terça-feira, 12 de abril de 2011

ALBINISMO NO OLHAVÊ

O premiado trabalho Albinos do fotógrafo Gustavo Lacerda continua gerando atenção. O OLHAVÊ, um dos blogs de Fotografia Contemporânea mais importantes e respeitados do país, publicou entrevista com Lacerda. Várias fotos - inclusive uma deste blogueiro - estão na página

Processo de criação | Gustavo Lacerda

Como falo na Linha editorial do Olhavê: o que gostamos e admiramos aparece por aqui. Porém, tem uns posts que dão satisfação especial. Este Processo de criaçãocom Gustavo Lacerda é um destes casos. Para nós, é um orgulho ter estas fotos e um pouco da história contada aqui. Lacerda é mineiro, radicado em São Paulo, e tem uma carreira sólida na publicidade. Com Albinos, Lacerda marca firme sua posição na fotografia nacional com um ensaio que ficará na nossa memória como um dos mais belos e contudentes trabalhos dessa atual geração.
OLHAVÊ – Como surgiu o projeto/ensaio Albinos?
GUSTAVO LACERDA – Já há alguns anos pessoas albinas despertam minha atenção. É interessante que as características que os tornam “diferentes” e levam a uma sensação de exclusão e de “estranheza” são as mesmas que me atraíram e me despertaram em termos de beleza.
Aprecio o tom de pele, os cabelos e os pelos totalmente descoloridos, alem do meu interesse particular em conhecer um pouco mais do universo dessas pessoas que, na grande maioria, sentem-se “à margem” no convívio social.
O objetivo do projeto era retratar esse outro padrão de beleza, o “diferente”, o “fora” dos padrões.
OLHAVÊ – Por se tratar de um tema que aborda questões sociais e de saúde, invariavelmente, você poderia cair nos clichês das fotografias no ambiente familiar, caracterizar a rotina, etc e etc. Por que a escolha por uma estética tão contundente?
GUSTAVO LACERDA – Desde o início do projeto queria destacar a beleza singular dos albinos. Embora aprecie a fotografia documental, não queria que o trabalho caminhasse por um viés de denúncia social.
Já nos primeiros estudos práticos do projeto decidi trazer os albinos para o estúdio. A principio me atraía a idéia de clicá-los de um modo bem simples, num fundo branco ou cinza, de forma direta e documental, como num 3×4 tosco para documentos.
Mas logo percebi que a força que essas imagens traziam, embora impactante, não me despertavam a sensação de beleza e singularidade. A imagem “crua” era forte mas me trazia uma sensação de déjà vu, não me contava nada de novo.
Aos poucos fui percebendo que me interessava particularmente a relação dos fotografados com toda a misancene do estúdio, fundos cenográficos, produção de figurinos, etc…
De fato, quando escolhi esse caminho estético assumi realçar o novo papel de “personagem principal” vivido por quem sempre se sentiu excluído. E, claro, não fui ingênuo e percebi que isso também trazia o trabalho do documental para um mundo mais ficcional, um universo meu, construído.
Nesse processo, tanto me envolvi com o assunto e os retratados que posso dizer que esse universo de representação, tão vivo nas imagens, deixou de ser apenas meu. Eu só conduzi e estimulei as pessoas a virem para frente da câmera e a partir dali o que elas representavam era em grande parte a própria “ficção” delas.
OLHAVÊ – Fico pensando este trabalho sendo “defendido” como ensaio documental ou ensaio contemporâneo. Tenho certeza que as muletas de um texto seriam necessárias para explicar, defender ou teorizar sobre o albinismo. Porém, seu trabalho é pura imagem. Bem carregada de textos imaginários e explicações já explicadas. Você vislumbrou esse resultado?
GUSTAVO LACERDA – Quando experimentei o caminho estético da delicadeza, dos tons pastéis, “lavados” e sutis, comecei a vislumbrar a força que o trabalho poderia ter. E é interessante que acabei indo por um caminho que traz imagens impactantes, porém que “sussurram” muito mais do que “gritam”. Talvez a repercussão do trabalho venha muito daí… Mas jamais imaginei que esse projeto tocaria tantas pessoas. Isso me surpreendeu e foi bem positivo.
Igor, 2009
Ítalo e Renan, 2009
OLHAVÊ – A estética, no sentido lato da palavra, é o carro-chefe de Albinos. Nos conte como ela foi concebida.
GUSTAVO LACERDA – Minhas referências iniciais para o projeto vieram da pintura.
Primeiro tive que entender que a beleza que me despertava nos albinos vinha sobretudo dos tons rosados de pele. E foram esses tons que posteriormente definiram toda a estética das imagens, através de fundos de tecidos, figurinos, maquiagem, cabelo, etc. O restante acabou vindo da minha história, das lembranças distantes dos álbuns de família e todo o ar “retrô” que eles traziam.
O elemento família é muito forte no projeto, mesmo quando retratei alguém só, essa pessoa sempre estava envolvida numa aura “de família”, talvez um cuidado afetivo e de proteção (que percebi) que a própria família têm com essa pessoa. Acho que a forma de portrait em estúdio que concebi para o projeto acabou reforçando inconscientemente essa presença (mesmo ausente) da família nas fotos.
OLHAVÊ – Uma das primeiras coisas que tem impacto nas fotos é a luz. Algo tão difícil para os albinos. Como é a luz do seu ensaio?
GUSTAVO LACERDA – O albinismo se caracteriza pela ausência de melanina na pele, nos cabelos e nos olhos e isso faz com que eles tenham extrema fotofobia. Na fase de estudos do projeto testei alguns caminhos de luz e cheguei em um que conseguia trazer uma luz bem difusa, suave e ao mesmo tempo com bastante brilho para realçar a pele e os tons pastéis da cena. Acho que foi uma luz que cumpriu bem a tarefa de imprimir no papel as sensações estéticas que me despertaram. Fora isso, embora valorize a técnica como um caminho, confesso que não creio nela como um fim, um objetivo vazio de intenção.
OLHAVÊ – Quais as experiências e valores agregados na sua carreira e vida pessoal que este ensaio gerou?
GUSTAVO LACERDA – O mais gratificante tem sido sem dúvida conhecer pessoas, compartilhar experiências e perceber que de alguma forma o trabalho tem tocado na auto estima dessas pessoas. Foi muito bacana por exemplo ver os retratados presentes e super orgulhosos por estarem na abertura da mostra da Coleção Pirelli/MASP no ano passado.
Na carreira, o projeto tem trazido uma maior visibilidade para o meu trabalho autoral e teve algumas das imagens adquiridas por importantes coleções como a Pirelli/MASP e a Coleção do Prêmio Porto Seguro de Fotografia.
OLHAVÊ – O projeto acabou? Terá novas fotos ou desdobramentos?
No início desse ano fiz alguns retratos que considero importantes para o corpo do trabalho e estou tentando agendar mais 2 ou 3 fotos que devem fechar o projeto. A idéia é fazer uma grande exposição (parte das fotos ja foram expostas, coletivamente, na última Coleção Pirelli/MASP e no Prêmio Porto Seguro de Fotografia) e tentar publicar um livro.
Mas acredito que devido aos vínculos que acabei criando com vários albinos, o trabalho não tenha um fim assim datado, cronológico. Adoraria, por exemplo, continuar registrando o crescimento dos irmãos pré adolescentes Ítalo e Renan, além de vários outros albinos que se tornaram tão próximos nos últimos anos.

2 comentários:

  1. Oiee, Roberto tudo bem, realmente o trabalho do Gustavo é maravilhoso. Bom quando você quiser me enviar o e-mail da entrevista do Igor do filme Andaluz me avise. abraços

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