terça-feira, 10 de dezembro de 2013

TELINHA QUENTE 102

Mais de uma vez elogiei filmes e séries por seu charme retrô. Releituras, revivals; amo muito tudo isso, mas tem que possuir charme, elemento do qual a comédia britânica Vicious é destituída.
Os 6 episódios da temporada de estreia foram exibidos no primeiro semestre pela iTV, a mesma de Downton Abbey – citada à larga em um episódio. Vi em 3 dias com a vã esperança de que o nível subisse. Vicious ter sido renovada pruma segunda vinda pode significar que algo potencialmente inteligente e/ou divertido ficou fora do ar. Crime.
Vicious centra-se num casal gay junto há 48 anos. O tempo e as derrotas individuais fizeram com que Freddie e Stuart passem o tempo se atacando e diminuindo, embora se amem. O espectador é jogado nessa arena de leoas estereotipadamente afetadas. O jovem vizinho hétero e a velha amiga desesperada por homem aparecem todo episódio pra contribuir com mais sem gracismo repetitivo.
O cenário permanece inalterado quase o tempo todo, ainda existe a plateia programada pra rir a qualquer piada, fazendo com que o show se pareça com seus congêneres dos anos 1970. O estereótipo da bicha velha afetada e podre empurra Vicious ainda mais pra trás temporalmente.
A efeminação exagerada do casal nem me incomodou, afinal, é típico da comédia exagerar na representação, caricaturando tipos. Nem considero Vicious homofóbico – pelo menos não intencionalmente, embora permita tal leitura – até porque Sirs Ian McKellen e Derek Jacobi são gays.
Os atores parecem se divertir em cena, mas mal consegui sorrir. Em 2013, ainda há graça em mangas de casaco arrancadas ou pés ficando presos sob mesas? E o que dizer das piadas fossilizadas a partir mesmo do primeiro episódio? Não demora pra percebermos os truques baratos dos diálogos supostamente engraçados. Exemplo: a partir da terceira piada aprendemos que se alguém deixa uma situação em aberto pra alguma ação ou réplica, elas virão em sentido contrário. Tão divertido e instigante como enxugar louça.
McKellen e Jacobi – 2 instituições das artes cênicas britânicas – devem estar desesperados pra garantir os fundos necessários pruma aposentadoria luxuosa ou relutam em abandonar o protagonismo. Só isso explica o aceite pra participar dessa bomba. Fosse eu vicious como Stuart e Freddie, escreveria que estão no estágio inicial de senilidade e começam a perder o senso do ridículo.  
Pra não dizer que sou azedo, curti a música de abertura, regravação oitentista de Never Can Say Goodbye, dos Communards, na voz de Jimmy Somerville, tentativa inglesa branquela de soar como o divo disco Sylvester.
E ri uma vez, sim, apenas uma risada em 6 episódios. Embora também totalmente previsível, o voice over de Judi Dench, vivendo ela mesma ao telefone, foi impagável.
Nem uma noite de insônia me fará perder tempo com a segunda temporada.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ALBINISMO NA COLÔMBIA

Nossa vizinha Colômbia também tem seu projeto fotográfico envolvendo pessoas com albinismo. Invisibles - como é apropriadamente chamado - reúne imagens de pessoas com albinismo da capital Bogotá e arredores. São imagens lindas, que podem ser conferidas neste endereço:
http://www.revistatrendy.co/archives/1940

CAIXA DE MÚSICA 112


Pra leigos, qualquer dance pós-anos 80 parece ser techno ; tem batida eletrônica, pronto, techno! Não é assim, há trocentas divisões, algumas polêmicas até pra iniciados, quem dirá pra nós diletantes. Pra conhecer melhor um desses estilos, a house music, cuja vertente acid estourou no fim dos anos 80 numa Inglaterra em preparação pra chutar o traseiro da Dama de Ferro, vi as 3 partes de Pump Up the Volume (2001), que achei num arquivo só, legendado em português.  
A parte 1 vai de 77 a 85. A house music nasceu da disco music. Subterrâneo em seu nascedouro e desenvolvimento, a disco foi obra basicamente de negros, gays, latinos. Quando o mainstream heteronormativo caucasiano tomou o controle do gênero com os Travoltas, Bee Gees e Hooked On Classics (argh, Beethoven em versão disco!) o movimento tornou-se global, mas seu declínio foi tão instantâneo quanto sua ascensão. Por mais que eu concorde que o ódio dos grupos antidisco tinha ranço homofóbico e racista, não dá pra desconsiderar que a moda encheu; até versão disco de musical da Broadway apareceu, minha santa Donna Summer!
Fora dos holofotes da mídia, que na aurora dos 80’s paparicava a New Wave, o escurinho das casas de dançar continuava pulsando e atraindo público alternativo, sempre GLS, décadas antes de a expressão ser cunhada.
A house music – o punk da dance eletrônica – nasceu na geograficamente insular Chicago, que, segundo um amigo nova-iorquino que ama a Cidade do Vento, é “New York without the attitude”. Lá, DJs começaram a se tornar famosos como estrelas pop, atraindo multidões aos clubes onde discotecavam, misturando ritmos, fazendo estripulias com grooves e riffs, misturando, repetindo, sobrepondo e apresentado toneladas de coisas novas à garotada dançante.


Não demorou pra DJs começarem a produzir suas próprias faixas, como Jesse Saunders, que em 1984, lançou On and On, o primeiro house. O nome do estilo vem da danceteria Warehouse. O clube tocava as canções e a moçada ia às seletas lojas de discos que vendiam as pouco conhecidas faixas tocada lá, pedindo “aquela música que toca na Warehouse”. Com o tempo, passaram a falar apenas house e estava batizado o estilo de música eletrônica pra dançar com vocais esparsos, longa duração e bastante repetitiva – não dá pra desconsiderar a combinação com os alucinógenos nas pistas.
A acessibilidade da tecnologia cada vez mais barata e o amor pela música fizeram com que um bando de não-músicos começasse a fazer colagens e bolinar grooves. Numa dessas fuçadas com uma linha de baixo nasceu a acid house. Naquela altura, diversas grandes cidades norte-americanas já tinham sua cena house e mais aquele produto musical ianque estava prestes a ser exportado pra Europa, onde conquistaria milhões e sairia do subterrâneo no verão do amor inglês.
Já resenhei documentário sobre o tórrido Summer of Love da acid house inglesa, em 1988, o qual recomendo leitura, aqui. A segunda parte de Pump Up the Volume – lembram-se do Technotronic? – conta a invasão das Ilhas Britânicas pela house de Chicago e pelo Techno, de Detroit. Exato, Techno vem d’outra cidade norte-americana, é mais ou menos o mesmo de outra história e merecerá outro documentário, quando achá-lo.
Algumas casas noturnas londrinas hétero-orientadas não aceitaram, de início, a “música de boiola” vinda de Chicago – ainda mais que havia tantos negros envolvidos, né? O acid house, com seus pianinhos, tendência de ter diva/divo  esgoelando, pegou mal com os bofes ingleses. Mas, quando o Hacienda, em Manchester começou a ter sua noite house bombada e elementos do estilo começaram a ecoar no rádio e na TV, a Inglaterra se rendeu às raves e ao acid house, claro que em sua maioria diluído em acessibilidade radiofônica, mas não se pode diminuir a importância do movimento.


Notável como as tais “revoluções” culturais tornam-se tradição assim que triunfam. Em 1977, Paul Weller e seu The Jam eram bastiões da fúria punk contra a caretice de Rod Stewart – ou pelo menos, assim eram marketados. 10 anos depois, disfarçado de yuppie esquerdista no Style Council (amo demais, não se enganem!), é acusado de aproveitador, por seu cover de Promised Land, que impediu o original house de ser notado nas paradas.
A apropriação britânica da dance eletrônica foi tão eficaz quanto o ocorrido com o punk. O Reino Unido pegou o jeitinho a jato e artistas de lá desenvolveram e criaram sub-gêneros a ponto de tomarem  o centro da ribalta dos inventores norte-americanos. Os anos 90 na dance e electronica foram ingleses.
Isso é o que mostra a terceira prestação de Pump Up the Volume. Já em 89, o trucão italiano Black Box violara as paradas inglesas ficando em primeiro por semanas. Na ilha de Elizabeth, os gêneros importados dos EUA misturar-se-iam com tudo o que lhe era posto na frente. Os Happy Mondays descobriram o ecstasy e levaram o house pro público roqueiro; o Orb misturou-o com New Age e resultou no ambient house; o Leftfield trouxe John Lydon pro estúdio. Drum’n’bass (até música do Chico Buarque já foi gravada nessa vertente pela uma vez famosa Fernanda Porto), garage, progressive, jungle, estão cartografados no documentário, que, claro, não dá conta de tudo que acontecia no começo do milênio. Imagine o quanto não rolou nessa década transcorrida!
DJs passaram de reprodutores a produtores de álbuns e faixas. De U2 a Tori Amos, todo mundo é remixado por DJs e versões dance são lançadas como lados B ou em singles separados.
A multidão de entrevistados de Pump Up the Volume – ainda que adote o tom deslumbrado típico desses documentários laudatórios – engloba gente relevante de todos os períodos abordados, nos 2 lados do Atlântico.
Mesmo que você ache muito dos sub-gêneros chatos, longos e repetitivos, porque pensados pra serem tocados em clubes e dançados, imagino que Pump Up the Volume seja indispensável pra qualquer interessado, afinal, a moçada de Chicago mudou a história da música popular jovem, dá pra negar?

domingo, 8 de dezembro de 2013

A SUPERAÇÃO DE DANI

A atleta deu a volta por cima e retornou à seleção, após sofrer um AVCI

sábado, 7 de dezembro de 2013

ALBINO GOURMET 118

Receitas refrescantes pra esse verão tórrido.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

LANA ALBINA III

Caiu na rede o curta-metragem da cantora Lana Del Rey, onde o modelo albino Shaun Ross aparece bastante. 
Tropico tem 27 minutos e celebra os temas favoritos de Lana, álcool, tabaco, sexo, jogo, vida bandida, anos 50, Elvis, John Wayne, Los Angeles, enfim, Americana. Conservador, se eu disser reacionário podem brigar mais ainda comigo, com aparência de revoltado e moderno, Tropico não apresenta canções novas.
Veja antes que o You Tube tire do ar:

ALBINAS QUE VÃO Á LUTA

O jornal inglês The Telegraph publicou longa matéria sobre experiências de 3 mulheres com albinismo. Traduzi para que as informações possam ser mais difundidas e aproveitadas. 
Three albino women speak out about their lives and their condition

Porque Albinos são Incompreendidos: 3 mulheres Soltam o Verbo

Como é nascer com albinismo? Clover Stroud falou com 3 mulheres a respeito da condição, que pode ser fisicamente debilitante, psicologicamente traumática, mas também ferozmente empoderadora.

Clover Stroud
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)

Bianca Knowlton-Johnson descreve-se como extremamente loira. Seu cabelo é branco e sua pele é branca como leite. Ela perdeu a conta do número de vezes que atraiu olhares hostis ou foi chamada de apelidos como “fantasma” ou “leite”, para citar apenas os mais “simpáticos”. Ela é uma das cerca de 3.000 pessoas com albinismo do Reino Unido.
O albinismo é causado por um gene recessivo, que tem que ser carregado por ambos os progenitores para ser transmitido à criança. Se os pais portam o gene, há uma chance em 4 em cada gravidez de que o bebê terá albinismo e então não produzirá quantidades normais de melanina.
Existem vários tipos de albinismo, sendo que o mais comum é o albinismo óculo-cutâneo (OCA), que afeta a cor dos olhos, da pele e do cabelo. O albinismo ocular é menos radical, porque afeta principalmente os olhos, mas nem sempre a pigmentação da pele e do cabelo. Astigmatismo e nistagmo – quando os olhos não ficam parados – são comuns também.    
Cegueira e outros problemas visuais, assim como propensão a se queimar com a luz solar, são desafios físicos, mas as pessoas com albinismo (PCAs) também enfrentam os desafios psicológicos de terem aparência diferente. Graças a Hollywood, que se compraz com o mito de que as PCAs são esquisitos mágicos – pense em The Matrix Reloaded, Código da Vinci e mesmo em Javier Bardem, em Skyfall -, é sua distinção visual que pode compor os desafios práticos de ser uma PCA.
Knowlton Johnson é legalmente cega e usa um aparelho de mão que projeta palavras em uma tela. Luzes forte a incomodam, por isso, trabalha em um computador com fundo negro e letras brancas e gosta de meia-luz. “Mas, é uma excelente desculpa para comprar uma TV gigante”, graceja. “Meu pai morre de inveja”.  
O albinismo não a segurou. Ela conseguiu altas notas em desenho gráfico e arte, apesar dos desafios que representam para deficientes visuais. Era ginasta até machucar o joelho e viaja bastante, tendo passado diversos meses na Austrália. “Bloqueador solaar ajuda muito. Por que eu perderia férias tão boas?”
Sua aparência não-convencional nunca atrapalhou para arrumar namorado. “Meu pai gostaria que tivesse”, ri. Ela celebrará seu quarto aniversário de casamento em abril. Filhos sao uma posssibilidade, mas não até que seu lado profissional esteja mais estabilizado. 
“Sou prova viva de que você pode nascer com albinismo total e ainda assim levar vida normal”, gaba-se. O albinismo de Knowlton Johnson pode, de fato, ser a coisa menos relevante sobre ela.  
Entretanto, seu nascimento 30 anos atrás, foi um choque para os pais, Mike e Carin. “Naquele tempo, as pessoas não sabiam o que era albinismo. Um médico escavou seus arquivos e colocou meus pais em contato com uma PCA nascida 20 anos antes”, conta Knowlton Johnson, cujos pais haviam escolhido chamar Bianca (branca), antes de nascer.  
A determinação de seus pais para que a menina levasse  vida normal fez com que ela nunca se visse como diferente de seus irmãos. “Papai diz que me levava como se fosse uma corda de bungee jump, isto é, ele podia me soltar, mas tinha como me trazer de volta. Resultou que, quando adulta, eu não me tornasse dependente deles.” Aprender a se deslocar pelo mundo a despeito do impedimento visual é o primeiro desafio das PCAs. Quando sugeriram que Bianca frequentasse uma escola especial, os pais de  Knowlton Johnson lutaram para que ela estudasse em escola regular, onde uma monitora lhe foi designada. O bullying começou no secundário. Os professores davam-lhe apoio, mas alguns alunos eram menos generosos. Sua bolsa foi jogada em uma poça d’água, ela era empurrada e seu cabelo puxado. 
“Lidar com o albinismo foi realmente difícil, mas eu não era a única a enfrentar o bullying. Todo adolescente é ansioso acerca de sua aparência. ‘Ele gosta de mim? Sou bonita? O meu cabelo é legal’? Eu não era diferente.”
A adolescência foi a “hora da virada”. “Teria sido fácil ser pisada, por isso, eu sabia que teria que aceitar todas as consequências de ser albina. Aceitei o fato de ser quem sou; se não gosta de mim, caia fora.” Knowlton Johnson e sua família são totalmente positivos a respeito de sua condição.
“Tivemos toda a ajuda disponível, mas queríamos que ela se virasse sozinha”, explica o pai. “Albinismo não é uma sentença de morte”. Ele crê que a tenacidade e a ausência de autopiedade da filha são traços que muitas PCAs compartilham.
Ela é pouco comum, contudo, por usar o termo “albino”. ”Não usá-lo, reforça o ponto de ser diferente. Mas, não me vejo desse modo. Não tenho problemas em dizer ‘sou albina’. Com raras exceções o termo não tem sido dirigido a mim de forma depreciativa, embora saiba que outros tiveram experiências distintas.”
Rosaleen Dempsey, 33, tem a mesma determinação de Bianca, mas prefere evitar o termo: “não gosto do modo como geralmente precede um insulto”. Dempsey é de  Belfast, onde é gerente da divisão da infância e juventude do Royal National Institute of Blind People (RNIB), da Irlanda do Norte.
Também é membro da Albinism Fellowship, fundada em 1979, para divulgar o albinismo. Com 500 associados, a associação promove conferências e eventos sociais. Informações sobre albinismo são geralmente difíceis de se encontrar, então, a organização é muito importante para as famílias de bebês recentemente diagnosticados.
A associação também trabalha para dirimir o estigma que cerca a condição. “A mídia está saturada de estereótipos negativos e incorretos, perpetuando a ideia de que o albinismo é esquisito. Isso é particularmente verdadeiro em Hollywood,” reclama Robin Spinks, presidente da Albinism Fellowship, que frequentemente recebe pedidos de agências de modelos e produtoras, os quais em sua maioria são recusados. “Não adiantam nada, pois perpetuam a ideia de que há algo de ‘estranho ‘ sobre a condição. E isso é especialmente duro para as crianças.”
Em partes da África, especialmente na região sub-saariana, ser albino é uma ameaça à vida, porque feiticeiros visam seus corpos. Surpreende pouco, por isso, que exista resistência com relação à palavra ‘albino’, ainda que a premiada ciclista Aileen McGlynn e os irmãos David e Adam Knott – particpantes britânicos das Paraolimpíadas de Londres – estejam ajudando a contra-atacar isso.   
“Um de meus sonhos é ver uma PCA em um papel comum na TV, em que a cor de seu cabelo ou pele não seja visto como algo excepcional”, admite Spinks. Em 2008, Darnell Swallow, uma PCA, participou do Big Brother, mas Spinks não acha que tenha ajudado muito. “Ainda estava implícita a ideia de que o albinismo é estranho. Viver com albinismo significa superar impedimentos visuais, uma propensão para se queimar e lidar com ser diferente. Fora isso, porém, PCAs são absolutamente normais em tudo o mais.”
A determinação de levar vida normal motivou Dempsey em sua fase escolar. “Eu tinha uma professora-monitora na escola, coisa muito difícil para uma adolescente, porque a última coisa que queremos é um adulto em cima. Lidei com isso, estudando bastante a fim de ganhar sua confiança e depender menos de sua ajuda. Aos 14 anos, fui praticar esqui e isso foi muito bom para minha autoconfiança. Também me juntei a um coral; a música sempre foi muito importante em minha vida.”
Ela doutorou-se na universidade de Cork e mesmo tendo amado o desafio de uma nova cidade, não escapou ao bullying. “Comecei a vê-lo sob a perspectiva de que se refere à ignorância das pessoas e não como algo negativo sobre mim. Mas, essa é a razão pela qual não aprecio a palavra 'albino’. Você tem que criar uma couraça grossa e por isso aa associação é tão importante. Quando os encontros acontecem, é enternecedor ver criancinhas reconhecendo outras com a mesma condição.”
Quando Gemma Sherry era criança, crescendo com albinismo em Edimburgo, seus pais eram membros da Albinism Felllowship. Ela só se tornaria membro ativo depois de adulta. “Tive sorte de ter pais que me apoiaram e faziam-me sentir que podia fazer tudo o que quisesse”, diz Sherry, 28, que trabalha como supervisora e gerente no hotel Hilton, em Edimburgo.
Ela tem vida social ativa e gosta de praticar rapel e de escalar rochas, então sua adolescência foi movimentada. “Quando tinha 20 anos, decidi participar de um encontro de famílias organizado pela Albinism Felllowship. Foi emocionante e senti que aquela era realmente minha turma. Fiz amizades que duram até hoje e saí de lá me sentindo muito pra cima.”
O albinismo não impediu Sherry de fazer nada do que tivesse vontade. “Amo meu trabalho e viajar. Adoro ir à praia, porque gosto muito de nadar. Sair da águam é meio difícil, porque quando volto para a praia demora um bocadinho para eu me reorientar, devido à visão; mas, não é o fim do mundo. Às vezes, ouço piadinhas, mas de modo geral as pessoas se interessam positivamente em saber porque meu cabelo é tão claro. Talvez seja mais fácil para as mulheres com albinismo, pois ter cabelo claro é valorizado.”
Knowlton Johnson participou de um filme sobre beleza natural e Dempsey adora se maquiar e se sentir bonita, como qualquer pessoa. “Prefiro maquiagem com base rosada e tinjo minhas pestanas e sobrancelhas desde que eu tinha 16. Meu rosto fica mais definido.”
Avanços tecnológicos tornam mais fáceis conviver com os desafios práticos impostos pelo albinismo. Robin Spinks é o principal diretor de acessibilidade digital da RNIB, maximizando o modo como produtos como smartphones podem tornar vidas mais fáceis. “A tecnologia transformou minha vida. Uso aplicativos para superar barreiras, a câmera como lente de aumento ou acesso informações sobre chegadas e partidas, quando viajo,” ele conta.
Ele já trabalhou no Caribe, América, África e Ásia, para uma ONG, colaborando com organizações que ajudam pessoas com deficiência. “Tecnologia faz toda a diferença, reduzindo a ansiedade nas viagens e possibilitando vida independente. Não posso mudar o fato de que minha aparência é diferente, mas as ferramentas que auxiliam a viver tornam esse desafio menos difícil.”
Como Sherry, Dempsey e Knowlton Johnson, Spinks aceitou quem é, encarando sua condição como parte integral do que ele é. “Aos 39, não há mais momentos  quando desejo ser diferente. Sempre pensei em como seria se não tivesse albinismo, mas agora não me imagino vivendo sem. Ele me fez ser aberto e curioso e me ensinou a viver a vida compreendendo as diferenças. Você pode se esconder ou aprender a celebrar sua diferença e usá-la para aprender mais sobre a vida.”
Knowlton Johnson diz que gostaria de corrigir sua visão, mas não mudaria mais nada. “Não vejo o albinismo como deficiência. Fico feliz em ser uma loirona para sempre” A maior frustração não é ser diferente ou a ignorância das pessoas, mas, não poder dirigir. “O albinismo não afetou minha vida social ou afugentou namorados, e tenho um emprego do qual gosto. Penso que muitos de nós somos realmente determinados a sermos realmente independentes e provar que podemos fazer coisas como qualquer pessoa,” diz Sherry. “A única coisa que não faço é dirigir e isso me irrita. Usar transporte público está bem, mas eu gostaria de participar de um rally. Se não tivesse cabelo e pele claros eu seria estranha, já fazem parte de mim.”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

FURO

Piercing na língua é capaz de controlar cadeira de rodas

Cientistas nos Estados Unidos descobriram uma forma de fazer com que pessoas possam controlar cadeiras de rodas e computadores usando um piercing na língua.
A descoberta pode ajudar a dar mais independência a pessoas com paralisia. O movimento de um pequeno ímã dentro de um piercing é detectado por sensores e convertido em impulsos eletrônicos, que podem controlar uma série de aparelhos.
A equipe de cientistas disse que está explorando a "destreza incrível" da língua. A pesquisa foi publicada na revista científica "Science Translational Medicine".
A equipe da Georgia Institute of Technology percebeu que, devido à grande flexibilidade da língua, um piercing no órgão pode servir para propósitos bem mais ambiciosos do que o meramente decorativo.
Uma grande parte do cérebro é usada para controlar a língua, que tem mecanismos bastante sofisticados usados na fala. Essas partes ficam intactas mesmo em casos de lesão na espinha dorsal, que provocam a paralisia.
"Estamos investigando as capacidades inerentes da língua, que é uma parte tão incrível do corpo', disse o pesquisador Maysam Ghovanloo à BBC.
Precisão
O piercing do tamanho de um feijão produz um campo magnético que muda quando a língua se movimenta. Sensores colocados na bochecha conseguem detectar a posição precisa do piercing.
Em testes feitos com 23 pessoas sem qualquer tipo de paralisia e 11 tetraplégicos, seis posições diferentes dentro da boca foram programadas para mover uma cadeira de rodas elétrica ou controlar um computador. Por exemplo, quando a língua tocava o lado esquerdo da bochecha, a cadeira se mexia para a esquerda.
Em média, as pessoas tetraplégicas conseguiam desempenhar tarefas até três vezes mais rápido e com o mesmo nível de precisão, em comparação com outras tecnologias disponíveis hoje.
Os pesquisadores querem desenvolver comandos colocados em cada um dos dentes da boca, possibilitando a criação de um número "ilimitado" de instruções, permitindo que tetraplégicos possam discar um número de telefone, mudar um canal de televisão ou até mesmo digitar uma mensagem. "As pessoas serão capazes de fazer mais coisas e de forma mais eficiente", diz Ghovanloo.
Ele disse que algumas pessoas mais idosas se recusaram a participar da experiência por terem restrições ao uso de um piercing na língua, mas que os mais jovens acharam a experiência "muito legal".
Os aparelhos testados estão disponíveis somente nos laboratórios. A equipe está estudando formas de aumentar a estabilidade da tecnologia, para conseguir aprová-la junto às autoridades americanas. Isso abriria a possibilidade de se comercializar a descoberta.
O diretor da instituição de pesquisas Spinal Research, Mark Bacon, disse que o objetivo principal da ciência deve continuar sendo a busca por formas de regenerar a espinha dorsal, mas que pessoas tetraplégicas podem se beneficiar muito com a tecnologia criada no laboratório.
"A língua é capaz de comandos tão sofisticados usados na fala que não existe motivo para não se usar esta versatilidade de movimento para controlar aparelhos de forma discreta."
Ele faz a ressalva de que é importante desenvolver mecanismos que protejam as pessoas de acidentes, quando a língua estiver sendo usada para atividades como comer, falar e engolir.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

POLÊMICA PEDAGÓGICA

Educação inclusiva ainda é assunto polêmico no Brasil

O Plano Nacional de Educação (PNE) brasileiro prevê a inclusão de crianças com necessidades especiais em escolas regulares, mas a medida ainda é controversa no país quando se comemora o 16º Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, promovido pelas Nações Unidas (3/12). A polarização fica entre governo, apoiado por defensores da inclusão, e entidades que defendem a permanência de dois sistemas de ensino: o regular e o especial.
Para vários críticos que preferem a manutenção dos dois sistemas, a decisão da melhor escola para essas crianças cabe somente aos pais.
"Temos alunos com graves comprometimentos, principalmente com deficiência intelectual e múltipla, e para eles a escola especial é a única que possibilita realmente o acesso à educação com qualidade", afirma Fabiana Maria das Graças de Oliveira, coordenadora pedagógica da Federação Nacional das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes).
Convenção internacional
A educação inclusiva ganhou importância na agenda do governo federal em 2008, depois de o Brasil assinar a Convenção da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Desde então, o país determinou medidas para a inclusão de alunos com necessidades especiais no ensino regular.
Segundo o Ministério da Educação (MEC), em 2012, 76% das crianças com necessidades especiais em idade escolar estão matriculadas no ensino regular, representando um crescimento de mais que o triplo em relação a 2003, quando as matrículas somavam 28%.
Para Maria Teresa Eglér Mantoan, pedagoga da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a inclusão não significa a extinção das escolas especiais, mas uma reformulação na forma de ação e na percepção dessas instituições. Segundo Mantoan, em vez de substituir a escola regular, a inclusão passa a complementar e apoiar o ensino regular na formação de alunos com necessidades especiais.
"A educação especial não substitui mais o ensino comum para pessoas com deficiência e com superdotação. Essa mudança foi substancial, pois antes existia um sistema paralelo de ensino para o qual iam as crianças, até mesmo sem deficiência, para ter uma educação substitutiva", defende Mantoan.
Barreiras a serem vencidas
Apesar das políticas brasileiras nessa área serem consideradas das mais avançadas do mundo, ainda há muitos desafios a serem superados. Oliveira afirma que muitas escolas regulares ainda não estão preparadas para receber alunos com necessidades especiais, principalmente quando se trata da formação dos docentes.
Segundo dados do MEC, 98.801 escolas receberam matrículas de alunos especiais em 2012, mas apenas 27.931 colégios incluíam acessibilidade nos projetos arquitetônicos. Para Mantoan, ainda há uma resistência por parte do sistema de ensino regular à inclusão.
"Por incrível que pareça, a inclusão acontece em termos de políticas e fundamentos na educação especial, mas na educação comum ainda não foi instituída uma política verdadeiramente inclusiva", afirma a especialista.
Inclusão educacional no mundo
A discussão da educação inclusiva não é nova, mas em 2006, com a adoção da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que destaca a educação inclusiva como direito de todos, ela passou a fazer parte dos debates políticos. "Todos os países têm iniciativa de educação inclusiva e estão investindo nesse sistema de ensino. O Brasil está tão avançado nessa área como alguns países desenvolvidos", afirma Rosangela Berman Bieler, diretora do setor que trata de Deficiência do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
A especialista cita os Estados Unidos como exemplo em educação inclusiva, incentivada há mais de 40 anos naquele país. Porém, a Itália foi uma das únicas nações que adotou de maneira radical esse modelo, determinando de uma vez o fim do sistema especial e modificando-o para integrá-lo na escola regular. Mas, segundo Bieler, na maioria dos países a adaptação para a educação inclusiva está ocorrendo bem devagar, como na Alemanha.
"Hoje o melhor modelo é que essas escolas especiais, que teoricamente têm o conhecimento da educação especial, se transformem em centros de recursos para apoiar o ensino inclusivo em todas as escolas que estão na sua região, com professores itinerantes e materiais pedagógicos", afirma Bieler, reforçando que esse apoio é fundamental para o sucesso e a qualidade da inclusão.
Acabar com preconceitos
Vários especialistas acreditam que a inclusão educacional é a melhor maneira de acabar com o preconceito e que ela beneficia toda a sociedade. "Com pouco esforço do corpo docente, as crianças com deficiência intelectual vão estar integradas na sociedade e as outras crianças vão crescer dentro de um ambiente entendendo o que é inclusão e diversidade", afirma Bieler.
Para Mantoan, a inclusão é um direito de todos. "Se hoje estamos brigando por causa da inclusão é porque nós não tivemos na nossa vida pessoas com deficiência convivendo conosco desde a infância. Algumas pessoas pensam que existem diferentes, aqueles que não são iguais a nós, e isso é o que faz esse grupo ser colocado à parte. Mas o que existe é a diferença de todos nós e não o diferente de nós", diz Mantoan.

IBSEN, BISAVÔ DO CINE-CATÁSTROFE

Roberto Rillo Bíscaro

A Espanha tem satisfeito grã parte de minha sede de Henrik Ibsen. Vi 2 adaptações de Casa de Bonecas e agora uma d’Um Inimigo do Povo, escrita em 1882, após os escândalos de Nora e dos sifilíticos Alvings.   
O norueguês escreveu radical e questionável apologia ao individualismo, ambientada num pequeno balneário do país escandinavo.
O Dr. Stockmann descobre que as terapêuticas águas responsáveis pelo sustento da comunidade estão contaminadas e que pra resolver o problema muito tempo e dinheiro serão gastos. Temendo a bancarrota, os próceres locais – auxiliados pela imprensa “independente e liberal” que no começo apoiara o médico – desacreditam Stockmann, transformando-o em inimigo público.
A contundente crítica ibseniana à volatilidade/ maleabilidade da opinião pública e à obtusidade da maioria moral, facilmente manipulável, porque mesquinha, não deixa de descambar prum discurso pequeno-burguês de desprezo pelas “massas” (nos termos do texto em espanhol), especialmente quando o Dr. Stockmann afirma que a culpa por toda a situação era do sufrágio universal. Só não fica claro quem seriam e como seriam eleitos os excelsos tomadores de decisão. Ainda bem que o dramaturgo não poupa as classes abastadas das acusações de torpeza, mas a postura de Stockmann – embora compreensivelmente irritado com a achincalhação – trai certo esnobismo senhorial numa época em que monarquias europeias concediam cada vez mais direitos e liberdades às “massas”, que se organizavam e/ou revoltavam continentalmente. A conclusão do cientista de que sozinhos somos verdadeiramente poderosos, malgrado ratifique a posição burguesa, está aberta a inúmeros ataques, claro está.
O excelente texto de Ibsen exerceu influência superlativa no século que se seguiu a sua publicação e primeira encenação, em 1883. Os cinéfilos certamente reconhecerão a figura do desacreditado lutando sozinho contra um coletivo no popular cine-catástrofe, dos anos 1970. Nessa modalidade de cine, a vontade/verdade individual era recompensada com a punição da comunidade, devorada por tubarões ou piranhas, soterrada por avalanches; punida por não escutar as advertências de seu membro mais esperto e desinteressado de aspectos “meramente” econômicos.
Um Enemigo del Pueblo peca por não apresentar certa tonalidade cômica, requerida pelo exagero situacional amargamente engendrado pelo dramaturgo. Mas, as atuações estão muito boas e se você entende espanhol, seria bom ver. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

PODEM

O Portal Terra fez matéria sobre albinismo hoje. O "blog que trata sobre o tema", mencionado e linkado na matéria é o Albino Incoerente.
Afrodescentes e indígenas podem ter albinismo?

O albinismo é uma condição genética que se caracteriza pela falta de melanina no corpo. Sem ela, os indivíduos apresentam pele extremamente branca e olhos e cabelos claros. Mesmo assim, você sabia que afrodescendentes podem ser albinos? Na verdade, a maior prevalência do albinismo ocorre justamente no continente africano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Essa condição, que pode provocar problemas na pele e deficiência visual, afeta todas as etnias - e até animais e plantas. Mundialmente, estima-se que haja um albino para cada 17 mil pessoas. A prevalência dos diferentes tipos de albinismo varia conforme a população. De acordo com estatísticas de 2006 da OMS, dados de África do Sul, Zimbábue, Tanzânia e Nigéria mostram prevalências tão altas quanto um caso para cada 1 mil habitantes em populações selecionadas. No geral, a prevalência se situa entre um caso a cada 5 mil pessoas e um caso a cada 15 mil pessoas.
Na África, muitos indivíduos com essa condição são alvo de violência por preconceito. Em alguns países, o albinismo é tido como um símbolo de sorte. Em outros, como uma maldição. Na Tanzânia, de 2000 a 2013, houve 72 assassinatos de albinos, segundo relatório das Nações Unidas de setembro deste ano. E, na Tanzânia, existe uma das maiores incidências de albinos no planeta. Um estudo da organização Hats on for Skin Health ("De chapéu pela saúde da pele", em português), da Liga Internacional das Sociedades de Dermatologia, estima que haja 30 mil albinos naquele país, um em cada 1.429 pessoas.


Brasil
No País, Marcus Maia, coordenador do Programa Nacional de Controle do Câncer da Pele, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), estima que existam entre 10 e 12 mil albinos, embora não haja estatísticas oficiais. Ele é idealizador do Pró-Albino, um projeto-piloto de assistência e tratamento de albinos.
Atualmente, o programa atende 98 pessoas na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. A ideia é que o projeto seja estendido aos 74 serviços credenciados da (SBD). Segundo Maia, a viabilização do projeto pode ocorrer ainda neste ano, como um “presente de Natal”.
“Antes, nós, dermatologistas, só tínhamos contato com albinos já com câncer de pele ou situações avançadas. Por que esperar que eles viessem? Resolvemos fazer o contrário”, conta Maia.

De 98 albinos atendidos hoje na Santa Casa, 20 são crianças. “Os pais ficam perdidos”, revela o dermatologista. Ali eles ganham orientações sobre cuidados necessários, fazem exames e podem obter mais informações sobre a condição de seus filhos.
Muitas dessas famílias são afrodescendentes, o que pode provocar alguma dificuldade de adaptação. Um casal de pele negra pode ter um filho albino, por exemplo, resultado da combinação de genes recessivos. “Às vezes, um albino numa família negra pode ter problemas para se adequar. Se a família não entende, temos que orientar sobre cuidados, trabalhos ao ar livre, o sol, a necessidade de suplementação de vitamina D”. Para quem tem dúvida, Maia é taxativo: “Albino não é para pegar sol”.
Mas não são apenas cuidados com a pele que são necessários. Muitos albinos apresentam visão subnormal, com menos de 30% da capacidade regular. Por isso, o Pró-Albino oferece auxílio oftalmológico completo, com acompanhamento, tratamento e exames.​

Tipos de albinismo
Há dois tipos principais de albinismo oculocutâneo, o tirosinase negativo (1) e o positivo (2). A condição pode ainda ser apenas ocular ou parcial, em algumas partes do corpo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o albinismo oculocutâneo, no qual todo o corpo é afetado, compreende um grupo de condições genéticas com uma herança autossômica recessiva. É caracterizado pela hipopigmentação da pele, do cabelo e dos olhos devido à pequena ou ausência da produção de melanina.
Ensaio
No início de 2009, o fotógrafo Gustavo Lacerda teve uma ideia que lhe renderia diversos prêmios e reconhecimento internacional. "Sempre me interessei por fotografar quem quase nunca é fotografado", conta o mineiro, bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais. "A beleza fora dos padrões dos albinos já me chamava a atenção há alguns anos e decidi tentar convencer algumas dessas pessoas a se deixarem ser fotografadas. A primeira fase do projeto foi de pesquisa sobre albinismo. Queria compreender um pouco mais antes de começar a fotografar".
Não foi uma empreitada fácil. Depois de estudar o assunto, ele tinha que localizar os albinos e ainda convencê-los a participar. “Embora não haja estatísticas oficiais, eles são pouquíssimos e, como geralmente são pessoas tímidas e que se sentem excluídas, raramente são percebidos pelas ruas”. Com auxílio de um blog que trata sobre o tema, Lacerda encontrou leitores dispostos a encarar sua câmera. Com o boca a boca gerado, a iniciativa se popularizou, amealhou prêmios nacionais e internacionais e levou o fotógrafo a passar quatro anos registrando albinos em diferentes regiões do Brasil. Atualmente, ele edita material para um livro sobre o tema, que deverá ser lançado em 2014.
Populações isoladas
No ano passado, Lacerda viajou para a Ilha dos Lençóis, no Maranhão, um pequeno e afastado lugarejo conhecido pela alta densidade de habitantes albinos. “Nesses casos, de populações isoladas, pode ocorrer um número alto de relações consanguíneas”, explica Marcus Maia. Ou seja, regiões isoladas podem apresentar maior número de casamentos entre indivíduos de parentesco próximo ou não muito distante. Com isso, caso haja alelos de albinismo na população, é maior a probabilidade de cruzamento entre pessoas portadoras desses alelos, o que resultaria em um número maior de filhos albinos.
É também o caso de índios guaranis e caigangues que habitam reservas no norte do Rio Grande do Sul. O isolamento da comunidade no Estado contribui para essa situação, de acordo com Francisco Salzano, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que estudou o albinismo no norte do RS. Em uma população indígena de aproximadamente 13,5 mil pessoas, existem cerca de 55 casos de albinismo, um índice que ronda um caso a cada 250 indivíduos, conforme dados da Fundação Nacional da Saúde (Funasa).
Por desconhecimento e preconceito, alguns grupos isolados no mundo apresentam a tendência de eliminar indivíduos com albinismo. De acordo com a Fundação Nacional do Índio, porém, essa prática não foi detectada em nenhuma reserva indígena do estado. Atualmente, com verba da Funasa, a comunidade conta com suprimento de filtro solar e óculos anuais, consultas periódicas com oftalmologistas em Passo Fundo e exames pré-natais entre as gestantes.
VIDA LONGE DA LUZ
Isolamento social contribui para a disseminação do albinismo entre população de índios caingangues no Rio Grande do Sul, uma herança genética que os afasta do sol

* Carlos Dominguez
Onório é albino. Está sempre de boné e usa filtro solar fator 50. Foge do sol que lhe abre feridas doloridas na testa, bochecha, pescoço e lombo. A cada 20 mil pessoas que nascem no mundo, uma é albina e está condenada geneticamente a viver longe do sol. A doença não escolhe raça e se prolifera mais em grupos isolados que vivem em comunidades pequenas. É o caso dos índios caingangues que habitam reservas no Norte do Rio Grande do Sul. O distanciamento da população branca faz com que, entre uma população indígena de 13.448 índios, existam 54 casos de albinismo, o que significa um índice de um caso para cada 249 pessoas. Um número alto que abriga a história de jovens como Onório de Moura, 20 anos, figura bem conhecida na área indígena de Serrinha, reserva vizinha ao município de Engenho Velho, a 150 quilômetros de Passo Fundo.
Filho de pai e mãe caingangue que ostentam a cor de cuia característica da etnia, Onório possui uma anomalia genética exótica entre as 120 famílias de índios que vivem no local. A condição é caracterizada pela ausência de melanina, pigmento negro encontrado no corpo, como na pele e nos pelos. Para o rapaz, o principal problema é a visão comprometida. Segundo o oftalmologista Leonardo Fasolo, de Passo Fundo, o albinismo pode provocar alterações na mácula, região mais nobre do olho, responsável por fazer o foco da imagem na retina. "Se existe má-formação, não há o que fazer. Os óculos corrigem o grau, mas o albino sempre vai ter dificuldade de focalizar as imagens, principalmente se for ao sol", conta Fasolo.
Onório não é diferente. Tem de trocar de óculos todos os anos. Mas o jovem é persistente. É um aluno dedicado – está no 2º ano do ensino médio –, embora tenha sido reprovado no último ano. Ele estuda na Escola Estadual de Ensino Médio Floriano Peixoto, em Engenho Velho. "Estou lutando. Tenho dificuldade de ler. Mas penso em fazer faculdade. Dizem que agora tem vaga para índio", diz o jovem, referindo-se à política de cotas para estudantes de descendência indígena nas universidades federais.
A diretora do colégio, Susete Trombetta Alba, 41 anos, diz que Onório vai muito bem nos estudos, apesar do problema de visão. "Fazemos provas aumentadas para ele. Fora isso, não tem nenhuma diferença para os outros alunos. Ele se sente bem na escola e participa das atividades, não se isola", explica.
Na família de Onório – formada pelo pai, Antônio Isaías de Moura, pela mãe, Vicentina, e pelos nove filhos – há mais duas adolescentes albinas: as irmãs Marisete, 15 anos, e Rosileia, 12 anos. Apesar de frequentarem escolas e receberem do governo federal assistência em saúde e alimentos, a possibilidade de deixar a vida fechada ao grupo social indígena é pequena. Isso acaba provocando casamentos entre parentes, o que leva ao aumento dos casos. "Uma prima minha, lá de Nonoai, também era albina. Deve ser por isso que me nasceram filhos assim. Agora têm de sempre cuidar com o sol. E os médicos me falaram que eles vão ficar por aí. Eles falaram que é para ser assim", argumenta Moura.
O pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Francisco Salzano é um especialista na composição genética do povo gaúcho. Salzano estudou casos de albinismo no Norte do Estado. Ele considera que o número de albinos indígenas gaúchos é relativamente alto e atribui esta tendência à vida isolada na reserva. "A maior frequência de casos é de quem está em comunidades isoladas onde ocorrem casamentos relacionados, como primos. Como não há nenhum tabu cultural dentro da comunidade caingangue quanto ao albino, ele vive e se relaciona com aquele grupo social", afirma Salzano.
O coordenador estadual da Funasa, Geraldo Mello, não concorda. Para ele, o número não é significativo. "O índice de aparecimento de casos de albinismo entre os indígenas do Rio Grande do Sul não é maior do que em outras comunidades brancas, levando em consideração que são grupos mais fechados. Não é um caso endêmico. Não é diferente da comunidade branca", garante.
O isolamento dentro dos 11.950 hectares da reserva da Serrinha é uma realidade para Onório. Apesar de frequentar a escola, o contato social se dá majoritariamente com caingangues. Mas nem por isso o jovem deixa de adotar hábitos não tradicionais. Recentemente pintou os cabelos de vermelho e desfilou a cabeça colorida pela pequena Engenho Velho. Longe do sol, é claro.

TELINHA QUENTE 101


Roberto Rillo Bíscaro

Depois duma primeira temporada magnífica, uma segunda errática e uma terceira triste, Downton Abbey voltou com 8 episódios, componentes de sua quarta vinda. Pedestre adjetiva bem essa temporada.
A chocante saída de personagem fundamental no moroso especial natalino do ano passado (o deste ano será mais alegre e movimentado, informam os produtores) pôs os aristocráticos Crawleys e seus associados e empregados em situação complicada. Em nível ficcional, como administrar Downton Abbey nos cambiantes anos 20, quando os trens já não mais esperavam pelos lordes, caso esses se atrasassem? Em nível real, como manter o interesse pela série sem uma metade do par romântico principal?
Famosa e querida por interlaçar vidas e dramas de patrões e empregados, Downton Abbey também perdeu uma serviçal que fazia a trama no andar de baixo ficar mais saborosa. Como viver sem as perfídias de O’Brien? A condição social reduz bastante o poder de ação dessas personagens, mas as maquinações da mucama entretinham.
Resultado de tantas perdas e tantos personagens foi uma temporada onde tudo se diluiu perigosamente. A opção pela concisão no número de episódios por temporada, aliada à necessidade de pelo menos fingir que todas as personagens atuam começou a pesar em Downton Abbey. Muito chique, com algumas tiradas que fazem sorrir, mas no fritar dos ovos, um blá blá blá tão superficial quanto as conversas dos Crawleys e seus convidados à mesa do jantar e que pode resultar mais inconsequente caso os produtores não tirem o time de campo enquanto estão por cima, como fizeram os de Lark Rise to Candleford ou Forbrydelsen.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

CAIXA DE MÚSICA 111


Roberto Riolo Bíscaro

O punk nasceu em Nova York, mas foi o cenário britânico que se tornou referência mundial pelos adereços como alfinetes e cabelos moicanos, além da cusparada febril e feroz de bandas como os Sex Pistols, The Clash, The Damned e tantas outras. Qualquer fã que se preze dos grupos britânicos dos anos 80 deveria conhecer um pouco da história da punk music, afinal, de Smiths a Bananarama, de U2 a Culture Club, todos foram influenciados pelo levante de 1977. 
Mesmo conhecendo algo sobre o assunto, assisti às 3 partes do documentário Punk Britannia (2012), encontráveis no You Tube, sem legendas. Queria aprender mais, especialmente com a parcela primeira, que cartografa os anos pré-punk, de 72 a 76.
O cenário é velho conhecido: Inglaterra enfrentando década dura, repleta de greves e apagões, constatando finalmente que sua fase imperial era história. juventude desempregada, entediada, com sistema educacional arcaico. A geração roqueira de fins dos anos 60, que prometera revolucionar, frequentava festas do grand monde e se pavoneava em megaestádios e/ou produzia álbuns requintados, onde a diversão e simplicidade do rock and roll passavam longe.
Nos pubs londrinos surgia uma reação. Bandas voltavam-se pro blues, bluegrasss e os primórdios do rock dos anos 50 e início dos 60. Essa cena barulhenta e visceral ganhou o nome de pub rock. Semeava-se a semente da rusticidade e rouquidão de uns 4 anos adiante.
Uma geração ainda mais jovem adicionou a rebeldia gutural e travestida dos ianques New York Dolls, da provocação glam de Marc Bolan e mesmo do camaleão David Bowie - que pra muitos não deixava de representar o estatuto do superastro distante de sua plateia – e começou a fazer sua própria moda e música, independentemente de perícia. A cultura do “Faça Você Mesmo” (Do It Yourself, D.I.Y) nascia e explodiria.
Esses movimentos juvenis necessitam dum catalizador, o qual estava à mão, na figura de Malcolm McLaren, que com sua loja Sex, queria chocar, ser notado, causar. Esperto, o empresário percebeu de imediato o potencial avassalador dos desafinados e maus músicos dos Sex Pistols, especialmente a figura carismática e o olhar de ódio do vocalista John Lydon aka Johnny Rotten. A glória de ter lançado o primeiro compacto punk coube ao The Damned, mas quando os Pistols entraram nos estúdios da EMI (movimento rebelde, gravando álbum de estreia em grande corporação? Prato cheio pra discussões e acusações que cortariam décadas...), em 1976, pra gravar Never Mind The Bollocks, deflagrariam uma sublevação musical que varreria os 5 continentes. 

A segunda parte do documentário da BBC é a mais refinada analiticamente. Descreve os anos de 77-8, epicentro do “movimento” punk, compreendendo o lançamento do álbum dos Pistols e a dissolução da banda, cansada da manipulação classe-média de Malcolm McLaren. Aí estava uma das várias contradições da rebelião: The Clash, Sex Pistols, The Damned não tinham ligação estreita com a classe trabalhadora, e isso faz diferença danada na classista Inglaterra, vide a rivalidade Oasis/Blur, 2 décadas depois.
O surgimento de bandas falando diretamente sobre e pra garotada dos impessoais conjuntos habitacionais foi ato contínuo, indo desde gente politicamente do bem como Paul Weller, líder do The Jam até a fascista ligação de boa parcela moicana com movimentos de extrema direita, racistas e homofóbicos.
Não se pode falar dum movimento punk. Centrado numa atitude que apadrinhava e incentivava o individualismo, os punks espalhavam-se em grupos violentamente rivais. O documentário não fala, mas é bom lembrar que a tão apregoada “revolução” punk/pós-punk nem chegou a fazer cócegas de perigo à eleição da neoliberal Margareth Thatcher.
Isso não significa que os Pistols e a invasão das roupas, penteados e adereços extravagantes nas ruas londrinas não tenham causado comoção. Quando Johnny Rotten disparou um “fuck” num programa de entrevistas, o incêndio punk espalhou-se pelo Reino Unido e a imprensa caiu de pau. Como qualquer publicidade parece ser boa, a atitude dos Pistols realmente motivou uma avalanche de novos artistas, agora livres da necessidade de serem exímios instrumentistas.
A ideologia musical retrô do pré-punk e do seu estouro no biênio 77-8, porém, colocavam outra contradição irreconciliável: como ser o futuro (mas, um dos hinos dos Pistols não repete a frase “no future” insistentemente?) da música, utilizando apenas 3 acordes e voltando-se pro rock dos anos 50?
Quando Johnny Rotten se deu conta de tantas encruzilhadas, encheu o saco e disse adeus aos Sex Pistols no palco. O tórrido verão de 77 – interessante pensar que o estouro da acid house na década seguinte também se deu num verão escaldante – passou e com ele o frescor do punk também. O The Clash assinou com gravadora gigante, o Jam começava a singrar por mares mod e gente como Siouxsie Sioux e Jim Kerr sofisticava sua sonoridade. Aí reside a importância do estilhaçamento punk. Essa eclosão de forças criativas criaria cenário cultural mais caleidoscópico, atitudinalmente individualista, onde nichos se formariam e sub-gêneros eram criados a cada hora.

A Terceira parte foi a de que mais gostei, porque mapeou a abertura do gargalo punk pra entrada de influências milhares, como reggae, ska, electronica (leia aqui como o synth pop é filhote inesperado do punk), pop e o escambau. Falando sobre o pós-punk, o programa narra o nascedouro de minha amada década de 1980.
Egresso dos Pistols, Johnny Rotten voltou a ser John Lydon e formou o P.I.L (Public Image Limited), que lançou álbuns fundamentais, incorporou ritmos e tonalidades, deu diversos lugares-ccomuns sônicos aos anos 80 e nunca perdeu seu caráter de confronto.
A lúgubre e decaída Manchester presenteou o planeta com um mártir pós-punk, o suicida Ian Curtis, da Joy Division, que também influenciaria gerações. O programa não esquece bandas como a lírica Durutti Column e o anárquico The Fall.
Anarquismo, tendências marxistas e uma profunda desconfiança e falta de vontade de se tornar estrelas pop endinheiradas marcaram uma geração de bandas influentes como Gang of Four, Orange Juice e Wire. Quando topavam se apresentar no Top of the Pops, por exemplo, partiam do princípio de que necessitavam marcar espaço, propagar sua ideologia.
Em meio ao modismo punk, bandas até legais como o The Police e grandes artistas como Elvis Costelo foram vendidos como pós-punk ou sua versão mais palatável e universitária, a New Wave. Mas, eles eram outra coisa. Não os desprezo como alguns artistas no documentário – pelo contrário -, mas justiça seja feita. O lance do Sting era fazer dinheiro e se tornar pop star.
Imperdoável a omissão do The Cure; não entendo porque fazem isso com Robert Smith. O cara é um ególatra ditador, mas os primeiros discos da banda são muito importantes!

domingo, 1 de dezembro de 2013

CESTA DA SUPERAÇÃO

Cadeirantes se destacam no basquete e mostram exemplo de superação: