a Noruega nos anos 90; produção esmerada, Frikjent é mais uma série que posiciona a terra do A-Ha no mesmo patamar de suas irmãs Suécia e Dinamarca. Que bom pra nós escandinófilos!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CAIXA DE MÚSICA 328


Roberto Rillo Bíscaro

Semana passada, a soul music perdeu sua Rainha, Aretha Franklin. Felizmente, divas negras do gênero continuam aparecendo, como atestam dois ótimos álbuns canadenses. 

Tradição no fim/começo de anos é eu buscando listas de melhores álbuns de rock progressivo e R’n’B/soul. Especialmente de publicações mais especializadas – embora não descarte Rolling Stones ou The Guardian. Sites específicos ou hipster sempre trazem artistas que não conhecia e que não teriam espaço em listas mais mainstream.
Nem lembro em que lista vi o álbum Soul Run, de Tanika Charles, mas como cantoras sempre têm minha preferência, fui atrás no Bandcamp, na hora, enquanto lia as demais entradas do ranque. A faixa-título quase me derrubou da cadeira, de tanto que pulei de frenesi rebolante e embora não tenha visto o álbum em nenhuma outra listagem – hipster ou mainstream – sei de coração que foi um dos grandes de 2017.
A canadense vem trabalhando no circuito musical independente de Toronto, desde 2010 e em abril do ano passado estreou em álbum com Soul Run. Depois da dispensável Intro vem a faixa-título, dínamo com letra empoderada, que aliás, abundam por todo o álbum.
Quem diria que uma judia inglesa abriria público e influenciaria negras do “Novo Mundo”? De modo algum Tanika Charles imita Amy Winehouse, mas ambas navegam na mesma tradição do R’n’B/soul sessentista/setentista popificado, com letras mal-criadas se necessário, pra marcar território. Em More Than a Man esse parentesco aparece mais vividamente do que em qualquer outra faixa, seja em alguns maneirismos vocais, seja na letra que reclama do bofe que não sabe a hora de desgrudar (mas isso é dito com um palavrão, à Amy, que repousa na glória eterna, amém!).
Soul Run é conciso coquetel midtempo, que remeterá aos áureos tempos da Motown/Atlantic/Stax, mas sem soar antiquado, muito pelo contrário: perceba como algumas harmonias e progressões de Darkness & The Dawn são de hip hop, mas estão ressignificadas como vintage. Formalmente, a mais inteligente do álbum e ainda por cima com vocal inacreditável.
Quero ver fã roxo de soul conseguir deixar de estalar os dedos, quando começar a percussão de Love Fool. Heavy investe no B de rhythm’n’blues, enquanto Endless Chain é lufada de primavera, com coro que parece saído de Why Should I Love You, aquela subestimada colaboração entre Prince e Kate Bush, na geração passada.
Soul Run é um grande álbum, e não há desculpa de inacessibilidade, porque ei-lo, no Bandcamp:

Também do Canadá, mas de Montreal, vem o trabalho de Dominique Fils-Aimé, que, apesar do nome e da cidade ser a segunda maior do mundo a falar francês, canta em inglês.
Seu segundo álbum, Nameless - cujo título foi inspirado pelo poema Still I Rise, de Maya Angelou – saiu em fevereiro. Dada sua fonte inspiratória, não surpreende o caráter ativista de algumas letras e o mergulho em e influência de modos vocais e artistas negros da primeira metade do século 20.
Já que a opressão é uma preocupação do conciso álbum, Dominique o abre atrevidamente fazendo cover apenas vocal de Strange Fruit, clássico sobre os linchamentos de negros, no sul dos EUA. A canção já passou por bocas de Billie Holiday à Siouxsie Sioux e a canadense escolheu abordá-la como todo o resto de Nameless, de forma esparsa e minimalista. O resultado sumariza o álbum: impressionante.
Ao escolher que menos é mais, Fils-Aimé tinha que ter gogó e isso não lhe falta. Não se trata de trabalho jazzístico/Neo Soul de diva gritona, pelo contrário. O momento mais primal é durante a quase sexy Sleepy, mas nesse álbum significa que pode passar despercebido pro ouvinte menos atento.
Nameless de jeito nenhum dá sono ou é frouxo. Com vocal que de vez em quando lembra influência também de Sade, além das grandes mais antigas, Dominique intercala interpretações vindas discretamente da alma, com silêncios que assombram, como em Home. E como dissociar a experiência afro-diaspórica dos convenientes, sonoros e assassinos silêncios ao longo de séculos?
Mesmo quando opta por apenas murmurar, como na integridade de Unstated (olha esse título!), Dominique cria uma senhora faixa: além da metáfora do abafamento, em termos sonoros os instrumentos não deixam de se referenciar a certo tipo de hip hop mais agressivo, mas sem sê-lo; ouça pra crer.
É tudo muito delicado e discreto. Em Birds, basicamente há um obeso contrabaixo e sons percussivos recriando rufares de asas. Na faixa-título, o violino flutuará por seus ouvidos feito aparição.
Em época de tanta ostentação de terceira categoria e  rival imaginada barulhentamente combatida com tiro, porrada e bomba, Dominique Fils-Aimé se destaca, porque dá tapa na cara de inimigo bem real, mas com luva de pelica cravejada de pregos.

domingo, 19 de agosto de 2018

KARATÊ DA SUPERAÇÃO


Gabriel nasceu com mielomeningocele, também conhecida como espinha bífida aberta, malformação congênita da coluna vertebral da criança em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. Depois de operado, ainda no dia do nascimento, o menino começou longa jornada de superação, bastante facilitada pelo karatê. 

sábado, 18 de agosto de 2018

ALBINO GOURMET 263

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TELONA QUENTE 249


Roberto Rillo Bíscaro

No último decênio, têm aparecido bons filmes referenciando o horror/suspense dos anos 1970. Fugindo do ritmo aloprado, barulhões estridentes e recursos digitais da contemporaneidade (nada contra!), produções como Ainda Estamos Aqui, A Casa do Demônio e Corra! acabam se destacando. Isso pra lembrar aquelas resenhadas no blog.

Este ano, já saíram dois bons exemplos dessa reciclagem de formas setentistas de contar histórias. Um deles vai muito atrás. Ghost Stories pode ter seu DNA traçado ainda em 1945, quando o brasileiro Alberto Cavalcanti dirigiu Dead Of Night, na mesma Inglaterra do filme de 2018.
Ambos são antologias, formato muito em voga nos anos 60 e 70, nas veneráveis Hammer e Amicus. Na verdade, o desfecho de Ghost Stories está em uma antologia predecessora, mas, obviamente, não direi qual.
Philip Goodman é professor universitário, que também tem show de TV dedicado a denunciar fraudes paranormais. Crê prestar grande serviço à causa da racionalidade, até que seu mentor o contata pra desafiá-lo com 3 casos de histórias fantasmagóricas inexplicáveis. Entremeando cada caso e no final explicativo, seguimos a trajetória de Phil, cada vez mais em dúvida sobre a inexistência do sobrenatural.
Ghost Stories não apenas resgata o consagrado formato de trinca de historietas fantasmagóricas, mas usa alguns recursos típicos dos filmes de antanho. Tudo se passa numa Inglaterra aparentemente deserta e opaca, sem nojeira ou ruídos pra assustar. Ghost Stories é mais atmosfera arrepiante do que orgia gore. E não é que mesmo assim, conseguiu me dar um susto da maneira mais óbvia possível?

E não é que o Cannesnizado Steven Soderbergh conseguiu transformar a reprimida e esnobe Elizabeth II numa norte-americana de boca suja, que não tem medo de partir pra porrada? Claire Foy, de The Crown, dá show em Unsane, cuja filmagem usando um iPhone deixou-o ainda mais parecido com os inspiradores exploitation films setentistas.
A trama sensacionalista (mulher trancafiada num manicômio contra a vontade), que objetifica a protagonista pra depois torna-la agente (de mentirinha, claro); o amigo bonzinho que vive pra mocinha e até final em freeze frame (há anos não via isso!); é tudo puro anos 70. Só que com nomes consagrados. Então, fica cool gostar! Mas, essa tradição da mulher engaiolada, especialmente em presídios, bombou nos 70’s e vem até nos uniformes laranja considerados como os novos negros. Unsane é a junção dessa vibe com a de gente injustamente trancafiada como louca, ”denúncia” social e o clássico mulher-perseguida. É tudo muito divertido, mas não tem nada de original, por isso o diretor tratou de chamar a atenção para a forma como filmou e chamou Foy. Espertinho.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ZOOFILIA COM JIBOIA

Jiboia 100% albina é filmada em Michigan, nos EUA

Um réptil de origem colombiana foi encontrado numa loja de répteis, "BHB Reptiles", no estado de Michigan, EUA. A peculiaridade é que este animal é albino, o que lhe confere uma fisionomia única!

Veja o vídeo, através do link:

CONTANDO A VIDA 244


À BEIRA DO ABISMO: apocalipse e redenção.



O título é proposital. O alarme se faz necessário e urgente. O motivo remete às próximas eleições. E não poderia ser diferente, pois vivenciamos o resultado de alguns desastres políticos. É logico que o próximo pleito não será a solução, mas pode ser a porta para mudanças que precisam ser ventiladas. Como nunca é preciso discutir e apresentar ideias; ouvir e pensar são medidas capazes de nos mover do simplismo do “acho X não acho”. Por favor, acalmemos o radicalismo que existe em cada um de nós. Saiamos das cavernas tenebrosas dos extremos e saibamos promover debates. Por lógico, não se espera que haja abandono de posicionamentos filosóficos, de descomprometimentos com ideais que nos definem, mas daí à intolerância vai um abismo de distância. Como elemento mediador de diálogos, se fala em temas que podem perpassar reflexões de esquerda ou direita. 

Os primeiros debates, as apresentações iniciais estão postas. Ainda que nenhum candidato tenha exposto projetos consistentes, as linhas gerais estão esboçadas e nelas os assuntos preferentes do eleitorado. Uma primeira leva de medidas remete às reformas. Além da reforma política, a trabalhista ou previdenciária se faz notável pelos acontecimentos recentes, em particular pelo aumento de mais de 16% dos vencimentos do Judiciário. Em vista disso, parece premente que pensemos nesse instituto como ponto de partida para outras considerações. Lembrando que o equilíbrio dos três poderes é condição para a democracia, parte-se da premissa que coloque o Judiciário na condição do ordenamento que o justifica, ou seja, como instancia de poder decisório sobre o andamento do Executivo e do Legislativo. 

De regra, o Poder Judiciário deve ser discreto, sóbrio e sempre falar nos autos e por escrito. Esta regra é pétrea e funciona em grande parte dos países ditos civilizados. Em outras plagas, mal se sabe o nome das autoridades supremas da ordem jurídica. Pouco aparecem, raramente se expressam em público e tem seus salários publicados com prestações de contas transparentes. É assim em quase toda a Europa, nos Estados Unidos, Canadá, Japão. Na América Latina, mais precisamente os estados que passaram por traumas ditatoriais, exatamente para a superação de desmandos cultivados nas casernas governamentais, o ajuste libertário tem demandado exposições muitas vezes danosas ao convívio público, condição essencial em repúblicas maduras. Nesse conjunto, o caso brasileiro é exemplar do que não deveria ser. Pela projeção nada inocente dos órgãos de divulgação, em particular pelos canais televisivos, os juízes da Suprema Corte viraram pop stars. Os destaques nos noticiários os fazem centro de atenções e frequentadores de shows e entrevistas onde suas vidas aparecem como de celebridades.

Falando a torto e a direito, dando opinião aberta, vão cultivando aspectos pouco cabíveis a togados erigidos à condição de ministros. É de se tomar cuidado em não vazar opiniões que maltratem o órgão a ponto de negar sua relevância. Ele é essencial e seu bom desempenho mais do que desejável. É exatamente por isso que se apedreja o aumento de salário que se mostra afrontador da condição pública. O efeito cascata da elevação desses proventos supera quatro bilhões de reais, dinheiro a ser descontado do orçamento geral da nação. É demais. Demais não apenas pelas cifras (as maiores do país), mas também e principalmente pelo descaramento apresentado a um país com mais de 13 milhões de desempregados e com um salário mínimo ridículo.

Superando as constatações, convém lembrar que os cargos são de escolha do Executivo, portanto do Presidente da República. Este é um ponto a ser ferido. Não há de se tratar o assunto como se fosse opção de um mandatário, ainda que derivado de lista tríplice. A promoção deveria ser feita por sequência e progressão de carreira, avaliada por comitê jurídico competente. 

Outro ponto importante remete ao número de seus participantes. No momento são onze membros que funcionam em regime de circulação de cargos de comando. Fala-se, contudo em aumento, e os argumentos se assentam em número excessivo de processos que chegam ao julgamento do Supremo. Seria plausível pensar na manutenção da mesma ordem numérica, mas com filtros capazes de reduzir as remessas para a instância máxima. Bastaria propor um reordenamento de apelos e um rigor maior nas instancias menores. 

Mas não é só em atenção do STF que se pensa quando se fala de reforma do Judiciário. O cargo da Procuradoria Geral da República passaria pelo mesmo crivo e o mesmo se diz da Polícia Federal, contando aqui iguais reflexões sobre salários, nomeações e desempenho público. A complicar tudo temos ainda as instâncias de decisões das eventuais mudanças. Nossa Constituição determina regras favoráveis a manutenção das coisas como estão. É lógico que cabem emendas, mas como estamos distantes delas. Talvez, a mera nomeação de possibilidades seja um primeiro passo. Vamos, juntos, tentar caminhos. Independentemente de partidos, o enunciado do problema pode ser um critério a ser conferido na política dos candidatos.