domingo, 14 de agosto de 2016

A SUPERAÇÃO DA JUDOCA RAFAELA SILVA

Rafaela Silva é a melhor do mundo
(matéria publicada em agosto de 2013, na ISTOÉ 2016)
Michel Alecrim
Na parte interna do braço direito, a judoca Rafaela Silva tatuou a seguinte frase: “Só Deus sabe quanto eu sofri e o que fiz para chegar até aqui”. Os atletas gostam de dizer que passaram o diabo para alcançar o topo – a maioria passou mesmo –, mas para Rafaela o desabafo cravado na pele não poderia ser mais apropriado. Ela cresceu na Cidade de Deus, favela na zona oeste carioca que teve sua dura realidade exposta pelo escritor Paulo Lins, e viu muita coisa ruim acontecer. Sorte que a violência da comunidade jamais chegou dentro de casa. O pai é um motorista dedicado e a mãe ganha a vida numa daquelas mercearias de periferia que vendem de tudo. Rafaela fez a tatuagem depois da desclassificação precoce nas oitavas de final dos Jogos de Londres, no ano passado, derrota especialmente dolorida porque a brasileira estava na lista de favoritas ao título. Disseram, na ocasião, que ela não tinha a frieza necessária para uma competição daquele porte. Que tinha perdido a humildade. Que jamais chegaria ao olimpo das campeãs. Nada disso era verdade. “A eliminação em Londres não me derrubou”, diz Rafaela. “Acho até que fiquei mais forte.”
No final de agosto, em um Maracanãzinho lotado, no Rio, ela se tornou, aos 21 anos, a primeira brasileira campeã mundial do judô. Apesar da espetacular ascensão, Rafaela não abandonou a CDD, sigla usada pelos moradores para se referir à favela. Afinal, é ali que moram seus amigos e parentes. Uma boa justificativa para isso é que a casa dos Silva fica a poucos metros do local onde a judoca treina. Rafaela é uma revelação do Instituto Reação, comandado pelo ex-judoca Flávio Canto, que tem um núcleo na academia Body Planet, de Jacarepaguá, próximo a um dos acessos da comunidade. A casa dela tem três quartos e foi construída pelos pais, que antes moravam de aluguel em outra parte da Cidade de Deus. Por fora, a arquitetura improvisada não difere muito das residências típicas de periferia. Para chegar ao endereço, no alto de uma ladeira, é preciso subir uma escada íngreme sem corrimão. Parte do que a lutadora conquistou pode ser vista na residência, decorada com placas e troféus amealhados por ela. Rafaela foi vice-campeã mundial adulta, em 2011, e campeã do Mundial sub-20, em 2008, entre outras glórias. Com as vitórias, vieram os patrocinadores. Com eles, algum dinheiro.
Rafaela ajudou a família a reformar parte da casa e comprar eletrodomésticos. Além de um som potente e geladeira, se deu ao luxo de adquirir uma segunda máquina de lavar. Na família há outra judoca, a irmã Raquel, 24 anos, que chegou a ser medalhista de prata no Mundial de Lisboa, em 2009. O pai delas, Luiz Carlos do Rosário Silva, 50 anos, lembra com clareza como conheceu o treinador Geraldo Bernardes, em 2000, quando Rafaela tinha 8 anos. Na época, Geraldo estava implantando o judô na academia Body Planet, que só três anos depois se tornaria parceira de Flávio Canto. “Precisava tirar minhas filhas da rua e vi que tinha sido aberto um projeto social aqui perto”, diz Rosário Silva. “Nem imaginava que ela iria um dia competir pelo Brasil.” Apesar de a família não esperar muita coisa do projeto, o técnico Geraldo percebeu de imediato que seria um desperdício não dar atenção especial às irmãs. Rafaela levou vantagem por ter começado a aprender judô mais nova, e uma gravidez aos 15 anos prejudicou a carreira de Raquel. “Vi que a Rafaela tinha a agressividade e a coordenação motora naturais para a luta”, diz o técnico, que comandou a equipe brasileira de judô nos Jogos de Sydney-2000. “Depois descobri que essas habilidades foram adquiridas na rua.”
A desenvoltura era mesmo fruto de uma infância inquieta. Rafaela jogava futebol com os meninos, pulava muro, subia em árvores e soltava pipa. Difícil era segurá-la em casa. Quando tinha 5 anos, já participava das aulas de judô do chamado Clube Escolar, um projeto da Associação de Moradores da Cidade de Deus. No lugar, não havia como aprender direito as técnicas da luta, mas as primeiras lições ajudaram a disciplinar Rafaela. “Na época, ganhei um quimono usado que era maior do que eu.” Não foi só o improviso do projeto da associação que impediu um aprimoramento maior da garota. Àquela altura, a favela era dominada por traficantes e a população vivia refém de bandidos, em constantes tiroteios. Rafaela lembra que, quando tinha guerra do tráfico, ninguém podia treinar. Os dias de terror, felizmente, ficaram para trás. Desde 2009, a comunidade conta com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A violência não foi totalmente varrida dali, mas o policiamento já permite aos moradores exercerem seu direito de ir e vir.
Os avós de Rafaela foram morar na Cidade de Deus no início da década de 1960, depois que a casa em que moravam na favela da Rocinha foi condenada pela Defesa Civil. Na CDD, viram de perto o aumento da violência. . “Aqui já foi um lugar muito estigmatizado”, diz Sérgio Luiz Silva, tio da campeã mundial. “A gente precisava dar outro endereço para conseguir emprego.”
Para o técnico Geraldo Bernardes, não é à toa que tantos talentos do judô desabrochem em comunidades pobres como a Cidade de Deus de Rafaela Silva. Só o instituto de Flávio Canto, com cinco polos voltados para crianças carentes, tem três atletas na seleção principal e seis nas categorias de base. O projeto atende ao todo mil alunos. “A pessoa que já luta pelo seu espaço e pela sobrevivência acaba levando essa garra para o tatame”, diz Bernardes, considerado um segundo pai na vida da judoca.
A garota que soltava pipa nas ruas da Cidade de Deus está na seleção brasileira desde os 13 anos. Aos 15, venceu o Mundial Júnior, mesmo enfrentando atletas três anos mais velhas. Atualmente, Rafaela ocupa o segundo lugar no ranking mundial da categoria para até 57 quilos e sua faixa preta já leva o segundo dan (graduação superior). A judoca também atribui seu sucesso ao acompanhamento psicológico que recebe. Tanto que decidiu estudar psicologia – está no primeiro período do curso no Centro Universitário Celso Lisboa. “Quero ensinar às meninas mais novas o que eu aprendi”, diz. “O equilíbrio mental me ajudou muito.” Se o acompanhamento psicológico auxilia a judoca a se concentrar na hora das lutas, não foi o suficiente para vencer a timidez.
Rafaela é de respostas diretas como seus golpes, mas prefere as frases curtas. Para esta reportagem, ela só descontrai quando brinca com a cachorra Moly, da raça pug, um de seus xodós. Apesar de não perder uma festa dos amigos da academia de judô, não é de se requebrar na pista de dança. “Na balada, a Rafaela sempre fica na dela”, diz o amigo Sérgio Souza, 20 anos. A família dela é majoritariamente evangélica, mas a campeã mundial foi poucas vezes à Igreja Assembleia de Deus Vai Agir, frequentada pelos pais. “Rezo sempre antes de dormir e na hora da luta”, diz a lutadora. A principal preocupação da mãe, Zenilda Lopes da Silva, 42 anos, é com a segurança da filha. Rafaela tem um utilitário esportivo Captiva e faz questão de deixar as amigas em casa depois das festas de madrugada. “Como ela é a única do grupo que não bebe, acaba se responsabilizando pelas outras”, diz Zenilda. Como se não bastasse, Rafaela ainda surfa no mar da Barra da Tijuca, nos fins de semana de sol.
Apesar da energia à toda prova e de, no mundo das aparências, ser uma fortaleza intransponível, Rafaela tem a alma doce e sensível. Depois de derrotar a americana Marti Mallori em menos de um minuto de luta, ela chorou ao vencer o Mundial no Maracanãzinho. Nos Jogos de Londres, também se debulhou em lágrimas ao perder para a húngara Hedvig Karakas. Na interpretação do árbitro, ela deu um golpe irregular ao puxar a perna da adversária. “Vi homens fazerem coisa parecida e não serem eliminados”, diz. “Agora pelo menos evito esse tipo de golpe.” Difícil mesmo foi suportar os comentários racistas feitos por internautas nas redes sociais após a eliminação. A vontade era, claro, de agredir aqueles imbecis, mas ela manteve a compostura, talvez um dos ensinamentos mais valiosos do judô. “A Rafaela sempre foi diferente”, diz Flávio Canto, um de seus mentores. “Em todos os meus anos de judô nunca vi nenhum atleta com a mesma vontade. Ela foi, de longe, a que mais gostava de competir.” As adversárias sempre temeram sua determinação. Aos 12 anos, quando foi disputar um torneio, Rafaela chorou porque nenhuma menina queria lutar contra ela, com medo de enfrentá-la. Forte, destemida, agressiva, teve muitas vezes que treinar com garotos. Ainda hoje, no Instituto Reação, ela enfrenta os homens de igual para igual.
O sucesso da judoca está estimulando novas adesões de crianças e adolescentes ao esporte, principalmente de meninas. “A história dela vai resgatar muitos jovens de comunidades carentes como a que Rafaela vive”, diz Paulo Wanderley Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Judô. “Depois do Mundial, já tivemos uma resposta muito positiva das academias”, afirma Ney Wilson, coordenador técnico da seleção brasileira. Além de Rafaela, o bom desempenho geral do judô feminino tem atraído garotas para um esporte até pouco tempo atrás essencialmente masculino.
A medalha de ouro da piauiense Sarah Menezes em Londres-2012 também surtiu efeitos positivos. “No Instituto Reação, já temos uma média de 35% de meninas nas aulas”, diz Canto. Para Rafaela, a vida mudou depois do Mundial. Nas ruas da Cidade de Deus não dá mais para fazer molecagens sem ser reconhecida. O assédio de clubes interessados em contratá-la também aumentou, mas ela se mantém fiel às origens. “Prefiro continuar no instituto”, diz a campeã mundial “Isso aqui é a minha casa.”

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PAPIRO VIRTUAL 109

Hoje nossa seção de literatura apresenta o trabalho de Luiz Claudio Tonchis, professor e gestor escolar. Trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS e pela Universidade Federal Fluminense (MBA). Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

Além do Tempo

O tempo não “vai”.
O tempo não “vem".
O tempo não “passa”.
Quem passa somos nós,
No tempo.

O que é o tempo?
Se o passado já não existe mais,
O presente passa de repente,
O futuro não é permanente
E só existe o tempo da gente?

O tempo tem fome,
O tempo consome,
O tempo te come.

E, além do tempo,
Só existe o que ficou para sempre.


Prosa em Verso: A palavra delira

Eu quero dizer uma coisa, mas não posso sair dizendo por aí...
E nem adiantaria dizer, pois só palavras não dizem nada...
Palavras são, muitas vezes, signos soltos no vazio.
A palavra não sabe o que diz, sequer sabe que fala...
Ela nada entende, a palavra.
Para o essencial, a melhor palavra é o silêncio.
Aliás, muita coisa só pode ser dita pelo silêncio...
E pelo silêncio pode ser compreendida.
São os ouvidos da alma, é lá
Onde pode ser captada a essência da vida,
É lá, onde pode ser encontrada a verdade, se é que ela existe...
A palavra é louca, a palavra delira!

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

MEMÓRIA SELETIVA

Por que você não se lembra de quando era bebê?

Do momento mais dramático da vida - o dia do seu nascimento - aos primeiros passos, palavras e refeições até o jardim de infância, a maioria de nós não consegue lembrar nada de nossos primeiros anos.
As recordações parecem ser poucas e dispersas até certo momento bem à frente na infância. Por que isso ocorre?
Essa lacuna no registro de nossas vidas intriga psicólogos, neurocientistas e linguistas há décadas. Era até uma pequena obsessão do pai da psicoterapia, Sigmund Freud, que cunhou a expressão "amnésia infantil" há mais de cem anos.
Sondar esse "branco" mental levanta algumas questões intrigantes. Nossas primeiras memórias aconteceram de fato ou foram simplesmente inventadas? Podemos recordar de eventos sem ter as palavras para descrevê-los? E um dia poderá ser possível recuperar memórias perdidas?Parte do quebra-cabeça decorre do fato de bebês serem, de outras maneiras, como esponjas para novas informações, formando 700 novas conexões neurais por segundo e exibindo habilidades para aprender línguas que deixariam qualquer poliglota com inveja. Pesquisas recentes sugerem que eles começam a treinar suas mentes mesmo antes de deixar o útero.
Mas até em adultos a informação se perde no tempo se não há tentativas de recuperá-la. Então, uma possível explicação é que a amnésia infantil seja apenas resultado de um processo natural de esquecer as coisas que vivenciamos ao longo da vida.

Testando os limites da memória

Uma resposta vem do trabalho do psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus, que no século 19 coordenou estudos pioneiros em si mesmo para testar os limites da memória humana.
Para garantir que sua mente estivesse em "branco total" no começo da pesquisa, ele elaborou uma "sílaba absurda" - uma palavra inventada formada por letras aleatórias, como "kag" ou "slans" - e passou a memorizar milhares delas.
A curva de esquecimento dele representa o constrangedor e rápido declínio de nossa habilidade de lembrar as coisas que aprendemos: nossos cérebros descartam metade de todo material novo em uma hora. No 30º dia, retemos cerca de 2% a 3%.
Ebbinghaus descobriu que o modo como esquecemos é totalmente previsível. Para saber se a memória dos bebês é diferente, precisamos apenas comparar os gráficos. Quando cientistas fizeram as contas nos anos 1980, revelaram que retemos muito menos memórias entre o nascimento e os seis ou sete anos do que você esperaria.


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Image captionNossa cultura pode determinar como nossas memórias se formam e se desenvolvem

De forma intrigante, esse véu se levanta mais cedo para alguns do que para outros. Algumas pessoas conseguem recordar eventos de quando tinham apenas 2 anos de idade, enquanto outros não se recordam de nada até os 7 ou 8 anos.

Lembrança e cultura

Em média, imagens fragmentadas aparecem a partir dos três anos e meio. E mais: discrepâncias no ato de esquecer também foram registradas de país para país, e a média do momento das primeiras lembranças pode variar em até dois anos.
Será que isso traz pistas sobre o "apagão" anterior? Para investigar isso, a psicóloga Qi Wang, da Universidade de Cornell (EUA), coletou centenas de lembranças de estudantes universitários chineses e americanos.
Como estereótipos nacionais poderiam prever, as histórias dos americanos foram mais longas, elaboradas e egocêntricas. As histórias chinesas, por outro lado, eram mais curtas e baseadas em fatos; em média, também começavam seis meses antes.
Esse é um padrão confirmado por vários outros estudos. Aqueles com memórias mais detalhadas e autocentradas têm mais facilidade para trazê-las à mente. Acredita-se que uma pitada de egocentrismo seja útil, já que desenvolver a própria perspectiva dá sentido aos fatos.
"É a diferença entre pensar 'Havia tigres no zoológico' e 'Eu vi tigres no zoológico e mesmo sendo assustadores me diverti muito'", explica Robyn Fivush, psicóloga na Universidade de Emory, nos EUA.
Quando Wang repetiu o experimento, mas desta vez questionando as mães das crianças, ela encontrou o mesmo padrão. Em outras palavras, para aqueles com memórias nebulosas: culpem seus pais.
A primeira memória de Wang é caminhar pelas montanhas perto da casa da família em Chongqing, na China, com sua mãe e irmã. Ela tinha cerca de seis anos.
A questão é que, até se mudar para os EUA, ela nunca seria questionada sobre suas lembranças. "Nas culturas ocidentais as lembranças das crianças não são importantes. As pessoas agem na linha 'Por que se importar?', afirma a psicóloga.


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Image captionAlguns psicólogos argumentam que a habilidade de formar memórias vívidas sobre si vem apenas com a capacidade da fala

"Se a sociedade te diz que aquelas memórias são importantes, você se aterá a elas", diz Wang. Quem tem o registro das memórias mais precoces são os maoris da Nova Zelândia, cuja cultura enfatiza fortemente o passado. Muitos conseguem lembrar fatos ocorridos quando tinham apenas dois anos e meio.

Memória e fala

Nossa cultura também pode determinar a maneira como descrevemos nossas lembranças, e alguns psicólogos argumentam que elas só vêm à tona quando dominamos a arte do discurso.
"A linguagem oferece uma estrutura, uma organização para nossas memórias, que é uma narrativa. Ao criar uma história, a experiência se torna mais organizada, e é mais fácil de ser lembrada ao longo do tempo", afirma Fivush.
Parte dos psicólogos, contudo, é descrente quanto ao papel da linguagem. Não há diferença, por exemplo, na idade das primeiras memórias de crianças que nascem surdas e crescem sem aprender a linguagem dos sinais.
Isso conduz à teoria de que não conseguimos lembrar de nossos primeiros anos simplesmente porque nossos cérebros não desenvolveram os recursos necessários. Essa explicação deriva do homem mais famoso na história da neurociência, conhecido apenas como paciente HM.
Após uma operação desastrada para curar sua epilepsia ter danificado seu hipocampo, HM não conseguia lembrar de nenhum evento novo.
"Esse órgão representa o centro da nossa habilidade de aprender e recorder. Se não fosse o hipocampo eu não recordaria desta conversa agora", afirma Jeffrey Fagen, que estuda memória e aprendizado na Universidade de Saint John.
Mas, curiosamente, HM mantinha a capacidade de aprender outros tipos de informação - assim como bebês. Quando pesquisadores pediram que ele copiasse um desenho de uma estrela de cinco pontas olhando para o papel em um espelho (algo mais difícil do que pode parecer), ele aprimorou o traço a cada rodada - apesar de a experiência ter sido completamente nova para ele.


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Image captionNão podemos sempre confiar em nossas primeiras lembranças - elas podem ter sido moldadas por conversas sobre os episódios

Talvez, quando somos muitos novos, o hipocampo não esteja desenvolvido o suficiente para construir uma memória vívida de um episódio.
Bebês ratos, macacos e humanos continuam a adicionar novos neurônios ao hipocampo durante os primeiros anos de vida, e todos nós somos incapazes de formar memórias de longo prazo. "O hipocampo é muito pouco desenvolvido em bebês e crianças", diz Fagen.

Formação da memória

Mas esse hipocampo subdesenvolvido está perdendo nossas memórias antigas ou elas nunca chegaram a se formar?
Como eventos da infância continuam a afetar nosso comportamento bem depois de nos esquecermos deles, alguns psicólogos acreditam que eles devem persistir em algum lugar.
"As lembranças provavelmente estão arquivadas em algum lugar inacessível hoje, mas é muito difícil provar isso na prática", afirma Fagen.
Devemos ser muito cautelosos sobre o que recordamos daquela época - nossa infância provavelmente está cheia de falsas lembranças de eventos que nunca ocorreram.
Elizabeth Loftus, psicóloga na Universidade da Califórnia, dedicou sua carreira ao fenômeno. "As pessoas podem acolher sugestões e começar a visualizá-las - e elas se tornam memórias", diz.

Eventos imaginários

Loftus sabe como isso pode facilmente acontecer. A mãe dela se afogou numa piscina quando ela tinha apenas 16 anos. Anos mais tarde, um parente a convenceu que tinha descoberto o corpo da mãe flutuando.
Todas as lembranças voltaram, até que, uma semana depois, o mesmo parente ligou para dizer que ela tinha entedido errado - se tratava de outra pessoa.
Naturalmente, ninguém gosta de ouvir que suas memórias não são reais. Para convencer os descrentes, Loftus sabia que iria precisar de uma prova cabal. Na década de 1980, ela recrutou voluntários para um estudo e ela mesma criou as memórias.
Loftus divulgou uma versão elaborada sobre uma traumática ida a um shopping center quando eles se perderam, antes de serem resgatados gentilmente por uma idosa e reunidos.
Para tornar a história mais plausível, ela até recorreu às famílias dos participantes. "Basicamente dissemos aos participantes da pesquisa: 'Falamos com sua mãe e ela nos contou coisas que aconteceram com você.'"
Quase um terço das vítimas acreditou na mentira, com alguns aparentemente recordando o evento em detalhes. Na verdade, muitas vezes confiamos mais em memórias imaginárias do que em lembranças do que realmente ocorreu.
Mesmo se suas lembranças forem baseadas em fatos reais, elas provavelmente foram moldadas e repaginadas em retrospectiva - memórias plantadas por conversas em vez de lembranças em primeira pessoa de fatos reais.
Naquele momento você pensou que seria engraçado pintar sua irmã de zebra com pincel atômico? Você viu um vídeo de família. O incrível bolo de aniversário que sua mãe fez quando você completou três anos? Seu irmão mais velho te contou a respeito.
Talvez o maior mistério não seja por que não conseguimos lembrar de nossa infância - mas se podemos acreditar em qualquer uma de nossas memórias.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

EXCLUSÃO ALBINA CONDENADA

Condenada exclusão social das pessoas com albinismo

O conselheiro da Associação de Apoio aos Albinos de Angola (AAAA) condenou ontem, no Uíge, a discriminação e exclusão social contra pessoas albinas. como se estes não possuíssem capacidades físicas, intelectuais para desenvolverem determinadas actividades.

Guilherme Santos que dissertava sobre “O albinismo”, no II Workshop Sobre a Igualdade Social de Pessoas Albinas e Não Albinas, defendeu a necessidade de se salvaguardar a dignidade da pessoa com albinismo, sustentabilizar as acções e projectos em benefício dos mesmos, centrar-se nas causas dos problemas e responder satisfatoriamente às situações que afectam a vida dos albinos. 
Guilherme Santos acrescentou ser importante ajudar na integração da pessoa albina no mercado profissional, de acordo com as suas capacidades físicas, intelectuais e emocionais. O albinismo não afecta a capacidade do individuo, podendo ele ter uma vida totalmente normal, quer no campo pessoal quer seja profissional, disse Guilherme Santos.
“A vida normal e saudável de um albino depende de certos cuidados com a pele e é importante proporciona-los o acesso a recursos ópticos que o ajudam na sua deficiência visual”, explicou Guilherme Santos. O conselheiro da Associação de Apoio aos Albinos de Angola disse que a organização trabalha para encontrar soluções mais eficientes de protecção e defesa dos albinos na sociedade, visto que, referiu, em Angola muitos deles nascem sem pigmentação na pele e nos olhos, o que dificulta a visão, por causa do sol, que também lhes provoca queimaduras ou cancro na pele, causando, assim, a morte prematura dos albinos.
Guilherme Santos apontou alguns mitos, tabus ou preconceitos que provocam a descriminação e exclusão de albinos, o que sugere a implementação de políticas públicas capazes de influenciar positivamente no desenvolvimento intelectual e emocional equilibrado destas pessoas.
“Queremos que este quadro seja invertido. Os albinos enfrentam muitos problemas de integração na sociedade, porque são alvos de preconceitos e maltrates. Há situações de exclusão, descriminação e mortes precoce de albinos”, denunciou.
O presidente da Associação Provincial de Albinos no Uíge, David Paulo Bunga, louvou a iniciativa da Associação Nacional na procura de soluções para a inclusão social dos albinos. 
“O processo de inscrições continua. Aguardamos que os progenitores de pessoas albinas apareçam nas instalações da associação para inscreverem os seus filhos, para que estes estejam protegidos e usufruir dos seus direitos”, alertou.

CONTANDO A VIDA 158

Nas cercanias do Dia dos Pais, nosso historiador-cronista-pai-avô pergunta-se, afinal, quando um homem torna-se pai. Basta ter um filho ou é preciso algo mais?

MAS, QUANDO NASCE O PAI EM UM HOMEM?

José Carlos Sebe Bom Meihy

Foi com essa frase que resolvi pensar na melhor maneira de reverenciar o dia dos pais, aliás passagem toda diz o seguinte: “um homem se torna pai quando seu filho nasce, ao menos é o que a sociedade reconhece. Mas, quando nasce o pai em um homem? Será que esses dois momentos estão juntos?”. Nem sei dizer de onde tirei a citação, apenas lembro-me que tanto ela me tocou que a selecionei para um dia meditar sobre. E o momento chegou. Carregado de emoções...

Tenho repetido que em minha vida há duas datas capitais: o dia dos professores e o dos pais. Por lógico, não saúdo o dia dos professores como se fora celebração profissional, atividade prática de frequentar escola, ou reconhecimento pelo papel dos mestres na formação de seus alunos. Não. Não mesmo. Percebo no dia dos professores o respeito que me dou como tal, como cidadão que vê em sua escolha uma opção de vida repartida na vivência de gerações. Nunca quis ser outra coisa que não professor. Então, o dia dedicado aos mestres me é muito mais do que destaque projetado pelos outros, ou mesmo pelos próprios filhos. É como se me fosse dado um espelho e nele me vise da maneira mais plena, humana e completa e correta. De certa forma, isso se repete quando contemplo meu papel de pai. O dia dos pais, para mim, não é apenas efeméride marcada por um dia no calendário que assinala encontro com o reconhecimento público da data. Nada disso. Outra vez, me olho especularmente no cenário da existência que me é dada e me percebo parte de uma corrente que captura o sagrado que existe no masculino. Falo de transcendência, pois. E há muita poesia nisso. Foi exatamente por esta certeza que mergulhei na frase que questiona o momento do nascimento da paternidade, além do dia do nascimento do primeiro filho. E me pergunto: desde quando resolvi que seria pai? A profundidade evocada como resposta me leva ao infinito de mim mesmo. E adivinho sonhos que se materializaram desde a infância. Como sempre quis ser professor, sempre quis ser pai.

A confidência da anterioridade do feito paterno exige explicações. Tive um pai adorável: alegre, trabalhador incansável, conversador, dono de uma história irresistível, cheio de defeitos que nele eram graça. Ah! como gostava de vê-lo seduzindo fregueses na loja – “O turco do mercado” cantou Renato Teixeira sobre ele – e como suas paixões complementavam aquele personagem que caberia em romances a serem escritos! Certamente, desde pequeno quis roubar-lhe o fogo de ser. Tive que derivar escolhas, porém, e acho que consegui algumas, embora tantas sejam minhas falhas. Sem dúvida, a generosidade foi o dote que mais pretendi reproduzir. E também o amor pelos filhos. Mas não é qualquer amor, desses naturais. Meu pai viveu comigo o amor irrestrito. Rebelde que fui, talvez por isso, ele sustentou os meus arroubos. Todos; inclusive e principalmente, aqueles que iam diretamente contra seus preceitos políticos. Acho que foi exatamente aí que resolvi que queria ser pai. E assim se fez. O nascimento de meus filhos, portanto não me fez pai. Eu já o era muito antes.


A consciência da paternidade lida com muitas coisas e se articula de forma misteriosa à complexidade da vida. Se me perguntassem qual o momento mais pleno dessa experiência, diria sem muito titubear: é perceber meus filhos, pais. Falo, portanto de netos – biológicos ou assumidos – e vejo que a paternidade é virtuosa pelas consequências filtradas no sentir-se pai. Pai, filho, pai: triângulo perfeito de vértices amorosos. Aliás, com isso respondo a segunda parte da frase que serve de mote para reflexão: será que esses dois momentos estão juntos? E com a soberania de quem olha o próprio passado, respondo que não obrigatoriamente. Há pais que nascem pais. Acho que sou desses.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

TELINHA QUENTE 224

Roberto Rillo Bíscaro

Até os anos 70, a Noruega era Europa de segunda classe, nível Grécia. A descoberta de petróleo no Mar do Norte mudou tudo: com níveis de corrupção talvez menores do que em certos países nossos conhecidos, parte substancial da grana foi investida pra subsidiar indústrias auxiliares/complementares à da exploração marítima de petróleo. Assim, o país escandinavo passou a ganhar não apenas com gás e combustível, mas também exportando tecnologia e serviços. O resultado é uma nação com os cofres transbordando.
O escritor de Scandi Noir Jo Nesbø teve uma ideia: o que aconteceria num futuro próximo, caso o Partido Verde assumisse o poder e cessasse a produção de petróleo e gás, deixando a Europa na mão? Essa é a premissa dos 10 capítulos de Okkupert, exibida pela TV norueguesa em outubro passado.
A tecnologia norueguesa encontrara no tório um substituto limpo e renovável pro petróleo. Assim, pra livrar o planeta do caos do superaquecimento, o Primeiro-Ministro Jesper Berg paralisa a exploração petrolífera. A União Europeia retalia apoiando uma invasão russa da Noruega. Os Estados Unidos não intervêm, porque àquela altura já eram autossuficientes na produção de energia.
Okkupert é um thriller político (in)tenso, escuro e cheio de detalhes, mas pra desfrutá-lo, você terá que perdoar/aceitar o absurdo geral da premissa. Imagine que a Noruega pararia a produção/exportação de petróleo/gás sem antes construir a infraestrutura necessária pra substituição pelo tório, até porque ela entupiria mais ainda os cofres de dinheiro. Imagine que os EUA ficariam inertes vendo a Rússia aumentar seu poderio na rica e estratégica Europa.
Se você consegue olvidar isso, Okkupert é de alta qualidade. A riqueza de detalhes certamente será mais percebida se o espectador for escandinófilo e/ou gostar de História. O tório existe mesmo e foi descoberto por um norueguês; os 2 países europeus individualmente citados no complô são França e Suécia, remetendo a metáforas com a 2ª Guerra, quando as 2 nações tiveram governos bem colaboracionistas com os nazistas; a Noruega jamais quis participar da União Europeia (houve referendo em 1972 e a população disse não). Mas não tema, caso você apenas queira uma série que mantenha o interesse: o programa não necessita de notas de rodapé ou padece da chatice de mil explicações.
A estapafurdície da premissa faz com que uma das leituras de Okkupert seja as consequências dum governo inapto/inepto. E olha um certo país que bem conhecemos se aproximando da Noruega! Também faz de Jesper Berg uma personagem algo ridícula, mas Henrik Mestad está incrível, como o resto do elenco multinacional da minissérie mais cara da história norueguesa.
O governo russo protestou contra Okkupert, porque retoma os tempos da Rússia malvada da Guerra Fria. Exatamente, e mesmo com endosso da Europa “democrática” e os EUA traindo bonito, o foco da vileza recai sobre os russos invasores. Nada como ter má fama cuidadosamente construída por décadas e ganhar mais tempo diegético.
Como se vê, há pano pra manga extralonga em Okkupert, mas no fundo, o mais excitante é a história absorvente, o crescendo da presença do inimigo no dia-a-dia da população, a mudança de colaboracionistas por conveniência em resistentes clandestinos e a tensão contínua da dezena de capítulos. 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

FOME SEVERA AGRAVA CAÇA AOS ALBINOS

As pessoas portadoras de albinismo correm cada vez mais perigo no Malawi, devido à falta de alimentos e às crenças de que possuem poderes especiais. Mais de 12 milhões de pessoas enfrentam riscos de insegurança alimentar na África Austral


O testemunho recolhido pelo padre Piergiorgio Gamba, missionário monfortino a trabalhar no Malawi, é revelador da situação dramática por que está a passar parte da população, por causa dos efeitos do fenómeno «El Niño»: «Sempre fomos pobres, mas nunca como este ano vivemos tão mal com falta de comida», relatam os populares ouvidos pelo sacerdote. 


O Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) estima que mais de 12 milhões de pessoas correm risco de fome na África Austral, devido ao aquecimento global. Além do Malawi, os países mais afetados são Angola, Lesoto, Madagáscar, Moçambique, Suazilândia e Zimbábue. 



No Malawi, a grave carência alimentar está a provocar consequências sociais que atingem sobretudo as pessoas portadoras de albinismo. «Se é difícil viver bem a pobreza, a deste ano está a criar situações que nunca tinham acontecido. Por exemplo, a caça aos albinos, porque segundo as crenças de bruxaria, quem possui um pedaço do corpo de um albino se torna imediatamente rico. Houve um caso em que o pai vendeu o seu filho de nove anos por pouco mais de mil euros», contou Gamba à agência Fides. 



O missionário lamentou ainda o agravamento de impostos, que não ajuda em nada as pessoas em situação de mais vulnerabilidade: «O governo acentuou a pressão fiscal e as pessoas pagam imposto até dos cadernos usados nas escolas, cadernos que são divididos em dois para durar mais tempo e ser partilhado com os outros estudantes».

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Roberto Rillo Bíscaro

As areias do tempo cobrem tudo e todos e nem é ruim que seja assim, senão correríamos o risco de estar vivendo em cavernas ainda. Coisas e pessoas têm que ser esquecidas pra que novidades prevaleçam. Como não sou afeito a filosofar, há sentido prático pra esse introito, na verdade, lado negativo do citado. Quando falo que gosto de funk, muitos torcem nariz, fazem cara de pasmo, porque associam com a corrente da Anita, Vanessa Popozuda e um caminhão mais, que desconheço.
Nem discutirei o preconceito embutido nas caras de nojo, porque me pega mais o fato de que criticam sem ter noção de que a vertente nacional é apenas uma, de várias. Em princípio, nada contra ela, até porque, mesmo que nem os jovens funkeiros nacionais ostentadores saibam, a base eletrônica pro som deles vem de meu adorado Kraftwerk (ouçam Numbers e a repetição incessante de Home Computer e depois falamos). Assim, o funk daqui e de agora não é o único e nem é “daqui”: é de Miami, do Rio, da África, da Alemanha.
Egresso dos coloridos 80’s, não deu pra ficar imune ao funk. Não ouvi diretamente clássicos mais “crus”, tipo Sly And The Family Stone ou Parliament, mas vivi o apogeu de Prince, conheci Rose Royce através da regravação de Madonna, sou da geração Nile Rodgers, um dos popificadores-mor do funk e até mesmo o INXS do qual nunca fui fã, tocou muito nas rádios com suas guitarrinhas funk de loira suicida. E quem diria que o gélido Robert Smith soltaria arrasa-quarteirão funkeado, “copiado” de Bowie? Why Can’t I Be You só pode ser descrita eficientemente assim.  
Em meados de julho, descobri lançamento muito legal de funk norte-americano, que percebi seguir linha evolutiva consequente e rica. Por isso, além de prestar atenção ao Con Brio, estudei funk através de 2 documentários, ora partilhados com vocês.

Durante a radicalização do movimento civil pelos negros, nos pantero-negristas anos 70, no front cultural despontava um coletivo que começara a fundir funk com rock e abandonara os terninhos e vestidos comportados dos artistas negros da Motown, que sonhavam em ser brancos. Em torno de George Clinton, O Parliament/Funkadelic mudava o panorama da música popular ocidental, numa alteração sentida desde a presença de guitarras funkeadas em álbuns de rock progressivo já da época, como Remember The Future, do Nektar, até esta semana, que terá algum lançamento sampleando algum artista de P-Funk (o coletivo foi se alentando tanto que gerou sub-subgênero específico).
Pra começar a conhecer essa história, o documentário Parliament-Funkadelic: One Nation Under A Groove (2005) a introduz bem-humoradamente, ainda que careça de contextualizar a moçada no painel dos anos 60/70, um pouco mais consequentemente. Clinton começou numa barbearia, tentou ser bom-moço de terninho estilo Motown, teve até um single de sucesso, mas não teve jeito. Ele nasceu mesmo pra revolucionar, então, em 68 virou hippie, passou a usar roupas doidérrimas, substâncias piradérrimas e a misturar psicodelia cheia de fuzz e reverb com funk. O resto é história e vem numa linha sucessória que passa por Prince, Talking Heads, Snoop Dogg e não daria pra citar tantos. Sem exagero, fica difícil contabilizar o quanto o Parliament-Funkadelic foi sampleado por artistas de rap e hip hop, de tudo quanto é sub-estilo. Até roqueiros empedernidos deviam ver, pra perceber que Iggy Pop e Red Hot Chili Peppers estão nessa também.
Com o nome no Hall da Fama do Rock’n’Roll, parafernália no acervo permanente do Smithsonian, Clinton tem sido fartamente chamado de revolucionário, visionário e o escambau. Em termos musicais até é, mas o documentário também mostra o que acontece quando artistas – que não detêm o controle dos meios de produção e distribuição – acreditam demais na sensação de independência que supõem ter. 
Se você quer panorama ao invés de aprofundar em um artista, compensa ver The Story Of Funk: One Nation Under a Groove (2014), da sempre competente BBC. O Reino Unido foi sacudido pelo funk, desde sempre, haja vista a eclosão do Northern Soul, então não estranha a outrora sisuda TV inglesa dedicar uma hora a contextualizar o funk como parte do movimento pelos direitos civis dos negros. O subtítulo é igual ao do anterior, porque ambos se referem ao clássico álbum do Funkadelic, de 1978.
O programa começa pela decisão de artistas como James Brown de não seguirem o padrão comportado da Motown e radicalizar na sensualidade dos trejeitos, gritos e, claro, na batida malvada que lhe rendeu o epíteto The Godfather Of Soul. Os grandes a partir dele são citados, com suas contribuições. Sly And The Family Stone por terem inventado um jeito de tocar baixo que se tornou marca d’água do funk; George Clinton e seu P-Funk psicodelizado; Earth, Wind and Fire e a popificação do subgênero.
Um dos bônus maiores do documentário é mencionar a influência que o funk teve numa onda cinematográfica nos 70’s – hoje chamada Blacksploitation/Blaxploitation – que levou a negritude orgulhosa dos grandes cabelos e roupas espalhafatosas pras telonas num festival de delícias que incluíram vampiros negros, agentes secretas fatais (Cleopatra Jones, divina, amo super!), tudo embalado pelo slap bass funkeado.
A disco music é um bocadinho demonizada como causadora da derrocada da supremacia funkista. Eita discothéque malvada que matou o prog rock e fez o Kool And The Gang adocicar sua sonoridade! Ora, ora, eles adoraram a grana que ganharam com Joanna e outras popices oitentistas depois que deixaram de fazer funk instrumental pro gueto.  

Engana-se quem pensa que isso faz parte dum passado morto há pelo menos 30 anos. Ainda há diversas bandas funk excursionando e gravando, preservando a vibe primal e falando sobre discriminação, violência urbana e igualdade, como prova de que Obamas e Olivia Popes não significam que a violência racial tenha acabado. E quando é um brasileiro que produz um álbum de música negra norte-americana? Daí, eu não podia deixar de ouvir!
O Con Brio é um septeto da área de São Francisco, que tem chamado a atenção da imprensa musical mais à alternativa, devido a suas muitas apresentações matadoras, com excursões internacionais, inclusive. Multirracial como Sly And The Family Stone e com nome em espanhol – sim, Com Brio! -, o Con Brio estreou em LP em meados de julho, produzido pelo incensado Mário Caldato Jr, o “quarto Beastie Boy”, além de já ter produzido Beck, Blur, Bjork e SeuJorge.
Desnecessário conhecer a história do funk pra desfrutar Paradise, mas um mínimo de sintonia com a tradição do subgênero permite sacar como o grupo e Caldato são expertos. Com identidade própria e brio, ouvimos de Motown à popificação do funk. Paradise abre com a faixa homônima, que funciona como intro e tem segundos que soam como se um jovem Michael Jackson cantasse no Led Zeppelin. Psicodelia guitarreira funkeira, que ressurge em You Think This Is a Game, com vocal falado e experimentação free jazzística nos metais.
Paradise tem seus momentos pop, como a dançante Eagle Eye; a sensual No Limits; e o melzinho de Honey, com seu violão e flautinha fofos, mas quem quer eletrofunk facinho, procure o Tuxedo (e isso não é desmérito). Faixas como Liftoff, ainda que acessíveis, têm aquela crueza deliciosamente cruel do funk, que faz a gente quebrar as cadeiras de tanto querer rebolar. Pausa pra dar gritos à James Brown, pera.
Em Free and Brave, o Con Brio politiza a Motown, envenenando a sonoridade bom-mocista da gravadora com guitarras pra falar sobre desigualdade racial à Martin Luther King. Vibrante, como também a antimonetarista Money. E quem curte visceralidade não resistirá aos quase 6 minutos mid-tempo de Hard Times.
Não há um só funk; não há só ostentação brasuca contemporânea. Há rica tradição e o Con Brio garante sua continuidade. Ouça no Bandcamp:

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

TELONA QUENTE 170



Roberto Rillo Bíscaro

O horror é subgênero que comporta diversos sub-subgêneros, como vampiros, lobisomens, fantasmas, casas mal-assombradas, zumbis, slashers e mais tantos. Um deles é o da cabana no meio da floresta, onde incautos são fustigados por forças que podem ser naturais que se revoltam ou do Tinhoso, cenário mais comum. Fundado no nosso medo ancestral da solidão desprotegida em meio a um mundo (sobre)natural hostil e desconhecido, com criaturas muito mais fortes que nós, indefesos seres humanos, esse sub-subgênero já rendeu obras-primas como A Morte do Demônio e muito fogo de artifício superestimado, como Cabin In The Woods, só pra ficar nos já mencionados no blog.
Ano passado, A Maldição da Floresta engrossou a lista de boas produções do tipo, além de revelar promissora carreira, a do diretor e roteirista Corin Hardy. Hardy, em parceria com Felipe Marino, utilizou a tendência de usar elemento histórico que dê cor local. Nada tão sobressaído como no espanhol No + Do ou no argentino Aparecidos, mas The Hallow (título original) aproveitou a ideia frustrada e frustrante do governo irlandês de privatizar os direitos de exploração madeireira das florestas da ilha.
A Maldição da Floresta interlaça a tradição da cabana isolada na mata, com o horror ecológico e a dos filmes de monstro de modo muito eficiente e que de vez em quando deixa o espectador na ponta da poltrona de ansiedade. Um casal londrino troca o burburinho metropolitano pelo silêncio verde do interior duma floresta nos confins da Irlanda. O maridão veio investigar as árvores ou algo assim e isso inquieta os locais, que acreditam que a floresta é habitada por criaturas mágicas que retaliam caso seu território seja invadido. Pouca informação ou investimento na criação dos adultos, mas o filme aposta que nos importemos com Finn, o bebê, manipulando nosso insano amor por infantes indefesos, pelo efeito fofura de mãozinhas e carinha gorducha e nossa preocupação com os pequenos que garantem a preservação de nossa espécie. Dá certo.
O começo é algo lento e poderia ter sido preenchido com mais informação, mas conforme a floresta vai se impondo aos humanos que insistiram em permanecer a despeito das advertências, A Maldição da Floresta ensandece e a meleca jorra num festival de criaturas, fungos que se apropriam de cérebros e objetos pontiagudos aproximando-se de olhos. Não chega ao nível d’A Morte do Demônio, mas há potencial pra desenvolver mitologia de franquia.
Com cinematografia caprichada, efeitos especiais decentes e um final que seria melhor ver até o fim dos créditos com imagens, A Maldição da Floresta é outro competente horror da Irlanda, já destacada no blog, por causa de The Canal.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CONTANDO A VIDA 157

Nosso historiador-cronista pondera sobre envelhecer nos dias de hoje; a jovialidade da melhor idade atual e muito mais. 

A CARA DA VELHICE MODERNA: COMO TER MAIS DE 70 ANOS...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Fico admirado quando vejo que nos livros de Dostoievski, aos 40 anos os personagens eram considerados velhos, e aos 50 decrépitos, dignos de pena. Como tudo mudou... Nossa! E não era só na longínqua Rússia dos czares. Mesmo entre nós, lembremos, as antigas marchinhas carnavalescas satirizavam as mulheres de 30 anos chamando-as de balzaquianas. Evocando os romances franceses que implicavam moças que não se casavam, entre nós circulava a noção de “titia” ou “solteirona” para aquelas que – não importando a razão – “passavam da idade” e não constituíam nova família. Por certo, a alimentação, as vitaminas e demais condicionadores físicos, a maquiagem e as cirurgias plásticas, a indústria da moda veiculada por revistas, cinema, televisão, se juntaram para impor o padrão jovem como modelo ideal, principalmente para as mulheres. Em contraste perfeito, a noção de velhice passou a ser referência para “velhos bem velhos”, gente que passa dos 85, 90 e até 100 anos. Aliás, vale lembrar que um dos dilemas do equilíbrio fiscal do orçamento do país exige a imediata reforma da idade de aposentadoria. Mas para que a mudança da cara da velhice se alterasse, foi preciso uma combinação completa de elementos que se articularam ao longo do tempo. E haja academia, caminhadas, tintas para cabelos, tônicos, remédios, regimes. Por lógico, essa mudança na aparência que faz enxergar a idade com lentes da juventude remete a também a uma cirurgia cultural que nos afeta a todos. Tudo se justifica pelo cultivo do corpo moço que, por sua vez, se apoia em justificativas que remetem à saúde, ao bem-estar psicológico e ao sucesso.

Para o bem ou para o mal, a minha geração é a grande protagonista dessas mudanças, e, eu que já passei dos 70, como boa legião de companheiros coetâneos, tenho que me provar as virtudes de permanecer jovem. O desmerecimento de uma alcunha que se pretendia simpática “terceira idade” foi desafiada a ser chamada de “melhor idade”, como se as dores, rugas, aumento de peso, queda (de tudo) não nos afetasse. Admitir tais condições passou a ser atestado de lastimável fim. E quantos fogem da velhice como se fosse a passagem trágica para a morte. Os homens, saudosos de virilidades, muitos deles, tentam se esquecer de enfraquecimentos e apelam para as pílulas azuis, reavivando antigas potências. Coisa de louco. E as mulheres, muitas delas deslumbradas com a moda, se fantasiam de meninas e não medem o ridículo no tamanho das saias, por exemplo. Mas, de modo geral, vivemos um vale tudo para a jovialidade. E ponha-se vale tudo nisso. Felizmente, existem os comedidos. Devo me espelhar naqueles que mesmo sem desprezar as aparências, não envelhecem por outros motivos. Admiro muito os que aprendem com a vida, com os sofrimentos. É exatamente este o ponto que quero ferir: a arte de envelhecer. Confesso que aos poucos fui deixando algumas bobagens, manias esquisitas, coisas que entravavam meu solitário cotidiano. Já disse que a “maioridade” se dá quando fazemos 60 anos. Então, passado um tempo de vida, temos experiências acumuladas e podemos fazer opções para o futuro. É aos 60 anos, exatamente, aos 60, que escolhemos se pretendemos ser um “ancião” afável, um “velhinho gostoso” ou se pretendemos ser um ranzinza empedernido, desses que se arrastam e só falam mal dos outros, do governo, dos parentes. É claro que a escolha demanda circunstâncias, mas é bom pensar que podemos dar descontos nos atropelos alheios, ser mais flexíveis conosco, perdoar com mais facilidade e olhar o passado com a ternura de quantos querem um futuro de paz e harmonia. Não diria que atingi tal plenitude. Mas quando me olho na perspectiva do remoto, percebo que as escolhas feitas lá atrás me permitem me respeitar. Sinto-me jovem, então... Mais jovem do que nunca e com tal vitalidade dou meu beijo na trajetória que fiz e ainda tenho que desempenhar.