quinta-feira, 9 de novembro de 2017

TELONA QUENTE 210


Roberto Rillo Bíscaro

Como se não bastasse o horror de ser estuprada, mulheres amiúde são culpabilizadas pela violência. Se usasse saia mais longa, se não estivesse em tal lugar a tal hora, enfim, um monte de absurdos que de propósito esquecem que estupros acontecem também a caminho da igreja com roupona tapando quase tudo. A cultura do estupro é tão arraigada que as próprias vítimas introjetam a culpa.
Imagine (seria tão bom não ter que...) ser violentada quando se pertence a instituição que prega a castidade, como a Igreja. Este é o drama do solene e correto Agnus Dei (2016), da diretora francesa Anne Fontaine, disponível na Netflix.
Freiras dum convento polonês pouco tem a celebrar com o término da Guerra, em 1945. “Visitas” de solados alemães e depois dos “libertadores” soviéticos deixaram 7 delas grávidas e outras tantas com doenças venéreas. Mulheres despreparadas até pra mostrar partes do corpo que não sejam o rosto e mãos; treinadas pra abominar contato carnal e automaticamente prontas pra se culpar por ele e crentes num ser supremo que as devia proteger encontram-se em situação de potencial e funesto opróbrio social. O roteiro não toca nesse ponto, mas mulheres que mantiveram relações com os invasores foram hostilizadas barbaramente no pós-guerra, não importando muito a consensualidade dos atos. Os rebentos resultantes também sofriam as consequências. Na supercatólica Polônia, freiras grávidas não teriam a menor chance.
Baseado em fatos, Agnus Dei mostra como uma médica francesa  comunista e ateia da Cruz Vermelha consegue ganhar a confiança e ajudar essas mulheres que não se deixavam nem tocar no começo.
Ponto forte do roteiro é não cair no sentimentalismo barato; Agnus Dei é austero, lento e quieto e não coloca a Dra. Mathilde como heroína toda poderosa perante as indefesas e bobas freiras. Ela também é mulher; está no mesmo barco, não importa se crê ou não, se curte comuna ou não.
Sem nenhuma inovação formal ou firula de inverter tempo da narrativa, a estreante Fontaine fez um filme redondinho – ainda que o roteiro de vez em quando podia dar mais detalhes ou discussões – bem ao estilo “europeu” de cines de arte ou festivais de antanho.
Sintonizada com o tema pesado e o rigoroso inverno polaco, a paleta de cores de boa parte de Agnus Dei é mortiça, cheia de tons frios, gélidos, sepulcrais. Quando chega a primavera e a solução pro problema, as cores esquentam um bocadinho, junto com a música.
Ainda que longe de ser grande película, Agnus Dei trata dum tema mais necessário do que nunca, num ambiente onde empatia pela dor do outro parece estar virando ato subversivo.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

CONTANDO A VIDA 211

A ESPANHA FRACIONADA: RETRATO DA EUROPA? ALERTA AO MUNDO?


José Carlos Sebe Bom Meihy
Escrevo de algum ponto entre Milão e Gênova. Na manhã brumosa, o trem corta o tempo em velocidade alta. Sinto-me na era moderna, mas ainda com sentimento de velhas viagens. O Mercado Comum Europeu, ou como alguns preferem a Comunidade Europeia, mudou as relações turísticas impondo novas regras, unificando moedas, regulando acessos, facilitando o transito geral, ao mesmo tempo que impõe controle maior aos não europeus. O encanto pela Europa, no entanto, permanece o mesmo, intocado, fascinante. Dias desses, pensava na ambiguidade de ser culturalmente “colonizado histórico” - primeiro no sentido de dependência política, depois cultural - e, ao mesmo tempo, sentir prazer em desfrutar de visitas às antigas metrópoles modeladoras do nosso meio jeito de ser ocidental. Isso, aliás, tem algo de paradoxal e ambíguo ao mesmo tempo. A par dos enigmas libertários, tenho que reconhecer que estar episodicamente vivendo os dilemas europeus me coloca como testemunha de conflitos sérios. E gozo do direito de ser observador livre do empenho decisório afeito ao pertencimento do corpo europeu.

A questão da pretensa independência da Catalunha domina os noticiários de televisão e povoa notícias e reportagens. Mesmo os programas humorísticos, os reality shows, ou espaços de entretenimento, estão afetados pelos debates sobre aquela “separação nacional”. E não é sem razão, pois a Europa toda é marcada pela construção de estados nacionais fermentados por unidades insatisfeitas com o padrão unitário típico do século XIX. É como se os fragmentos se despertassem de secular sono letárgico prometendo rebeldias latentes. Na Itália, por exemplo, pergunta-se o que tem de comum o norte com o sul? Uma breve passagem pela Lombardia, por exemplo, faz evocar comidas, danças, santos e artistas regionais. A Sicília apresenta outros encargos, o centro também, todos autênticos, mas distantes uns dos outros. E mesmo a língua e a religião comuns são pontuadas por tiques próprios que guardam certa memória não oculta por motes cultivados com picardias subjetivas. A conclamada Unidade Italiana é tão recente como a Alemã (1871) e em ambos os casos, seus regionalismos contêm latentes diferenças, muitas vezes expressas em detalhes sutis como times de futebol, concursos de miss ou até de certames escolares.

O chamado Leste Europeu se fragmentou recentemente, e desde a Queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991), assiste-se às constantes mudanças de fronteiras. Sérvia, Croácia, Montenegro, República Checa, regiões derivadas do fim da Checoslováquia e da Iugoslávia, atormentam jovens estudantes que precisam aprender sobre novos estados, capitais, fronteiras e moedas. A Chechênia busca seu lugar ao lado da Ucrânia, Bielorússia, Geórgia, Armênia, Moldávia, e de outros polos. A ameaça de fragmentações nacionais assusta os unionistas e, em vista do resultado recente da retirada dos britânicos do bloco comunitário europeu, tudo se potencializa, ameaçando fraturas em cadeias. 

Barcelona, sem dúvida alguma, é dos locais mais efervescentes do mundo e se situa, com justificativas, entre os dez pontos mais visitados do mapa. Bem localizada na constelação de outras cidades catalãs com as quais respondem com cerca de 20% da economia espanhola, foi a sede recente das contendas entre o poder central espanhol e os catalães. Combinação bem sucedida de história preservada em monumentos explicadores do desenho urbano tão caro aos turistas, ostenta língua própria e uma personalidade orgulhosa e até arrogante. É bem verdade que todas as regiões da Espanha exibem característica legítimas e são soberbas nas reivindicações de autonomias. Mas a história espanhola é farta em tratativas unitárias, contra isolamentos frustrados.

Para quem estuda a Espanha, não faltam alegações para colocá-la como uma espécie antecipada de modelo para os futuros estados nacionais. Foi assim desde a liderança conseguida na abertura da modernidade no longínquo século XVI. O casamento de Fernando e Izabel marcou o início da Modernidade e a abertura para as grandes navegações. No mesmo tempo, a União Ibérica para a expulsão dos árabes em 1492 coroou um programa político triunfante, sob a hegemonia de Castela, que impôs a língua como nacional. Com o correr dos séculos, entre idas e voltas, a complexa aliança de 17 culturas autônomas ficou sob o governo de Castela, que animou pactos selados pelas figuras de reis que soldaram a hegemonia parlamentar que soube, principalmente depois de 1975, com o fim do franquismo, resistir às crises.

O final da ultima semana do mês de outubro fez ver novamente que apesar do intento separatista, mais uma vez a unidade prevaleceu. Esta vitória não é, contudo, apenas de Madri ou da Espanha, pois serve também de alerta a outros movimentos independentistas. Entre as muitas lições que se levantam a partir dos acontecimentos espanhóis, um se destaca: a necessidade urgente de se refazerem os pactos nacionais. Não vale mais apenas respeitar os acordos do passado como se eles não tivessem dinâmica própria. Em um tempo em que tanto se fala em convívio com as diferenças, importante é exercitar as mudanças. O respeito, mais do que nunca, exige conhecimento do “outro” e isso implica aliviar hegemonias ou vinganças partidárias. Dizendo de forma definitiva, é necessário reinventar a democracia. E isso não remete apenas a Europa, mas implica olhar a nós mesmos.     

terça-feira, 7 de novembro de 2017

TELINHA QUENTE 284


Roberto Rillo Bíscaro

Vivo advogando a importância que teria uma personagem com albinismo representada de forma mais realista do que o usual papel de vilão ou portador (de propósito o termo) de poderes especiais. É ótimo ver diversidade nas telinhas, com gente de várias etnias e estilos de vida sendo retratados. Mas há que se tomar cuidado pra não transferir a programas de TV a capacidade de educar e alterar consciências por si sós. Senão, também estamos abrindo pro argumento de que psicopatas ou gays são criados vendo séries.
Por mais legais e importantes que sejam, séries têm o objetivo primordial de entreter; não dá pra transferir toda a responsabilidade da educação pra empresas que, no fim, por melhores que sejam as intenções, precisam de produtos lucrativos. Assim, é legítimo reclamar quando alguma representação seja daninha – como a insistência na figura do albino malvado, revoltado e esquisito – mas não seria correto esperar que um programa de TV pra entreter cumprisse o papel de documentário ou aula de biologia.
Creio que essa postura seja uma das mais sanas pra se assistir aos adoráveis 8 capítulos de Atypical, série da Netflix, estreada em agosto. A produção tem defeitos e trilha caminho já percorrido por tantas, mas passa alguma informação sobre o autismo de sua personagem central, Sam, que aos 18 anos quer arrumar namorada e transar, provavelmente nesta ordem, porque regras são muito importantes pra ele.
Atypical é típica dramédia chamada em inglês de coming of age drama, porque dramatiza o amadurecimento de jovens. Cinema e TV estão coalhados disso. O semidiferencial de Atypical é que seu protagonista está dentro do espectro autista; nada tão grave que complique sua representação dramática. Usei semi, porque já vi diversos nerds ou geeks representados perigosamente como Sam. Uma das armadilhas de representar rupturas mentais e comportamentais de modo fofinho-cuti-cuti-miguxo é abrandar demais o lado hardcore deles. Sam já está bem avançado em seu desenvolvimento social, porque é acompanhado por psicóloga, mas seu surto no ônibus no capítulo derradeiro não é nada divertido, ainda que edulcorado pela produção.
Alertado quanto a isso – o que parece utópico, uma vez que ainda há quem confunda ator com personagem, em 2017! – Atypical é deliciosa e vi em maratona de fim de semana. Gostei especialmente do relacionamento entre Sam e a irmã atleta, que trata o irmão bem “naturalmente”, dando peteleco, zuando, mas vira onça quando alguém de fora tenta fazer o mesmo. Irmão briga mesmo e no caso de um autista deve ser inevitável a existência de sentimento de ter sido deixada em segundo plano, o que efetivamente ocorre com a menina e não escapa ao roteiro.
As formas oriundas do drama burguês são melhores pra tratar de pessoas “normais”, ou seja, com maior autonomia de ação, por isso essas são mais eficientemente representadas. É o que tem pra hoje, então celebremos o que dá pra fazer. Que lindo ver o pai finalmente tentando estabelecer relação com o filho que não conseguia aceitar. Que boa discussão dá a mãe que após se anular por tantos anos, sem poder confiar no maridão, acaba achando válvula bem musculosa pra escapar.
Atypical meio que domestica e romantiza o autismo – a comunidade autista deve já estar reclamando de ser representada tão frequentemente como alivio cômico – mas a história prende, as pessoas são simpáticas e de carne e osso e, por menor que seja, é ponto positivo na divulgação do tema autismo e na representação da diversidade nas telinhas.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 290


Roberto Rillo Bíscaro

Quando The Queen is Dead (1986) completou 25 anos, a imprensa musical soltou fogos de artifício celebratórios. O britânico New Musical Express teve edição especial apenas sobre The Smiths e o disco. Nada mais justificável, afinal, Morrissey (voz e letras), Johnny Marr (guitarra), Andy Rourke (baixo) e Mike Joyce (bateria) inventaram um subgênero, o indie rock.
Quando apareceram, em 1982, a música pop era dominada por sintetizadores e personagens maquiados com cabelos mirabolantes. Marr veio com riffs intoxicantes, numa sucessão vertiginosa de canções memoráveis e Morrissey com letras lúgubres e ambíguas, além de visual que envolvia até óculos forneceidos pela assistência social inglesa, anos-luz do look Culture Club ou Duran Duran. O número de carreiras musicais inspiradas pela banda continua a multiplicar-se até hoje.
Apesar da importância, a indústria fonográfica esnobou a efeméride e o quarto de século da obra-prima dos Smiths passou batido. Ano passado foi o trigésimo aniversário e também nada.
Dia 20 de outubro, a Warner começou a corrigir a omissão em relançamentos remasterizados e expandidos da banda de Manchester. The Queen Is Dead saiu em edição super de luxo, com 3 CDs e um DVD, que traz o filme homônimo de Derek Jarman, mas que não faz parte do escopo deste texto.
O CD 1 traz o álbum original remasterizado. The Queen Is Dead é tão importante que impõe comentários faixa a faixa:
O álbum abre com a faixa-título, virulento, irônico e intelectualizado ataque à monarquia. Um coro de crianças cantando tema da época da Primeira Guerra Mundial dá lugar à bateria tribal de Joyce e em alguns segundos a metralhadora de Morrissey atira contra a rainha e a igreja em versos como “querido Charles, você às vezes não sente vontade de aparecer na primeira página do Daily Mail usando o véu de noiva de sua mãe?”. Típico Morrissey, a letra mistura preocupações sociais com a impossibilidade de discuti-las na chuva, para não estragar o cabelo. Os Smiths nunca estiveram tão próximos do heavy metal quanto nesta faixa. E a conclusão, em meio à guitarra pesada: “a vida é longa demais quando se é solitário”.
Frankly, Mr. Shankly é pérola de acidez music hall. Melodia brejeira traz a história de um empregado que detona o patrão metido a poeta. A ambiguidade morriseyana resplandece ora dizendo que quer entrar para a história da música, ora bombasticamente afirmando que preferiria escrever cartões de Natal com deficientes mentais a ser célebre. Dizem que a letra é “homenagem” ao presidente da Rough Trade, gravadora do grupo.
I Know It’s Over é das letras mais lancinantes e sinceras sobre solidão já escritas na música pop. O verso inicial diz ”oh mãe, sinto a terra caindo sobre minha cabeça” ao que se seguem alusões a suicídio, amores não-correspondidos ou inventados e questionamentos amargos sobre solidão: “se você é tão divertido, por que está só esta noite?/se você é tão esperto, por que está só esta noite?”. O instrumental inicialmente esparso avoluma-se seguindo o aumento do desespero e culmina na massa sonora acompanhando os berros de Morrissey, repetindo o verso de abertura. Sublime.
A barra continua pesada com Never Had No One Ever, onde o protagonista bate à porta de alguém para confessar que jamais teve ninguém e está sozinho, desesperadamente só. “Tive um pesadelo que durou 20 anos, 7 meses e 27 dias”. Uma vida. Sons de pranto juntam-se a melodia arrastada com instrumentação compacta.
Cemetery Gates apresenta melodia adorável com violão dedilhado e letra muito intelectualizada sobre plágio. Num “horrível dia ensolarado”, duas pessoas visitam um cemitério e leem lápides, discutindo sua autoria. Alguns críticos acusaram Morrissey de plágio, por usar trechos de outrem em suas letras, coisa que jamais ocultou ou negou. Seu ídolo Oscar Wilde fora acusado do mesmo pecadilho na sistemática campanha ao longo de décadas para diminuir sua genialidade. O vocalista dos Smiths elege o escritor irlandês como santo padroeiro e compõe letra muito inteligente alfinetando detratores.
A lindíssima Bigmouth Strikes Again abre com mortífero solo de violão dedilhado, que continua por toda a canção, que ainda traz baixo e bateria pulsantes e guitarra cortante, tornando-a locomotiva dançante. Morrissey recebera o epíteto de desbocado pela imprensa britânica e, quando um atentando à bomba num hotel matou membros do gabinete de Margareth Thatcher, mas não a Dama de Ferro, Mozz manifestou seu pesar por ela não ter voado aos pedaços. Face ao ultraje desencadeado pela declaração, o letrista destilou seu fel em versos como “doçura, eu estava apenas brincando quando disse que queria quebrar todos seus dentes/doçura, eu estava apenas brincando quando disse que você deveria ser coberta de porradas em sua cama”, para, em seguida, comparar-se a uma Joana D’Arc de walkman e aparelho de surdez derretendo, enquanto as chamas consomem seu corpo. É o Desbocado atacando outra vez!
The Boy With the Thorn in his Side talvez seja a canção dos Smiths mais conhecida no Brasil. Influenciada pelos Beatles, a letra funciona em diversos níveis, podendo ser lida pela via do homoerotismo abafado pela sociedade, que cria monstros em potencial, mas também como questionamento sobre o porquê a banda não fazia mais sucesso.  Faixa dá certa impressão de que os vocais estão meio desconectados da melodia, gravados em outra dimensão, meio que representando na forma a alienação tematizada. Conseguir que essa aparente desconexão forme todo adorável seja marca da genialidade da banda.
O clima rockabilly de Vicar in a Tutu, com sua guitarra totalmente jangling e sua letra divertida sobre ladrão que vê um vigário vestindo saia de balé e no dia seguinte pregando moral no púlpito é ataque corrosivo à hipocrisia.
Quando Morrissey apresenta-se no Brasil, e põe a canção na setlist, a plateia canta o refrão de There’s a Light That Never Goes Out em uníssono. Em todo canto é assim; nos países latinos – que amam Morrissey de paixão – é mais. Indubitavelmente clássico entre fãs, a maturidade nos faz superar o refrão. Não é prazer ou privilégio morrer esmagado por ônibus de dois andares ou caminhão de dez toneladas, nem que seja ao lado da pessoa amada. Mas, não há como não se emocionar com o arranjo de cordas e a letra sobre desejo de viver plenamente, mas não poder fazê-lo por medo, timidez ou opressão. Dramaticidade digna do Romantismo.
Só mesmo uma banda no auge de seu poder de fogo e autoconfiança para se dar ao luxo de não usar a faixa anterior para fechar o álbum em clima de estratosfera lírica apoteótica. Ao invés, o encerramento se dá com a melodia circular e de começo falso de Some Girls Are Bigger Than Others, com (outro!) achado guitarrístico de Johnny Marr. A letra é a mais leve de The Queen is Dead, sobre um cara que acaba de descobrir a única preocupação da humanidade desde o começo dos tempos: o tamanho dos seios. Pobre de quem não consegue perceber o banho de ácido sulfúrico candidamente cantado.
O CD 2 traz demos e lados B dos singles, além de uma versão estendida da faixa-título, que, mesmo sem a introdução do coro infantil da época da I Guerra Mundial, dura mais de sete minutos. Ideal para quando você deseja apenas a pauleira, sem o introito lúdico.
Com relação aos lados B, mesmo no distante e atrasado Brasil, a maioria já havia saído nos anos 80, seja no 45 Rpm de The Boy With The Thorn In his Side, seja na coletânea The World Won’t Listen, versão empobrecida do então duplo Louder Than Bombs. Assim, a única “novidade” para ouvintes tupiniquins que nunca puseram os ouvidos em edições gringas ou piratas é a instrumental Money Changes Everything, que, se não faz falta, é curiosa porque originou The Right Stuff, do álbum Bête Noire (1987), de Bryan Ferry. O ex-Roxy Music ouviu o lado B de Bigmouth Strikes Again e percebeu que se colocasse letra, teria hit nas mãos. Chamou seu fã Johnny Marr para tocar guitarra na faixa, que, claro, fez sucesso na versão podre de chique de Ferry. Mesmo conhecidas, é ótimo ouvir a canção de ninar suicida de Asleep ou o reggae de Rubber Ring em versões remasterizadas, além de em um contexto do qual realmente fazem parte.
Quanto às versões demo, o que salta aos ouvidos é a solidez da visão que Morrissey e Marr tinham com relação a como a banda deveria soar. Decepcionar-se-á quem espera versões bem diferentes daquelas da obra-prima. São apenas detalhes na letra ou arranjos, polidos por Marr, que não usava sintetizadores, mas gerava sofisticadas superposições de camadas de guitarra ou inclusão de efeitos como a voz de Morrissey em rotação alterada para obter aquela vozinha de fundo em Bigmouth Strikes Again, ausente na demo version. Até a aparente desconexão entre instrumentação e vocal de The Boy... se faz presente na demo. A crueza da versão preliminar de Frankly, Mr. Shankly revelará melhor ainda a sofisticação das cordas de Johnny Marr. Ouvida com fones, a demo soará como se o cara estivesse esbanjando linhas melódicas, porque é uma em cada ouvido. Brilhante.
A mudança mais radical entre demo e versão oficial de The Queen Is Dead é na faixa Never Had No One Ever, com quase o dobro do tempo e seção final cheia de metais dissonantes de free jazz. Como sabido, a versão do álbum dispensou isso em troca de camadas de efeitos e até simulação de choro, muito mais em sintonia com o estado mental do narrador, deprimido e envergonhado com tanta solidão. Além disso, na demo, Morrissey “dialoga” com o pistão, que é até meio sexy. Mas, para isso os anos 80 já tinham Jimmy Sommerville e o próprio Mozz já soltara a franga na gritaria em falsete de Miserable Lie, do primeiro LP.
O CD 3 traz a apresentação ao vivo em Boston, do dia 5 de agosto de 1986. Dá pra entender que os curadores desejavam manter a mesma qualidade de som e apresentar um show inteiro, mas quase metade das 13 canções já fora lançada oficialmente ao vivo, no LP Rank (1988). Seria muito mais aproveitável se versões ao vivo de Frankly, Mr. Shankly e Meat Is Murder estivessem no lugar de Rubber Ring/What She Said e Is It Really So Strange, por exemplo.
Os Smiths se recusaram a usar sintetizadores, mas Johnny Marr jamais teve pudores em tratar o som de sua guitarra, sobrepondo-a em camadas. Isso fazia com que a experiência ao vivo fosse mais crua do que a de estúdio. Pra viciados na pureza experimental de estúdio, como este resenhista, os Silvas resultavam menos fascinantes no palco, ainda que lá demonstrassem ser feroz banda de rock. A competência do quarteto era tamanha que agrada7vam as 2 facções. Mesmo ao vivo, nós amantes de estúdio não podemos reclamar de tudo. Em turnês, a banda empregava Craig Gannon como segundo guitarrista, então, Marr até consegue semi-reproduzir a hipnose circular do arranjo de How Soon Is Now. Pra quem ama visceralidade roqueira, confira a demolição de The Queen Is Dead.
Os Smiths alcançaram seu pico de criatividade com The Queen is Dead e um par de singles subsequentes indicava que a usina de boas ideias ainda geraria muita energia.
Ledo engano. As datas finais da turnê do clássico foram canceladas por exaustão e porque as tensões já eram insuportáveis. Menos de um ano depois de The Queen Is Dead, os Smiths se desintegraram, levando a uma mini-onda de suicídios na Inglaterra e Japão (sério!).
Quando Strangeways, Here We Come saiu, em setembro de 87, o grupo não mais existia. Talvez tenha sido melhor assim, visto que o canto do cisne não alcançou a qualidade do material anterior.
Seguiu-se feia e sangrenta batalha judicial por direitos autorais. Frustrações, exaustão, drogas, alcoolismo, falta de empresário mais competente foram algumas das razões dadas por diferentes membros para explicar o fim de uma era.
Quaisquer que tenham sido as razões para o fim dos Smiths, o que realmente importa é que é deles o Sgt. Peppers do indie rock. Realizando o desejo expresso na letra de Frankly, Mr. Shankly, Morrissey, Marr, Rourke e Joyce entraram para a história da música.

domingo, 5 de novembro de 2017

SUPERANDO VÁRIOS PRECONCEITOS


Casal gay conta história de adoção do filho, rejeitado por três casais

sábado, 4 de novembro de 2017

ALBINO GOURMET 245

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

PRECONCEITO ANGOLANO

Angola: Albinos ainda sofrem discriminação

Presidente de ONG angolana de apoio aos albinos defende que discriminação ainda existe no país, e que, apesar de avanços, representação política é pequena.

Os albinos angolanos ainda são alvo de discriminação e enfrentam dificuldades de integração na sociedade. É o que defende presidente da Associação de Apoio de Albinos de Angola, Manuel Domingos Vapor, que lembra que apenas um deputado albino faz parte do grupo de 220 deputados que compõem o Parlamento em Luanda. Recentemente, o comunicólogo Celso Malavoleneke foi nomeado secretário de Estado da Comunicação Social.

"A discriminação começa no berço e depois termina no seio da sociedade, no caso da vizinhança e das pessoas na rua por aí a fora", avalia Domingos Vapor.

Segundo ele, "essa discriminação ainda existe embora que tenha um número já reduzido em relação ao passado por causa da campanha que associação tem feito. O olhar de desdenhar a pessoa tem reduzido".

Pouca representatividade

Entre os problemas relatados pelos albinos em Angola, a associação destaca a falta de acessibilidade nalgumas instituições do Estado. Albinos não conseguem emprego e, às vezes, não são atendidos nos hospitais por causa da sua condição, explica. "São barreiras sobre o desafio do emprego e também a barreira no atendimento hospitalar".


Não são muitos os albinos que ocupam lugares de destaque no Governo. A nomeação de Celso Malavoleneke para o cargo de Secretário de Estado da Comunicação Social é vista como um avanço por Manuel Vapor.

"Vai despertando a sociedade porque a pessoa albina não veio ao mundo apenas para acompanhar outras pessoas. Também tem os seus dotes e o seu nível de conhecimento e de escolaridade. Também sabe trabalhar".

O parlamento angolano é composto por 220 deputados, mas apenas um é albino. Trata-se de Manuel Savihemba deputado da UNITA. Claudio Fortuna afirma que o processo de integração ainda precisa de muito trabalho. "Deputado Savihemba é o caso pioneiro. Há também de Celso Malavoleneke que começou como agente da sociedade civil e o Guilherme Santos da ADRA (Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais)".

Realidade africana

Em países africanos como a Tanzânia e Moçambique, partes do corpo da pessoa com albinismo são usadas em rituais difundidos pela crença popular para atrair sorte. Mas em Angola, de acordo com o presidente da associação, não há queixas desta natureza. "Nunca recebemos dos meus associados que haja casos deste tipo. Em Angola não temos".

Também para Cláudio Fortuna, investigador do Centro de Estudos e Investigação Cientifica da Universidade Católica de Angola (CEIC), a realidade angolana é diferente. "A nossa sociedade não está tão mal comparativamente a outras realidades africanas".

Valorização dos albinos

A Associação de Apoio de Albinos de Angola conta com 600 associados entre albinos e não albinos. A organização está representada em apenas seis das 18 províncias do país e debate-se com problemas de falta de recursos e de transporte para se expandir nas demais regiões. Ainda assim, a luta pela valorização da pessoa albina deve continuar, encoraja Manuel Vapor.

"Não podemos cruzar os braços. É momento de arregaçarmos as mangas para podermos enfrentar essas barreiras porque se nós voltarmos para trás quer dizer que não estamos a fazer nada e que o preconceito vai continuar".

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

TELONA QUENTE 209


Roberto Rillo Bíscaro
Em 1942, Irène Némirovsky morreu no campo de concentração de Auschwitz, privando o planeta de escritora. Escritos sobreviventes deixados com as filhas provaram conter 2 partes duma pretendida pentalogia, abortada pela torpeza nazista. No início deste milênio, as 2 novelas foram publicadas sob o nome Suíte Francesa e incensadas por meio mundo e meio. Ano passado saiu o filme homônimo, que fundiu ambas histórias numa trama passada na França rural ocupada pelos alemães.
A coprodução Inglaterra/França/Bélgica mostra como Lucille, que vive com sua sogra cúpida e dominadora, se envolve com o tenente alemão designado a viver sob seu teto, quando a aldeia é ocupada pelos invasores. A primeira parte de Suíte Francesa dá a impressão que vai seguir certo relativismo pós-moderno, ao apresentar alemães e franceses como defeituosos de caráter. Os alemães podiam estar invadindo, mas os invadidos franceses não se furtavam em escrever-lhes cartas incentivando caça às bruxas. Madame Angellier dominava Lucille como os germânicos a França, e o tenente Bruno era tão sensível e diferente do estereótipo nazista, compondo sua suíte romântica.
Mas, felizmente, uma injustiça coloca as coisas nos trilhos pra mostrar que a despeito de falhas humanas, os bastardos inglórios eram os invasores com sua ideologia de extermínio étnico, ideológico, de orientação sexual e religioso. Defeitos todo ser humano têm e esse tal de relativismo pode acabar pondo culpa em vítima. Isso não ocorre no filme de Saul Dibb. A segunda parte é bem menos ambígua e “rica”, no sentido de muitos modernetes, mas mostra que havia mal muito mais amplo a ser combatido, maior até que o amor individual.
A produção tem aquele tom de comercial de TV e às vezes esbarra em formulismos. Não que isso estrague Suíte Francesa, perfeitamente desfrutável pra discussões, pra quem curte drama, bela fotografia, clima “de época”, música melosa, cine “europeu” e todo o combo.
Tem na Netflix.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

CONTANDO A VIDA 210

TOM JOBIM, A REPÚBLICA E EU.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Espero que ninguém precise passar por uma circunstância tão estranha como a que vivi dias atrás. Uma amiga estrangeira, amante intransigente de nosso país, ousou perguntar-me por mensagem eletrônica sobre o “que anda acontecendo com a chamada vida política brasileira”? E, em apelo decisivo, meio perdida entre bombardeios de opiniões, quase que suplicava “por favor, explique-me, pois, estando distante, não dá para entender essa coisa de divisão do pais em duas correntes, essa polarização entre esquerda e direita”. Pensei em não responder, como se a pergunta fosse apêndice descartável de nossa correspondência sempre fiada por gentilezas e sugestões acadêmicas. Talvez, devesse mesmo ter deixado passar em branco, mas de tal maneira me doeu a gravidade da questão que me coloquei em alerta, tentando mostrar algo além das análises corriqueiras, dos clichês que povoam jornais, ou mesmo da balbúrdia promovida pelas redes sociais. Resolvi, em resposta, fazer uma lista de argumentos, algo que fosse além dos fatos imediatos, das constatações que terminam na obviedade simplificadora da tal “corrupção sistêmica”, ou da “cultura política corrompida”. Nadava contra a correnteza que fatalmente me levaria ao lugar comum quando lembrei de duas frases do nosso compositor maior, Tom Jobim. Na primeira, decretava com autoridade de quem sabe musicar a cultura: “o Brasil não é para principiantes”. Achei que este seria bom começo para explicar nossa complexidade. A outra frase, dita quando cobravam dele o sobejado entusiasmo pelas coisas nacionais e a ausência de protestos. Respondendo a repórteres impertinentes, certa feita, para dizer que nunca fizera uma só canção crítica, na placidez de quem sabe das coisas, declarou, “não adianta, o globo gira para a direita”...
Iluminado, achei o meu caminho explicativo para a amiga interlocutora. E seria virtuoso começar pela proclamação da nossa República, deflagrada por militares que haviam jurado fidelidade ao monarca deposto. Tomando como ponto de partida o fato da virada da página imperial ter se dado por golpe militar, buscou-se desdobrar o novo sistema que, contudo, teve o povo sempre distante das decisões centrais. Ainda que desde logo tivéssemos entusiastas, foram os soldados que assumiram o regime. De maneira patriarcal, como tutelares do poder ao longo da História, os militares resolveram sempre tratar a República como responsabilidade sua. A cada ameaça de autonomia democrática, um novo golpe. E assim, um atrás do outro, nunca tivemos nossa democracia continuada. De maneira intermitente, mas com insistência, sutil ou não, promoviam-se alardes espetaculosos, sendo que um dos mais consequentes se perpetuou formulando um formidável fantasma: a esquerda cruel. Construção engenhosa, deitada eternamente em berço esplêndido, o comunismo (e agora o temor que viremos uma Venezuela) se apossou dos discursos despreparados para a compreensão do processo histórico como um todo.
A ruptura da ordem constitucional foi ganhando jeito nosso e, pode-se dizer, teve qualificação ditatorial clara em 1934 quando então interrompe-se discussão democrática e Varga outorga nova Constituição. Por lógico, o Estado Novo (1937) é prolongamento da mesma intenção. Em 1964, novamente voltam os militares com a mesma lenga de “correção de rota”. Chamando o golpe de revolução, com apoio de potentes forças civis, novamente os militares lembravam a todos a que vinham. Com o correr dos anos, a prática de tomada do poder se aperfeiçoou no Brasil e então passamos a ter aparente fachada legal para a manutenção de posicionamentos que se assumiram “de direita”. Houve um momento em que a perfeição golpista chegou ao limite máximo. Em 1961 o Congresso Nacional, frente ao reposicionamento militar que queria impedir a posse de João Goulart, depois da renúncia de Jânio, acatou o parlamentarismo como alternativa por tempo limitado. Com isso, mudava-se o padrão de tomada do poder. Assim, o Congresso Nacional passava a se assumir como guardião da República. A esse procedimento pode-se dizer que se deu uma espécie de golpe legalizado, valendo-se da ordem constitucional para alterar as regras estabelecidas. Paradoxalmente a tais golpes, não se pode imputar ilegitimidades. É quando, então, o judiciário atua como espaço de manobra para ginásticas exegéticas. O resultado é o que temos hoje, golpes que não podem ser considerados como tal porque se revestem de novidades legais.
Não são poucos os que pedem a volta do regime militar. Também são, felizmente, muitos os que apelam para a manutenção da ordem democrática, mas nos atalhos da prática política com as constantes interferências de forças estranhas à democracia, a memória da ordem e do progresso se impõe confundindo o direito ao voto. É quando o jogo de esquerda x direita se reinstala, apagando a possibilidade de autonomia popular. Como nunca, faz-se imperiosa a luta pelo estabelecimento definitivo da democracia. A continuidade constitucional tem que ser respeitada e os procedimentos eleitorais devem ser validados. Todos têm direito a se candidatar, todos, inclusive os militares. Eleitos, o respeito lhes deve ser imputado. Tomara que a próxima geração tenha melhores dias. Quanto a Tom Jobim, acertou ao dizer que realmente “o Brasil não é para principiantes”, mas, se acertou que “o globo gira para a direita”, que o rumo seja democrático, garantindo o republicano direito de ser de esquerda.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

TELINHA QUENTE 283


Roberto Rillo Bíscaro

Fazia tempo que vira o nome The Principal, enquanto vasculhava online por séries. Como isso significa O Diretor de Escola, relutava em dar oportunidade. Por mais fofos e divertidos que tenha achado Merlí e Rita, não tenciono ver algo similar tão cedo. Quase me ofendem essas séries de professor que luta contra um sistema sem que esse seja sequer questionado e que detona outros professores pra tornar a “missão” do protagonista possível. Não se espera que uma andorinha faça verão, mas acredita-se que um docente possa, desde que se invista do papel de santo amalucado; depende apenas de nós (sou professor, lembram-se?) Bem, não é assim que funciona na vida real de aluninhas dando comprimidos misturados à água pra professora dormir.
Mas, felizmente apertei The Principal (2015) no menu da Netflix e não me arrependi. A produção australiana é uma espécie de Merlí desce aos infernos. O começo é típico: Matt Bashir, de origem “árabe”, é um professor de História que consegue posto como diretor na problemática escola púbica apenas pra garotos onde estudara. Lá, começa a implantar seus métodos integracionistas, que pregam tolerância mais que louvável aos alunos, muitos deles vindos de situações traumáticas de guerras como a da Síria. Como eles sofreram e sofrem horrores com a pobreza australiana, podem chamar o professor de culinária de viado sem repreensão alguma. Por ser docente, ele tem que ser estoico e compreensivo. Lindo, né? Culpado é o resto do staff, que não entende os estudantes. Que o enorme êxodo mundial está juntando culturas que não gostariam que isso ocorresse, pra começo de conversa, não importa.
Dai, ocorre reviravolta que singulariza os 4 capítulos da minissérie. Um aluno é encontrado morto e a perspectiva vira mais de investigação policialesca, o que implica na descoberta de esqueletos no armário de todo mundo, inclusive de Bashir. Ele é um bom homem, mas não a última bolacha do pacote, ou até é, pensando melhor, afinal, bem frequentemente esse biscoito se parte, quando a retiramos.  
The Principal é inteligente, porque consegue ser eficiente suspense policial ao mesmo tempo que mostra que ações individuais podem fazer a diferença, mas não mudarão o desempenho e interesse de todos os alunos (se bem que Merlí e Rita são pura mistificação; eles se envolvem com um punhadinho de estudantes apenas) num passe de mágica. Aliás a resolução do assassinato subverte essa falaciosa narrativa de salvação universal pela educação a partir dum indivíduo-mártir-sacerdote-palhaço-melhor-amigo-figura paterna/materna-confidente  dos alunos.
Em termos de produção, The Principal também tem seu diferencial: é encharcada numa bela cinematografia amarelada, que mostra que ali o negócio é mais bem feito e “artístico”, além de conferir característica algo outro-mundista, o que não deixa de ser perigosinho: vamos lá, The Principal se passa, sim, numa Sidney forçadamente multicultural, que tem bairros pobres.
Nós, professores, brasileiros, não deixamos de sorrir, quando vemos a “pobreza” dos alunos australianos, pelo menos a ali demonstrada. Ah, se aqui fosse assim, já seria progresso!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 289

Roberto Rillo Bíscaro

Pode ser pra causar, mas Tamar Braxton revelou que seu álbum mais recente será seu último. A empresária e estrela de reality show quer se dedicar à família. Bluebird Of Happiness foi lançado de forma independente dia 29 de setembro. Como ela e a irmã Toni sempre gostaram dum bom e gritado drama, pode ser que a afirmação não passe disso, afinal melodrama e berro é o que não faltam nas 11 faixas.
Em Blind, Braxton canta que prefere ficar cega a ver o amado com outra e em My Man esgoela “meu homem, meu homem, meu homem” inconformada de tê-lo perdido pra inimiga. Se você não gosta de exagero; se tem espírito discreto bossa nova, nem tente Bluebird Of Happiness, apenas pra apreciadores dum bom sofrimento, real ou inventado. My Forever, Heart In My Hand, How I Feel, Empty Boxes são outras baladas vocalmente intensas. Os arranjos são sempre discretos: fundo de piano ou electronica hip hop totalmente domesticada ao gosto do R’n’B contemporâneo. O foco do trabalho de Tamar Braxton é sempre sua voz, sempre ela.
A regravação da clássica The Makings Of You, de Curtis Mayfield, causará discórdia entre puristas. Fãs de soul music a conhecem bem nas vozes de Aretha Franklin e/ou Gadys Knight. Braxton hibridizou o tema, misturando voz e arranjos 70’s de Knight com a sua própria e arranjos contemporâneos de R’n’B, além de acrescentar à letra. Ficou no meio do caminho entre uma coisa e outra, mas até que dá pro gasto, embora eu não veja razão pra não ficar de vez com Gladys Knight And The Pips. Outro empréstimo, bem menos polêmico, é o de Pick Me Up, delícia pop soul dançante. Atente pro sampler de teclado de Love Come Down, sucesso oitentista de Evelyn ‘Champagne’ King.
Como no anterior, Calling All Lovers (resenhado aqui), Bluebirds Of Happiness tem um par de faixas que trazem a qualidade pra baixo. No caso anterior, eram baladas meio insossas, neste é o par de midtempos meio metidinhos a agradar plateias mais jovens, Run Run e Hol’ Up.
Se Tamar Braxton cumprir a promessa de aposentadoria, a soul music perderá uma caixa torácica capaz de muito drama. Tomara que reconsidere.

domingo, 29 de outubro de 2017

AVC DA SUPERAÇÃO

Depois de intensa dor de cabeça, Angélica foi ao chão, vomitando, em um restaurante. Estava tendo um AVC. Onze anos depois, restabelecida e livre de sequelas, ela conta sua história de superação. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

TELONA QUENTE 208


Roberto Rillo Bíscaro

Embora haja muita homofobia e perigo pros gays, não há como negar o aumento enorme na representação da homossexualidade no cinema e na TV nas últimas 2 décadas. Às vezes, dá impressão de política de cotas, porque filmes/séries têm que ter afro-descendentes, algum tipo de desvio da heteronormatividade e por aí afora. Não reclamo, constato. Tamanha representatividade pode levar a ideias errôneas de que na vida fora das telinhas/lonas, comportamentos homoeróticos sejam tão normalmente aceitos como os heterossexuais. A passeata neonazi na Virginia deveria servir como abridor pra muitos olhos hipnotizados por fantasias midiáticas.
O simpatiquinha, porém descartável, 4th Man Out (2016) é bem característico desses tempos onde desvios da heterossexualidade são mais mostrados como plenamente aceitos, do que realmente são. Estreia do roteirista Aaron Dancik e do diretor Andrew Nackmah, o filme pretende mostrar que é OK ser gay e a aceitação nem é mais tão difícil. O problema é que a própria narrativa não está totalmente confortável com a homossexualidade, problema exacerbado por roteiro esgarçado.
Numa dormente cidadezinha operária do nordeste dos EUA, o mecânico Adam revela-se gay pra seus 3 melhores amigos; 2 dos quais chegam a ser caricaturas de heterossexualidade, com seus comentários e peidos. Os caras nem chegam a protestar ou rechaçar Chris, porque são personagens mal construídas pra burro. O mais bem realizado é o bonitão Chris, que aceita Adam numa boa. Como Chris é mais bem escrito que Adam, o interesse recai quase sempre no seu lado da história, então tem hora que 4th Man Out é mais sobre a possibilidade de se ter um amigo gay, do que ser gay. Mas ser gay sem ser efeminado, porque a narrativa nos apresenta uma série de cartuns de personalidades gays “indesejáveis”. Na verdade, há um trecho, onde o real e único interesse é se Chris consegue a menina que cobiça.
Até há uma tentativa bem-intencionada e divertidinha de inverter estereótipos atribuídos a gays, mas o roteiro jamais se aprofunda em nada muito criativo. Enfim, 4th Man Out é passatempo que prega a convivência da diferença – desde que não muito diferente – e por isso merece simpatia, mas não soma muito.
Vi na Netflix, quem sabe ainda esteja no catálogo; tentem.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

CONTANDO A VIDA 209

DUAS AVENTURAS COLOMBIANAS

José Carlos Sebe Bom Meihy

A convite da Pontifícia Universidad Javeriana, de Bogotá, na Colômbia, ministrei breve curso de história oral, entre os dias 09 e 14 de outubro último. Desmentindo a noção de que os colombianos são flexíveis e algo folgados, ou que seriam uma espécie de eco do comportamento brasileiro, fui desprevenido para o volume de trabalho que tive que cumprir. Curso pela manhã, repetição para outra turma à tarde, encontros de trabalho depois da aula, uma aula magna. Isto tudo sob frio e variação de temperatura, inclusive com chuva. Foi uma semana intensa, mas que, em medidos intervalos me permitiu visitar amigos muito queridos. Sim, nas intermitências fugia dos compromissos e assim pude conviver com outras tribos, pessoas com as quais troco experiências acadêmicas e de afetos desde 2009. Num desses dias, exatamente no dia 11, numa brecha cavada na agenda, fui vê-los para jantar. O arranjo do local foi feito por eles, que escolheram magnifica tratoria italiana, no simpático bairro de Macarena. A alegria da conversa se fez progressiva enquanto multiplicávamos assuntos, acertando temas desdobrados desde nosso derradeiro encontro, há pouco mais de um ano. E não faltavam temas: o acordo de paz, os efeitos do Prêmio Nobel entregue ao Presidente Santos, as consequências da entrega de armas das FARC, a visita do Papa. E tudo regado a comparações com a situação do Brasil. Em uma espécie de disputa, medíamos desgraças, pois apesar das aparentes conquistas colombianas, a corrupção tinha se instalado de maneira mais definitiva do que se pensa. E estávamos competindo nessa seara, cada parte tentando mostrar que nossos políticos eram os piores. A contenda seguia célere quando, de repente, sem que houvesse qualquer suspeita, o motorista que havia nos conduzido desde o meu hotel, adentrou e, ante a surpresa de todos, perguntou se alguém havia deixado cair um celular. Imediatamente, consultamos nossos bolsos e era exatamente o meu. Empalideci, pois o meu aparelho tinha pouco mais de dois meses e, novamente, eu o teria perdido. Alejandro, marido de minha companheira de trabalho, Alba, e eu levantamo-nos, fomos em direção do carro que estava à porta e ouvimos de uma gentil senhora, passageira que se sentou no espaço que ocupei, reconheceu-me pela foto no visor do aparelho e devolveu meu objeto. Feita a gentileza, voltamos ao salão, pusemo-nos a medir a grandiosidade da distância entre governos que roubam e pessoas da sociedade civil que desmentem a perenidade cultural de situações que implicam veto em ficar com o alheio. Reinou certa perplexidade, mas daquelas com final feliz. Abraços de despedida, promessas de novos encontros e restava a lição da honestidade popular.
Os dias passaram rápidos, e entretido em tantas atividades, apenas tive o sábado para lazer. O primeiro de meus intentos era voltar ao Museu Botero, um dos meus centros favoritos no mundo. Essa nova empreitada começou com a chamada de um táxi. Marquei o número do chapa que terminava numa combinação fácil de dia e mês de meu aniversário. Perdido na magnífica coleção, tão entretido estava que não notei que antes, ao pagar o motorista, havia deixado cair meus pesos colombianos, algo em torno de 200 dólares, dinheiro reservado para a compra de pequenas lembranças para familiares e amigos. Apenas dei conta quando fui efetuar o pagamento de suvenires adquiridos ali mesmo, na loja do Museu. Outra vez me acometia aquela sensação desagradável de frustrações. Em outro táxi, experimentei mais uma vez a amabilidade do motorista que entendeu a situação e se dispôs a me levar de volta ao hotel, e resolver novo câmbio de moeda para efetuar a paga da corrida. Resolvido o caso, com ajuda do pessoal do hotel, chamei o táxi anterior e... e... em alguns minutos estava o motorista que havia recebido de outro passageiro minha carteira com o dinheiro, cartão de crédito e um documento de identidade. Alegre, surpreso, superei a recriminação pessoal, comum nesses casos, pela consideração da honestidade popular. Voltei, fiz minhas comprinhas, passeei mais um pouco e já no aeroporto me coloquei assinalando os feitos das experiências. Poderia dizer que o ganho foi grande. Aprendi que tanto vale pesar a corrupção sistêmica, da política, como também ver o avesso disso tudo. Presidem na sociedade seres honestos e capazes de gestos grandiosos. Vou tomar mais cuidados com objetos e dinheiro em próxima viagem, mas não quero perder a esperança de crença nas pessoas comuns.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

TELINHA QUENTE 282


Roberto Rillo Bíscaro

Slasher, série do canal Chiller, especializado em horror, foi cancelada devido à baixa audiência. Malgrado defeitos de produção e roteiro, foi decente homenagem aos slasher films dos anos 1980. Leia resenha aqui.
Plataformas de streaming parece que adoram dar segunda chance a séries machadadas e foi o que a Netflix fez. Produziu uma segunda temporada, adicionada ao catálogo semana passada e que minha paixão por slashers fez passar adiante de tudo, pausar o que via no momento e assistir de maratona. Os 8 capítulos de Slasher: Guilty Party (SGP) foram gravados em maio e escritos pelo idealizador do projeto desde a temporada anterior, Aaron Martin, que ama slasher films, Agatha Christie e mistérios policiais, tipo Broadchurch.
SGP seguiu a tendência do superestimado American Horror Story e voltou com outra mitologia, novo cenário, personagens diferentes. Dessa vez, um grupo de ex-supervisores de acampamento de verão retorna ao sítio, a fim de coletar evidência comprometedora duma coisa terrível cometida há cinco anos. Os atuais ocupantes da propriedade são um grupo alternativo bem Namastê, com aquela conversa Era de Aquário (argh!). O local fica isolado e é o pico do inverno. De repente, membros de ambos os grupos começam a ser brutalmente mortos e os segredos e culpas vão emergindo.
A série canadense volta a lidar com lugares-comuns definidores do subgênero slasher, como a Lei do Retorno: fez errado, paga. Horror e papinho New Age compartilham tanto! A escolha e aproveitamento do inverno justificam o isolamento do grupo, além de conferir mais frialdade e desespero na fase em que as personagens percebem que vão perecer. Vira meio que um slasher noir. Aliás, a roupa e máscara do/a serial killer remeteram-me a obscuro filme bem antigo; já vi coisa similar. Não tô acusando SGP por isso; a indumentária funciona, embora sem poder de virar icônica. Embora ache pecado mortal usar revolver como arma pra eliminar as vítimas, isso acontece pouco e há algumas mortes beeeeem legais.
Outro ponto positivo de SGP é elevar a faixa etária dos tradicionais adolescentes pra adultos e gente entrando na meia-idade. Isso teve repercussão na trama e no visual. A história mostrou que adultos podem fazer escolhas tão estúpidas quanto teens e visualmente é uma suspensão de descrença a menos pro espectador, que não tem que fingir acreditar que atores bem mais velhos são adolescentes. Recentemente via 13 Reasons Why e pensava “caraca, esse cara é uns 5 anos mais velho que a personagem!” E olha minha acuidade visual de 10%, heim gente? Então, os adultos em SGP emulam um daqueles jogos de verdade ou desafio, fazem simulação de julgamento e, clássico, saem sozinhos e, claro, são assassinados. Os tais joguinhos não levam a lugar nenhum na trama, estão lá pra efeitos de exposição e as saídas-solo até entendemos: um desconfia do outro. O roteiro é bem-feitinho.
Como há bastante tempo à disposição, conhecemos bem os passados, expostos através da intercalação de cenas no pretérito, conforme gosto atual. Isso não chega a afetar o ritmo, porque todo mundo tem históricos nada louváveis/monótonos, inclusive a galera vegana de fala mansa e manipuladora de cristais. O problema da desaceleração é aquele que afeta toda série de horror, especialmente as slashers. Não dá pra ficar adrenalinado e matando o tempo todo. Em filmes – quando bem-feitos – isso até se aguenta, mas em seriados essa barriga aumenta, então há momentos quando temos que aturar diálogo sobre a diferença da meia-noite e das 3 da manhã; a primeira consagrada às bruxas e a outra ao demônio, sendo que isso nada contribui pra história, que não lida com nenhum desses elementos.
Quem sabe não seria mais ágil, produtivo, barato e inteligente, pensar em capítulos mais curtos, nessas séries produzidas pra streaming? Que eu sabia só a Netflix exibe Slasher: Guilty Party e não é preciso se preocupar com inclusão de comerciais e encaixe na grade, então, por que não episódios, com digamos, 30,35 minutos ao invés dos usuais mais de 40?
Mas essa lentidão se pronuncia mais nos 2, 3 capítulos iniciais, depois, como num longa-metragem, a coisa pega fogo e torna SGP ainda melhor que a primeira temporada.

Já tô torcendo ansiosa e esperançosamente pra terceira!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

CAIXA DE MÚSICA 288


Roberto Rillo Bíscaro

A psicodelia sessentista nunca morreu. Vai bem até hoje, enlouquecendo o underground e vindo à superfície disfarçada, de quando em vez, em álbuns pop, como no mais recente do Foster The People. No Brasil, segue circulando também, vide exemplo da paulista Bike, que lançou segundo álbum este ano e já fez até turnê pela Europa.
Na segunda metade dos anos 80, a Grã-Bretanha viveu surto psicodélico, então acrescentado do prefixo neo. Claro que bandas fundamentais do universo indie, como o Echo & The Bunnymen, utilizaram muito da cartilha psicodélica em seus álbuns iniciais, no começo da década. A reabilitação da guitarra em um mundo sinthpopizado, feita por Smiths e Jesus And Mary Chain, além de Echo, Cure e outros levou a um estouro de guitar rock na segunda metade da década. Misturando anos 60 com as jangling guitars de Johnny Marr, as distorções reverberadas do seminal Psychocandy (1985) e até o white noise domesticado em forma de arte pelo Cocteau Twins, uma porrada de grupos desabrochou a partir da chamada Class Of 86. Na verdade, a profusão de rótulos aumentava proporcionalmente ao número de bandas que o fértil celeiro britânico armazenava. The Telescopes, House Of Love, Soup Dragons, era um nome atrás do outro que líamos na Bizz, sem conseguir obter os singles/álbuns.
De vez em quando, aparecia messias que salvaria o “puro” e tadinho rock, contaminado, vilipendiado, humilhado devido ao império da música dançável sintetizada durante toda a década de 80, que fecharia com o estouro lisérgico da acid house, que fez com que os Soup Dragons regravassem sucesso dos Rolling Stones em clima bem dance rock, que subiu ao topo das paradas oficiais em 1990 e tocava até em pistas de dança da distante e petiz Penápolis.
Um desses salvadores da pátria roqueira britânica foi o Ride, formado em 1988, na universitária Oxford, por Mark Gardener (vocais e guitarra), Andy Bell (vocais e guitarra), Steve Queralt (baixo) e Laurence Colbert (drums). Esse Andy Bell não é o do Erausre, mas seria o do Oasis. Quando os Stone Roses morreram na praia – que hype fizeram em cima dessa banda mediana, Jesus! –  o clima meio onírico chapado e certa postura de “tô nem aí” no palco, garantiram que a imprensa musical inglesa entronasse o quarteto como reis do shoegaze, título que sempre refutaram.
Em 1990, o hoje semiesquecido Ride era a salvação. Essa posição não se manteria por muito tempo; caíram em desgraça mais celeremente do que viraram queridinhos. O sucesso nunca passou muito dos confins indie, as desavenças internas não demoraram, o desgaste das turnês e o atropelamento pelos trens grunge e britpop obsoletaram seu som quase de hora pra outra. Em 96, saiu o fiasco Tarantula e depois cada um seguiu seu caminho.
Com o fim dos Smiths, em 87, e a decadência do Cure, Siouxsie e dos astros pop oitentistas, parei de atentar pra cena “nova”, acho que a partir dos Stone Roses. Desse modo, não vivi a onda das bandas de nome curtinho tipo Ride e Lush. Escolhi não experimentei grunge ou britpop, porque passei os 90’s colecionando material dos membros e ex do Genesis, ouvindo prog rock e resquícios oitentistas. Claro que conhecia Smells Like Teen Spirit, do Nirvana e Alright, do Supergrass, mas preferia ouvir Steve Hackett (até hoje). Só na era da net que ouvi várias coisas 90’s com mais atenção, inclusive o Ride. Nada marcou a ponto de sempre escutar, porém.
Mas, quando li que retornaram com Weather Diaries, dia 16 de junho, deu aquela nostalgia, afinal início dos 90’s ainda era 80’s. Ouvi o single Charm Assault e pirei. Ficou no repeat e decidiu o imperativo de ouvir as 11 faixas dos já (quase) 50tões. E não é que os coroas ainda dão boa descarga de oníricas harmonias vocais e instrumentais temperadas em viajante psicodelia contida pra ser palatável a apreciadores do formato canção indie rock? Confira a linda Cali.
Lannoy Point abre criando clima, introduzindo instrumento atrás do outro pra criar atmosfera bem apropriada pra entrada em palco, até que bateria bem 1986 entra com guitarra e baixo e as coisas ficam típicas da cena inglesa dos late 80’s/early 90’s. Não demora prum solo de guitarra todo jangling encantar. Desculpem usar o inglês jangling, mas pra mim essa é a única definição pra esse tipo de guitarrada. Charm Assault vem em seguida; ponto alto do LP. Irresistivelmente pra bater cabeça e cabelão e prova – pra quem esquecera ou não sabia – de que o Ride deve muito ao My Blood Valentine.
A vibe mais pra cima – dentro do possível pro brumoso Ride – das 2 primeiras canções engana quem esperava disco no estilo. As 9 faixas restantes são bem mais lentas, nada dançantes, apresentando vários andamentos e versões de algo como psych-ballads, tipo Home Is A Feeling, Impermanence ou White Sands. All I Want está nessa categoria, mas abre com o maior tropeço do álbum: pra que aquele truquezinho pop de boy band de botar vocal em eco no começo? Não combina com o esfumaçado hipnótico do resto. Muito melhor é a faixa-título, que em seus quase 7 minutos mantém a característica de psicobalada, mas ao final, uma avalanche de estática literalmente destrói a melodia, deixando apenas fragmentos de cordas. Grande faixa.
Rocket Silver Symphony tem 2 minutos de ambiência space rock pra se transformar em psicodelia com incrustações de estrutura repetida de krautrock/Kraftwerk, que, como sabemos influenciou muito da EDM, que também informa a canção. Nesse caso os vocais com eco funcionam, porque dentro de padrão apropriado. Lateral Alice é psicodelia anos 60 trombada com um mundo pós-Jesus And Mary Chain. Guitarras graves e bateria avalanchada dão-lhe notável energia. Integration Tape utiliza fragmentos sônicos e white noise de ninar, pra estabelecer seu clima de viagem interssensorial.
O tempo nesses diários é nublado com bruma chuvosa, um dos traços distintivos de muitas bandas etiquetadas shoegaze. Essa cerração sônica permeia as 11 faixas de um álbum que colocou o Ride no décimo-primeiro lugar da parada inglesa. Nada mal e eu que os cria semiesquecidos.

domingo, 22 de outubro de 2017

PORCO-ESPINHO ALBINO EM VÍDEO

Porco espinho albino é capturado por Bombeiros



Durante a tarde desta quinta-feira 19/10, a guarnição do Corpo de Bombeiros composta pelos Cabos Ramos e Reis, foi acionada a comparecer no Bairro Marechal Rondon em Ariquemes, para realizar a captura de um animal. Chegando ao local passado pelo solicitante, os Militares se depararam com um ouriço cacheiro (porco espinho) albino. O animal foi capturado e solto em uma área verde para ficar em seu habitat natural. Porco espinho albino é um animal raro, pois o albinismo é uma característica recessiva que atinge entre 1% a 5% da população mundial. Esta condição genética ocorre em praticamente todo o reino animal inclusive nos seres humanos. Os indivíduos albinos sofrem de uma deficiência em uma enzima envolvida na produção da melanina. Mesmo parecendo um animal inofensivo, espinhos dos ouriços, são pelos modificados, extremamente duros, que servem como defesa. Quando um predador encosta no animal, esses, espinhos se soltam, fixando-se na pele e musculatura do atacante. Sua ponta tem minúsculas farpas que tornam a extração difícil e dolorosa. Em caso de animais silvestres serem encontrados em área urbana, é recomendado acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros para que seja feita a captura.

sábado, 21 de outubro de 2017

WET N WILD N...ALBINA!


Marca escolhe modelo albina para campanha de beleza

Diana Forrest é o novo rosto da marca Wet N Wild

A modelo albina Diandra Forrest compartilhou a notícia em suas redes sociais e foi celebrada por todos aqueles que vibram pela inclusão e pelo respeito à diversidade. Albina, ela foi a primeira modelo com essa caracteristica a ser escolhida como rosto para uma campanha de beleza.


Diandara é estrela da da Wet N Wild, cuja campanha Breaking Beauty pretende celebrar características físicas que geralmente somos levados a cobrir e a disfarçar. Segundo o site de moda Refinery29, esta é a primeira vez que uma modelo albina é rosto de uma grande campanha de beleza.

Diandra revelou ao site que o objetivo de sua participação é desmistificar sua condição de pele. “Eu quero normalizar a maneira que o albinismo vem sendo representado. Quis fazer isso por mim e pelas jovens garotas crescendo,” disse.