segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MAIS UM VILÃO ALBINO

Raio Negro | Série da DC escala rapper albino para viver vilão clássico das HQs
O rapper Marvin “Krondon” James vai interpretar o clássico vilão Tobias Whale na série Raio Negro, próxima adaptação da DC a ir ao ar no canal CW, mesmo que exibe The Flash, Arrow, Legends of Tomorrow e Supergirl.


De acordo com a TVLine, Krondon é um rapper bem conhecido na área de Los Angeles, especialmente por seu visual único, visto que é albino. O personagem dos quadrinhos divide essa condição com seu intérprete.

Nas HQs, Tobias Whale é um político que mata o pai do Raio Negro após ser exposto em um escândalo de corrupção. Ainda não há previsão de estreia para a série.

CAIXA DE MÚSICA 278 (ALBINA)

Hermeto Pascoal lança o álbum 'No mundo dos sons'

O multi-instrumentista chega com disco inédito depois de 10 anos sem gravar


Matheus José/Divulgação. Hermeto Pascoal.

O processo criativo de Hemeto Pascoal foge completamente da formalidade. Ele não precisa se isolar num quarto da sua casa, no bairro de Jabour, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para compor as músicas que reafirmam a genialidade que o fez conhecido como “bruxo dos sons”. A inspiração para ele pode surgir em cima do palco – onde costuma improvisar o tempo todo – ou ao batucar no próprio corpo.

Aos 81 anos, o veterano compositor, arranjador e multi-instrumentista nascido em Lagoa da Canoa (Alagoas), há 10 anos sem lançar disco, está chegando ao mercado com No mundo dos sons, álbum duplo que saiu pelo selo Sesc, no qual reuniu 18 temas – todos inéditos. Alguns deles homenageiam “irmãos espirituais que a música me concedeu”, diz com a pureza que lhe caracteriza.

No mundo dos sons, que Hermeto gravou com seu grupo, no estúdio Gargolândia, em São Paulo, pode ser ouvido também nas plataformas digitais de streaming Spotify, Deezer, Google Play Music e Aple Music. Além de assinar a direção musical, composições e arranjos, ele toca pianos, teclados e escaletas, e utilizou instrumentos nada convencionais como berrante, apito, colher e chaleiras – sempre com a celebrada maestria.

Hermeto, pelos seus cálculos, tem armazenado algo em torno de 9 mil composições. “ Registro tudo em cadernos, sem títulos, mas, já com os acordes. Depois, na hora da execução num show, ou em gravações de estúdio, podem até ganhar novos arranjos”, explica. “As alterações no andamento, no entanto, não desvirtuam do que foi escrito originalmente”, acrescenta.

Ele conta que em fevereiro levou para o estúdio paulista 30 músicas. “A maioria foi composta há muito tempo e fazia parte do meu acervo. Mas há também coisas mais recentes, embora para mim, música não tem idade, gênero ou nacionalidade. Música é universal. Criadores de outras nacionalidades compartilham espiritualmente comigo dessa ideia”.

Sobre os nomes dados aos temas, com os quais presta homenagem a compositores brasileiros, expoentes do jazz, ex-integrantes do seu grupo e familiares, ele conta que a escolha foi feita depois das músicas prontas, já na fase da remasterização. 

“São irmãos de som e alguns, de forma corpórea, já não estão mais entre nós, mas mantêm-se vivos espiritualmente na minha memória afetiva”, ressalta.

Parte deles, o genial albino conheceu em diferentes períodos em que esteve nos Estados Unidos, entre o final da década de 1960 e o começo dos anos 1980. “Em 1969, fui convidado por Airto Moreira e Flora Purim para gravar dois discos com eles. Atuei como compositor, arranjador e instrumentista. À época, conheci Miles Davis (celebrado em Para Malis Davis) e gravei Igrejinha e Nem um talvez, músicas que entraram num disco dele. Naquele tempo fiz amizade, também, com Chick Corea e Ron Carter, outros irmãos”, lembra. Para os dois, Hermeto dedicou Um abraço Chick Corea e Para Ron Carter”, lembra.

Selo Sesc/Divulgação
Uma outra recordação que o compositor guarda é a do argentino Astor Piazzola, reverenciado em Viva Piazzolla!.. “Em 1986, Piazzola fez um show no Teatro Tuca, em São Paulo, logo após uma apresentação minha. Naquela noite, ele chegou para alguém da produção e disse: ‘Vocês têm que erguer uma estátua para este homem, referindo-se a mim, o que me deixou extremamente envaidecido”.

Tom Jobim, Sivuca, Edu Lobo, Jovino Santos e Carlos Malta são grandes artistas brasileiros que deram nome a outras faixas do No mundo dos sons. “Participei de apenas um disco do Tom, gravado nos Estados Unidos, como arranjador. Quase não nos víamos no Rio de Janeiro. Nos encontrávamos mais em aeroportos. Eu me aproximei do Edu naquele festival da TV Record, vencido por ele com a canção Ponteio. O arranjo da música foi inspirado na sonoridade do Quarteto Novo, grupo do qual eu fazia parte”.

De Sivuca, Hermeto tem uma tenra lembrança. “Adolescente, cheguei a Recife para tentar viver de música. O Sivuca, que era mais velho do que eu, me deu oportunidade na Rádio Jornal do Comércio. Mais tarde nos reencontramos no Rio. Albino como eu, por vezes éramos confundidos. No final da vida, ele foi morar em João Pessoa e nunca mais nos vimos”. Forró da gota para Sivuca é o tributo prestado ao acordeonista paraibano.



Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press

No Mundo dos Sons
Álbum duplo de Hermeto Pascoal e grupo, com 18 faixas. Lançamento do selo Sesc. Preço sugerido: R$ 30.
 Harmonia no Caos 
A base da música é a mais exata das ciências; é a matemática que dá ordem e organiza uma composição ou um arranjo. Ao mesmo tempo, não há nada menos exato que a sensação provocada por uma peça musical que, ao contrário das outras manifestações artísticas, não se apoia em conceitos ou formas visíveis.

Depois de uma vida, está sendo lançado um novo disco de Hermeto Pascoal, talvez o músico brasileiro que melhor represente essa organização do caos, tanto pelos instrumentos inusitados que usa quanto pelas linhas musicais que explora. Se alguém quiser classificar sua música, vai dar com os burros n’água; nada ali é o que parece.

Nos 18 temas de No mundo dos sons, ele homenageia amigos, na maioria músicos, em manifestações livres e soltas — alguém mais racional pode perguntar por que festejar Ron Carter e Astor Piazzolla, por exemplo, com temas que embutem frevos? E por que não? O importante é que tudo faz sentido e, mais importante, aguça os sentidos — principalmente o prazer de fazer pensar.

Logo na abertura do disco, Hermemeto mostra sua aguda noção de tempo musical num tema dedicado a São Paulo, quando coloca o ouvinte no meio de sons que parecem se chocar, mas que na verdade vão se harmonizando para mostrar o corre-corre da cidade grande. Tudo parece acabar no trânsito, como se houvesse música ali; e o surpreendente é que há.

Em Para Miles Davis, ele desenvolve um tema livre a partir de uma construção musical quase cubista, em que as notas parecem invertidas, usando instrumentos tradicionais ao lado de sons de gansos e galinhas e uma percussão fora dos padrões. Mas, de novo, só há música onde existe ordem; mesmo que seja assim, com toda liberdade.

Hermeto explora o jazz (Vinicius Dorin em Búzios), frevo (Para Thad Jones), baião (Forró da gota para Sivuca) ou qualquer outro gênero musical, mas o importante para ele parece ser ultrapassar as divisas que se apresentem. Os temas — quase todos — são variados, abusam de mudanças de andamento e cortes melódicos, e provocam enquanto entretêm.

O multi-instrumentista e grupo radicalizam a proposta em Entrando pelos canos, tema inteiramente desenvolvido sobre instrumentos de percussão — e aí valem colheres de plástico, berrante, tamancos de madeira e canos de alumínio. É uma música completa que nasce do batuque. Para encerrar, ele propõe um tema mais introspectivo, delicado, que por vezes cobre um diálogo entre Hermeto e seu neto, a quem a música Rafael amor eterno é dedicada. Uma coda: é música pura, direta, livre e fantasiosa, onde o único fundamento estético parece ser o prazer de fazer e de ouvir.
Paulo Pestana 

domingo, 13 de agosto de 2017

SUPERAÇÃO EMPREENDEDORA

O jovem bilionário Flávio Augusto vem da periferia do Rio de Janeiro, onde teve a ideia de criar uma escola de inglês, que virou um fenômeno no mundo das franquias. Conheça um pouco de sua história.

sábado, 12 de agosto de 2017

ALBINO GOURMET 236

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

TELONA QUENTE 197



Roberto Rillo Bíscaro

Tenho lugar macio no coração pra thrillers espanhóis, daqueles bem inverossímeis, mas elegantemente montados, às vezes, canastronicamente atuados, mas cheios de reviravoltas. Já resenhei Mientras Duermes, mas sobre alguns não escrevi, como um que há (havia? Nunca sei) na Netflix, sobre um pai e filha num automóvel, onde um desafeto colocou uma bomba.
Quando li a sinopse d’Um Contratempo (2017), no menu da Netflix, adicionei à minha lista e vi na primeira brecha. Apenas depois de vê-lo, descobri que era o segundo longa do diretor Oriol Paulo, d’El Cuerpo, resenhado aqui, e que parece era da Netflix (viram como me perco?). Tomara que o espanhol seja ainda jovem e goze de boa saúde, porque pode vir muito mais coisa boa dele.
“Após acordar ao lado de sua amante assassinada em um quarto de hotel, um empresário contrata advogada para descobrir como acabou sendo suspeito de um homicídio”, diz a sinopse oficial. Pra quem não viu tá de ótimo tamanho saber apenas isso. Suspense tem disso: quanto menos se sabe, melhor. Em Contratempo, quanto menos se enxerga também, mas isso deixo pros mais atentos.
O filme tem como foco central narrativo o embate entre o jovem empresário e a advogada, durante umas 3 ou 4 horas noturnas. Como a promotoria traria testemunha surpresa (magina, dá pra sacar logo quem é), a doutora Goodman compromete-se a criar com Doria uma narrativa pra livrá-lo da cadeia. Narrado em distintos planos temporais não cronologicamente ordenados, Um Contratempo pega todos os elementos típicos dum thriller e recombina-os de 2 ou 3 maneiras, porque a cada possibilidade de história, o espectador as vê como se tivessem acontecido
Se tal estratagema às vezes nos desorienta – quem quer segurança e certeza não deve escolher thrillers, né? – também justifica determinadas alterações na construção de personagens, especialmente da amante morta. Em sentido metalinguístico, Um Contratempo é a escrita dum roteiro, perante nossos olhos.
Tem final surpresa, ambientação noir noturna e/ou florestal, na fronteira sul entre França e Espanha e até participação de Francesc Orella, o Merlí, conhecido dos assinantes brasucas da Netflix. Que mais você quer pruma noite divertida?

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

CONTANDO A VIDA 199

NOVOS PAIS, NOVA ÉTICA PARENTAL...

José Carlos Sebe Bom Meihy


Para o cronista, abordar datas que se repetem na rotina dos calendários implica achar atalhos originais, esforço para não ser maçante ou repetitivo. Dizer algo que certifique a comemoração, mas que, ao mesmo tempo acrescente algo, demanda cuidados. Uma das demandas remete às celebrações em datas redondas como 10, 20, 25, 30, 50, 75, 100 anos... Como se fossem apelos emocionais obrigatórios, a retomada de certos eventos se presta a cultos que tanto servem para reafirmar como evidenciar equívocos. Em um ou outro ponto, os aniversários se justificam para solidificar laços pessoais, de grupos, religiosos ou civis, com vocação coletiva. Muito das construções identitárias ou de comunidades se rende a tais rituais. Importante marca dessas cerimônias se expressa pelo esforço de quebra de rotinas na essencialização de fatos. Tudo como se houvesse permissão para que acontecimentos do cotidiano se firmassem como fora da curva rotineira. Talvez, o mais expressivo exemplo disso seja o “dia das mães”. O cotidiano materno, por certo e como tantas outras exaltações natalícias, se opera no dia a dia, mas a definição de uma data “específica” ratifica e sublima o mito desse afeto inigualável. Por certo, o comercio se beneficia disso, e de igual monta se percebem cultos religiosos exaltando tradições, algumas inventadas recentemente.
Ainda que se pense que, por exemplo, o amor materno seja inquestionável e irrestrito, eterno e universal, sabe-se que sua invenção é bem mais recente. Aliás, convém lembrar que como qualquer sentimento, o amor – em todas as suas formas – não responde a posturas inatas ou manifestações determinadas biologicamente. Os sentimentos também têm histórias e são suscetíveis a condicionamentos culturais, segundo lapsos de tempo e circunstâncias espaciais. Uma autora importante pela valentia, Elizabeth Badinter, por exemplo, escreveu um livro polêmico, daqueles que queimam mentes de leitores, questionando o “mito do amor materno”. Lembrando que houve épocas, recentes mesmos, em que as crianças depois de nascidas eram legadas às criadas e retornavam aos seus lares com cinco anos de idade, tudo se tona explicativo de culturas e épocas. A noção de família, na realidade, começou a mudar com a caracterização da burguesia, a partir do século XIX.
Valendo-me do mesmo mote, fico imaginando o significado interno de reflexões sobre a paternidade. Por certo, os livros religiosos e toda a literatura de um período, bem como a história, se rendem a releituras e interpretações. No caso do cristianismo, a redefinição do papel familiar implicou a noção de Sagrada Família para servir de norma forjadora de padrões úteis depois da revolução industrial. A mãe, modelada pela Virgem Maria, seria sinônimo de afeto invariável, comum a todas as mulheres. São José, o bom senhor que serviu de pai, representaria o provedor, homem zeloso pela honra da mulher e sustento da casa. O filho – leia-se também no plural, “os filhos” – selaria a unidade que, afinal, é a base de qualquer sociedade moderna e unidade econômica. Frente à precariedade de estudos históricos que insistam na desconstrução de pressupostos fixos, persiste a resistência de valores assumidos como inquestionáveis ou dogmáticos. Valeriam aprofundamentos históricos na questão, mas, mesmo que à flor d’água, é oportuno colocar alguns pontos que se mostram pertinentes a responder sobre o sentido da paternidade hoje.
Em vez de simplesmente retocar os mesmos denodos exaltativos da paternidade, cabe inscrever alguns pontos fundamentais. Nos dias atuais, frente a emersão transformadora do papel da mulher na sociedade, como ficam os papeis paternos? Não apenas considerando os avanços femininos e a decolagem feminista, mas levando-se em conta a relativização do papel do casamento, qual o peso das tradições patriarcais que, queiramos ou não, ainda desafiam um padrão de masculinidade? E a chamada revolução sexual, com a flexibilização do binarismo homem/mulher teria algum impacto no perfil paternal? Pensemos, a guisa de provocação, nos casais homoafetivos e nas aberturas legais para adoções. Será que o que se comemora como “dia dos pais” agora, encerra o mesmo teor do passado recente? Ou que devamos aceitar o feminino também cabível como paterno? Tenho amigas casadas, lésbicas, e em um desses casos, um componente da unidade familiar quer festa e presente dos filhos, há como não respeitar?
Parece questionável também pensar no significado da coleção de mudanças na educação dada ou permeada pelos pais. Suponhamos diálogos de pais e filhos sobre as orientações sexuais em geral. Ou sobre o uso de drogas. Que tal falar de aborto com os filhos? Ou de relações abertas? Sem uma nova ética, atualizadora de diálogos, não há como se pensar na paternidade além das festinhas e presentinhos tolos. Ser pai hoje requer capacidade de negociação e valentia na discussão de papeis e funções domésticas. Talvez, portanto, o melhor presente que se possa pensar para os pais modernos seja a veiculação de uma nova ética. Feliz dia dos pais a quantos se dispuserem a pensar nos filhos sob os padrões de hoje.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

TELINHA QUENTE 271



Roberto Rillo Bíscaro

Embora corramos sempre o risco de exagero ou imprecisão, nesses tempos de overdose de fartura de séries, é importante tentarmos rotular a qual subgênero cada produção pertence, a fim de facilitar, pelo menos um pouco, a vida dos telespectadores. Nem sempre é fácil, porque vivemos a época do pastiche e do crossover, mas pelo menos pode-se tentar dar alguma noção ao consumidor, perdido em um turbilhão de produções.
Os seis capítulos criticamente aclamados de Top Of The Lake (2013) são prioritariamente descritos como série policial com elementos de drama feminista. Eu alteraria a ordem, porque a produção neozelandesa é um poderoso drama-denúncia dos excessos fálicos da sociedade patriarcal, que usa quase como desculpa uma investigação policial. É preciso ter isso em mente antes de se decidir por assistir à produção, que consta da grade da Netflix brasileira. Caso o expectador não se neuro-programe pra aceitar que as convenções e velocidade do drama vêm primeiro, pode achar Top Of The Lake bem monótono, porque há longas sessões que não fazem a trama detetivesca caminhar um milímetro. Mmmm, mesmo depois de me posicionar perante o subgênero, achei meio chatinho, embora esteticamente bem-sucedida. Não, uma coisa não exclui a outra em meu universo emocional.
Nos confins cenicamente belíssimos da Nova Zelândia, uma eurasiana de 12 anos aparece grávida, pra em seguida desaparecer. Ela é filha dum coroa malvado e desonesto, com meios-irmãos da pesada. Candidato a estuprador de vulnerável é o que não falta na pequena Laketop, que afugenta qualquer desejo de viver no interior do arquipélago; eita gente estranha! Se bem que jamais vemos a cidadezinha, atente pra isso, é só natureza, acampamentos, cabanas isoladas. A natureza é fundamental em Top Of The Lake e pra quem curte paisagens, já vale a minissérie.
Quando Tui aparece grávida, quem convenientemente está passando temporada no lugarejo é a detetive Robin Griffin. Ela veio visitar a mãe moribunda e por isso tirou licença de seu emprego em Sidney. Obcecada pelo calvário da menina abusada, Robin tem seus próprios e pesados fantasmas envolvendo seu passado adolescente em Laketop.     
Produzida, escrita e dirigida pela cineasta Jane Campion, Top Of The Lake encaixa-se em seu cânon de denúncia dos abusos do macho. Até sua querida Holy Hunter está no elenco, como mentora espiritual dum grupo de mulheres abusadas que monta acampamento numa área conhecida como Paraíso. Cheia de afirmações-verdades e sentenciosas. Acho tão sacal esse tipo de personagem...
O selo Campion confere a Top Of The Lake direção segura de atores e produção esmerada, além de clima de cinema independente, com sua galeria de gente disfuncional e ações de esquisitice de butique. Tudo muito cabeça, simbólico, pertinente em sua denúncia contra alguns grupos oprimidos (brancos ou eurasianos; neozelandeses nativos não existem nessa natureza), mas, como policial, sinto muito, não dá. É apenas desculpa do roteiro pra falar de outras coisas e querer transgredir (embora um exame de “DNA ex machina” recue a transgressão mais patente).
Robin Griffin não age como protagonista quase nunca, a não ser nos 15 minutos finais, quando há uma plot twist a partir de uma epifania meio que do nada. Top Of The Lake serve pra mostrar como essa visita ao local de nascimento funciona como catarse regenerativa pra detetive. É preciso desconstruir pra construir. Eurasiana ou branca, mulher se ferra mais no patriarcado. Essas coisas são legais em Top Of The Lake e não o suspense policial ou as revelações sobre o sumiço de Tui. Até porque revelar a homossexualidade duma personagem com cabelo super Limahl não surpreende nada, né? Mmm, a não ser que você não seja 50tão e sequer suponha quem tenha sido o vocalista do Kajagoogoo.    
Lento, cheio de distrações narrativas quanto à trama policial (e inverossimilhanças: como alguém fica meses numa floresta gélida e permanece com aquele cabelo de comercial de shampoo? Me deixaaaaaa!), Top Of The Lake é um drama feminista que apenas reafirma a boa época pela qual passa a produção televisiva.

Mas, não sei se terei saco pra prometida temporada dois. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

CAIXA DE MÚSICA 277


Roberto Rillo Bíscaro

Após a explosão da internet, uma das diversões/paixões de amantes de qualquer estilo é buscar pérolas e raridades. O objetivo pode ser desde fazer bonito pra se mostrar ou mesmo descobrir obras-primas obscuras. Fãs de rock progressivo há décadas vem desencavando sótãos, porões, baús e sites especializados à cata de pepitas.  Difícil encontrar obras-primas, mas volta e meia topamos com álbum que nos lembra algum grupo amado não mais existente, então, tal emulação assume tons de novidade. É como se estivéssemos ouvindo LP “novo” de algum(ns) querido(s) há tempos extinto(s).
Foi o que aconteceu, quando tropecei em Caverns Of Your Brain, do obscuríssimo ianque Lift. Na verdade, era como se prenunciasse o que décadas depois fariam grupos como o Glass Hammer, isto é, mesclar sonoridades típicas de diversos grupos prog pra criar uma sua. O Lift não tinha maturidade ou perícia pra sintetizar suas explícitas influências em novidade, mas o resultado frankenstênico de seu único álbum é muito interessante pra quem se amarra em prog sinfônico melódico.   
Imagine uma banda no sul dos EUA, abrindo seus shows em 1973, com Watcher Of The Skies, do Genesis, quando os próprios britânicos não passavam de excêntricos alternativos, conhecidos por poucos em seu país. Pois o Lift, formado no ano anterior, em Nova Orleans, fazia isso e acrescentava covers de ELP, Yes, Moody Blues, Led Zeppelin e outros.
Quando as quatro canções de Caverns Of Your Brain foram gravadas, em 1974, os membros do Lift não tinham mais de 19 anos de idade. A formação era Chip Gremillion (teclados), Cody Kelleher (baixo), Chip Grevemberg (bateria e percussão), Richard Huxen (guitarras) e Courtenay Hilton-Green (vocais e flauta). Só que o material não foi lançado até, 1977, quando a banda amargava em Atlanta, já com formação bem distinta, inclusive, vocais femininos.
O Lift debandou em 1979 e os membros nem sabiam que em 1977 Caverns Of Your Brain fora lançado, porque o selo que o fez era pirata. Parece que há uma reedição com material dos anos de Atlanta, mas não me interessei em conhecer.
Em linhas bem gerais, pode-se descrever o Lift como cruza entre Yes e Genesis. Os 10 minutos de Simplicity têm climão de teclado no começo, meio Watcher..., mas o vocal é super-Jon Anderson. Entretanto, lá pelo sétimo minuto, uma descarga de Hammond foge das texturas utilizadas por Tony Banks e confere ao Lift um som mais original, mais perto do prog italiano. Uma das diversões de ouvir versões mais genéricas de prog rock da época e brincar de caçar influências. Trata-se de subgênero muito idiossincrático, então, fãs mais devotados reconhecem guitarras Fripp, Hackett ou Howie; teclado Wakeman ou Emerson; bateria Collins etc.
Embora mais indicado pra fãs de prog tecladista, Caverns pode agradar guitarreiros, devido ao solo à David Gilmour nessa faixa de 9 minutos, que abre meio experimentosa, meio space rock, assume tom litúrgico pra finalmente decidir-se por tom meio pastoral Floyd-genesiano.
Buttercup Boogie são 6 minutos de punhetação prog adolescente. Teclados e bateria em corredeira célere com intervenção de guitarra apimentada. Tipo, ELP encontra o baixo de Chris Squire e The Knife. Trippin’ Over The Rainbow são quase dúzia de minutos de casamento de Yes com Genesis (Banks em um dos movimentos de Supper’s Ready), intercalando as texturas matinais do primeiro com teclados mais dramáticos e até algo lúgubres de prog europeu continental.
Sabe-se lá se esses teens sulistas teriam desenvolvido linguagem prog só deles. Nem compensa brincar de futurologia no condicional; melhor curtir Caverns Of Yur Dreams. 

domingo, 6 de agosto de 2017

BARBEIRO DA SUPERAÇÃO

O pernambucano Cesar ficou paraplégico em um acidente enquanto nadava, há mais de duas décadas. Mesmo deitado em uma cama o tempo todo, ele é um profissional requisitado por homens e mulheres, que vem cortar cabelo e delinear sobrancelhas. Assista ao vídeo:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TELONA QUENTE 196

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Roberto Rillo Bíscaro

Embora não seja a única instituição onde abusos sexuais aconteçam, a Igreja Católica é infame pela recorrência e impunidade de pedofilia e efebofilia. O escândalo e ultraje provocados por denúncias de abuso clerical soam mais sujas, porque esses “pastores” deveriam zelar pelo bem-estar espiritual de seus cordeiros e não comê-los.
No Chile, nos anos 2000, irrompeu escândalo envolvendo o padre Fernando Karadima, dirigente da paróquia de El Bosque, queridinho da tradicional família pinocheteana chilena. Em 2004, ex-seminaristas e membros da rica congregação começaram a denunciar o contínuo e serial assédio sexual e moral infligido pelo religioso em inúmeros jovens, entre as décadas de 80 a 2000.   
Em 2015, o diretor Matias Lira dirigiu El Bosque de Karadima, a partir de roteiro de Elisa Eliash, Alicia Scherson e Álvaro Díaz. Sucesso de bilheteria em seu país natal, o filme transformou-se em minissérie em 3 capítulos na Chilevisión, onde teve suplementação de hora e meia de material. A julgar pela perturbadora versão cinematográfica que a Netflix brasileira disponibiliza em seu catálogo, dá muita vontade de ver essa mini.
El Bosque de Karadima é narrado de forma justaposta por uma personagem ficcional, baseada nos depoimentos das verdadeiras vítimas. Thomas Leyton é esse compósito: jovem totalmente inseguro, sozinho no universo, que deposita toda confiança em Karadima, que ainda por cima, desfruta de fama de santidade. Adotando o ponto de vista do abusado, um dos trunfos do roteiro é realçar a dificuldade do oprimido em reconhecer-se como tal e, mesmo ao fazê-lo, em decidir quebrar o vicioso ciclo de abusos. E é justamente esse trunfo que deixa El Bosque de Karadima um filme necessário, mas nem sempre fácil de assistir. Benjamin Vicuña está excelente no papel do abusado Tomi, que ao mesmo tempo que sente repulsa por ser sodomizado enquanto sua esposa e filhos o esperam no hall, também sente carinho por Fernando, que pelo menos, era o único que lhe ouvia na juventude.
Poder-se-ia reclamar que a esposa de Leyton é meio tolinha por não haver desconfiado de nada depois do pintoso dialogo que tem com Fernando e de literalmente pegá-lo se esfregando com um jovem secretário. Também deve se supor que o padre tenha psicologia mais complexa do que a de um simples (mas condenável, claro) velho safado. Mas isso é opção do ponto de vista do roteiro e provavelmente também porque há mais dados dos abusados do que do pároco, blindado pela Igreja.
Sem escorregar pro sensacionalismo e com premiada atuação de Luis Gnecco, como Fernando, El Bosque de Karadima é excelente e dolorido exemplo de como o abuso de autoridade destrói vidas.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

CONTANDO A VIDA 198

PEQUENO INVENTÁRIO DE UMA VIAGEM PROFUNDA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Demorei muito até fazer uma viagem ao Líbano. Depois de tantos périplos, finalmente tomei a decisão e, com mais de 70 anos, vim. Ao cabo de duas semanas, devo dizer que fiz uma viagem dentro de outra. O trajeto físico foi facilmente identificado, como seria para qualquer turista, mas o espiritual... Sim, aconteceu algo que superou a expectativa de visitante. Devo dizer também que não me preparei devidamente para essa aventura. A correria de sempre, as atribuições de professor em fim de semestre, as consequências da crise que nos acomete, tudo junto ampliou a expectativa e dilatou o espaço da surpresa.

Como é comum a filhos de emigrantes, tive preocupação de tornar relativo meu dilema identitário. Sempre quis me sentir, acima de tudo, brasileiro. Os encargos de tal escolha implicaram em uma complexa seleção de valores vivenciados. Diria sem medo de errar que acalentei a manutenção de alguns traços da cultura libanesa, mas sempre atento ao filtro da conveniência brasileira. Meu empenho inclusivo, de certa forma, corroborava com uma atitude comum entre nós: o acatamento simpático dos brasileiros para com os libaneses. Assim, na insistência indiscutível de minha brasileiridade, aprendi a lidar com o que se aceitava com facilidade da herança árabe. Vivendo em um lar onde o convívio diário forçava a bilateralidade, soube valorizar o aprendizado de detalhes superficiais que, contudo, satisfaziam a todos, principalmente no que tangia à comida e a um certo estereótipo de árabe. Fiz questão de não aprender a língua árabe, ainda que meu pai insistisse, e, das poucas coisas que faria diferente, esta seria uma delas.

Lembro-me de um ditado que ficou esculpido em minha memória: o que é de raça, arrasta. Ao fazer a avaliação da viagem, entendo melhor a profundidade da sabedoria popular. Apesar de meu esforço empenhado no abrasileiramento, nunca deixei de me permear pelo que seria “de raça”. Estar viajando por todo o país me permitiu acatar este pressuposto. E como me foi estranho ver o desenho de rostos de parentes expressos em olhares, trejeitos, cheiros e gestos alheios. Era como se identificasse nos outros, traços pessoais. E quantas vezes me vi no esforço de tratar bem as pessoas, até me surpreendi pensando em pessoas chamando-as afetivamente de “habib”.

Ainda que tangenciando, devo reconhecer que meu inconsciente, sempre tão zeloso, cuidou de misturar os dois objetivos da viagem. No fundo queira conhecer minhas raízes e isso implicava riscos. Temia frustrações possíveis em tais investidas. Tinha poucas informações, mas sabia de duas cidades referenciais. Uma, pelo lado materno, Zahe, no encantador Vale do Beká, outro, em localidade charmosa, junto às ruinas de Biblos, Djbeil. Também havia sido informado que bastava chegar a cada lugar e perguntar. Para quem trabalha com memória, isso parecia um convite a estudos, pois é tão viva a presença do passado que, mesmo desconhecidos, são capazes de alguma informação.

Meu primeiro movimento foi passar por Zahle. No caminho de visita à floresta de cedros, tomei cuidado em sondar. Aprendi logo que a família Saba é relativamente importante e que Sebe seria uma variação. Logo me foi indicado um senhor, de nome Fouad, que poderia dar pistas. Em nova investida, dias depois, o mesmo simpático e velho senhor me explicava que o ramo Saba tinha muitas variantes e poderia ter gerado Sebe, Sabbe, Shebat, entre outros. Disse também, tanto o Brasil como a Austrália poderiam ter sido o destino de alguns. Mais pesquisas e me foi revelado algo que tinha ouvido falar: meu avô Felipe, seria modesto pastor e ao emigrar na leva de 1899, ao declarar oralmente sua procedência, negando seu nome legítimo, disse ser um Seba. Mesmo desacreditando, o registrador, em vez de colocar Seba, usou Sebe. Tais informações teriam sido passadas por outra fonte, os Abdalah, da linhagem materna. Bem-sucedidos no Brasil, este ramo teria voltado algumas vezes a Zahle e reportado tal história. Consegui ser recebido pelos Abdalah e pude simpaticamente ouvir relatos sobre os evadidos do Vale do Beká.

Pelo lado paterno tudo foi mais fácil. Em contato com a prefeitura, soube da existência do ramo Abimery que teria gerado variações como Abud Merhi, Bom/Bon Meihy e Adudmerty. Também tive a confirmação de que um ramo desses grupos teria ido para a Austrália. Soube ainda que um segmento dos Bom Meihy teria sido completado pelo lado de minha avó, de origem das montanhas de onde teriam vindo os Ghanem, de minha avó. Confesso que, levado a conhecer alguns destes “primos”, me emocionei muito, como se tivesse em frente ao meu pai. E repetia comigo mesmo “o que é de raça arrasta”.

Feitas estas descobertas, restava sondar a possibilidade de juntar a todos. O desejável empreendimento, porém, se mostrou inviável. Eram pessoas muito diferentes, diversas em nível econômico e, todos mesmo cristãos, uns eram católicos romanos, os de Zahle, e outros, os de Djbeil maronitas, ortodoxos. Mas não eram só estas diferenças, presidia também uma forte variação política. De toda forma, aprendi algo a respeito de mim mesmo. E só este trajeto afetivo teria valido para o abraço em minha própria história.  

terça-feira, 1 de agosto de 2017

TELINHA QUENTE 270

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Roberto Rillo Bíscaro

Falando sobre a excelente The Crown, John LIthgow comentou que a Netflix dá liberdade total de criação, uma vez aprovada a ideia. O ator narra que a companhia ofereceu suntuosa festa no início da produção e outra igualmente espetacular ao fim. No intervalo, a equipe sequer via os executivos. Considerando-se Marseille, série francesa que a Netflix liberou em maio de 2016, talvez devessem reconsiderar essa política e ficar mais em cima. Aquela história do olho do dono. Deixados soltos, os criadores Dan Franck, Pascal Breton e Florent Siri, juntamente com o compositor Alexandre Desplat deram contra-argumento na medida pra nós que já estávamos de saco cheio do tal “padrão Netrflix” tola, cega e aprioristicamente aplicado pra qualquer coisa lá produzida.
A mediterrânea Marselha está prestes a eleger seu novo prefeito depois de 20 anos de gestão do cocainado e vasto Robert Taro (Gerard Depardieu). Seu legado será um porto remodelado e um cassino, que supostamente conteria as atividades ilegais da máfia exploradora do jogo. Os meliantes não querem isso e são ajudados pelo pupilo de Tarot, Lucas Barres, que trai o mentor espetacularmente ao fim do episódio um e lança-se a candidato a prefeito contra Tarot. Porque ele se daria a todo o trabalho de concorrer a uma eleição que pra ele já estava ganha é um dos muitos absurdos da trama, mas que o espectador entenderá (?) numa melodramática reviravolta lá pelo capítulo 3. Divulgada como a House Of Cards francesa, Marseille tenta seguir o padrão ianque, mas só consegue ser engraçada ou meio chata. Aliás, essa história de House Of Cards desse ou daquele local também já está saturando. Baron Blanc também já foi anunciada como similar francófilo da saga dos Underwoods. Não me prendeu o interesse e desisti no meio, assim como abandonei os Underwoods este ano, devo comunicar. Que bomba de temporada, onde nada acontecia!
Voltando a Marseille...Com cenas brotando do nada, diálogos tipo “você vai comer essa piranha?”, personagens secundários totalmente desinteressantes, Marseille não chega a ser inassistível, mas pode bem ser cartilha de barbeiragens a serem evitadas ou assistível precisamente pra dar algumas risadas. A trilha incidental faz as de telenovela ou soaps parecem de série da BBC. Os floreios musicais são tão intensos quanto os d’O Reino, mas a chave da série de Lars Von Trier era paródica.
Se a ideia era fazer um Tarot Safadão, que merecia ser derrubado por Barrés pra trazer novos ventos à cidade, falhou miseravelmente, porque Lucas é tão desprezível que seria desperdício trocar Robert por ele. O obeso Tarot tem seus defeitos, mas não é mafioso. De resto, todas as mazelas de compra de votos e intimidação de eleitores pobres, nada novidadeiras pra nós.
Daria pra escrever uma dissertação de mestrado sobre as falhas e fracassos de Marseille. Desde o racismo politicamente correto, que coloca música árabe na abertura, mas nenhum dessa etnia em papeis positivos, até a estereotipação pesada dos marginais (árabes e negros), que parecem extraídos dalgum episódio desbotado de Miami Vice.
Quem quer série política séria, prefira Borgen; quem quer soap política bem feita, vá ver as temporadas anteriores de House Of Cards (ou a versão britânica em sua concisa íntegra) ou Scandal, dependendo do grau de telenovelização que esteja disposto a tolerar/admitir que curte. Quem quer rir, escolha Marseille. Agora, se seu senso de humor não é excitado por defeitos formais, eleja outra coisa.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

CAIXA DE MÚSICA 276

Roberto Rillo Bíscaro

A despeito do sobrenome, Denise Nicole White é negra. Como outras divas R’n’B aqui resenhadas, a norte-americana deve o grosso de sua formação musical aos coros de igrejas, apesar de ter estudado piano antes de ingressar em um deles. Na faculdade, ela se matriculou na graduação em piano, mas, desiludida com o programa, mudou pra filosofia, em que se formou.
Avery Sunshine é seu nome artístico e seu rol de fãs declarados conta com Boy George  e ninguém menos que a Rainha do Soul, Aretha Franklin. Cultuada por gente que vai de Bowie a Obama, passando até pela insuspeita Rumer, Aretha afirmou que “ama Avery Sunshine”. Nada mal pruma vocalista distante dos holofotes da mídia gigante, mas nada surpreendente pra quem conhece seu vocal altamente potente, pessoal e politonal.
A mágica solar de Avery continua em seu terceiro LP, Twenty Sixty Four, lançado em abril. Em tempos sintetizadamente sombrios de gritaria xiita de programa de calouros, Sunshine cunhou 14 faixas otimistas, tocadas por/com instrumentos de verdade e controlando seu poderoso vocal pra berrar apenas quando a canção pede e não pra mostrar que pode. Por isso Aretha a adora: são da mesma laia.  O álbum é tão bom que nem as indefectíveis vinhetas das cantoras atuais interferem, pelo contrário, contribuem de verdade com a ambiance.
A positividade que emana do trabalho vem em parte, porque Avery Sunshine recentemente se casou com seu guitarrista/produtor, Dana Johnson. Tem até trecho da cerimônia, com a cantora chorando e tudo. Relacionando-se há tempos, mas escaldados por relacionamentos prévios, ambos juravam que jamais se recasariam, até que o bofe pediu sua mão. Nesse momento, Sunshine conta que orou pedindo que se Deus os deixasse juntos até 2064 (Twenty Sixty Four), ela se exercitaria diariamente e pararia de dizer palavrões e comer demais.   
Desconheço se a promessa está sendo cumprida, mas mesmo que não, espero que Papai do Céu faça vista grossa, levando em conta a dádiva musical que a cantora e seu marido nos consagram.  O álbum transborda do clima sofisticado e criativo, muito devedor a inovadores como Steve Wonder. Quando o negócio é falar de amor sexualizado, melhor apelar pra Barry White, como na acariciante Kiss And Make It Better. Lisa Stansfield deve ter tido frêmitos de prazer, se ouviu isso e nós que adolescemos ao som da britânica, estamos perfeitamente equipados pra amar Twenty Sixty-Four.
As vinhetas não atrapalham, porque a maioria do material é de baladas quiet storm (Heaven Is Right Here); soul funk, como na faixa-título, totalmente amável por fãs de acid jazz ou jazz de piano, como no encerramento do LP, em Sweet Hour Of Prayer. Nada incomum em álbuns negros estadunidenses, o final desse é bem devocional. Confira a guitarra country contraposta ao discreto órgão gospel de Prayer Room. Em Everything I’ve Got, a guitarra discreta é mais rock, porque a balada é de paternidade púrpura de Minneapolis. A exceção espevitada contagiante é Used Car, milagre Motown em pleno século XXI. R’n’B pop com guitarrinha apimentada de blues; prepare-se pra encarnar uma Shirelles ou Marvelettes rápida e cair na dança. 
Não há uma nota fora do lugar, tanto na instrumentação, quanto na cantoria, em Twenty Sixty Four. Se este álbum ficar de fora das listas de melhores da soul music, em 2017, o meteoro destruidor definitivamente tem que nos atingir.

domingo, 30 de julho de 2017

ALBINOS E CARECAS EM PERIGO EM MOÇAMBIQUE!

Treze pessoas detidas por profanação de cadáveres de albinos e calvos no centro de Moçambique

As autoridades do distrito de Milange, em Moçambique, anunciaram a detenção de 13 pessoas acusadas de profanação de túmulos de pessoas portadoras de albinismo e calvície.
As autoridades do distrito de Milange, província da Zambézia, centro de Moçambique, anunciaram esta setxa-feira a detenção no primeiro semestre deste ano 13 pessoas acusadas de profanação de túmulos de pessoas portadoras de albinismo e calvície.


Numa visita que realizou à cadeia do distrito de Milange, a emissora pública Rádio Moçambique conta que entrevistou nove pessoas detidas sob a acusação de profanação de túmulos de pessoas portadoras de albinismo e quatro de pessoas calvas.

As pessoas entrevistadas narram que se envolveram nessas práticas aliciadas por promessas de dinheiro feitas por pessoas interessadas em usar partes de corpos humanos para rituais supersticiosos.

Comentando sobre o fenómeno, o delegado do Instituto de Patrocínio Jurídico (IPAJ), uma entidade governamental na província da Zambézia, António Guce, elogiou a pronta atuação das autoridades no combate a esse tipo de práticas.

Num contexto inédito em Moçambique, as primeiras notícias sobre o ataque a “carecas” surgiram em meados do primeiro semestre deste ano, mais concretamente na província da Zambézia, numa onda que já provocou algumas mortes entre portadores de calvície.

Os ataques a pessoas calvas surgem alguns meses após um aparente abrandamento da violência contra albinos para extração de órgãos, usados também em rituais.

sábado, 29 de julho de 2017

MOÇAMBIQUE INSEGURO PRA ALBINOS

Indivíduos desconhecidos assassinaram com recurso a uma enxada um menor de seis anos de idade com problemas de albinismo no distrito de Molumbo, na província de Zambézia.

O Chefe da Secção de Imprensa, no Comando da PRM, na Zambézia, Miguel Caetano, disse que o cunhado do menor é um dos suspeitos do crime.

Miguel Caetano disse que o suspeito está em parte incerta, noticia hoje a Rádio Moçambique, no seu portal.

Entretanto, um outro menor de três anos de idade também com deficiência de pigmentação da pele no distrito de Mecanhelas, na província do Niassa, foi raptado por indivíduos desconhecidos.

A Chefe das Relações Públicas no Comando provincial da Polícia da República em Moçambique (PRM), no Niassa, disse que a corporação está no encalço dos autores do crime.

Para lograr os seus intentos, os supostos malfeitores ameaçaram de morte os pais do menor, com recursos a instrumentos contundentes e de seguida raptaram a criança.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

TELONA QUENTE 195

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Roberto Rillo Bíscaro
Vendo a lista dos filmes e séries a serem removidos do catálogo da Netflix em agosto, o título Memórias Secretas chamou atenção, porque vinha com foto de Christopher Plummer. Gosto de prestigiar produções com papeis protagônicos por atores maduros. Porque escasseiam à medida que a idade avança, acho que o público deve apoiar, pra tentar incentivar que mais oportunidades apareçam. Pode ser ingênuo perante à maquinaria do lucro, mas me serve.
Dirigido pelo cult egípcio naturalizado canadense Atom Egoyam, Memórias Secretas tem alma de filme B aprisionada em corpo de suspense dramático “sério”. Gracejei com um amigo, que a direção, elenco, tema, título granjeiam a Remember até o privilégio de ser seriamente discutido em cursos de pós-graduação sobre memória e identidades líquidas. Dá mesmo, mas o roteiro de Benjamin August é uma série de arbitrariedades e plot twists, bem distantes do desejável prum “filme de arte”.  Não pare de ler por aqui, não detonarei Memórias Secretas; é divertido, só precisa ver com a cabeça no lugar.
Zev Guttman vive em um geriátrico, perdeu a amada esposa há pouco e enfrenta os estágios iniciais da demência, doença habilmente utilizada pelo roteiro. Convencido pelo amigo Max (Martin Laudau, recentemente falecido) a eliminar um nazista que acabou com ambas as famílias em Auschwitz, Zev sai pelos EUA e Canadá em busca dum Rudy Kurlander. Diversos nazistas escaparam, porque emigraram da Alemanha usando documentação falsa, roubada de suas próprias vítimas. Assim, havia 4 Rudy Kurlanders; Zev teria que descobrir qual era o carrasco e executá-lo.
Assim, desenvolve-se o thriller de terceira-idade misturado com drama e road movie. O roteiro faz tudo se desenrolar com facilidade incrível, coincidências e forçações de barra abundam. Repare que marmeladas as cenas na casa de armas e na fronteira! Mas nos bons suspenses B, o realmente divertido é a lógica e a plausibilidade estarem subservientes à história e às emoções não importa o quê.
E é isso que se necessita saber pra curtir Memórias Secretas como thriller e não como tratado-cabeça só porque o tema é perseguição a judeus dirigido por Egoyam (que já nem mais tá com essa bola toda no circuito de “arte”, sabiam?).
O elenco está muito bom e obviamente Plummer resplandece. Fãs de séries reconhecerão Henry Czerny, o Conrad Greyson, de Revenge e Dean Norris, da superestimada Breaking Bad (só eu não consegui passar da metade da temporada dois?). A sequência com Norris é de longe a melhor.
Memórias Secretas não é muito ágil, em consonância com o estilo de Egoyam e a idade dos protagonistas, mas oferece bons momentos de suspense e diversão. Sim, pode ser usado pra discutir identidades líquidas e memória em cursos de pós-grado também! Mais importante que isso, todavia, é mostrar que a velhice pode gerar histórias interessantes, onde ela ou suas características inerentes não precisam ser tratadas com pena ou como tolo material fofifnho cuti cuti.
Merece ser conferido antes que a Netfilix o subtraia de sua filmoteca.