sábado, 22 de novembro de 2014
QUANDO MENOS É MAIS
O indispensável despreparo necessário à educação inclusiva
Por Lucio Carvalho *
Por muito tempo acreditei, ou quis acreditar, ou me fizeram crer (difícil saber ao certo) que os principais problemas da educação inclusiva no Brasil seriam o despreparo e a falta de experiência dos professores. Santa ingenuidade, Batman. Só hoje consigo compreender que o “preparo” e a “experiência” tanto podem representar pontes desejáveis quanto armadilhas quase irreconhecíveis nos caminhos tortuosos ou retilíneos da educação e do aprendizado dos alunos com deficiência, especialmente daqueles com deficiência intelectual.
É que o atributo da experiência, mesmo que para uns signifique aprendizado, para outros tantos significa apenas acúmulo. E o acúmulo de más experiências e baixas expectativas pode ter um resultado pior que a encomenda, ou seja, pode colaborar em compreensões e abordagens pré-estruturadas e negativas dos indivíduos, no caso os alunos.
Assim, não é incomum encontrar-se professores que alimentam a crença de que seus alunos podem ser tomados genericamente com base em um CID ou diagnóstico e que, portanto, basta replicar possíveis fórmulas de sucesso e evitar previsíveis receitas de fracasso para que as coisas aconteçam. Vã ilusão. Cada ser humano é inesperado e enquanto pensarmos que é possível encaixotá-los em categorias da “diversidade” não avançamos além da rotulagem mais do que imaginamos, quando não apenas se está a reforçar ainda mais, mesmo que de uma maneira aparentemente democrática, a bem conhecida estigmatização.
Por mais estranho que pareça, sempre tive melhor (no meu caso pessoalíssimo) sorte com professores despreparados. É sério, não é piada. Não faço piada sobre esse tipo de assunto porque realmente às vezes é difícil distingui-la de algumas coisas, novidades, cursos, eventos, publicações e teorias que parecem muito sérias, mas que na prática nem sempre são tão sérias e aproveitáveis assim. Não vou citar nomes aqui não por uma questão de respeito ou indulgência, mas porque há muitas sobre as quais ainda tenho muitas dúvidas e se encontram sob investigação.
Das muitas vantagens de um professor despreparado, eu citaria rapidamente a principal delas: um professor despreparado tem muito menos preconceitos e ideias errôneas em mente que aqueles que optaram por uma compreensão unidirecional dos processos de construção/aquisição/elaboração/ou seja lá o que for do conhecimento. Ele está aberto a surpresas enquanto o “preparado” predominantemente imagina que já sabe o que vai encontrar, carregando na sua compreensão e práticas muitas vezes mais os quilogramas de conceitos e preconceitos disponíveis no mercado de ideias que o mínimo indispensável ao ofício: amor e respeito às crianças pelo que elas são.
Essa vantagem poderia ser suficiente para encerrar minha argumentação, mas ainda há outras de que não posso esquecer. O professor “despreparado”, por exemplo, pode afeiçoar-se pelos alunos individualmente (ou seja, suas pessoinhas) enquanto os “preparados” lidarão sempre com categorias de alunos. Os “inexperientes” procurarão entender o percurso individual do aluno de uma forma natural, já o “experiente” poderá tentar empilhar o sujeito (ou sujeitinho) em alguma camada do seu know-how prévio. E, glória das glórias, o “experiente e preparado” poderá tentar repetir fórmulas indefinidamente, enquanto que o “despreparado” será sempre obrigado a procurar caminhos e alternativas, instigando-se a si mesmo, o que é uma característica das mais desejáveis para a profissão.
Então quero dizer com isso que não existe preparo adequado ou ganhos pela experiência que sejam possíveis? Claro que não quero dizer isso. Mas então.. eis a pergunta que não quer calar: como saber? Não sei. Realmente não sei. Se eu dissesse que sei então estaria incorrendo no mesmo erro que acabo de condenar, que tenho a fórmula, como se alguém pudesse ser ou portar-se como uma agência de certificação, não que algumas pessoas não tentem ser um tipo de oráculo educacional. Definitivamente, os há. E como! Demasiado até, no meu ponto de vista.
Quero dizer com isso que um professor despreparado fará melhor trabalho que um mais preparado? Também não sei. Não tenho como saber. Fazê-lo seria aplicar a mesma regra com que muitos professores empregam a seus alunos, encaixotando-os e rotulando-os. Não é disso que se trata. Estou pensando e falando sobre comportamento real, não sobre teoria ou literatura científica.
O que eu quero dizer essencialmente para pais como eu, de crianças pequenas que dependem muito de uma comunicação indireta ou mediada por profissionais externos para revelar seus problemas e progressos, é que encontrar um professor “despreparado”, mas realmente dedicado e interessado, pode ser em muitos casos a verdadeira sorte grande, com quem será possível aprender e compartilhar para um mútuo proveito.
E também que, infelizmente, encontrar um professor “preparado” e “experiente” ou tudo isso conjugado nem sempre é garantia de coisa alguma, não cabendo, ressalte-se, tomar isso como regra. É claro que a soma de boas experiências e boa fundamentação teórica é o substrato ideal para que um professor encare satisfatoriamente a sua tarefa, embora haja muitas coisas a considerar também, desde a questão salarial, suporte, recursos adequados e espaços reais de colaboração com as famílias, que são os interessados finais no processo todo, afinal de contas.
Longe de mim querer ser ou parecer ser o agente da “intranquilidade”, mas de certo modo é exatamente disso que se trata. É claro que as metodologias de ensino são importantes e tudo o mais, mas igualmente é necessário restabelecer um pouco de espanto, surpresa e curiosidade no processo educacional como um todo, sob pena de que ele resulte artificial e com pouquíssimos atrativos, especialmente em se tratando do público infantil.
A infância, como sabemos, é um momento único na vida. Para os pais e mães de crianças pequenas – e nesse ponto se são crianças com deficiência intelectual ou não isso pouco importa -, seus filhos não podem ser resumidos em oportunidades ou experiências de maior ou menor sucesso escolar, mas constituem e integram efetivamente suas famílias e, através da escola, eles esperam apenas que ela os ajude a pertencer dignamente à sociedade. Se o preparo e a experiência conspirarem a favor dos alunos, então está tudo ótimo e há pouco a melhorar. Caso contrário, talvez seja interessante convidar os educadores a restituírem pelo menos um pouco a importância da dúvida para a constituição do saber. E isso não requer tanto preparo quanto, talvez, um pouquinho mais de boa vontade.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
CEGUEIRA ESTÉREO
O homem que só enxergou em três dimensões após assistir a filme 3D
Bons filmes frequentemente mudam a visão que as pessoas têm do mundo, mas um deles alterou literalmente a capacidade de um espectador de enxergar a realidade.
O americano Bruce Bridgeman divide sua vida em duas períodos: antes e depois de ver o filme A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, em 3D.
No dia 16 de fevereiro deste ano, Bridgeman foi ao cinema com sua esposa para ver a obra. Como todo mundo, pagou a taxa extra para comprar os óculos 3D, mas ponderou que seria um desperdício de dinheiro.
O neurocientista da Universidade da Califórnia, de 67 anos, nascera com uma condição conhecida como "stereoblind" (ou cegueira estéreo), que faz com que ele não consiga enxergar profundidades.
"Quando a gente sai com amigos e eles apontam para algum pássaro na árvore, eu ainda estava olhando para o alto procurando o pássaro quando eles já tinham terminado a conversa", conta Bridgeman. "Para todo mundo, o pássaro se destacava no primeiro plano. Para mim, ele não aparecia na paisagem"
Tudo mudou quando as luzes do cinema se apagaram e o filme começou. De repente, os personagens começaram a "voar da tela", em uma experiência inédita para o neurocientista.
"Era literalmente o surgimento de uma nova dimensão de visão", lembra ele.
O curioso é que a sensação não durou apenas o tempo do filme. Ao sair, Bridgeman conseguia enxergar as lâmpadas da iluminação pública formando um caminho ao fundo. De repente, começou a perceber a profundidade em vários lugares - e essa sensação dura até hoje.
A ciência convencional diria que o que aconteceu com ele é impossível. A pergunta que intriga os estudiosos é: o que mudou de forma permanente na visão do americano?
Imagens alteradas
Por séculos, diferentes estudiosos, como Leonardo Da Vinci, tentaram entender como funciona a percepção de profundidade.
Uma teoria mais definitiva só surgiu em 1830, quando o inventor Charles Wheatstone conseguiu explicar como duas imagens levemente diferentes - uma formada por cada olho - formam a sensação de profundidade no nosso cérebro. Ele conseguiu reproduzir essa sensação com um aparelho chamado estereoscópio.
Só recentemente é que essas teorias foram melhor compreendidas, quando foram estudados os neurônios que estão por trás da visão estéreo. Os neurocientistas descobriram células no córtex visual - a parte do cérebro que processa a visão - cuja função é responder às diferenças de posição das imagens produzidas por cada olho. Essas células, chamadas de neurônios binoculares, são as que processam nossa visão em três dimensões.
Uma pesquisa de David Hubel e Torsten Wiesel dos anos 1960, que ganhou o prêmio Nobel de Medicina, revelou que existe uma pequena janela durante a infância para se desenvolver neurônios binoculares. Depois que a janela se fecha, a pessoa está para sempre confinada a um mundo de duas dimensões - sem profundidade.
Problema profundo
A condição de Bridgeman é diferente, mas produz o mesmo resultado: a chamada de exotropia, um tipo de estrabismo em que ambos os olhos têm a tendência de vagar para o lado de fora. Com isso, ele nunca consegue focar ambos os olhos em um ponto.
O neurocientista se adaptou à vida usando uma série de "truques" que compensam a falta de visão estéreo. Um deles é observar as cores de sombras. Tomemos como exemplo a observação de uma floresta: as folhas e galhos que estão mais longe ficam encobertos pelos que estão no primeiro plano, cada vez que o observador move a cabeça.
O problema é que como muitas pessoas com cegueira estéreo nunca conheceram outro mundo, muitas delas só aperfeiçoam essas técnicas depois de adultas, quando descobrem que são diferentes dos demais.
"[A cegueira estéreo] não é incluída em nenhum teste de oftalmologia padrão", diz Laurie Wilcox, especialista em visão da Universidade de York, no Canadá. Nem mesmo os exames de carteira de motorista levam isso em consideração.
Bridgeman passou sua vida inteira dirigindo, apesar de saber que muitos de seus familiares ainda têm medo de pegar carona com ele.
Episódio de infância
Os cientistas acreditam que pessoas como ele tiveram alguma experiência breve durante a infância que levou seus neurônios binoculares a se desenvolver apenas minimamente. Depois dessa experiência, eles teorizam, os neurônios nunca mais foram ativados, e por isso esses indivíduos passaram a vida enxergando apenas em duas dimensões.
De fato, Bridgeman diz que lembra ter tido visão binocular em pelo menos um episódio de sua infância, quando construiu um brinquedo de papelão seguindo as instruções em uma caixa de cereal. Nessa brincadeira, ele lembra de ter enxergado algo diferente - a terceira dimensão, de profundidade.
Essa experiência - talvez única em sua vida - pode ter sido suficiente para "religar" sua rede de sinapses após o filme e permitir a volta de sua visão estéreo. É mais ou menos como instalar um programa de computador e demorar anos para usá-lo pela primeira vez.
Para especialistas como Wilcox, a boa notícia é que o cérebro humano pode ser muito mais maleável do que se imaginava.
Este ano, um estudo feito por Dennis Levi, professor da Universidade da Califórnia, detalhou o caso de cinco adultos que cresceram com cegueira estéreo mas que aprenderam a ver em três dimensões com terapia.
Porém, nenhuma teve o "choque" que Bridgeman enfrentou no cinema. Levi diz que a tecnologia 3D simula - de forma não intencional - muitas das técnicas e truques que Bridgeman usou em sua terapia para treinar o olho humano.
Passada a experiência, Bridgeman considera hoje que o dinheiro gasto nos óculos 3D do cinema não foi nenhum desperdício. Pelo contrário, saiu baratíssimo.
"Estou adorando ver o mundo e enxergar as mesmas coisas que os outros. Gosto de observar as florestas e as árvores. Uma árvore vira uma escultura tridimensional, e não apenas um padrão. Isso é um presente para mim."
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
CONTANDO A VIDA 88
Neste final de ano, nosso historiador-cronista filosofa sobre as virtudes do esquecimento e do otimismo, dentre outras coisas.
LEMBRAR E ESQUECER.
LEMBRAR E ESQUECER.
José Carlos Sebe Bom
Meihy
O fim do ano está aí. Mais uma coleção de dias somados se lança no mistério do tempo passado. É momento de avaliação, de meditar sobre feitos e desfeitos, conquistas e derrotas. Estranho esse processo pessoal, íntimo e muitas vezes secreto. A inevitabilidade de se assumir tal postura é assinalada pelos rituais que marcam o suposto fim de etapas que alimentam esperanças sempre remoçáveis. Quem trabalha com temas como “memória”, no entanto, aprende logo que o esquecimento faz parte de seu conteúdo. Não existe lembrança sem esquecimento. Apesar da aparente contradição entre lembrar e esquecer, no âmago da estrutura rememorativa, o verbo esquecer se apresenta como condição. Toda memória é seletiva e seu comportamento se orienta exatamente pela escolha – consciente ou não – do que deve permanecer. Muito além dos preceitos teóricos de quantos filósofos se dedicam ao assunto, me ocorre sempre um poema do alemão Bertold Brecht que reza no verso intitulado Louvor do Esquecimento: “Bom é o esquecimento senão como é que o filho deixaria a mãe que o amamentou e que lhe deu a força dos membros e o retém para os experimentar?/ Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre que lhe deu o saber?/ Quando o saber está dado o discípulo tem de se pôr a caminho./ Na velha casa não entram os novos moradores se os que a construíram ainda lá estivessem, pois a casa seria pequena demais./ O fogão aquece o oleiro que o fez e já ninguém o conhece o lavrador e nem reconhece a broa de pão./ Como se levantaria, sem o esquecimento da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?/ Como é que o que foi espancado seis vezes se ergueria do chão à sétima pra lavrar o pedregal, pra voar ao céu perigoso?/ A fraqueza da memória dá fortaleza aos homens”.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
TELINHA QUENTE 141
Roberto Rillo Bíscaro
Águia é o apelido de Hallgrim Ørn Hallgrimsson, policial meio islandês, meio dinamarquês, que com time de especialistas em diversas áreas resolve casos que envolvem cartel colombiano de drogas; ditadura africana beneficiando-se de minério usado a mancheia, o qual acaba financiando chacinas em locais pobres; terrorista de ex-república soviética querendo construir bomba atômica e tanta coisa mais.
A globalização de Ørnen: En krimi-odyssé traduz-se em tramas poliglotas e geograficamente diversas; Congo, diversos países europeus como Itália, França, Lituânia, Alemanha e, claro, o resto da Escandinávia. Uma das personagens ouve MPB, São Paulo é mencionada um par de vezes, enfim, muito mais excitante que o incesto geográfico das séries norte-americanas.
Houve horas em que me perguntei por que o nome é individual e não indica o grupo, porque embora a personagens seja o centro com seus problemas com o pai etc, em termos de resolução dos casos policias, o grupo é preponderante e seus membros têm características próprias, além de linhas dramáticas particulares, ainda que menores que as de Hallgrim.
Momentos de realismo mágico como sonhos premonitórios e visões são verossímeis, porque Hallgrim é islandês; estereótipo que comentei na resenha da minissérie O Penhasco. Longe de serem meus prediletos, não destoam do realismo, como aconteceu em Arne Dahl.
Exceto pelo primeiro e último episódios – que não eletrizam como o restante – Ørnen: en krimi-odyssé é viciamte, inteligente e merece o Emmy ganhado. Umas 3 ou 4 cenas onde pede-se demasiado de nossa suspensão da descrença, mas nada grave.
E ainda tem a participação de Bjorn Floberg, de Varg Veum, em vários capítulos, também como comissário de polícia. Aquele sorriso cínico é tudo!
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
CAIXA DE MÚSICA 147
Caridade Coral
Roberto Rillo Bíscaro
Os anos 80 foram fartos em juntar astros musicais cantando pra arrecadar fundos pra diversas causas sociais. Listei algumas delas pra recordar e conhecer aquelas menos divulgadas no Brasil. Inclui desdobramentos dos 2 projetos mais famosos, por se tratar da mesma canção.
30 anos atrás, astros ingleses gravaram Do They Know It’s Christmas Time pra ajudar os famintos etíopes. Boy George, Simon le Bon, Phil Collins fizeram meu single de caridade favorito – sou parcial quando se trata de música inglesa oitentista.
Em 89, Stock-Aitken and Waterman refizeram o single com o cast da gravadora PWL e alguns convidados. Kylie Minogue, Jason Donovan, Jimmy Somerville, Lisa Stansfield e outros tentavam minimizar a fome africana.
Em 2004, Chris Martin, do Coldplay, propôs regravar a canção com a mesma finalidade das anteriores e Skye Edwards, Jamelia, Dido & Cia toparam
Uma nova versão, pra angariar fundos pro combate ao vírus do Ebola, acaba de ser lançada. O veterano Bono Vox – presente desde 1984 – está acompanhado por One Direction, Ed Sheeran, Emeli Sande etc etc etc
Pra não ficar atrás dos britânicos, em 85 os norte-americanos lançaram We Are the World, que, claro, fez muito mais sucesso (mas tocou menos do que One More Night de Phil Collins, sabiam?). Bruce Springsteen ficou instantaneamente famoso no Brasil por essa canção, que traz constelação que inclui Cindy Lauper, Diana Ross, Lionel Richie e um monte mais.
Em 2010, Celine Dion, Barbra Streisand, Justin Bieber e outros gritões, regravaram We Are the World pra auxiliar os prejudicados pelo terremoto do Haiti.
Como estava na moda, artistas dance tipo Mel & Kim e Hazel Dean tentaram infrutiferamente arrecadar grana pra pesquisa sobre esclerose múltipla.
Em 87, o tabloide inglês The Sun recrutou Kate Bush, Boy George, Andy Bell e uma montanha de cantores menores ou em decadência pra ajudar vítimas dum naufrágio.
Pra ajudar os nordestinos sem água, Djavan, Maria Bethânia, Roberto e Erasmo, Zizi Possi e tantos outros gravaram coletivamente, em 1985. Pena que não fez sucesso.
Em 1985, quando muitos famosos não queriam associar seus nomes à AIDS, Elton John, Gladys Knight, Steve Wonder e Dionne Warwick, regravaram That’s What Friends Are For, de Burt Bacharach, pra ajudar nas pesquisas sobre a síndrome.
Peter Gabriel, Hall and Oates, Lou Reed, Bob Dylan se uniram a outros no coletivo United Artists Against Sun City (1985) pra detonar o Apartheid. Só não fez mais sucesso nos EUA, porque metade das rádios não tocou a canção devido às críticas ao apoio de Ronald Reagan ao governo sul-africano.
A comunidade heavy metal/hard rock também se cotizou em 85 pra minimizar a fome na Etiópia. Membros do Quiet Riot, Dio, Journey e outras bandas lançaram o álbum Stars.
Pra conter a violência das gangues urbanas e nos shows de rap, artistas de hip hop como Chuck D e Flavor Flav, do Public Enemy, lançaram um single em 1989.
Em 86, uma miscelânea de Menudo, New Edition, Run DMC, Whitney Houston e outros artistas black-latinos gravaram tributo ao recém-criado feriado dedicado a Martin Luther King. O dinheiro arrecadado – não muito, porque o single flopou – foi pra Martin Luther King Foundation.
Astros canadenses como Joni Mitchel e Neil Young entoaram coral pra ajudar os etíopes também em 85.
domingo, 16 de novembro de 2014
ENEM DA SUPERAÇÃO II
Foi difícil, mas estou feliz', diz aluno com Down que prestou Enem
Estudante de 18 anos, com Síndrome de Down, presta prova em Rio Preto. Ele fez mesma prova e no mesmo tempo dos outros estudantes.
Marcos Lavezo
Prestar o Exame Nacional do Ensino Médio para o estudante Renan Henrique Codogno, de 18 anos, foi uma prova de superação. O jovem tem Síndrome de Down e fez a prova pela primeira vez neste sábado (8), em uma faculdade de São José do Rio Preto (SP). Para ele, responder as 90 questões não foi tarefa fácil. "Foi muito difícil a prova, mas estou muito feliz de ter prestado", afirma o estudante.
Depois das quatro horas de prova, a família de Renan estava na frente da faculdade, esperando para recebê-lo de braços abertos e orgulhosos pela superação do filho mais novo. Renan já faz curso técnico de meio ambiente, em paralelo com o ensino médio, e sonha em fazer uma faculdade.
"É muito orgulho, uma emoção que não tem tamanho. Ficamos na expectativa desde quando ele fez a inscrição. Hoje tentei trabalhar em casa, mas não consegui fazer nada, fiquei pensando de como ele estava indo na prova. Isso mostra que um trabalho bem feito se pode ir longe", afirma Sílvio Codogno, pai do Renan.
Por causa da Síndrome de Down, Renan fez a prova em uma sala separada dos outros alunos e contou com a ajuda de dois mediadores, que o ajudaram na leitura da prova, quando ele tinha alguma dificuldade. A sala separada era para não atrapalhar os outros alunos. Mas, o nível de dificuldade da prova e a duração foi a mesma que de qualquer outro candidato.
"Estou muito feliz, não pelo resultado da prova, mas por ele ter rompido esta barreira, estar fazendo a prova. Ele foi muito preparado pela escola, fez vários simulados, treinamos ele por três anos durante o ensino médio, então para ele foi muito importante fazer a prova como qualquer outro estudante, foi uma grande vitória", afirma Sandra Maria Ferreira Codogno, 49 anos, mãe de Renan.
O estudante voltará neste domingo (9) para o segundo dia de prova. Neste sábado, o Enem testou os candidatos em questões voltadas para ciências humanas (45 questões) e também ciências da natureza (45 questões). O início da prova foi às 13h (de Brasília) e teve duração de quatro horas.
Já neste domingo serão mais 45 questões de linguagens e códigos, além de mais 45 questões de matemática e a redação. A prova no domingo também começa às 13h, mas tem durante de 5h30. A partir das 15h o aluno pode sair da prova sem o caderno de questões e a partir das 18h ele pode sair com o caderno de questões.

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sábado, 15 de novembro de 2014
NOVEMBRO AZUL
Entenda o que é o câncer de próstata
O câncer de próstata se desenvolve na glândula do órgão reprodutor masculino, responsável pelo armazenamento e produção do sêmen. Os homens que se encontram na zona de risco são os acima de 50 anos, obesos ou que tenham algum histórico da doença na família. Pesquisas também apontaram que negros tem maior risco de desenvolverem esse tipo de câncer, por isso devem recorrer aos exames mais cedo, com 45 anos. Homens com propensão genética devem recorrer ao médico já aos 40 anos.
O diagnóstico antecipado é a melhor maneira evitar futuras complicações. Ele deve ser feito periodicamente a partir dos 50 anos de idade através de um exame físico (o toque retal) e exame de sangue PSA. O médico responsável pela saúde masculina é do ramo da Andrologia, e o médico a ser procuro é um urologista. Muitas pessoas cometem o equívoco de procurar um proctologista, médico que trata doenças do ânus e reto.
O medo que muitos homens sentem quanto ao exame físico do câncer de próstata tem sido o principal motivo de campanhas governamentais sobre o assunto. Um exame que dura no máximo 15 segundos é indolor e pode salvar sua vida. Pensar na saúde e na importância que você tem para seus familiares e pessoas próximas é um grande estimulo para realizar a prevenção.
Quais os 6 sintomas do câncer de próstata
Os sintomas do câncer de próstata devem ser monitorados constantemente. Porém, os sintomas do câncer de próstata aparecem, na maioria dos casos, quando o tumor já cresceu e está em estado avançado. Os sintomas do câncer de próstata mais comuns são:
1. Dificuldade/dor para urinar ou ejacular.
2. Dor na região dos testículos.
3. Sensação de bexiga sempre cheia, mesmo tendo urinado. Urinar várias vezes à noite e em pequenas quantidades (pingado).
4. Sangue na urina ou no sêmen.
5. Dor nos quadris, na lombar e parte interna das coxas.
6. Disfunção erétil (dificuldade de ereção do pênis). Conheça o tratamento para disfunção erétil.
Disfunção erétil, o que é?
A disfunção sexual é um problema que faz parte do cotidiano de muitas pessoas. A falta de informações sobre o tema e o constrangimento em procurar ajuda podem impedir a busca por um tratamento eficiente e, por consequência, diminuir a qualidade de vida da população. O intuito deste ebook é esclarecer todas as dúvidas sobre disfunção erétil e ajudar quem sofre desse distúrbio.
Como prevenir o câncer de próstata
A prevenção é sempre o melhor remédio. Portanto, os médicos recomendam que todos os homens acima de 50 anos realizem o exame de toquee da dosagem de PSA anualmente. Para os que possuem histórico da doença na família, os médicos recomendam que esses exames sejam feitos a partir dos 45 anos.

Mantenha uma alimentação saudável e pratique exercícios físicos. O sedentarismo e o excesso de peso são fatores de risco comuns. Portanto, mantenha uma dieta rica em verduras, legumes, frutas, grãos e cereais integrais. Evite também o excesso de gordura. Esses hábitos, além de prevenir o câncer de próstata, ajudam a manter a saúde em dia e prevenir também outras doenças. Outros hábitos também ajudam na prevenção como evitar o cigarro e diminuir o consumo de álcool.
https://grupodeandrologia.com.br/sintomas-do-cancer-de-prostata/sexta-feira, 14 de novembro de 2014
PAPIRO VIRTUAL 84
Esta semana as Letras brasileiras perderam um poeta muito querido, Manoel de Barros. O Albino Incoerente presta singela homenagem ao escritor.
OS 10 MELHORES POEMAS DE MANOEL DE BARROS
Pedimos aos leitores e colaboradores — escritores, jornalistas, professores — que apontassem os poemas mais significativos de Manoel de Barros, um dos mais aclamados poetas contemporâneos brasileiros. Nascido em Cuiabá em 1916, Manoel de Barros estreou em 1937 com o livro “Poemas Concebidos sem Pecado”. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada”, publicado em 1996.
Cronologicamente vinculado à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, Manoel de Barros criou um universo próprio — subvertendo a sintaxe e criando construções que não respeitam as normas da língua padrão —, marcado, sobretudo, por neologismos e sinestesias, sendo, inclusive, comparado a Guimarães Rosa.
Em 1986, o poeta Carlos Drummond de Andrade declarou que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Antonio Houaiss, um dos mais importantes filólogos e críticos brasileiros escreveu: “A poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor”. Os poemas publicados nesta seleção fazem parte do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya. Por motivo de direitos autorais, apenas trechos dos poemas foram publicados.
O livro sobre nada
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Retrato do artista quando coisa
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
O fazedor de amanhecer
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Tratado geral das grandezas do ínfimo
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.
Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
Os deslimites da palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas
Aprendimentos
O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.
O menino que carregava água na peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Uma didática da invenção
I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.
III
Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.
Repetir é um dom do estilo.
IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
V
Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.
VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.
por crianças.
VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.
VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.
Van Gogh.
IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
X
Não tem altura o silêncio das pedras.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
TELONA QUENTE 104
Roberto Rillo Bíscaro
Andei vendo um meme no Facebook referindo-se a uma
boneca assassina ao estilo do oitentista Chucky. Fã de slasher films fiquei
curioso. Semana passada li que Annabelle (2014) era o filme de horror mais
visto no país nos últimos x anos. Baixei-o e também Invocação do Mal, que de
raspão tem a boneca.
Filme de marionete ou boneco/a possuído/a pelo demo não
é novidade. Até Sir Anthony Hopkins tem um no CV. Mas esse é ruim como poucos!
Sem sustos (a não ser que se considere barulho daqui e dali susto), essa
história de boneca que pretende incorporar numa criança faz Child’s Play, do Chucky, parecer um clássico. Annabelle não anda ou fala, é tudo obra do demônio
mesmo que faz truques meia boca e não mata ninguém; coisa sem graça! Claro que não
sendo slasher Annabelle não pode ser criticado como tal, mas mesmo como
película de possessão demoníaca é ruim.
A ambientação no fim dos anos 60 e a personagem central
se chamar Mia e alugar apartamento constituem sacrilégio maior que qualquer
coisa que pudesse aparecer na película. Imagine invocar o clássico O Bebê de
Rosemary tão em vão assim!
Estudiosos afro-americanos apontaram o estratagema
narrativo inconscientemente racista usado em filmes de diversos gêneros, que
consiste em uma personagem negra dar a vida pra salvar o(s) branco(s).
Annabelle é tão pavoroso que sequer escapa desse truque barato.
Ah, Chucky, você precisa
ensinar uns truques pra essa bonequinha! E se ela não aprender você já sabe o
que fazer.
Invocação do Mal (The Conjuring, 2013), de casa mal-assombrada que tem Annabelle como coadjuvante bem periférica, é muito mais
interessante, pelo menos durante os 2/3s iniciais.
Dizem presente quase todos os clichês de filme de casa afantasmada– falta balanço se movendo sozinho e canção-tema com vozinha de
criança e/ou pianinho (amo!). Uma família se muda pruma mansão isolada e logo
começam os fenômenos paranormais. Pedem ajuda prum casal de caça-fantasmas –
que têm Annabelle como souvenir – e daí o capeta arma barraco de vez.
Ambientado no início dos
70’s, década em que o Cão possuía até cachorro, Invocação do Mal não pode ser
desconectado d’O Exorcista. E é precisamente quando tenta superar os efeitos
especiais e a chanchada da possessão
tinhosa do clássico de 1974 que o filme atual perde seu charme.
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