quarta-feira, 8 de junho de 2016

ESQUARTEJAMENTO ALBINO EM MOÇAMBIQUE

Grupo de indivíduos esquarteja menor albino


Indivíduos ainda desconhecidos esquartejaram um menor com problemas de pigmentação da pele, na cidade de Chimoio, província de Manica. 


O corpo do menor, de seis anos de idade, residente no bairro Nhamaonha, foi encontrado na manhã desta segunda-feira, na zona de Mudzingadze.



Faztudo Filipe foi encontrado por populares dentro de um saco sem os cabelos, pernas e braços, subentendendo-se que o assassínio tenha sido concretizado com recurso a uma faca.



O chefe do Departamento das Relações Públicas do Comando Provincial da Polícia da República de Moçambique em Manica, Leonardo Colher, disse que depois de despedaçar o rapaz, os indivíduos levaram consigo os braços, pernas e cabelos.



«Lamentamos o facto. Os bandidos fracionaram o menino e levaram o cabelo, pernas e os braços. Eles deixaram as outras partes do corpo num saco. Pensamos que é para fins mágicos como tem sido propalado», referiu Leonardo Colher.



Segundo explicou, este é o primeiro crime de homicídio que ocorre contra pessoas com pigmentação da pele na província de Manica e, perante esta situação, a PRM foi accionada e está a trabalhar para esclarecer o caso e levar os autores deste crime à barra da justiça.



«Este crime chocou os residentes de Mudzingadze. Já temos alguma informação obtida da família da vítima e testemunhas. O menino era bem conhecido na zona onde residia. Estamos a trabalhar e convencidos de que iremos neutralizar os criminosos», afirmou.



«Este fenómeno é uma realidade. Está a acontecer. As pessoas estão a ser enganadas e matam pensando que ficarão ricas. Nós, como pais, temos de estar atentos e contribuir para a protecção de pessoas com problemas de pigmentação da pele. Temos de denunciar à polícia ou a uma outra entidade mais próxima se virmos que estamos perante um caso de tráfico de órgãos humanos. É um desafio que exige o envolvimento de todos», concluiu Colher.

http://www.abola.pt/africa/ver.aspx?id=615748

CONTANDO A VIDA 149

Nosso historiador-cronista fala sobre as amizades antigas, que melhoram como o vinho, sobre diferenças convividas e, sobretudo,, sobre ser cidadão do mundo (ou não).

PARA AS MEMÓRIAS DO “NOVO” VELHINHO DE TAUBATÉ.

José Carlos Sebe Bom Meihy

De onde você é? Impressionante como podemos complicar uma pergunta assim, simples. Por certo, seria fácil responder com indicação imediata e logo deixar a conversa fluir. Infelizmente não consigo disfarçar o embaraço quando alguém perpetra esta questão que, certamente, mais vale como ponte para continuidade de falas do que propriamente uma flechada que fere meu coração identitário. Explico-me, sou tão complicado em termos de afetos geograficamente localizados que a mera possibilidade da pergunta me apavora. Nasci em Guaratinguetá, vivi a maior parte de minha vida de criança e jovem em Taubaté, estudei no Colégio São Joaquim em Lorena, depois de alguns anos de docência no Vale do Paraíba, mudei-me para São Paulo. É lógico que tive saídas importantes para o exterior e por mais de três anos vivi nos Estados Unidos, em San Francisco, Ca; em Miami, Fla, e sobretudo em Nova York. Para emaranhar mais ainda, devo dizer que esta trama se dilata quando me vejo, agora, morador do Rio de Janeiro, cidade que também assumi como minha. Entendem meu drama? Acho que não, pois a complicação se bifurca quando me reconheço cidadão de todos os lugares. Sim, sou de fácil adaptação. Devo confessar que o dilema encerrado na inocente perguntinha “de onde você é” mereceu cogitações de ares freudianos, e não falta até quem vê no meu dilema um fundo shakespeariano, na base do “ser ou não ser”. Acho que seria cômodo promover a continuidade desse mezzo del camin, mas algo aconteceu que exige minha definição. Coisa séria, creiam.

Pertenço a uma lista de coetâneos, Tahubatherium, constituído de pessoas que repartiram comigo a juventude. Pensando em tantos que compartilharam minha formação de adulto, retomo o velho preceito que reza que os amigos verdadeiros são feitos antes dos 30 anos. E fico imaginando que mesmo não valendo o absoluto, é verdade que naquelas quadras da vida somos mais abertos, mais flexíveis e assim deixamos o bom vento da amizade ventilar. Mas, não temos mais o frescor dos anos de formação. Nem somos mais tão maleáveis. Resta portanto colocar um pouco de filosofia na ponderação e recordar que a palavra amizade decorre da combinação de animi (alma) e custos (custódia). Como guardião da alma, amigo é o que cuida do outro, o protege e faz a reciproca ecoar. E foi Nietzsche quem constatou que a dificuldade em cultuar amigos reside na premissa que mostra os entraves para que se combinem “a liberdade do espírito com a partilha da alegria”. Coisas da vida moderna, muitos daqueles jovens, hoje maduros, profissionais, muitos aposentados, se distanciaram. E o lapso temporal se materializou em quilômetros, que, contudo, não se medem pelo deus grego kronos. Pelo contrário, graças às virtudes da memória, o tempo se anula e a distância se apaga.

Pois bem, todo este libelo introdutório serve para dizer que graças ao WhatsApp e à iniciativa de dois baluartes sonhadores, aos poucos fomos nos encontrando no espaço da virtualidade eletrônica. E fomos nos reconhecendo em soma volumosa. Um a um, os velhos meninos e meninas, os antigos jovens, foram se reapresentando. Uns fisicamente mais longe, outros sempre próximos, afetivamente juntos todos, íamos reinventando nossas histórias. Postos profissionais foram dando forma aos destinos desenhados por cada qual, e, na mesma ordem casamentos foram tecidos, famílias multiplicadas, vicissitudes se expuseram, muitos mortos foram chorados. Sobretudo, porém no cenário dos dias brasileiros vividos, nossas diferenças políticas se mostraram. Foi o grande teste para a garantia da solidez dos propósitos de reencontro. Uns me surpreenderam, pois imaginava que o ímpeto da juventude os faria mais progressistas. Outros me deixaram perplexo pela fúria com que abraçaram causas que se me afiguram conservadoras demais. Temi ficar sozinho e apenas me recreei com laivos de uns poucos que não me fizeram sentir o total isolamento de ser o “Velhinho de Taubaté”. É lógico que houve momento de desatino – fui até chamado de “intelectual equivocado” – mas provou-se que as amizades feitas antes dos 30 anos são solidadas. Provou-se também o suposto de Nietzsche, que demonstra a liberdade como condição que se combina com a alegria. Moral da história: continuo cidadão dos lugares amados, de todos, mas o sou mais de Taubaté, pois é lá que estão os amigos de sempre. Mais: entendi o que significa diferença na identidade. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

TELINHA QUENTE 215

Roberto Rillo Bíscaro

Na primeira semana de maio, a Netflix colocou no ar a segunda temporada de Grace and Frankie, protagonizada por 4 atores septuagenários e cheia de convidados coetâneos. Quando o caráter inclusivo resulta no único ponto de interesse, estamos em sérios apuros como espectadores.
Jane Fonda e Lily Tomlin são as 2 abandonadas pelos maridos que assumiram relacionamento homoafetivo. Robert e Sol (Martin Sheen e Sam Waterston), o casal gay que tem que enfrentar tudo novo, depois dos 70, não são esquecidos. Daria série à parte, mas mesmo não sendo assim, Grace and Frankie teria muito potencial pra risadas e discussões. Mesmo que não quisesse se encaixar no formato sitcom – ao qual resistiu desde a temporada de estreia – daria dramédia de primeira. O potencial da trama se agiganta com o talento do elenco, mesmo que eu ache Lily Tomlin tão engraçada quanto uma porta Blindex.  
Mesmo não muito engraçada, a primeira temporada tinha a seu lado a novidade, o elenco, então, vi quase em maratona. Os 13 episódios da segunda não iam; quase desisti. Praticamente nada acontece e muito do que sucede simplesmente não tem interesse, graça ou drama. Grace and Frankie optou por não ser sitcom, resvalou pra dramédia, mas acabou sendo nada.
Frankie passa quase toda a temporada lidando com seu lubrificante vaginal e Grace se envolvendo com um ex-quase-amante. Supostamente a segunda temporada seria pra desenvolver as 2 mulheres agora solteiras aos 70, mas a não ser por Grace perceber o quão esnobe era (e Fonda é a principal, reparem n título), ambas não se movem um milímetro de quando a conhecemos. Há um ensaio de início de relacionamento pra Frankie, mas o bofe desaparece e ela permanece caricatura hippie. Vamos e venhamos, na outra temporada o interesse romântico de Grace era Craig T. Nelson (Zeek Braverman rules!), nessa um Sam Elliot de madeira!
Fatal: como as histórias e diálogos são muito desinteressantes, passa-se a prestar mais atenção à falta de substância das personagens. Os filhos, já obtusos na primeira, estão insultantemente cartunizados agora. Se Grace and Frankie fosse bom, daria até pra relevar e apontar isso como vingança pras centenas de representações cartunizadas de idosos, mas não, as personagens são toscas mesmo.
Renovada pruma terceira temporada antes mesmo desta ser disponibilizada, estou em sérias dúvidas se verei Grace and Frankie, em 2017. Simpatia não justifica um show; fosse assim, eu também mereceria um.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

INJÚRIA ALBINA

Mãe acusa de injúria homem que teria chamado filha de 'chimpanzé branca'

Criança, que é albina, sofreu ofensa em conversa pela internet.
Produtor cultural nega acusação e alega que foi vítima de um 'fake'.

Cristina BoeckelDo G1 Rio

O produtor teria chamado a filha da artesã, que é albina, de 'chimpanzé branco' (Foto: Liliane Salles/ Arquivo pessoal)O produtor teria chamado a filha da artesã, que é
albina, de 'chimpanzé branca'
(Foto: Liliane Salles/ Arquivo pessoal)
Uma artesã do Rio de Janeiro registrou uma acusação de injúria racial contra um produtor cultural que teria chamado sua filha de 6 anos, que é albina, de "chimpanzé branca".  
A ofensa teria acontecido em dezembro de 2015, depois que um perfil com o nome de Oscar Ribeiro, funcionário de uma agência que contrata crianças para desfiles, entrou em contato com a família para chamar a menina para um evento.
Liliane Salles, de 29 anos, mãe de Sophia, conta que a filha costuma participar de desfiles e propagandas desde que tinha 4 anos e, por isso, criou um perfil na rede social para ela.
O registro contra o produtor foi feito na Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), no final de 2015, mas, segundo Liliane, até agora não houve retorno da polícia.
Além de chamar a menina de “chimpanzé branca” e de "chimpanzé albina", o perfil no nome de Oscar Ribeiro teria feito outras ameaças.
“Ele entrou em contato [em dezembro] e convidou a minha filha para participar de um evento que aconteceu no último domingo (29). A gente demonstrou que não tinha interesse, recusou, e ele ofendeu a minha filha”, explicou Liliane.
Oscar teria chamado a menina de “chimpanzé albina” em conversas na internet no dia 22 de dezembro. O caso foi registrado na DRCI, no dia 28 de dezembro.
No momento, eu senti raiva e revolta. Agora, eu também tenho a sensação de impunidade"
Liliane Salles,
mãe da criança
A mãe da menina conta que as ofensas ainda são dolorosas.
“No momento, eu senti raiva e revolta. Agora, eu também tenho a sensação de impunidade, porque fomos na delegacia com as provas que tínhamos, e não tivemos nenhuma resposta”, ela afirmou sobre as investigações da delegacia especializada, sobre a qual afirma não ter obtido resposta.
O que diz o suspeito
Procurado pelo portal G1, o produtor Oscar Ribeiro afirma que quem conversou com Liliane foi um “fake”, ou seja, uma pessoa que se passava por ele, e nega ter proferido as ofensas contra a criança.
“Foi um fake, uma pessoa que fez isso para me difamar. Já sei quem é e denunciei à polícia”, explicou o produtor, que preferiu não dizer quem estaria tentando prejudicá-lo e nem onde a denúncia foi feita.
'Medo'
A mãe da criança contou que o caso prejudicou a sua vida e a da menina, que se sentiu afetada pela ofensa.
Liliane e a filha, Sophia, de seis anos (Foto: Liliane Salles/ Arquivo pessoal)Liliane e a filha, Sophia, de seis anos
(Foto: Liliane Salles/ Arquivo pessoal)
“Eu trabalho por conta própria e fiquei dois meses quase sem conseguir trabalhar, por medo. Cheguei a procurar auxílio psicológico para a minha filha, que ficou com medo, raiva e mais retraída. Eu cheguei a ficar com medo de mandá-la e a minha outra filha para a escola no começo do ano, com medo de uma represália”, contou Liliane.
Ela não acredita na versão do produtor e diz que essa pode ser uma estratégia para se livrar da responsabilidade do caso.
“Isso não faz sentido, porque ele não teria um fake que o prejudica, mas trabalha e posta trabalhos dele”, afirmou a mãe da criança.
Investigações
O inquérito sobre o caso foi encaminhado para o Ministério Público no dia 7 de janeiro, pedindo a quebra do sigilo dos dados do Facebook do suposto autor da injúria. A quebra do sigilo foi autorizada e, com estas informações, os documentos voltaram para a DRCI no fim de março.
O delegado despachou o documento e descobriu que existia outro procedimento contra o mesmo autor na 10ª DP, em Botafogo. Assim, o suspeito deve ser intimado nesta semana para prestar depoimento.

CAIXA DE MÚSICA 221

Roberto Rillo Bíscaro

Em 1982, um grupo da interiorana Sheffield tomou as paradas britânicas de assalto com o álbum The Lexicon Of Love, que faz jus ao título pretensioso por se constituir numa das sínteses mais perfeitas de liquefação pop de influências tão díspares como synthpop, Northern Soul, R’n’B, orquestração à Burt Bacharach, Chic, Bowie, New Romantic, funk e mais, que citarei ao longo do texto. Aliado a isso, forte sentido de moda, que hoje parece brega, mas na época era podre de chique com paletós de lamê dourado. Ostentação era na era Thatcher/Reagan, my dear! O álbum é um léxico musical da primeira metade dos 80’s e continua mortífero, ainda que se possa criticar a produção pesada, mas isso era característica do período que o ABC ajudou a definir. Em sua defesa, The Lexicon of Love (TLOL) nem é tão entulhado como sucessores tipo Arcadia.
Com tema unificado e trechos repetidos, TLOL não é conceitual, mas apresenta unidade mais associada ao prog rock do que ao pop. E quem disse que synthpop não é filho de suruba punk com Kraftwerk e pitadas de tecladice prog? O produtor de TLOL foi Trevor Horn, mago tecnopop, mas que sempre namorou o sáurio progressivo Yes. E não é que reouvindo TLOL pela zilionésima vez, em 2016, o começo de Date Stamp lembra a caixa registradora do Pink Floyd, de 1974, mas também prenuncia o Frankie Goes To Hollywood, de 84?  
De 11 canções, 7 são implacavelmente dançantes no espectro da música negra. Claro que há as clássicas Poison Arrow e The Look Of Love, Part One (quer coisa mais prog do que esse “parte um”?), mas não há como ficar inerte ao som do funk desloca-coluna de Tears Are Not Enough, ao baixo belisca-ouvido de Many Happy Returns (I know democracy, but I know what’s fascist!) ou ao synthsoul de Show Me.
Em época de concorrência dura de vocalistas-filhos de Bryan Ferry, como Tony Hadley, do Spandau Ballet, o ABC tinha o blue-eyed soulman Martin Fry, cantando sobre as agruras do amor e jogando nos ouvidos e olhos de quem quisesse ouvir/ver seu débito pra com o Roxy Music dos últimos dias. Zeitgeist nervoso: All Of My Heart é totalmente More Than This, single de Avalon, canto do cisne do Roxy, lançado em abril de 1982. TLOL saiu em junho.
O finalzinho de TLOL destoa um bocado do conjunto, mas traz outras facetas, sendo que 4 Ever 2 Gether é a expressão da clássica contradição formal de parte do pop oitentista: synthpop gélido-robótico, marca registrada da cultuada ZTT Records, de Horn, como cama pra vocais apaixonados e dramáticos de quem cresceu ouvindo glam rock e música negra ianque ou do norte inglês. Amo aquele teclado Jean Michel Jarré fase Oxygene!
Theme From “Mantrap” fecha o clássico com releitura de Poison Arrow em clima de cabaré jazz, não descabido na New Bossa inglesa da época, tipo Everything But The Girl.
The Lexicon Of Love é mapa, bússola, compasso e astrolábio da primeira metade oitentista. Só por isso seria indicado pra amantes da época, mas torna-se obrigatório pra quem ama pop acessível, dançável, mas consequente.


34 anos depois, clamando por ser comparado e inferiorizado, Martin Fry usa o nome ABC pra lançar The Lexicon Of Love II. Da banda original, só restou o vocalista de 58 anos, que já não usa paletós de lamê, mas continua impecável e loiro. Como não comparar os 2 álbuns se levam o mesmo título? Ser inferior é inerente, porque esta sequela sobre amor na meia-idade não poderia ter o mesmo papel de definidor de tendência, como seu par de 1982. Nada disso é defeito. TLOLII não faz feio; pelo contrário, são 11 faixas, que no seu pior são agradáveis.
Dada a importância de TLOL, a imprensa britânica não pôde negligenciar sua parte II. Desde o sisudo The Times ao tabloide Daily Mail todo mundo falou de Fry, que não tem mais alcance pra falsetear yippee-yi-yippee-yi-yays, mas segue com voz bem pouco degradada. Horn não pode produzir por conflito de agendas, então o vocalista mesmo assumiu a função. Da equipe original, voltou Anne Dudley, responsável pelos fartos e luxuosos arranjos de cordas, que introduzem até canções dançáveis. Nos 80’s, a moça por trás do Art Of Noise era crista da modernidade; agora difícil não notar que seus arranjos dão ar datado a certos trechos. Tem hora que parece que eu estava ouvindo a trilha-sonora de Buster, de 1988. Nas canções lentas funciona, mas introduzir a locomotiva dançável Viva Love com tantas cordas melosas é desperdício e meio cafona.
As 2 canções iniciais, The Flames Of Desire e Viva Love, criam a expectativa de álbum dançante, informado por disco music, mas como se estivéssemos em 1983. Dão vontade de sair rodopiando à Flashdance, sorrindo pra câmeras imaginárias. Mas, talvez considerando a idade do cantor e de boa parcela do seu público, a ênfase de TLOLII é R’n’B lento ou mid-tempo. Singer Not The Song é synthpop dançável com vozona à Bowie, mas os teclados estão mais eletro. Mas a grandiosidade das cordas de Dudley dá o ar vintage necessário. I Believe In Love começa bluesy antes de agitar-se. Deve ser coisa de DNA geracional, mas quando Fry canta I believe in love imagino que se encaixaria no modo como seu coetâneo 80’s Jimmy Somerville faria.
Brighter Than The Sun e Kiss Me Goodbye têm batida mais começo dos anos 90, provavelmente a coisa mais moderna de TLOLII; a última poderia estar num dos álbuns iniciais de Lisa Stansfield. Em termos de canção lenta, o ponto alto é Ten Below Zero, baladaça soul, coisa de quem passou a tenra adolescência 70’s escutando Marvin Gaye e Diana Ross e Northern Soul. Paul Weller mataria pra ter a canção no álbum do Style Council, de 1983.
Claro que TLOLII é saudosista e abaixo do nível de seu predecessor. Mas, vale escutá-lo e pensar no que poderia ter sido o ABC se tivesse continuado com seu sophistipop no seu pique criativo/comercial, ao invés de ter se autossabotado com a crueza de Beauty Stab (1983).

sexta-feira, 3 de junho de 2016

DIAGNÓSTICO ALBINO

A Dra. Lilia de Azevedo Moreira, professora da Universidade Federal da Bahia, além de prestar valiosa colaboração para a APALBA, é tenaz pesquisadora do albinismo. Em 2009, ela concedeu entrevista para o blog, que você pode ler aqui

Em parceria com Luciane de Melo Rocha, a Dra. Lilia escreveu o paper Diagnóstico Laboratorial do Albinismo Oculocutâneo, cujo resumo é:

Objetivo: Avaliar os métodos laboratoriais dos diferentes tipos de albinismo oculocutâneo (OCA 1 e OCA 2) de forma descritiva e analisar sua eficiência. Material e método: O teste do bulbo capilar é um método químico usado para distinguir as duas formas, no entanto recentemente teve sua eficácia como teste padrão contestada. O avanço da biologia molecular permite a análise das mutações que causam o distúrbio e a sua localização gênica. Conclusão: O teste do bulbo é seguro apenas para o diagnóstico do OCA 1A, podendo ser usado como complemento de um método mais apurado. A análise molecular fornece um diagnóstico definitivo, permitindo distinguir OCA 1 de OCA 2, pois as mutações afetam genes em cromossomos diferentes.

Para ler o artigo completo, basta acessar o site da Scielo no link abaixo:

quinta-feira, 2 de junho de 2016

ANTROPOLOGIA ALBINA

Há meses, recebi email do Hualafy Rafael Barbosa Santos, interessado em iniciar pesquisa antropológica tendo como tema as pessoas com albinismo. Os resultados começam a aparecer.
Nos dias 22 e 23 de outubro de 2015, o jovem pesquisador participou, na Universidade federal da Paraíba, em João Pessoa, da 1a Reunião de Antropologia da Saúde. Com o tema Políticas da Vida e Cidadania, o evento buscou reunir acadêmicos, gestores, profissionais e ativistas de movimentos sociais, interessados em se aproximar ou aprofundar abordagens antropológicas sobre a saúde. A 1a RAS foi uma iniciativa do Grupessc – Grupo de Pesquisa em Saúde, Sociedade e Cultura, em resposta à constatação de que não existe, no Brasil, um fórum específico para a discussão de pesquisas, problemas e debates próprios à antropologia da saúde. Ao longo de dois dias, o encontro permitiu compartilhar conhecimento, apresentar pesquisas concluídas e em andamento bem como discutir intervenções relacionadas a problemáticas que envolvem concepções e práticas de saúde, experiências de adoecimentos, socialidades biomédicas e políticas de saúde. A discussão saúde/cidadania esteve sempre presente, sendo o encontro uma oportunidade para pensar, desde a antropologia, alguns dos desafios das políticas e práticas em torno dos corpos, vidas e saúde das pessoas com as que trabalhamos. Nos dias 22 e 23 de outubro de 2015, foi realizada na Universidade federal da Paraíba, em João Pessoa, a 1a Reunião de Antropologia da Saúde. Com o tema Políticas da Vida e Cidadania, o evento buscou reunir acadêmicos, gestores, profissionais e ativistas de movimentos sociais, interessados em se aproximar ou aprofundar abordagens antropológicas sobre a saúde. A 1a RAS foi uma iniciativa do Grupessc – Grupo de Pesquisa em Saúde, Sociedade e Cultura, em resposta à constatação de que não existe, no Brasil, um fórum específico para a discussão de pesquisas, problemas e debates próprios à antropologia da saúde. Ao longo de dois dias, o encontro permitiu compartilhar conhecimento, apresentar pesquisas concluídas e em andamento bem como discutir intervenções relacionadas a problemáticas que envolvem concepções e práticas de saúde, experiências de adoecimentos, socialidades biomédicas e políticas de saúde. A discussão saúde/cidadania esteve sempre presente, sendo o encontro uma oportunidade para pensar, desde a antropologia, alguns dos desafios das políticas e práticas em torno dos corpos, vidas e saúde das pessoas.

Eis o trabalho apresentado por Hualafy:

REFLETINDO SOBRE OS ALBINOS, OS CHAMADOS “FILHOS DA LUA”: UM CAMPO EM CONSTRUÇÃO
Hualafy Rafael Barbosa Santos

INTRODUÇÃO
O presente trabalho propõe-se a realizar uma breve reflexão acerca das
pessoas com albinismo, levantando indagações e problemáticas possíveis de
serem construídas dentro das áreas de Antropologia, Sociologia, Educação,
Saúde e outras áreas afins. Sendo assim, inicio contextualizando o albinismo,
como surgiu o interesse em pesquisa-lo, as dificuldades em pesquisar
as pessoas com albinismo, a relevância dos estudos com os albinos. Através
deste esboço sobre as pessoas que vivem com albinismo, procura-se unir
forças com o grupo das pessoas albinas, no sentido de contribuir com mais
visibilidade e conquistas de direitos e, acima de tudo, na tentativa de adoção
de políticas públicas com ênfase na saúde, assim como melhores condições
de vida. Portanto, dou meus primeiros passos com estudos que possam
trazer reflexões consistentes, de modo que os “filhos da lua” nas aulas de
biologia deixem de ser apenas um “a” minúsculo dos genes recessivos e,
para além disso, que no âmbito acadêmico as pessoas albinas passem a ser
alvo de pesquisas científicas de forma cada vez mais crescente. Portanto,
como aprendiz na tarefa árdua de pesquisa, acredito que estudar as PCA
tem caráter de extrema importância e urgência. Penso que, com o número
maior de informações acerca das pessoas com albinismo, mitos poderão ser
desconstruídos e maiores informações sobre esses indivíduos poderão contribuir
significativamente para uma melhoria nas suas condições de vida,
bem como na intensificação e fortalecimento do processo de integração nos
meios sociais.
O albinismo é uma condição de natureza genética em que os indivíduos
nascem sem melanina, pigmento responsável pela coloração da pele, como
também dos olhos, cabelos e pelos do corpo. A falta da substância mencionada
acarreta as PCA, tornando-as totalmente vulneráveis às radiações
solares UVA e UVB. Essa ausência da pigmentação implica uma grande
probabilidade das PCA desenvolverem câncer de pele, por sinal, muita alta,
principalmente em países tropicais, como no caso do Brasil.
O albinismo inspira a criação de mitos culturais em todo o mundo,
desde a ideia de que as pessoas com albinismo têm poderes mágicos, como
também de que os possuem problemas mentais. Outro mito que merece
ser evidenciado é o de que as pessoas com albinismo são consequência da
união entre a mulher negra e o homem branco. A condição econômica desfavorável
é outro fator agravante para as pessoas com albinismo, visto que
o bloqueador solar tem um preço elevado e muitos não têm condições de
obtê-los para as devidas precauções e cuidados.

OBJETIVOS
• Observar como as pessoas com albinismo estão se mobilizando
para o aumento de sua visibilidade social e reivindicando a adoção
de políticas públicas de saúde.
• Perceber como se dá o processo de relação social das pessoas
com albinismo em face daquelas que não são albinas
• Analisar como esses indivíduos estão se organizando em grupos
que se reconhecem enquanto detentores de uma “identidade
albina” e reivindicando políticas públicas de saúde.
• Perceber a ausência ou presença de estigmas e preconceitos decorrentes
da sua condição genética.
• Averiguar como uma pessoa com albinismo lida com ser albino
em uma sociedade de “cores” e em um país tropical.
• Investigar dificuldades enfrentadas oriundas da sua condição
genética.
• Perceber o impacto que a ausência de políticas públicas de saúde
acarretam em suas vidas.
• Investigar como eles se sentem enquanto albinos, abordando a
questão das emoções.

QUAL A RELEVÂNCIA DOS ESTUDOS COM PESSOAS ALBINAS?
A importância destes primeiros passos na elaboração deste trabalho se
constitui no fato de seu pioneirismo no tocante aos estudos das pessoas com
albinismo dentro da área de Sociologia e Antropologia, e na proposição de
dar voz às pessoas com albinismo, levando as suas indagações e problemáticas
para fóruns, congressos, encontros, oficinas. Os pais das pessoas com
albinismo necessitam de informações e apoio para entender e saber como
lidar com seus filhos, parentes, amigos.
É de se perguntar: com um número maior de pessoas informadas sobre
o albinismo, o índice de mortalidade dos albinos diminuiria? Entender o
que os albinos pensam sobre ser albino é relevante? O que é ser albino em
uma sociedade de cores? Será que ocorre uma negação do individuo albino
perante sua condição genética? Como as pessoas albinas se reconhecem?
Como ocorre o processo de escolarização das crianças com albinismo? E
as relações sociais das pessoas com albinismo com as que não o são? Como
as pessoas albinas lidam com os estereótipos? O que eles necessitam? E os
aspectos emocionais das PCAs? Tais questões merecem ser respondidas,
pois, ainda que existam estudos sobre o albinismo, eles apenas apresentam
o que ele é, como ocorre, precauções e prevenções, não havendo pesquisas
para entender como é que o a pessoa albina se sente, como age, como vive,
que dificuldades experimentam, como se veem, e quais seus sonhos, desejos
e vontades.

BREVES APONTAMENTOS TEÓRICOS
De acordo com Langdon e Wikk (2010), no Brasil, estudos e pesquisas
sobre saúde, cultura e sociedade têm se multiplicado circunstancialmente
nos últimos vinte anos. Na última década, a Antropologia da Saúde vem se
consolidando como campo de reflexão, formação acadêmica e profissional de
médicos, enfermeiros e demais profissionais da área da saúde no País. Nesse
sentido, ao perceber a condição que as pessoas com albinismo enfrentam no
tocante à questão de sua saúde, propus-me a entender , analisar e investigar
como a ausência de políticas públicas de saúde pode interferir de forma direta
no processo de sobrevivência e de melhoria de vida das pessoas albinas.
Pensando a partir do estigma que elas sofrem, segundo depoimentos que
foram extraídos, irei me valer do conceito de estigma com base no sociólogo
Ervin Goffmam (1988), pois ele afirma que atributos indesejados, tais como
a cor da pele, religião, deficiência física, opção sexual, entre tantas outras
possibilidades, são considerados estigmas, no caso dos ciganos o estigma é
presente em sua identidade e suas práticas sociais. Goffmam aponta que o
estigma estabelece uma relação impessoal entre indivíduo estigmatizado e
indivíduo não estigmatizado.

METODOLOGIA
Para o desenvolvimento da pesquisa em questão é de fundamental
importância a adoção de diversas técnicas, dentre as quais destaco: pesquisa
bibliográfica, entrevistas abertas e aplicação de questionários, além da
netnografia.
De início, proponho-me a entender como as pessoas albinas lidam com
o albinismo, no tocante as interações sociais, sociabilidade, inserção no
mercado de trabalho, preconceito, estigmas.
Algumas considerações provisoriamente finais
Não apresento resultados, pois algumas indagações que foram levantas
precisam ser respondidas, e serão trabalhadas posteriormente, pelo autor
deste trabalho, através da observação participante, netnografia e entrevistas.
Para uma melhor compreensão, deixo clara a necessidade de tomar as pessoas
com albinismo como um objeto de estudo de extrema relevância social.
Tal como o projeto de Bíscaro, proponho-me, por meio dos dados coletados,
a contribuir de maneira significativa para dar visibilidade aos PCA, como
também para a adoção de políticas públicas voltadas para eles. Acredito que
a realização do censo dessas pessoas já seria de grande valia, para termos
noção da quantidade de pessoas com albinismo no país.
Para além do Brasil, há muito ser relatado, principalmente no que diz
respeito aos albinos da África, particularmente da Tanzânia, onde eles são
cobiçados pelos bruxos e curandeiros; os membros dos seus corpos, tais
como, as pernas, os braços, a pele, a língua, as genitais e cabelos de albinos
milhões de dólares, segundo Basso e Nina (2010, p. 4).
As teorias que me deram suporte para o desenvolvimento da pesquisa
com as pessoas albinas dentro da Área da Antropologia e Sociologia estão
sendo desenvolvidas. Muito se tem a falar ainda sobre as pessoas com albinismo,
só nos resta encontrar espaço e pessoas interessadas por essa problemática
de extrema relevância social.

Referências
ARAÚJO, S. S.; ARAGÃO, A. S. S. A autoaceitação no cotidiano dos “filhos da lua”: Uma
analise do ser diferente na obra Escolhi ser Albino, de Roberto Rillo Bíscaro. CONGRESSO
INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E INCLUSÃO, Campina Grande, Paraíba, 2014.
BÍSCARO, R. R. Escolhi ser albino. São Carlos, SP: EdUFSCar, 2012.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Trad.
Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. 4. ed. Rio de Janeiro: LCT, 1988.
LANGDON, E. J.; WIKK, F. B. Antropologia, saúde e doença: uma introdução ao conceito
de cultura aplicado às ciências da saúde. Revista Latino-Americana de Enfermagem,
v. 18, n. 3, p. 173-181, mai.-jun. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rlae/v18n3/
pt_23>. Acesso em: 18 out. 2015.
Palavras-chave: Pessoas com albinismo; Políticas públicas; Saúde; Visibilidade.

O trabalho de Hualafy e os demais, muito interessantes, estão disponíveis nos anais da reunião, acessíveis em:

Parabéns e obrigado ao acadêmico, contribuindo para a crescente visibilidade do tema albinismo!

TELONA QUENTE 161

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Roberto Rillo Bíscaro

Sou apaixonado por gatos. Felinos de modo geral, mas como não posso morar com tigres e linces, mamãe e eu vivemos com 4 gatos no momento. Sabedor disso, um amigo me recomendou filme sul-coreano de 2011, chamado O Gato. No longínquo mês de criação do blog, postei sobre 3 filmes de horror daquele país asiático. Desde então não vi muitos e os assistidos não mereceram postagem. O Gato sim, nem tanto por ser grande filme, mas porque apresenta simbólica vingança felina contra o histórico abuso perpetrado pelos prepotentes humanos.
So-Yeon - claustrofóbica jovem com familiar internado em hospital psiquiátrico – trabalha numa loja de animais de estimação, cujo proprietário não é nada simpático. Quando a jovem adota gato cuja tutora morrera misteriosamente num elevador, sua vida deixa de ser desinteressante, porque a assombração duma menina começa a aparecer pra ela e mortes acumulam-se.
O Gato tem começo lento, pelo menos uma coincidência de rir alto - So-Yeon passando em frente à delegacia e pimba, o policial com o gato é seu interesse romântico, ex duma amiga sua – e é meio miguxo, por conta da fofura dos gatinhos (nóxa nóxa!) e do caráter de superação da trama, e essas características não são defeitos. O clima é típico de filme asiático e não há cenas nojentas ou grandes sustos.
Quando a história do fantasma engata e descobrimos porque assombra, O Gato revela sua identidade mais sensível: uma história de cortar o coração sobre garota que só queria proteger animais. E pra gateiros, o melhor: os felinos se vingando dos malditos humanos desalmados. Todo mundo que morreu mereceu muito, amei.
O Gato pode ser visto legendado em português no Youtube, quer melhor?

quarta-feira, 1 de junho de 2016

PROIBIDO IMPORTAR FEITICEIROS

Malawi: Governo bane curandeiros estrangeiros para proteger albinos

Lilongwe - O governo malawi decidiu banir todos curandeiros estrangeiros de exercerem a sua actividade no país, uma medida que visa tentar travar a crescente onda de sequestros, agressões e assassinatos de albinos.
Segundo as autoridades locais, 18 albinos foram cruelmente assassinados nos últimos três anos.
A última vítima, identificada como Fletcher Masina, 38 anos, foi assassinada terça-feira da semana passada no jardim da sua própria casa, no distrito de Ntcheu, na região centro.
Hetherwick Ntaba, conselheiro político chefe do Presidente do Malawi, Peter Mutharika, afirma que apenas ervanários que respeitarem o código de conduta serão autorizados a operar no país.
“Os curandeiros estrangeiros devem parar imediatamente de exercer a sua actividade no Malawi. Acabamos de saber que alguns foram banidos na Tanzânia e outros fugiram de Moçambique para o Malawi e estão fomentando ataques contra pessoas com albinismo. Eles devem ser deportados” disse Ntaba.
O conselheiro acusou os curandeiros estrangeiros de fomentar a matança, fazendo algumas pessoas a acreditar que partes do corpo de albinos servem para fabricar poções mágicas para trazer sorte e riqueza.
O Presidente da Associação dos Curandeiros Tradicionais do Malawi, Frank Manyowa, acolheu com agrado o banimento.
“Nós, curandeiros tradicionais, simplesmente usamos plantas com nutrientes medicinais para curarmos várias doenças. São curandeiros e feiticeiros estrangeiros que estão perpetrando os assassinatos por causa de sua crença na magia negra”,  referiu.

CONTANDO A VIDA 148

Tristonho com a baixaria política instalada no país, nosso historiador-cronista relembra canções que tem a ver com o momento. 

Canção e memória da dor de ser brasileiro hoje.
José Carlos Sebe Bom Meihy

Trabalhar com oralidade tem suas vantagens e riscos. As benesses correm por conta de surpresas que ganhamos quando se entende a fertilidade da palavra trocada com outros. Quanta beleza pode existir numa conversa amigável, solta, dessas que estão cada vez mais raras. Os riscos, por sua vez, procedem da redução da fala a mero ato informativo, mecânico, sem tempo de se alongar. Mesmo na solitude, acabamos por estabelecer contatos com repertórios que nos acometem, com significados, muitas vezes inexplicados. Volta e meia canções rondam nossas cabeças e, sem perceber, deixamo-nos envolver por sons imprevistos. É ilusão, porém supor que esses arroubos sejam inocentes, são resquícios de memória latente, que não se deixa morrer. É como se existisse dentro de nós um inquieto apelo libertário “que sofre, mas não morre”.
Ainda ontem, sem mais nem menos, me veio à cabeça uma canção que pensava esquecida. Foi como num assalto que me vi repetindo a letra de Cartomante, de Ivan Lins, que na voz de Elis Regina declinava “nos dias de hoje é bom que se proteja/ Ofereça a face pra quem quer que seja/ Nos dias de hoje esteja tranquilo” é verdade que aqueles eram dias da brotada ditadura civil/militar, mas o significado embutido na canção se atualiza no refrão “Cai o rei de Espadas/ Cai o rei de Ouros/ Cai o rei de Paus/ Cai não fica nada”. A associação com o noticiário recente é imediata. Depois do impedimento da Presidenta eleita, muitos supunham que a Operação Lava-Jato poderia morrer. Quis a justiça (dos homens e a divina) que as coisas continuassem e aí estão as providenciais promessas de novas quedas. Bastou enunciar esse mote para que desse corda a outras lembranças de vínculos entre música e política. Na virada dos anos de 1960, ante o recrudescimento da quartelada militar iniciada em 1964, ainda reinava a ilusão do transitório e se pensava no retorno dos militares ao quartel. E em coro jovens, com Vandré, entoavam Pra não dizer que não falei de flores. Vale lembrar que a canção se abre exatamente com o vigor do canto “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. Na prática, a canção não se realizou e, pelo contrário, foi um dos motivos do AI5 que, no calorento dezembro de 1968, referendou o fechamento do Congresso promovendo devassas. O átomo da inquietação, contudo, se gestava e frente ao macabro enredo que se seguiu, assistimos muitos jovens se darem à guerrilha. O terrorismo de estado se implantou e foi preciso a morte do jornalista Herzog para emblemar a reação. Foi longa noite de 21 anos que por fim permitiu raios de luz. Mas o preço foi alto.
Dia desses, pensando nisso, outra canção me atacou, me surpreendi cantarolando uma letra que me acompanhou como professor, trata-se da Geração Coca-Cola, da banda Legião Urbana. Confesso que sempre que pensava em me alterar em sala de aula ouvia “Quando nascemos fomos programados/ A receber o que vocês nos empurraram/ Com os enlatados dos USA, de 9 às 6/ Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial/ Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”. E como martelada ficava o refrão “Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Somos o futuro da nação/ Geração Coca-Cola”. Talvez a herança mais triste dessa saga se expresse agora e se deixa transparecer na geração medíocre de políticos que temos. Logicamente, o processo que se seguiu ia cumprindo o script também dado por outra canção oportuna, digna de ser trilha sonora dos anos de 1990, o Teatro dos Vampiros, igualmente do Legião Urbana. Em meio da letra ouve-se “Voltamos a viver como há dez anos atrás... E a cada hora que passa/ Envelhecemos dez semanas”. Incrível e doída memória. E assim caminhamos cantando e seguindo a canção. Ainda que a impertinência das letras nos atormente, resta pensar que, apesar de tudo, há uma beleza inconformada na memória nacional. Que caiam os reis de paus, de espadas, de ouros e de copas.