segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 205

Roberto Rillo Bíscaro

No outono de 2012, universitários formaram o Farmhouse Odissey, cujo nome advém do fato de a criação ter sido numa casa de fazenda no interior californiano. A julgar pela dupla de álbuns lançados, odisseia também se aplica como luva às viagens sônicas dos arranjos complexos desse quinteto que junta tantos estilos e beleza que fica mais fácil defini-los como um grupo de prog sinfônico.
Em maio do ano passado, saiu o début homônimo; meia dúzia de canções prenhes de momentos memoráveis e do clima improvisacional provavelmente inspirado pelas jams de jazz. So It Would Seem é o primeiro passo da jornada. 13 minutos que abrem com instrumental luxuoso, nostálgico, cheio de fraseados memoráveis e melancólicos e antes de tornar-se mais pesada há segmento de psicodelia Krautrock early 70’s, com ruídos de máquina de escrever e afins.
Dante transiciona de leveza de voz fina de indie rock e teclado pimpão para mais peso guitarreiro, mas nunca chega a heavy metal, pra mudar prum clima que poderá agradar até a fãs de MPB mineira anos 70. Farmhouse Odissey é progressivo pela extrema fluidez das canções, rigorosamente executadas, mas cheias de nuanças, detalhes, variações. Ora a guitarra é suave, ora incandesce, como em Sleeping Silent. Ora o teclado é eclesiástico sci fi como o de Tony Banks fase Foxtrot, basta conferir Cross the Deep, que ademais tem cozinha levemente funkeada e evolui pra eventual peso. Colossal Cypress (que abre meio Gentle Giant) e A Moment to Take emendam-se pra fechar o álbum com as melodias vocais mais marcantes da odisseia. Ouvir Farmhouse Odissey é um momento que se leva por muito tempo. Você pode também; o trabalho está completo no Bandcamp:


Rise of the Waterfowl cover art
Dia 5 da janeiro do corrente, Rise of the Waterfowl foi disponibilizado no Bandcamp (link abaixo). O álbum é menos sinfônico no sentido de ter menos teclados setentistas e abraçar ritmos e tonalidades de prog eclético, jazz-rock, Canterbury ou um estilo que tenho chamado de indie prog, devido à junção com maneirismos de indie rock.
As 9 faixas representam o transcurso de um dia, porque o álbum abre com Daybreak, que nasce mansa como dia, vira samba funkeado pra se metamorfosear em virtuosismo de teclado psych prog e fecha com a tecladisticamente linda e curta From the Night Sky.
Space Revelead é instrumental que flerta novamente com o samba, mas também jazz e dá espaço para cada instrumentista brilhar. O filé de Rise of the Waterfowl deveria ser a longa suíte de nome comprido com mais de 15 minutos, mas Speedbump Catalyst: Upon the Wheel, Blessing in Disguise, Energetic Tides, The Road Alone soa um tanto anticlimática. A despeito de lindas passagens ao piano, há segmentos em que a melodia é conduzida quase exclusivamente pelo vocal, a instrumentação falhando em prover-lhe complementação ou acompanhamento a altura.
Esse segundo álbum mostra que o Farmhouse Odissey está buscando sonoridades novas para seu receituário. Pode não ser tão lindo como a estreia, mas convém ouvi-lo, porque é bom demais da conta de bem executado e cheio de ideias.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

NASCENDO ALBINO

Vídeo capta nascimento raro de tartaruga albina na Austrália

Voluntários de uma organização ambiental tiveram uma surpresa ao encontrar um filhote albino de tartaruga-verde em uma praia na costa leste da Austrália.
Casos assim entre espécies de tartarugas-marinhas são muito raros. Ocorrem uma vez a cada centenas de milhares de nascimentos, segundo especialistas.
Batizado como Alby, o filhote de tartaruga foi o último a deixar o local, dos 122 que nasceram em seu ninho.
Ser albino será um desafio para Alby, já que isso impede sua camuflagem e o deixa mais vulnerável a ataques de predadores.
“Espero que ele sobreviva”, disse Jayne Walton, moradora de Peregian Beach que filmou o animal.
“Ele era muito rápido e parecia muito determinado em chegar à água.”
Assista ao vídeo no site da BBC:

PAPIRO VIRTUAL 102


Roberto Rillo Bíscaro

Nalguma madrugada global da primeira metade dos anos 80, vi Sexta-Feira 13 II. Naquela época parece que a TV (só havia abertas) exibia mais filmes de terror e eu não perdia um. O assassino com saco de estopa na cabeça exterminando jovens num acampamento tornou-se meu favorito. Jason não fala, não perde tempo; simplesmente mata. E slashers viraram meu sub-sub-gênero favorito, mormente os do auge oitentista.
Revendo os filmes do Jason – ele só conseguiria a icônica máscara de hóquei no terceiro – eles perderam muito do impacto não apenas porque já os conheço, mas porque séries mostram cenas mais fortes hoje, os efeitos especiais são primitivos; os filmes são realmente ruins. Jamais os defendi como bons, apenas amo-os com seus defeitos. Adoro o clima de suspense no meio de florestas sanitizadas, a trilha sonora e o kikiki mamama, anúncio ao espectador de que Jason Voorhees está nas imediações. O som é um dos toques de meu Whatsapp (as trilhas de DALLAS, Dynasty e Mary Tyler Moore também tocam no meu telefone).
O primeiro Sexta-Feira 13 estreou em 9 de maio de 1980. Aproveitando ideias de Halloween a Psicose, o filme independente de 700 mil dólares rendeu 90 milhões e iniciou rendosa franquia e uma enxurrada sangrenta de produtos, esses especialmente depois que Jason passou a usar a máscara. Friday the 13th simplificou e explicitou tudo o que Halloween sugeria. Pra época, algumas das cenas eram aterrorizantes, como a da decapitação da Sra. Vorhees. Críticos e moralistas odiaram, mas muita gente amou e isso é o que conta no mundo onde arte/entretenimento é mercadoria como carne, maconha ou bíblia. Como deu muito dindim, iniciou uma febre se slasher films em acampamentos e onde mais se possa imaginar. Os ecos de Sexta-Feira 13 são ouvidos até hoje, vide o metafilme Terror nos Bastidores, aqui resenhado.
Saber detalhes sobre a produção e feitura do primeiro filme me fez devorar Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake, de David Grove, lançado no Brasil pela editora Darkside, traduzido por João Marques Almeida – realmente era necessário traduzir todos os “eu “ e “nós” indispensáveis no inglês possuidor de verbos quase sem flexão, mas não no português abundante em terminações indicativas das pessoas?
Através de entrevistas com a equipe artística e de produção, levantamento em jornais e farto material iconográfico (em branco e preto, que uó!) e introdução do maquiador Tom Savini, o fá assumido Grove mapeia e detalha tudo sobre o primeiro Sexta-Feira 13, que, 35 anos mais tarde, todos sabem não ter Jason a não ser na famosa cena do sonho, quando emerge do fundo do lago, conceito “emprestado” de Carrie, a Estranha. A contragosto de muitos – Savini incluso – os produtores da Georgetown exigiram sequência em vista do sucesso de bilheteria e dai em diante um Jason adulto comandaria a matança. Sem nexo, uma vez que a Sra. Voorhees afirma que Jason morrera afogado, mas quem se importa quando o objetivo é fazer dinheiro?
E é vendo o filme estritamente como produto/mercadoria que o livro apresenta o diretor Sean Cunningham, picareta que deu sorte tremenda com esse filme. Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake minucia o processo de criação até do logo, como também descreve cada semana de filmagem. Aprendemos que os produtores de Boston provavelmente tinham ligações com a máfia – Jason como produto de lavagem de dinheiro, Lava Jato nele! – que a cobra morta é de verdade a pobrezinha, que uma atriz dormiu com o diretor, como muitas cenas foram filmadas, enfim, é uma leitura absorvente pros fãs. Li em poucas deitadas e amei.
Algumas informações são repetidas diversas vezes, porque a edição das inúmeras entrevistas por vezes deixa atores e técnicos falarem o mesmo, apenas com algum detalhe diferente. Mas, isso não estraga a prazer, até porque é também muito divertido pegar as contradições entre os depoimentos, as diferentes leituras que a memória imprimiu nos diferentes membros da equipe.
Exceto por Kevin Bacon – hollywoodiano demais pra ser entrevistado nesse projeto – ninguém dessa produção mequetrefe virou estrela. O fracasso de alguns é atribuído à estereotipação por Sexta-Feira 13. Vendo as péssimas atuações, duvida-se dessa asserção. O filme também merece ser visto pra rir de tanta canastrice. E mesmo assim/por isso mesmo, seguimos amando.


Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake é obrigatório pra fãs. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

TELONA QUENTE 146

Roberto Rillo Bíscaro

Por causa d’O Sexto Sentido, o diretor, roteirista e produtor M. Night Shyamalan foi adulado a ponto de ser chamado de o próximo Spielberg. Há anos amargando fracassos de público e/ou crítica, já sabemos que ele não superará o diretor de ET, mas, ano passado, tentou voltar ao topo com A Visita, que agradou alguns e rendeu certa grana, embora a produção tenha sido indigente se comparada ao orçamento que Shyamalan acostumara-se a trabalhar com.
2 irmãos vão passar uma semana na fazendola nevada (por quê no último dia da visita, a paisagem parece de outono e não de inverno; alguém me explica onde foi parar toda aquela neve?)  dos avós, os quais jamais viram nem em foto, porque a mãe não se dava com eles. No começo tudo OK, mas aos poucos um quadro de demência/senilidade desenha-se e não é só em um dos idosos.
The Visit não funciona de todo, porque boa parte da película não é interessante nem pra construir suspense. Porém, quando o trem começa a descarrilar, Shyamalan mostra que ainda possui algumas cartas na manga. Embora alguns revisores tenham sido bondosos, não esqueçamos que prum cara como esse, A Visita não representa volta pra cima. O filme tem seus momentos tensos  e realmente cresce, mas é digno de realizador menos tarimbado.
Toda a história é filmada pelas câmeras do casal de irmãos, porque a garota tencionava fazer um documentário sobre o imbróglio da mãe com os avós e o reencontro. Mas, não é um found footage film. Becca estava fazendo seu documentário e dominava rudimentos de narração cinematográfica, daí a presença de fades e bons enquadramentos. Tem até entrevista com a mãe, depois do ocorrido. Como falar em imagens achadas blá, blá, blá? Essa “problematização” do sub-gênero até me chamou a atenção em A Visita.
Também estão ótimas algumas atuações, especialmente a da avó, e a reviravolta na trama é legal. Pé no saco mesmo é aquele menininho fazendo rap ruim. Quase torci pros avós.
Dá pra ver de boa, mas não espere nada demais.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

OUTRO RAPTO ALBINO EM MOÇAMBIQUE

CRIANÇA COM PROBLEMAS DE ALBINISMO RAPTADA À MÃO ARMADA EM MOATIZE

Mais uma pessoa com problemas de albinismo foi raptada, este fim–de- semana, no distrito de Moatize, província de Tete.
Desta vez a vítima foi um menor de sete anos da localidade de Benga, onde na calada da noite de sábado, os raptores em número de sete, ameaçaram com arma de fogo a mãe da criança.
 Segundo o tio da vítima, os malfeitores após terem raptado o menor, puseram-se em fuga usando uma viatura que se encontrava estacionada num campo de futebol local.
O caso já foi reportado às autoridades policiais de Moatize que prometeram trabalhar no esclarecimento do rapto.
 Os familiares estão inquietos porque que na casa onde foi raptado o menor ficaram duas crianças com problemas de pigmentação da pele.
“Estou preocupado, não sei como posso fazer, estou a pedir apoio ao governo” –desespero nas palavras do tio do menor raptado.
Na província de Tete, desde finais do ano passado a esta parte, já foram raptadas cinco pessoas com problemas de pigmentação de pele e neutralizada uma quadrilha que se dedicava ao tráfico de ossadas de albinos.

CONTANDO A VIDA 139

Em vésperas de Quaresma, nosso historiador-cronista filosofa sobre as discussões a respeito do sexo de Deus, mas sérias do que supõem alguns. Crônica erudita é outra coisa, né?

SEXO DE DEUS.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Em discussões inúteis e sem nexos, sempre ouvimos a expressão “ah, isso é como discutir o sexo dos anjos”. A inutilidade de debates sobre inocuidades conduz a contendas desprezíveis e, nesses casos, uma boa saída é apelar para citações que, afinal, apaziguam ânimos. Em leitura recente, porém, deparei com uma expressão ainda mais complexa, referindo-se também ao universo das questões não resolvíveis: “qual o sexo de Deus?”. O livro em questão é Sexo e Judaísmo, assinado pelo Dr Jayme Landmann, publicado pela Editora da UERJ, Rio de Janeiro, em 1999. São páginas de leitura enredante em que se aventa, pela ótica judaica, a relação entre a reprodução humana e o destino religioso da sociedade. As primeiras páginas discutem o tema da representação de divindades, em particular, como é cabível aos judeus, de “Deus Pai”. Basta esse enunciado para se abrir um universo enorme de dilemas afeitos à imagem de Deus. A qualquer um, mediante a evocação das figurações do Pai, ocorre a cena magnífica do afresco da Capela Sistina, obra exemplar de Michelangelo. A arrebatadora imagem do Pai, com braços estendidos e com o dedo indicador quase tocando o do Filho é de beleza única. A imponência da cena encanta e convence. O cenário teatral do entorno completa o drama onde então um velho barbudo, de longos cabelos brancos e semblante grave, dá sentido a Cristo, filho do Criador em sua missão terrena. Nuvens e anjos em movimento integram a situação que, afinal, fixa a noção de que o Deus Pai é um Senhor severo, soberano e dominador. Sem dúvida, a ideia de um Deus bravo, justiceiro, onipotente, onipresente e onisciente, instruiu lições de catolicismo. O que me impressiona nessa representação é que o rosto tranquilo e amistoso do Filho não convence tanto. A partir de Michelangelo, a imagética religiosa cristã não se cansa de proceder a variações sobre o mesmo tema.

Dr. Landmann, foge do debate sobre a imagem do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na direção contrária, o que faz é demonstrar que para os judeus interessava destruir a tradição anterior que apregoava a existência de deusas matriarcas. Elegendo o masculino como o sexo do poder, os judeus estabeleceram o monoteísmo com premissa e os homens deveriam agradecer por ser “imagem do Criador” enquanto as mulheres por “ser imagem do espírito”. Mas o sentido da imagem não seria física, mas sim moral. Desde Eva, as mulheres foram associadas aos “desvios dos homens” e por isso próximas do pecado, cabendo ao masculino a condução para evitar males. É verdade que mesmo entre os judeus não há consenso sobre o sexo de Deus. Uns acham que é exclusivamente masculino, outros que é andrógeno, existindo aqueles que o julgam duplo e até mesmo feminino, mas isso não tem a ver com a figura humana, assim, há unanimidade em não aceitar figuração de Deus – como aliás os islâmicos também fazem. A base está na Escritura, exatamente em Deut. 4,12 e 4,15-16 onde fica estabelecido que “para que vós não vos comparais e vos façais alguma escultura, nem alguma semelhança de imagem, figura de macho ou de fêmea”. É obvio que as interpretações variaram, em particular tomando-se por base a passagem do Gên. 1,27 que reza “E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea, os criou”. É, pois, por essa interdição que entre os judeus não pode haver representação figurativa do Criador. A imaterialidade do Pai, contudo, é complexa, pois Deus ouve, fala, gesticula, tem pés e mãos, mas não cumpre outras funções humanas como: comer, urinar, defecar. Ao contrário dos deuses gregos, o Pai não teria relações sexuais, família e não seria passível de contradições, dono exclusivo da “verdade e da vida”. Isso intriga e chega a propor uma das heresias mais condenáveis pelos ortodoxos que vêem na mediocridade humana a inversão do caso, pois segundo os “desvidados”, nós humanos é que criamos um Deus à nossa imagem e semelhança. Não deixa de ser irônico encerrar este retraço analítico evocando o debate sobre o sexo dos anjos... ou melhor o sexo de Deus.    

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

TELINHA QUENTE 198

Roberto Rillo Bíscaro

Na época em que tudo precisa ser dissecado nos mínimos detalhes (autossic!), convenções artísticas esmiuçadas, celebridades consumidas em seu cotidiano mais íntimo, não admira a quantidade de filmes e séries lidando com antecedentes, as prequels. Norman Bates e Hannibal Lector têm suas infâncias/juventudes detalhadas em Bates Motel e Hannibal, respectivamente, e por aí vai. O Detetive Inspetor Morse não escaparia dessa genealogia ficcional.
Por haver gostado da série com John Thaw, vi as 3 temporadas e o episódio-piloto de Endeavour (2012 -), que felizmente evita o tolo mistério em torno do nome de batismo do brilhante detetive que resolve brutais assassinatos na área de Oxford. Cada temporada consta de 4 episódios de hora e meia e é ambientada em meados dos anos 60, quando o egresso da universidade está no frescor e timidez de seus 20 e poucos anos. Com tantos crimes na Universidade, perpassando décadas, surpreende que alguém queira lá estudar!
Shaun Evans acertou em não reproduzir maneirismos e inflexões do falecido Thaw. Não apenas porque correria o risco de cair na imitação caricata, mas também porque a personagem na produção da ITV é necessariamente distinta daquela da série 80tista/90tista. O jovem Endeavour tem que engolir muitos sapos, porque alguns de seus superiores e/ou colegas o humilham ou discriminam por ser de fora, culto, por se sentir mal em ver cadáveres (pelo menos, nos episódios iniciais). Como ele não tem poder hierárquico pra detonar ninguém, o interesse da personagem vem de sua brilhante inteligência e pra quem conhece a série com John Thaw pra ver como se formou a personalidade do velho Inspetor. Por exemplo, quem o introduz na degustação de cerveja é o Inspetor Thursday (Roger Allan, de The Queen, ótimo com sua voz tão característica) que o põe debaixo das asas enquanto Morse atua como seu Lewis. O azar do policial com mulheres também está presente: se Morse se interessa por alguma, ela terá a ver com o crime ou algo dará muito errado no relacionamento, que, em verdade, nunca decola. Como sabemos que Morse envelhecerá para se tornar o comissário famoso uma década e meia após os acontecimentos de Endeavour, cliffhangers envolvendo-o não apenas ficam sem graça como soam fúteis Ao final da segunda temporada, ele termina atrás das grades. Que ansiedade isso poderia criar se já o víramos de cabelos brancos resolvendo casos anos mais tarde?
Os roteiros voam na maionese nas deduções e na erudição de Morse, que num episódio intui que o nome Keith Miller é anagrama pra I’m the killer. Mas, desde que bem elaborados, é isso que torna esses shows divertidos; se quiséssemos coisas mais “realistas” veríamos Marcelo Rezende.
Sem ser brilhante, Endeavour, como o original Inspector Morse, tem histórias com grau de interesse variado e agradará fãs de histórias de detetives tradicionais britânicas, com sua eficiente reconstituição de época, superlativização do intelecto dum individuo sobre o grupo e romantização do crime. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 204

Roberto Rillo Bíscaro

Cantoras de rhythm’n’blues meio às antigas – no meu caso, antiga é tipo 70’s, 80’s e 90’s, mas daí já com restrições – não tem espaço na mídia mais ampla e nas grandes gravadoras, daí muitas que fazem urban jazz ou quiet storm estarem em selos independentes e menores. Precisa tempo e paciência pra descobrir quem são e conseguir os álbuns, mas os resultados têm sido recompensadores.
Carmen Rodgers, cantora de Neo Soul, residente em Atlanta, Georgia, é uma dessas recompensas. Em fevereiro do ano passado, ela lançou seu terceiro solo, Stargazer, uma dúzia de canções, que, exceto por 3 meio arrastadinhas, encanta pela voz sedosa e produção sem fogos de artifício, mas muito uniforme e elegante.
Quem curte o soul chique pra passarela meio 80’s, vai amar e desfilar ao som de Beyond the Stage ou Heartless, que tem influenciazinha de hip hop. Camille Leon é uma brisa 70’s, totalmente Steve Wonder, com voz aguda de menina; impossível não fazer doo doo doo doo com Rodgers. Charge é balada-arraso, dueto com Anthony David, que tem clima total de FM d’outrora, assim como Stay, outra balada, que cozinha em fogo lento de fim dos anos setenta.
A grande mídia não vai divulgar mesmo; cabe a nós que gostarmos passar o nome e o som pra frente.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A SUPERAÇÃO DE DAVI ALBINO

Depois de passar fome e morar na rua, Davi Albino sonha com vaga nos Jogos Rio 2016.
Assista à reportagem no link abaixo:

sábado, 6 de fevereiro de 2016

ALAGOAS CUIDA

Sesau assegura protetores solares para quilombolas albinos e portadores de lúpus

18 mil unidades, com fator de proteção 30 e 60, foram adquiridos para suprir a demanda anual


Para garantir a segurança e prevenção do câncer de pele para as populações quilombolas albinas e pacientes diagnosticados com lúpus eritematoso a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) realiza a distribuição de protetores solares. A substância foi distribuída às administrações municipais em Santana do Mundaú e União dos Palmares, onde há comunidades quilombolas. 
De acordo com a assessora técnica do Componente Especializado de Assistência Farmacêutica (Ceaf), Renata Castro, o uso dos protetores é importante, pois previne o câncer de pele. “Pessoas com albinismo possuem uma deficiência na produção de melanina e por isso precisam se proteger constantemente com os protetores”, destacou a assessora.
A gestão estadual adquiriu 18 mil unidades do produto, sendo 3 mil com fator 30 e 15 mil com fator 60. “A quantidade é suficiente para responder a demanda anual de Alagoas, garantindo a continuidade do uso e a segurança clínica dessas pessoas”, reforçou.
Além das comunidades quilombolas também é assegurada substância para os pacientes diagnosticados com lúpus eritematoso sistêmico (LES), que é uma doença autoimune que pode afetar principalmente pele, articulações, rins e cérebro. Renata Castro explicou que doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imunológico ataca tecidos saudáveis do corpo por engano.
No caso dos pacientes com lúpus o paciente deve se cadastrar no Ceaf passando primeiro por uma consulta médica, onde serão realizados exames para detectar a patologia. Com o laudo em mãos, o paciente ou familiar deve ir à sede da unidade, localizada na Rua Goiás, bairro Farol, em Maceió. Após o cadastro, o usuário é informado sobre o dia que deve se dirigir ao Ceaf para receber o protetor na quantidade indicada para o caso.

ALBINO GOURMET 197

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

INSEGURANÇA SEPULCRAL EM MOÇAMBIQUE

Desconhecidos exumam cadáver de albino e extraem ossos em Mogovolas
Um túmulo onde estavam enterrados os restos mortais de um cidadão com problemas de pigmentação da pele foi vandalizado por indivíduos ainda desconhecidos, os quais extraíram também as ossadas para fins não descortinados, na passada sexta-feira (29), no distrito de Mogovolas, província de Nampula.
O caso deu-se no bairro de Nacua, no posto administrativo de Loluti e a vítima respondia pelo nome de Arino Vasco Mutepa. As ossadas foram achadas na campa profanada, alegadamente abandonadas pelos malfeitores quando se aperceberam da presença de uma equipa policial, durante o patrulhamento, e até segunda-feira (01) encontravam-se nas mãos da Polícia da República de Moçambique (PRM), para serem entregues aos familiares.
A Polícia suspeita que se tratou de um acto para fins supersticiosos. João de Deus, porta-voz substituto da PRM em Nampula, desconfia ainda que um dos parentes da vítima esteja envolvido no caso. Refira-se que o distrito de Mogovolas é dos que regista maior incidência de rapto e assassinato de pessoas com albinismo e profanação de túmulos.
Em conexão com este crime, dezenas de cidadãos estão privados de liberdade em diferentes pontos do país. Porém, até ao momento não se conhece nenhum caso julgado com vista ao esclarecimento do mal que ameaça a integridade de gente com a falta de pigmentação na pele, nos, olhos, nos cabelos e nos pêlos. Não se sabe, acima de tudo, quem são os mandantes.
O número 01 do artigo 263 do Código Penal moçambicano, no que tange ao desrespeito aos mortos, determina que “aquele que cometer violação de túmulos ou sepulturas, praticando antes ou depois da inumação quaisquer factos tendentes directamente a quebrar o respeito devido aos mortos, será condenado à pena de prisão até um ano e multa correspondente".
http://www.verdade.co.mz/newsflash/56729-desconhecidos-exumam-cadaver-de-albino-e-extraem-ossos-em-mogovolas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TELONA QUENTE 145

Roberto Rillo Bíscaro

No começo dos anos 90, uma encenação teatral numa escola secundária sai muito errada. Os alunos apresentavam a peça A Forca e Charlie morre enforcado em cena, porque o cadafalso se abriu acidentalmente. 20 anos mais tarde, uma classe de formandos decide reapresentar a obra, com apoio da direção escolar e dos pais. Eis a premissa de The Gallows (A Forca, 2015), a qual fãs de horror até poderiam fingir que engolimos se o filme fosse bom. Imagine que uma forca de verdade seria construída num palco pra adolescentes e que uma escola norte-americana – terra dos processos indenizatórios até por unha encravada – permitiria que tal asneira se repetisse.
Além do espectador, alguém mais não está feliz com a encenação, porém. Um garoto velho demais pra ser adolescente (todos são), com voz horrível e cujo nome marcou tanto que nem lembro, propõe a 2 colegas que entrem na escola de noite e vandalizem o palco pra que a peça não aconteça. O motivo o roteirista guardou pra ele. Um dos colegas é o protagonista do teatro escolar; será que ele não poderia simplesmente ter dito não bem antes? Eles vão à escola, encontram a menina boazinha da trama que lhes dá uma desculpa esfarrapada pra estar ali e logo se veem presos no labiríntico prédio, com uma assombração perseguindo-os.
Daria um slasher film bem legal, mas optou-se pelo formato dos found footage films. Talvez por ser moda, talvez por ser mais barato, afinal, se não há dinheiro pra efeito especial, basta zoar a imagem e o som fingindo que a câmera quebrou. Nos found footage films também estamos dispostos a relevar a estranheza de alguém apavorado ou morrendo empunhar câmera ou celular pra gravar tudo. Mas, esse perdão só ocorre quando o filme é decente. The Gallows pede demasiado prum filme medíocre: como acreditar que alguém trocou a bateria do celular pra continuar gravando sua própria correria desesperada pra se salvar?
A Forca tem reviravolta de trama que também se encaixaria como luva em slasher retrô. Mas estando num filme tão bobo, a implausibilidade grita mais alto do que o berreiro que os atores fazem pra fingir que há tensão na trama. Imagine que os pais deixariam de fornecer informações tão importantes aos filhos!
Se é pra ver found footage film, sugiro o muito superior The Bay, resenhado aqui.   

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

CONTANDO A VIDA 138

Dizem que o ano brasileiro começa apenas depois do Carnaval, então creio que ainda é tempo de seguirmos os conselhos de nosso historiador-cronista para 2016, que se inicia semana que vem!

CINCO VERBOS PARA 2016: aceitar, escolher, desapegar, decidir e conferir.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Sempre que uma etapa desponta como possibilidade, cabe fazer planos. Como qualquer recomeço, aprendemos a exilar o mal, evitar dissabores e prevenirmo-nos contra erros passados. E logo nos lançamos nos planos de mudanças, pensando em retraçar caminhos e escolher os melhores atalhos. Em termos gramaticais, a ação reside nos verbos que, afinal, significam movimentos. Tratei de deixar de lado os complicados mandamentos da língua e me permiti flanar (bonita palavra esta “flanar”) e rompi as exigências classificatórias de verbos: transitivos, intransitivos, transitivos diretos, indiretos, principal, complementar. Deixei tudo para trás e resolvi escolher cinco verbos para conjugar durante o ano que se inicia. Seria inútil dizer que uma legião de verbos vivenciais logo foi deixada de lado, pois “viver”, “comer”, “respirar” são inerentes à sobrevivência e, portanto, não aplicáveis. Outros foram banidos da relação por serem negativos: “sofrer”, “adoecer”, “machucar”. Também desprezei aqueles que sugeriam mudança de meu perfil: “mandar”, “exigir”, “impor”, “castigar”. É lógico que recusei verbos contrários às intenções incutidas na proposta: “alienar”, “enlouquecer” e mesmo “contemplar”. Na medida em que se diminuíam as possibilidades, estabelecia critérios para as definições que, afinal, recaíram em cinco: “aceitar”, “escolher”, “desapegar”, “perdoar” e “conferir”. Antes de prosseguir, devo dizer que verbos inerentes à vida foram convocados, mas como paisagem e não orientação, assim “amar”, “acarinhar”, “gostar”, funcionaram como condição ou suporte para os escolhidos.
Foi difícil eleger o primeiro verbo, pois deveria ser o condutor dos demais. E teria que ser capaz de conciliá-los sem ser passivo, submisso ou, pelo contrário, mandatório. Pensei bastante e ironicamente optei por um que me namora há muito tempo: aceitar. Mas não se trata de qualquer admissão. Não mesmo. Pelo reverso, pensei em um “aceitar” combativo, daqueles que admitem o bom combate, algo próximo de um “eu aceito lutar”. Outro lado da mesma moeda, “aceitar” também a fatalidade das coisas que não posso mudar. “Aceitar” as limitações que possuímos pode ser virtude se conjugarmos o verbo com a esperança e com metas. Posto isto, restava decidir sobre o segundo verbo. “Escolher”, curiosamente, se afigurou logo. E se mostrou valente soldado de uma faina incessante. Saber deliberar, ter a coragem de tentar alternativas com consciência que vai além do mero jogo. Escolher é uma arte, pois demanda consciência do que é deixado. Em tantos casos, abdicamos o direito de escolhas e legamos ao acaso a solução de problemas. Resolver o próprio caminho, depois de aceitar o direito de opção é algo consequente. O verbo “desapegar” despontou com força, com vontade e naturalmente. “Desapegar”, nossa!... “Desapegar” quantas lições de moral e ética estão contidas nessa palavra que até pouco tempo estava em desuso. Crítica ao capitalismo que naturalmente se instala em nós, o apego é irmão siamês da cobiça e se compõe com autonomia com o egoísmo e a mesquinharia. Temos coisas demais e somos escravos de novos e progressivos desejos. Vamos “desapegar” de tantos bens materiais e se conseguirmos fazê-lo juntos nos colocamos no caminho da revolução necessária a um mundo melhor e, quiçá, menos consumista. “Perdoar” é mais do que um verbo necessário. É essencial à boa relação com o mundo. Não devemos investir no inventário de mágoas que acumulamos. O verbo “perdoar” não deve ser visto como resignado ou anulador da memória. Avesso disso, o perdão deve ser soberano e equivaler à experiência. Por fim, ganhou lugar o verbo “conferir”. Mas este também exigiu reparos, pois não se pensou na conferência como um ajuste de contas e sim como critério de verificação das propostas. E também, em extensão, “conferir” se abriu como um convite a vida como um todo. Com estes cinco verbos, creio, podemos nos abraçar coletivamente desejando um bom ano, mas sobretudo um 2016 temperado com os fermentos da ação.    

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

TELINHA QUENTE 197

Roberto Rillo Bíscaro

Ao escrever sobre a temporada prima de Transparent, ironizei que meu lado malvado tinha ganas de enviar aquela gente pra Katmandu pós-terremoto pra sentirem o que é problema de verdade e diminuírem o mimimi. Parece que a criadora Jill Soloway se tocou sobre o significado de ter um monte de judeus de classe-média com problemas identitários em um mundo onde 99% reunido é mais pobre do que o restante 1%.
A segunda temporada da provocadora série, disponibilizada online pela Amazon Studios no dia 11 de dezembro, questiona também a posição social e de gênero de algumas personagens. Os 10 capítulos de cerca de meia-hora cada, continuam com a jornada de Mort/Maura, o intelectual 70tão que se assume transgênero, e seus familiares e amigos. Sem desmerecer questionamentos ou problemas individuais, personagens problematizam o privilégio econômico de classe-média alta e a própria posição mais confortável de Maura, que parte duma lócus de homem branco, socialmente percebido como heterossexual. Maura também é confrontada por uma antiga companheira de universidade, sobre o preconceito velado nutrido pelas feministas/lésbicas, enquanto era Mort e sistematicamente negava-lhe bolsas de estudos.
Esse tipo de autocrítica e também por pinçar similaridades entre o exclusionismo de alguns segmentos LGBT e o fim da festa libertária na República de Weimar, assinalada pela ascensão do nazismo, são apenas 2 exemplos do porquê Transparent é uma das séries mais inteligentes da atualidade. Pode nem sempre ser a mais viciante, mas instiga o espectador mais aventureiro a tentar retirar-se de suas zonas de conforto.
O relativo pouco tempo destinado a Mort/Maura talvez ressignifique o título pra transparência da discussão de ideias e demonstração de diferentes formas de desejo, sexualidade e arranjos familiares.
A sensação de indie movie com trilha sonora descolada continua, assim como Transparent, renovada pruma terceira vinda.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 203

Roberto Rillo Bíscaro

Neal Morse tem história das mais interessantes no mundo do rock progressivo. Fundador da bem-sucedida Spock’s Beard e membro do multinacional Transatlantic, o poli-instrumentista converteu-se em fervoroso cristão depois que sua filha supostamente recebeu milagre de cura após sessão de oração. Desde então, lança trabalhos-solo de louvor prog, que, diga-se, pode ser considerado sub-gênero dentro do sub-gênero. Há até sites listando bandas de Christian Progressive Rock, conhecido como CPR entre os iniciados.
Acostumado a entrar em estúdio com muitas ideias e material composto, o norte-americano decidiu experimentar. Chamou feras como o ex-baterista do Dream Theater, Mike Portnoy, e em clima de jam sessions a The Neal Morse Band produziu The Great Experiment, em fevereiro de 2015. A edição de luxo dupla, com 10 faixas, é a que compensa adquirir.
O CD 1 abre com uma das melhores canções prog do ano, The Call. Alguém se saiu com memorável riff, que a abre e encerra, executado ora em guitarra, ora em teclado. A seção final, que leva à retomada dessa melodia, é uma catarse de interplay entre guitarra e teclas; convite quase irresistível para amantes de prog sinfônico a pressionarem frequentemente a tecla repeat. Se The Call tem defeito, é ter apenas 10 minutos e não os quase 27 do épico que conclui o CD.
A trinca que recheia os 2 grandes momentos prog do álbum é boa e simpática, mas rebaixa o nível do experimento de grande para bom. A faixa-título recua para o hard rock setentista e por momentos lembra o prog ianque de então, como Styx e Kansas. Vigorosa, mas The Great Experiment, a canção, já foi feita milhares de vezes. Waterfall é folk com lindas harmonias vocais sobre tecido de violões e alinhavos de piano. Agenda gruda na cabeça como qualquer bom pop-rock oitentista, do qual é parcialmente tributária.
Alive Again é o épico de quase 27 minutos que conclui a experiência, voltando a subir-lhe o nível para grande. Indo do quase thrash ao rococó, passando por momentos anos 60 meio The Moody Blues traz todos os elementos encantadores dos fãs de prog sinfônico: mudanças no andamento, oportunidades para todos os instrumentistas brilharem, perícia técnica indiscutível e grandes melodias. Mas, The Call é melhor, essa será a sina da canção.
O CD bônus não faz feio com números ao vivo orgiásticos, como The Creation e vigorosas faixas de estúdio como New Jerusalem e Doomsday Destiny. Aliás, são nessas 5 faixas que se percebe mais explicitamente as letras devocionais de Morse. O ponto alto, porém, é a regravação de MacArthur Park, composta no fim dos anos 60 por Jimmy Webb e que já ganhou até versão disco de 18 minutos de Donna Summer. A canção é épica o suficiente para permitir voos prog e os quase 11 minutos tocados por Neal Morse e amigos só reforçam isso.

domingo, 31 de janeiro de 2016

GRAXA DA SUPERAÇÃO

Conheça a história do Joaquim, que tinha o sonho de ser advogado, mas precisou engrazar muito sapato para atingir seus objetivos. 

sábado, 30 de janeiro de 2016

DULCE DESABAFA

O blog tem acompanhado a crescente onda de ataques a pessoas com albinismo em Moçambique. Essas agressões são causadas pelo mercado de membros de albinos, que abastece curandeiros em diversos países africanos, que usam partes de corpos albinos pra suas poções de bruxaria. 
Leia o relato de Dulce, uma moçambicana com albinismo, que além do preconceito teve que passar por uma amputação de braço pra abastecer esse macabro nicho mercadológico. 

Nasci albina e agora já não tenho os meus membros.



Chamo-me Dulce, tenho 13 anos de idade e quero ser escritora. Ainda sou pequena e vítima do albinismo, mas quero vos contar a minha história de vida.

Sofro preconceito desde que nasci: Após o meu nascimento, o meu pai ordenou que minha mãe me jogasse no lixo, e dissesse a família, que eu havia perdido a vida vítima de pneumonia. A minha mãe Teresa se recusou, e por conta disso, o meu pai abandonou a ela.

Eu e a minha mãe vivíamos juntas, na casa que era do meu avô, em T3. Não tínhamos boas condições financeiras, pois, a minha mamã era empregada doméstica. E mesmo nessas condições sobrevivíamos.

Quando ainda era pequena, não podia brincar com nenhuma criança, pois as suas mães proibiam, logo sempre brincava sozinha. Quando entrei na escola primária, o preconceito aumentou, os meus colegas, inclusive os professores, me tratavam com bastante frieza e sempre me chamava de “xidjana aguada”. Sempre contava a minha mamã o que passava na escola e até pensei em abandonar as aulas, mas a minha mãe sempre me dava forças, insistia diariamente e dizia “filha, és especial, não liga para o que os outros dizem, apenas siga em frente sem magoar a ninguém”. Com o tempo me acostumei com a situação e quase que já nem doía passar por isso.

Quando entrei na escola secundária, a minha vida mudou completamente. O preconceito diminuiu bastante, e até tive chance de ter muitos amigos.

E na tarde de terça-feira, depois do teste do Matemática, eu e as minhas amigas caminhávamos tranquilamente pra casa, quando um mini bus com vidros fumados, chegou de repente a alta velocidade, de lá saíram dois homens fortes e imediatamente meteram-me no carro.

Dentro do carro, desespero tomou conta de mim, chorei tanto, mas tanto que acabei desmaiado. Acordei num cativeiro, amarrada em uma cadeira. Pedi aos homens que não me fizessem nenhum mal, que jamais diria a alguém sobre o sequestro. Eles apenas riam da minha cara, e diziam “menina você é o nosso dinheiro, a nossa riqueza xuxuzinha“. Fiquei nervosa, chorei, rezei e entrei em desespero novamente – E nesse preciso momento senti algo batendo em minha cabeça e desmaiei.

Não sei o que aconteceu depois, mas quando acordei, eu vi a minha mamã ao lado, eu estava numa cama do hospital, com muitas dores. Já não tinha mais o meu braço. Mas graças a Deus havia sobrevivido mais uma vez. Eu e a minha mamã estávamos juntas novamente.

Por vezes nos preocupamos com coisas banais e inúteis, e esquecemos que tem gente lutando todo santo dia para sobreviver. Mesmo que tirem o meu outro braço, ou mesmo as pernas, ainda terei forças pra lutar, pois tenho do meu lado alguém que me ama de verdade, a minha mamã.

Nós precisamos de apoio e protecção nas nossas famílias. Se já passamos por tanta coisa difícil, então somos capazes de enfrentar problemas piores.

Espero que a minha história de vida sirva de base para os que são vítimas do preconceito.

Abraços da flor que nunca murcha: Dulce
Fonte: http://www.mmo.co.mz/nasci-albina-agora-ja-nao-tenho-os-meus-membros#ixzz3yj78YOw0

ALBINO GOURMET 196

DIY , o Faça Você Mesmo, é conceito que muito me interessa por ter sido um dos motes da geração (pós)-punk. O canal Oficina DIY, no Youtube,  autodescreve-se como "lugar certo para quem gosta de aprender a construir e cozinhar com criatividade e facilidade". Eles têm um monte de vídeos ensinando a montar isso ou aquilo, mas como nossa seção é de culinária, escolhi a parte do canal chamada Cozinha Geek, do qual selecionei 5 receitas, mas entre lá que tem muito mais. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

ALBINA OU LEUCÍSTICA?

Esta semana outro animal branquinho gerou pautas em alguns órgãos midiáticos. Foi uma jovem girafa fotografada circulando pela Tanzânia (sorte dela não ser humana, senão poderia virar poção nas mãos de bruxos!).

Mas, será que é albina mesmo ou leucística

Vi uma reportagem no UOL Mais, onde os apresentadores tratam "girafa albina" como se fosse uma espécie, isso depois de ter dito que sequer sabia que existiam. 

A reportagem está no link abaixo:

http://mais.uol.com.br/view/s70pk4i6az2h/girafa-albina-e-vista-andando-pela-africa-0402CD1A3372D0B95326?types=A&

PAPIRO VIRTUAL 101

Roberto Rillo Bíscaro

Depois de ler/escrever sobre uns 3 ou 4 Nordic Noirs dinamarqueses, desejei algo escandinavo que fugisse ao padrão de narrativa célere da era do cine e TV de aventura. Queria algo ambientado “antigamente”, mas que não fosse pastiche de medievo como Game of Thrones, cujo primeiro livro sequer finalizei. Foi quando descobri a nobelizada Sigrid Undset, que entre 1920-22 publicou a trilogia Kristin Lavransdatter. Afortunadamente, consegui a elogiada tradução inglesa de Tina Nunnaly (2005), que registrou a prosa simples e direta da norueguesa.
Kristin Lavransdatter é filha do bem-sucedido nobre rural Lavrans Bjørgulfsson. Acompanhamos a vida da voluntariosa loira desde a infância até a morte. O narrador gasta capítulos para traçar com afinco o amor e união entre pai e filha pra deixar mais poderoso e consequente o desentendimento entre os 2, quando ela se apaixona por Erlend Nikulausson, rico proprietário, mas com passado desabonador envolvendo até excomunhão – imagine isso no século XIV. A obediente Kristin não resiste ao bad boy Erlend em detrimento do prometido Simon Andresson, que a tratava como criança. Erlend a trata como mulher, inclusive até a come antes do casamento. De sangue quente, risonho (contrariando estereótipos de frieza escandinava) e bastante sensual, Erlend é o tipo de homem que realmente jamais amadurece, apenas envelhece e no medievo isso significava chegar mais ou menos aos 40 e poucos.  
A trilogia trata duma tentativa de imposição da vontade individual, do livre arbítrio numa sociedade sufocada pela religiosidade e pelos costumes. Não há muito convertida ao cristianismo, a Noruega vivia o fanatismo e exagero devocional típicos dos neófitos. Cercada por e crente de dias santos, horários pra orar e superstições cristãs, como a pia Kristin lidará com a sensação de culpa e pecado impostos pela quebra da castidade antes do matrimônio? Seu relacionamento com Erlend começa “errado” também porque desobedece ao pai numa sociedade profundamente patriarcal. Lavrans está no sobrenome da filha (Filha de Lavrans) e o nome de batismo da mulher é diretamente relacionado a Cristo. Undset estabelece já no título o Complexo de Eletra e o peso teocêntrico sobre as vidas da personagem. 
O narrador cerca as escolhas “erradas” dela e dá pistas mesmo antes do casamento de que a própria Kristin sentia que o negócio poderia ir mal. Sua felicidade jamais é completa, porque a opressão do patriarcalismo teocrático, que sedimenta o religioso em prática social, amarga a relação. Eles sentem um T doido um pelo outro, mas isso sempre resulta em culpa, porém há períodos em que a carne é fraca e se esquecem de senti-la, se dão bem, riem, transam. Essa admissão do sexo parece ter causado espécie nos 1920’s. Hoje até padre descreveria as coisas de modo mais aberto.
Alinhavando fatos políticos, práticas religiosas e o cotidiano, o mergulho proporcionado por Undset é precioso para fãs da Idade Média. Atualmente, o aspecto mais fascinante de Kristin Lavransdatter provavelmente resida na apurada reconstituição da vida na Noruega do século XIV. Experta em história escandinava e filha de arqueólogo, Undset não criou nobres idealizados e apolíneos. Usando as informações de como a vida no medievo era percebida no começo do século XX, a autora católica representa-os como pouco mais do que sitiantes afluentes; tendo que trabalhar a terra, matar animais, enfim, botar a mão na massa. Também vemos infestações de piolhos e constatamos a pífia medicina de então, quase magia residual dos tempos pagãos, mais presentes do que se poderia supor.
Falando bem particularmente, ajudou muito ter visitado castelos escandinavos e escoceses pra imaginar as sensações vividas por Erlend, enquanto prisioneiro em um deles. Foi muito legal ter batido a cabeça nos umbrais nanicos, percorrido corredores de pedra e notado a falta de conforto dessas construções. Não digo que pra se entender as coisas, seja necessária sempre a experiência concreta – afinal, não quero pisar num caco de vidro pra aprender como é ser profundamente cortado -, mas ter visto in situ as cabanas norueguesas com o telhado coberto de grama ajudou deveras na visualização das cenas.   
A narrativa desse medievo está mais pra saga ou pro narrador benjaminiano do que pra roteirização de Game of Thrones. O timing, os cortes são diferentes; as descrições de natureza possuem organicidade talvez rara no século XXI, mediado pelas telas, que relegam a natureza à experiência vivida de longe e narrada já de segunda mão. Pro leitor contemporâneo o problema maior está no excessivo religioso da escrita. Ainda que de acordo com o teocentrismo reinante – Oslo se chamava Kristiania até 1925 – por vezes enjoa tanto dogma, oração e discussões teológicas.

Kristin Lavransdatter é só pros que não se importam com narrativas lentas.