segunda-feira, 18 de junho de 2018

CAIXA DE MÚSICA 319

Roberto Rillo Bíscaro

Quando Basia Trzetrzelewska (com esse sobrenome, entende-se, porque é conhecida apenas pelo nome de batismo) voltou em 2009, com It’s That Girl Again, o ambiente era tão outro de seu auge de sucesso na segunda década dos 80s/primeira década dos 90’s, que passou batido pra mim a ponto de detectá-lo apenas em 2010, quando o resenhei desculpando-me.
Nunca no nível de uma Sade Adu, Tracey Thorn ou Corrine Drewery, os álbuns da polonesa sempre pecaram nas baladas, que tendem a ser faceless. Mas, a produção polida e a brejeirice das canções mais espevitadas movidas a samba e latinices garantiu-lhe vendas espantosas no mercado adult contemporary, na geração passada.
Basia hibernou anos e agora grava pelo selo Shanachie Records, casa de divas soul/R’n’B familiares aos leitores do blog: Angie Stone, Avery Sunshine e Syleena Johnson. Desta feita, fui rápido, eficiente e eficaz e soube de Butterflies, no dia de seu lançamento, 18 de maio.
O suingue big band de Be Pop sapecamente embala declaração de seus princípios estéticos: seja que moda for, seja o que for que gravadoras priorizarem, Basia sempre será rumba, jazz, samba, salsa e afins. As onze faixas atêm-se a essa declaração de independência, mas ouvidos atentos notarão a diminuição da tecladaria datada da geração passada.
Essa escolha conferiu mais organicidade e melhorou as canções mais lentas, um pouco mais personalizadas. Butterflies tem piano jazzy; Where’s Your Pride possui clima meio balada 50’s; Liang & Zhu clima de standard estadunidense, com discreto ar oriental. Título e letra referem-se ao trágico casal lendário chinês, conhecido como Butterfly Lovers.
Fãs do Matt Bianco adorarão a lentidão caribenha de Show Time. Butterflies prossegue a perene parceria entre Basia e Danny White e nessa faixa eles convidaram o vocalista do Matt, Mark Fisher, pruma canja.
Bubble, a faixa de abertura, é jazz com guitarra bluesy e o amor de Basia/Danny por sambinhas não morre: Matteo, No Heartache e Pandora’s Box são todas releituras de nosso ritmo nacional, que alguns críticos estranjas chamam Brazilian Jazz. Pandora’s tem forte odor a Sérgio Mendes e seu Brasil 66.
Com voz que resistiu galhardamente ao tempo, Basia conseguiu melhorar sua fórmula em Butterflies.

sábado, 16 de junho de 2018

ALBINO GOURMET 261

sexta-feira, 15 de junho de 2018

PROMESSA MOÇAMBICANA

Governo reitera apoio social aos albinos

O Governo reiterou o compromisso de fortalecer medidas de combate aos raptos, assassinatos e tráfico de órgãos ou pessoas com albinismo, por meio de um plano de acção multissectorial que inclui o agravamento das penas aos praticantes deste tipo de crimes.

A informação foi avançada por Carlota Joaquim, inspectora do Ministério do Género, Criança e Acção Social, no âmbito da celebração do Dia Internacional da Consciencialização sobre o Albinismo assinalado quarta-feira, sob o lema “Brilhando a nossa luz ao mundo”.

Segundo a fonte, está ainda previsto o estabelecimento de mecanismos de coordenação regional, tendo em conta o carácter transfronteiriço e o “modus operandi” dos grupos que cometem atrocidades contra os albinos.

Carlota Joaquim apontou que, para mitigar os problemas enfrentados por albinos, sobretudo os ligados à saúde e inclusão social, o Governo, através da Acção Social, Educação, Justiça e Saúde, tem programas de assistência social que garantem o seu acesso aos serviços e cuidados especiais e adequados.


Exortou a sociedade, especialmente as famílias, a não discriminarem os albinos, “pois estes são iguais aos demais perante a lei”.

Por sua vez, Margarida Carneiro, da associação Kanimambo, indicou que o passo a seguir será garantir consultas e tratamento dermatológico a mais de 100 pessoas albinas nas cidades de Maputo e Nampula, uma campanha a acontecer em Setembro.

Já William Tomás, presidente da Associação dos Albinos de Moçambique (ALBIMOZ), apontou a falta de recursos financeiros como um dos desafios enfrentados na missão de ajudar os albinos, sobretudo os que vivem nas zonas mais recônditas.

“O nosso foco são as províncias, uma vez que nestes pontos há falta de serviços prioritários para os albinos, como por exemplo os de dermatologia, diferentemente da cidade de Maputo, mas para chegar lá precisamos de dinheiro, que nos é escasso”, disse Tomás.
Fonte: https://noticias.mmo.co.mz/2018/06/governo-reitera-apoio-social-aos-albinos.html#ixzz5IVosSk65

quinta-feira, 14 de junho de 2018

UMA ATRIZ ALBINA

No dia de conscientização do albinismo, atriz fala sobre falta de representatividade: 'Fica difícil se reconhecer'

Segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 18 mil pessoas têm algum tipo de albinismo no mundo. Data tem o objetivo de divulgar informação sobre a condição e evitar discriminação.
Quando criança, Heloísa Chirelli se olhava no espelho e não se reconhecia. A pele branca e sem melanina era diferente da pele dos pais. A condição, até então desconhecida por ela, fez com que surgissem dificuldades em se relacionar e começar novas amizades na escola.

As barreiras de aceitação, que permaneceram até a adolescência, precisaram ser superadas por meio de informação. Para a então criança de Sorocaba (SP), que se tornou atriz, a falta de representatividade é um dos piores problemas para quem tem albinismo.

O Dia Mundial de Conscientização do Albinismo é celebrado nesta quarta-feira (13). A data, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), busca divulgar informações sobre o albinismo para evitar a discriminação e celebrar conquistas. No mundo, cerca de 20 mil pessoas tem algum tipo de albinismo.

Ainda segundo a ONU, em algumas partes do mundo, pessoas albinas são caçadas e mutiladas. A África é o continente em que mais existem albinos, sendo que em alguns países a média é de uma pessoa albina a cada 1,4 mil.


Em entrevista ao G1, Heloísa Chirelli, de 24 anos, contou que tinha dificuldades em se conectar com outras pessoas até iniciar a carreira no teatro, aos 13 anos.

Para ela, são os albinos que "sentem na pele" a falta de informação e discussão, até mesmo dentro de famílias em que algum membro tem a anomalia.

“O olhar das pessoas é muito confuso, pois há quem ache que é doença. Eu, por exemplo, só fui descobrir que tenho uma disfunção ocular - por conta do albinismo - porque fiz acompanhamento com oftalmologista”, relata.

De acordo com o médico oftalmologista João Soranz Filho, os albinos precisam de diversos cuidados que vão muito além da pele. “Como o albino não tem pigmentação no corpo – a famosa melanina -, dentro dos olhos eles não têm uma camada de células que refletem algumas cores e imagens. Infelizmente, ainda não há tratamento para isso”, afirma.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem aproximadamente cinco tipos de albinismo, tido como uma condição congêtica, em que diversos genes podem estar envolvidos nas causas.

As principais características - as cores da pele, dos olhos e dos cabelos - são causadas pela falta de melanina.



Representatividade

Mas não é necessário ir muito longe para se deparar com a tão falada “falta de representatividade”. Heloísa afirma que “perdeu oportunidades de emprego” em áreas que tinha contato direto com o público. "Não é apenas cuidado com o sol e com a pele, é muito mais do que isso”, diz.


Para a socióloga e antropóloga Josefina de Fatima Tranquilin, a representatividade ajuda a construir cidadania fora do padrão e busca representar todos os sujeitos das classes sociais, raças ou gêneros e por meio das representatividades, os sujeitos se reconhecem tal como o são.

"Quando uma criança albina não se vê representada nos produtos que ela consome, como os desenhos, as séries infantis e brinquedos, ela não se reconhece como fazendo parte do mundo, se vê diferente e "anormal". Por isso, as representatividades para as crianças são ainda mais importantes", diz Fina.


'Foi uma surpresa'

Heloísa nasceu em Capivari (SP) e afirma que acredita que ser albina foi uma surpresa aos seus pais e toda a família. Ao G1, a atriz contou que é a única albina na família, por isso os parentes precisaram buscar informações para ela.

“Imagina a dificuldade: há 20 anos não havia internet, morávamos em uma cidade pequena e não havia médicos especialistas em albinismo. Minha família é simples, então tudo que precisaram aprender para me passar foi na raça”, diz.

Em uma rede social, Heloísa encontrou em um grupo chamado “Albinos do meu Brasil e do mundo”, em que troca informações e experiências entre albinos. Segundo ela, até pais de bebês albinos entram para o bate-papo.

TELONA QUENTE 240

Roberto Rillo Bíscaro

Claro que ela lucra, mas que bom que Angelina Jolie continue produzindo filmes de países menos centrais, como o etíope Difret, e incentivando projetos que abordem temas como empoderamento e opressão femininas.
A Netflix incorporou a animação A Ganha-Pão (2017) a seu catálogo, coprodução Irlanda/Canadá/Luxemburgo, da qual a ex-Sra. Pitt é uma das produtoras-executivas. The Breadwinner é totalmente girrrrrl power: baseado num best-seller de Deborah Ellis; roteirizado pela própria e Anita Doron e dirigido por Nora Twomey.
Desta feita, a norte-americana Jolie financiou denúncia contra a torpeza machista Talibã, que seu país de origem ajudou a criar, quando injetou grana nos fundamentalistas que lutavam contra a invasão soviética no Afeganistão em 1978. Capitalistas, comunistas, cristãos, muçulmanos, os próprios afegãos; todo mundo ajudou a destroçar o pobre país asiático.
Exaurido pela guerra e oprimido pelo Talibã, cada um se vira como pode na capital Cabul. Mas, se você for mulher é praticamente impossível sobreviver, se não tiver homem pra chamar de seu. Além de não poderem estudar ou expor o rosto em público, elas sequer podem sair de casa desacompanhadas. Nem pra comprar remédio. Nem pra adquirir comida. Nem que não tenham marido ou filho, porque morreram na guerra. Ilógico; mas quem disse que torpeza tem lógica? Pra se certificar de que a “decência” seja mantida, prepotentes jovens talibãs circulam de metralhadora em punho, abusando autoridade pros que são menos que eles.
A menina Parvana vive nesse inferno com seu pai, mãe e irmãos. Seu pai era professor e perdera perna no conflito contra os soviéticos, por isso se viu na condição de vender sobras do que possuía em casa, nas ruas. Discordante do fundamentalismo Taliban, ensinou a filha a ler e a valorizar o poder de contar histórias. Essa dissidência atrai ódio de ex-aluno Talibã, que o denuncia. Quando o pai é preso, Parvana se vê impedida até de conseguir comida, então, faz o que tem a seu alcance: corta os cabelos e se disfarça de menino pra ganhar a vida e tentar libertar seu pai.
A Ganha-Pão funciona em vários níveis, porque paralela à história “mundana” de Parvana, há um mito por ela contado aos poucos, à Mil e Uma Noites. No final explosivo, mas modesto – Parvana não tem poder para mudar o sistema, como mentem produções ianques – as duas histórias se unem e complementam.
A animação é deslumbrante; luxuosa em detalhes, que vão do colorido das roupas em Cabul, à paisagem desoladora, mas fascinante, dum cemitério de tanques de guerra e campos minados. Tudo embalado pela excitante trilha-sonora de Mychael e Jeff Danna, que mistura sons “árabes”, com alguma coisa mais ocidentalizada num resultado que dá vontade de adquirir a banda sonora por si só.
Por mais inspiradora que seja a história de resiliência e superação de Parvana, não se deve perder de vista que se trata duma história mais aterrorizante e triste do que qualquer filme de horror poderia imaginar.
A Ganha-Pão é sobre infâncias roubadas, brutalizadas, onde crianças têm que tomar cuidado com “brinquedos” encontrados na rua, porque podem ser bombas letais. Quando se escuta o espectro do irmão de Parvana dizendo isso em tom de verso mítico, difícil não vir um nó à garganta. Depois, quando uma criança assim vira Talibã, pergunta-se por quê.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

OS DESAFIOS DE MARCELO

Bullying, preconceito e olhares atentos: os desafios diários de um albino

Marcelo Grein, curitibano de 33 anos, compartilha com o Viver Bem como é sua vida com albinismo, suas rotinas e desafios
A brancura da pele, o loiro claro dos cabelos e os olhos acinzentados destacam Marcelo Grein da multidão. Albino, o jovem de 33 anos diz que nem sempre se sentiu confortável na própria pele, principalmente pelos olhares incômodos de quem percebe que nele há quase nenhuma melanina – proteína que forma a pigmentação da pele.

Morador de Curitiba, Marcelo diz que o preconceito era sentido mais na infância, quando sofria bullying dos colegas de escola. Agora, mais velho, aprendeu que as pessoas sempre vão olhar uma segunda vez mas, àqueles que perguntam sobre o albinismo, ele não se importa de compartilhar a história de sua vida.

“Que eu saiba, fui o primeiro da minha família a ser albino. Minha mãe sempre me levou aos médicos na infância, para cuidar da minha visão e da minha pele. Eu não abri os olhos até o primeiro ano de vida. Hoje enxergo pouco, mas enxergo. Eu uso óculos, sempre usei. As lentes dos óculos escurecem toda vez que estou em um ambiente muito claro”, explica Marcelo, que trabalha com carga e descarga de caminhões na capital paranaense.

Embora as pernas continuem brancas, mesmo se ficar exposta ao sol, o mesmo não pode ser dito das costas e pescoço de Marcelo. “Sinceramente, eu passo poucas vezes o protetor solar, por isso minha pele é um pouco afetada. Nos braços e costas, se eu tomar sol, enche de pintinha, então tenho que cuidar.”

Os sinais do albinismo variam entre as pessoas, conforme explica Camila Scharf, médica dermatologista, devido aos diferentes tipos da condição, que variam conforme o grau da mutação. O albinismo é considerado uma alteração genética que leva ao prejuízo na produção da melanina – e como a substância está presente na pele, olhos e cabelos, essas estruturas podem sofrer alterações entre os albinos.

“Algumas mutações fazem com que os albinos não consigam produzir nada de melanina e, em outros, a produção é diminuída. Portanto a pele pode variar desde o branco branco até tons um pouco mais escuros. Os olhos desde aqueles avermelhados (totalmente sem a melanina) ou azuis até castanhos. Os cabelos também, desde brancos até avermelhados ou acastanhados”, reforça a médica.

Sol: inimigo dos albinos
Por servir de proteção à pele, a melanina é fundamental no combate à radiação ultravioleta do sol. Na sua ausência, os raios solares conseguem penetrar na pele muito mais facilmente, elevando o risco de câncer de pele – uma das principais preocupações dos albinos.

Além do protetor solar, portanto, é essencial que o albino se proteja com roupas com proteção ultravioleta, chapéu, boné, óculos, entre outros.

A condição não tem cura, pois se trata de uma alteração genética, mas há estudos dispostos a desenvolver medicamentos capazes de aumentar a produção da melanina – de forma a garantir uma proteção maior da pele. As ideias, porém, ainda estão em fases iniciais de estudos.

“O que se dá para fazer é tentar prevenir desde o início da vida do paciente. Proteger do sol não apenas vai prevenir que a pele envelheça mais rápido, porque ela é muito mais sensível, mas também vai garantir que a pessoa chegue a uma idade adulta sem tantos danos”, explica a médica dermatologista.

Olhos sem melanina exigem óculos sempre


Os cuidados com a visão são tão importantes quanto com a pele entre os albinos. Isso porque a íris dos olhos também é composta de melanina, substância que dá a cor a eles e que, por uma alteração genética, tem a produção prejudicada. Isso gera, conforme explica Elizabeth Guimarães, médica oftalmologista e chefe de setor de lentes de contato do hospital Santa Casa de São Paulo, fotofobias entre os pacientes:

“O que eles mais reclamam é de fotofobia, porque a íris tem pouca pigmentação, é praticamente transparente, e não consegue filtrar adequadamente a luz que chega ao olho”, reforça a médica.

Outras alterações causadas pela desordem genética são as frequentes ametropias, como miopias, hipermetropias e astigmatismos – e que melhoram muito pouco com o uso de óculos e lentes de contato, segundo Guimarães.

“Eles também têm alteração de posição anômala do nervo óptico e eu diria que cerca de 98% deles têm hipoplasia macular, um subdesenvolvimento da parte nobre da retina. Condições que atrapalham a visão”, diz a oftalmologista.


Soluções para os olhos dos albinos


Por enquanto, as soluções encontradas aos albinos é o uso de óculos e lentes de contato coloridas que, infelizmente, não são suficientemente tingidas a ponto de barrar a luz externa como eles precisam.

Uma solução foi proposta por Ronaldo Sano, médico oftalmologista e chefe do setor de Retina do hospital Santa Casa de São Paulo. Um dos idealizadores do programa Pró-Albino, que visa o atendimento dos albinos brasileiros, Sano é também o responsável por um estudo que desenvolveu uma lente especial opaca, funcionando como uma nova íris aos albinos.

“Eles viram que a acuidade visual melhorou bastante, diminuindo a fotofobia e também melhorou a qualidade visual. Essas lentes são fabricadas por um laboratório nacional e o custo não é tão algo ao paciente, algo como R$ 200 no máximo. As lentes podem ser feitas com ou sem a correção da miopia também”, explica Elizabeth Guimarães, médica oftalmologista, colega de Sano no hospital. Por enquanto, o estudo está finalizado, mas o grupo busca uma forma de fornecer as lentes de contato aos pacientes que delas necessitem.

Vitamina D suplementada


Longe do sol, uma solução aos albinos é fazer a suplementação da vitamina D – hormônio sintetizado principalmente pelo contato com o sol. Há ainda alimentos que devem compor a dieta dos albinos para favorecer a absorção dessa vitamina, que atua principalmente na estrutura óssea.

Tipos de albinismo


Estima-se que há sete genes envolvidos no albinismo e cada um deles favorece a uma grande variabilidade para os sintomas dos pacientes.

“O tipo 1 é o mais grave, e o paciente não tem nenhuma melanina. Além de pele e cabelos brancos, a pessoa também tem alterações oculares grandes, inclusive cegueira. No Brasil o tipo mais comum é o 2, com ausência parcial da melanina, então existe ainda algum grau de pigmentação”, explica a dermatologista Camila Scharf.

CONTANDO A VIDA 235

FUTEBOL: POLÍTICA, RELIGIÃO E SEXO..

José Carlos Sebe Bom Meihy 

Afinal, há relação entre futebol e política? E quais são os nexos com o sublime, transcendental ou com “o andar de cima”? Sexo durante o campeonato, é oportuno, desconcentra ou relaxa? Vamos aos argumentos, um por um, ainda que em voos rápidos... 

O primeiro ponto a ser enfrentado diz respeito aos possíveis paralelos entre regimes políticos e a performance da seleção. Todos os brasileiros têm opinião formada sobre aproximações que, contudo, são discutíveis graças aos deuses, orixás e aos críticos instruídos. Para começar uma conversa que tem vocação para o infinito, vale lembrar que nossa primeira Copa vencida se deu em um momento em que a democracia fulgurava no céu da pátria naquele instante. Ano agitado 1958, tempo em que além da Taça do Mundo, o Brasil se apresentava ao planeta com a Bossa Nova, Brasília era chamada de Capital da Esperança e o Cinema Novo deslumbrava cinéfilos. A “pátria de chuteiras” finalmente parecia ter vencido o “complexo de vira-lata” para usar expressões de Nelson Rodrigues. Acontece que outras vitórias do nosso escrete ocorreram em momentos adversos e exatamente por isso ganharam significações espantosas, de compensação ou catarse ou quase vingança. Em 1970, por exemplo, atravessávamos um estreitamento político sufocante, mas mesmo assim conseguimos superar o desastre de 1966 quando o fracasso foi visto como coerente com a lógica ultra disciplinadora da ditadura. Depois, em 70, batemos a Itália por 4 X 1, e delirante, a torcida nacional se uniu como anúncio de movimentos que começavam a extrapolar a opressão imposta pelos militares. A campanha de 1982 continua inexplicável até hoje e não há como engolir a “derrota honrosa” em tempo que tinha a abertura política adiantada. Pouco se tem a dizer do fracasso de 1986 ocasião em que o otimismo arrogante provou ser vulnerável e fez amargo o resultado final, isso apesar da democracia posta. Depois, em 1990, com Dunga no comando, naufragamos outra vez num vexame humilhante, mas houve recuperação em 1994, com o mesmo técnico no mando do esquadrão. Na amplitude das liberdades políticas em 1998, fomos engolidos com o mesmo Ronaldo Fenômeno que teve convulsão minutos antes da partida. Em 2004, vimos nossa estrela brilhar esplendorosa. Moral dessa breve retomada: uma coisa não tem a ver com outra. Os resultados dessas disputas não remetem ao sentido político do governo, seja ele qual for. 

Mas, não é só com a política que se busca o entendimento do futebol. A religião também fere o diálogo meramente esportivo, laico e despolitizado. Nesse campo, aliás, uma das primeiras situações analíticas evocava o velho jargão que dizia que se macumba ganhasse jogo, os times baianos seriam campeões. Pois é, tudo mudou muito. Se antes eram os despachos das macumbas que se insinuavam, hoje são outros os signos religiosos emergentes. Neymar Jr postou no Instagram seu agradecimento pela recuperação a tempo de ir para a Rússia dizendo “para ti Senhor, toda honra e toda glória”. Convém lembrar que por ocasião de algumas vitórias ele ostentou dizeres como “100% Jesus”. É fácil achar nas contas de quase todos os jogadores referências como “Ele no Comando”, “Deus é Fiel”, “Graças a ti Senhor”. Pode-se dizer que a religiosidade no futebol tem história: dos chamados cultos afro, passou-se para a fase dos “Atletas de Cristo”, entidade vigente na década de 1980 e 90; depois as divulgações dos círculos de oração antes de entrar em campo se compuseram com a estranha mania brasileira de rezar antes da entrada no campo. Repete-se, aliás o mesmo círculo após terminada uma partida vitoriosa que deve juntar os atletas em círculo, no meio do gramado agradecendo a Deus pelo resultado. A insistência de manifestações religiosas tem riscos, pois pode dividir companheiros, e nessa linha, é oportuno lembrar que isso até deveria ser dispensável, pois afinal, Deus não é brasileiro? 

E sexo, é permitido? O debate esquenta quando os argumentos apresentados pela delegação alemã garantem que relações sexuais desconcentram os jogadores e tiram sua atenção que deve se manter atenta ao alvo final, a vitória. Em oposição, Tite, baseado no pressuposto do relaxamento, permite que haja sexo nos dias de intervalo dos jogos. As duas propostas se apoiam em teorias ditas científicas ou médicas. No primeiro caso, a manutenção de tensões é vista como positiva e assim qualquer desvio deve ser evitado. Para outros, vale exatamente o oposto, ou seja, depois de cada etapa, mais à vontade, os atletas renderiam mais. 

Seja pela política, pela inspiração religiosa ou pelas (dis)tensões biológicas, interessa manter viva a esperança de que pelo futebol tenhamos um momento de união e sem ódio divisor. E de esperança também. Como brasileiro, vivendo os tempos difíceis que nos acometem, há que se resignar de fatalidades e mais falências, frações, raivas ou rivalidades. Vamos acreditar, manter a esperança para quem sabe, depois dos resultados finais, possamos testar estas reflexões. Bola prá frente...

terça-feira, 12 de junho de 2018

TELINHA QUENTE 313

Hoje, vamos de dobradinha de minisséries inglesas de 4 capítulos, com Nigel Lindsay no elenco. A diferença é que uma tem na Netflix; a outra, não. 

Roberto Rillo Bíscaro
Por que a Netflix coloca títulos desnecessários em inglês em um país, que prefere material dublado?, perguntei-me quando recebi email dizendo que provavelmente gostaria da minissérie Retribution (2016). Mais intrigado fiquei, quando descobri que se tratavam dos 4 capítulos de One Of Us, da BBC. Por que alterar? Receio que jamais saberei as respostas pra ambas as indagações, mas valeu bastante a pena tê-la maratonado num sábado.
As famílias de Adam e Grace são vizinhas nas remotas terras altas da nublada Escócia. Desde crianças, se amam e quando se mudam pra Edimburgo se casam, mas, na noite em que retornam da lua-de-mel são assassinados. Numa noite tempestuosa o noia que fez o serviço descola carro e se dirige pra residência dos pais dum deles, mas, devido ao mau tempo, sofre acidente. Socorrido pela irmã de Adam, quando sua identidade é descoberta inicia-se debate se vale a pena deixa-lo vivo ou se compensa vingar o defunto casal. Começa, então, uma espiral de acontecimentos e revelações, culminando num desfecho de despedaçar corações.
Retribution, muito além de história de detetive, é (melo)drama familiar sombrio, que não poupa ninguém do estraçalhamento. Os britânicos são mestres nisso, vide socos deprês no estômago, como Tiranossauro (2011).
Em Retribution, nem a detetive está isenta de culpa e as ações, a princípio desconectadas, provam ter efeitos devastadores, como os dum bater de asas de borboleta japa provocando tsunami em San Francisco.
O primeiro capítulo podia pegar no tranco mais rapidamente, mas sugiro paciência, porque vale a pena e não é chato, na verdade. Mas, você sentirá a diferença no interesse, quando os esqueletos começarem a ser desenterrados da fria terra escocesa. A pseudotrama da velhinha que quer ser eutanasiada é bem irrelevante, mas é inconveniente menor perto de tantas atuações ótimas, especialmente a de John Lynch, que quem viu The Fall (tem na Netflix) reconhecerá.
Bem Celtic Noir; se você gostar de Retribution, não pode deixar de ver o exemplar máximo dessa subdivisão do Noir: Hinterland. Daí sim, você verá o que são corações partidos em investigações policiais. Também tem na Netflix.

Como não é aconselhável depender só de Netflix, no domingo maratonei os 4 capítulos de Innocent, exibidos em maio.
David Collins passou sete anos na cadeia pelo assassinato da esposa. Sempre alegou inocência e 3 julgamentos jamais foram conclusivos, então, tem que ser solto. Disposto a provar que não é culpado, Collins tem a sorte de que a DI Cathy Hudson tenha sido designada pra conduzir nova investigação.
A função da policial é refazer os passos do DI William Beech, que pode ter sido tendencioso, porque sempre creu na culpa de Collins e pode ter direcionado a investigação nessa direção. A DI Hudson tem que ser, portanto, sumamente imparcial, porque refará o trabalho dum colega. Só mesmo numa obra ficcional ou num sistema abertamente corrupto ela seria a indicada: Hudson e Beech são namorados. Mas, também por ser ficção, Hudson coloca a ética acima de tudo e começa a descobrir faceta nada agradável de seu homem. Nigel Lindsay parece estar se especializando em papéis antipáticos, vide-o em Safe.
Innocent explora bastante a faceta dramática do martírio de Collins. As consequências em seus familiares; algumas repercussões na comunidade. Broadchurch repercutindo.
Telespectadores experientes com esse tipo de roteiro, provavelmente sacarão @ culpad@ rapidinho (não levei nem a metade do primeiro capítulo pra formular hipótese), mas Innocent entretém, porque possui todas as reviravoltas, retratações e revelações necessárias prum envolvente programa detetivesco.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

UM PORCO-ESPINHO CANADENSE

CAIXA DE MÚSICA 318


Roberto Rillo Bíscaro

Dia 16 de abril, o Brasil perdeu uma de suas sambistas mais tradicionais e queridas, Dona Ivone Lara. Bem nessa época, lia a dissertação de mestrado As transformações na música popular brasileira: um processo de branqueamento, que denuncia a crescente exclusão de músicos afrodescendentes do centro de nossa música popular.
Não posso dizer que curta Carnaval, sambões, escolas de, e provavelmente caia no gosto branqueado denunciado pelo trabalho de Patrícia Crepaldi. Sambinhas “adestrados” com sabor de MPB bem-comportada, Bossa-Nova e algumas aventuras de nossa música-símbolo nacional pelo exterior, como Half a Minute, do Matt Bianco, tudo isso ouço sem problemas.
Curioso, resolvi pesquisar o que havia de novo e grátis nesse mundo e encontrei material interessante e variado. É samba em diversos registros, que compartilho com os leitores.

Quem curte vozes femininas suaves e melodiosas cantando bossa nova e sambas de raiz, de roda, canção e variações, deveria conhecer Andiara Freitas. Nascida no Rio Grande do Norte e atuando pelo Nordeste (mas, não só), desde fins dos anos 1990, Andiara tem dois álbuns.
Em 2014, saiu Samba da Minha Terra, onde interpreta compositores de seu estado natal. Em 2016, seu escopo aumentou e isso se reflete no título: Todos os Sambas. Nesse trabalho, Freitas canta compositores de várias regiões, além de receber convidados.
Os dois trabalhos estão em seu site:



O samba de Douglas Germano é denso e algo soturno, às vezes. Meio neurótico, com letras até sobre acidentes de trabalho. Decerto, porque o batedor de caixa de fósforo (tem nos álbuns) é nascido, criado e formado na megalopolitana São Paulo, onde a pegada é mais tensa mesmo.
Germano já foi gravado por Elza Soares e indicado ao Grammy Latino. Individualmente, tem dois álbuns. Orí é de 2009 e tem batidas João Bosco e Nogueira, influências perceptíveis. Mas, Germano também deve curtir os afrossambas e outros subgêneros.
Isso fica ainda mais evidente no seu segundo solo, Golpe de Vista (2016). Tem hora que evoca flamenco, mas o cerne é samba, mais tenso e nervoso que o do álbum de estreia e temperado com saxofone e trompete, além da amalucada caixa de fósforo e do cavaquinho febril. A produção às vezes equivale a um wall of sound de cordas sambadas.
Em seu site, além desse dois álbuns-solo, você também baixa de graça o de seu Duo Moviola, de 2009. Com Kiko Dinucci, Germano soltou um samba bem paulistano, que casou Adoniran Barbosa com o vanguardismo de Itamar Assunção. Letras bem-humoradas e sacadas. Quem curtia Premeditando o Breque, gostará.



Em 2016, destaquei com prazer o álbum de estreia d’ATroça Harmônica, que também pode ser baixado grátis no site do grupo.
Ano passado, Chico Limeira lançou álbum-solo homônimo. Seus sambas de vários estilos e choros veem com discretos elementos de outros estilos, como guitarra fazendo a vez do bandolim em uma ou outra faixa e órgão meio psicodélico, meio de inferninho “brega”. Nada gritante que altere ou “desfigure” o samba, mas Limeira soube bem como traduzir em samba as tantas influências musicais que rapazes solucionados trazem hoje em dia.
O álbum está disponível aqui para download grátis:



Para os mais aventureiros e vanguardistas, a pedida é o inquietante Sambas do Absurdo (2017), colaboração entre Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis. 8 faixas chamadas Absurdo, diferenciadas por um número. Tem hora que o álbum poderia ser descrito como Leila Pinheiro numa bad trip. Só que bad, nesse caso, nada tem a ver com a qualidade da música, letras ou interpretação, que são excelentes. Bad no sentido de que em alguns Absurdos, Campos pulveriza o samba e o infesta com samplers, súbitos barulhos lúgubres, guitarreiros nervosos. Mas, não é barulheira rock: é MPB avant-garde, claustrofóbica, às vezes; doce, outras. De longe, meu favorito nessa pesquisa sambista. Isso não significa que seja o melhor, apenas que como fã de prog rock, talvez isso me soe mais familiar, só isso.
Sambas do Absurdo pode ser baixado na página de Juçara Marçal.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

TELONA QUENTE 239

Roberto Rillo Bíscaro

O filme mais recente do uruguaio Israel Adrián Caetano tem tudo pra ser listado como cult. Radicado na Argentina, o diretor do ótimo Um Oso Rojo (2002, com meu amado Júlio Chavez) andava meio caído, mas El Outro Hermano (2017) deve ter sido suficiente pra reconduzi-lo ao panteão alternativo.
Insistentemente pessimista, o filme foi inspirado pelo romance Bajo Este Sol Tremendo, de Carlos Busqued. Desconheço porque Caetano descartou título tão sugestivo em favor do genérico O Outro Irmão, conforme traduzido no catálogo da Netflix. A quentura do sol seria cortante contraponto irônico pra frieza emocional dessas personagens meio à irmãos Coen.
Javier Cetarti vem de Buenos Aires pro escaldante, semiárido e miserável norte argentino a fim reconhecer os corpos mutilados e já apodrecidos de sua mãe e meio-irmão. Há anos sem contato com a família, Javier não se importa, só lhe interessa coletar o dinheiro do seguro e se mandar pro Brasil. Quem o auxiliará nisso é o falante resolve-tudo Duarte, que quando não está fraudando pensões e seguros dedica-se à honesta profissão de sequestrador, auxiliado por um meio irmão fajuto de Duarte. Fajuto, porque nem esse laço é real em O Outro Irmão: o moleque maconheiro é filho da primeira mulher do padrasto, ou seja, não tem nada a ver com Certati.
Falta ou falha de conexão emocional é o fulcro desta história onde ninguém se importa, restos mortais acabam na privada, o filho sequer consegue tocar a mãe em coma e não há herói com o qual se identificar. O Outro Irmão não serve pra quem procura diversão escapista pra esses tempos abundantes em ruindades globais. Não há redenção; é a lei da selva repercutida nos animais peçonhentos esmagados, no moleque viciado em documentários sobre vida selvagem e na avidez por grana, num ambiente no qual é escassa e parece não ter lei, a não ser a do acaso, caos ou sina.
Suspense, gore, western urbano e mais subgêneros se entrecruzam nesse meio de nada argentino, onde as roupas são sujas, as personagens suam o tempo todo, a trilha sonora é tão sinestésica como a de Paris, Texas (1984) e o elenco dá show, especialmente Leonardo Sbaraglia, como Duarte. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

CONTANDO A VIDA 234


E A COPA DO MUNDO NÃO É MAIS AQUELA...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Pois é... Somada à loucura do mundo todo – Donald Trump, Kim Jong-un, Vladmir Putin –  à vertigem dos acontecimentos brasileiros regados a balas perdidas, greves, descobertas diárias de escândalos, explosões de caixas eletrônicos e níveis de corrupção inimaginados, tudo junto, me faz perguntar: e a Copa do Mundo? Onde foram parar a alegria e a TPC (Tensão Pré-Copa)? Não é preciso muito exercício para notar a consternação que envolve nosso país e que cobre de tristeza e desapontamento corpos e mentes que deveriam estar eufóricos, ostentando as berrantes cores do Brasil. Por certo, muitos estão envergonhados por terem usados a camisa da Seleção em atos políticos vãos, e agora têm pudor em vesti-las como antes. “Nem se ouve mais cantar canções/ e nos corações saudades e cinzas/ foi o que restou...” será que Vinicius de Morais errou trocando o Carnaval pelo Futebol? Onde estão as bandeirolas, as paredes desenhadas com alusões aos “Campeões do Mundo”. A “Taça do Mundo é nossa!” É? Não há mais quem possa? “Sou brasileiro/ com muito orgulho”. Sou?
A agonia tomou conta da gente, roubou as risadas fáceis, furtou a esperança sempre pronta, descoloriu os eufóricos arroubos e tirou o som do “somos os melhores do mundo”. E vai demorar para expurgar tanta desgraça. Ai, como dói ver as mudanças das coisas afeitas ao nosso antes acarinhado “mundo da bola”. Por ironia, no “país do futebol”, dada a ressignificação simbólica daquela que um dia foi chama de “gorduchinha”, podemos avaliar como fomos esfalfados de perenes aleluias. E das probabilidades sempre alvissareiras, também. Sabe, quase chorei quando soube que o nosso Ronaldinho, o protótipo perfeito do herói problemático, o Fenômeno, aquele por quem tanto vibramos e sofremos, está prestes a comprar o time do Valladolid, da segunda divisão espanhola, isso pela bagatela de 30 milhões de euros. Negócio puro, produto de outra esfera, capitalista. Tudo compõe cifras formidáveis. Isso, aliás me faz pensar na prática de troca do nome afetivo dos jogadores – onde foram parar os Didi, Diamante, Cabeção, Feijão, Dinamite, que agora são solenemente referenciados também pelo sobrenome, já pensando na venda para times estrangeiros. Imaginemos que se fosse hoje, Pelé seria chamado de Edson Nascimento, Cafu seria Marcos Morais, tudo na mesma toada dos Zlatan Ibrahimovic, ou do Andrés Iniesta. E nem é para diferenciar como é o caso do nosso Ronaldinho Gaúcho, Toninho Cereso. Aliás, os diminutivos também sumiram e assim não temos mais referências como antes – ah! saudade do Zizinho...
E que dizer das regras que proíbem o festejo de gols com a torcida? Não se pode mais sair do campo, não senhor e não senhora, e, saibam que isso não é permitido “por questão de segurança”. Ai de quem ousar tirar a camisa em campo. Também não pode jogar com a meia abaixada. É nessa lógica disciplinadora daquilo que de jogo virou “esporte”, e agora “futebol-ciência”. Sim, o futebol se globalizou em grandíssimo estilo, a ponto de as taças entregues aos vencedores serem televisionadas em solenidades espetaculares, dois dias depois da vitória. E as seleções de ternos de grifes, especialmente desenhadas para embarque e chegada?! Os programas sobre o futebol agora viraram talk shows e são recheados de “outros quadros”, com “convidados especiais”, complementados por cantores, atrizes, políticos. Os jogadores transformados em “atletas” são elevados à categoria trabalhista de “profissionais do esporte” e alguns merecem rótulos como “atletas diferenciados”, ou “distinguidos no ramo”. Também se reclama do time ser do fulano de tal como se fosse a “Seleção de Neymar”, ou o “escrete do Tite”. Sumiu o “esporte das multidões”. Sumiu...
Sentido a proximidade da Copa do Mundo, não há como evitar desânimo ao constatar que os incentivos são mais midiáticos do que legitimamente populares. Ninguém mais discute injustiças na convocação e tudo é definido sem polêmicas. Se a unanimidade é burra, está aí a prova professada por Nelson Rodrigues. Juro que busco nas ruas sinais de folia, mas quanto mais procuro, mais noto camisas do Barcelona, do Real Madrid, e, sem protestos, até da Argentina. Com isso, vejo murmurante os refrãos mágicos da união das nossas torcidas, tão separadas umas das por rivalidades só explicáveis no ambiente político que vivemos. Ouvi outro dia, beirando torpor, que corre em redes sociais uma campanha para que o Brasil perca logo na primeira fase. Fiquei macambúzio porque, sinceramente, seria a ocasião melhor para ver lados separados por ódios retumbantes, unidos “na mesma emoção/ um só coração”. Cansei de ver torcida contra torcida, violência gratuita e furiosas batalhas marcadas pelas redes sociais. É “pau, é pedra, é fim do caminho”, e com mortos. Por lógico, há uma trama de negócios monitorando tudo isso: primeiro, proibiram a mistura de torcidas, depois, as separaram em partes, e por fim há casos, progressivos, de proibição de uma delas, ou até mesmo das duas.
De toda forma, estamos a poucos dias da estreia. Sei que na última hora vamos nos dar as mãos e esquecer o cenário desta Copa das mentiras. E vai ser bom, mesmo que por um instante, juntar nossas lembranças de outras eras. E por falar nisto, deixe-me procurar minha velha camisa... Sim, do jeito que estão as coisas não vou comprar o modelo novo. Nem a grana dá para gastar com sonhos passageiros...

terça-feira, 5 de junho de 2018

TELINHA QUENTE 312

Roberto Rillo Bíscaro

Olha só os ingredientes prum desastre anunciado, mas divertido de doer: nos anos 60, durante a administração do superestimado John Kennedy, os EUA tiveram a brilhante ideia de criar nave gigantesca que levantasse voo mediante explosão de diversas bombas nucleares. Era o Projeto Orion, que tencionava enviar – em sua versão mais ambiciosa – uma espécie de arca interestelar pra salvar a espécie humana em caso de holocausto nuclear, que ela mesmo ajudaria a criar sendo propelida por maciças explosões atômicas!
Com computadores menos potentes que smartphones, os caras sonharam com espaçonave gigantesca e autossustentável, que vagaria por gerações até encontrar planeta habitável. Em 1963, Kennedy botou fim a essa loucura e foi fazer coisa mais sana, como intensificar as agressões contra o Vietnã.
Agora, imagine uma emissora de ficção-científica como o SyFy Channel – aquela dos Sharknados; sacou quanta credibilidade científica? – exibindo série que reimagina o mundo como se o Orion fora levado a cabo e em 1963, 600 indivíduos tivessem embarcado numa nave-cidade em viagem de 100 anos até planeta orbitando Proxima Centauri, a fim de colonizá-lo. Essa é a premissa dos 6 capítulos de Ascension (2014), disponíveis na Netflix.
Sendo da SyFy e tocando Rocket Man, sucesso setentista de Elton John, na festa de lançamento da nave, quando a carreira do astro britânico ainda nem existia, meio que já previ que seria colossal besteirol. E foi mesmo! Tudo começa com o assassinato da jovem Lorelei e a designação dum investigador pra apurar o primeiro assassinato em Ascension, desde seu lançamento meio século antes. Aos poucos, descobrimos que há brutal divisão de classes na nave: a galera dos decks inferiores trabalha e convive com porcos e vacas, ao passo que os privilegiados dos superiores vivem num mundo de intrigas e lutas pelo poder, que envolvem sexo, tudo com visual início dos 60’s. Daí aparece garotinha com poderes sobrenaturais e começamos a ver o que parece ser o fantasma de Lorelei. Ah, mas antes disso tem super-revelação tchan, tchan, tchan, tchan, que injeta tom de teoria da conspiração e diabolismo governamental na trama.
Ascension atira pra diversos lados e erra todos os alvos, porque nada é suficientemente desenvolvido ou explicado. Que tenha fracassado crítica e publicamente determinou a brevidade dos 6 episódios, que oferecem alguma resolução no final, mas não tudo. É que não tem nada muito pra resolver, porque tava tudo diluído, sacumé?
Mediante o exposto, leitores devem achar que detestei Ascension. Acha? Vi com deleite; tipo, não amei, mas curti os anacronismos, o roteiro idiótico (alguém diz: como vou falar pra mãe dela que Lorelei está morta? Na cena seguinte, o comandante anuncia a tragédia pelo sistema de som na nave; ótima maneira de receber a notícia da morte de sua filha. Como não amar isso?) e a tentativa de fazer show pretendido tão esperto quanto o Projeto Orion, mas tão b(o)ab(o)aca quanto. A tal plot twist é realmente beeem legal, mas acontece cedo demais.
Ascension devia se chamar Descension. Mas, divertiu. 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

CAIXA DE MÚSICA 317


Roberto Rillo Bíscaro

Quando a esfuziante Breakout estourou nas FMs brasileiras, lá pelos distantes idos de 1986/7, achei legal, mas não botava fé no Swing Out Sister. Comparando com Style Council, Sade e Matt Bianco, soava meio fabricado, feito nos sintetizadores, enfim, era “comercial”. Como se os mencionados não fossem; como a gente pode ser tolo na mocidade (na velhice também).
Conforme os álbuns se tornavam mais sofisticados e retrô, com mais orquestrações e menos electronica, o sucesso comercial dos ingleses decrescia. Na segunda metade dos 80’s/primeira dos 90’s Corinne Drewery e Andy Connell tiveram singles de sucesso, como Am I The Same Girl e La La (Means I Love You). A partir de Shapes And Patterns, álbum de 1997, o duo lançava material primeiro no Japão e só depois no resto do mundo. Há coisa que só saiu na Ásia, onde se mantiveram populares por mais tempo, como nas Filipinas e centros onde havia comunidades de fãs de lounge, retro pop, exotica e outras burtbacharices.
Realmente cri que o Swing Out Sister (SOS) era “sério”, quando ouvi The Living Return (1994). Sua elegante imersão no soul, funk e jazz selou sua sorte como produto de massa, mas me mostrou que Corinne e Andy eram mais do que momentos pop inconsequentes. E quanta maravilha ao longo de anos.
Hoje, praticamente invisível até no mercado nipônico, o SOS lança material primeiro via serviços tipo PledgeMusic, como é o caso de Almost Persuaded, cofinanciado por fãs e disponibilizado pra download em dezembro. O álbum terá lançamento oficial, via gravadora, somente em meados de junho.
Em seu blog The Blue Moment, Richard Williams definiu Almost Persuaded como escapada para um mundo neo-Bacharachiano de elegância romântica. Perfeito. Incapazes de criar um universo como o Mestre, o SOS logrou construir um planeta dentro dele.
Nele, existe eternamente um loop temporal que vai aproximadamente de 1967 a 1974. Mas, o som não é cópia vintage e aí reside o Paradoxo do Swing Out Sister: Corinne e Andy conhecem enciclopedicamente o pop, soul, jazz, wall of sound, exotica, funk, bossa e trilhas-sonoras à Valley of the Dolls desse período. Assim, estilhaçam elementos de um ou outro subgênero, pós-modernamente pinçando apenas o que lhes convém e mesclando com outros cacos de sub-estilos para formar um todo retrô, submerso em ondas de cordas sintetizadas. Em Happier Than Sunshine elementos de funk, jazz e soul foram rearranjados em um mundo deslizante de pura beleza escapista. Em Don’t Give The Game Away, esses estilhaços de estilos aparecem fugazmente e somem, como fantasmagorias.
Almost Persuaded enfileira um pequeno milagre atrás do outro, que, para fãs mais antigos e atentos, às vezes remetem a trabalhos anteriores, como I Wish I Knew que retorna para Shapes and Patterns.
Mas, o poder do álbum é no atacado, não adianta destacar essa ou aquela. Almost Persuaded é pra ser ouvido com seu drinque favorito, fantasiando estar ao lado de seu ícone fashion favorito. Ou se espojando em lençóis de cetim. Se não os possuir, sonhe-os, afinal, como a voz que não envelhece de Corinne Drewery canta “if it’s only a dream/then I’m dreaming my life away.”

domingo, 3 de junho de 2018

SUPERAÇÃO EQUESTRE NA FRANÇA


Roberto Rillo Bíscaro

Sabe quando um caso de superação tem efeito espelho, ou seja, reflete em outras pessoas? O filme francês En Équilibre (2015), que você encontra no catálogo da Netflix, traz uma história assim.
Livremente inspirado em um fato, o roteiro centra na superação de Marc e no efeito dela em Florence. Ele é adestrador de cavalos e dublê; ela, analista de uma companhia de seguros. Quando Marc fica irreversivelmente paraplégico, a seguradora põe Florence para cuidar do caso e pagar o menos possível ao acidentado. Mas, Marc não é bobo e faz corpo duro, o que impressiona Florence. A tenacidade do cavaleiro – que quer voltar a montar, mesmo com as pernas paralisadas – impressiona a durona e aparentemente realista Florence. Devido a reprova em um exame, a mulher abandonara promissora carreira de pianista para se dedicar ao que era “seguro” e “possível”. Mas, será que vale a pena abdicar tão facilmente de seus sonhos, daquilo que te comove?
En Équilibre é um desse filmes que fazem questionar escolhas, além de apresentar personagem com deficiência, que não se rende ao coitadismo de jeito nenhum.
Muito recomendável nessa época tão dura pela qual passamos.

sábado, 2 de junho de 2018

ALBINO GOURMET 260

quinta-feira, 31 de maio de 2018

TELONA QUENTE 238


Roberto Rillo Bíscaro

Há quem tema a meia-noite como horário pra bruxarias e macumbas. Mas, cabulosa mesmo é a terceira hora da madrugada, quando os demônios se fortalecem, talvez porque seja espelho das 3 da tarde, hora em que Cristo supostamente expirou na cruz romana.
Vários filmes da franquia Amityville usam as 3:15 da manhã, porque a família DeFeo foi exterminada por um de seus membros mais ou menos a partir desse horário. Como fiz dossiê Amityville, em 2016 (confira aqui), não poderia deixar de conferir e comentar a recente adição de Amityville: O Despertar (2017) ao catálogo da Netflix.
O mundo ficcional do filme existe em um planeta onde os crimes, fenômenos sobrenaturais e até os outros filmes sobre Amityville existiram. Cenas do original de 1979 aparecem, quando as personagens adolescentes o assistem precisamente às 3 da manhã pra sentirem melhor qual é a vibe da casa. Pena que esse caráter metacinematográfico não seja aprofundado. Se bem que em Amityville: O Despertar nada é. É bem filmado, correto, mas não passa disso.
Cônscia do passado macabro da residência, uma mãe se muda pra lá com 2 filhas e um filho em coma. Secretamente, ela espera de verdade que o cérebro vazio do rapaz seja preenchido por algum demônio. Como dizem que é bom ter cuidado com o que se pede aos deuses, quando é atendida, as coisas vão mal.
Como contraponto, o demo terá uma adolescente meio gótica, que percebe que a recuperação súbita do mano é boa demais pra ser vera. Pra que Bella seja informada sobre os antecedentes letais da morada é que aparecem de forma absolutamente arbitrária, as 2 personagens teens, sendo que um deles é o Noah do filme, ou seja, o menino que sabe tudo sobre filmes de terror e suas mitologias.
Amityville: O Despertar traz um ou dois sustos, mas nunca decola, porque nada e aprofundado e nem morte quase tem. Dá pra ver, passa o tempo, é melhor do que muita porcaria da franquia, mas é só pruma vez e pronto.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

CONTANDO A VIDA 233


VAMOS FALAR DE ALZHEIMER...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Somos mortais, é muito bom não esquecer. Mas, quando justamente o esquecimento torna-se matéria relativa a o drama final da existência, tudo se emaranha, e, de maneira instintiva, em atropelos defensivos, sentimos o peso da mão que apaga a fantasia da eternidade. E ficamos quietos, atônitos, perdidos. O silêncio, nesses casos, é cruel e tudo fica ainda mais sinistro quando constatamos que a cultura consagra a lembrança como meta. É assim que, como patologia pessoal e social, a erosão da memória de um ser humano se transforma em espetáculo impiedoso, e coloca o conjunto familiar em cenas dantescas, horripilantes mesmo. E desconhecidas.

Calcula-se que atualmente existam em nosso planeta cerca de 800 mil pessoas acometidas do chamado Mal de Alzheimer. Avalia-se que em 2050 serão 135 mil. Tudo se complica na medida em que a longevidade ganha terreno - vivemos muito mais do que nossos antepassados -, e os avanços da medicina multiplicam sucessos afeitos a sobrevivência. No rastro dessa trajetória, o Alzheimer alça protagonismo, pois acometendo pessoas com mais idade impõem diferenças de outros males comuns a senilidade. Antes falava-se de demência em geral, hoje sabe-se de especificidades. Diagnosticada pela primeira vez em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer – que a descreveu como “uma doença peculiar” – demorou-se muito para que a comunidade médica a distinguisse do simples desgaste ou degenerescência. Aos poucos, insidiosamente, como visita impregnante, sua presença indesejável vem se fazendo notar, a cada dia mais próxima de nós. E demorou para ser entendida. Entre os fatores que atrapalharam as indicações do Dr Alzheimer situava o prestígio das teorias de Freud que àquela altura encantavam plateias com detalhamento do inconsciente, id, ego, superego, complexo de Édipo. Alzheimer, por sua vez, partia de uma corrente menos sedutora, e defendia que toda variação do que se conhecia como demência ou senilidade crônica tinha como raiz um fundamento biológico.

E foram precisos nomes ilustres para que a sombra dessa amedrontadora “nova doença” se anunciasse mundo afora: Rita Hayworth, Charlton Heston, Margareth Thatcher. Sem dúvida, a comovente mensagem escrita pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, ao tomar conhecimento da moléstia que o atingira, foi o mais eloquente anúncio do alastramento da doença. Desde então, a coleção de histórias trágicas enternece e assusta a todos. O medo decorre também do desconhecimento de causas, mas há evidências de transmissão pela carga genética. E nesse sentido, timidamente, sinto-me candidato. Quatro tios, minha mãe e meu irmão morreram com a doença. É bom que se diga que entre suas fatalidades, talvez a mais estranha é que ela propriamente não mata. A causa da morte sempre é outra, mais óbvia.

Os sintomas são sutis, chegam devagar, e são facilmente confundidos com lapsos, ausências fortuitas ou distração. Um esquecimento aqui, outro logo mais, a repetição crescente e atordoante das mesmas coisas, a falta de registros de fatos recentes, a perda da noção de espaço, tudo somado vai se amiudando na aparência de loucura. E junto algumas manifestações que deixam estonteados os familiares, amigos e circundantes: a violência explosiva, ou a passividade absoluta, a intermitência de reconhecimento. De todas diria que a síndromes de penúria, o sentimento de que se está sendo roubado ou ficando pobre, me parece, é a mais atormentadora. O olhar desconfiado, o apego a bens materiais, o zelo desmascarado pelos próprios pertences nos dimensiona a profundidade da ilógica. Frente a essa trama impõe-se outra determinação da doença: a necessidade de reposicionamento de todos os que convivem com a pessoa atingida. Sim, para quem não padece do mal em si, a vida continua normal, os acontecimentos cotidianos transcorrem na mesma dialética. É assim que demoramos para aceitar o próximo que vai se diferenciando, se alienando, se constituindo em um mundo que não nos reconhece, e o que é pior: onde não mais cabemos.

A tristeza da situação é amargada pelo não caminho de volta. À favor da fatalidade em muitos casos pessoas tornam-se como crianças. Ainda que haja muita pesquisa para tratamentos, os que estão dispostos ao público são meros paliativos, e isso contribui para um dos fenômenos mais imediatos, a depressão de familiares. Não sabemos como trabalhar com esta situação e na tradição em geral, onde o culto ao corpo ostenta a bandeira da saúde juvenil, isso fica mais ultrajante. E nem há muitas casas especializadas no cuidados, fato que transforma alguns logradouros em verdadeiros depósitos humanos.

Não se pretende com esta reflexão multiplicar os tétricos corredores do labirinto desse mal. O que se propõe é que comentemos sobre o assunto e exercitemos nossa fala no esforço de entendimentos que superem a surpresa e a piedade. Até pouco tempo, o autismo era pouco admitido, mas campanhas ampliaram o espaço de seu entendimento. O Alzheimer agora nos desafia além do medo. Vamos falar sobre o assunto. Vamos?