terça-feira, 5 de novembro de 2013

TELINHA QUENTE 97

Dossiê Peste Negra

Um dos eventos mais fascinantes da História fez muitos crerem que a espécie humana chegaria ao fim. Meu fascínio pela Peste Negra não tem fulcro mórbido, antes, assombra-me uma epidemia ter alterado o curso da trajetória europeia e, por consequência, nos afetado também, mesmo que tenhamos entrado no mapa caucasiano mais d’um século após a primeira mortandade.
Penteei o You Tube finamente e achei documentários, que compartilho e comento. Quase todos em inglês sem legenda; aviso quando não forem. 
Medieval Apocalypse: The Black Death, da BBC, delineia os efeitos da epidemia cruzando o continente de sul ao noroeste: desde os portos italianos, onde o vírus provavelmente adentrou a Europa, em 1347, até a Irlanda. De 1348 a 1351, conforme ceifava metade da população europeia, a misteriosa doença era percebida como o fim do mundo. Nem dá pra estranhar: em alguns locais a Peste aniquilou 80% da população em meses.
A brutal queda demográfica provocou caos, desabastecimento e desorganização. Cidades se viram sem governo, famílias se desintegraram, a histeria por achar culpados pela “ira divina” queimou judeus. Passado o pior, uma nova sociedade emergiu. Com melhores condições de vida pros trabalhadores remanescentes e que valorizava mais o homem e suas conquistas. O documentário utiliza trechos de relatos de quem (sobre)viveu à crise pra pincelar essa purulenta passagem do Feudalismo ao Renascimento.


O próximo foi a parte 3 duma série da PBS (emissora educativa norte-americana) chamada Secrets of the Dead. A abordagem é a da investigação genética. Um geneticista norte-americano percebe que algumas pessoas são imunes ao HIV, apesar da letalidade do vírus, que já matou quase tanto quanto a Peste Negra.
Uma pequena cidade meio isolada no norte inglês é o cenário ideal pra testes genéticos tentando descobrir porque alguns contraíram a peste, mas não morreram e outros sequer se enfermaram. A descoberta de que uma mutação genética é a responsável por tal fortaleza – o mesmo no caso do HIV – não deixa de ser afirmativa pra nós albinos! 

O próximo documentário foi o episódio intitulado 1348, da série History of England, da BBC. O foco é especificamente britânico e cobre a Peste e os 100 anos subsequentes, sendo contraindicado pros interessados somente na epidemia. Pode ser até enfadonho pra quem não se interessa por especificidades de governos X ou Y.
O programa advoga que diversos sobreviventes herdaram ou anexaram propriedades das montanhas de mortos, então, a aristocracia rural atuante na dinastia Lancaster era descendente bem próxima temporal e sanguineamente dos extintos servos medievais, categoria que a escassez de mão-de-obra pós-Peste Negra obsoletou, posto os campesinos mais espertos venderem sua força de trabalho pra quem pagava mais, dissolvendo antigos laços.

The Mystery of the Black Death, do Discovery, narra como a teoria de que a Peste Negra era a peste bubônica foi por água suja abaixo. No fim do século retrasado, um suíço comparou a praga que assolava a Ásia com a Negra e concluiu que esta fora transmitida por pulgas de ratos, que infestavam as sujas cidades medievais.
A Peste Negra desencadeava pústulas negras, vômitos sangrentos e dor lancinante e se propagou a jato. Isso levou alguns cientistas e historiadores do século XX a duvidarem da teoria. Eles creem que o contágio se deu por pulgas humanas e que o período de incubação da Peste era bastante longo, proporcionando ampla oportunidade pro infectado contaminar muita gente, ocasionando o holocausto biológico do século XIV.
O programa não oferece explicação pra causa da praga, mas termina em tom de alarme, dizendo que o inimigo pode ainda estar à espreita.
(Durante minha febre de Peste Negra, o Dr. Drauzio Varella também foi infectado e escreveu sobre em sua coluna na Folha de São Paulo. Lá você encontra a resolução pro mistério que o Discovery deixou no ar. Leia aqui.)


The Plague, do History Channel, existe dublado em português. O programa teoriza que a Peste foi trazida da mongólica Ásia pra insuspeita Europa, que, depois dum período de relativa paz e crescimento econômico-populacional entrou num baita inferno astral. A expressão anterior não é gracejo: alguns eruditos medievais explicavam a Peste como resultante de vapores malignos (miasmas) despejados na atmosfera pelo singular alinhamento de Júpiter e sei lá quais planetas.
The Plague centra-se na Itália, França e Inglaterra, mas dá noção clara de quais regiões do mundo conhecido no séc. XIV foram afetadas pela Peste. No que hoje conhecemos como Alemanha, surgiram os Flageladores: no começo, fanáticos que se autopuniam em procissão pra aplacar a ira apocalítica divina. O documentário detalha sua formação, ascensão e ruína e o efeito que tiveram – mas não só eles – sobre os pobres judeus, bodes expiatórios favoritos ao longo da História. A Polônia serviu como refúgio pra milhares deles. Lá estavam seguros, até 6 séculos mais tarde, um demente austríaco anexar o país.
The Plague afirma que avanços tecnológicos como a imprensa e a disseminação dos moinhos tiveram raízes na necessidade de equacionar a escassez de mão-de-obra. 


Pra tornar a narrativa da História mais atraente, os documentários coincidem no tom de suspense, horror, romance, drama. Secrets of the Great Plague assume a forma de história de detetive, denominação, aliás, que o biólogo Steve O’Brien recebe. O programa tem quase o mesmo nome de Secrets of the Dead, o tema é similar e chega à conclusão semelhante, obviamente.
O programa assume a teoria da peste bubônica transmitida por pulgas de ratos. Críticos dessa explicação alegam que não há relatos de mortes massivas de roedores em nenhum momento em que a Peste Negra tenha atacado.
Secrets of the Great Plague esmiúça a eclosão da peste inglesa do século XVI, que ceifou um terço da população londrina. Ao fim do documentário, você desejará ter a mutação genética Delta 32!



Inadvertidamente, vi por ultimo os programas de que mais gostei. 2 documentários do History Channnel, The Plague in Europe, juntados num vídeo dublado em espanhol.
A primeira dedica boa parte do tempo provando porque a doença não era peste bubônica. Além das informações apresentadas em outros documentários, aprendemos que a Europa viva mini Era do Gelo, tornando a sobrevivência dos ratos ainda mais discutível. Não se desvenda o que foi a Peste, mas aprendemos quais foram as primeiras contestações da clássica teoria dos roedores e pulgas transmissoras. Outro ponto positivo pro History Channel é apresentar dados de países como Dinamarca e Finlândia, não focando apenas nas manjadas Itália, França e Inglaterra.     
A segunda parte traz especulações fascinantes sobre os efeitos e interpretações da Peste em suas vindas a distintos lugares europeus. Em especial, como os pobres e suas diversões (teatro, por exemplo) e práticas foram culpabilizadas e perseguidas pelas autoridades sanitárias como propagadores principais da doença. Por outro lado, as mesmas autoridades sanitárias tomaram medidas eficientes e modernas pra tentar barrar o contágio, contradizendo em ações o teorizado pela ciência que achava que o ar era o transmissor. As autoridades impuseram quarentenas, porque se deram conta de que o período de incubação era de aproximadamente tal período. Isso não acabava com o mal, mas tinha efeito profilático.  
São quase 2 horas de informações e conexões entre a Peste e fatos posteriores, sempre tomando cuidado pra não estabelecer relações de causa e efeito diretas, tipo a lenda de Robin Hood é consequência da Peste.

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