quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

TELONA QUENTE 148

Roberto Rillo Bíscaro

O filme etíope Difret (2014) conseguiu certa visibilidade, porque uma de suas produtoras-executivas é Angelina Jolie, cujo nome é usado em sua promoção: “Angelina Jolie apresenta...”. Não é culpa da Sra. Pitt que o mundo funcione assim – ela tem até que ser admirada por usar seu prestígio pra fomentar tal projeto – mas é uma pena que produções africanas sejam tão desconhecidas e precisem de certificado estelar pra receberem alguma atenção.
Em amárico, um dos idiomas falados no país, difret tem duplo sentido: ousar ou o ato de ser violentada. A história de Difret é baseada em fatos e aconteceu em meados dos 90’s. Hirut, campesina de 14 anos, foi abduzida enquanto voltava da escola. O raptor era o homem que pedira sua mão em casamento, mas fora recusado pelo pai. Inconformado, ele reúne asseclas e captura Hirut, mas esta consegue escapar e o mata, mas apenas depois de ter sua virgindade perdida, numa sociedade que ainda valoriza demais um hímen. A menor é presa e quando a advogada da capital Adis Abeba, Meaza Ashenafi, sabe do caso propõe-se a ajudar Hirut, que mesmo tendo se defendido poderia enfrentar pena de morte.
Na Etiópia, a tradição seguida em muitas áreas rurais permitia o rapto de noivas em potencial e se essas retaliassem, quem incorria em erro eram as próprias. Macho sempre tem razão. O embate entre a noção ocidental de justiça e igualdade perante a lei versus tradições autóctones é o centro dessa história inspiradora e que poderia levar a discussões sobre se compensa manter tradições. O caso gerou controvérsia na Etiópia, envolvendo Ministro da Justiça e tudo e ainda hoje não é ponto pacífico, uma vez que autoridades locais tentaram proibir Difret numa tentativa de diminuir a importância do premiado ativismo político de Asherafi.  
Roteiro e direção de Zeresenay Berhane Mehari priorizam o conteúdo, não a forma. Difret é estruturado tradicionalmente e cinéfilos formalistas poderão se incomodar com a falta de “sofisticação” na psique de algumas personagens, mas isso é o que menos importa, porque Hirut é bem construída e o filme não apenas é necessário, mas também bem feito e interessante.

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