quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

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A TRISTE VIDA DOS ALBINOS DA TANZÂNIA

A Tanzânia é o país que tem mais albinos em todo o mundo. Ali, as pessoas portadoras deste problema de pele são bastante discriminadas.

Albinos da Tanzânia são discriminados
Estima-se que em todo o mundo existam entre uma entre 17 mil e uma em 20 mil pessoas que sejam albinas. A Tanzânia é o país que detém um maior número (não existem números oficiais, mas crê-se que existam cerca de 16 mil albinos, o que significa que é 0,04% da população). Naquele país africano eles não são bem vistos. Muitos são agredidos, são raptados, têm dificuldades em encontrar emprego, sendo também frequente serem sacrificados em rituais. Na perspetiva deinfluentes empresários da Tanzânia, de alguns pescadores e de mineiros, o sangue daquelas pessoas atrai fortuna e sorte.
De acordo com os dados oficiais das forças de segurança daquele país, desde 2000, nas regiões dos Grandes Lagos, foram assassinados 76 albinos e houve 100 agredidos. Vale a pena frisar: estes são apenas os números conhecidos e poderão existir muito mais vítimas! 
Segundo a revista Além Mar, na Tanzânia "chamam-lhes habitualmente Zeruzeru (fantasma), dili (oferta) e mzengu (europeu, pessoa de pele branca). Termos ofensivos, testemunho directo do estigma e da discriminação directa de que são vítimas". 
Infelizmente, este problema social é já muito antigo. Em meios rurais e urbanos na Tanzânia várias pessoas mostram constantemente a sua revolta contra os albinos. Emtempos não muito distantes, em aldeias na zona de Kilolo, muitos habitantes acreditavam que uma criança nascia albina como punição dos pecados de um dos familiares. Este era um castigo enviado por Deus ou por algum antepassado. 
Atualmente, muitas  pessoas acreditam que a culpa do albinismo é da mãe. Este problema só surge porque ela olha para outros albinos ou come alimentos que foram por eles confecionados. Uma mulher que dê à luz um albino é, ainda nos nossos dias, considerada não só pela comunidade, mas como também muitas vezes pelo próprio marido, como frágil.
Um albino adulto sofre também em termos profissionais. Embora tenha maiores chances de encontrar emprego no meio urbano, corre sempre o risco de lidar com empresas preconceituosas. Nessas situações, é comum que as instituições utilizarem um ridículo argumento: os albinos não reúnem as capacidades psicológicas suficientes para concretizar qualquer tarefa.

As medidas de combate ao flagelo

Nos últimos anos têm sido tomadas várias atitudes de forma a tentar terminar com o sofrimento dos albinos. A internet tem sido um meio muito importante para alertar o mundo sobre estes trágicos acontecimentos ocorridos na Tanzânia.
Várias organizações tentam criar condições para o bem-estar dos albinos e tentam chamar a atenção do mundo através de várias campanhas. O Exército de Salvação e uma organização canadiana (A Under The Same Sun) possibilitam bolsas de estudo a muitos alunos com albinismo na Tanzânia. Instituições cristãs e muçulmanas oferecem vários medicamentos e cremes solares aos albinos, existindo até mesmo, para casos mais graves, a possibilidade de os albinos serem submetidos a tratamentos para o cancro de pele. 
Quem também está a agir (desde 2008) é o Governo da Tanzânia, que tem recebido constantes apelos para tomar uma posição. Já foram atualizados os registos de curandeiros tradicionais do país e este ano foram condenadas à morte quatro pessoas pelo assassinato de uma rapariga albina. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CONTANDO A VIDA 133

Fim de ano, época de presentes, agradecimentos, votos. Nosso historiador-cronista escreve sobre aquelas palavrinhas mágicas "obrigado" e "por favor", além de outras pequenas regras de convívio social, tão importantes, quanto humanizadoras. 

SOBRE AGRADECIMENTOS, PRESENTES E OUTRAS COISAS.

José Carlos Sebe Bom Meihy
Sempre me comovo com gestos de gentileza. Aliás, acho até que na delicadeza reside a condição essencial da elegância e do bom viver. Por lógico, não me refiro aos atos mecânicos, ensinados protocolarmente, mas do tipo de sentimento que decorre da naturalidade do reconhecimento. Falo de grandiosidade, de graça e alegrias frente aos acontecimentos da vida. São Tomás dizia que só existe um pecado e uma única virtude. O pecado seria o orgulho, visto como ato soberano que se vale de toda e qualquer forma de anulação dos outros. A virtude seria a generosidade, mãe de todas as equidades. Aprendi com a vida que a generosidade não é filha única, tem irmãs e é aparentada de benesses correlatas. O “por favor”, por exemplo, é seu guardião inseparável, como se fosse um anjo da guarda da gentileza. Aliás, lembro-me de um debate antigo onde se discutia se o tal “por favor” ficava melhor antes ou depois de qualquer pedido. Tal contenda, diga-se, remetia ao fato do pedido ser emitido por mulher ou homem. Não interessava o receptor, mas sim o emissor. Outra pendência interessante endereçava-se ao fato de superiores pedirem ou não, aos subalternos, “por favor”. De maneira autoritária, ficava claro que ordem era ordem e dispensava os tais requintes de delicadeza. O argumento é que um general, por exemplo, ao mandar não deveria se valer de qualquer complemento, pois fazia parte da hierarquia determinar.
Em relação aos agradecimentos o debate fica ainda mais fermentado, pois o reconhecimento, quase sempre, demanda certa cerimônia e ritual. É lógico que existem os obrigados mecânicos, aqueles que acontecem só por costume ou boa educação, mas há também aqueles que impõem certo ritual, são acompanhados de sorrisos ou mesmo de lágrimas. Se o “por favor” pode ser calibrado por tom de voz, o agradecimento demanda cerimônias decorrentes, algo do tipo, beijinhos, abraços e afagos que vão do aperto de mão aos tapinhas nas costas. Interessante como o agradecimento se difere do “por favor” em termos de gênero. Sempre fiquei intrigado com o fato de existir “obrigada” e “obrigado”. Isto, diga-se, só acontece na língua portuguesa, pois em inglês, alemão, japonês ou árabe, tal não ocorre.
Dos trejeitos ditos civilizados o mais cativante para mim é o gesto presenteador. Dar presente parece-me a síntese e o limite das boas maneiras. Estou valorizando o presente espontâneo, generoso, feito com afeto. Em contraste perfeito, condeno o presente compulsório, forçado, obrigatório. Gosto, inclusive, da palavra “presente” que qualifica o ato de presença no mino ofertado. Isso é lindo, diga-se. Mas, as regras de etiqueta não dão conta de tudo o que ocorre nas relações. O que dizer, por exemplo, quando depois dos agradecimentos expressos pelo recebimento de um presente a gente ouve algo do tipo “não precisava”, “imagine, você adivinhou”, ou “nossa, é exatamente o que eu queria”. Sei que é difícil avaliar tais procedimentos e calibrar a carga de realidade ou de exagero, mas não há como garantir que é melhor pecar pelo excesso do que pela falta dele.
Em referência às formalidades de convívio, há uma que intriga mais que todas: o tal do “muito prazer em ‘te’ conhecer”. Ah... a essa não me rendo mesmo. É claro que expresso contentamento em ser apresentado a alguém que, pelo menos em termos de possibilidade, pode vir a significar algo em minhas relações, mas daí ao “muito prazer” vai uma distância razoável. Nessas horas me basta um “olá” e se for o caso um sorriso.
Pois é, mas o leitor deve estar pensando no fundamento de toda essa minha reflexão: teria motivo? Sim, vivemos em uma época de trocas de presentes e o preparo de tudo isso exige compra, embalagem, cartões, pois afinal o comércio exige disfarces e eles implicam regras de convívio adequadas. É exatamente esse o ponto central desta mensagem. Por favor, recebam meu abraço como presente e obrigado pela leitura de um ano de crônicas. E, por favor, não digam “não precisava”. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

TELINHA QUENTE 190

Roberto Rillo Bíscaro

O sucesso do Nordic Noir abriu os olhos de parte do mundo pra produção televisiva escandinava. Claro que a Escandinávia produzira TV de boa qualidade antes de Forbrydelsen – leia resenha sobre Matador, por exemplo – mas foi a detetive-inspetora Sara Lund que nos escancarou essa porta perceptiva. O termo mostrou-se inepto pra descrever produtos como Borgen. Assim, também passou a usar-se o bem mais amplo Scandi Drama. Pra não me confinar ao Nordic Noir, tenho tentado Scandi Dramas também.
A minissérie em 8 capítulos Halvbroren (2013) baseia-se no romance homônimo de Lars Saabye Christensen e é sobre questões de identidade pessoal e familiar atravessando décadas, desde os anos 30 até meus amados 80’s. A Globosat exibe nesse momento a minissérie, aos sábados à noite, sob o nome O Bastardo.
No dia da libertação nazista, a linda e loiríssima Vera sobe ao sótão pra estender roupas e é abusada sexualmente, resultando no filho Fred. Eventualmente, a moça se casa com um tipo misterioso, que quer dar uma de ianque, e tem outro rebento, Barnum. O relacionamento dos meio-irmãos (daí o título) ocupa boa parte da trama, que flutua entre as diversas décadas, iluminando as trajetórias de todas as personagens principais. Bastante complexo e muito bem produzido, um primor de figurino, iluminação, caracterizações. O ator-mirim que faz Barnum me lembrou o Kevin Arnold, de Anos Incríveis.
Como diversas idades e ambos os gêneros ganham destaque, a riqueza de experiências e pontos de vista torna Halvbroren bastante interessante e há um pouco pra quase todos os gostos do espectro do drama: (meio-) irmão desaparecido, intriga familiar e bastante do que se chama em inglês Coming of Age film, narrativas que abordam a passagem da infância pra maturidade. Há até laivos cômicos, mas bem parcimoniosos, porque é uma produção norueguesa, afinal. De qualquer modo, o drama também não é lacrimejante; alguns até o acusariam de formal demais.
Nos capítulos finais, o roteiro comete 2 ou 3 arbitrariedades irritantes, especialmente pelo modo como a revelação final é resolvida, confiando demais numa espécie de “telepatia” das personagens, que sacam a verdade meio do nada. Sem contar numa visita a uma cabana quase destelhada, mas que provou ser ambiente propício prum antigo bilhete permanecer quase intacto sobre uma mesa. Duro de engolir e tira alguma credibilidade da minissérie, que, mesmo assim, serve pra quem quer alargar seu painel televisivo. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

CAIXA DE MÚSICA 196

The Clockwork Universe cover art
Roberto Rillo Bíscaro

Juro que de vez em quando não premedito milimétrica e maquiavelicamente meu “consumo” cultural. Claro que há um padrão de repetição e semi-obsessão nas postagens de música, cine e TV: divas negras, 80’s e progrock; cine de horror/sci fi e europeu; policiais noir de países escandinavos, sitcoms e séries “clássicas”.
Quando decidi comentar sobre The Clockwork Universe, lançado em setembro pelos ingleses do Thieves’ Kitchen (TK), não pensava em quebrar nenhum padrão, afinal, trata-se duma banda prog britânica e ser britânico ganha pontos neste blog. Mas, qual não foi minha surpresa ao descobrir que 2 membros do sueco Änglagård participaram das gravações e um terço do TK, o tecladista Thomas Johnson, era membro do grupo prog escandinavo. Desse modo, dá a impressão de que ao escrever sobre um trio binacional, deixei meu gosto nórdico falar mais alto também na seção de música. Nada; mera coincidência.
The Clockwork Universe já é o sexto álbum, mas como a classificação deles era prog eclético ou Neo Prog, nunca me animava a escutá-los. Fã de prog sinfônico, jamais consegui aceitar a “simplicidade” instrumental e a sonoridade de Pallas, IQ, Marillion e toda uma leva de bandas, que liquefaziam monumentos sinfônicos 70’s, mormente o Genesis. Como também por acaso li que o álbum estava bem complexo e pouco Neo Prog e dava pra ouvir grátis no Bandcamp, dei-lhes uma chance e não me arrependo.
É um trabalho muito bom, que em linhas gerais, combina elementos de bandas sinfônicas, como o Yes, com elementos jazzísticos da cena setentista de Canterbury, que, se não comercialmente tão bem sucedida, produziu combos ótimos, como Caravan, Camel, The Soft Machine e Hatfield and the North. O agradável é que o TK não soa como desfiguração de nenhum estilo; antes, combina elementos com suas próprias características pra produzir um som só deles.
Library Song abre o álbum com uma orgia de baixo, guitarra ótima de jazz e órgão nervoso; tudo muito bem executado, intrincado e com uma dinâmica fluída. Pena que o vocal de Amy Darby seja meio mortiço e dê a impressão de desconexão com o instrumental, resultando em estranheza negativa. A vocalista e a mixagem se redimem em Railway Time, onde a melodia é conduzida pela voz em mais de um trecho.
Há 2 faixas instrumentais. Astrolabe é delicada valsinha de ninar, onde fios de guitarra e teclado se enlaçam e Orrery traz um tapete de órgão e a doce flauta de Anna Holmgren realçando uma melodia circular, ou melhor, elíptica como a órbita planetária sugerida pelo título. As 6 canções de The Clockwork Universe têm ligação com ciência ou tecnologia.  
Prodigy inicia com delirante diálogo entre teclado Hammond e guitarra e baixo, que exclamam amor por Steve Howe e Chris Squire, mas logo entra a flauta que dilui a ideia de possível cópia. É que o som das grandes bandas prog da fase áurea virou fitas de DNA musical do sub-gênero. Fãs do Genesis notarão ecos de Tony Banks e Steve Hackett também.
Os quase 20 minutos de The Scientist’s Wife apresentam os trechos mais Canterbury, especialmente na alentada introdução de uns 5 minutos. Com diversas mudanças de andamento, poderia ser o centro do trabalho, mas, embora o casamento de Yes com Soft Machine não deixe de ser interessante, o TK não mantém o gás o tempo todo. 
Vale constatar a vitalidade desse rock progressivo de boa qualidade no Bandcamp:

domingo, 13 de dezembro de 2015

DANÇA DA SUPERAÇÃO

Gabriela nasceu com paralisia cerebral e venceu todos os desafios. Mesmo numa cadeira de rodas, ela realiza o sonho de fazer parte de um espetáculo de dança.

sábado, 12 de dezembro de 2015

ALBINO GOURMET 190

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

IRMÃOS ALBINOS DE OLINDA: ESQUECIDOS

Sem assistência, irmãos albinos não conseguem sair de casa e estudar


Seis anos após terem suas vidas expostas na mídia mundial, os irmãos albinos de Rio Doce, em Olinda, sofrem com a falta de assistência. A família ficou conhecida em 2009, com a reportagem À Flor da Pele, do Jornal do Commercio. Na época, Estefani, Ruth e Kauan, filhos de negros, moravam na Comunidade do V8, também em Olinda, e ficavam trancados em casa pela falta de protetor solar.

Com a repercussão da reportagem, a família mudou de residência, os meninos passaram a ter roupas especiais, chapéus,  óculos, tiveram a chance de se consultar nos melhores dermatologistas da cidade e receberam a promessa de pegar o protetor solar de graça todos os meses no posto de saúde do bairro.

Essa mudança de vida dos garotos não durou muito. Os auxílios, aos poucos, sumiram. Hoje, a família enfrenta dificuldades financeiras. O protetor solar fator 100, que os irmãos precisam usar todos os dias, independente de estar fazendo sol ou chuva, deixou de ser doado. Segundo a Secretaria de Saúde de Olinda, a marca indicada pelos médicos dos garotos não é mais fabricada. O órgão pediu para os meninos passarem por uma reavaliação.

Enquanto esperam, os irmãos mais uma vez sofrem sem poder sair de casa. “Meu medo é que eles peguem câncer de pele. Quero ver eles estudando, por isso a necessidade do protetor solar e do óculos”, contou a mãe dos irmãos albinos, Rosimere Fernandes.

Estefani, Ruth e Kauan têm problemas de visão e utilizam óculos com grau elevado. Para ler, utilizam lupas e se esforçam mais do que o normal para poder enxergar as palavras embaçadas. Ruth, em um acidente, perdeu os óculos e enfrenta muita dificuldade para estudar.

Quem puder ajudar os irmãos albinos, pode ligar para o telefone de Rosimere Fernandes, mãe das crianças, no (81) 98727-8041.


http://tvjornal.ne10.uol.com.br/noticia/programa/o-povo-na-tv/2015/12/08/sem-assistencia-irmaos-albinos-nao-conseguem-sair-de-casa-e-estudar-22207.php

NOTA DO DR. ALBEE:  Há um vídeo na reportagem, mas não consegui adicioná-lo à postagem. Acesse o link acima, caso queira assistir. 

TELONA QUENTE 137

Roberto Rillo Bíscaro

O temor insano de um(a) invasor(a) ameaçando nossa família certamente forneceria filmes, séries e livros pruma vida inteira apenas consumindo esse tipo de narrativa. Em muitos casos, a abordagem é maniqueísta, delineando bem os lados, pra sabermos por quem torcer. Às vezes, somos manipulados a perdoar ou esquecer a culpa de quem tem a vida invadida, especialmente se for macho adulto branco pulador de cerca; tadinho, mesmo assim é vítima se despertar a ira dalguma “doida” de plantão, como no oitentista Atração Fatal.
Sorte que em alguns quadrantes, os tons de cinza são usados de maneira inteligente e fronteiras de mocinho e bandido são obliteradas, ou, pelo menos, problematizadas. É o caso d’ O Presente (2015), fresquinho nos cinemas nacionais. Roteirizado, produzido, dirigido e estrelado por Joel Edgerton, a competência do material impõe que fiquemos de olho nesse australiano.
Um casal de classe média muda-se de Chicago pros arredores de Los Angeles, numa casa meio isolada e cheia de paredes envidraçadas. Simon e Robyn estão fugindo do passado; a esposa tivera problemas com barbitúricos, perdera um bebê, nunca fora muito popular, meio caladona. Simon, não, é o típico Macho Alfa, simpático, bem-sucedido, falastrão, pingando testosterona. Numa loja, o casal encontra Gordon, que se apresenta como antigo colega de escola de Simon. Também meio esquisito, as tentativas de aproximação de Gordo, como é chamado, são ridicularizadas e rechaçadas por Simon, mesmo que Robyn nutra certa simpatia por afinidade com o “perdedor”, pra usar uma terminologia tão cara a certas anglo-mentalidades. Sendo thriller psicológico, claro que a rejeição soltará os diabos de Gordon.
The Gift presenteia-nos com praticamente todos os clichês do sub-gênero, mas torce-os na medida em que descobrimos mais sobre Simon – junto com a esposa – e a fronteira entre perpetrador e vítima relativiza-se muito. O filme prende a atenção e até promove um par de genuínos sustos. A música incidental é eficaz, mas discreta e as atuações muito boas.
A despeito de subverter um par de convenções, O Presente não escapa da misoginia sedimentada em quase todos os resultados desse sub-gênero: os erros do passado do macho adulto branco são reconhecidos – um avanço em relação a Fatal Attraction – mas quem paga a parcela mais alta da conta ainda é a “pobre fêmea”, meio neurótica, insegura. Ela pode nem suspeitar disso nessa história exemplar sobre possíveis consequências do bullying, mas a audiência sabe.
Fica a sugestão pra professores tratarem de bullying, usando material que também divirta.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

CONTANDO A VIDA 132

Fim de ano e nosso historiador-cronista revisita seus melhores momentos em um 2015 difícil, de dores e perdas. Uma crônica linda e reflexiva, desfrutem. 

2015: CINCO ACONTECIMENTOS...

José Carlos Sebe Bom Meihy
Indique cinco coisas boas que aconteceram no ano que se finda... Pois é, logo eu que não gosto dessas tiradas que fazem as delícias dos seguidores de redes sociais! Logo eu que acho que essas perguntinhas inúteis são para adolescentes ou pessoas que têm tempo para rever detalhes de trajetórias recentes... Logo eu que acho tudo isso uma bobagem... Aconteceu, porém. Assim que a questão se iluminou no meu celular, me vi jogado no mar de lembranças tumultuadas, intrigado por não achar com facilidade os tais momentos arrebatadores, os convocados cinco mais importantes fatos que marcaram meu complicado 2015. Não que deixassem de existir. De jeito nenhum, mas de tal maneira foram entremeados por outras emoções contrárias que, se tivesse mesmo que usar uma metáfora para metaforizar essa longa trajetória, seria uma vertiginosa “montanha russa”. Uma daquelas em que as quedas são alucinantes, depois de subidas árduas.
Estou dizendo com isso que tive sim fases positivas – boas até demais – , mas as tristes foram tantas e tão profundas que encobriram – ou pelo menos turvaram sensivelmente – os azuis que insistiam em me lembrar que a vida tem um céu irrecusável. Sobretudo, este me foi um ano de perdas fatais e acompanhamento angustiante de doenças de familiares. E como doeu!... Aprendi muito, diga-se, mas pela dor, e, creiam, essa prática custa lágrimas cobradas com juros e juras. Tive que reaprender o sentido da aflição e da impotência. E não posso esquecer mais. Nem deixar pálido o sentido da beleza filtrada pela expiação.

É verdade que, por lições passadas, deveria estar alerta, pois Fernando Pessoa já decretara a dificuldade dos anos terminados no número cinco. Ele, supersticioso como só, temia qualquer combinação de dias que se encerrasse naquele número. Permitam-me dizer, eu mesmo provei isso antes, em 1985, o pior da minha existência, mas a rotina do dia a dia, as demandas e os compromissos acumulados me arrastaram para falsas ilusões, e não havia de ser de outro jeito. Agora, contudo, vendo os balanços dados por colegas, noto outra vez que Fernando Pessoa tinha razão também quando asseverou os versos “nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada/ meus amigos têm sido campeões em tudo”. Apanhei muito, demais, ao longo dos últimos meses, mas como se me vingasse, enumerei os cinco melhores feitos. Com a discrição devida, revelo-os, pois todos têm algo em comum com o coletivo. 1- na doença de familiares, aprendi que a morte não é o pior dos resultados e é um acontecimento que se impõe exigindo reaprendizados sobre sua unicidade. Cada falecimento é único e demanda respeito ao ritual que justifica no adeus provisório. Cresci na despedida surda; 2- lancei um livro que na sequência de meus escritos se mostra atrevido, mas coerente com o encaminhamento que sempre pretendi dar aos meus passos metodológicos frente à disciplina História. Receber o reconhecimento de um crítico que prezo muito, me fez iluminado; 3- olhar para os meus netos e vê-los pessoas adequadas ao mundo dimensionou a alegria de ter filhos encontrados com suas propostas de vida, e sobretudo unidos; 4- em meio a muito trabalho ter podido estar em Lisboa sozinho, sem muitos compromissos, e aproveitar para, entre fados e doces, poder dar um balanço da vida me valeu como um abraço na minha própria experiência; 5- visitar o Museu do Prado e ter o privilégio de me ver frente as Meninas de Velásquez equivaleu ao prazer incalculável de me sentir gratificado por tantos anos de dedicação aos estudos. Foi como se compreendesse integralmente o momento de revelação que o artista retraçou.  A soma de tantos acontecimentos inventariados no ato desta reflexão me exulta à compreensão da experiência e chego até a ouvir, ao longe e mansamente, Mercedes Sosa repetindo “gracias a la vida”.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

TELINHA QUENTE 189

Roberto Rillo Bíscaro

No Romantismo encontramos como um dos traços fundantes a cor local, a saber, o uso de características específicas de cada ambiente nas obras. Ao invés do generalismo clássico, a particularização; daí a introdução de índios e moreninhas cariocas em nossas letras.
Quando o assunto é série de detetive, às vezes, a cor local é o que dá mais interesse, como em Il Commissario De Luca, que, não tem histórias ruins, mas sobressai pela ambientação na Itália imediatamente pré/pós- Segunda Guerra. Se não fosse por isso, seria apenas mais um show. A galesa Y Gwyll é ponto fora da curva, por unir a novidade da cor local com histórias e produção acima da média.
Como gostei imenso da temporada um (resenha aqui), não esperei que a BBC exibisse a versão em inglês, chamada Hinterland. Já que era pra desfrutar da cor local, vi os 8 capítulos em galês, legendados em inglês, como exibidos pelo canal S4C. Espera mesmo, só pra ver o especial de Ano Novo, resultado do sucesso algo inesperado desse Celtic Noir. Não estava a fim de fazer postagem só sobre ele, daí, emendei com a temporada segunda.
Com duração de longa-metragem, não consigo pensar num programa menos recomendável pro espírito de esperança suscitado pelo começo do ano. Nada a ver com qualidade; amei devocionalmente, mas a história é tão sombria e o clima da produção tão gélido e lento, com sua horripilante história de criança queimada e suicídio, que os mais impressionáveis podem não encontrar motivos pra enfrentar os demais 364 dias do ano.
A cor local de Y Gwyll – filmado no meio rural do País de Gales – é ocre, cinza, o sol quase nunca brilha e quando o faz, é opaco, comparado com nosso estrondo tropical. Vento, frio e chuva comandam vestuários grossos, personagens com melanina quase zero. E bem ao estilo mórbido Romântico, o estado de espírito das personagens ressoa o ambiente; todo mundo é soturno e muito econômico em sorrisos.
Também não é pra menos, as 4 histórias de Y Gwyll envolvem feudos, segredos e ressentimentos que desintegram vidas e famílias. O perverso diferencial da série é que os dramas sejam tão orgânicos: a angústia e fracasso das personagens são tão palpáveis como a terra e a vegetação, há algo de minissaga em Y Gwyll, o que não surpreende, uma vez que a série tem forte ligação com Nordic Noir.
DCI Tom Mathias continua mais deprimido que nunca e o especial de Ano Novo esclareceu o porquê desse coraçãozinho tão desolado. DI Mared Rhys merecia mais espaço no setor pessoal; sabemos que o relacionamento com a filha adolescente é ruim, mas fora isso, ela não tem vida. Esperemos que a já confirmada temporada 3 resolva isso. Outra coisa que incomodou foi a retomada dum obscuro personagem vingativo do primeiro episódio da temporada inicial. Ele renderá sub-trama, mas até agora só atrapalhou o andamento dos episódios finais da temporada 2 e quando chegar a 3 – só ano que vem – já teremos esquecido até essa intromissão; tudo terá que nos ser recordado. A não ser que haja outro especial de Ano Novo em 2016, esperemos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

CAIXA DE MÚSICA 195

Roberto Rillo Bíscaro

Os dias de estrela pop de Kylie Minogue acabaram. Não adianta fã balzaquiano bater pezinho ou fazer biquinho, é fato. O fraco Kiss Me Once vendeu menos de 500 mil cópias mundialmente e em 2012, as versões orquestrais de seus sucessos em The Abbey Road Sessions já indicavam que a australiana estava sendo reempacotada pra novo nicho de consumo. Embora não exclusividade de maduros adaptando-se a novas condições de mercado, álbum de canções natalinas faz parte desse processo e Minogue deu sua contribuição ao extenso filão com Kylie Christmas, lançado na primeira quinzena de novembro.
A Deluxe Edition tem 16 canções, entre regravações e originais e no geral a performance vocal é boa, desde o tom alegre até o sapeca de quando pede coisas caras a Papai Noel. O pior momento é o dueto tecnologicamente fabricado com Frank Sinatra, em Santa Claus Is Coming to Town, onde parece que ela fica meio acanhada quando canta junto com um Blue Eyes cuja voz parece vinda do além.
O grosso das regravações é de clássicos, como Winter Wonderland, Let It Snow e Have Yourself a Merry Little Christmas. Grande parte de Kylie Christmas soa como um filme natalino de Hollywood dos anos 40 ou 50. It’s The Most Wonderful Time of the Year abre tão otimistamente que dá até sensação de culpa não conseguir se sentir tão ansioso pelo Natal como o arranjo suplica. E é assim quase todo o tempo. Quando não é arranjo de big band, é roquinho tchap tchura cinquentista (I’m Gonna Be Warm This Winter) ou jazzinho sexy, como em Santa Baby, regravação do original de Eartha Kitt. Mas é meio estranho alguém pedir um conversível 1954, em pleno 2015. Aí um dos problemas do álbum: a qual nicho La Minogue quer pertencer? Quem cresceu ouvindo seus sucessos não se identifica tanto assim com flashback anos 50, afinal, pra nós, oldies são as dos anos 80. E um 60tão/70ão trocará alguma das trocentas versões dos anos 40/50/60 dessas canções, por uma de Kylie? Duvido. E os jovens? Esses nem sabem do álbum; basta checar o Top Ten britânico.


Tenteando para ver qual lado seguir, a cantora vem com 3 covers oitentistas. Kylie é experiente vocalista e não faz feio no delicado arranjo para 2000 Miles, dos Pretenders. Only You, a maravilha do Yazoo, ficou linda ao piano e teria sido ainda melhor se não tivesse o cantar mortiço do apresentador de TV James Corden. Christmas Wrapping ficou mais anos 80 do que originalmente com o The Waitresses, que felizmente nunca foi grande no Brasil. Bonitinha, mas ordinária, a faixa tem Iggy Pop, mais babaca do que nunca. Ele já falara asneira no álbum da New Order e pode ser encontrado em qualquer documentário sobre música que a BBC produz; está ficando meio constrangedor. Mas, vá lá, Xmas Wrapping vale como diversão para quando todo mundo estiver meio alto na festança. Talvez um álbum de covers dos anos 80 seja boa ideia para o futuro de Kylie.
Sendo Kylie Kylie, não poderia faltar novidade e essas vêm na forma de uma canção inédita de Chris Martin. Every Day’s Like Christmas é fofa até o talo e de presente, vem sem a voz do líder do Coldplay. A versão de luxo traz um dueto com a irmã Danii; 100 Degrees é Natal em ritmo de disco music. Pena que Kylie não deixou de lado esses anos 50 e não se jogou num Natal eletrônico, não necessariamente caretão como 100 Degrees, que, se não é ruim, podia ser mais, afinal tem as irmãs Minogue no vocal e elas sabem apimentar as pistas.
Quem sabe Kylie Christmas não aguentaria ouvidas repetidas e entraria para a História se tivesse sido um álbum de Natal electrodance? Do jeito que está, é gostoso de ouvir, mas em meados de janeiro já estará esquecido. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

THE WALKING DEAD

A síndrome que faz as pessoas acreditarem que estão mortas
O mexicano Jesús Ramírez ainda estudava medicina quando um paciente chamou sua atenção: o homem garantia estar morto.
Naquele momento, em 1995, o diagnóstico era de esquizofrenia. Mais tarde, durante sua especialização, o hoje psiquiatra Ramírez concluiu que o paciente tinha na verdade, a síndrome de Cotard.
Também conhecido como delírio de negação ou niilista (relativo a niilismo, ponto de vista que considera não haver sentido na existência), esse transtorno mental faz que seus portadores questionem a própria existência.
Desde então Ramírez investigou a fundo essa síndrome, que não é reconhecida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) nem pelo manual de diagnóstico da Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos.
"São pacientes com um nível muito alto de sofrimento", diz Ramírez, especialista do Instituto Nacional de Neurologia e Neurocirurgia do México. "Isso ocorre porque eles perdem o aparato racional e lógico que todos temos."
As pessoas com Cotard têm uma negatividade extrema, que as leva a negar as coisas mais óbvias.
Um dos casos tratados por Ramírez foi o de um homem de 78 anos que se recusava a ser internado porque "já estava morto".
"Estou acabado, não faz sentido que me tratem", dizia o homem. "Sinto-me como um robô, como se o mundo não existisse, estou completamente acabado."
Morto, imortal ou os dois
Embora a característica mais conhecida dessa síndrome seja a crença em estar morto, quem padece do transtorno possui outros tipos de negação delirante.
Em outro caso investigado pelo psiquiatra mexicano, uma jovem de 18 anos se queixava constantemente de ter perdido suas mãos, e pensava ter sido enfeitiçada.
"Meu coração deixou de funcionar, sinto que meu fígado e estômago estão ficando doentes, deixaram de funcionar. Não sinto meu corpo por dentro. Não tenho coração", afirmava ela.
Esses pacientes sofrem um tipo de "despersonalização", aponta Ramírez. "Podem ter alucinações e estados de depressão muito graves."
Segundo ele, a sensação de estar morto "pode ou não estar presente".
E algumas pessoas podem até acreditar que sejam imortais – "ou coexistir com os dois delírios", completa.
Essa coexistência entre duas crenças tão contraditórias leva alguns pacientes ao suicídio.
"A pessoa, com essa negação da própria vida ou dos órgãos corporais, pode chegar a cometer atos muito mais dramáticos", afirma. "Já vimos, por exemplo, pacientes que se mutilaram."
A síndrome de Cotard se apresenta em condições psiquiátricas ou neurológicas distintas.
Pacientes com esquizofrenia podem manifestar o transtorno, também associado a estados de depressão psicótica, ao mal de Parkinson, a doenças neurovasculares e infecções cerebrais.
"Contudo, a maioria dos pacientes esquizofrênicos, com Parkinson, doença neurovascular ou depressão não irá apresentar a síndrome", diz o especialista.
Em sua carreira, Ramírez identificou 14 casos de pessoas com esse transtorno, entre milhares de pacientes que atendeu.

Uma hipótese, dois fatores

Não se sabe ao certo, contudo, o que causa a síndrome de Cotard.
Uma das hipóteses mais aceitas é a de Max Coltheart, especialista australiano em ciência cognitiva.
"Ele aponta dois fatores associados a esse tipo de delírio", explica Ramírez. "O primeiro é uma anomalia neurobiológica que produz mecanismos neuropsicológicos alterados e motiva uma experiência subjetiva altamente anormal."
Um exemplo dessa situação seria a perda de memória emocional, levando o paciente a experimentar uma falta extrema de familiaridade com alguma situação de sua vida, seu corpo ou identidade.
"Também é preciso uma falha dos mecanismos lógicos conhecidos como sistema de avaliação de crenças. Porque uma pessoa pode ter problemas de despersonalização, mas não chega à conclusão de que está morta", diz o psiquiatra.
Embora não haja um tratamento específico para a síndrome de Cotard, existem terapias universais que podem ser aplicadas com sucesso.
"Primeiro é preciso tratar a doença de base", diz Ramírez.
Ou seja, se o paciente possui uma doença neurovascular, Parkinson ou alguma infecção, essa é a primeira coisa a ser atacada.
Depois, muitos são submetidos a terapias interpessoais e terapia cognitiva comportamental.
"Um dos problemas mais graves nesse transtorno é o estado de isolamento grave, que leva a pessoa a ficar totalmente afastada do fenômeno vital da relação humana", aponta o psiquiatra.

PORCO-ESPINHO ALBINO PAPANDO MAÇÃ


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ZOOFILIA PREGUIÇOSA

BICHO PREGUIÇA ALBINO É VISTO NA ZONA RURAL DE SENA MADUREIRA



A  equipe portal ACPURUS  se deslocava no ultimo fim de semana, para a cobertura de uma formatura do EJA e ASAS da FlORESTANÌA na escola Joaquim de Matos no ramal toco preto aproximadamente 50 km de Sena Madureira, quando foi surpreendido por um bicho preguiça que estava atravessando a estrada de barro por volta das 20:00 horas.  Admirados com a cor do animal, quase que totalmente branco, aparentando ser ALBINO, a nossa equipe parou para observar de perto a beleza do animal de hábitos noturnos e fazer alguns registros fotográficos em decorrência da cor branca do animal que se diferencia dos demais bichos preguiça , já esse é raro se  ver em nossa região. Lentamente o bicho preguiça entrou no mato e provavelmente como é de costume, foi se refugiar em alguma árvore e evitar o perigo de ser atacado por algum predador.
O bicho-preguiça é um mamífero com hábitos de vida noturnos, aonde pode ser encontrado em florestas tropicais da América do Sul, América Central e Mata Atlântica. Ele vive em pequenos grupos, embora possuam vários hábitos solitários, possui grandes garras, utilizando-as para subir e permanecer na copa de árvores de grande porte.
Sua alimentação baseia-se em folhas, raízes, brotos de algumas espécies de árvores e frutos. Dorme aproximadamente 14 horas por dia, pendurado nas árvores, é um animal saudável costuma viver entre 30 e 40 anos. Descem do topo das árvores apenas uma vez por semana com o objetivo de fazer suas necessidades fisiológicas.
Existem várias espécies, divididas em duas famílias: Bradypodidae (possuem três dedos em cada braço) e Megalonychidae (dois dedos).
Esta espécie animal orienta-se principalmente pelo olfato, pois seu sistema visual não é muito desenvolvido.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

TELONA QUENTE 136

Além das Montanhas
Roberto Rillo Bíscaro

Há uns 10 anos, a balcânica Romênia tem se destacado nos festivais de Cannes e Berlim, além de obter elogiosas resenhas em respeitados jornais ianque-europeus. Essa Nova Onda do cinema romeno rendeu pelo menos 2 resenhas no blog: Instinto Materno, ganhadora dum Urso de Prata, em Berlim e Occident, estreia do queridinho de Cannes, Cristian Mungiu. E é do diretor de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, o tema da seção de hoje: După Dealuri (2012), exibido no Brasil como Além das Montanhas.
A órfã Alina volta à Romênia pra convencer Voichita a ir com ela pra Alemanha trabalhar como garçonete num navio. Mas, a também pobre de marré deci Voicihita convertera-se ao catolicismo ortodoxo e vivia num monastério sem água corrente ou energia elétrica, em meio a um punhado de freiras supersticiosas, comandadas por um ex-operário que supostamente vira um anjo e agora ficava rezando, aconselhando e tiranizando, enquanto a mulherada fazia o serviço pesado.
Alina quer mais do que amizade com Voichita, que parece ter deixado pra trás os desejos carnais lésbicos e pensa em seguir vida como freira, tirando água de poço no inverno cortante da Romênia. A inconformada Alina surta, é diagnosticada no hospital como potencialmente bipolar ou algo que o valha, mas logo é mandada embora, porque não há suficientes leitos. A família que a acolhera – e lucrara com isso – também se mostra inviável pra nova permanência. Querendo Voichita e sem muitas opções, Alina volta ao monastério, apenas pra surtar novamente e seu caso ser confundido com possessão demoníaca. Daí o espectador perceberá que a Transilvânia é o menor dos horrores do país do leste europeu.
Filmado em excruciantes sequências longas e com quase 3 horas de duração, Além das Montanhas pode cansar um pouco pela primeira hora morosa, mas se o espectador tiver paciência, será recompensado por uma película austera em todos os aspectos da composição, desde interpretação, até tonalidades de roupas e adereços.
Sem demonizar a religião, o roteiro trata de pessoas esquecidas pelo estado e pela própria igreja (o bispo não consagrará a humilde igrejinha na colina até que seja pintada por inteiro), que, sem alternativa, chafurdam bem-intencionadamente no fanatismo religioso. Situado na era dos celulares, Além das Montanhas coloca a incômoda questão: se na época comunista o peso do estado sufocava o cidadão, o que dizer agora, que a ausência do estado relega-os a disparidades econômicas tão grotescas que apenas emigração ou entrega cega a dogmas incompreensíveis aparecem como alternativas viáveis a alguns?
Mungiu não responde nada, apenas dá elementos poderosos pra discussão e reflexão. Não há vilões ou mocinhos; todos são mostrados em seus aspectos mais humanos e incoerentes. O policial acusa as freiras de terem amarrado Alina, ao que essas retrucam que no hospital ela também o fora. Esse detalhamento é uma das causas da longa duração; outra é o contraste que ocorre entre a lerdeza e quietude dos 2 primeiros atos com a pauleira do terceiro.
Com atuações estupendas das premiadas Cristina Flutur e Cosmina Stratan, Além das Montanhas não é pra viciados em ação ou deficitários em atenção; mas quem lhe der oportunidade, terá uma experiência cinematográfica que não lhe deixará neutro. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

VIOLÊNCIA CONTRA ALBINOS ESPALHANDO-SE POR MOÇAMBIQUE

CRIANÇA ALBINA RAPTADA APÓS AGRESSÃO AO SEU PAI
Trata-se do primeiro caso em que desconhecidos, ora a monte, protagonizam este tipo de crime, na província de Tete.

Quando os raptores dominaram o pai da vítima, com recurso à agressão física, fugiram com a criança, sem que os vizinhos da família se apercebessem do que estava a ocorrer, facto que terá os impedido de prestar socorro ao progenitor da albina.

O “Diário de Moçambique” abordou o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), em Tete, Luís Núdia, tendo confirmado o rapto da menor Brasileira Lino Alexandre, explicando que os criminosos meteram-se nas matas, desaparecendo desta forma.

“Este é o primeiro caso de rapto de pessoa albina que ocorre. Mas nós estamos a fazer diligênciaS para capturar os criminosos, bem como recuperar a criança” – garantiu o porta-voz da Polícia.

Casos de rapto e assassinatos de albinos têm sido frequentes nas províncias nortenhas do país, sobretudo na de Nampula. De alguns dos envolvidos, ora em custódia policial, soube-se que a “caça” aos albinos visava extrair partes dos seus corpos por estas 'possuirem propriedades mágicas”.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

TELINHA QUENTE 188


Roberto Rillo Bíscaro

Na última seção de cinema, comentei sobre Séptimo, produção argentina, cuja premissa é ótima, mas o incompetente roteiro sabota tudo. Desta feita, o assunto é uma minissérie inglesa cuja premissa é bastante estapafúrdia, mas o desenvolvimento, atuações e a familiaridade com certa convenção suspendem nossa descrença e em poucos minutos do primeiro dos 6 episódios somos irremediavelmente engolfados pelo rio de emoções que é River (2015), da BBC.
Centenas de séries e filmes apresentando uma dupla de policiais cujas personalidades nada têm a ver ou detetives birutas - que em ambos os casos, desmentem a existência/eficiência dos psicólogos das corporações – acabaram convencionalizando esses dados. Aceitamos por conveniência ficcional, afinal, se queremos conflito, há que fazer concessões. River pede que aceitemos a permanência na polícia inglesa de um inspetor louco de pedra, que desde criança tem visões psicóticas, além de conversar e interagir com elas, podendo tornar-se violento nesse intercâmbio, atirando cadeiras ou esmurrando paredes.
Esse é John River, o imigrando sueco – os britânicos estão obcecados por Nordic Noir – já no fim da meia-idade, que vemos na cena inicial conversando sobre Abba, Roxette e A-Ha (they are Norwegian, ele ri) com sua parceira Stevie. Não demora 10 minutos pra percebermos que ele falava sozinho; sua companheira fora assassinada há 2 semanas, logo depois de ambos saírem dum restaurante, onde River não tivera coragem de revelar-lhe algo importante.
Em princípio, a trama de River é a busca pelo assassino de Stevie, mas o roteiro de Abi Morgan – que escrevera o problemático A Dama de Ferro – é muito mais que isso, transformando a mini num dos grandes programas de TV do ano.
John River é atormentado por diversas manifestações, como ele as denomina; desde vítimas a personagens históricos como um serial killer vitoriano, que proporciona alguns dos momentos mais bizarros. Sabiamente evitando o fácil reino da sobrenaturalidade, o roteiro usa essas aparições como projeções variadas da psique do Inspetor-Detetive. River, a série, daria uma tese de doutorado, não exagero. A manifestação principal é obviamente Stevie, que conhecemos exclusivamente pelo filtro da memória/imaginação de River, mas a qual entendemos, passamos a gostar e sentimos pena.

Outro trunfo de River é que todas as personagens têm alguma profundidade e algumas secundárias crescem muito. Os diálogos são certeiros e finalmente achei um detetive inteligente e atormentado que mora num apartamento transado, que não ouve ópera ou jazz: River e Stevie ouvem/iam disco music meio trash, tipo Tina Charles (quero dançar I Love to Love nas ruas de Londres com o Stellan Skarsgård!)

E chegamos ao momento crucial, o intérprete de John River. Em tese, não deveria ser fácil empatizar com um senhor amalucado e tão estranho. A personagem é suculenta e uma das mais memoráveis da TV contemporânea, mas poderia facilmente escorregar pro exagero ou caricatura. Se StellanSkarsgård não faturar pelo menos um BAFTA ano que vem, perderei a fé na espécie humana. O filho mais velho dos atores Paul Bettany e Jennifer Connelly chama-se Stellan em homenagem ao sueco. Dá pra entender o porquê de tamanha tietagem. O desgramado me cativara com o sorriso final em  En Ganske Snill Mann, que literalmente, traz toda a simbologia da primavera numa só cena. Dessa vez, chorei, ri, torci, quis abraçar, fiquei com raiva, tudo pela habilidade dramática de Skarsgård, que parece não ter limites; o cara convence em sueco, norueguês e inglês.  
Pra não dizer que não vi defeitos, no episódio 1 há um par de cenas inverossímeis mesmo pra esse tipo de programa: John River está meio velhusco pra correr quase tanto quanto um carinha de 20 anos ou subir numa grande árvore e andar nos galhos. Qual é fião, virou Tarzan? Mas, falhas grandes assim não ocorreram nos demais 5 episódios.
Morgan afirmou que deu tanto trabalho escrever o policial, que dificilmente faria outro. Realmente, não sei se compensa uma segunda temporada. Dá muita vontade de ver mais John River, mas será conveniente arriscar ofuscar o brilho desses 6 capítulos? Talvez valha mais rever River de vez em quando; isso certamente farei.