quinta-feira, 17 de novembro de 2016

TELONA QUENTE 176

Resultado de imagem para the dead room film
Roberto Rillo Bíscaro

Filmes lentos no início, preparando o espectador pralguma reviravolta mirabolante não são incomuns no mundo do horror. É jogada perigosa, mas dá pra ser feita, se roteirista e diretor forem talentosos, não tiverem preguiça de pensar e dispuserem de algum orçamento. The House Of The Devil tensiona “apenas” criando suspense sufocante.
Infelizmente, isso não ocorre no decepcionante The Dead Room, produção neozelandesa do ano passado. Após uma família fugir duma cabana supostamente mal-assombrada, a seguradora envia 3 caça-fantasmas pra verificarem a veracidade dos fatos. As personagens são clichê, mas até aí tudo OK: tem a médium que afirma ver assombração e aconselha o trio a vazar, mas deixa-se convencer a permanecer tão facilmente quanto se estivesse num acampamento de verão; tem o senhor técnico e “científico”, que insiste em que tudo está dentro da normalidade, mesmo em meio a uma tempestade eólica surgida do nada ou móveis voando e tem o moço responsável pela parte técnica. Comportamentos absurdos e/ou incoerentes também não são raros em filmes de horror e fãs do gênero estão preparados pra aceitá-los até como convenção.
O pecado mortal de The Dead Room é ser morto na primeira hora e pouco e ter alguma ação apenas nos 8 derradeiros minutos, num clímax inesperado, mas que corre até o risco de ser perdido porque o espectador desistiu de ver a película ou porque está dormindo. Que medo dá lustre balançando ou mesa voando, sem que clima algum tenha sido preparado pra acreditarmos emocionalmente que possa haver um fantasma ali? A não ser que você se apavore com o lustre horrendo que escolheram, cruzes! Há a usual pancada numa hora determinada, 3 da manhã (Amytiville, hello, lá eram 3:15), mas assustar com efeito sonoro é barato demais; não é por causa da trama, mas porque se está distraído ou, nesse caso, enfadado.
Descobri completo no Youtube. Só não se deixem levar pelo “best”.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

DE VOLTA PRA CASA

Animal marinho albino é encontrado em Praia de Cabo Frio (Foto: Eduardo Pimenta/Arquivo pessoal)

Animal marinho albino que apareceu em Cabo Frio volta para o mar

Aparição na Praia do Forte nesta terça e chamou a atenção de curiosos.
Animal ficou por algumas horas na areia e voltou sozinho para a água.

O animal marinho albino de espécie ainda não identificada que apareceu na Praia do Forte, em Cabo Frio, Região dos Lagos do Rio, na manhã desta terça-feira (15), voltou para o mar no começo da tarde. Um grupo de agentes ambientais formou uma área de isolamento entre os banhistas para que o animal tivesse espaço para voltar para a água .

Segundo Leonardo Sandre, presidente da associação de Guarda Parques do Rio de Janeiro(AGP-RJ) e coordenador de fiscalização do Parque Estadual da Costa do Sol, que registrou as imagens, o animal andou por cerca de 150 metros na areia.

De acordo com o biólogo Eduardo Pimenta, que esteve no local, trata-se de um leão-marinho ou de um lobo-marinho, mas ainda não é possível afirmar com exatidão. De acordo com o especialista, por ser albino o animal é bastante raro, principalmente para est"Ele é um animal grande e muito raro só por ser albino. Ainda não podemos dizer com precisão qual a nomenclatura dele, mas acredito que seja um leão-marinho mesmo", disse Pimenta.

A área onde o animal estava foi cercada pelo Corpo de Bombeiros para evitar a aproximação de banhistas. Especialistas em animais marinhos de um projeto ligado à Petrobras foram ao local para tentar identificar a espécie.

"O animal está aparentemente saudável, mas com umas cracas fixadas. Parece bem. Acredito que ele esteja na região por conta da frente fria que veio do extremo sul do Brasil ou até mesmo da região das Malvinas (Argentina)", afirmou Eduardo Pimenta.

Devido ao feriado da Proclamação da República, Cabo Frio está recebendo muitos turistas. Segundo o município, quase 100 mil pessoas viajaram para o balneário. Por conta do tempo fechado, o animal se tornou um atrativo e diversas pessoas se aglomeraram em volta dele.a região.

Assista ao vídeo, acessando o link:

CONTANDO A VIDA 172


ENVELHECER É...

José Carlos Sebe Bom Meihy
Dia desses, pensava nos limites impostos pelas definições correntes em nosso vocabulário. Verdadeiras prisões, os conceitos nos apertam e reduzem o que queremos dizer. Vendo isso como camisas-de-força, tenho me rebelado contra a simplificação dos significados. Neste sentido, briguei muito com os conceitos estabelecidos sobre a velhice. Não que não aceite a passagem dos anos. Pelo contrário, vejo nos muitos aniversários a delícia do envelhecimento com saúde, vigor profissional e filhos/netos por perto.

Os dicionários, contudo, nos jogam para baixo e apenas nos reconhecem como debilitados fisicamente. Um horror! Veja por exemplo a citação ilustrativa do Aurélio para o “nosso” verbete “Envelhecera. O espelho mostrava-lhe os cabelos brancos, as rugas” (Heberto Sales, Histórias ordinárias, p. 107”.

Mas o que seria envelhecer?


Pretendendo ser mais generoso com os anos vividos, lembrei-me do soneto de Machado de Assis em que o autor retoma a consciência da fluidez do tempo “Mudou o Natal ou mudei eu?”. Talvez a transformação seja a grande marca das eras experimentadas. Não apenas a mudança do nosso corpo, mas como o envelhecer permite estranhar a sucessão de fatos e coisas ao redor. Como tudo muda! E como se rejuvenescem as palavras, os substantivos e adjetivos.

Visitemos algumas referências que nos fazem sentir velhos: o tecido “brim” virou jeans; o velho “pão com carne assada e queijo” virou “sanduíche” que virou “Bauru” que virou “fast food”; “petisco” mudou para “aperitivo” que virou “deli”; “centro comercial” se transformou em “shopping center”. “Cheiro” virou “perfume” e, “safadeza de político ladrão” virou “caixa dois” que virou “dinheiro não contabilizado”.

Se meu pai fosse vivo, provavelmente não gostaria que as “liquidações” de nossas lojas virassem “sale” e estranho muito quando vou comprar uma “passagem aérea” e entregam-me um “e-ticket”. Mas a coisa vai longe.

Antes, as mulheres ficavam “incomodadas”, depois “menstruadas” e agora têm “TPM”; a antiga “danação” virou “neurastenia”, depois “histeria” e agora todo mundo anda “estressado”; na academia onde se fazia “ginástica”, hoje se “malha”, e, o que é pior, não se malha para “arrumar o corpo” e sim para ficar “sarado” ou com “barriga tanquinho”; o “corpete” das moças virou “sutiã” e agora o “silicone” o dispensa; as mulheres do meu tempo usavam “rouge” e hoje se valem da mesma coisa para dizer glamourosamente “blush”; e “peruca” que virou “aplique” que foi substituído por “interlace” que deu lugar ao “megahair”; o famoso “alisamento” de cabelo virou “alongamento” e já é “chapinha” ou “escova progressiva”. Pode?

Pode-se pensar que "antigamente" as pessoas “encrespavam” o cabelo, mas que agora elas “encaracolam”. E as “brilhantinas” que viraram “gel”? E quando a gente fala de correio então... ai que saudade dos selos coloridos, dos envelopes, telegramas, dos cartões de Natal, hoje, tudo virou “e-mail” que, coitados, já se vêm ameaçados pelos “whatsapps”.

Que o “telefone móvel” virou “celular” todo mundo sabe, mas não é esquisito pensar que a “vitrola” se transformou em “toca discos” e no presente é “CD player”, depois vieram os “walkmen” e hoje já desbancados, solenemente, pelos “i-pod”. E os nossos moderníssimos “disquetes” que deram lugar aos CDs e agora são humilhados pelos “pendrives”? E que dizer das "nuvens"? Lembram-se dos “discos 78 rotações”, pois bem viraram “LPs” que agora são “CDs “e que podem ser contidos em “chips” quase invisíveis.

Entendem o que quero dizer? Envelhecer é observar todas estas mudanças e não ter mais tempo, sequer, para lembrar como era antigamente, pois, “recordar não é mais viver”... não... é envelhecer. É coisa de alguém que virou “tiozinho”, que virou “coroa” e que pode pagar meia no cinema, ter lugar nas filas e nos ônibus, mas que sequer tem tempo para lembrar.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

TELINHA QUENTE 238

Resultado de imagem para the crown netflix
Roberto Rillo Bíscaro

Nenhuma família captura a imaginação e curiosidade como a da realeza britânica, uma soap opera da vida real. Fonte de gastos, mas também de renda pra outrora poderosa Inglaterra, os Royals são capitaneados por Elizabeth II desde 1952, década quando o Império desmoronava, a inflação era alta e o smog matou milhares em Londres, em 2 ou 3 dias. Tudo isso é tematizado perifericamente na primeira temporada de The Crown, cujos 10 episódios a Netflix liberou dia 4 de novembro. Caracteristicamente nessas representações, ficamos mais interessados sobre quem será o futuro secretário particular de Sua Majestade. E tem que ser assim, porque Lilibeth não tem poder pra lidar com a inflação; ela não governa; o Primeiro-Ministro governa pra ela.
Filha do Rei George VI – o do Discurso do Rei – Elizabeth só se tornou monarca, porque seu tio abdicou do trono pra casar com uma divorciada ianque. No complexo labirinto protocolar da nobreza isso não é pouca coisa. Elizabeth foi catapultada duma situação de anonimato pra sucessora direta, significando que seria a chefona da Casa de Windsor. Teria que sacrificar sua vida e identidade pessoais em função do cargo de Rainha da monarquia mais famosa do planeta. O que sentia, pensava ou acreditava como indivíduo tinha que ser anulado em função da tradição e do mais adequado pra nação, constituição, igreja anglicana. Teria que aprender a demonstrar nada, a não opinar e engolir o grande sapo de não ter autonomia sequer pra eleger seu secretário pessoal favorito.
É esse processo de aprendizagem que o roteiro de Peter Morgan – o mesmo d’A Rainha (2006) – reitera. Por não poder agir livremente, Elizabeth II é péssima personagem dramática, que necessita de emancipação pra poder agir como bem entenda, ou pelo menos dar a ilusão de que é como bem entenda. Presa a convenções e tradições e andando na corda b(o)amba – pra que serve a Monarquia, efetivamente? – a monarca ainda por cima nem pode dar muita vazão ao que sente. Pesadelo prum roteirista, mas é por isso que Morgan batizou a série de A Coroa e não de Elizabeth II. A personagem central é a Monarquia; todas as pessoas em função dela são instrumentos pra sua manutenção. Com pompa e circunstância, a Monarquia reifica tudo.
A Princesa Margareth não pôde casar com quem quis e nem sua irmã pôde sancionar o casamento. Se o fizesse correria o risco de destruir a Monarquia. The Crown é bastante respeitosa e reiterativa com relação a isso e cabe ao espectador pensar que Margareth poderia ter largado os privilégios de ser Real, como seu tio o fez. Difícil, mas é uma sinuca de bico diferente do que ser uma mulher pobre no interior da Síria sob constante ataque.
Caso não se queira imaginar que algumas daquelas vidas poderiam ser distintas, resta mergulhar no brutal mundo do decoro e polidez palacianos e desfrutar da requintada produção, que não poupou verba. Tudo é irretocável; do vestuário à louça. Fãs de The Queen reconhecerão várias cenas semelhantes em locação e o turismo pra Escócia provavelmente subirá. No elenco, John Lithgow – Royal Family e Lithgow, eu tinha que passar à frente de tudo, né? –, enoooorme como Churchill (mas é tudo de mentira), Eileen Atkins, como Queen Mary e mais um monte de gente ótima.
Tomara que faça sucesso, porque a Netflix planeja 6 temporadas.
Já tem lugar garantido na minha lista de melhores do segundo semestre de 2016.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 244

Ashleigh Smith: Sunkissed
Roberto Rillo Bíscaro

Músicos aprimoravam suas habilidades no circuito de shows. O ofício era aprendido por imitação de ídolos e ralação dura. Desde os anos 60, o número de cantores e instrumentistas com educação formal só aumenta, vide o caso do elitista rockprogressivo, nicho pronde foram vários alunos de conservatórios e escolas de arte. Maldosos afirmam que os músicos clássicos frustrados foram fazer prog.
No mundo do jazz e R’n’B o fenômeno da educação formal em música pode ser mais recente, devido ao background socioeconômico de muitos artistas, oriundos da classe baixa. Diploma não assegura brilho ou carisma, mas no caso de Ashleigh Smith, ter estudado música clássica em universidades na Georgia e no Texas ajudou imenso, porque o treinamento somou-se a uma vida cercada de música via audição de gente como Ella Fitzgerald e Sting e a herança de uma família incentivadora, porque composta por gerações de musicistas.  
A jovem de 27 anos trabalhou como vocal de apoio de Chrisette Michelle e em 2014 tirou o primeiro lugar no Sarah Vaughan International Vocal Competition. Educação + ralação valeram a pena e Ashleigh conseguiu contrato com a gravadora Concord, por onde estreou em LP com Sunkissed, em agosto.
A norte-americana chamou seus companheiros de classe, guitarrista Joel Cross e baixista Nigel Rivers, para produzir as 10 faixas e juntos escreveram meia dúzia, as demais são regravações. Além do mérito da boa qualidade, Sunkissed traz sangue novo e bom pro jazz.
O álbum abre com um dos 2 destaques, a faixa Best Friends, onde batida de bossa nova coexiste com batuquinho afro; muito brejeira. No final um solaço de gaita; é como se Steve Wonder participasse de um álbum do Matt Bianco. E por falar no influente músico cego; é ele quem informa parte da sonoridade de Smith, que traz a malemolência do R’n’B e do funk pro jazz. Into The Blue é o outro pico de Sunkissed: lenta arrasante com naipe de metais e baixo funk. Se esse trio amadurecer junto, poderemos ter obra-prima a médio prazo.
As demais composições não atingem o nível desse par, mas estão longe de fracas. A faixa-título está na medida pra fãs de sophistipop e dá pra se perder em seu labirinto de vocalizações e contracantos. The World Is Calling é urban jazz irresistível pra nós que crescemos com Everything But The Girl e toda aquela elegância da Quiet Storm e do jazz popificado pra tocar em FM descolada.
Pra conferir o excelente fraseado jazzístico da moça, ouça o que ela ostenta em Blackbird, cover dos Beatles, gorjeando “blackbird, fly” de vários jeitos. Sara Smile – dos outrora desvalorizados Daryl Hall e John Oates – é desbluezada e acelerada um tiquinho; ficou bem legal. Love Is You é cover da ex-patroa, mas Ashleigh ainda não tem porte pra Chrisette Michelle. Dá pra ouvir independentemente, mas se você conhecer o original... Pure Imagination, a capella com camadas de vocais põe a versão original, do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, no chinelo. Ser melhor que Gene Wilder não é lá grande vantagem, mas, tá valendo.
Promissora estreia de vários jovens talentos; oxalá frutifique com fartura. 

domingo, 13 de novembro de 2016

TIJOLOS DA SUPERAÇÃO

Conheça o pedreiro que não tem as duas pernas, mas dispensa clientes, de tanto serviço que tem. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

TELONA QUENTE 175

Resultado de imagem para friend request film
Roberto Rillo Bíscaro

Charlie Brooker ensinou que o espelho negro no título da badalada Black Mirror refere-se às onipresentes telas de TVs, smartphones, tablets, PCs, que balizam nossas interações sociais. Matthew Ballen, Philip Koch e Simon Verhoeven extrapolaram esse conceito e o ligaram aos espelhos negros usados na mitologia da bruxaria e saíram-se com a história de Friend Request (2016), produção teuto-americana, dirigida por Verhoeven.
Laura é a garota überpopular da facul, com centenas de amigos no Facebook, requisitada pra festas, antítese de Marina, encapuzada estranha com 0 amigos na rede social. Laura se apieda da desenhista e tenta amizade, mas Marina é carente e reticente demais. Quando Laura a desconvida de sua festa de niver e Marina descobre, esta se mata espetaculosamente online. Mas a coisa não para por aí, porque os amigos de Laura começam a receber vídeos pavorosos e a morte lhes visita pelas telas de seus fones e PCs.
Friend Request aproveita a vibe de filmes de terror no universo das redes sociais e computadores, tipo Amizade Desfeita (2015), e atualiza as manjadas histórias de feiticeiras e encostos, pra usar terminologia da nossa querida umbanda. Não é um Charlie Brooker, mas a influência de Black Mirror é explicitada, quando o nerd de plantão digita “espelho negro” pra se informar sobre bruxaria e o dispositivo de preenchimento automático mostra “black mirror season 3”.
Tirante isso, não há nada de novo no front, dá pra prever o final de Laura pouco antes de acabar (se previr antes, me escreva contando) e de acusá-lo de preconceituoso contra pessoas que fogem dos padrões de fofice social amados na era das curtidas.
Mas, cônscio disso tudo e de que a maioria dos filmes não traz nada de novo a seu subgênero, Friend Request garante boa divertida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

CONTANDO A VIDA 171

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ADOCICAÇÃO DO SACI NA CULTURA BRASILEIRA.

José Carlos Sebe Bom Meihy


Convidado pela Universidade Federal do MS para falar sobre o Saci, confesso que fiquei, a um tempo, tentado e medroso. A tentação se explica pelo atrativo da estruturação de um texto que, por fim, exigiria forma para tantas ideias soltas, hipóteses formuladas ao longo de anos de suposições sobre o significado do folclore na cultura formal. Lembrando que em 1917 Monteiro Lobato se investiu do dever de registro, estava aberto o caminho para a retomada do tema. O medo – e que medo! – se justificava pela vastidão dos aspectos que cruzam evocações tidas como subjetivas, permeadas em nossa memória cultural. E eis que, de repente, estava frente a um elenco de possibilidades convidativas da desistência. Mas, insisti, valendo-me de duas características do estranho e cativante personagem: a insistência e a traquinagem. Foi assim que “traquinamente insisti” e, dessa forma, tive que colocar no meu radar, alguns itens carentes de integração: sou historiador; gosto de Monteiro Lobato, trabalho com oralidade. Pronto, não tinha mais caminho de volta. Estava composto o redemoinho que me levaria para o fundo do rio onde, aliás, moraria o Saci.

Mas por onde começar? Por evidente, li o que tinha ao alcance. Retomei “Histórias de Tia Nastácia” e voltei ao diálogo que mantenho com Marisa Lajolo, desde 1988, sobe o negro na literatura lobateana, e, por lógico me perguntei de saída por que seria o Saci negro? Visitei contos de vários autores que abordam o assunto direta ou de maneira tangente; revi comentários críticos e não desdenhei o debate recente sobre o racismo na produção literária, folclórica e histórica. Foi difícil escapar desse debate que, pela mitologia nacional inscreve, com sedução, o tema Saci. Consegui, acho. O passo seguinte me levou para a complexa viagem ao passado, buscando as possíveis raízes da figura do Saci desde suas primeiras manifestações registradas até a incorporação, pela literatura, nas novas mídias como cinema e televisão. O mero enunciado dessa trajetória me sugeria algum chão. Foi quando juntei fios, começando a trançar uma narrativa problematizadora.

De onde teria vindo a lenda do Saci? Das três alternativas – indígena, africana ou europeia – tive que prezar todas. Pensei de saída que, ante a impossibilidade de precisão, me vi obrigado a todas, acatar comodamente a alternativa abrigada no conceito de “metamorfose”. É inegável que pela imprecisão de uma origem definida se chega a um modelo hoje estabelecido. Temos no presente a figura de um Saci palatável, interessante, domesticado, aceito, principalmente fabricado para crianças. Trata-se de dupla infantilização: do Saci em si – que tomou a forma de um menino – e do endereço de seu consumo, em particular em histórias para crianças. É lógico que nesse trânsito ele apresentou como um tema pedagógico sutil. Creio que é aí que reside seu maior risco, pois essa metamorfose dimensiona um viés ideológico. A imagem que hoje temos do Saci é de uma figura transformada. Sem dúvida, o padrão dado pela Rede Globo de Televisão mostra um negrinho simpático, de uma só perna, capuz e calça vermelhos. O Saci de nossos dias não é mais o maldoso personagem que punha fumaça pelos olhos, com pés e mãos com três pontas, ente que atormentava. O atual é um malandrinho que faz suas travessuras sem maiores danos. De maneira sorrateira, em favor do “politicamente correto”, foi aliviado o olhar ameaçador e retirado o “condenável” pito/cachimbo.

Dando asas ao voo histórico, me permiti pensar na tropicalização do diabo europeu, projetado pelo Cristianismo aterrorizador. Contrastando com o demo segundo os padrões derivados da Idade Média, pude pensar na “adocicação” do demônio que entre nós não manteve odores insuportáveis, perdeu o rabo e ganhou ares toleráveis e de negociador. Teria ocorrido o mesmo com o Saci? Talvez essa prática de tradução das severidades metropolitanas na colônia explicasse a possibilidade da absorção de um outro tipo, de origem paraguaia, identificado como Yasy Yateré. Nesse caso, desde o século XVI, dada a dispersão dos Guarani rumo a diferentes espaços brasileiros, seria possível a difusão pelo Brasil. E há versões que contemplam detalhes regionais da adaptação do Saci. No nordeste brasileiro, por exemplo, acredita-se que suas manifestações decorrem da raiva de um moleque que perdeu a perna num jogo de capoeira. No norte, é comum aproximá-lo da ave Matintaperera que, em 1973, foi incorporada na canção “águas de março”. Diga-se, aliás, que o álbum intitulado Matita Perê, remete a uma tradição que diz que uma ave noturna vira gente durante o dia, assombrando os transeuntes perdidos na floresta. Por uma ou por outra via, o que temos é a garantia de a cultura brasileira, antropofagicamente, engolir padrões e se apropriar deles, os transforma. Isso é ideológico.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

TELINHA QUENTE 237

Resultado de imagem para black mirror season 3
Roberto Rillo Bíscaro

(Sugiro a leitura da resenha das 2 primeiras temporadas pra melhor contextualizar o show)

Os mordazes comentários de Charlie Brooker a respeito do cenário social pós-moderno insidiosamente tornaram-se sucesso cult. As 2 curtas temporadas de Black Mirror exibidas pelo Channel 4 não tiveram o alarde reservado a séries bem inferiores, mas conquistaram gente certa nos lugares corretos. Um dos resultados é que o inglês foi convidado pra transferir seu circo de horrores sci fi pra badalada e bem-dotada-orçamentariamente Netflix. Dia 21 de outubro, a plataforma liberou a meia dúzia de episódios da temporada 3. Mais dinheiro e dedo corporativo norte-americano não comprometeram a alta qualidade e independência de ideias de Brooker, que por vezes atinge o genial.
Ao contrário da série 1, que começava com episódio tão estupendo a ponto de ofuscar o que veio adiante, essa encarnação abre com um dos mais fracos, o que no universo Brooker significa um bom episódio. Sente o nível de Black Mirror! Nosedive se passa num futuro não muito distante, onde as pessoas são ranqueadas por sistema não diferente dos atuais “curtir” das redes sociais. Quanto mais alta sua popularidade, mais status e direitos você possui nesse mundo onde a boa educação e finesse são artificialmente atingidas, porque quase todo mundo é falso, a fim de obter mais estrelinhas nos onipresentes celulares. Lacie é a protagonista sempre vestida de rosa ou tons pastel que vive com seu celu em punho e pauta sua existência em função da avaliação dos outros. A ideia é padrão Brooker, mas quando a moça mergulha no inferno da reprovação social e da lama, algo da originalidade se esvai (tem hora que lembra até filme do Steve Martin), além de uma provável inconsistência na psicologia das personagens do meio social onde habita uma falsa amiga de Lacie. Duvido que eles não reprovariam a patricinha por ser amiga da enlameada e boca-suja Lacie. Pensando bem, a companhia aérea também não deixaria os passageiros do voo cancelado assim sem eira ou beira por medo de avaliações negativas.
Em termos de sensibilidade, o campeão é o impressionante San Junipero, que além disso é essencial pra oitentistas maníacos. Trata-se de história de amor entre 2 mulheres, cuja reviravolta na trama e as implicações provenientes são comida pra discussões que vão de filosofia ao suicídio assistido. Men Against Fire tem a típica linguagem dos filmes de guerra. Esse é um dos muitos pontos fortes de Charlie Brooker: saltitar de subgênero a outro pra inserir suas ideias instigantes de ficção-científica ou/e horror (mais frequentemente e). Militares são fanáticos em exterminar humanos anomalizados geneticamente, conhecidos como “roaches”, diminutivo em inglês pra baratas (cockroaches). Ano passado uma articulista britânica chamou imigrantes de cockroaches e disse que ao invés de barcos de resgate, navios de guerra deveriam ser usados pra acabar com os ilegais. A plot twist é algo previsível, mas também abre pra discussões sobre manipulação. Nossa, será que o Michael Kelly, de House Of Cards, não faz papel simpático?!
Meus favoritos foram os episódios 2,3 e 6. Playtest usa convenções dos filmes de casa mal-assombrada, mas imagina as aparições como projeções de realidade virtual, a partir dum chip implantado na cabeça dum jovem edipiano e medroso de aranhas (Freud e Raul Seixas explicam). Tenso e dá sustos. Uma série de “TV” consegue ser melhor do que qualquer filme de terror que vi este ano. Shut Up And Dance tem algo a ver com o brilhante episódio inicial da temporada 1, porque trata de chantagem, mas desenvolve o tema pra atingir uma rede, coagida por ter feito “coisa feia” na rede mundial de computadores. Um episódio que não dá trégua no pessimismo e cinzentice. Hated In The Nation tem duração de longa-metragem e mistura história de detetive com cine catástrofe. Esses 2 subgêneros são magistralmente ligados por um tema ecológico, então o assassino du jur é maciço, numeroso e tecnologicamente criado. Um arraso e o final ainda dá tchauzinho pra Silêncio dos Inocentes (1991).
Ao que tudo indica, uma quarta temporada com mais 6 histórias está garantida. É torcer pro cérebro de Charlie Brooker ainda conter imaginação pra mais visões assustadoras da contemporaneidade.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 243

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Roberto Rillo Bíscaro

Jazz e sons vintage misturam-se ao pop desde os anos 60, quando a explosão dum certo tipo de pop music tornou obsoleta a sonoridade pré-50’s. Talvez isso tenha ocorrido em algum momento da carreira dos Beach Boys ou Beatles, provavelmente com os álbuns Pet Sounds e Revolver.
Nos anos 80, a New Bossa britânica fusionou pop com jazz, samba, ritmos latinos, funk, soul, reggae, ocasionando grupos chiques e deliciosos como Style Council, Everything But The Girl, Working Week, Matt Bianco, Sade (Sade Adu é a vocalista), Swing Out Sister, Kid Creole And The Coconuts e mais. Sting tanto flertou com o jazz, que em 86 lançou o duplo Bring On The Night, repleto de jams e até botando rap na jogada. Mesmo na seara radiofônica mais comercial ouvia-se pop jazzificado de quando em vez, nos sucessos esporádicos do suíço Double (The Captain Of Her Heart) ou do inglês Fine Young Cannibals (Johnny Come Home) ou na onipresença do Simply Red.
Com a crescente eletronização e danceficação do pop, culminando com o verão do amor acid house, de 1989, um subgênero que florescia no underground londrino ganhou relevância: o acid jazz. Grupos como Brand New Heavies, Incognito, Jazzanova, Jamiroquai e até nosso conterrâneo Marcos Valle destacaram-se com sua mistura de jazz, soul e eletrônica. Nas rádios, estouros como o Soul II Soul (que não era acid jazz, mas usava elementos) e Cantaloop (Flip Fantasia), enorme sucesso do inglês Us3, marcaram o período de ouro do subgênero: os anos 90.


Nos 2000’s, o termo acid jazz praticamente se extinguiu e desde a loucura rave, a dance eletrônica tem se fragmentado em tantos sub-subgêneros que fica até difícil manter-se em dia. Grime, electro, UK Garage, drill’n’bass, drum’n’bass, dubstep, nossa, um turbilhão. A decadência do acid jazz não significou que DJs tenham parado de remixar sons vintage com batucada digital.
Eles foram pros anos 40 e começaram a samplear e remixar (n)o farto material das big bands e do swing, aquela forma de dance music dos anos de Grande Guerra. Porque as bisavós urbanas dos EUA e Europa já batiam cabelo e balançavam o bundão! Confira essa playlist e já na primeira faixa visualizará o que afirmei:
Desenvolvido em clubes da Europa continental, o estilo foi batizado de electro swing, porque realmente é distinto do finado acid jazz, que embora misturasse electronica, enfatizava muito a mixagem com o funk. O electro swing é mais pegar diversos estilos de música eletrônica e usar com samples de música antiga, tipo jazz ou até mesmo blues. Em 2010, a Time Out chamava a atenção pro subgênero, que já teve até hit. We No Speak Americano, da dupla australiana Yolanda Be Cool, já foi usada fartamente até no programa do Rodrigo Faro. Olha donde saiu a versão electro swing: Tenho ouvido bastante, especialmente na esteira, 2 coletâneas de electro swing.
 Best Of Electro Swing By Bart&Baker tem 40 faixas e é fatia da farta produção dos DJs franceses Bart e Baker, que mixam sons da década de 20 a 50 e se apresentam de smoking e cartola. Pra quem só conhece We No Speak Americano e nem sabia que era electro swing, essa coletânea é excelente porta de entrada, porque quase tudo são montagens sobre as faixas originais, num processo bastante similar ao que fez o Yolanda Be Cool. Você terá big bands, Fred Astaire, Gene Kelly, as Andrews Sisters, tudo em ritmo mais moderninho e mais dance ainda. Um monte de canções obscuras, porque muito antigas, que podem até te dar vontade de se vestir de melindrosa, fazer cabelo pega rapaz e fingir que está numa festa em Manhattan, pré-Crise de 29.
Confira o site de Bart&Baker pra conhecer a discografia:


Electro Swing Of Berlin requer grau um bocadinho mais avançado de imersão no universo de beats repetitivos da dance music. Dentre as 33 faixas, também há os remixes e releituras mais “simples”, como o Musik For Kitchen, que transforma Smoke On The Water, do Deep Purple, em folk bávaro, mas também há os 8 minutos de Jazz My Ass, que repetem 2 ou 3 acordes dalgum jazz acompanhados com batida house minimalista e um diálogo igualmente repetido.

Não estou familiarizado com eles, mas no Youtube há alguns mixes:

domingo, 6 de novembro de 2016

A SUPERAÇÃO DE ERISMAR

Erismar perdeu a visão aos três anos de idade. Desde cedo teve que aprender a fazer de tudo: quebrar coco para ajudar os pais, buscar água na cacimba, onde uma vez chegou cair dentro e por pouco não aconteceu uma tragédia, conserta rádio, faz ligação no celular, anda de bicicleta, toca teclado e violão, conserta bicicleta. Ele é feliz e transmite otimismo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

PROJETO DE LEI ALBINO NA ARGENTINA

O sofrimento de viver sem cor
A falta de pigmentação produz uma série de problemas na pele, olhos e ouvidos. Um projeto de lei busca proteger as pessoas passam por isso e assegurar-lhes cobertura nos convênios médicos
Nicolás Romero
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)
Protetores solares o ano todo, cremes hidratantes, óculos. Cuidados especiais na casa, escola, trabalho. As pessoas com albinismo (PCAs) possuem uma série de necessidades diárias que nenhuma norma contempla. Por isso, durante a Jornada Nacional sobre Albinismo que aconteceu dia 27 de outubro no Congresso Nacional, se apresentou o projeto –primeiro em nível mundial – para dar-lhes proteção e assegurar-lhes o acesso à saúde. Organizações de todo o país que arregimentam albinos aprovaram a iniciativa, da deputada radical Brenda Austin.
O albinismo é uma alteração genética congênita em que ocorre a ausência de pigmentação (melanina) nos olhos, pele, pelos e ouvido. Pode ocorer em todas essas partes ou apenas em algumas. A falta de pigmentação na pele desprotege as PCAs frente à radiação solar, o que lhes pode acarretar desde queimaduras até câncer de pele. No caso dos olhos, a desproteção lhes ocasiona muitos problemas de visão. No ouvido, produz hipoacusia (redução da capacidade auditiva). Não há estatísticas nacionais, mas estima-se que cerca de uma em cada 17.000 pessoas tenha algum tipo de albinismo.
Antes do evento, Página/12 conversou com María Sosa, de 22 anos, estudante de medicina, que tem albinismo, e com Patricia Avendaño, mãe de gêmeas albinas, de dois anos e meio. Ambas são membros da Albinismo Argentina (ALBI).
María contou que “o projeto tenta resolver os problemas de acesso à saúde, já que os custos são muito altos, e nem o estado, nem os convênios nos cobrem, e também que haja um diagnóstico desde o nascimento, para melhorar a qualidade de vida”. Temos muitos problemas de vista e por isso devemos usar óculos com filtros especiais e ampliadores visuais (lupas eletrônicas que custam caro) para poder ler”.
Sobre o assunto, Patricia esclareceu que “os quatro pares de lentes, duas para cada uma das gêmeas, custaram 36.000 pesos”.
“Além disso, necessitamos de cremes para hidratar constantemente a pele e protetores solares (fator 50 para cima) durante todo o ano”, explicou a estudante. “Cada protetor custa entre 500 e 700 pesos, e embora aumente o uso durante o verão, temos que usá-lo o ano todo. Mas, o uso do protetor é um processo de aprendizagem, porque no caso das crianças há que habituá-los, assim como aos professores nas escolas”. “Para nós, sair significa pegar as chaves e o protetor”, explanou a mãe das gêmeas.
A lei busca garantir “o acesso livre e gratuito aos tratamentos médicos necessários, incluindo psicológicos, clínicos, oftalmologistas, dermatologistas, geneticistas e todos os procedimentos médicos requeridos para uma atenção multidisciplinar e integral do albinismo e das complicações derivadas”.
A lei também contempla “um curso de especialização para os médicos”, explicou María, porque “necessitamos de tratamentos com especialistas y há uma grande quantidade de profissionais não capacitados no assunto”. “Quando nos consultamos é aí que começam a estudar o tema, para depois nos ajudar. Isso não nos adianta muito”, esclareceu.
Patricia também ressaltou dois pontos da lei: a implementação de um protocolo de detecção precoce do albinismo, nos estabelecimentos de saúde e a instrumentalização de mecanismos de estímulo visual desde a infância. Ela explicou que “estimulação visual consiste em uma série de trabalhos com iluminação, formas ou cores, que ajuda a fixar a vista, e quuando se faz desde muito pequeno, permite recuperar visão”. “No princípio, eu mostrava a minhas filhas uma maçã e o desenho de uma maçã, e para elas era a mesma coisa, pois não têm visão tridimensional”, exemplificou.
A lei também prevê um estudo genético nos casos em que haja indícios de albinismo. “Porque os médicos vão pela brancura, pela pele sem pigmentação e diagnosticam como se fossem todos iguais”, diz Patricia, antes de esclarecer que “ela – apontando para uma das gêmeas – vê menos, tem menos tolerância dermatológica e é mais alergia”. Ademais “existe albinismo ocular, sem cabelo branco. Tem gente que foi diagnosticada já adulta, porque era loira. Não é fácil de detectar nesses casos, mesmo que sempre haja sinais”. Ela acrescentou que estudos de terapia génica preveem a possibilidade de curar o albinismo ocular, quer dizer, pigmentar o olho e reduzir a fotofobia.
A normativa também promove a articulação e coordenação com o Ministério da Educação e Esportes para a capacitação de educadores.

A mãe das gêmeas ressaltou que “há pequenas mudanças que podem melhorar muito a estadia das crianças nas escolas, mas para isso os professores têm que conhecer o assunto”. “Essas mudanças vão desde cobrir a carteira, em sua maioria brancas e causadoras de desconforto visual, mudar o aluno de lugar para que não pegue tanta claridade ou colocá-lo perto da lousa para que copie, ou saber que quando sai para o pátio tem que passar protetor”. Ela ainda afirmou que “acima de tudo, a lei vai destruir o mito de que o diferente é ruim. Isso muda a vida de muita gente”.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

TELONA QUENTE 174

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Roberto Rillo Bíscaro

Ao resenhar o eficiente home invasion film Don’t Breathe, brinquei que era um Esqueceram de Mim do mal. Pois não é que no domingo vi produção do mesmo gênero, com Rory Culkin, irmão do astro noventista? Intruders (2016) é conhecido por mais 2 nomes: Shut In ou Deadly House. Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos filmes B. Não é tão legal quanto Don’t Breathe, mas é recomendável.
Anna tem agorafobia - medo de estar em espaços abertos ou no meio de multidão – devido a um trauma e não sai da grande casa há uma década. Seu contato com o mundo exterior é o irmão Conrad, que está morrendo de câncer. Ela também simpatiza muito com o jovem que lhe entrega comida (Rory Culkin); até lhe oferece dinheiro, porque tem um monte guardado na residência. Durante o funeral de Conrad, 3 gatunos invadem a casa pensando estar vazia. Mas, Anna ficara com medo de ir e permaneceu. Eles não contavam com isso, nem com a astúcia da “indefesa” loira, tampouco com as arapucas embutidas na construção.
Boa parte de Intruders é cheia de suspense e complexidade psicológica, porque Anna não tem só agorafobia e pra quem tem dó de gente encurralada, os moços passam a ser as “vítimas”. Disso não padeço; entraram porque quiseram, então que se lasquem! Fui Anna o tempo todo, até porque Beth Riesgraf está ótima e meio Gwyneth Paltrow, Emily Vancamp, Monica Potter, daí não resisto.
Felizmente, jamais descamba pra filme de tortura à Jogos Mortais, mas ele influenciou o roteiro de T.J. Cimfel e David White. O diretor Adam Schindler soube aproveitar o espaço da casa e extrair o melhor do elenco. Tudo vai bem até o final inverossímil, que, se não estraga, pelo menos mostra que roteirista e diretor não souberam lidar com a boa ideia que tiveram.  

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

ARGENTINA ALBINA

El padecimiento de vivir sin color


Nicolás Romero
La falta de pigmentación produce una serie de problemas en la piel, los ojos y los oídos. Un proyecto de ley busca proteger a las personas que lo sufren y asegurar la cobertura de las obras sociales a sus necesidades. 
Protectores solares todo el año, cremas hidratantes, anteojos. Cuidados especiales en la casa, la escuela, el trabajo. Las personas albinas sobrellevan a diario una serie de necesidades que ninguna norma contempla. Por eso, durante la Jornada Nacional del Albinismo que se llevará a cabo hoy en el Congreso nacional se presentará el proyecto –primero a nivel mundial– para dar protección y asegurar su derecho de acceso a la salud. Organizaciones de todo el país que nuclean a albinos consensuaron la iniciativa, que impulsa la diputada radical Brenda Austin.
El albinismo es una alteración genética congénita en la que hay ausencia de pigmentación (melanina) de ojos, piel, pelo y oído. Puede darse en todas ellas o solo en alguna. La falta de pigmentación en la piel desprotege a los albinos frente a las radiaciones solares, lo que puede producirles desde quemaduras hasta cáncer de piel. En el caso de los ojos, la desprotección les ocasiona muchos problemas de visión. En el oído, produce hipoacusia. Si bien no hay estadísticas nacionales, se estima que alrededor de una de cada 17.000 personas tiene algún tipo de albinismo.
Antes de la presentación, Página/12 dialogó con María Sosa, de 22 años, estudiante de medicina que tiene albinismo, y con Patricia Avendaño, mamá de mellizas albinas, de dos años y medio. Ambas son referentes de Albinismo Argentina (ALBI).
María contó que “el proyecto apunta a resolver los problemas de acceso a la salud, ya que los costos son muy altos, y ni el estado ni las obras sociales nos cubren, y a lograr que haya una detección temprana, desde el nacimiento, para mejorar la calidad de vida”. “Tenemos muchos problemas en la vista y por eso debemos usar anteojos con filtros especiales, magnificadores visuales (lupas electrónicas que cuestan alrededor de 18.000 pesos los más básicos) para poder leer”.
En este sentido, Patricia aclaró que “los cuatro pares de lentes, dos para cada una de las mellizas, costaron 36.000 pesos”.
“Además, necesitamos cremas para hidratar constantemente la piel y protectores solares (factor 50 para arriba) durante todo el año”, explicó la estudiante. Y Patricia remarcó que “cada protector sale entre 500 y 700 pesos, y si bien aumenta el uso durante el verano, tenemos que usarlos todo el año. Pero además, el uso de las cremas es un proceso de aprendizaje, porque en el caso de los niños hay que acostumbrarlos a ellos y a los maestros en los colegios”. “Para nosotros salir es agarrar las llaves y el protector”, graficó la madre de las mellizas.
En su texto, la ley busca garantizar “el acceso libre y gratuito a los tratamientos médicos necesarios, incluyendo los psicológicos, clínicos, oftalmológicos, dermatológicos, (...) genéticos y todas las prácticas médicas requeridas para una atención multidisciplinaria e integral del albinismo y de sus afecciones derivadas”.
También la ley contempla “un curso de especialización para los médicos”, explicó María, porque “necesitamos seguimientos con especialistas y hay gran cantidad de profesionales que no están capacitados en el tema”. “Cuando unos los consulta empiezan a estudiarlo a uno, para después ayudarte. Y eso no nos sirve mucho”, aclaró.
Por otra parte, Patricia resaltó dos puntos de la ley: la implementación en los establecimientos de salud de un protocolo de detección temprana del albinismo, y la instrumentación de mecanismos de estimulación visual desde la infancia. Y explicó que “la estimulación visual son una serie de trabajos con iluminación, formas o colores que ayudan a fijar la vista, y cuando se lo hace desde muy chicos permite recuperar visión”. “Al principio, yo les ponía a mis hijas una manzana y un dibujo de la manzana, y para ellas era los mismo. Porque no tienen visión tridimensional”, ejemplificó.
La ley también habla de un estudio genético, en aquellos casos en que se tenga indicios de albinismo. “Porque los médicos ven pelo blanco, la piel sin pigmentación y diagnostican como si fueran iguales”, dijo Patricia, pero aclaró que “ella –señalando a una de sus mellizas– ve menos, tiene menos tolerancia dermatológica y más alergia”. Además “está el albinismo ocular, sin pelo blanco. Hay gente que fue diagnosticada de adulta porque era rubia, no es fácil de detectar en esos casos, aunque siempre hay signos”. También remarcó que en el mundo los estudios de terapia génica están contemplando la posibilidad de curar el albinismo ocular, es decir, poner pigmento en el ojo y reducir la fotofobia.
La norma también promueve la articulación y coordinación con el Ministerio de Educación y Deportes para la capacitación de educadores.
La mamá de las mellizas resaltó que “hay pequeños cambios que pueden mejorar mucho la estadía de los chicos en los colegios, pero para eso los maestros tienen que saber”. “Esos cambios van desde cubrir el banco que en su mayoría son blancos y producen molestias, a cambiarlo de lugar para que no tenga tanta claridad o acercarlo al pizarrón para que copie, o saber que cuando sale al patio tiene que tener protector”, explicó y agregó que “por sobre todo, la ley va a desterrar el mito de que lo distinto es malo. Le cambia la vida a mucha gente”. Hoy, las organizaciones convocan a acompañar el proyecto de ley a través del hashtag #TodosxlaLeydeAlbinismo.

CONTANDO A VIDA 170

QUE PAÍS É ESTE?! 

José Carlos Sebe Bom Meihy

Confesso que fiquei surpreso quando descobri que a origem da inquietante frase “que país é este?!” não tem origem na indignação cantada pelo saudoso Renato Russo. Mais frustrante ainda foi saber que decorreu de Francelino Pereira, quando presidente da ARENA - ensaio de partido político que defendia o lado mais conservador da ditadura militar. A desabonar ainda mais essa origem prosaica, soube-se que a tal expressão foi pronunciada de maneira bem rasteira, como um desabafo, quando o político esperava um elevador que não chegava, na Câmara Municipal de São Paulo. Por uma ou por outra via, porém, o sentido de preterição permanece e continua a se justificar em dimensões diversas. Pensando nessas significações eu mesmo me perguntei, mas na realidade “que país é este?!”
A fim de ser mais exato, resolvi elaborar uma reflexão sobre situações em que caberiam aquela pergunta sempre tão aflitiva. Foi quando, então, resolvi pelo filtro da fome/obesidade. A melhor fonte para tal averiguação remetia ao Relatório da ONU, datado de 2015. Comecei bem, quando aprendi que a “redução mais significativa da fome no Brasil aconteceu em 2012, nesse ano, o País alcançou duas metas da entidade internacional: cortar pela metade o número de pessoas passando fome e reduzir esse número para menos de 5% da população”. O entusiasmo inicial, contudo, logo foi embaçado por outros dados constatados frente os comentários complementares que diziam que os “subalimentados são 3,4 milhões no Brasil, pouco menos de 10% da quantidade total da América Latina, 34,3 milhões”. Então ouvi a voz do bardo Renato Russo se insinuando: “que país é este?!”
Tudo se complicou quando notei pelas recentes pesquisas do IBGE que “mais da metade da população brasileira está acima do peso (56,9 %)”. Os dados mostraram ainda que a obesidade acomete um em cada cinco brasileiros de 18 anos ou mais em 2013 (20,8%), sendo que o percentual é mais alto entre as mulheres (24,4% contra 16,8% dos homens). Em dez anos, a obesidade entre mulheres de 20 anos ou mais passou de 14,0% em 2003, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), para 25,2% em 2013, de acordo com a PNS. Entre os homens, o crescimento foi menor, de 9,3% para 17,5% e o acúmulo de gordura abdominal também, mostrando-se mais frequente no sexo feminino, atingindo 52,1% das mulheres e 21,8% dos homens. O oposto ocorre em relação à pressão arterial, cuja elevação foi mais comum entre os homens (25,3%) que entre as mulheres (19,5%), atingindo 22,3% da população no momento da entrevista, então, outra vez me perguntei: “que país é este”?!
Fiquei curioso quando contrastei os números e li as reflexões. De um lado, temos um índice de pobreza e fome assustador. De outro, figuramos como campeões da obesidade latino-americana. Sabem o que aprendi frente a tudo isso? Que agora, mais do que nunca, vale o questionamento: “que país é este?!”

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A COISA TÁ FEIA!

Especialista da ONU pede acção imediata


A especialista independente em direitos humanos, Ikponwosa Ero, pediu aos países representados na Assembleia-Geral das Nações Unidas que tomem medidas rápidas para acabar com o crescente e grave problema da violência e discriminação contra pessoas com albinismo.

Ikponwosa Ero, que foi indicada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para relatar a problemática do albinismo no Mundo, identifica, no seu relatório, de acordo com a Rádio das Nações Unidas, as causas dos ataques e da discriminação às pessoas com albinismo e indica as medidas legais concretas que devem ser tomadas para melhorar a situação.

A relatora da ONU aponta como causas dos ataques as percepções erróneas sobre a condição do albinismo, enraizadas na cultura de vários países. Entre estas, segundo o relatório, sobressai o mito de que as pessoas com albinismo “são fantasmas, que não morrem, mas desaparecem”. Isto, no entendimento de Ikponwosa Ero, contribui para minimizar o impacto social dos ataques e serve para justificar supostos desaparecimentos.
Um dos impactos mais preocupantes de tais crenças é que comunidades, famílias e, às vezes, até as mães, abandonam as crianças com albinismo.
A relatora referiu ainda que em muitas regiões acredita-se, por exemplo, que “beber o sangue de pessoas com albinismo traz poderes mágicos ou pode aumentar a vitalidade ou a capacidade intelectual, que os ossos de pessoas com albinismo podem ajudar a descobrir ouro em minas, ou que as suas mãos, queimadas até virarem cinzas e misturadas numa pasta, podem curar derrames cerebrais”.



Mercado negro



Práticas como as mencionadas, segundo a especialista em direitos humanos, provocaram o surgimento e aumento de um mercado negro que valoriza os membros dos corpos das pessoas albinas. Assim, o potencial de ganhar dinheiro constitui um grande incentivo para os ataques. 
Para Ikponwosa Ero, além dos “mitos, da prática de feitiçaria e da pobreza, há outros factores agravantes, incluindo a visibilidade das pessoas com albinismo, especialmente nas regiões onde elas se destacam devido à sua pigmentação” e os filmes e livros que caracterizam preconceituosamente as pessoas albinas e “perpectuam equívocos”. 
E há ainda a questão da “impunidade e da resposta judicial fraca aos ataques”.
A especialista encoraja o fomento de campanhas contínuas, de longo prazo, de consciencialização das sociedades e de apoio às mães de crianças com albinismo. Segundo a relatora, é igualmente preciso prestar atenção às práticas de feitiçaria, tidas como uma das principais causas da violência contra albinos.
Ikponwosa Ero, de nacionalidade nigeriana, é a primeira especialista independente nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para monitorizar, relatar e aconselhar sobre a situação das pessoas com albinismo em todo o Mundo.
Os especialistas independentes trabalham de forma voluntária, não são funcionários da ONUou de qualquer Governo e organização e servem a comunidade internacional na plenitude da sua capacidade individual, sem receberem salário.

TELINHA QUENTE 236

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Sharkathon!

Roberto Rillo Bíscaro

O impacto trashcult de Sharknado (2013) foi tão inesperado e profundo que a cada nova sequência, o SyFy promove uma Semana Sharknado. Em julho saiu o quarto voo dos tubarões e antecedendo sua decolagem, 44 filmes tematizando toda espécie de absurdo monstruoso aquático foram mostrados repetidas vezes.
Vi os 2 primeiros Sharknado, mas começo a me animar pro 3 e o 4, até porque um deles se passa em Washington, daí não custa sonhar com tempestade de tubarões na nossa capital federal. Pensou que limpeza e ainda por cima alimentando os animaizinhos?
Anyway, deu comichão e fiz tubatona. O critério pra maratona foi só filmes de tubarão produzidos este ano, exceto Sharknado. Selecionei 4 e ficou produção de fora. Esse sub-subgênero continua deveras ativo. Existe até blog dedicado a produções sobre o infelizmente demonizado peixão.
Mas, vamos à tubatona, que na verdade, ocorreu em 2 dias.

Atomic Shark parte de triste premissa real pra criar um desses absurdos Z, cuja computação gráfica só não é pior que as atuações. Durante os extensivos testes nucleares no Pacífico Sul incalculável número de espécies marinhas foram dizimadas/anomalizadas em nome da nossa proteção; há até documentário chamado Nuclear Sharks ou algo assim. Corte pra costa da californiana San Diego. Um tubarão radioativo vermelho e superaquecido – a água a sua volta ferve e suas vítimas pegam fogo – começa a fazer estragos e é potencialmente uma bomba atômica de um megaton. Podia ter mais comilança tubarônica, mas quem curte tônica de comédia pode gostar do roteiro que, sabendo não poder se levar a sério, inseriu momentos deliberadamente cômicos. Como não sou tão fã de engraçadices, não colocaria Atomic Shark entre meus favoritos, mais porque faltam mortes e não tanto pelas gags. Os mais antigos prestem atenção pra David Faustino, o Bud Bundy, de Married With Children, que chegou ao ponto de coadjuvar em filme Z.

Dam Sharks não parte de real; é absurdo mesmo. Como tem mais morte e o humor provém do sem sentido da ideia, achei bem mais legal. Tubarões invadem rios, dizimam os castores e começam a construir represa com partes de corpos humanos pra encurralarem suas refeições. Tudo isso é constatado por uma policial florestal que aprendeu o que sabe sobre tutubas vendo Sharknado Weeks (esse tipo de humor me faz rir). Pra ter ataques suficientes, o roteiro coloca um grupo de executivos num desses fim de semanas motivacionais ou sei lá que exploração do mundo corporativo. Daí, tem um monte de coisa divertida, tipo gente com dinamite guardada na caminhonete (quem não tem pruma emergência, né?) e menina urbana perita em salvamento e explosões. E o jovem nerd que sonha com a loira gostosna é devorado também; final feliz pra quê? Queremos mortes pra ver tomando cerveja e comendo salgadinho porcaria-nutritivo!

Ice Sharks se passa no Ártico, onde uma equipe de cientistas jovens e bonitos vive isolada numa base construída aparentemente sobre fina camada de gelo a julgar pela facilidade com que os tubas a afundam no meio do filme. Eles pesquisam os efeitos do aquecimento global sobre a fauna e começam a ser comidos por uma espécie de tubarão que só agora descobrem, porque com o degelo das calotas, migra um pouco mais pro sul. Eles se comportam gregariamente como orcas, mas como era a Sharknado Week, viraram tubarões que se comportam como baleias. Deu pra entender? Bem, quem se importa? O que interessa é que é meio chato, tá mais pra filme de sobrevivência “sério” do que pra ataque tubarônico, uma vez que há quase nenhuma morte divertida. Em grupo de amigos pode ser legal pra apontar absurdos, tipo o laboratório despencar pras profundas do oceano Ártico, mas as coisas permanecerem em ordem nas estantes ou as pessoas nadarem em partes inundadas do laboratório sem se queixarem de hipotermia; basta se enrolar numa toalha que usamos até em países tropicais. Sand Sharks é bem mais legal.
Planet Of The Sharks é algo como Jaws (1975) encontra Waterworld (1995). No futuro, o aquecimento global terá coberto o planeta de água salgada, mas com o contínuo aumento da temperatura os peixes estão morrendo, por isso os tubarões, que caçavam no fundo, vem à superfície – têm até um líder! – papar os humanos que sobraram, uma vez que vivem em precárias “cidades” flutuantes (as construções são risíveis). Além disso, há uma cientista numa base de pesquisa que está a construir foguete com bomba pra reverter o acúmulo de gás carbônico. Essas 2 tramas se interligam e os tubarões complicam bastante o salvamento do planeta. É muito comum em filmes trash que a leitura da sinopse divirta mais que o filme; aqui quase ocorre isso, porque há um blá blá blá longo sobre teorias “científicas” que justificam as ações. Imagino que especialistas devem se torcer de rir, mas leigos apenas supõem que seja absurdo e logo enjoamos. Algumas cenas são desnecessariamente longas, ou melhor, necessárias pra encher linguiça. Algumas mortes são legais e dá pra se divertir um pouco imaginando de onde vem cigarros, bebida, combustível e tudo o mais em um mundo pós-apocalipse ambiental.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 242

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Roberto Rillo Bíscaro

Depois do choque punk de 1977, um subgênero lúgubre se desenvolveu no hemisfério norte, mormente no Reino Unido. Influenciadas por Velvet Underground, Nico, Doors, glam rock e Sex Pistols, bandas como Bauhaus, Cure, Siouxsie And The Banshees, Joy Division pesaram em letras, sonoridade e maquiagem sombrias. Logo a imprensa começou a falar em gothic rock. Embora nenhum desses grupos aceite a pecha, todos apresentavam algum(ns) elemento(s) básico(s) do estilo, como baixo grosso, teclados e guitarras gélidas e sobrepostas, letras dignas de desespero Romântico, vestimentas e maquiagem pretas/cadavéricas.
No começo dos 80’s, a meca gótica era o clube londrino Batcave e a cena contava com bandas tipo Southern Death Cult (mais tarde, o hard rock The Cult), Sex Gang Children, Alien Sex Fiend, Cocteau Twins (fase inicial), Fields Of The Nephilim e no continente nomes importantes como o holandês Clan Of Xymox e o alemão Xmal Deutschland. 


Um dos góticos mais bem-sucedidos comercialmente foi o The Sisters Of Mercy, que sob o despotismo de Andrew Eldritch, estreou numa grande gravadora em 1985, com o LP First and Last And Always, que chegou a ser lançado no Brasil e comprei. Descrito numa revista de rock brasuca da época como “discoteca para vampiros”, o grupo já estava rachado quando das gravações do álbum, em 84. Meses após o lançamento, o baixista Craig Adams e o guitarrista/vocalista de apoio Wayne Hussey deixaram a banda para formar o The Sisterhood, cujo nome pegava carona na fama do Sisters. Eldritch levou a questão aos tribunais e Adams/Hussey foram proibidos de gravar sob aquele nome. Mesmo sem gravar desde 1990, o Sisters Of Mercy segue fazendo shows; este ano até tocou em Sampa.


Hussey e Adams escolheram a alcunha The Mission, convidaram Mick Brown (bateria) e Simon Hinkler (guitarra), clarearam o gótico e em novembro de 1986 estrearam com o álbum God’s Own Medicine, que no Brasil gerou o delicioso hit Severina. Nunca sucesso de massa ou apreciado pela crítica, o The Mission passou a segunda metade dos 80’s e o começo dos 90’s indo decentemente bem nas paradas e turnês com sua bombástica superprodução típica da época. Mal entrará para a história, porque nunca foi mais do que mediano, mas entreteve. Britpop, grunge, desavenças internas, envelhecimento, hiatos tornaram o The Mission perceptível apenas para sua base de fãs, contumazes oitentistas ou para quem segue imprensa musical mais específica, mas os álbuns de vez em quando aconteciam.


Comemorando o trigésimo aniversário, os britânicos lançaram seu décimo LP dia 30 de setembro. Another Fall From Grace soa em sua maior parte como se gravado em 1986, pouco depois de Hussey e Craig terem deixado o Sisters Of Mercy. Com Mike Kelly na bateria, o quarteto fez seu melhor álbum em décadas. Dispensando o excesso melodramático (hoje soa meio brega), a banda voltou com peso sem exagero e tem hora que lembra até U2.
Another Fall From Grace começa com a faixa-título que já abre o empoeirado (não no mau sentido, os góticos devem adorar uma velharia de sótão) baú de tiques góticos: baladona arrastada com bateria pesada à Doktor Avalanche, mas não mais eletrônica; baixo lúgubre e grosso à Joy Division; violão de 12 cordas dedilhado. A voz de Wayne engrossou e quem o ouviu pela última vez em Severina ou Tower Of Strenght estranhará um pouco, mas são 30 anos e muito álcool e droga nas cordas vocais. O The Mission adorava divulgar quanto gastara com drogas nas turnês. Talk about maturity. Mas, ele ainda consegue cantar legal e quando precisa vai do sussurro ao berro. Em vários momentos, lembra Bono Vox. 
A energética Met-Amor-Phosis diz que há uma nova estrela negra brilhando nos céus, alusão ao álbum derradeiro de David Bowie, cujo vocal grave foi amplamente apropriado por gerações de góticos vocalistas. Será que o único desvio da cartilha gótica comercial, Phantom Pain, também deve ao último álbum do Camaleão? Sua eletrônica em borbulhas e seu sax de free jazz dissonante lembram alguns climas de Darkstar, mas fazem o The Mission soar meio King Crimson gótico. Louvável e aventureira para uma banda tão idosa e com decrescente base de fãs, não necessariamente interessados em mudança no rumo de seu grupo favorito, quando todos já se aproximam ou passaram bem dos 50. Interessante, mas se o álbum todo fosse nessa toada seria meio tedioso. Não se assustem, porém. O resto de Another Fall From Grace é como um coturno velho, confortável de usar, mas não detonado, porque a produção evitou soar datada. É quase até como se uma banda mais jovem gravasse influenciada pelo Sisters/Mission biênio 85-6.
As letras mantêm os fantasmas, noites escuras e tempo climática e emocionalmente cinzentos. Within The Deepest Darkness (Fearful) é Na Mais Profunda Escuridão (Amedrontado). Não precisaria explicar mais, mas compensa ouvir a lúgubre balada que tem sussurros e gritos abafados de Martin Gore (Depeche Mode) e do synthpopper Gary Numan no fundo. Só mesmo a pose gótica do The Mission para transformar uma viagem pelas estradas californianas em depressão à Poe, como em Can’t See the Ocean for The Rain.
Para se juntar à galeria das mulheres idealizadas do Romantismo pós-tardio dos góticos, que além da mais popenta Severina, nos deixou Charlottes (The Cure), Marions (Sisters of Mercy) e Rebeccas (Big Eectric Cat), o Mission nos apresenta Jade, que com sua colcha de teclados, baixo e guitarras dedilhados, jamais dorme só, mas também não pode existir. E se estamos numa cruza de Sisters com Mission safra 85-6, vocalizações à Severina não poderiam ficar de fora, cortesia de Julianne Regan (da meio neo prog, meio gótica e meio sem graça All About Eve) e estão na intensa balada Never’s Longer Than Forever. A fixação pelo orientalismo zeppeliniano, culpa de muitos dos micos pagos sonicamente no auge da banda, reaparece no teclado de Bullets and Bayonets, felizmente em tom mais discreto. A letra é sobre regicídio, revolução, quer mais Lord Byron?
Em meio a tantas power ballads e mid-tempos, o único rock acelerado é Tyrany Of Secrets, certamente um dos pontos altos dos shows daqui para frente e melhor faixa de Another Fall From Grace. Wayne ainda tem gogó pra urrar nesse cruzamento perfeito de First And Last And Always e God’s Own Medicine. Vontade de me vestir inteirinho de preto, com chapéu, óculos-escuros e ir dançar voltado pruma parede num porão gótico enfumaçado no inverno do norte inglês.