Conheça a história de superação de Rayr Barreto, paraciclista itabaianense
domingo, 10 de dezembro de 2017
sábado, 9 de dezembro de 2017
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
TELONA QUENTE 214
Roberto Rillo Bíscaro
Visões panorâmicas da história do horror não têm como
evitar um ou mais blocos a respeito dos filmes de monstro dos anos 1930, vide a
ótima A History Of Horror.
Os interessados em mais especificidade deveriam
procurar Universal Horror (1998), cujos 90 minutos narrados por Kenneth Branagh, focam na produção do estúdio Universal, que deu ao mundo Drácula,
Frankenstein, a Múmia, O Homem Invisível, só pra citar os mais famosos; muitos
representados tão iconicamente que ainda hoje representações seguem seu visual.
Geralmente desprezado pela intelligentsia, o terror tem sido responsável por farta parcela da
subsistência de muita companhia cinematográfica. Não foi diferente com a
Universal, que, começou como grande fábrica de filmes B pra baixo.
Nos Depressivos anos 30, filmes de horror abarrotaram
os cofres do estúdio, porque baratos de produzir e lucrativos. As plateias amavam:
podiam escapulir um pouco do horror real da Crise de 29, nos reinos de terror
egípcios, transilvânicos, londrinos. Curioso esses documentários jamais
abordarem porque o terror era quase sempre localizado fora do solo
norte-americano. Mesmo quando ameaçava Nova York, no caso de King Kong, era
importado de terras exóticas e primitivas. Como o sucesso das películas da
Universal fez outros estúdios copiarem a fórmula, produções inevitáveis como a
do gigante gorila estão em Universal Horror. Kong era da RKO.
O documentário é excelente, embora panorâmico. Atores,
críticos e personalidades como o escritor de ficção-científica Ray Bradbury
revelam detalhes técnicos e de recepção desses filmes que hoje não assustariam
criança, mas à época deixavam a moçada histérica, de cabelo em pé, claro, com
alguma ajuda do estúdio, que contratava gente pra desmaiar ou sair correndo aos
berros e assim gerar burburinho.
Deveras influenciado por correntes vanguardistas
europeias, como o Expressionismo alemão, esse primeiro ciclo de horror falado
foi precedido por farta produção muda. Universal Horror dedica generoso tempo
em apontar e discutir superficialmente esses precursores, que tiveram até a
estreante Joan Crawford nos elencos. Os familiarizados com a primeira fase
dourada do horror falado certamente preferirão as referências aos filmes mudos,
que não ficam só nos manjados Metropolis e Gabinete do Dr. Caligari.
Atando o fascínio exercido por deformados como
Quasímodo e Frankenstein às mutilações em massa tornadas rotineiras pela
Primeira Guerra, Universal Horror informa, entretém, encanta e desperta
curiosidade danada pelos filmes mudos até em caras como eu, que não os suporta.
Mas, resistirei facilmente à tentação; tenho saco, não, sorry.
Se você entende inglês, tá
no Youtube:
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
THANDO FALA À REVISTA ÉPOCA
"Sofri muita discriminação", diz modelo albina que é o nome da vez no mundo fashion
Thando Hopa largou a carreira de advogada para modelar
Nascida em Johannesburgo, a modelo albina Thando Hopa tem feito sucesso no mundo fashion. Mas, ao contrário de suas colegas de profissão, ela não sonha somente com capas de grandes revistas e desfiles para grifes badaladas. Thando encara a visibilidade alcançada como missão.
"Larguei o Direito por uma causa. E se é a moda que me faz conscientizar as pessoas sobre o albinismo, então vou abraçar essa profissão até o fim", diz ela, uma das estrelas da próxima edição do Calendário Pirelli, que aos 25 anos deixou a carreira de advogada para modelar.
Sofreu discriminação por ser albina?
Muito. Principalmente na África do Sul, onde nasci. Na juventude, não saía de casa sem muita maquiagem para escurecer a pele. E, mesmo assim, me apontavam na rua, diziam que eu era filha do demônio e cuspiam quando passava. Lá o albinismo pressupõe debilitação física, um drama social. Os coleguinhas da escola não tocavam em mim.
Foi difícil vencer o preconceito?
Um dia acordei, me vi no espelho e decidi ser linda. Deu certo. Mas não vou descansar enquanto souber que ainda existem crianças passando pelo que passei, principalmente em países como a Nigéria, onde, segundo estatísticas, uma em cada 5 mil pessoas é albina. Lá e também na Tanzânia, o infanticídio de bebês albinos é comum.
Crianças ainda sofrem dessa forma?
Sim, muito. As pessoas não fazem ideia. E isso precisa ser falado. Na Tanzânia, acredite se quiser, ainda hoje muita gente crê que partes de corpos de albinos tragam poder e sorte. Por lá, pessoas com albinismo são mortas e seus corpos usados em rituais supersticiosos e macabros. Na África não é diferente.
Como largou o Direito para ser modelo?
Estava em Johannesburgo, na rua, e fui abordada por Gert-Johan Coetzee, um estilista muito conhecido lá. Ele se aproximou, disse que eu era muito bonita e perguntou se não gostaria de fazer umas fotos. Não levei a sério, mas peguei seu cartão. Dias depois liguei e marcamos um encontro. Desde então, tudo tem acontecido bem rápido. O mundo da moda é muito glamouroso, cada dia estou num país diferente. Mas luto a todo momento para não me deslumbrar e esquecer o motivo de eu estar aqui.
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CONTANDO A VIDA 214
REDES SOCIAIS: velhos e jovens.
José
Carlos Sebe Bom Meihy
Diria que em termos de calendário, o ano corrente (que envelheceu
sem dar mostras que há de cair de podre), lentamente mudará em ideias,
assinalando apenas a variação cronológica de 2017 para 2018. As expectativas
são sombreadas de pessimismos, e não convém afastar os gravames de um ano
eleitoral que não se enxuga de falcatruas, escândalos, e lances escusos.
Certamente, teremos expostas diferenças assustadoras que, infelizmente,
dimensionam ódios incontidos, recalques arraigados, achaques agressivos, porque
não conseguem se renovar em essência. Não basta, contudo, identificar os
sintomas em suas planuras reveladas por manifestações que percorrem redes
sociais, notícias de jornais e até afetam convívios íntimos. Qualquer
diagnóstico mais consequente demanda combinar causas arcaicas com novos modos
de expressão. Ainda não assimilamos o impacto das tecnologias e, quase sempre,
aproveitando facilidades, consagramos enfermidades incrustradas em insatisfações
que, sinceramente, não dizem muito de projetos que precisam nascer. E a voz no
coletivo, o tal semianonimato, sem mostrar o rosto ou a responsabilidade da
interlocução argumentativa, faz amanhecer o pão nutritivo da troca de ideias,
da ventilação de opiniões e mobilidades. E como é resistente, petulante,
inflexível a firmeza da raiva política! Dói muito dizer, mas o mundo está
dividido e o que é pior, sob o fado de extremar-se ainda mais.
E não vale apenas dizer que a corrupção é sistêmica,
que os maus políticos são históricos, ou que as eleições resolverão o problema
se votarmos “certo” (entendendo como “certo” os nossos candidatos). Junto com a
resistência dos problemas, há recursos que merecem cuidados conceituais que, se
compreendidos, podem favorecer entendimentos. Por lógico, não se almeja saudar
consensos, mas é desejável o favorecimento de diálogos mais inteligentes do que
o ataque cego e polarizado. Partamos do suposto que reza virtudes na alteração
de posicionamentos. Por que não mudar? Por que não pensar nos argumentos
contrários, se expostos de maneira outra que não o ataque? Ah! que saudade da
metamorfose ambulante. Ambulante, porque variada, conformada com as demandas do
mundo moderno.
O discurso racional está saturado e não mais se sustenta.
A lógica construída em argumentos esticados do passado padece de furos
consequentes e ocasiona vazios. É exatamente aí que se abrigam os argumentos
carcomidos pelo passadismo. Sem admitir mudanças nos meios de comunicação, por
exemplo, corre-se o risco de se manterem binarismos que não mais se explicam. A
sociedade é dinâmica e reclama por consciência disso. O mundo se organiza, com
os novos modelos de comunicação, em redes, mas, de que elas valem se
insistirmos nos mesmos pregões? O plural é o desejo maior da democracia que
precisa trocar ideias e permitir pertencimentos, integração, participação
amplíssima. Não vale mais o “certo/errado”, “bonito/feio”, “bom/mau”. Basta um
giro rápido pelas redes sociais para ver como, sob o jugo da modernização, se
colocam em causas velhas proclamações que, aliás, assumem os fatigados supostos
passados como critérios para futuros. A velocidade alucinante permitida pelos
trilhos da internet (e agora da realidade ampliada) ainda conduzem as cargas azaradas
pelos argumentos pretéritos. O mundo mudou e precisamos mudar com ele. E que
sejam o diálogo e a instrução livre os ponteiros de bússolas navegantes. Chega
de dogmas e fundamentalismos.
Mas, haveria esperança? Pode-se admitir algum otimismo?
Ou, pelo contrário, há de prevalecer a eletrônica atualizada em uso nas mãos de
velhos que não se renovam e não a entendem, por embrutecidos que se tornaram?
Creio no porvir. Com força, acredito que a nova geração saberá lidar com o
mundo em rede e promoverá os avanços necessários para uma vida social mais
justa. A noção de “novo mundo” se anuncia por meio de concepções libertárias da
padronagem que ainda insiste em grassar nos segmentos que não aprenderam com a
realidade horrível que nos cerca. Que fiquem avisados, diga-se, que alguns
direitos humanos são irreversíveis. As mulheres, os racialmente segregados, os
gêneros sexualmente reconhecidos, são arautos de um novo tempo, melhor, porque
mais tolerante e flexível. Democrático. Em conjunto, grupos silenciados emergem
e, tomara, que eles saibam lidar com o atraso e resistência da grande parte da
“ velha” classe média brasileira. E que as redes sociais se constituam em reais
teias de solidariedade e respeito.
Vivemos uma era de
mudanças. Tudo parece ruir. Caem os tais “valores” antes fixos, estáveis e
acomodados em cinismos e hipocrisias. Paradoxo das mudanças, é bom que assim
seja. É bom que tenhamos ciência de que por mais insistentes que sejam os
teores odientos, na medida da inexorável conexão do mundo, aprenderemos a lição
fatal: os jovens estão em rede. Bem-vindos os não jovens que fiam nessa trama.
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
ALBINO SHERLOCK
Sherlock, o patudo albino que foi abandonado tem uma nova vida e é famoso
Sherlock é um cão de raça Schnauzer que nasceu albino e que foi abandonado ainda recém-nascido, possivelmente devido à sua condição rara e a tudo o que esta implica.
O animal não pode ser exposto a luz solar direta por longos períodos de tempo, pois corre o risco de sofrer queimaduras graves e de ficar com cancro da pele. Deste modo, Sherlock necessita de usar protetor solar especial para cães e óculos de sol.
Os seus olhos azuis que, à primeira vista, podem parecer lindos, podem trazer-lhe problemas graves de visão, assim como o albinismo pode causar também problemas de audição.
O cão foi encontrado depois de ter sido abandonado e colocado ao cuidado de Netta Mckay, sendo que depois deveria ser adotado por uma família. Contudo, a mulher e o marido apaixonaram-se pelo cão e acharam que seriam as pessoas ideais para lhe dar as condições que precisa para ser feliz e viver em segurança.
Agora, Sherlock é um membro oficial da família McKay e tornou-se uma estrela das redes sociais, principalmente pela sua necessidade de usar óculos.
O patudo chegou mesmo a ter um contrato de publicidade com uma agência de modelos para cães, mas Netta alerta para o facto de, apesar de serem bonitos, este tipo de cães terem verdadeiros problemas.
TELINHA QUENTE 288
É senso-comum o fato de depois de morta a pessoa
ser lembrada apenas por supostas qualidades, reais ou inventadas, tendo seus
defeitos suavizados, quando não obliterados. Quando se trata de jovem, com
futuro todo pela frente, a coisa é ainda mais ch/tocante, porque de certo modo,
adolescentes ainda são meio conectados ao estatuto angelical infantil. Fato é
que há séculos a juventude é glorificada pelo vigor e pela garantia da espécie.
O roteiro da controversa 13 Reasons Why, da Netflix, conta,
dentre outras coisas, com essa romantização do indivíduo após a morte para que
o suicídio de Hannah Baker tenha sido percebido por não poucos como saga de 13
capítulos de martírio pra protagonista, sem se darem conta dos defeitos da
garota e da reprodução desse mesmo sofrimento em outras personagens, que não
passaram de ferramentas pra que sentíssemos dó da narradora-defunta.
Essa manipulação faz de 13 Reasons Why perigosa, mas
muito interessante. Perigosa, porque temos que reiterar a todo momento que sim,
é uma pena que Hannah tenha se matado, que não estamos desconsiderando sua dor,
que ninguém merece morrer blá, blá, blá. Interessante, porque Baker não é
santificada; é cheia de defeitos e não é nada especial, mas a adoção de seu
ponto de vista como guia do telespectador tem o poder de fazer com que até a
tragédia dos outros seja sugada feito buraco negro pela protagonista e
transformada em dor pra si – estando nem aí pra quem a sofreu – a ponto de
muitos sequer considerarem a parcela de responsabilidade de Hannah em sua queda
e o grau elevado de narcisismo da moçoila, que filtrava tudo e todos a partir
de seu centro. Hannah Baker não é monstra; não merecia ser estuprada; nem todo
mundo aguenta as pressões mesmo, mas, ela não submeteu Clay ao mesmo que acusa
os demais de terem feito consigo?
O tímido Clay Jensen – que ótimo aquele ator! – é o
herói da trama, no sentido de ser ele a personagem que descreve o tal círculo
do herói, que leva de um ponto de desconhecimento a um de esclarecimento. Pra
que isso ocorra, tem que passar pelo mesmo bullying
pelo qual Hannah passou e quem é a principal executora desse assédio
psicológico? Hannah Baker, que faz o moço ouvir quase todas as fitas (isso das
fitas é podre, vamos combinar?) antes de absolvê-lo, ao mesmo tempo que afirma
que negligência foi seu único delito? Epa, mas Clay tentou falar com ela na
festa onde quase transam e Hannah o rechaçou. Como fica a tal cultura que
também preza tanto pela individualidade? Se ele forçasse a barra seria
intrometido, se atende o pedido dela é negligente, qual é?
O “problema” sempre é a forma. O drama burguês não dá
conta de assuntos sociais, então, suicídio tem que ser filtrado pelo viés
individual. Daí tem que ter herói, alguém pra se identificar e tal, e tudo vira
um rol de motivos pessoais. A morte de Hannah é “culpa” dos outros. Sou
professor e identifiquei-me com o psicólogo da escola. Quase na véspera do
suicídio, ela o procura e, nos termos das fitas, ele foi a última porta que se
fechou em sua cara. Ela foi falar sobre o estupro na jacuzzi de Bryce, mas é
evasiva nível hard! O profissional
sugere que ela deva tocar a vida pra frente. O que poderia fazer se ela não lhe
deu informações pra agir? Ela talvez tivesse medo, mas se uma
aluna viesse apenas aludindo sobre abuso, o que se esperaria que eu fizesse?
Estamos numa época de caça às bruxas, onde bastou delatar com achismo e já se
destroem reputações e reitores se suicidam como consequência. Mas o conselheiro
educacional fez correto: como ele acusaria alguém se Hannah foi irritantemente
reticente? Recusar-me-ia a levar a culpa pela morte dalgum estudante nessas
condições! O roteiro sugere que temos que ter poderes psíquicos pra ler mentes?
“Sem consultar o Google, diga o nome do garoto que
morreu no acidente de carro devido a derrubada da placa”, perguntei como teste,
no Facebook, e das 3 respostas apenas 1 acertou: Jeff. Se fosse pesquisa
científica, a amostragem seria pífia, mas serve como começo de discussão – esta
postagem não é resenha, é isca pra pensar. Sua morte não teve um décimo do pesar como a
de Hannah, especialmente por parte dela. Isso porque Jeff serviu apenas como
instrumento pra sentirmos mais pena da suicida, ou seja, sua morte não teve
repercussão intrínseca, serviu apenas pra mostrar como o mundo era cruel com
Hannah. Mas, espera, Jeff não mereceria mais que isso? Sim, mas se o roteiro
“perdesse tempo” com esse sacrifício expiatório, haveria problema com a
identificação com a personagem. Então, a morte dela deve ser chorada, a de Jeff
apenas catalogada como mais uma porrada em Hannah.
Na mesma noite do desastre de carro, ocorre o estupro
de Jessica, uma vez melhor amiga de Baker. Tirando que achei draminha exagerado
essa história de Alex e Jessica terem “abandonado” Hannah (me deixa, quantos
amigos não se distanciaram de você, caro leitor? Ou você se afastou. Isso chama-se
vida, meu bem), a violência sexual também foi basicamente interpretada por
Hannah como algo mais danoso a ela do que à ex-amiga! E agora vem outro ponto
muito perigoso, porque poderão chamar de protetor do agressor quem levanta essa
lebre. Então, já adianto: Bryce é indefensável, estuprador em série maldito! Mas,
meu, Hannah sabia disso, porque o viu em ação e mesmo assim vai pra sua casa e
fica na jacuzzi depois de todos terem ido embora. Por Deus! Claro que Bryce é
safado sem-vergonha, mas a situação do abuso de Hannah não é a mesma de uma
menina andando na rua e atacada a esmo. Claro que traumatizou, óbvio que
contribuiu muito pra seu suicídio, mas, a cultura norte-americana vive
insistindo na responsabilidade, nas consequências dos atos, e nesse caso?
Hannah Baker não procurou fazer amigos, dava patadas
mil em Clay, enfim, sabe o que acho que faltou em 13 Reasons Why? Uma fita
sobre Hannah Baker, que botou a culpa em todo mundo, menos nela mesma e olha
que essa garota pensava só nela parece. Cadê uma notinha que seja pros pais?
Ela atacou todo mundo, mas deixou os pais no limbo.
O roteiro quer mostrar que
minúsculas ações podem ter repercussão maciça na vida de outrem, mas do jeito
que a coisa está posta, parece que inviabiliza qualquer relação social! A gente
não pode falar nada que já seria pazinha de terra na cova dum suicida. Eu, hein, nenêm!
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
CAIXA DE MÚSICA 294
Roberto Rillo Bíscaro
Para os não-entusiastas do subgênero, pode surpreender
que o sambado e funkeado Rio de Janeiro tenha cena fértil de rock progressivo.
Mas, tem. E é de lá que vem o segundo LP do Caravela Escarlate.
Idealizado por David Paiva no longínquo início dos anos
90, a Caravela tem passado longos períodos no estaleiro e trocado diversas vezes
de tripulação, que atualmente é composta por David Paiva (vocais, guitarra,
baixo, violão), Ronaldo Rodrigues (teclados) e Élcio Cáfaro (bateria).
Em 2016, o Caravela lançou seu primeiro álbum,
Rascunho, mas ainda como dupla (Paiva e Rodrigues). Como trio plenamente
sinfônico, o álbum homônimo lançado dia 30 de novembro é o primeiro. Nas oito
faixas com vocais evocativos dos anos 70 e letras ecológico-sci fi, a predominância sinfônica
permite laivos de psicodelia e MPB, afinal, que progger brasileiro conseguiu
passar imune não apenas a ancestrais veneráveis como Terço ou Moto-Perpétuo,
mas também ao Clube da Esquina? Além disso, o batera Cáfaro já tocou com
medalhões como Edu Lobo e Chico Buarque.
Atmosfera abre em clima meio fusion com temperos até de MPB, para se sinfonizar no meio e já
antever (anteouvir?) um trabalho cheio de ótimos solos de teclado, baixo
inquieto e bateria sofisticada; os caras tocam muito. E atmosfera é algo que o
Caravela sabe muito bem criar, como seus contemporâneos italianos do Ingranaggi della Valle; confira Planeta-Estrela: começa com efeitos de viagem sideral, que
se vitamina pra virar hard prog quase,
tem larga ponte muito climática meio jazz-rock e de repente tudo para para um
solo de teclado fantasmagórico de filme sci
fi anos 50; só então entra um bocadinho de vocal, enquanto o instrumental
prepara para o arranque dos dois minutos finais, quando baixo e bateria
ziguezagueiam sob solaço de teclado. Uma senhora faixa!
Mesmo soando contemporâneas, a construção das canções
mostra como a rapaziada conhece bem as várias tradições em que está inserida;
dá para sentir como o prog clássico de bandas como PFM ou ELP está no DNA de
faixas como Futuro Passado, onde até o título remete ao clássico cinquentenário
do The Moody Blues, sem falar do final evocativo de The Prophet, do Yes. Longe
de ser cópia, é esse rearranjar de sonoridades com a adição de toques pessoais,
que torna bandas prog sinfônicas contemporâneas, como o Wobbler, tão
interessantes e dignas de escuta. Como o Caravela, que evoca um Vangelis
psicodélico, em Cosmos.
E quem sabe, se estivéssemos entre 1978-1981, Toque de
Constelações, em versão editada, não viraria single para tocar em rádios FM?
Sua pegada pop-prog não desagradaria a fãs de Flávio Venturini, Azymuth &
Cia.
“A caravela escarlate agora está fora do mar/entre as
nuvens e aves/agora ela está a voar” declaram os versos de abertura da
faixa-título. Se essa nau prefere o céu, problema dela, viva a diversidade. Só
esperemos que esse voo prossiga cada vez mais alto e que ela aterrisse mais
vezes, pelo menos de vez em quando, para nos trazer música tão boa.
Mais informações sobre a banda e aquisição do CD na
página do Caravela no Facebook:
domingo, 3 de dezembro de 2017
ESCULPINDO A SUPERAÇÃO
Abiane Souza vai até a cidade de Itajubá/MG para conhecer o escultor Reginaldo, que após um acidente ficou tetraplégico, mas não desistiu de viver. Confira!
sábado, 2 de dezembro de 2017
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
TELONA QUENTE 213
Roberto Rillo Bíscaro
É bem grandona a lista de filmes de horror que retratam
como se dão mal pessoas que cometem a bobagem de sair do Primeiro Mundo pra se
aventurar no Terceiro. A selva do Peru, cultos na América Central, hostels na Eslováquia (Europa Oriental
não é Primeiro Mundo) enfim, o primitivismo com que somos associados (Brasil
não é Primeiro Mundo, né?) é potente no mundo Horroroso.
Quando selecionei Aftershock (2013), no menu da
Netflix, nem pensava nisso. Tudo que queria era ver um disaster film fora do eixo Nova York-Los Angeles. Se A Onda foi
legal, quem sabe um terremoto no Chile também não poderia ser? A sinopse
apontava pra isso e não estava errada, apenas não assinalava que a película
seria mistura de horror em clima de filme de sobrevivência pós-apocalítica bem
ao estilo lixo, de produtoras como a legendária Troma. A presença de Eli Roth
no elenco deveria ter me alertado que o negócio não seria muito bem comportado.
Em filme-catástrofe, às vezes quase dois terços são
gastos com exposição e construção de suspense (redundante, porque escolhemos o
filme X, pois sucederá um tsunami). Isso tem a ver com economia orçamentária,
mas também tem a função de domar o espectador sobre quem deve gostar, pra quem
torcer, com quem se emocionar e anestesiá-lo pras dezenas de outras mortes, que
podem constar na categoria “divertida”, porque é de personagem que “merece”
perecer ou de figurantes e, quem não conhecemos pode se ferrar que tá de boa!
Em Aftershock, um terço ou mais da parte inicial é
usada pra mostrar os amigos se divertindo à beça na colorida e praiana
Valparaíso. Estabelecem-se os arrogantes, cusões, piranhas, enfim, todos os que
podem morrer e não ligaremos, porque são ou fizeram algo “desabonador”. Há uma final girl que só faltava ter isso
tatuado na testa; há o papai com filhota em Los Angeles, ou seja, tem gente “de
bem”.
Daí, ocorre o terremoto, mas em na estrutura de
Aftershock a apresentação não vale pra absolutamente nada. Não é exagero; você
pode tranquilamente botar o filme pra rodar e fazer qualquer outra coisa,
porque todo esse tempo não constrói ou prepara pra nada. Comece a prestar
atenção, quando a discoteca tremer.
Quem sabe leituras acadêmicas não possam ser feitas no
sentido de interpretar todo o introito preparatório como metáfora cínica
pós-verdadeira de que nada prepara ou atenua ou justifica nada? Mesmo que assim
o seja, a estrutura de Aftershock é cerzida, porque tempo demais é perdido numa
exposição que leva a nada.
O terremoto propicia a fuga de presos, então Aftershock
vira exploitation film anos 70, com
violência, estupro e nojeira barata.
E nenhuma informação disponibilizada na parte pré-terremoto – mal-gravada a
ponto de parecer vídeo feito com celular – terá importância no pós-catástrofe,
porque o foco é em ver morte sem distinção.
Tem filme que ganha
respeitabilidade de parcela “cabeça” de cinéfilos, porque é tão ruim que vira
bom; sabe aquela vibe Plan 9 From
Outer Space (1959)? Aftershock é tão ruim que não vira bom, mas quem ama
mambembice trash pode gostar. Ri
gostoso em algumas partes.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
BEIJADOS PELO SOL - II
O autor Rogério Andrade discorre sobre o tema em sua nova obra, que leva o título Beijados pelo Sol
No mês da Consciência Negra, o Tarde Nacional recebe o escritor Rogério Andrade para falar sobre seu novo livro, “Beijados pelo Sol”. O professor e contador de histórias discorre sobre os casos de albinismo na África e a perseguição que pessoas albinas sofrem naquele continente.
Na entrevista, ele também fala sobre a história oral do povo africano e suas pesquisas mais recentes. Comenta, ainda, a escravidão no Brasil e a dívida social que o país tem com os afrobrasileiros.
Rogério Andrade foi professor voluntário pela ONU na África por dois anos.
Para ouvir a entrevista, acesse o link:
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Assassinato de Albinos na África,
Literatura
terça-feira, 28 de novembro de 2017
TELINHA QUENTE 287
Comparadas a outros gêneros, comédias são meio raras em
minha dieta ficcional de qualquer plataforma. Já resenhei sitcoms tipo 3rd From The Sun, Hot In Cleveland, The Golden Girls e até algumas temporadas de séries
desistidas, como Mike and Molly. Não destituído de senso de humor,
identifico-me mais, de geral modo, com certa vertente meio “malvada” de humor
britânico, que acho irônico, mordaz, autodepreciativo, polimorficamente
perversinho. Mesmo assim, também não vejo muito, mas quando o faço, curto, como
com Twenty Twelve. Mas, prefiro dramas, thrillers, horror, policiais e eles
predominam.
Há meses, olhando o cardápio da Netflix, constatei que
disponibilizava as 3 curtas temporadas de Cuckoo, exibidas pela BBC Three a
partir de 2012. Como existe a opção de assistir off-line, baixei tudo pra ver
no tablet, naquelas horas ocas de
espera pelo horário de pegar a van pra voltar pra casa, percursos de ônibus e
afins. Como sitcom tem duração inferior a 30 minutos, é conveniente. Minha
escolha por comédias é bem utilitária.
Que acertado pra passar o tempo! Cuckoo preserva certa
excentricidade tipicamente inglesa, enquanto a adequa pra ser mais palatável,
sem cair na padronização globalizante que deixa tudo ianquizado. A menção aos
EUA não é mera farpa colonial; o país é capital na trama da série.
Quando o casal Ken e Lorna Thompson vão ao aeroporto
buscar sua sem-sal filha Rachel, descobrem-na casada com um estadunidense new age, que não curte muito trabalhar,
fala sobre paz e amor o tempo todo, enfim, um hippie em meio ao neoliberal cenário das Middlands. O contraste
desse anacronismo ambulante, mais as patetices do filho boca-suja e escroto
Dylan e dum casal de amigos, compõem o humor de Cuckoo, nome do marido de
Rachel. Nas temporadas 2 e 3, a personagem não aparece, porque o ator Andy
Samberg devia estar ocupado em seu país-natal com Brooklyn Nine-Nine. Cuckoo
desaparece no Himalaia, mas em seu lugar aparece o filho - que vivera isolado
num bizarro culto asiático e depois na máfia chinesa - mantendo o mesmo nível
de nonsense domesticado que seu
genitor garantira. Pras leitoras e leitores gays (acho que agora o termo da
moda é “não-binário, correto?), o bônus é que Dale é simpaticamente
interpretado por Taylor Lautner, da séries Crepúsculo e outras adolescentices.
Claro que jamais ouvira falar dele, mas achei-o bom.
É que essa parte do Cuckoo e seu filho era o que menos
me interessou. Lógico que parte fulcral da trama e do humor origina-se da
idiotice das personagens ianques (tem vingança colonial; e vingança
ex-metropolitana existe?) e até me acostumei com Dale pai e depois filho. Mas,
do que gostei mesmo foi dos Thompsons (exceto Rachel que é uó de nada a ver!),
especialmente do papai Ken, advogado gigantesco, que sempre faz merda; de Dylan
mandando os pais tomarem no rabo o tempo todo; de Steve Chance, o amigo escroto
que todo mundo detesta; e do resto do universo inglês.
Ou seja, pra variar, o que me atraiu mais foi o criado
supostamente pra ser periférico à história do invasor norte-americano. E isso,
porque há momentos bem doentinhos de humor negro inglês, como quando Ken acha
que seu velho chefe se masturbara vendo um vídeo de Rachel transando na
despensa da firma de advocacia. A revelação da verdade, numa reunião onde se
celebrava a promoção de Ken é tão politicamente incorreta... Ou quando um molho
estragado de batatas recheadas faz
uma rave caseira acabar em vomitaço e
Dylan... bem, assistam pra ver, mas envolve o sistema excretor.
Cuckoo pode ser acusado de meio que aguar certa
particularidade hardcore atribuída ao
suposto “humor britânico”, mas qual nacionalidade de humor não tem seu quinhão
de vulgaridade? O que fica é que quem curte escapar do que “todo mundo está
vendo” e gosta de ser excêntrico na medida, tem que descer ao porão da Netflix
e ver Cuckoo. É muito gostoso.
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
CAIXA DE MÚSICA 293
Fãs de rock progressivo sinfônico com farto uso de teclados vintage, tipo Hammond, Moog e MiniMoog, além de instrumentos raros, como cravo, dulcimer e glockenspiel, certamente estão familiarizados com a sonoridade ultra-anos 70 do Wobbler.
Formado em 1999, na pequenina Hønefoss, hoje o Wobbler está sediado em Oslo, capital de seu país natal. A formação conta com Lars Fredrik Frøislie (teclados), Kristian Karl Hultgren (baixo), Martin Nordrum Kneppen (bateria e percussão), Andreas Wettergreen Strømman Prestmo (vocais, guitarra, glockenspiel, percussão) e Geir Marius Bergom Halleland (guitarra e vocais).
Apesar de influenciados por prog mais moderno escandinavo, à Anglagard ou Anekdoten, os noruegueses sempre tiraram sua força muito mais da safra prog clássica inglesa e italiana, como atesta magistralmente seu quarto álbum, From Silence to Somewhere, lançado dia 20 de outubro.
Versando sobre temas como alquimia e metamorfose, o quinteto voltou mais intenso e sombrio, mas sem soar heavy prog. É o mais puro sinfônico contemporâneo – aquela síntese dialético-alquímica de tantas bandas-influência – para amantes de perícia técnica e de estrutura beirando o rococó. As quatro canções abundam em lirismo, grandiloquência, superposição de instrumentos, câmbios repentinos de andamento e textura.
Os quase 21 minutos da faixa-título abrem o álbum com intensidade e força dignas de um Relayer, no sentido do turbilhão corrediço e bombástico do instrumental, que, se claramente evoca o Yes, não para por aí. Como o melhor sinfônico pós-moderno, o Wobbler sabe que não pode desperdiçar a tradição na qual escolheu estar. Assim, a excelência da canção vem também pelo fato de às vezes num mesmo momento presenciarmos a coexistência de dois modos de executar o prog sinfônico. Algo como pensar em mashups de Genesis e Gryphon, de Jethro Tull com ELP e diversos outros. A flauta empresta ar folk durante vários minutos e bem no meio há interlúdio de calma meio experimental à King Crimson.
Depois de longa cavalgada emocional é necessário desadrenalizar e o madrigal mimoso de Rendered In Shades Of Green cumpre essa função em seus modestos dois minutos, antes de nos precipitar para novas, elétricas e eletrizantes torrentes sônicas.
Fermented Hours abre psych, com harmonia vocal chupada de Yes e guitarra pesada, apetecível até para fãs de Led Zeppelin ou Black Sabbath. Alucinante descreve mais ou menos corretamente uma canção que intercala esses momentos mais heavy prog com outros mais longos de sinfônico-virtuose que flerta com flamenco, teclado à Supper’s Ready, ELP, PFM.
O fecho de mais de treze minutos é Foxlight, que começa com outro momento de relaxamento para que o ouvinte se refaça da extravagância anterior. Mas isso dura apenas uns quatro minutos de clima pastoral meio Celeste, Genesis, daí há ponte flamenca que nos devolve ao drama de alto nível do prog sinfônico que medievalizará, será folk, será torturantemente intrincado. E um clássico instantâneo acaba.
From Silence to Somewhere tem tudo que detratores do prog sinfônico adoram jogar na cara de orgulhosos fãs do subgênero. Seu rigor formal é tamanho, que merece ser entronado no rarefeito panteão reservado para obras do calibre de Close to The Edge ou Days Of Future Passed.
Outra banda que você não pode alegar ser inacessível; olha só a discografia completa no Bandcamp!
sábado, 25 de novembro de 2017
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
TELONA QUENTE 212
Todo Dia Ela Acorda e Faz Sempre Igual
Roberto Rillo Bíscaro
As grandes vedetes do lucro na indústria
cinematográfica este ano são filmes de terror. A maioria tem baixos orçamentos
e quando bem-sucedidos multiplicam os investimentos feito coelhos,
diferentemente dos blockbusters milionários
que precisam de muito público no mundo todo pra dar lucro. 2017 teve até filme
de horror conquistando status de “filme sério”: há quem cogite que Corra! pode
receber indicação a algum Oscar.
O mais recente tira-fôlego de caixa-registradora é A
Morte Te Dá Parabéns, que com uma fração do orçamento, já bateu nas bilheterias
o queridinho cult Blade Runner sei lá
o quê, além de ter dado sova nos super-heróis na relação custo-benefício.
Escrito por Scott Lobdell e dirigido por Christopher B.
Landon, Happy Death Day é ágil, divertida, original e esperta variação do
subgênero slasher. A entojada Theresa
revive repetidamente o dia de seu assassinato por um maníaco mascarado. Mistura
de Pânico (1996) com Feitiço do Tempo (1993), A Morte Te Dá Parabéns foca na
tentativa da jovem em quebrar o ciclo, que ela logo percebe não poderá ser
eterno. Assim, embora algumas mortes colaterais ocorram, esse slasher basicamente consegue ser do
subgênero matando apenas uma personagem. É algo como a história duma garota
lutando pra ser a final girl,
elemento consagrado da convenção slasher.
Moralista por natureza, o horror já não pode mais punir
não-virgens em 2017, assim, em A Morte Te Dá Parabéns, a redenção de Theresa
poderá ocorrer se ela deixar de se achar. Ou não. E isso será mais um ponto pro
roteiro.
O público-alvo de filmes de horror é a adolescência e
Happy Death Day consegue satisfazer muito bem essa fatia de mercado, com seu
elenco bonito, atuando bem, com trilha-sonora maneira.
O resultado tem munição pra
atirar e acertar em um monte de gente; desde público teen que quer comer pipoca e zuar no cinema com a galera, até fãs outonais,
que poderão curtir mais essa mutação do bem no subgênero slasher e torcer pra que gere nova modinha de assassinos mascarados.
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
CONTANDO A VIDA 213
VELHOS E NOVOS ESTEREÓTIPOS POLÍTICOS: voto popular e Venezuela.
José Carlos Sebe Bom Meihy
A complexidade da compreensão cultural do povo brasileiro mostra-se a cada vez mais intrincada. A medida em que se mergulha na busca de entendimentos de manifestações individuais ou coletivas, vive-se o significado clássico do “só sei que nada sei”. É assim mesmo, e bom que seja dessa forma. Embrulhado é quando fechamos conversas explicando detalhes da vida, como se fosse possível dar conta de lógicas subjetivas, arraigadas no subterrâneo profundo da História. Não se afirma, contudo, que os esforços sejam inúteis. A ciência – em particular as ciências sociais - se organizam nesse sentido, e louva-se o ordenamento metodológico que preza o conhecimento racional, formal, cumulativo, como dimensão instruída da opinião pública. Aliás, é exatamente essa premissa que nos convida ao direito de acesso à crítica. Fala-se, portanto, da sagrada prerrogativa de todos terem escolas disponíveis, livres, abertas e acessíveis.
O enunciado desta crônica remete a um dos pontos mais instigantes do atual momento político nacional: o direito universal ao voto. No Brasil, tal condição apenas foi definida na Constituição de 1988, que aliás coroou a Abertura Política. Pode-se dizer que, de forma cabal, apenas com a atual Constituição se colocou termo no golpe civil/militar iniciado em 1964, definido pelos atos autoritários do que eufemisticamente se chamava “revolução”. Sem dúvida, entre alguns avanços, o voto do analfabeto foi a grande virtude conquistada. Antes, iletrados teriam que pagar impostos e demais encargos cidadãos, mas, votar lhes era impedido. Essa arcaica percepção decorre de uma esclerose diretiva que supõe que apenas quem sabe ler, escrever e contar tem domínio das faculdades decisivas comunitárias e nacionais. Os outros não. Decorrência natural dessa excrescência conceitual, quem tem curso universitário, por perverso e assassino que seja, até merece ter prisão especial. O absurdo dessa norma – que desmente a igualdade de direitos – tem por princípio privilegiar a cultura escrita, hierarquizando saberes, excluindo peremptoriamente os demais.
A proximidade do novo processo eleitoral, importante como todos os outros anteriores, traz à flor d’água o velho debate sobe quem sabe/pode votar, ou não. E assim emerge o mais agudo de nossos defeitos políticos, o direito de usar o conceito de “povo” como argumento seletivo para reivindicar a capacidade eleitoral de correntes contrárias a “nossa” opinião. Recuperando os mais arraigados princípios da soberania pela equivalência do grau de escolaridade e capital acumulado (lembrando que por muito tempo só poderia votar e ser eleito quem tivesse posse de terra), ousamos dizer com a boca cheia que “povo não sabe votar”. Como se os “cultos” fossem melhores, honestos, preparados para o comando de todos, excluía-se mecanicamente o “povo” da potência decisória nacional. Dois pontos merecem destaque nesse artifício aberrante. O primeiro diz respeito ao não reconhecimento do direito a escola por meio de cotas. Exatamente para que todos tenham, democraticamente, direito à educação formal, postula-se o livre trânsito letrado. Outro ponto permite constar que a classe média, justamente pessoas que se valeram dos benefícios gerais do estado, se aparta do composto coletivo quando percebe direcionamento diverso do seu, em termos de preferências eleitorais. Dá-se então o quase cômico contraditório: quando as manifestações públicas e coletivas são coerentes com os desideratos da classe média, então “somos povo”, e juntos vestimos a camisa da seleção de futebol, empunhamos bandeiras e cantamos as toadas desdobradas desde o velho “este é um país que vai pra frente”. O reverso se dá quando se nota que o “povo” tem posições que não condizem com o coro pretendido, e, nesse caso vale o conveniente “povo não sabe votar”. Nessas circunstâncias, aliás, evoca-se o chavão eternamente útil que apregoa “que a educação salva”, entendendo por educação o acesso à escola. Lembremos que o direito à escola, constitucionalmente estabelecido, é exatamente negado quando se fala de cotas para desfavorecidos social e etnicamente.
Em meio ao carnaval de confusões, uma novidade ganha corpo: “o Brasil vai virar Venezuela”. Na realidade, esse pressuposto alarmista tem certa idade, pois atualiza o que foi na geração passada Cuba e antes a União Soviética. Por trás da ignorância arrepiante sobre História e condições geopolíticas, esconde-se um maldoso fator que aterroriza a nossa incipiente classe média: o medo. Revivescendo o infantil pânico causado pelo comunismo ou pelo socialismo em qualquer versão, pessoas que temem a democracia plena, e em cega defesa própria, exercitam o que não conhecem, favorecendo assim fantasias improváveis, soluções políticas adversas ao gosto nacional. O Brasil não tem e nunca teve vocação para regimes comunistas, socialistas ou correlatos. Jamais seremos a “nova Venezuela”, como nunca fomos Cuba, China, Armênia. Nosso perfil histórico é outro, e se deixarem abertas as comportas das eleições poderemos sim encontrar o caminho sempre interrompido por segmentos que temem o povo e lhes negam condições que, afinal, consagram o dito “a voz do povo é a voz de Deus”. Só há democracia com o pacto consagrado em eleições livres. E que não seja agora que fundamentalistas que confundem os democratas intransigentes com a existência de uma esquerda radical entre nós. Somos povo e pronto. Queremos democracia ampla, direito de voto respeitados de todos, para todos e por todos.
terça-feira, 21 de novembro de 2017
TELINHA QUENTE 286
Roberto Rillo Bíscaro
Outra forma de denominar o Nordic Noir – filmes, séries
e livros policiais produzidos nos países escandinavos – é Scandi Noir. Como
diversos países vem tirando casquinha desse estilo narrativo gélido, surgiram derivados,
como o Celtic Noir, quando as produções são na Escócia ou País de Gales, caso
das excelentes Shetland e Hinterland (esta última, disponível na Netflix).
Em janeiro deste ano, os seis capítulos da primeira
temporada de Cardinal, produzidos pela canadense CTV ensejaram a criação de
novo derivado, o Can Noir. Encenada no norte do país, neve é o que não falta
nessa adaptação dum romance de Giles Blunt, que tem uma série de livros
protagonizados pelo problemático e macambúzio detetive John Cardinal.
A descoberta dos restos mutilados e congelados duma
garotinha reabrem a investigação de seu desaparecimento e agora assassinato. O
calado e metódico Cardinal fora afastado do caso, quando do sumiço, mas a
descoberta do cadáver o traz de volta e reacende sua obsessão, que apenas
aumenta, quando se constata que há assassino serial agindo na pequena cidade
gelada. Como parceira, Cardinal ganha Lise Delorme, realocada do departamento
de crimes financeiros. O que John ainda não sabe, é que a moça tem agenda
própria.
Cardinal, a série, começa meio morna, apesar do gelo da
ambientação – como se não bastassem os capotes e toneladas de neve, a música
incidental é bloco de gelo ameaçador e triste, ainda que presente em cenas
desprovidas de suspense. Sabe aquela história de tentar criar clima onde não
tem, tipo na temporada primeira de Slasher? Mas, tudo melhora sensivelmente,
quando o serial killer entra em ação no
segundo episódio. Daí, o negócio engrena e a série fica bem tensa e doentia.
O romance original chama-se Forty Words For Snow,
enfatizando então a frialdade do local, sempre muito importante em Noirs
Nórdicos e nesse Can Noir também, óbvio. Como a ideia é adaptar outros livros
de Blunt, a série ganhou o nome do detetive e aí reside o maior pecadilho de
Cardinal. Por mais que tenha se esforçado, o roteiro não consegue fazer com que
nos importemos com John e seus problemas, como acontece em qualquer versão
de Wallander ou na modelar River
(disponível na Netflix). Billy Campbell – da fraca adaptação ianque pra
Forbrydelsen – é apenas um meganha calado com problemas, tão frio quanto a
paisagem. Isso não elimina Cardinal como série assistível, mas não justifica
que leve o nome do detetive. Fãs de Revenge amarão ver Karine Vanasse como
parceira de John e mais interessante que ele, aliás. Karine era a Margaux
LeMarchal (nome chiquérrimo!) da novelona de vingança de Emily Thorne.
Se você tem Netflix e quer série que te dê frio na
espinha pela ambientação e depressão, veja primeira a islandesa Trapped,
recentemente adicionada ao serviço de streaming. Caso já a tenha visto, vá pra
Cardinal com segurança, vale a pena. Mas, veja as duas.
Cardinal foi renovada pra
mais 2 temporadas. Seguro que verei a segunda.
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
CAIXA DE MÚSICA 292
Roberto Rillo Bíscaro
Durante os anos 80, um senhor barbudo com voz rouca e parecendo
um anão de jardim, conquistou-me diversas vezes com baladas, temas de filmes e
novelas globais: Up Where We Belong, Edge Of a Dream, Even a Fool Would Let Go,
Don’t You Love Me Anymore são amadas e escutadas até hoje. Provavelmente a
coisa mais “pesada” foi o R’ n’ B meio domesticado de Unchain My Heart. Pelo
Som Pop ou símile já ouvira o definitiva cover
de With A Little Help From My Friends, dos Beatles, que entrou de vez pro
imaginário de muitos atuais 50tões brasucas, por ser tema de abertura da série
Anos Incríveis. Mas ouço/adoro muito mais as baladas.
A escassa mídia à mão naquele tempo aqui no interior
afirmava que o melhor de sua carreira já passara, e que o britânico a destruíra
devido ao abuso de substâncias químicas. Nunca me importei em saber detalhes ou
conhecer muito além do mencionado. OK, You Are So Beautiful tocava sempre nos
programas de flashback (recentemente
ainda a ouvi num carro sintonizado num desses programas), mas, quando desisti
de ouvir rádio em algum momento dos 90’s, perdi contato com Joe Cocker. Sabia
que lançava álbuns, percebi que seu visual ficava cada vez mais domado – tipo
de senhorzão alinhado mesmo – mas não escuto nada “novo” há uma geração. Soube
que participou do jubileu não sei do que da Rainha, compartilhei vídeos de
minhas baladas favoritas, quando morreu de câncer no pulmão, em 2014, mas Joe
pertencia aos cristalizados anos 80
Creio que assim permanecerá; suspeito que jamais pintará
ímpeto de conhecer muito do que veio antes ou depois. Mas, isso não seria
motivo pra eu deixar escapar Joe Cocker: Mad Dog With Soul, documentário deste
ano, da Netflix, que traça perfil bem chapa-branca do fã de Ray Charles e
Aretha Franklin, nascido na industrial Sheffield. Os 90 minutos de depoimentos
e imagens de arquivo funcionam mais como tributo (merecido) e cronologia pra
quem deseja conhecer medianamente sua carreira.
Catapultado ao semi-endeusamento pela seminal
performance em Woodstock, Cocker começou megaturnê pelos EUA, onde não ganhou dinheiro,
mas era tanta doideira que afetaria sua vida pessoal por décadas, porque foi
nela que o cantor se viciou em tudo quanto lhe davam. A partir daí, amigos,
parentes e colaboradores pintam boa autoimagem, além de construírem Joe como alma
extremamente gentil, incapaz de dizer não ao que lhe empurravam goela ou nariz
abaixo; incapaz de lidar sobriamente com as tais pressões do estrelato e do show bizz. Enfim, é a visão goethiana do
artista genial consumido pela arte. Nem o feroz mercado fonográfico parece ter
culpa alguma: como Cocker era sensível e afável demais, era antena pronta pra
captar quaisquer vibrações negativas.
Psicologicamente é retrato por demais raso e o coloca
mais como receptor do que como agente. Rita Coolidge afirma que na primeira
turnê Cocker chegou a ser ameaçado fisicamente pelos organizadores, quando
tentou desistir. Quando é preciso dizer que despediu seu empresário de anos por
carta e nunca mais falou com ele novamente, a coisa fica só nisso. Joe era
impulsivo, decidia algo e pronto, não há análise. Até parar de beber foi assim;
bateu um clique depois de velho e parou facilmente. Fodástico, heim?! Joe
Cocker: Mad Dog With a Soul não vira tabloide, porque evita mergulhar no lado
sombrio; mostra apenas a superfície.
O documentário jamais
entrará pra listas de mais influentes sobre roqueiros, mas se você, como eu, só
queria mesmo um panorama da carreira, até que serve.
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