quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MÁSCARA CHINESA

Na China, proteção contra o sol pode incluir máscara


Qingdao, China – Foi o suficiente para fazer três jovens cheios de tatuagens pararem de jogar água uns nos outros e fazerem um menininho correr assustado até a mãe: uma mulher que vinha das ondas do mar com a cabeça envolta em uma máscara de esqui de cor laranja neon.
Enquanto ela caminhava em direção à areia, chamou a atenção de outras pessoas. Um homem flutuando em uma boia amarela cutucou a companheira, que cochichou a pergunta que muitos outros deviam estar se fazendo: 'Por que ela está usando aquilo?'.
'Eu tenho medo de ficar escura', disse a usuária da máscara, Yao Wenhua, de 58 anos, ao sair das águas desta cidade litorânea na província de Shandong, no leste da China. Ansiosa para mostrar o motivo pelo qual sacrificou a aparência em prol da utilidade, Yao, motorista de ônibus aposentada, retirou o náilon da testa, revelando um rosto claro, sem rugas.
'A mulher deve ter pele clara sempre', disse ela, com orgulho. 'Caso contrário, as pessoas pensam que você é camponesa.'
Para legiões de mulheres chinesas de classe média – e para aquelas que desejam ascender socialmente – a proteção solar é praticamente um fetiche, repleta de equipamentos próprios. O setor, em plena expansão, atende uma cultura que preza a tez pálida como sinal tradicional da beleza feminina intocada pelas indignidades do trabalho braçal. Há até mesmo uma expressão que mulheres jovens e idosas sabem de cor: 'Uma pele clara esconde milhares de falhas'.
Com o choque entre a busca por esse ideal estético ancestral e o crescente interesse em frequentar a praia e outras atividades ao ar livre, as mulheres chinesas criaram uma série de maneiras de conciliar os dois. Máscaras como a de Yao são particularmente populares entre os moradores locais daqui.
Nas cidades, a sombrinha é um utensílio mais popular no verão, sendo que muitas delas têm como adorno lantejoulas, fitas e imitações de diamantes (e às vezes os três ao mesmo tempo). As pessoas que precisam ter ambas as mãos livres preferem a máscara facial com película protetora, o acessório perfeito para andar de bicicleta. Outras, preocupadas com a moda, preferem envolver o rosto com uma echarpe de chiffon.
E quanto aos braços expostos aos raios solares? Uma busca no equivalente chinês da Amazon apresentou 20 mil resultados para 'luvas de proteção solar'. Elas vão desde mangas com estampa de leopardo que chegam até o pulso até luvas que têm o comprimento de todo o braço, feitas de renda preta.
Women wear masks to protect their faces from the sun while sunbathing at a beach in Qingdao, China, July 26, 2012. With the pursuit of an age-old aesthetic ideal increasingly at odds with the desire to spend more leisure time outside, Chinese women have come up with a variety of ways to reconcile the two. (© Sim Chi Yin/The New York Times)
Women wear masks to protect their faces from the sun while swimming at a beach in Qingdao, China, July 26, 2012. With the pursuit of an age-old aesthetic ideal increasingly at odds with the desire to spend more leisure time outside, Chinese women have come up with a variety of ways to reconcile the two. (© Sim Chi Yin/The New York Times)
Enquanto isso, as prateleiras de farmácias de toda a China estão repletas de cremes e máscaras cosméticas com nomes como Cisne Branco e Branca de Neve, prometendo um tom aristocrático de aparência natural.
Recentemente, em uma tarde na principal praia de Qingdao, a areia e o mar estavam lotados. Além das fileiras de guarda-sóis cor de laranja, as pessoas erguiam dezenas de barracas de acampamento, ignorando os anúncios dos alto-falantes que proibiam o seu uso. Outras pessoas montavam abrigos formados por vários guarda-sóis ou apenas acumulavam camadas de panos.
O cenário não lembrava em nada South Beach. Alguns homens de meia-idade fumavam sem parar nas águas rasas, com suas barrigonas cobrindo sungas diminutas. Sob o olhar atento de seus pais, crianças peladas faziam castelos de areia e se refrescavam nos fossos. As pessoas mais velhas também desfrutavam da areia, algumas enterrando amigos.
Poucos adultos se sentiam totalmente à vontade nadando no oceano, a julgar pela onipresença de boias de braço infláveis, boias redondas e balsas. Flutuando entre elas, parecendo um bando de aves aquáticas coloridas, havia várias mulheres de máscara. Algumas usavam até mesmo roupas de mergulho para se proteger totalmente contra o sol.
As máscaras, feitas de tecido elástico usado comumente em trajes de banho, provocavam uma série de reações dos banhistas.
'Isso é muito exagerado', disse Sun Li, ginecologista de 43 anos da província de Henan, quando questionada sobre as máscaras faciais. A própria Sun, porém, estava sentada sob um guarda-sol usando chapéu, óculos escuros, máscara cirúrgica de bolinhas, uma camisa de manga comprida e luvas. Tinha uma camisa estendida sobre as pernas por precaução.
Perto dali, Li Benye lia o jornal sob a sombra de dois guarda-sóis. Apesar de seu compromisso com a palidez, estava perplexa com as máscaras.
'Elas são estrangeiras, né?', perguntou ela. 'Russas, provavelmente.'
Apesar da pele clara ser prezada por toda a Ásia, as mulheres eram, na verdade, chinesas. As máscaras não apenas as deixavam imunes aos raios ultravioleta, mas também, às vezes, conscientes de sua aparência.
A woman protects her face from the sun while sunbathing at a beach in Qingdao, China, July 26, 2012. With the pursuit of an age-old aesthetic ideal increasingly at odds with the desire to spend more leisure time outside, Chinese women have come up with a variety of ways to reconcile the two. (© Sim Chi Yin/The New York Times)
Visitors at Tuanjiehu Park in Beijing, July 23, 2012. With the pursuit of an age-old aesthetic ideal increasingly at odds with the desire to spend more leisure time outside, Chinese women have come up with a variety of ways to reconcile the two, like wearing face masks, parasols, face shields and headscarves. (© Sim Chi Yin/The New York Times)
'Parece que me importo com que os outros pensam?', gritou Su Ailing, 57 anos, usando uma máscara vermelha, óculos azuis e roupa de mergulho. 'Os turistas ficam seminus, mas nós, que moramos aqui, sabemos como proteger nossa pele.'
As máscaras são uma especialidade de Qingdao, que foi colônia alemã antes da Primeira Guerra Mundial e é lar da Cervejaria Tsingtao. Há poucas semanas, fotos das mulheres locais vestidas desse modo se espalharam pela Internet, provocando zombaria online, mas também aumento das vendas em lojas próximas.
'Eu precisava ter uma dessas', disse Liu Jia, 32 anos, com o branco dos olhos cintilando através dos buracos de uma máscara cor de rosa, que combinava com o sarongue de bolinhas amarrado em torno de seus ombros. Foi difícil encontrar a máscara, contou ela, já que muitos lojistas se recusavam a admitir que tinham o produto em estoque. 'Eu tive que implorar', lembrou.
A repentina escassez, como viria à tona mais tarde, não era um simples caso de demanda maior que a oferta. Após as fotos chamarem a atenção do país, o governo local ordenou que as empresas parassem de vendê-las, segundo vários lojistas, que disseram que a proibição se devia a preocupações com o 'controle de qualidade'.
Uma vendedora, que não quis se identificar por ter medo de irritar as autoridades, mantém seu estoque de máscaras escondido sob o balcão. Apenas após pedidos insistentes e a promessa de sigilo é que ela concordou em vender uma por 20 yuans, aproximadamente 3 dólares. 'Eu não entendo por que o governo está fazendo isso', disse ela, olhando nervosa para a entrada da loja. 'As pessoas simplesmente não querem se bronzear.'
Contatada por telefone, a Administração da Indústria e Comércio de Qingdao negou ter agido como uma polícia da moda. 'Qualquer pessoa que quiser é livre para comprá-la em Qingdao', disse um homem que se apresentou como o diretor He.
O que explica então o nervosismo de tantos comerciantes? 'O único motivo para as pessoas acharem que não devem vender máscaras', respondeu ele, 'provavelmente é por temerem que bandidos possam usá-las para roubar bancos'.

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