


Gostaram das fotos acima? Elas foram tiradas pelo fotógrafo Gustavo Lacerda, em seu estúdio, em São Paulo. Em 17 de outubro, dia seguinte ao da audiência pública na ALESP.Os leitores mais antigos já leram várias vezes sobre o trabalho que Lacerda vem desenvolvendo desde o primeiro semestre. Não muitas semanas após ter iniciado o blog, ele me contatou contando que tencionava fotografar pessoas com albinismo pra montar um projeto pessoal, que, no futuro, poderia resultar em exposição fotográfica. Achei a idéia excelente porque a beleza albina deve realmente ser valorizada e tal projeto me soou como grande oportunidade pros albinos envolvidos – mas não apenas eles – aumentarem sua auto-estima. Desde então, estamos em contato. O site do estúdio dele, inclusive, faz parte da lista de Territórios Amigos, à direita de sua tela, caro leitor.
Apesar de tantos emails trocados, até então não havia surgido oportunidade de eu participar do projeto. Sequer conhecia Gustavo pessoalmente. Eu já o apresentara online prum grande amigo, que, juntamente com seus filhos, jantou com Lacerda, mas eu mesmo ainda não o vira pessoalmente.
A audiência na ALESP caiu como luva preu poder participar duma sessão. Precisamente pro sábado, Gustavo havia marcado nova sessão com alguns outros albinos. Maravilha, dessa vez eu poderia ir! Acariciaria 2 coelhos com uma mão só!
Sábado de manhã, por volta das 10:00, o prof. Sebe e eu chegamos ao estúdio. O professor adorara a experiência com os albinos na ALESP e decidira ficar em SP mais um pouco pra comparecer à sessão de fotos, conversar com as pessoas, ver como ocorria a interação entre os albinos, afinal, haveria pelo menos uma meia dúzia de albinos juntos e isso é raríssimo de acontecer, especialmente porque não temos ainda movimento organizado por aqui. Além disso, Sebe representa a universidade e isso pra nós é importante. Somos invisíveis também na academia, por isso, se conseguirmos despertar a atenção de pesquisadores, nossas experiências e reivindicações ganharão novas vias de divulgação. Quando ele contou que iria comigo, adorei a oportunidade de passarmos mais algumas horas juntos e também tinha certeza de que os albinos o “fisgariam” de vez. Afinal, como resistir à nossa simpatia (E MODÉSTIA!)? Acho que ele não resistiu mesmo (risadinha de “albino perverso”...).
Miguel Naufel, o simpático mocoquense, já estava lá pra sessão. Aos poucos, foram chegando mais albinos e até uma equipe de TV (ainda não poso dar detalhes, mas vem coisa por aí, aguardem!). No total, 8 albinos seriam fotografados: um casal de irmãos, um casal de esposos, uma garotinha de 2 anos, o rapper Gaspar, Miguel e eu.
Não sei se Gustavo realmente faz idéia do bem que este projeto está fazendo pros albinos envolvidos. O benefício começa pelo fato de propiciar oportunidade pra que os albinos se encontrem. Temos muita necessidade de compartilhar nossas experiências, de trocar informações sobre estratégias de sobrevivência, de contar histórias que serão plenamente entendidas pelo interlocutor. Enfim, trata-se de necessidade grupal de encontrar uma identidade comum, creio. Um dos partícipes me mandou email dizendo que saiu da sessão sentindo-se mais forte, mais conectado no mundo.
Também é marcante o fato de servirmos como modelos em estúdio profissional, clicados por alguém acostumado a fotos com moda e publicidade, mundos que valorizam outro tipo de beleza. Acostumados a ter nossa aparência desvalorizada, foi ótimo ter sido maquiado e produzido pras fotos. Descobri os albinos muito vaidosos, por sinal. Ótimo isso! Se a gente não se gosta primeiro, difícil gostarem de nós. Parece clichê, mas aprendi isso na prática e garanto que funciona.
Eu, particularmente, amei bancar o modelo fotográfico! Gustavo fez uma luz que não afetou nossa fotofobia e deixa a gente bem confortável com suas indicações do que quer que façamos. Mas, deixa muito espaço pra criatividade. Marinheiro de primeira viagem, estava algo nervoso no início; aquela coisa de sentir os braços sobrando, sabe? Essa tensão com a câmara, todavia, interessa muito a Gustavo, acho que porque pode captar momentos e expressões mais espontâneas. Aos poucos, fui me soltando e as poses foram ficando mais fáceis. Sabe aquela coisa? Eu sempre chamo a atenção por ode passo, muita gente olha. Então, eu meio que assumi isso perante a câmera. Ah é, querem olhar? Então olhem só quanta pose! Deu pra entender?
Todo mundo experimentando roupas, dando entrevista, rindo, trocando idéias. Albinos e não-albinos numa boa, sem encarar um ao outro. Foi um dia delicioso ao qual quero agradecer ao Gustavo e aos demais albinos e não-albinos presentes.
(Nada melhor pra ilustrar este post do que a canção The Camera, do Karl Bartos, ex-integrante do seminal grupo eletrônico alemão Kraftwerk.)
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