terça-feira, 22 de maio de 2018

TELINHA QUENTE 310

Roberto Rillo Bíscaro

Tente imaginar versão bossa-nova de God Save the Queen, dos Sex Pistols. Versos como God save the queen/The fascist regime/They made you a moron/A potential H bomb malemolementemente sussurrados e acompanhados por minimalista violão joãogilbertiano. Não dá, né? É algo desse quilate o desastre em câmera lenta e som baixo da minissérie francesa Le Chalet (2017), que a Netflix incorporou a seu catálogo bem discretamente. Dessa vez há que agradecer a fortuidade: diminui a chance da meia dúzia de capítulos entediarem em escala viral.
Numa aldeia propositalmente isolada por um acidente (única cena legal de todo o show), pessoas indistinguíveis umas das outras são eliminadas e aos poucos descobrimos o segredo do passado que deflagra o massacre. Provavelmente por timidez orçamentária, a TV francesa (a Netrlix deveria se envergonhar de chamar isso de ’série original’) pegou conteúdo slasher e formatou-o como drama interpretado por atores que anunciam que alguém está morto como se dissessem que vão à vendinha da esquina comprar duzentos gramas de provolone.
Slasher precisa gerar suspense, mesmo que inflacionado, e ter mortes legais. Le Chalet não tem nada: numa das mortes, a guria tropeça, cai pra trás e bate o coco numa pedra; parece fan video dalguma franquia slasher de sucesso. A música de abertura é ótima, voz de criancinha cantando canção de ninar que fala em massacre. Mas, a trilha incidental causa tanto suspense, quanto a versão bossa-nova dos Pistols causaria.
Além de toda a sensaboria e canastrice, Le Chalet ainda dá trabalho mental pra separar o que se passa no presente e o que ocorreu, que explicará o ocorrente. Portanto, quem quiser investir tempo nisso, já se sinta avisado. E preparado pra descobrir quem são os assassinos lá pelo terceiro capítulo. Mas isso não ajuda muito, porque não sabemos qual(is) do grupo é/são e nem se está(ão) lá. Mérito pra minissérie que poderia ter sido muito legal caso tivesse injeção de capital pra adrenaliná-la.
Francamente, a tal “linda aldeia nas montanhas” não foi a mesma que vi, mas um monte de casa de madeira no meio do mato. Qualquer produção nórdica tem florestas muito mais sensacionais e séries francesas como Le Mystère du Lac (2016) são ambientadas em locais que dão de dez.
Sem qualquer traço redentor, aguentei Le Chalet até o fim, porque sou viciado em slasher e já havia visto Scream e Slasher, do catálogo netflixiano. Por que a Netflix não usa melhor o dinheiro de minha mensalidade e compra direitos de séries francesas decentes, como Missions ou Lanester?

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