quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

IBSEN, BISAVÔ DO CINE-CATÁSTROFE

A Espanha tem satisfeito grã parte de minha sede de Henrik Ibsen. Vi 2 adaptações de Casa de Bonecas e agora uma d’Um Inimigo do Povo, escrita em 1882, após os escândalos de Nora e dos sifilíticos Alvings.   
O norueguês escreveu radical e questionável apologia ao individualismo, ambientada num pequeno balneário do país escandinavo.
O Dr. Stockmann descobre que as terapêuticas águas responsáveis pelo sustento da comunidade estão contaminadas e que pra resolver o problema muito tempo e dinheiro serão gastos. Temendo a bancarrota, os próceres locais – auxiliados pela imprensa “independente e liberal” que no começo apoiara o médico – desacreditam Stockmann, transformando-o em inimigo público.
A contundente crítica ibseniana à volatilidade/ maleabilidade da opinião pública e à obtusidade da maioria moral, facilmente manipulável, porque mesquinha, não deixa de descambar prum discurso pequeno-burguês de desprezo pelas “massas” (nos termos do texto em espanhol), especialmente quando o Dr. Stockmann afirma que a culpa por toda a situação era do sufrágio universal. Só não fica claro quem seriam e como seriam eleitos os excelsos tomadores de decisão. Ainda bem que o dramaturgo não poupa as classes abastadas das acusações de torpeza, mas a postura de Stockmann – embora compreensivelmente irritado com a achincalhação – trai certo esnobismo senhorial numa época em que monarquias europeias concediam cada vez mais direitos e liberdades às “massas”, que se organizavam e/ou revoltavam continentalmente. A conclusão do cientista de que sozinhos somos verdadeiramente poderosos, malgrado ratifique a posição burguesa, está aberta a inúmeros ataques, claro está.
O excelente texto de Ibsen exerceu influência superlativa no século que se seguiu a sua publicação e primeira encenação, em 1883. Os cinéfilos certamente reconhecerão a figura do desacreditado lutando sozinho contra um coletivo no popular cine-catástrofe, dos anos 1970. Nessa modalidade de cine, a vontade/verdade individual era recompensada com a punição da comunidade, devorada por tubarões ou piranhas, soterrada por avalanches; punida por não escutar as advertências de seu membro mais esperto e desinteressado de aspectos “meramente” econômicos.
Um Enemigo del Pueblo peca por não apresentar certa tonalidade cômica, requerida pelo exagero situacional amargamente engendrado pelo dramaturgo. Mas, as atuações estão muito boas e se você entende espanhol, seria bom ver. 

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