sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

PAPIRO VIRTUAL 28


Terminada a série Lark Rise to Candleford, deu vontade de ler a trilogia de Flora Thompson, lançada entre 1939-45. Encomendei uma edição bem antiga – com capa dura e páginas bem lisas e fininhas – em um portal de sebos online e devorei Lark Rise, o primeiro livro.
Conta-se que a narrativa é baseada na infância aldeã da autora, na década de 1880. Gostar de recordar os anos oitenta é ponto de intersecção entre Thompson e eu; a diferença é que vivemos em 80’s de séculos distintos.
Lark Rise não é romance na acepção de obra com personagem central em volta da qual transcorre a narração ou as ações. Antes, é uma grande crônica reminiscente dum período que marcava os últimos instantes dum modo de vida. Os grandes personagens são a aldeia e, principalmente, a passagem do tempo e a mutação ou extinção de costumes campesinos, transformados, finalmente, depois de décadas da Revolução industrial.
Os habitantes de Lark Rise são – em sua maioria – trabalhadores rurais assalariados, que vivem vida mais dura do que quando possuíam suas próprias terras, antes dos Enclosures, que acabaram com as terras comuns, privatizando o campo britânico. Mas, os habitantes da aldeia preferiam ser assalariados a terem que morar em alguma fazenda e terem que votar ou freqüentar a igreja pra agradar os donos/patrões.
Pelo menos, eles ainda tinham suas hortas, seu porco pra extrair seu próprio toucinho. Tudo isso seria logo esquecido, porém, com a invasão dos bens de consumo, a migração pras grandes cidades ou pro exterior ou com a adoção de “novas tradições”. Pros que conhecem a ideia da tradição inventada do culto à Realeza inglesa, o capítulo que narra a súbita devoção dos aldeões à Victoria – depois de anos sem quase não lhe darem bola – é precioso.
Flora Thompson não esconde a dureza da vida campestre e a pobreza da população, embora por vezes caia no discurso do “tempo em que as pessoas eram felizes com pouco”. Embora criticável, tal conduta torna a escrita mais humana, no sentido de mostrar as armadilhas da memória reminiscente. Quantos de nós não idealizamos um passado sem a intrusão de tanta parafernália digital, mas não abrimos mão de nossos celulares com acesso à internet?
Muitas vezes, me vieram à lembrança as descrições de minha mãe sobre sua infância no campo. Alguns dos costumes descritos por Thompson são semelhantes aos que Dona Néia experienciou nos anos 1930, no interior do estado de São Paulo. E sempre é a mesma história: “naquela época a comida não tinha tanta porcariada, a gente vivia sem preocupações” etc. Pra dali a 5 minutos admitir que a vida com máquina de lavar e micro-ondas é bem melhor! 
A leitura de Lark Rise é deliciosa e fascinante pela habilidade da escritora em descrever cores, cheiros, texturas e paisagens. Comidas, cantigas, roupas e hábitos materializam-se em nossa frente, tudo isso sem idealizar os aldeões. Se por um lado, ajudavam os doentes, por outro, não gostavam quando alguém prosperava e eram bisbilhoteiros e cabeças-duras. Nada daquele campo sem suor, rivalidades, estupidez ou falta de roupa e comida. Mas, também, nada de descrever os habitantes como “gente simples”, rude e ignorante.
Bem diferente da adaptação pra TV (não que eu cobre fidelidade...)!

2 comentários:

  1. Caro Roberto,
    Só agora conheci esta série e estou terminando de ver.
    Como vc, tive vontade de ler os livros. Mas só acho em inglês.
    Vc encontrou em português? Se sim,poderia me dizer qual é a editora, para que eu possa procurar nos sebos?
    abraço

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  2. oi Ludi,
    li a trilogia em inglês. Comprei a edição em um sebo online, bem barato, diga-se de passagem.

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