Ano passado, durante excursão à Escócia, encontrei casal
australiano bastante amigável. O quebra-gelo pra iniciarmos conversas
frequentes foi eu indagar sobre Ballarat, cidade onde se passa a fofa The
Doctor Blake Mysteries. Perguntei se valia a pena conhecê-la e descobri que
marido e mulher eram também fãs do show
com a audiência mais alta da ABC1 e sempre entre os 5 mais vistos
nacionalmente, desde sua estreia, em 2013. Entre fevereiro e março, a emissora
exibiu os 8 episódios da quarta temporada. A Austrália ainda deve estar em
crise econômica, porque a redução do número – dez nas temporadas 1 e 2 – foi
justificada por escassez de verbas.
O Dr. Lucien Blake continua resolvendo mistérios na
sessentista Ballarat. Por mais que se movimente, seu cabelo e paletó e gravata
seguem impecavelmente ordenados e limpos. Craig McLachlan exagerou um bocadinho
no seu peculiar jeito de dizer “yes”, mas mesmo que não seja um Lawrence
Olivier não dá pra negar a diferença do meninão de praia ex-companheiro de
novela de Kylie Minogue pro agora sisudo detetive diletante de Down Under.
Pela primeira vez, Blake investiga sem obstáculos ou
inveja por parte do chefe superintendente. Frank Carlyle é mais do que disposto
a deixar seu médico forense fazer todo o trabalho dedutivo. Desde que mostre
resultados, tem carta-branca. Moderno esse Frank. E espertinho, afinal,
facilita pra ele. O Chief Inspector Mathew Lawson voltara ao final da temporada
3 pra dar paz à vida de Blake, mas sai logo no primeiro episódio da quarta,
pelo jeito, pra não mais voltar. Tadinho, ele não merecia aquele desfecho.
Mas a vida do Dr. Blake está longe da tranquilidade,
porque se Frank Carlyle facilita-lhe por um lado, por outro, uma personagem
aparece pra complicar o idílio com sua governanta. Quem não torce por Blake e
Jean?
Os casos mantem a estrutura consagrada: assassinato/o
primeiro suspeito nunca é o culpado/Blake deduz o culpado do nada. Nessa
fornada há até trama envolvendo troca de casais, que nos 70’s entraria na moda
com o nome de swing. Como na
temporada anterior, o último episódio traz fantasma do passado pra atormentar
Blake; a motivação é meio forçação de barra, mas serve pra caminhar a trama da
vida pessoal do diletante.
A audiência continuou alta, parece que vai rolar até
filme pra cine ano que vem, então é bem provável que The Doctor Blake Mysteries
ganhe quinta temporada. Tomara que tenha como ver, porque sigo achando uma
fofura. E o Brasil parece que continua desconhecendo. Aff.
Notícia animadora da semana passada, que indica esforços nos países africanos onde o albinismo é estigma que pode custar (muitas) vidas.
Começa esta sexta-feira o primeiro fórum sobre albinismo em África
Encontro é apoiado pelas Nações Unidas e decorrerá na Tanzânia; objetivo é desenvolver medidas para combater ataques e discriminação enfrentada por pessoas com a condição.
O primeiro fórum regional para ação sobre albinismo, apoiado pelas Nações Unidas, decorrerá a partir desta sexta-feira em Dar es Salaam, Tanzânia.
O objetivo é desenvolver medidas específicas para combater os ataques e a discriminação enfrentados por pessoas com albinismo em diversos países da região.
Violações
Pessoas com albinismo na região da África Subsaariana estão a enfrentar violações extremas de direitos humanos.
Elas sofrem ataques físicos impulsionados por crenças errôneas de que partes dos seus corpos podem ser usadas em poções e outras práticas de "feitiçaria".
Mães e Crianças
A maioria das vítimas são mulheres e crianças. As pessoas com albinismo também enfrentam discriminação e estigma, especialmente mães de menores com albinismo.
Segundo a especialista independente das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Albinismo, Ikponwosa Ero, há muitas medidas "práticas, simples e eficazes" que alguns países usaram com sucesso para abordar as questões enfrentadas por pessoas com albinismo.
Ela citou "escritório e orçamento específico para o assunto, linha telefónica para informe de crimes e ameaças e regulamentação de 'feitiçaria' e praticantes de medicina tradicional, entre outras".
Melhores Práticas
A relatora defendeu que estas ideias "devem ser partilhadas como melhores práticas e desenvolvidas como um plano continental para enfrentar com êxito a questão".
Cerca de 150 pessoas de 28 países da região devem participar do fórum. Metade dos participantes são da sociedade civil e cerca de 20% de governos. Também haverá representantes de instituições de direitos humanos, especialistas da área e académicos.
Durante a maior parte de sua já longa carreira o Big Big
Train tem sido independente, exceto por um par de anos nos 90’s, quando assinou
com a Giant Electric Pea. Também tem sido banda de estúdio; apresentações ao
vivo começaram ano passado, em Londres, saudadas pela diminuta comunidade prog.
Fundada no início dos anos 90 por fãs do Genesis, Van Der
Graaf Generator e da Neo Prog IQ, o Big Big Train sempre esteve na fronteira
entre o Prog e o Neo. A familiaridade com o venerável grupo de Peter Gabriel/Phil Collins não pode ser olvidada. A voz de David Longdon às vezes
lembra a dos 2 colegas mais famosos e o baterista é Nick D’Virgilio, um dos
substitutos das baquetas vagas pela defecção de Collins e que tocou no
desastroso Calling All Stations (1997). Não usemos isso contra o batera e nem a
similaridade vocal contra Longdon, que está cantando melhor do que jamais, mas
os fatos explicam bastante porque alguns momentos do nono álbum – Folklore,
lançado dia 27 de maio – soam como We Can´t Dance (1991) poderia ter sido, caso
Banks/Collins/Rutherford estivessem com tempo para fazer boa música e não
consumidos com intermináveis turnês e contagem de dinheiro. Ouça a faixa-título
e Wassail e me digam se não tem jeitão de Genesisearly 90’s.
A beleza do BBT é que a influência genesiana e de outros
clássicos progressivos, como Jethro Tull e Renaissance, é ressignificada para
criar sonoridade que é da banda, mas claramente pertence a uma tradição
subgenérica, a saber, a do rock progressivo de mat(r)iz britânica. Ouça a
faixa-título novamente e me digam se não tem teclado fase Banks início dos 70’s
e música celta, coexistindo com a vibe
noventista.
A influência celta deve justificar o folclórico título do
álbum. Em Winkie, a pastoralidade é rapidamente substituída por dança de
aquecimento pra batalha entre celtas e saxões. Dá vontade de pintar a cara de
azul, calçar os sapatos vermelhos da Kate Bush (ouça a faixa-título de seu
álbum de 93 e me digam...) e lutar pela Escócia! As canções, porém, nunca são
lineares; o mutável clima em Winkie reflete a história do pombo-correio que tem
a missão de transportar mensagem que pode salvar soldados ilhados. Quase 8 minutos
e meio de extravagância prog e isso nem é o melhor do álbum.
Winkieeeeeeeeeeeeeeee!
London Plane, Along The Ridgeway e Salisbury Giant
intercalam aquela melancolia prog tão pastoral britânica de começo dos anos 70
com momentos mais vibrantes – mas não pesados – prenhes de Mellotron, Moog e
flautas e de vez em quando uma piscada para o Yes e o Tull. Como Longdon canta!
E ainda nem falei sobre os picos de excelência de Folklore.
O primeiro vem com os mais de 7 minutos de The Transit Of
Venus Across The Sun. Quer mais prog do que paralelizar um relacionamento com
um fenômeno astronômico? Se você digitar o título da canção no Google,
encontrará todas as informações e até vídeos sobre o trânsito de Vênus. Orgulho
de ser fã prog! A canção abre como hino religioso, vira melodia do Genesis fase
12-string guitar e vocal muito Peter
Gabriel e segue se movendo numa melodia memorável com harmonias vocais de
arrepiar e o orgasmo quando todos esses elementos se unem.
A catarse everéstica fica por conta da dúzia de minutos e
meio de Brooklands, épico progressivo que quando se acha que vai acabar, muda o
andamento e nova avalanche instrumental soterra o ouvinte numa canção
espertamente construída por uma guitarra que não sola quilometricamente
sozinha, mas à Steve Hackett costura por baixo unindo e conduzindo tudo.
Brooklands é a penúltima faixa de Folklore, que não acaba
com essa apoteose, embora pareça duro de crer. Telling The Bees ajuda a baixar
o surto de euforia (assim que você despressionar a tecla repeat) com um pequeno milagre início dos 70’s, que logra misturar
country com soul e ainda Tony Banks.
Tipo The Cowboy Junkies encontra Gladys Knight & The Pips e Tony Banks.
O Big Big Train finalmente conseguiu achar o equilíbrio
perfeito entre progressivo e neo prog, entre suas influências explícitas e seu
talento próprio, entre técnica e emoção. O resultado é um álbum que já pode
constar dentre os melhores do ano no subgênero.
A catarinense Isamara sofreu acidente rodoviário tão grave que resultou na amputação de ambas as pernas. Iniciou-se campanha para a jovem poder colocar próteses. Mas, a história envolve muito mais que isso, porque há a questão do peso, do trauma que pode aumentar a ansiedade. Conheça melhor a história de como Isamara valentemente está superando as adversidades:
Os líderes das confissões religiosas que trabalham na província de Tete, em Moçambique, foram convidados esta semana pelo governador local, Paulo Auade, a disseminar a mensagem nas suas comunidades sobre a necessidade de proteção de pessoas com albinismo. A região é uma das mais afetadas pelo sequestro e assassinato de albinos, sobretudo crianças.
«Digam, durante as orações, que a pessoa albina é tão normal como qualquer um de nós, que simplesmente tem um problema de pigmentação da pele. Digam que o cabelo, o osso, o olho, não têm mercúrio para comercialização, e que, portanto, o albino não é nenhuma riqueza», afirmou o Auade.
Segundo informações veiculadas pela Agência de Informação de Moçambique (AIM), além do sequestro e assassinato de pessoas com albinismo, os grupos criminosos têm vandalizado túmulos e exumado os corpos para a extração de ossadas, como aconteceu recentemente no posto administrativo de Zóbuè, em Moatize, e na cidade de Tete.
Este tipo de crimes está ligado a crenças, segundo as quais as poções preparadas com partes dos corpos de albinos trazem sorte e riqueza. Um relatório recente da organização não governamental «Under The Same Sun» revela que, nos últimos anos, foram registados 457 ataques a albinos, entre os quais 178 homicídios, em 26 países da África. O maior número de casos ocorreu na Tanzânia, seguindo-se a República Democrática do Congo e o Burundi.
Órgãos de indivíduos com albinismo não têm poderes mágicos, recorda o chefe da ONU
No Malawi, médicos tradicionais rejeitam envolvimento no assassinato de albinos; em Moçambique, Isabel Novella canta pelo fim dos assassinatos de albinos.
A crença "completamente errada" de que poções e amuletos feitos com partes do corpo de pessoas com albinismo têm poderes mágicos" levou ao aumento da procura, em alguns países, por tais restos humanos".
O Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon faz a afirmação na sua mensagem alusiva ao Dia Mundial de Conscientização sobre o Albinismo, 13 de Junho.
A crença, recorda Ban, levou a ataques, sequestros e assassinatos de pessoas com albinismo e até ao roubo de seus corpos nos cemitérios dalgumas partes do mundo.
Na África Austral, Malawi, Moçambique e Tanzânia têm os piores cenários reportados.
No Malawi, a onda de assassinatos levou o Tribunal Supremo a decretar o banimento da prática de curandeirismo.
A decisão do Supremo surge depois de três residentes de Mzuzu, cidade nortenha daquele país, terem apresentado uma queixa sobre o trabalho dos curandeiros. Um deles disse que pagou muito dinheiro a um curandeiro para recuperar o amor da sua vida e em nada resultou.
O advogado dos três indivíduos, George Kadzipatike, explicou que outro cliente reclamou que a onda de assassinatos é apoiada pelos “curandeiros que receitam ossos de indivíduos albinos para serem usados em actos que geram riqueza milagrosa”.
Nos últimos dois anos, muitos albinos foram mortos no Malawi com base nessas afirmações supersticiosas.
O banimento proposto pelo Supremo inclui os chamados médicos tradicionais e mágicos.
A Associação Malawiana de Albinos saudou a iniciativa.
Mas os médicos tradicionais querem desafiar a medida. Argumentam que não estão envolvidos em magia ou venda de órgãos de indivíduos albinos.
Robins Zaniko, Secretário-geral do Conselho Internacional de Medicina Tradicional do Malawi, disse que a medida “é injusta, porque não há nenhum meio para misturar órgãos humanos com algo que será consumido. Normalmente fornecemos às pessoas remédios tradicionais para tomarem e curar doenças”.
Ambição e ignorância
Segundo Zaniko, menhum médico tradicional foi detido em conexão com o assassinato de indivíduos albinos.
Para Timothy Mtambo, director executivo do Centro de Direitos Humanos e Reabilitação, “banir os curandeiros não é a resposta adequada para combater o assassinato de albinos. É preciso encontrar mecanismos para lidar com os suspeitos e provar a sua responsabilidade”.
No Malawi e noutros países da África Austral, onde os sistemas de saúde são deficientes, muitas pessoas recorrem aos curandeiros.
Desde novembro de 2014, 18 pessoas com albinismo foram mortas no Malawi, e cinco são dadas como desaparecidas, denunciou um relatório recente da Amnistia Internacional.
Em Moçambique foram já reportados casos de assassinato de curandeiros. Alguns casos foram julgados e condenados, mas não estudos exaustivos sobre a dimensão da situação.
Nos três países - Malawi, Tanzânia e Moçambique – decorrem campanhas para inverter a situação.
A cantora moçambicana Isabel Novela, por exemplo, gravou “Ntsumi” (anjo) para ajudar a sensibilizar as pessoas a não assassinar as pessoas com albinismo.
“Não tire a minha vida, irmão…meu corpo não dá sorte, não perca o teu tempo”, canta Novella personificando uma pessoa com albinismo.
Novella diz que é importante “dialogar através da arte com os que perseguem os albinos para mudarem o comportamento influenciado pela ambição sem medidas e ignorância”.
Há alguns meses, recebi telefonema da Rogéria Lemos, assessora de imprensa da Sociedade Brasileira de Dermatologia, convidando-me para participar do encontro Albinismo Além Do Que Se Vê, na Santa Casa de São Paulo. A ideia era articular o Programa Pró-Albino ao Dia Mundial de Conscientização do Albinismo. Amei a iniciativa e queria conhecer a equipe de médicos e (re)encontrar com os albinos. A princípio, o convite foi palestrar sobre minhas experiências, desafios e superação. Até aí, tudo bem. Acostumado ao tema e à plateias, aceitei de imediato.
Mal sabia eu o que Rogéria arquitetava, porém...
Um belo dia, depois de cumprimentar aquele sotaque carioca que já conhecia só de ela falar "alô", ela perguntou se eu conhecia o quadro Repórter Por Um Dia, do Fantástico e se topava fazer similar no evento do dia 11 de junho. Teria que entrevistar participantes e gravar os áudios em off apresentando o evento e as palestras. Mesmo surpreso e algo inseguro, aceitei na hora, porque, achei que seria forma das pessoas com albinismo assumirem protagonismo e também porque imaginei que seria divertido. A produtora Renata Ruffato e equipe me enviaram o roteiro e passei quase todo o evento envolvido com as gravações. Assim que tiver o vídeo, posto e relato a experiência.
Albinismo Além Do Que Se Vê reuniu profissionais da área de saúde, pessoas com albinismo, familiares e interessados em aprender sobre o tema. Acredito que todos sem exceção saíram com algo novo de lá. As palestras médicas foram muito interessantes e acessíveis. Depois de minha fala, houve a exibição de um vídeo-depoimento que o albino Hermeto Paschoal gravou especialmente para a ocasião.
Parabéns à equipe e obrigado por terem me convidado. Sempre às ordens.
Nos anos 80, muita gente aprendeu onde ficava a Etiópia,
porque astros pop britânicos e norte-americanos gravaram canções em prol das vítimas da fome no país africano. Não lembro se o vizinho Sudão entrou nos
holofotes jovens, mas uma guerra civil que se prolongaria por anos eclodiu,
gerando altas matanças e êxodo maciço. Refugiados caminharam milhares de
quilômetros até campos no Quênia, onde muitos permaneceram anos a fio.
Em 2000, os EUA concederam asilo a uma porção deles,
cognominados Os Garotos Perdidos do Sudão. O eficiente The Good Lie (2014)
aproveitou esse mote pra narrar uma história de sobrevivência, superação,
trauma e gratidão, com atores principais que viveram as situações descritas ou são
parentes de quem experimentou tanto sofrimento. Ter feito a longa travessia na
savana africana, cheia de animais famintos, rios onde flutuavam cadáveres e soldados
implacáveis confere muita força a interpretações não necessariamente profissionais.
Esse é um dos trunfos de The Good Lie; inclusivo, mas sem prejudicar a
qualidade artística/comercial.
São 2 partes bem distintas, mas que prendem a atenção por
diferentes motivos. Na primeira, o ataque fulminante à aldeia, que deixa o
grupo de crianças perambulando ao léu numa vastidão hostil em mais de um
sentido. Na segunda, a adaptação (ou não) aos diametralmente opostos Estados
Unidos. Choques culturais explorados com humor simples e o bom mocismo
contagiante pra alguns estadunidenses antes preocupados apenas consigo mesmos,
que sequer sabiam se os jovens eram da Somália, Senegal ou Sudão. Não há rasgos
de originalidade, mas isso nunca foi o interesse do roteiro mais crônica da
coprodução EUA-Quênia-Índia, dirigida pelo canadense Philippe Falardeau e
lançado em DVD no Brasil com o nome A Grande Mentira (parece, não vi nesse
formato).
A mentira fica por conta dum ato de gratidão no final,
conceito preparado pro espectador numa cena de escola noturna, onde discute-se
As Aventuras de Huckleberry Finn, mais de uma vez definido como o “grande
romance da democracia norte-americana”.
Correto, pertinente e feito pra que nos sintamos bem, The
Good Lie é acessível e prato cheio prum trabalho escolar multidisciplinar, de onde
professores de Geografia, História, Filosofia, Sociologia, Biologia, Artes,
Inglês e talvez até de exatas (nunca a minha praia, daí nem imagino como) podem
tirar temas pra aulas e discussões.
Se casado com Hotel Ruanda e Difret, por exemplo, daria
excelente miniciclo de discussões africanas, pra começar a minimizar nosso
descaso pra com o continente (inclusive deste blog, que o enfoca mais quando o
assunto é matança de albinos).
África celebra o Dia internacional dos albinos, uma minoria perseguida
Perseguidos, agredidos e até mesmo assassinados em alguns países da África subsaariana em nome de crenças vinculadas à bruxaria, os albinos estão no centro do debate nesta segunda-feira, Dia internacional de sensibilização ao albinismo, data criada em 2015 pelas Nações Unidas.
Após vários anos de 'lobby', os direitos dos albinos entraram na agenda internacional, como fica claro com a criação do cargo de especialista independente sobre albinismo pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, atualmente ocupado pela nigeriana Ikponwosa Ero.
"No mundo todo, os albinos sofrem discriminações que limitam sua participação na sociedade", afirma à AFP Ero, afetada por esta condição. O albinismo, uma ausência congênita da produção de melanina, se caracteriza pela pele pálida e os cabelos brancos.
Os assassinatos, exumações ilegais ou agressões a albinos na África subsaariana representam um problema grave, que os especialistas têm dificuldade de dimensionar.
Estes crimes estão vinculados a crenças segundo as quais as poções preparadas com partes dos corpos dos albinos trazem sorte e riqueza.
De acordo com um relatório publicado em 2 de junho pela ONG canadense Under The Same Sun (UTSS), nos últimos anos foram registrados 457 ataques, entre eles 178 homicídios, a albinos em 26 países da África.
Os países citados com mais frequência são Tanzânia, com 161 ataques, República Democrática do Congo (61), Burundi (38), Malauí (28) e Costa do Marfim (26).
No Malauí, os albinos estão sofrendo "uma onda sem precedentes de ataques brutais", indicou nesta semana a ONG Anistia Internacional, que acusou a polícia de ser incapaz de acabar com este flagelo.
Pelo menos 18 pessoas com albinismo foram assassinadas no país desde novembro de 2014, e outras cinco estão desaparecidas, indicou a organização, baseada em Londres.
"O comércio macabro é estimulado pela crença de que os ossos dos albinos contêm ouro", denuncia o relatório.
Assim, a população albina do Malauí, estimada entre 7.000 e 10.000 pessoas, vive "em um clima de medo constante".
"Não deixam nem mesmo os mortos em paz. A polícia do Malauí contabiliza pelo menos 39 casos de exumação ilegal de cadáveres de albinos ou de pessoas em posse de ossos ou de membros de albinos", acrescenta o relatório da Anistia.
Ikponwosa Ero lembra, citando um relatório da Cruz Vermelha, que o corpo "completo" de um albino pode valer até 75.000 dólares, o que estimula a cobiça em populações miseráveis.
Nesta segunda-feira, o presidente da Tanzânia, John Magufuli, comemorará o dia internacional do albinismo na cidade de Dar es Salaam, o que ilustra como vários países africanos vêm enfrentando cada vez mais o problema, segundo especialistas.
"A vontade política existe, mas o maior problema são os recursos", lamenta Ero.
"Os países não têm, por exemplo, os meios necessários para realizar investigações médico-legais e coletar informações", afirma a especialista da ONU.
Nosso
historiador-cronista questiona o uso nacionalista de eventos como Olimpíadas e
exemplifica com letras de canções que, desde a época da ditadura, cumprem
objetivos, digamos, não tão nobres.
OLIMPÍADA,
MANIPULAÇÃO ESPORTIVA E ALIENAÇÃO POLÍTICA.
José
Carlos Sebe Bom Meihy
Quando
da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, um mundo de novidades chamou minha atenção.
Detalhes regionais de cada país, idiossincrasias culturais, exotismos
peculiares dos jogadores, enfim, uma série de novidades exóticas se apossou do
imaginário coletivo. Como qualquer cidadão, coloquei meus pressupostos em
questão e me abri a aprendizados, alguns interessantes, outros bizarros. Um
deles, talvez o mais curioso, se remete a uma questão de tola aparência: o teor
dos hinos nacionais cantados nas aberturas. De tal maneira isso me alarmou que
arrolei alguns fundamentos de mensagens, contidas nas letras. Todos sem exceção
– como aliás, o nosso próprio hino nacional – falam da iminência de uma guerra
como se ela fosse estalar amanhã, logo cedo. E dizeres ufanistas –
inapropriados mesmo – falam de lutas sangrentas, guerras com inimigos
perversos, agentes implacáveis destruidores da paz e harmonia cultivadas na
intimidade da pacatez dos lares. Em coerência com a cadência marcial, as letras
consagram o vigor nacionalista e patriota, sempre idealizados. É claro que
apoiei explicações no contexto da lógica do século XIX, ocasião em que os tais
hinos foram gestados, postos na ordem do dia e propalados na oficialidade
conveniente aos estados nacionais. Sem dúvida, hoje seria obsoleto dizer algo
como “ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil” ou “dos grilhões que nos
forjavam, a perfídia, astuto ardil”. É lógico que a noção de liberdade no mundo
globalizado não está mais ligada ao vínculo coercitivo físico, e sim moral.
Portanto, a liberdade hoje tem outros protocolos que não o julgo armado.
Mas,
não são apenas as canções (digamos) oficiais que me atraem. Pelo contrário,
elas servem de impulso para outras legendas. Sinceramente, fico muito
preocupado com os usos de eventos mostrados pelas diferentes mídias, em escala
global. As “Olimpíadas”, por exemplo, me assustam frente aos significados que
podem adquirir. É lógico que no cosmo capitalista tudo vira mercadoria, mas não
é só isso, não. Desdobramentos como turismo, comércio de produtos relativos à
divulgação do evento, mesmo as legítimas disputas com medalhas servem de propaganda
dos países representados planetariamente. Sim, preside um caráter ideológico
nesse evento. Não que o esporte deixe de existir, mas a noção de “melhor do
mundo”, quase sempre, se faz passível de críticas. Objetivamente, falo dos usos
ideológicos do magnífico espetáculo. É exatamente aí que entra a crítica às
“musiquinhas” que se remetem ao assunto. Lembremos que durante os anos ferrados
da ditadura, na Copa de 1970, a voga era cantada em estrofes do famigerado “Pra
frente Brasil” como se “De repente/ é aquela corrente pra frente/ Parece que
todo o Brasil deu a mão/ Todos ligados na mesma emoção/ Tudo é um só coração!”.
Aliás, vale lembrar também que a empolgante “Eu te amo meu Brasil” da dupla Dom
e Ravel transpôs o tom esportivo e se tornou uma espécie de hino da ditadura.
Não resta dúvida que Olimpíada é uma expressão
também política. Basta lembrar, por exemplo que o próprio idealizador da versão
moderna dos velhos jogos, Barão de Coubertin, pretendia unir os povos pelo
esporte. É sob esta chave que se coloca em questão a musiquinha proposta para a
nova temporada olímpica, brasileira. Três figuras aparentemente desconexas se
juntaram para gravar o “Se liga aê”. Baby do Brasil, Sergio Mendes e Rogério
Faustino dão ritmo acelerado às seguintes palavras “É se liga aê/ sou
brasileiro e no balanço vou dizer/ É, se liga aê/ sou brasileiro e no balanço
abro os braços pra você”. Pronto: resta pensar em como nos posicionaremos entre
a alegria do esporte campeão e o uso ideológico da festa. É claro que vou
entoar o “Aê”, mas tomara que o eco não me deixe esquecer que vivemos um tempo
golpeado por injustiças implacáveis.
Desde 2009, Modern Family merecidamente papa Emmy atrás
de Emmy como melhor comédia da TV norte-americana. Desde a temporada de
estreia, o Blog do Albino Incoerente resenha a sitcom, sempre reservando mais
elogios do que reclamações. Dinâmica, criativa, gostável e muito engraçada,
Modern Family arrancava gargalhadas e deixava este resenhista por vezes atônito
com a maestria dalguns episódios.
Inclusiva ainda que timidamente (o casal gay Mitch e Cam
nunca se beija ou demonstra afeto) e quebradora dalguns preconceitos como o do
casamento intergeracional, Modern Family já assegurou o título de “clássico” de
verdade. O “de verdade “ é crítica pruma cultura que usa o adjetivo muito
facilmente: basta ser velho, tem resenhista usando clássico. Não funciona
assim: Supergatas é clássico, por exemplo, mas Caras e Caretas, só velho.
O que temíamos, porém, enfim chegou. A sétima temporada
mostra o esgotamento da fórmula, que até a sexta ainda disfarçava muito bem a
falta de novidade nas histórias e personagens através de roteiros criativos pra
mostrar o mais do mesmo. Isso não é mais possível. Quantas vezes precisamos dum
episódio pra provar a Jay o quão bom é mostrar os sentimentos? Pela duodécima
vez há malícia entre Claire e Manny, que, por sua vez, segue citando Downton Abbey (tá, isso não é defeito, afinal quem ama os Crowleys só pode ser tudo!).
Há piadas engraçadas e sorrisos abundam, mas já não desperta desejo de ver tudo
de maratona. Meio que cansou.
TV é negócio e como Modern Family ainda dá audiência foi
renovada pra 8ª temporada. Artisticamente, tivesse acabado na 6ª seria como
Mary Tyler Moore, que terminou no auge.
Crença macabra gera surto de ataques contra albinos no Malawi
LILONGWE, Malauí - Edna Cedrick é assombrada diariamente pela imagem da cabeça decapitada de seu filho de 9 anos, que teve que identificar para a polícia após ele ser arrancado violentamente de seus braços no meio da noite.
A morte do menino é mais uma num recente crescimento dos sequestros, mutilações e matanças de pessoas albinas no Malauí, no Sul da África. Elas são alvo de tamanha violência devido a uma crença macabra, propagada por "feiticeiros", que usam partes dos corpos dessas vítimas em poções e rituais proscritos para trazer riqueza e boa sorte.
Por causa disso, ao menos 18 pessoas foram mortas no Malauí desde novembro de 2014. Outras cinco foram sequestradas e seguem desaparecidas, afirma um relatório da Anistia Internacional divulgado nesta terça-feira. O número real é provavelmente bem maior, porque, segundo a ONG, muitas mortes em áreas rurais nunca são reportadas.
Segundo a polícia do país, os ataques em seu território estão se tornando mais frequentes após a vizinha Tanzânia tomar medidas duras contra os crimes e o tráfico de partes de corpos das vítimas. Com as ações, o preço dos itens macabros estaria subindo no mercado negro, o que provoca novos ataques.
Edna, mãe do menino assassinado, contou em entrevista à agência de notícias Associated Press (AP) o que ocorreu na noite em que ele foi levado. Ela carrega no colo o outro filho, gêmeo e também com albinismo. No meio da noite, a mulher acordou com o barulho da porta sendo arrombada. O marido estava viajando e ela ficou sozinha com os gêmeos.
"Antes de eu conseguir entender o que estava acontecendo, eles cortaram a rede contra mosquitos e agarram um dos gêmeos. Eu segurei ele pela cintura enquanto virava com o corpo para proteger o outro", conta a mãe de 26 anos, chorando.
Quando os atacantes não conseguiram puxar as crianças, um deles bateu na cabeça dela com um facão.
"Eu fiquei tonta e perdi o meu filho. Eu gritei por ajuda, mas quando os meus parentes e vizinhos conseguiram chegar, eles já tinham fugido", diz ela. O filho sobrevivente sempre pergunta onde o irmão está. Ela mente, dizendo que ele vai voltar.
No mesmo dia da entrevista, Fletcher Masina, um homem albino de 38 anos, pai de quatro filhos, foi sequestado. Quando seu corpo foi encontrado, estava sem os braços e pernas.
"Esse comércio macabro também é motivado por uma crença de que os ossos das pessoas com albinismo tem ouro, assim como que fazer sexo com um albino pode curar o HIV", diz o relatório.
Ativistas tem protestado no país, pedindo leis mais duras contra ataques a albinos. O presidente Peter Mutharika prometeu criar um comitê para analisar a questão, mas ainda não tomou nenhuma decisão.
Quando a equipe da AP estava no distrito de Machinga, no sul do país, tentou falar com um homem que pedalava carregando uma criança albina. O homem puxou uma faca e quase atacou os jornalistas. Razik Jaffalie, de 31 anos, se acalmou e contou que está desempregado: abandonou o trabalho como motorista de táxi para proteger o filho, de 3 anos.
"Minha vida parou, mas é meu filho. Quem tentar roubar ele de mim vai ter que me matar antes", afirma ele, abraçado à criança.
Nina Godfrey é uma adolescente de 13 anos, albina. Ela é líder da turma na escola, com as melhores notas. Quer ser advogada quando crescer. Mas para isso, tem que sobreviver: meses atrás, seu tio tentou sequestrá-la durante a noite.
"Eu estava dormindo e de repente acordei, nua, sendo carregada do lado de fora da casa numa chuva pesada. Quando eu gritei, meu tio agarrou meu pescoço e quase sufoquei. Tentei fugir, mas me amarraram numa bicicleta. Só que na próxima parada, eles me soltaram enquanto negociavam com o comprador. Eles discutiram o preço e não viram que eu consegui me afastar", conta a menina. Nina se escondeu numa casa abandonada até de manhã, quando foi encontrada pelo proprietário e voltou à família.
"Chegou a hora do governo do Malauí parar de enfiar a cabeça na areia e fingir que esse problemas vai passar", declara Deprose Muchena, diretor da Anistia para o sul da África.
Hoje é o Dia Mundial de Conscientização do Albinismo. Essas datas são simbolicamente importantes, porque, dentre outras coisas, a mídia volta os olhos e pautas são possíveis. Semana passada a repórter Clarissa Pains, do jornal O Globo, entrevistou a mim e outros albinos.
Agradeço a oportunidade de divulgação da causa nesse veículo de comunicação tão influente e de grande alcance.
Confira o resultado abaixo, com foto e tudo, é nóis na Globo, de novo!
Albinos contam desafios da condição genética celebrada nesta segunda
No Dia do Albinismo, ativistas da causa pedem políticas públicas que facilitem acesso a filtro solar, médicos e escolas inclusivas
POR CLARISSA PAINS
RIO — É difícil passar por eles na rua sem notar, mas, curiosamente, eles são invisíveis nos censos demográficos (o Brasil nunca os contou) e quase não motivam políticas públicas. Quem é albino, uma condição genética em que o corpo produz pouca ou nenhuma pigmentação, precisa de atenção extra para evitar problemas de pele, costuma sofrer de muita sensibilidade à luz em contato com os olhos e precisa de um reforço psicológico — dado ora pelos pais e pela escola, ora por profissionais — para lidar com olhares tortos e apelidos como "gasparzinho" e "vovô". Especialmente na infância.
Cada um desses aspectos é desafiador. É difícil encontrar dermatologistas ou oftalmologistas que saibam como lidar com o albinismo, e nem todos os albinos têm renda suficiente para comprar de seis a oito frascos de 120ml de filtro solar necessários para uma proteção adequada todo mês. Por não suportar o peso do bullying, muitos deles chegam a se isolar e abandonar os estudos, porque não contam com escolas que trabalham a inclusão entre os alunos — no Rio, as únicas instituições públicas que fazem isso são o Benjamin Constant e o Colégio Pedro II.
A enfermeira Nereida Santos conhece de perto essa realidade. Ela não é albina, mas é mãe de uma: a altiva e adorável Cacau, de 7 anos, quase nunca chamada por seu nome de batismo, Ana Claudia. O albinismo é uma mutação genética que pode ocorrer em qualquer família, então é comum que uma criança albina não tenha pais ou avós albinos. Mas o que chama atenção na história de Nereida e Cacau é que elas se conheceram por meio de uma adoção. Nereira virou "mãe de coração" da menina quando ela já ia completar 2 anos.
— É impensável, para muitos, adotar uma criança albina, até por não saberem muito bem o que é isso e como administrar. Eu me apaixonei por ela quando a vi — lembra Nereida, que tem também um filho cinco anos mais velho do que Cacau. — Tento mostrar a ela que cada pessoa tem particularidades e que ela pode lidar com as dela de maneira natural e ser feliz.
Doutor pela USP e professor de inglês e literatura, Roberto Rillo Bíscaro é um dos maiores ativistas do albinismo do país - Divulgação/Gustavo Lacerda
E é para ajudar outros neste caminho que a enfermeira fundou, em 2013, o Grupo de Pessoas com Albinismo do Rio de Janeiro, em parceria com a albina Mirian Miguel. As duas organizam encontros mensais — também abertos a não albinos interessados no tema — na Escola de Enfermagem da UFRJ, no Centro, onde Nereida dá aula. O grupo virou um projeto de extensão da universidade, no qual são produzidos estudos científicos e palestras, além de rodas de conversa para troca de experiências.
— Queremos fazer com que a pessoa albina se reconheça como tal. Não como um doente, mas como alguém que tem uma condição genética que precisa ser reconhecida e desmistificada — afirma Mirian.
E um dos passos para esse reconhecimento parece estar mais próximo. Nesta segunda-feira, dia 13, quando se celebra o Dia Mundial de Conscientização do Albinismo, o Grupo de Pessoas com Albinismo do Rio de Janeiro lança na internet uma plataforma de "censo albino". No site, a ser divulgado na página do grupo no Facebook, quem tem a condição poderá responder a um questionário que ajudará a traçar o retrato de quem são e como vivem esses brasileiros.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também lança a campanha "Albinismo: além do que se vê”, para estimular a criação de mais ambulatórios pelo país especializados no atendimento de pessoas albinas, com uma abordagem multidisciplinar: dermato, oftalmo e psicológica.
— Há ambulatórios assim em estados como Bahia e Minas Gerais — diz o presidente da SBD, Gabriel Gontijo. — Mas é preciso que esse serviço se espalhe, por isso incentivamos a criação de mais ambulatórios deste tipo em hospitais credenciados pela SBD.
Segundo o médico, a incidência mundial é de uma pessoa albina em cada 20 mil. No entanto, esta é uma condição genética mais comum entre negros, logo a incidência é maior na África: um albino em cada 1.500 pessoas, em alguns países do continente. Quem é albino tem a probabilidade de ter um filho assim em cada quatro rebentos. Mas a mutação também pode ocorrer, com menor frequência, numa família na qual ninguém tem a condição.
Gontijo explica que, por conta da extrema sensibilidade à luz solar, os albinos costumam envelhecer mais rapidamente e ter um risco aumentado de câncer de pele — e é um tipo mais agressivo. Além disso, problemas no nervo ótico e estrabismo são muito comuns, então realizar exames oftalmológicos quando crianças é importante para evitar futuras complicações na visão. Ele conta, ainda, que o olho avermelhado tão característico do albinismo ocorre pela falta de pigmentação na íris, o que faz com que seja possível ver a retina deles.
CONDIÇÃO CERCADA DE MITOS
Entre os mitos relacionados ao albinismo, está o risco de contágio. Alguns também acreditam que os albinos enxergam melhor no escuro ou que eles necessariamente têm algum problema de cognição.
O professor de inglês e literatura Roberto Rillo Bíscaro, albino e doutor pela USP, já passou por todas essas situações. O desconhecimento sobre o tema atinge até mesmo médicos.
— Eu já me consultei com um dermatologista que perguntou há quanto tempo eu era albino. Achei que ele estivesse brincando, mas ele continuou me olhando sério. Já teve vez também de eu ir renovar o meu visto americano e a moça que me atendeu perguntar "o senhor sabe ler?". Eu não estava nos meus bons dias, então tive que responder: "Em qual idioma você quer?" — conta ele, que fala como línguas estrangeiras inglês, francês e espanhol.
Quando criança, ele não entendia muito bem o que era ser albino e conta que não considerava um sacrifício não poder jogar futebol ao ar livre, sob um Sol de meio-dia. Nunca gostou muito do esporte e, por outro lado, sempre adorou livros, música e filmes. Atividades perfeitamente adaptadas a ambientes fechados. O grande problema era, de fato, a relação com o outro.
— Não brincar tanto na rua nunca me pesou muito. O tormento era o bullying. Me chamavam de "gasparzinho", "vovô", "Branca de Neve", "Papai Noel". A relaçaõ com o outro sempre foi mais difícil. Com o tempo isso foi diminuindo. Na idade adulta, na faculdade, não tinha mais esse problema — relata Bíscaro. — Nunca me escondi. Ficava bravo, chorava, mas me esconder nunca foi uma opção. Você acaba achando, para a sua própria sobrevivência psíquica, outros caminhos. Então eu acabei me dedicando mais aos livros, ao cinema, à música.Quem também nunca cogitou se esconder é o músico de sucesso Hermeto Pascoal, também albino, que completa 80 anos no próximo dia 22.
— Para mim, é uma dádiva ser albino. Sou rosinha, o que quero mais? — brinca ele, soltando uma risada. — Outro dia, um casal foi a um show meu e me disse que estava preocupado com o filho, que é albino. Eu disse a eles para tratarem a criança de forma normal, como meus pais fizeram. Disse que a única coisa para se preocupar é não deixar que ele pense que não pode fazer as coisas. Cada pessoa tem os seus problemas, suas particularidades. A vida da gente é cheia de percalços, sendo albino ou não.
PERSEGUIÇÃO MACABRA NA ÁFRICA
Uma das situações internacionais que mais vem chamando atenção — e que motivou as Nações Unidas a criarem, em 2015, o Dia Mundial de Conscientização do Albinismo — é a perseguição que ocorre em países africanos. Principalmente na Tanzânia, no Malaui e em Moçambique, pessoas que participam de uma seita matam e cortam partes do corpo de albinos para fazer poções, acreditando que isso lhes trará riqueza. As partes mais requisitadas são genitálias, cabelos e membros, e a maioria dos perseguidos é formada por crianças.
— Isso é uma loucura. No Malaui, já é considerado calamidade pública, porque o número de casos está aumentando muito — lamenta Roberto Rillo Bíscaro. — Existe um mercado negro disso também no Burundi e no Congo.
O alto comissariado da ONU para Direitos Humanos chegou a afirmar que centenas de pessoas com albinismo foram atacadas, mortas ou mutiladas em pelo menos 25 países africanos. muitos casos continuam não documentados por causa do isolamento das vítimas e da indiferença.