quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ALBINISMO Y LEUCISMO DE FICCIÓN

O blog em espanhol El Jardin de Gaia publicou 2 postagens onde faz uma lista de personagens branquinhas, possivelmente albinas, na ficção. Pros que querem conhecer mais sobre este assunto que daria uma original dissertação de mestrado, vai o link:

http://jardindegaia.blogspot.com/2008/12/especial-navidad-albinismo-y-leucismo_6729.html

http://jardindegaia.blogspot.com/2008/12/especial-navidad-albinismo-y-leucismo.html

(A diva Rita Lee e seus Jardins da Babilônia.)

PULSEIRA PRA CEGOS

Projeto auxilia deficiente visual a se localizar por meio de GPS

Pulseira conectada aos pulsos promete ajudar a locomoção de deficientes visuais
William Marchiori

O Instituto Faber-Ludens divulgou um projeto tecnológico que orienta os deficientes visuais por meio de duas pulseiras conectadas a um dispositivo GPS.

As pulseiras seriam usadas em ambos os pulsos para orientar as rotas. Conectadas a um GPS por meio de conexão Bluetooth, elas emitiriam vibrações de acordo com o caminho que deve ser feito. Se o usuário precisar virar para a direita, a pulseira o alertaria, e vice-versa.

Além disso, o sistema também propõe um alerta para quando o usuário chegar a um cruzamento com tráfego agitado ou considerado perigoso. Depois de captar a informação dos mapas do dispositivo, ambas as pulseiras vibram. Ao chegar ao destino, o usuário é alertado com três vibrações de cada uma das pulseiras.

O projeto é aberto ao público e qualquer um pode participar do desenvolvimento. Para se registrar ou enviar um comentário, acesse o site oficial do Instituto Faber-Ludens http://www.faberludens.com.br/

(Falou em pulseira, eu tinha que lembrar das Bangles!)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

EM PAZ COM O CINE NACIONAL

Roberto Rillo Bíscaro

Fico penalizado quando me deparo com pessoas que, mesmo tendo oportunidades, pouco ou nada conhecem de seu próprio cinema. Conheci não-norte-americanos que jamais haviam assistido a um único filme de seus países e acabei eu, dando dicas de películas pra verem!

No Brasil há pessoas que não ficam atrás. Apenas vêem filmes nacionais chancelados por órgãos midiáticos internacionais, o que aliás, é algo que não me entra na cachola! Esperar aval de fora pra me falar o que ver do meu próprio país? É ruim eu fazer isso, heim?

Embora com menos freqüência do que desejaria, vez ou outra algum filme brasuca estoura, como o Se Eu Fosse Você, comédia dirigida pelo Daniel Filho e estrelada por Tony Ramos e Glória Pires.

Tento ser o mais aberto possível, vendo películas de variados países. Basta ver os arquivos do blog ou minha lista de melhores do ano, da qual consta o brasileiro Divã, inclusive. São nossos atores, roteiristas, diretores e técnicos; não consigo encontrar motivo plausível pra não prestigiá-los. Afinal, vivo, trabalho, como e pago impostos aqui! Calma, não virei nacionalista xenófobo! De novo, recomendo a leitura dos arquivos de cine, TV e música do blog. Prefiro crer que sou global; se tiver algo no Butão que me interesse e eu tenha acesso, tentarei ver/ouvir.

Domingo à noite, vi um filme brasileiro do qual gostei deveras: Tempos de Paz (2009). Dirigido por Daniel Filho e estrelado por uma dupla ótima, Tony Ramos e Dan Stulbach. O filme é uma adaptação da peça Novas Diretrizes em Tempo de Paz, de Bosco Brasil. A filiação do roteiro empresta forte tom de teatro filmado a Tempos de Paz. No teatro, as personagens foram interpretadas pelo mesmo par central, resultando que os atores entendiam muito bem quem estavam representando. Também não se poderá acusar Daniel Filho de fazer “TV na telona”. Aliás, adorei o fato de Daniel ter se dedicado a esse projeto mais intimista, mais “autoral” como os críticos especializados gostam de dizer. Ele poderia tranquilamente se dedicar a outro projeto mais rentável, depois do sucesso dos 2 Se Eu Fosse Você...

O filme é o duelo das personagens de Ramos e Stulbach. O último interpreta um imigrante polonês recém-chegado ao Rio de Janeiro, fugido da Europa devastada pela Segunda Guerra. No guichê da imigração, o homem, que se diz agricultor, demonstra ser culto demais, afirmando que havia aprendido português sozinho e recitando Drummond. Isso desperta suspeitas do funcionário que imagina que o estrangeiro possa ser um nazista tentando entrar no país. Assim, o imigrante é levado aos porões do porto pra ser interrogado pelo chefe do serviço, interpretado por Tony Ramos, o oposto do polaco em termos de educação formal. A disparidade das personagens é o motor que dá o arranque ao conflito, típico de UM determinado tipo de teatro.

Incrédulo diante das respostas do polonês, o chefe Segismundo desafia-o: se o estrangeiro o fizer chorar no prazo de 10 minutos, ganhará salvo-conduto pra permanecer no Brasil, caso contrário, será sumariamente deportado. Em meio às histórias dramáticas da guerra, aprendemos que Segismundo (Tony Ramos) fora torturador nos porões da ditadura de Getúlio Vargas, mas tornara-se “obsoleto” em tempos de paz, quando o Brasil decidira enviar tropas pra combater em solo europeu contra os fascistas (com os quais o governo do “Pai dos Pobres” flertara, é bom lembrar).

Desse modo, o porão em que se passa a maior parte do filme é metáfora das sórdidas câmaras de tortura, que não acontecia apenas na Europa, mas também no Brasil, terra dos homens “cordiais”...

Ao final, ambas as personagens aprendem valiosas lições a respeito de falsas aparências e idealizações, e, sobretudo, da função da arte, “se é que tem alguma”, nas palavras do refugiado.

Tempos de Paz tem boas atuações, navega por diversos temas além dos aqui citados, direção segura de Daniel Filho (que também atua numa sub-trama) apresenta qualidade técnica e um comovente clímax de Stulbach.

Por que não prestigiar um produto assim?

(Veja o trailer.)

TANZÂNIA NO UOL

O UOL publicou vídeo narrado em português a respeito da matança dos albinos na Tanzânia. Além de um caso de uma albina que teve um braço amputado, há uma pequena entrevista com Peter Ash, ativista canadense que luta pela causa albina.
Devido à escassez de material sobre o assunto narrado em nosso idioma, à disposição na net, publico vídeo aqui, na esperança deque seja usado em salas de aula e divulgado da melhor forma. Obrigado a Madá, ativista pela causa albina do blog Procusto Nunca Mais, pela dica.

http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/?hashId=albinos-lutam-para-sobreviver-em-pais-da-africa-04023572C4A11307&mediaId=814195

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

CINE SÃO JOAQUIM


Roberto Rillo Bíscaro

Há alguns meses, o Helder, um dos seguidores albinos do blog me telefonou. Além do albinismo e da luta por superação de barreiras, compartilhamos forte interesse por cinema. Na conversa, não escapou a Helder certo paradoxo que vivemos: ambos com deficiência visual, ao mesmo tempo amando uma arte visual! Afinal, cine é contar histórias através de imagens, ainda que existam diálogos.

A diversidade e disparidade dos filmes comentados no blog atestam meu ecletismo. Trafego tranquilamente desde cine iraniano a produções podres de terror. Evito os lançamentos de Hollywood, mas isso não significa que seja refratário a eles. Só não fico neurótico na obrigação de TER que ver um filme porque todo mundo está vendo. Se calhar, algum dia vejo, sem stress.. Obrigação, só as que envolvem trabalho e afins. Me divirto como quero, não como mandam...

Mudei-me pra Penápolis em julho de 1976, vindo de São Paulo, minha terra natal. Lá, fora ao cine apenas um par de vezes. Perto de casa não havia sala e dependia dalgum adulto me levar.

Em Plis, havia o Cine São Joaquim em frente à praça central. Ficava a apenas 3 quadras de casa. Prédio enorme, na verdade, um cine teatro com capacidade pra 1.185 espectadores. (Aprendi o número exato agora há pouco, no link abaixo!)

A gente subia alguns degraus a partir da calçada (que ainda continuam os mesmos), e em frente havia a bilheteria. À direita havia uma porta de vidro com um carinha que pegava os ingressos. Lá dentro, havia um hall onde ficava a bomboniére, que não passava dum daqueles balcões antigos de vidro e madeira. Minha família possuía um empório e uma vez a administradora da doceria ficou devendo quantia razoável. Como não podia ou não queria pagar, concordou que pegássemos o equivalente da dívida em guloseimas nas sessões de cine! Quase morri de tanto comer chococlate, especialmente Choquito e o recém-lançado Sensação (que tinha música tipo Carmen Miranda no comercial!!)

Uma curiosidade: talvez o Cine São Joaquim tenha sido um dos únicos do planeta onde não se podia comer pipoca vendo filme! Era proibido entrar com o alimento nasala. Pra mim não fazia diferença porque vivo perfeitamente bem sem pipoca! Literalmente, comprei um balde de pipoca apenas UMA VEZ em toda minha vida, mas isso é pra outra história...

O grande balcão de doces ficava no espaço entre as portas de acesso e saída da enorme sala de exibição, que era em declive e tinha piso de tábua. Garrafas de refrigerante eram proibidas também porque senão a gente bebia e as colocava no chão pra que rolassem até lá embaixo... Era uma delícia bater os pés naquele piso, o cine todo parecia tremer! Antes de o filme começar era costume de muitos garotos correr ou dar voltas pela grande sala semi-escura.

Eu não perdia uma só matinê, sessões de filmes infantis aos domingos á tarde, às 14:00. Era ritual dominical, não importa o que estivesse passando. Sentava-me na primeira fileira e tinha que ficar com a cabeça levantada porque era quase embaixo da tela.

Conforme crescia, começava a ver os filmes exibidos à noite também (e mudei-me pra poltronas um pouco mais atrás, mas não muito porque senão não enxergaria as legendas!). Naquela época existia a Censura. Havia filmes pra 5, 10, 12, 14, 16 e 18 anos. Dizia-se que também havia filmes de 21, mas não sei se era verdade ou invencionice da meninada.

Morríamos de vontade de ver os filmes acima de nossa faixa etária. Claro! Falou que é proibido, a coceira é maior pra ver, não é assim? Quando tinha uns 11 anos, tentei entrar num filme pra 16, A Maldição das Aranhas! Passei no apartamento dum colega e fomos pra casa de outro. Tentaríamos os 3 entrar... Na porta do cine, os 2 afinaram, mas eu fui em frente... “Ih moleque, pode voltar pra trás, cê não tem 16 nem aqui nem na China”... Fernando e Alexandre mo gozaram durante dias e contaram pra escola toda!

No ano seguinte, entrava tranquilamente em filmes pra 14 anos e logo, logo nos raros filmes pra 16. Mas, daí, a grande ambição era entrar num de 18!!!

Quando estava no primeiro colegial, em 1982, aos 15 anos, realizei a façanha! Fui ver Luz del Fuego com Lucélia Santos e Walmor Chagas. Adolescentes são mais blasé, mas mesmo assim, tive alguns minutos de fama no dia seguinte, entre os meninos menores ou menos “descolados”...

Muitos momentos deliciosos vividos no São Joaquim... Minha turma e eu fomos assistir Flashdance 3 vezes, nas 2 semanas em que ficou em cartaz...

Agora, o que mais marca alguém acima dos 30 anos que tenha vivido em Penápolis na época e freqüentado o cine São Joaquim é uma música!

Como se tratava dum cine-teatro, a tela ficava no palco, no topo de alguns degraus e protegida por uma cortina. Pra marcar o início de toda e qualquer exibição, as luzes se apagavam e imediatamente começava a tocar Theme from a Summer Place, simultaneamente ao abrimento das cortinas. Vivi isso centenas de vezes ao longo de quase 2 décadas! Em 1993, ainda me lembro de tocarem a canção...

Hoje o cine São Joaquim não mais existe. Há outro cine com outro nome no mesmo prédio. Agora há um cinema e um teatro. A sala era tão grande que deu pra fazerem duas! Não há mais cortinas porque parece que são proibidas pelos bombeiros por causa de perigo de incêndio. Também não toca mais Theme from a Summer Place...

Nunca deixarei de ver as cortinas do cine São Joaquim se abrindo toda vez que ouvir essa canção. Ela sempre será “a musica do cinema”. Aliás, aprendi o nome oficial dela hoje!

(A música pra ilustrar o post não poderia ser outra, claro...)

sábado, 2 de janeiro de 2010

ADEUS ANO VELHO, FELIZ ANO NOVO...

Miguel Naufel, nosso memorialista de plantão, enviou novo texto.

Adeus ano velho, feliz ano novo... Quando se tem oito anos estas frases são de um valor incalculável, Imaginamos que tudo vai mudar, afinal vem um novo ano.
A partir de meia noite tudo vai ser diferente. Quando eu for brincar de pega-pega com os meninos da minha rua, não vou ser mais café com leite. Café com leite é aquele que corre pra todos os lados e ninguém pode pegar na brincadeira de pega-pega. No Ano Novo vou poder nadar na piscina do clube porque o sol e o cloro da água não vão me fazer mal. O melhor do Ano Novo é que vou enxergar o que está escrito no quadro-negro da minha classe na escola. No Ano Novo não vão mais me chamar de vovô, quatro olhos, papai-noel, ceguinho... Afinal é Ano Novo e tudo vai se realizar no ano que vai nascer...
Miguel José Naufel

(Um dueto entre a escocesa Sheena Easton e o então garotinho Luis Miguel.)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

FELIZ 2010!

2009 foi ano de decolagem pra nossa causa albina. Nunca havíamos estado em tantas pautas midiáticas como neste ano recém-findo. Jornais, TV, rádio, ensaios de moda e campanha publicitária. Começamos a conquistar nosso espaço.

Quero agradecer a todos os leitores do blog pela companhia e apoio inestimáveis e desejar um 2010 pleno de sonhos e projetos realizados.

Sua companhia nessa jornada é imprescindível, além de querida e desejada. Por isso, espero estar com vocês e quem mais chegar neste ano que nasce.

Mais coisa boa vai acontecer neste ano. Querem apostar?

FELIZ 2010 PRA NÓS TODOOOOOOOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(Dia de Ano Novo com U2, na época em que o cabelo do Bono – e de todo mundo - era bem mais legal!)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

OS (MEUS) MELHORES DE 2009

Roberto Rillo Bíscaro

Final de ano é época inevitável das retrospectivas. Em tudo quanto é lugar, elegem-se os melhores do ano em várias categorias. O Blog do Albino Incoerente não poderia ser diferente e também apresenta sua retrospectiva.

Por outro lado, como tem que ser diferente, o Blog do Albino Incoerente apresenta sua retrospectiva seguindo os seguintes critérios:

1 – Apresentarei as coisas das quais mais gostei no decorrer do ano. Não importa se sejam as “melhores”, o critério foi eu gostar. O melhor do ano que digo é o “melhor pra mim”. E eu nunca escondi que gosto de bobagens, além de não ter pudor em admitir pra quem for. Enquanto pagar minhas próprias contas, me reservo esse direito!

2 – Na retrospectiva deste blog, vale o que vi, ouvi ou li neste ano. A data de produção me importa tanto quanto saber a circunferência do anel maior de Saturno!

3 – A ordem na qual apresentarei meus melhores não significa ordem de preferência. Na verdade, fui rastreando os arquivos do blog de trás pra frente, então essa é a ordem.

4 – Só estão listadas coisas sobre as quais comentei aqui.

Agora, vamos às listas, que podem conter números variados de elementos

CINEMA

The House of The Devil, apesar do final que contradiz o resto da narrativa (grrrr!).
http://www.albinoincoerente.com/2009/12/demonio-retro.html
Divã, com a diva Lilia Cabral, apesar de um par de momentos constrangedores do roteiro.
http://www.albinoincoerente.com/2009/11/no-diva-com-lilia-cabral.html
La Ventana, pérola do cine argentino. Carlos Sorim, te amo!
http://www.albinoincoerente.com/2009/10/la-ventana.html
[REC], terror espanhol que me deu vontade de estar em frente a uma tela grande. Chapante!
http://www.albinoincoerente.com/2009/06/rec.html
Rang-e khoda, sutileza e profunda beleza visual e sônica vindas do Irã. Uma das coisas mais lindas que vi na vida.
http://www.albinoincoerente.com/2009/03/rang-e-khoda.html
Bacheha-Ye aseman, outro deslumbre iraniano, com uma história falsamente “simples”.
http://www.albinoincoerente.com/2009/03/ira.html

TV
Jane Eyre, minissérie da BBC, que consta nesta lista apenas por causa do trabalho da atriz Ruth Wilson, a melhor Jane Eyre que já vi
http://www.albinoincoerente.com/2009/09/jane-mas-nao-austen.html
A segunda temporada de In Treatment. Psicanálise pop; deu até vontade de fazer o curso de formação em psicanálise. Quem sabe?...
http://www.albinoincoerente.com/2009/08/no-diva-com-paul-weston.html
Harper´s Island. Não falei que curto bobagem? Vocês acham que eu não adoraria uma série de TV slasher???
http://www.albinoincoerente.com/2009/08/harpers-island.html
A segunda temporada da série argentina Epitáfios. Curti mais a primeira, mas a segunda também é boa. E o Júlio Chávez ruuuuuuuuuuuulzzzzz!
http://www.albinoincoerente.com/2009/07/epitafios-2.html
Dekalog. Com 20 anos de atraso, assisti à fantástica produção polonesa. (só no Blog do Albino Incoerente você encontra Harper’s Island e Dekalog na mesma lista de MELHORES do ano!)
http://www.albinoincoerente.com/2009/07/decalogo.html
Bleak House, adaptação da BBC da obra de Charles Dickens. Gillian Anderson dando carão até em cena de morte, Charles Dance fazendo um vilão impecável e Denis Lawson, um John Jarndyce adorável. Já vi 2 vezes e quero ver de novo.
http://www.albinoincoerente.com/2009/04/biscoito-fino.html
The Sopranos, as 6 temporadas. Assisti tudo de uma enfiada praticamente só. Roteiro, caracterizações, atuações, tudo impecável. TV inteligente.
http://www.albinoincoerente.com/2009/03/ewings-versus-sopranos.html

LITERATURA
Num ano de pouca literatura e muita teoria literária, o destaque vai pro romance A Chave de Casa, de Tatiana Salem Levy. Ela gosta de dois pontos tanto quanto eu!
http://www.albinoincoerente.com/2009/03/ewings-versus-sopranos.html

ÁLBUNS
Esta será a parte mais “falsa” da retrospectiva porque a maioria do que escuto eu não resenho ou comento no blog...
Look of Love: Burt Bacharach Songbook, álbum onde a holandesa Traincha interpreta ninguém menos do que meu Mestre Burt Bacharach. Encantador.
http://www.albinoincoerente.com/2009/12/traincha-canta-o-mestre.html
The Resistence, dos ingleses do Muse. Puro exagero.
http://www.albinoincoerente.com/2009/12/o-som-da-musa.html
Exploding Head, dos nova iorquinos do A Place to Bury Strangers. Microfonia e guitarras tocadas com esmeril. Maravilha ruidosa.

SITE DA APALBA

É com prazer que divulgo o site da Associação das Pessoas com Albinismo da Bahia (APALBA), que passa a fazer parte de nossos Territórios Amigos, juntamente com o blog deles.

http://www.apalba.org.br/

Torçamos pra que o espaço seja atualizado constantemente e divulgado como merece.

(João Gilberto... Ele veio da Bahia... Que lindo que é João!)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A PEQUENA ORFÃ “RUSSA”

Chove sem parar desde manhãzinha em Penápolis. O dia está super-preguiçoso e eu de férias, sem vontade de fazer nada, após ter concluído uma tradução que apareceu ontem e ontem mesmo foi feita. Nada melhor do que ver filme em dia assim. Por isso, decidi ver Orphan (2009), thriller co-produzido por EUA, Alemanha e Canadá.

O filme é sobre uma garota malvada, muito perversa mesmo. Filmes de horror e suspense com crianças não são novidade. Basta lembrar de The Good Son (1993), com Macualey Culkin; The Bad Seed (1956); Village of the Damned (1963), com meu amado George Sanders; Bloody Birthday (1981); The Innocents (1961), estupenda adaptação da novela The Turn of the Screw, de Henry James e o infelizmente pouco conhecido Quien Puede Matar a um Niño?, produção espanhola de 1976. Digo infelizmente porque depois veio o norte-americano Stephen King, que lançou o seu The Children of the Corn e ficou com a fama de “original”. Aliás, isso acontece com muita freqüência porque tem gente que só vê filme norte-americano...

Como crianças são imaginadas como inocentes, indefesas e amorosas, não deixa de ser assustador quando algo dá “errado” e se tornam malvadas, talvez daí a recorrência desse tema.

Orphan é a história dum casal de classe média alta que decide adotar uma órfã russa extremamente educada, inteligente e pálida (palidez sempre “funciona” pra caracterizar vilões; nós albinos que o digamos!). No começo, a garota é um anjo de candura, mas, aos poucos, ocorrências suspeitas começam a acontecer e são percebidas apenas pela mãe adotiva e seus outros dois filhos. O pai não percebe nada e nem acredita na esposa, a qual tem uma história pregressa de alcoolismo e perdera um filho no parto. Isso funciona narrativamente pra que a personagem demore a levar crédito por suas suspeitas. Além disso, todos sabemos que mulheres e crianças são mais “sensíveis” que nós, brutos homens, não???

O roteiro é redondíssimo; as mudanças na trama, que marcam a passagem dos atos (pra quem não sabe, filmes são divididos em atos, geralmente 3), quase gritam na tela, mostrando o arcabouço da escrita dramática como se fora raio X! Na passagem do segundo pro terceiro ato, há uma reviravolta na trama (plot twist, em inglês) que me fez gargalhar porque nem eu esperava a explicação dada pro comportamento da garotinha estrangeira. Se eu falar qual é, perde a graça, mas dá certo ar de originalidade a um filme, que de resto, nada tem de.

Em tempos de imigração como tema candente em países europeus e nos EUA (decerto também no Canadá...) e levando-se em conta o forte subtexto moralista e moralizante das narrativas de terror (quem duvidar disso, que (re)veja Scream (1996), do Wes Craven, que coloca a nu porque tal e tal personagem nesses filmes merece morrer), difícil deixar passar a nacionalidade da diabinha.

No fundo, Orphan funciona como advertência velada (?): cuidado com quem você coloca no seio de sua família, especialmente se for uma imigrante, ainda por cima, russa!! Eles podem ser inteligentes, educados e até brancos (demais, nesse caso), mas são irremediavelmente o Outro, por isso não é bom confiar muito neles...

(Deu vontade de ver e ouvir Shelleyan Orphan, subestimada dupla britânica dos anos 80.)

MANDIOCA ALBINA?

A leitora Madá me chamou a atenção ontem para o fato de que a lenda brasileira que explica o nascimento da mandioca, apresenta uma criança de cabelos e pele muito alvos.

Pesquisei rapidamente na net e encontrei diversas versões da lenda e em todas a criança é descrita como bem branca msmo.

Não entendo nada de lendas indígenas e NÂO estou afirmando que a criança do mito seja albina. De qualquer modo, decidi compartilhar uma das versões encontradas online com os leitores.

De repente, algum estudioso do assunto pode nos tirar essa dúvida.

Texto interpretativo que reúne pontos
Comuns de diversas versões da lenda.
Parte I
Conta-se que há muito e muito tempo, numa aldeia lá pelas bandas do rio Iriri, tributário do Xingu, o cacique Arumarã, de uma tribo de longa tradição agrícola, viu-se num tremendo embaraço quando percebeu que sua filha, ainda na idade da primeira volta-da-lua*, recebera em si o sopro do vento que agita a água para perpetuar a vida.
Mas como aceitar um desvio dos costumes: permitir a renovação do ciclo da existência temporal, antes do menda-hab? Interrogou veementemente a jovenzinha que jurava inocência persistentemente: he-maran-é-im!
Atordoado pelo turbilhão dos pensamentos que, neste tipo de situação, se contradizem e se multiplicam a cada instante, capazes até de fazê-lo aceitar o que é errado e negar o que é certo, refletiu profundamente sobre o acontecido e decidiu, usando sua grande sabedoria de tupichab, manter a menina confinada em uma oca até que Tupã lhe desse um sinal.
Passado o tempo certo, nasceu uma criança muito diferente dos outros curumins: era branca como leite, tinha cabelos alvos como as sábias cãs dos antigos awa-tu-a'u, os olhos eram de um verde profundo, pareciam a cor da floresta vista do alto da montanha em dia chuvoso.
A criança recebeu o nome de Maní e a notícia do seu nascimento, assim como das circunstancias peculiares desse acontecimento, espalhou-se rapidamente. Todos que ouviram falar sobre ela vinham de todos os lugares para vê-la e confirmar aquela estória singular.
Parte II
Várias luas se passaram e a criança, que estava sempre risonha e crescia em perfeita saúde, de súbito, sucumbiu à única e inexorável certeza que a vida reserva. A tristeza espalhou-se tornando sombria aquela linda manhã de sol.
Arumarã, pretendendo garantir proteção à infante alma, ofereceu-lhe lutuoso abrigo: levantou uma oca sobre o derradeiro e definitivo leito.
Algum tempo depois brotou naquele lugar uma plantinha desconhecida, nem os habitantes mais antigos daquelas redondezas souberam identificar.A planta crescia a cada dia e quando estava mais alta que o próprio cacique, fendeu-se o solo ao redor do caule, expondo as grossas raízes.
Curioso, Arumarã arrancou a planta da terra, limpou cuidadosamente as raízes e chamou toda a tribo para vê-las, pois eram da cor dos curumins.
Ao retirar-se a fina pele marrom, descobriram que existia outra, branquinha como a cor de Maní. As mulheres acharam que as folhas da planta tinham a mesma cor dos olhos da criança e ninguém teve dúvidas de que se tratava de um presente de Tupã.
As raízes foram utilizadas como alimento e pedaços do caule foram distribuídos aos mais velhos, que os enterraram, cada um em sua oca, onde nasceram outras plantas iguais a primeira.
Com o passar do tempo o cultivo da planta foi passado de geração para geração e hoje nós também a conhecemos, é a mandioca.
Léxico:
Awa-tu-a'u – homem velho ou pessoa idosa.
Curumim – criança
He-maran-é-im – sou inocente ou sou virgem.
Menda-hab – casamento.
Tupã – Deus
Tupichab – chefe.
*Volta da lua – menstruação.
Obs.: Apesar de não ser a principal família lingüística predominante na extensão do rio Xingu, optou-se por termos do Tupi para a composição deste texto.
Manoel Brandão Nobilli

(Encontrado em http://www.webartigos.com/articles/24838/1/a-lenda-da-mandioca/pagina1.html)
(Abaixo, uma versão narrada da lenda da mandioca.)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

MEDICINA AVANÇADA

Hoje, tenho uma dica de site pros leitores do blog. Trata-se do Medicina Avançada, da Dra. Shirlei de Campos. O espaço contém inúmeros tópicos interessantes sobre medicina e saúde. Como o nosso blog, porém, também possui uma seção de arte, cultura e até uma receita culinária já vi lá!

O link abaixo cai direto no artigo Albinismo Parcial com Imunodeficiência.
http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/10749
(Shirley Bassey... Goldfingeeeeerrrrrrrrrrrr)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O OPALA LÚCIO FLÁVIO

Mais uma saborosa reminiscência de nosso colaborador albino mais assíduo, Miguel Naufel.

O Opala Lúcio Flávio
Na década de setenta, o cinema nacional lançou um filme que tinha o titulo: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Era a história de um famoso ladrão de bancos. Em algumas cenas, o ator principal aparecia de chapéu e óculos escuros no banco de passageiro de um carro, tendo a seu lado um companheiro enorme de gordo, também de chapéu e óculos escuros, que dirigia o carro. Era o ladrão Lúcio Flávio e seu companheiro fugindo de mais um roubo a banco, dentro de um Opala ano setenta de cor branca, quatro portas com pneus radiais de faixas brancas. Sempre que os policiais avistavam o Chevrolet Opala gritavam: olhem o Lúcio Flávio! E todos os policiais corriam para deter o Opala.
Minha baixa visão não me permitia ler as legendas; então eu não era muito ligado a cinema e meu companheiro inseparável, Chicão, dizia: Eu não vou no cinema porque aquele trem passa muito depressa. Aquele trem a que Chicão se referia, era com relação á legenda.
Ah, mas quando se tratava de filmes nacionais era diferente... Principalmente, quando era filme policial; não perdíamos nenhum! O filme Lúcio Flávio marcou nossa adolescência. Sempre que víamos um Opala de cor branca, quatro portas, brincávamos: olha o Lúcio Flávio aí! Alguns anos depois de assistirmos ao filme, em um domingo pela manhã fui despertado, como em todos os domingos, pelos gritos do Chicão: Migué, Migué, Migué! Pus meus óculos de lentes verde-escuras para me proteger da claridade e abri a janela do meu quarto, a qual se abria para a rua. Deparei-me com uma cena que nunca mais esqueci: o Chicão estava parado no meio da rua, bem abaixo de minha janela, de chapéu e óculos escuros, com a mão direita apoiada na capota de um Opala de cor branca, quatro portas. Gritou: olha o nosso Lúcio Flávio aqui! Sai até a rua, me aproximei do carro e não acreditei: era igualzinho ao do filme!
Ate hoje não sei onde Chicão comprou aquele carro. Vivemos anos felizes rodando pela cidade e redondezas, dentro do Lúcio Flávio. Éramos muito conhecidos, eu de chapéu e óculos escuros para me proteger do sol e da claridade; Chicão, com todo o seu tamanho, de chapéu e óculos escuros dirigindo o Opala Lúcio Flávio. Um Opala branco, quatro portas, era fácil de enxergar... Também, era o carro do Chicão, né?!


(Pra continuar no clima “memórias”, vamos relembrar as Lembranças da Kátia... Adoro!)

domingo, 27 de dezembro de 2009

SALIF KEITA II



Esta semana, coloquei uma postagem em espanhol arespeito do cantor Salif Keita, um dosmúsicos africanos mais conhecidos, respeitados e admirados do mundo. Como Salif é albino, que tal aprendermos um pouco mais sobre ele?

Salif Keita nascido a 25 de Agosto de 1949 é um músico e cantor de Mali. Ele é único, não só devido a sua reputação de A voz dourada de África como também pelo facto de ser albino e um descendente directo do fundador do Império Mali, Sundiata Keita. Esta herança significa que Salif Keita nunca deveria ser um cantor, que é uma função desempenhada por Griots. A sua música é uma mistura de estilos de música tradicional da África Ocidental, Europa e América e no entanto mantendo estilo de música Islâmica. Entre os instrumentos musicais mais utilizados por Salif Keita incluem-se balafons, Djembês, guitarras, koras, órgãos, saxofones, e sintetizadores.
Keita nasceu em
Djoliba. Ele fora ostracizado devido ao seu albinismo que é uma sinal de azar na cultura Mandinka[1]. Ele adandonou Djoliba e foi viver em Bamako em 1967 para se juntar a banda Super Rail Band de Bamako. Em 1973, Salif Keita juntou-se a banda Les Ambassadeurs. Keita e os Les Ambassadeurs fugiram da instabilidade politica em meados de 1970 para Abidjan, Costa do Marfim mudando o nome da banda para Les Ambassadeurs Internationales. Esta banda ganhou reputaçao internacional na década de 70 e em 1977 Keita recebeu o prêmio National Order do presidente da Guiné, Sékou Touré. Keita mudou-se para Paris em 1984 com o objectivo de obter mais fama.
(Encontrado em http://pt.wikipedia.org/wiki/Salif_Keita )

sábado, 26 de dezembro de 2009

EVENTO SOBRE ALBINISMO - FOTOS

Ivany Santos Mendonça, estudante da Universidade Estadual da Bahia, campus de Vitória da Conquista, enviou-me algumas fotos do evento sobre albinismo que aconteceu lá este mês e que foi notícia neste blog.

O evento foi um sucesso e no próximo ano haverá outro. Parabéns e tudo de bom pros envolvidos nessa importante iniciativa.




































































sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL


(O albino Miguel Naufel vestido de Papai Noel)

A todos os leitores e amigos, desejo FELIZ NATAL, do fundo do coração!

Que Papai Noel traga tudo o que quiserem. Vocês realmente merecem!

(Noite Feliz... afinal é Natal, né?)


CRANFORD, O LIVRO

Roberto Rillo Bíscaro

(Talvez interessem ao leitor meus comentários sobre a minissérie da BBC, baseada no livro.
http://www.albinoincoerente.com/2009/06/cranford.html)

Aproveitei as férias pra fazer algo que nem sempre posso: ler romance! Leio mais teoria literária e teatral do que romances, então resolvi dar um tempo e peguei a edição de Cranford, da inglesa Elizabeth Gaskell, que jazia na minha estante há anos, jamais sequer folheado. Publicado em 1853, a autora inicialmente não idealizara Cranford como romance. Oito quadros do que viria a ser o primeiro capítulo do livro, foram publicados em dezembro de 1851, no periódico Household Words, editado por Charles Dickens. Tamanho o sucesso que Gaskell cedeu e terminou por escrever um de seus romances mais queridos pelo público leitor.

Essa falta de intenção de compor obra mais avolumada e coesa pode ser a explicação pra forma episódica que a obra assume em seus primeiros capítulos, até adquirir forma mais unificada de romance mesmo, com sequência linear de ações dando origem a ações seguintes.

Cranford é o nome da aldeia fictícia, situada ao lado da também inventada Drumble, grande cidade comercial e algodoeira (a equivalente à Manchester, de Gaskell). O foco central do romance incide nas chamadas “Amazonas”que dominam a sociedade cranfordiana. Na fração social “que importa” do bucólico e idealizado lugarejo, os homens inexistem: ou morreram ou trabalham a semana toda na vizinha Drumble. As protagonistas do livro são senhoras de idade avançada, pobres, mas que habitam um mundo cuidadosamente construído e codificado pra mostrar aparência de aristocracia.

Com renda limitada, as senhoras de Cranford têm que se esmerar na economia. Assim luxo e riqueza são considerados coisas vulgares pelas simpáticas madames de meia pataca. Quando uma Lady escocesa de terceira categoria vem viver em Cranford, é aceita pelo grupo facilmente porque não comete a “vulgaridade de ter dinheiro”.

Dentre essas velhinhas, o centro das atenções recai sobre a adorável Miss Matty. Quando o livro engata como romance, é ela ao redor de quem giram as historias e a simpatia maior da narradora. Quando Matilda Jenkyns perde todo o dinheiro, aplicado num banco, a alternativa é abrir uma loja pra vender chá e doces. Há um dilema porém: como uma dama dedicar-se-ia a algo tão plebeu quanto lucrar, trabalhar em ou manter um estabelecimento comercial? No fundo, a questão é uma que dividia, grosso modo, s setores da sociedade inglesa: a aristocracia não trabalha a não ser gerindo suas terras; trabalhar no comércio ou indústria era coisa pra grosseira burguesia... A solução achada no romance é uma de meio termo: Mis Matty abriria a loja, sem admitir realmente que era uma loja ou que ela lucraria com o estabelecimento. Um acordo tácito entre os habitantes da cidade garantia que a farsa fosse mantida. Aparências

O romance lança olhar entre irônico e enternecido a essas aparências mantidas a todo custo por essas senhoras de Cranford. Claro que a narrativa funciona como parte da missão histórica da burguesia de solapar a derrotada nobreza; isso fica evidente na nuvem de anacronismo na qual Cranford e seus costumes pseudo-gentílicos flutuam.

A narradora é filha de um cranfordiano que abandonou o local e dirigiu-se a Drumble pra se tornar um “vulgar” homem de negócios, o qual é permitido na narrativa apenas quando vem em socorro de Miss Matty, quando de sua bancarrota. A narradora, portanto, é filha da tal classe vulgar que ganha a vida trabalhando, mas mesmo assim, compartilha boa parte do esnobismo falido das amigas mais velhas. Outra pista que Gaskell nos dá pra perceber o anacronismo quase comovente em que vivem as personagens. Pra completar a ironia, Gaskell batizou sua narradora de Mary Smith: impossível pensar em nome feminino mais “vulgar” em inglês!!

A crítica semi-velada ao esnobismo e à pseudo-pompa gentílica, entretanto, trai laivos de fascínio pelo sistema de classes que a burguesia fingia desprezar tanto. Lady Glenmire, a escocesa da baixa nobreza, casa-se com o vulgar Mr. Hoggins, médico local, tolerado pela necessidade que sua profissão lhe outorgava, mas nunca convidado pras festas das senhoras da imaginada elite local porque era assaz grosseiro: imaginem que cruzava as pernas ao sentar!!! Lady Glenmire não apenasse casa com o doutor, mas abdica de seu título e passa a ser chamada por Mrs. Hoggins. Escândalo!! Mas, que significado passa a ter na narrativa uma personagem assumidamente da classe burguesa cujo sobrenome é Hoggins? Pra quem não sabe, ‘hog’ é um sinônimo pra ‘porco”...

Aliás, é em função desse sobrenome que uma das frases mais deliciosas do livro foi gerada:

Mr. Hoggins was the Crarnford doctor now; we disliked the name and considered it coarse; but, as Miss Jenkyns said, if he changed it to Piggins it would not be much better.

Outra delícia foi quando Mrs Jamieson (The Honourable Mrs. Jamieson!) deixou de conversar com a cunhada, Lady Glenmire, porque ela se rebaixou casando-se com um plebeu. A sociedade local não achou a rixa prudente, afinal, Mr. Hoggins era médico e todos necessitariam de seus serviços algum dia. E então, a pérola:

Miss Pole grew quite impatient for some indisposition or accident to befall Mrs. Jamieson or her dependents, in order that Cranford might see how she would act under the perplexing circumstances.

Mais do que construtora de sentenças irônicas, Gaskel construiu uma história inteira que em muitos momentos é encharcada de ironia, embora o final em forma de festança onde todas as arestas estão perfeitamente aparadas, traia – nos recônditos da autora – a vontade utópica de uma sociedade intocada pelo comércio e pelos novos tempos. Uma utopia distorcida, portanto...

(As aparências das senhorinhas de Cranford me lembraram das Aparências, do Márcio Greyck.)