quarta-feira, 6 de julho de 2011

O CASAL SINO-DINAMARQUÊS QUE ME CONQUISTOU

Há quem diga que a Dinamarca é monótona, com tudo organizado demais e reprimido. Virou clichê repetir sobre as altas taxas de suicídio escandinavo. Fato ou boato, a vida do encanador Keld encaixa-se nessas assunções. Ex-enxadrista, encontramos o homem de meia-idade desmotivado pro trabalho e sendo chutado pela esposa, que, ao deixá-lo, afirma que o matrimônio havia sido um “funeral”.
Esse é o ponto de partida de Kinamand (2005), filme danês que conquistou meu coração, a despeito da manipulação e de certo tom ainda "metropolitano" do roteiro.
Assim que a patroa o abandona, o deprimido Keld passa a jantar no restaurante chinês do outro lado da rua. Tão conformado com a rotina, ele segue o cardápio na ordem numérica. Certa noite, Feng, dono do estabelecimento, pergunta ao dinamarquês se este não desposaria sua irmã a fim de que ela pudesse obter o visto de permanência definitiva. Necessitado de dinheiro pra pagar a ex-esposa, Keld acede e o casório engana-imigração é realizado.
Mesmo separados cultural e linguisticamente, o monossilábico Keld começa a ganhar nova perspectiva vital com a convivência com Ling. A distância entre os 2 é realçada cenicamente com as personagens sendo filmadas em cômodos diferentes no desmobiliado apartamento em Copenhague ou com a chinesa sendo mostrada atrás de portas de vidro.
O roteiro implora pra que simpatizemos e torçamos pela felicidade de Keld. Sua ex e o filho são rascunhos de gente fria, chata e manipulativa. Não temos acesso a falhas de caráter do homem, mas é óbvio que ele tem sua parcela de culpa na ruína do casamento. A família de Ling – embora simpática e honesta – também não ganha contornos mais profundos. Kinamand é centrado no mini-universo de Keld.
Mas, como resistir à atuação de Bjarne Henriksen, que leva o filme nas costas, e à cenas tão cotidianamente comoventes como Ling ensinando-o a comer com hashi, colocando-lhe o alimento na boca e finalmente desistindo e trazendo-lhe um garfo?
Kinamand é quieto, algo lento e predominante filmado em interiores, os ambientes simbolizando o estado emocional das personagens.
Entre amigos, sempre reclamo da duração de filmes: muitos me parecem compridos demais. Kinamand (Homem Chinês, em dinamarquês), pelo contrário, poderia ser mais longo, pra, quem sabe, desenvolver algumas partes do roteiro.   
Mesmo ciente dos atalhos comprometedores da trama, não hesitei e torci adoidado pra Kled e Ling serem felizes. Eles mereciam. Mas, será que a vida é meritocrática? Isso você só saberá vendo o filme.
        

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