terça-feira, 15 de janeiro de 2013

TENDÊNCIAS HIGH TECH

Especialista aponta sete tendências de redes sociais e smartphones em 2013

Smartphone - AP
Potencial de redes sociais e smartphones ainda é ignorado por empresas e governos, diz analista
A combinação do uso de redes sociais e smartphones é a principal força motriz da próxima onda de mudanças digitais, mas os benefícios não são isentos de ônus, avalia o especialista Nic Newman, da Universidade de Oxford, que apontou sete grandes tendências do setor para 2013.
Por um lado veremos avanços como o "celular carteira" e novas maneiras de acessar conteúdo online, com acessórios como o Google Glass e o Vuzix (ambos são equipamentos semelhantes a óculos, com acesso à internet e outros serviços).
Mas, na opinião do estrategista digital, também precisamos nos preparar para mais anúncios nos telefones, muita dor de cabeça e batalhas judiciais motivadas por invasão de privacidade e divulgação de dados pessoais e o surgimento de clínicas para viciados nessas tecnologias.
O especialista diz que a maioria das empresas continua ignorando o potencial das redes sociais aliadas aos smartphones, correndo o risco de tornar seus produtos irrelevantes.
Instituições e governos também estão atrasados, na opinião do britânico, e um dos motivos seria a maior flexibilidade trazida pelas novas tecnologias, o que impacta os processos tradicionais de tomadas de decisões e de hierarquia.
Veja as sete grandes tendências apontadas por Newman:

1 – O 'celular carteira'

Cada vez mais aspectos da nossa vida poderão ser controlados a partir dos nossos celulares em 2013.
Um a um, cartões de banco, de fidelidade, de transporte público e cartões de embarque de companhias aéreas estão sendo sugados de nossa carteira física e sendo integrados aos softwares de smartphones.
Por um lado trata-se de um aumento de conveniência, por outro, aumentam os riscos de perder ou ter seu telefone roubado. Devem crescer as maneiras de proteger suas senhas e dados pessoas, além das tecnologias para rastrear e até mesmo destruir seu smartphone à distância.

2 – Anúncios no celular

Mais de 10% do tempo dos consumidores é gasto em seus smartphones, mas apenas 1% da propaganda é feita nesta plataforma atualmente. Esta diferença deve ser diminuída em 2013, mas o resultado deve ser incômodo para os usuários.
Anúncios invasivos em redes sociais e versões de sites para celulares, notificações de propagandas e ofertas baseadas na localização do usuário (sobretudo ligadas a compras) devem aumentar.
Podemos aguardar retaliação contra as invasões comerciais neste espaço pessoal, incluindo disputas sobre questões de privacidade e venda de dados pessoais, e ao menos uma rede social deve passar a oferecer um serviço premium sem anúncios ainda neste ano.

3 – Spam de celebridades

As celebridades deverão se esforçar para criar canais de comunicação com os usuários de redes sociais.
Cada vez mais famosos deverão fazer uso de perfis nessas mídias, envio de mensagens de texto e aplicativos em smartphones. Tudo para manter contato direto com seus fãs.
O ano de 2013 pode dar início a um novo fenômeno: os fãs serão assediados pelas celebridades, e não o contrário.
Emissoras de TV, por exemplo, já estão treinando seus astros para mandarem mensagens de texto vestidas como os personagens de telenovelas e seriados antes, durante e depois dos programas.

4 – 'Megafone global de fofocas'

A combinação das redes sociais e smartphones aumentou dramaticamente a velocidade com que tanto notícias como boatos podem ser difundidos ao redor do mundo.
Deveremos ver mais tentativas mal sucedidas de políticos e advogados para tentar domar a internet. Por outro lado, deve haver um senso comum de que as coisas ditas nas redes sociais não estão acima da lei.
Deve haver processos judiciais de figuras de destaque contra o Twitter e o Facebook e novos programas de educação de condutas em redes sociais nas escolas e empresas.

5 – Notícias

Cerca de um terço de todo o tráfego online levando aos sites de notícias já se origina nos smartphones, e esta tendência está começando a mudar o tipo de notícias que consumimos e a velocidade com a qual elas são produzidas.
Live blogs estão ficando cada vez mais frequentes para notícias e eventos esportivos, mas os jovens, em particular, estão cada vez mais ignorando os sites tradicionais e obtendo suas notícias diretamente dos links em seus feeds do Twitter e do Facebook.
Uma tendência a ser observada em 2013 é o crescimento de serviços sociais de vídeo como o ThisNewsNow, um serviço que tem um estilo informal, novo, e focado em vídeos virais curtos.

6 – Clínicas para viciados digitais

Há cada vez mais viciados nos feeds de informações, fotos, vídeos, e links ao vivo proporcionados pelas redes sociais.
Com isso, muitos estão perdendo as habilidades de manter uma conversa com outra pessoa ou de exercitar a capacidade de reflexão silenciosa.
Neste ano, os fabricantes de smartphones deverão encontrar mais e mais e maneiras – alarmes, alertas, vibrações e outros- para interromper a capacidade de concentração e raciocínio dos usuários.
Abre-se assim novas oportunidades para clínicas e espaços de retiros rurais para reavivar nas pessoas a arte de manter uma conversa sem interrupções, hesitações ou desvios de atenção.

7 – Acessórios controlados por smartphones

Neste ano seu telefone vai passar a controlar também o que vestimos e enxergamos. O Google Glass e o Vuzix (que deve chegar às lojas em 2013) são essencialmente computadores portáteis que ampliam a realidade para um outro estágio.
Resultados de partidas de futebol serão enviados diretamente aos seus olhos, e o reconhecimento da fisionomia de usuários do Facebook e do LinkedIn podem providenciar uma biografia instantânea em uma festa, evitando constrangimentos ou abrindo oportunidades de negócios.
Vestidos especiais poderão até projetar os últimos updates dos perfis de redes sociais em tempo real.
Nic Newman é um estrategista digital e ex-executivo da divisão de Future Media da BBC, em Londres. Ele também atua como pesquisador do Instituto Reuters para o Estudo de Jorna lismo na Universidade de Oxford.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/130107_tendencias_digitais_2013_jp.shtml?print=1

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

CAIXA DE MÚSICA 90/TELINHA QUENTE 67


O verão de 1967 no hemisfério norte ficou conhecido como Verão do Amor. Hippies, protestantes contra a guerra do Vietnã e racismo saiam às ruas e pediam paz e amor, ao som de Beatles, Bob Dylan e Motown. Muito LSD e maconha, roupas floridas, cabelões.
Tudo isso foi substituído pela crise econômica dos 70’s e a guinada direitista de Reagan-Thatcher. A Inglaterra neoliberalizada tornou-se paraíso yuppie oitentista. Parte da população comprava mundos e fundos enquanto boa parte dela padecia pelos cortes nos programas sociais do governo, que dizia se intrometer o menos possível na economia (mas gastava horrores com armamentos).
No verão de 1989, o governo Thatcher começava a falecer; a invasão capitalista no Leste Europeu era iminente; na China, estudantes pediam liberdade.
Na Inglaterra, especialmente em Manchester, uma subcultura musico-comportamental transformaria o verão do último ano oitentista no segundo verão do amor. Acelerando a house music de Chicago com muitos BPMs mais, DJs britânicos inventaram a acid house, que mudaria o panorama musical na virada dos 80 pros 90.
O documentário The Summer of Rave (2006) é essencial pra quem quer que tenha dançado ao som de Coldcut, S’Express, Yazz, Black Box e outros (cadê Bomb the Bass?)

Embora o programa não enfoque a história desses projetos, a trilha sonora usada pela BBC vai matar muita gente de nostalgia. Contrapondo o underground acid com o mainstream, dominado por Stock, Aitkin and Waterman (SAW), The Summer of Rave traz eventos memoráveis pra compor o panorama do desenvolvimento da cultura acid. Tudo ao som de Roxette, PhilCollins, Cure e, claro, Technotronic e Happy Mondays.
Chapados de ecstasy, dezenas de milhares de jovens dançavam até a desidratação nas raves, cada vez mais clandestinas porque proibidas devido a reclamações de vizinhos e sensacionalismo dos tabloides. Protestando contra a caretice neoliberal, os jovens se vestiam coloridamente e se beneficiavam da infraestrutura criada pelo sistema que diziam não gostar. O programa mostra, por exemplo, como a estrutura empresarial das raves ajudou a segurar as pontas do vandalismo hoolligan.
Policiais, promotores de festas, empresários e artistas são entrevistados, a maioria elogiando o “movimento” acid house, enquanto o narrador situa o espectador historicamente e estabelece interessantes relações entre o esperado pela juventude e o resultado dessa rebeldia consumista.
Os artistas acid, antes “alternativos”, acabaram no mesmo lugar que os criticados cantores de SAW, a saber, no Top of The Tops. O documentário termina com o Black Box no programa, mas esquece de dizer que a moça que aparece cantando não era quem fazia os vocais. A música produzida no período é realmente deliciosa, mas a trambicagem do Black Box também é metáfora pra “revolução” acid house.
The Summer of Rave pode ser visto no You Tube, sem legendas. Recomendo “de com força”! 

domingo, 13 de janeiro de 2013

TAPIOCA DA SUPERAÇÃO

Filho de agricultores, com onze irmãos e o pai doente desde os seis anos, Durley aprendeu a tirar de seu trabalho o sustento e dividi-lo com a família.  Trabalhou na roça, foi engraxate, teve uma vida dura e sua meta era conseguir dinheiro para colocar comida em casa. Ao chegar em Brasília, o destino lhe pregou outra peça e aos 17 anos decidiu sair de casa para mudar sua sina.
Mas, a vida piorou. Durley acabou virando morador de rua. Foram sete meses sem abrigo, debaixo de sol e de chuva e dormindo sob frias marquises. Não se envolveu com drogas, prostituição e nenhum vício, mesmo sendo tentado diariamente. Ele não aceitava a vida desumana de estar à margem da sociedade, do submundo e da humilhação. Foi aí que decidiu lutar contra um destino comum aos perdedores e resolveu recuperar a dignidade e vencer na vida.
Durley começou a lembrar de receitas dos tempos de roça e sempre quis trabalhar com gêneros alimentícios. O primeiro a ajudá-lo nesta odisseia foi o dono de uma casa de refrigeração, que vendeu os maquinários para que Durley pudesse montar uma loja, aceitando cheques que o mesmo havia pedido para um amigo.
Um outro amigo, músico e jornalista, fez um empréstimo em seu próprio nome para pagar a reforma e a caução da loja que Durley sonhava, em outubro de 2010. Em abril de 2011 nascia a Tapiocaria Raízes do Sertão, na Asa Norte, bairro nobre de Brasília.
Hoje, o restaurante tornou-se uma rede de franquias, com uma nova filial pronta para ser aberta na Asa Sul de Brasília. Além disso, já acumula 17 pedidos de franquias para o ano que vem.
Com novas receitas, novas técnicas, logo a casa ganhou reconhecimento dos clientes. Hoje, o antigo morador de rua tem dignidade, respeito e um negócio próprio de sucesso.
“Você só é coitado quando você se sente coitado”, conclui.

sábado, 12 de janeiro de 2013

ALBINO GOURMET 82

Que tal um passeio pelas culinárias da Espanha, Tailândia, Peru, Chile e África do Sul?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ROMPENDO BARREIRAS DA SURDOCEGUEIRA

Livro conta história de Heldy, surdocega que se comunica pelo tato

Mariana Versolato

Surdocega congênita por causa da rubéola contraída pela mãe na gravidez, a criança parecia isolada.
Pouco a pouco, Heldy foi aprendendo a pegar objetos, andar, alimentar-se, tomar banho, reconhecer pessoas e emoções, expressar desejos e interagir com o mundo, tudo por meio do toque.
Hoje, aos 21, Heldyeine Soares se comunica por Libras (Língua Brasileira de Sinais) tátil --os sinais são feitos nas mãos, que ficam em forma de concha, para que ela os sinta e os interprete.
Seu mundo, feito de gestos que identificavam coisas e pessoas, foi sendo traduzido para a Libras tátil, o que ampliou suas possibilidades de interação e abstração.
A história da menina acaba de ser publicada no livro "Heldy Meu Nome -- Rompendo as barreiras da surdocegueira", escrito pela pedagoga Ana Maria de Barros Silva, impressionada com o desempenho de Heldyeine.
"Essa é uma história de sucesso que não poderia ficar apagada. Surdocegos congênitos como ela tendem a ficar isolados, não têm esse desenvolvimento", diz a autora, que trabalha há 40 anos com a educação de surdocegos.
Grande parte desse sucesso é mérito da professora aposentada Marly Cavalcanti Soares, do Instituto dos Cegos de Fortaleza, que encarou o desafio de ensinar a menina, apesar de ter poucos recursos e de seu desconhecimento sobre a surdocegueira.
O livro só pôde ser escrito graças aos seus detalhados relatórios do progresso de Heldy. Anotava cada conquista, tirava fotos e fazia vídeos, batizados de "Renascer".
Os textos dão uma ideia de como o progresso foi alcançado e comemorado e mostram como Heldy aprendia rápido e dava sinais de que queria mais. Depois de aprender a andar, já recusava a ajuda da professora para subir escadas, como se pedisse mais autonomia.
Ela logo conseguiu identificar as pessoas --reconhecia a professora pelas blusas com botões e tinha um gesto para cada membro da família.
PARCERIA
Junto com Marly, a mãe e as irmãs de Heldy lutaram para que a menina se desenvolvesse dessa forma.
De origem simples, a família de Maracanaú (a 15 km de Fortaleza, CE) levava quase duas horas para chegar ao Instituto dos Cegos de Fortaleza de ônibus.
A mãe, Jane, abandonada pelo ex-marido, cuidava sozinha de Heldy e das duas filhas mais velhas. Apesar das dificuldades, insistia na atenção especial à caçula.
"A Heldy é quem ela é hoje graças a Deus, à minha mãe e à tia Marly, que provou que, por amor, é possível tornar uma pessoa capaz como ela fez", conta Heldijane Cidrao, 26, irmã de Heldy.
Heldijane cuida da irmã desde os cinco anos --era chamada pela professora de "pequena grande mãe". Envolveu-se tanto que se casou com o professor de Libras de Heldy, que é surdo, e se tornou intérprete de surdos e surdocegos.
"Esse livro me emociona porque ler é como viver tudo de novo. Quando eu tinha seis anos, a tia Marly me colocou no colo e me disse que, quando eu tivesse sede, Heldy também teria e que eu deveria dar água a ela. Quando estivesse com fome, deveria dar algo de comer a Heldy. Hoje tenho uma filha de seis anos e me imagino fazendo tudo que fiz na idade dela."
Agora, Heldy tem bastante autonomia --a família só não deixa que saia na rua sozinha ou cozinhe. Frequenta o Instituto de Surdos de Fortaleza para aprimorar seu conhecimento de Libras e faz bijuterias no tempo livre.
Algumas das anotações da professora Marly que estão no livro são dirigidas diretamente a Heldy. Seu sonho era que um dia a menina pudesse ler sua própria história.
Os primeiros capítulos foram enviados à jovem em braile --ela lê, mas não fluentemente --e o livro todo deve ser lançado nesse formato.
HELDY MEU NOME
EDITORA United Press
PREÇO R$ 22,90 (219 páginas)

PAPIRO VIRTUAL 45

Roberto Rillo Bíscaro

Terei que pausar minha leitura das peças sofoclianas conhecidas de resenha ou comentário. Material séculos mais novo requer e merece minha atenção. Mas, antes da despedida temporária li Filoctetes, outro daqueles heróis de decisões imutáveis.
A trama se passa pouco antes do desfecho da guerra de Troia. Os oráculos vaticinaram que os gregos apenas venceriam com o esforço conjunto de Neoptólemo, filho do falecido Aquiles, e de Filoctetes, herdeiro das armas de Hércules.
Pra complicar, o grego Filoctetes ressentia-se mortalmente de seus compatriotas. Ao se dirigir à Troia, o soldado tivera o pé picado por uma serpente mágica. Como resultado, uma ferida com fedor insuportável e dor lancinante que o fazia gritar perenemente, levando seus companheiros ao desespero olfato-auditivo. O proto-maquiavélico Odisseu abandonou Filoctetes na ilha de Lemnos, onde esse último passou a viver solitário e tendo que prover seu sustento com o que caçava com o arco e flecha heraclianos.
Informado da essencialidade da presença de Filoctetes pra vitória helênica, Odisseu e o jovem filho de Aquiles retornam à ilha pra tentar trazer Filoctetes ao campo de batalha. Neoptólemo tenciona convencer Filoctetes pela honra e a verdade, representando os valores homéricos heroicos à moda de seu papai. Odisseu está muito mais preocupado com os fins. Vital é ganhar a guerra. Se pra levar Filoctetes de volta for necessário mentir e enganá-lo, tudo bem.
Como em Ájax, Sófocles contrapõe 2 formas de pensar e cria um protagonista mais teimoso do que impressora recusando-se a funcionar. Entretanto, o enredo da tragédia não permite a morte de Filoctetes, senão os gregos perderiam a guerra.
Como Sófocles acha a saída pra essa sinuca de bico, deixo como isca pra leitura da peça. Com coro razoavelmente discreto, contraposição intrincada de ideias e posturas, algumas reviravoltas, Filoctetes ainda segura o interesse em 2013. Certamente o fará por bom tempo. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

VER DE NOVO

Cientistas restauram visão de camundongos cegos

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

ESCOLHI SER ALBINO EM ITATIBA

A jornalista Katia Saisi, dedicou o espaço no Jornal Bom Dia de Itatiba a dois livros da EdUFSCar: Menina de Arte e minha autobiografia, Escolhi ser albino.
O texto está na página 11, clique no link abaixo:

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ZOOFILIA LITERÁRIA

O Pavão Albino e a solidão (Para uma linda ave de Volta Redonda – em memória)
Caminha sem ser notado
Na busca incessante
O exuberante emplumado
Por uma nova amante

O pavão albino, elegante
Ave fasianídea, imponente
Cortejando a solidão, ofegante
E a galinácea permanece indiferente...

Por quanto tempo vai durar
A ânsia desse amor represado?
Que precisa com urgência acasalar
Para formar um casal apaixonado

Caro Iran meu amigo do peito
Faça algo, dê um jeito
Se precisar, importe do Oriente
A fêmea mais linda e carente

Para ser a eterna namorada
E poder exibir seu leque caudal
Em todas as manhãs ensolaradas
Fecundando muitas vezes no quintal...
José Benício

TELINHA QUENTE 66

Roberto Rillo Bíscaro

Estando mais televisivo do que cinéfilo e com mais tempo, devido a quase 2 semanas de folga, vi 2 telefilmes no dia de Ano Novo.
À tarde, Mr. Stink, especial infantil de Natal da BBC, adaptado dum livro inglês de sucesso. Não sou afeito a sujeira, mas como o filme dura 1 hora, dei oportunidade ao Sr. Fedor, um Cascão adulto e sem teto.
Uma pré-adolescente classe-média vivendo com mãe dominadora, pai banana e irmãzinha “modelo”, discriminada pelas garotas mais populares da escola, torna-se amiga de Mr. Stink, morador de rua inimigo de banho, que emporcalha o ambiente com sua catinga (argh!). Crianças curtem, tudo bem, eu é que sou um 40tão enjoado.
A mensagem é edificante: não discriminemos os moradores de rua, merecedores de respeito e políticas públicas como todo mundo. O telefilme tem momentos divertidos e boas sacadas naquele estilo bem individualista anglo-saxão. Ao lavar o casaco de Mr. Stink, sem sua permissão, Chloe leva bronca dele, que afirma que caridade não deve ser autoritária.
Desagradou-me que Mr. Stink fora um lorde, que, ao perder sualady num incêndio em sua mansão, optara por tornar-se andarilho. Esse tipo de boa intenção é bastante duvidosa.
Como “defender” os sem teto, que em sua maioria não escolheu a precariedade econômica, usando como modelo um ex-membro da classe proprietária, que, por definição, é responsável pela escassez de muitos, uma vez que concentra em suas mãos, o grosso do finito capital?
Em termos narrativos a contradição não é menor. A narrativa burguesa ao singularizar o protagonista através do batismo da obra com seu nome atribui a ele algo distintivo dos demais.Luciola não era como as demais cortesãs e por aí vai. Assim, Mr. Stink não é como os demais sem-teto; é especial. Tanto é que não há outro sem-teto no filme. Essa especialidade constrói-se então, por ele não pertencer efetivamente ao que se costuma imaginar por um destituído?
À parte esses questionamentos,implodidores das boas intenções, foi divertido ver Hugh Bonneville em registro cômico, como Mr. Stink. Hugh é o Lord Grantham de Downton Abbey. Essa deve ter sido a razão pra terem-no escolhido pra interpretar o decaído Lord Darlington de Mr. Stink. Pra mim, foi o motivo pra eu ter assistido ao especial.

À noite, vi The Girl, coprodução HBO/BBC sobre a controvertida história de assédio psicossexual que Alfred Hitchcock teria infligido à atriz Tippi Hedren, mãe da também atriz Melanie Griffith.
Hedren era modelo sem experiência no cinema, quando Hitch escalou-a como protagonista d’Os Pássaros (1963). Fascinado por loiras, o diretor apaixonou-se pela moça, tentou seduzi-la, estuprá-la e, em face da rejeição, passou a persegui-la e torturá-la física e psicologicamente. Uma das atitudes mais cruéis foi fazê-la repetir dezenas de vezes uma cena onde pássaros de verdade a atacavam, até que a atriz sangrasse. Hedren alega que o diretor destruiu sua carreira, ao mantê-la presa ao contrato de 7 anos, depois que ela resolveu jamais filmar com ele.
The Girl despertou a ira dos fãs de Hitch, que se ressentiram do ataque ao ídolo. Responderam detonando Tippi (ela pode ser atacada, o comportamento de Hitch não pode ser posto sob suspeita). Colegas de trabalho, como a também loira Kim Novak, defenderam o mestre do suspense. Um balaio de gato, diria minha mãe.
Jamais saberemos a verdade, uma vez que o diretor está morto há décadas. E aí mora o perigo dessas narrativas: pra se tornar “verdade” é um pulo! The Girl é uma versão dos fatos, assim, como o Dom Casmurro também o é. A de Bentinho. Prefiro entender The Girl como algo que pode ter acontecido. Ou não. Ou acontecido num meio-termo.
Toby Jones está bem imitando Hitchcock, representado como fisicamente repulsivo, consciente disso e sofrendo muito pela feiúra. Não admira o retrato ser esse, visto o filme ser feito sob o ponto de vista de Tippi, bem caracterizada por Sienna Miller, um anjo de candura, totalmente “inocente”.Tal horizontalidade num drama supostamente psicológico acaba atraindo a atenção pra coadjuvante Imelda Staunton, que afana as cenas em que aparece, vivendo Alma Hitchcock, a dúbia (nos termos do filme) esposa do diretor.
E, pra falar bem a verdade, há trechos que vão do nada a lugar algum.
Enfim, The Girl é apenas mais um filme que capitaliza a partir dum voyerismo meio mórbido nosso de querer saber como vivem os famosos.
Na boa? O ponto alto da maratona televisiva do Ano Novo foi o par de episódios da oitava temporada de Married With Children (Um Amor de Família) Ed O’Neill rocks!. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

BIZARRICES NUTRICIONAIS

Conheça algumas das dietas 'milagrosas' mais estranhas da história

Obesidade / Getty
Dietas existem desde os primórdios da humanidade, dizem historiadores
Nesta semana, um ministro do governo britânico foi um dos últimos a alertar as pessoas sobre os perigos das dietas 'milagrosas', mas isso não impediu que tais regimes ganhassem popularidade no mundo inteiro através dos séculos. Por quê?
A história mostra que desde os tempos de gregos e romanos os seres humanos já adotavam rotinas de restrições alimentares.
Mas, se por um lado naquela época os regimes eram baseados na preocupação exclusiva com a saúde física e mental, foram os vitorianos quem deram o pontapé inicial nas chamadas 'dietas milagrosas', como as adotadas por celebridades e rapidamente difundidas nos quatro cantos do planeta.
"A palavra grega diatia, da qual deriva a palavra dieta, descrevia todo um estilo de vida", diz Louise Foxcroft, historiadora e autora do livro Calories and Conserts: A History of Dieting Over 2,000 years (ou Calorias e Espartilhos: Uma História da Dieta através de 2 mil anos, em tradução livre).
"A prática da dieta na Antiguidade era vista como uma forma de melhorar a saúde física e mental. As pessoas realmente pegaram um gosto por essas dietas ditas milagrosas no século 19. Foi durante esse tempo que começou a haver uma preocupação excessiva com a estética e, assim, a indústria do regime explodiu", explica Foxcroft.
Portanto, quais são as dietas milagrosas mais estranhas e prejudiciais à saúde da história?

Mastigue e salive bastante

Na virada do século 20, o americano Horace Fletcher popularizou a ideia de que uma das maneiras mais efetivas de perder peso era mastigar e cuspir bastante.
O fletcherismo, como foi chamado seu processo de emagrecimento, dizia que as pessoas deveriam mastigar a comida até todas as calorias fossem "extraídas" e depois cuspir o material fibroso que restou.
Fletcher detalhava minuciosamente quantas mastigadas a pessoa tinha de dar para cada tipo de comida. Segundo ele, um determinado tipo de alho, por exemplo, teria de ser mastigado em torno de 700 vezes.
Por mais estranha que pudesse parecer, a dieta do americano tornou-se bastante popular e atraiu vários seguidores famosos, como os escritores Henry James e Franz Kafka.
Segundo Foxcroft, o regime chegava ao ponto de cronometrar os jantares de modo que as pessoas mastigassem a comida.
"A dieta também previa que seu seguidor defecaria apenas uma vez a cada duas semanas e que seu cocô não teria odor. Pelo contrário, as fezes teriam um odor similar a 'biscostos recém-tirados do forno'", diz.
"Fletcher carregava uma amostra de suas próprias fezes com ele para ilustrar o feito de sua dieta", acrescenta.

Dieta dos vermes

Também no início do século passado, uma dieta inusitada fez enorme sucesso. O regime previa a ingestão de tênias (ou solitárias) para emagrecer. A cantora de ópera Maria Callas teria sido uma das celebridades daquela época a ter comido parasitas para perder peso.
As pessoas que seguiam essa dieta deveriam ingerir ovos dos parasitas, frequentemente em forma de pílulas. A teoria baseava-se na ideia de que tão logo as tênias atingissem a maturidade no intestino dos pacientes, absorveriam a comida, dando início ao processo de emagrecimento, por vezes, acompanhado de diarreia e vômito.
Uma vez que o usuário atingisse o peso desejado, tomaria uma pílula para matar os parasitas que, no melhor dos casos, morreriam.
A pessoa teria, então, de excretá-los, o que poderia causar complicações no abdômen e no reto.
O regime era arriscado em vários sentidos. Não apenas o parasita poderia crescer em até 9 metros de comprimento dentro do corpo do seguidor da dieta, como também poderia provocar inúmeras doenças, como dores de cabeça, problemas oftalmológicos, meningite, epilepsia e demência.
"Durante o século 19, a dieta tornou-se um grande negócio", diz a historiadora Annie Gray, especializada em nutrição.
"A publicidade ficou cada vez mais sofisticadas, com mais e mais produtos dietéticos sendo colocados à venda."
O boom da indústria da dieta também foi facilitado pelo crescimento no número de celebridades, dos meios de comunicação e dos novos medicamentos, acrescenta Foxcroft.

Arsênico

Remédios, pílulas de emagrecimento e 'poções mágicas' tornaram-se um grande negócio no século 19. Mas tais medicamentos normalmente continham ingredientes perigosos, incluindo arsênico e estricnina.
"Eles foram alardeados como aceleradores do metabolismo, tal qual as anfetaminas", diz Foxcroft.
Apesar de a quantidade de arsênico nas pílulas ser pequena, era também muito perigosa.
Não eram raras as vezes em que os seguidores dessa dieta tomavam uma dosagem acima da recomendada para perder peso mais rápido, morrendo por envenenamento.
Além disso, o arsênico nem sempre aparecia na bula como um dos ingredientes do remédio, o que fazia com que as pessoas desconhecessem o que estavam tomando.
Lord Bryon / Getty
Lord Byron ajudou a dar o pontapé na obsessão pública sobre como os famosos perdem peso
"Não havia muito controle sobre a venda de tais venenos naquela época e qualquer um podia obtê-los para todos os fins", diz Foxcroft.
"Isso propiciou o surgimento de falsos médicos, que se diziam especialistas em dietas para promover e vender tais produtos. Muitas pessoas caíam nesse 'milagre de cura'", acrescenta.

Vinagre

As dietas de celebridades são mais antigas do se pensa. Lord Byron foi um dos primeiros ícones desse tipo de regime e ajudou a dar o pontapé na obsessão pública sobre como os famosos perdem peso.
Como as celebridades de hoje em dia, o poeta britânico trabalhava duro para manter a cintura. No início de 1800, ele popularizou um tipo de dieta que consistia majoritariamente na ingestão de vinagre.
A proposta desse regime era de que, para limpar o organismo das impurezas, a pessoa precisaria beber vinagre diariamente e comer batatas embebidas no líquido. Os efeitos colaterais incluíam vômito e diarreia.
Por causa da imensa influência cultural de Byron, havia muita preocupação sobre o efeito da dieta na juventude daquela época.
Isso porque muitos escritores acabaram restringindo-se à alimentação composta por vinagre e arroz para tentar chegar ao estilo e à palidez de Byron.
"Muitas de nossas meninas estão vivendo sua adolescência em semi-jejum", escreveu um crítico daquela época.
No início do século 19, os padrões de alimentação também se tornaram mais prescritivos, como a maneira de sentar-se à mesa ou promover um jantar, diz Gray.
"Isso fez com que as pessoas começassem a se preocupar com o seu físico. A Rainha Vitória, da Inglaterra, por exemplo, vivia aterrorizada com seu peso."

Borracha

Espartilhos / Getty
Espartilhos eram usados por mulheres e homens na tentativa de esconder peso
Em meados de 1800, o americano Charles Goodyear descobriu como melhorar a borracha além de seu estado natural por meio de um processo conhecido como 'vulcanização'.
Com a Revolução Industrial e a produção em massa, o uso da borracha foi, de repente, expandido maciçamente.
A partir daí, foram fabricantes aos milhares ceroulas e espartilhos feitos do material. A ideia era de que a borracha disfarçaria o excesso de peso, mas, mais importante, esquentaria o usuário, fazendo-o suor e, eventualmente, perder peso.
Tais peças de roupa eram usadas tanto por homens quanto por mulheres, diz Foxcroft.
"Naquela época, todo o tipo de roupa e tratamento era anunciado como uma maneira de perder peso", completa Gray.
A dieta durou até a Segunda Guerra Mundial, quando a borracha passou a ser empregada exclusivamente no confronto.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/130104_dieta_historia_lgb.shtml?print=1

CAIXA DE MÚSICA 89

Roberto Rillo Bíscaro

Manchester, nos anos 1970, era pálida lembrança dos dias de Elizabeth Gaskell. A melhor tradução urbana da Revolução Industrial cedera lugar a uma cidade arruinada e suja. A demolição de velhas construções semibombardeadas ensejou a construção de desumanizadores conjuntos residenciais. Desemprego, pobreza e criminalidade abundavam.
Até que em junho de 76, os Sex Pistols tocaram no Free Trade Hall, num show hoje mitológico. A partir dele, muitos jovens manchesterianos sacaram que criar uma banda era alternativa pra sair do marasmo. Uma delas foi a Joy Division, definidora de muito do que se convencionou chamar pós-punk. Em termos de Brasil, basta escutar o álbum de estreia da Legião urbana, pra saber do que estou falando.
Revi o documentário Joy Division (2007), no dia de Natal, especialmente pra resenhá-lo pro blog. Dado o caráter depressivo das letras, talvez não a melhor escolha pras festas de fim de ano.

Ian Curtis (vocal e letras), Bernard Summer (guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) eram fãs de Iggy Pop e Velvet Underground, que mal sabiam tocar seus instrumentos, mas que, com o produtor Martin Hannett, inventaram uma nova sonoridade. Esparsa, fantasmagórica, com o baixo lugubremente pesado, mas  por vezes, dançante, sem deixar de ser lúgubre; a guitarra que às vezes parece serra (Atrocious Exhibition é modelar nesse quesito) e a bateria de outro planeta. Som solene, arrastado, mas não destituído de delicadeza (confira o teclado de Atmosphere, com seu rastro de cacos de cristal). Joy Division somou boa produção à fúria punk. Sons de elevadores e até mesmo potencial dançante (Transmission pré-data em anos o estilo discoteca pra zumbis, do Sisters of Mercy ou Fields of the Nephilim).
Joy Division, o documentário, traz os sobreviventes da banda e figuras como Tony Wilson, dono da influente Factory Records, falando sobre a trajetória desse grupo fundamental. Juntamente com imagens e recortes de jornal, aprendemos como Summer, Hook e Morris não souberam lidar com o torturado Ian Curtis, que se enforcou em 18 de maio, de 1980, 24 horas antes de tomar o avião que levaria a já criticamente idolatrada Joy Division pra sua primeira turnê norte-americana. 

O epilético Curtis, com sua espasmódica presença de palco e referências literárias que vão de Dostoievsky a William Burroughs, compôs letras expressando profunda depressão e desespero, pedidos de socorro que ninguém ouviu. O programa relata a inspiração pra alguns clássicos. She’s Lost Control nasceu depois que o cantor viu uma moça ter um surto de epilepsia e saber de sua subsequente morte. A definitiva Love Will Tear Us Apart é fruto de sua dúvida angustiante entre o casamento falido e a namorada francesa.
Joy Division deixou 2 álbuns – Unknown Pleasures e Closer (perfeito, perfeito) – e um legado que somado a bandas como os Smiths, faria de Manchester uma das cidades-referência do pop/rock oitentista. Se o neoliberalismo de Thatcher remodelou sua infraestrutura, em parte foram suas bandas que a tornaram centro de excelência cultural.
Depois do suicídio de Ian Curtis, a Joy Division metamorfoseou-se em New Order, pérola synth-dance-pop, um dos produtos de exportação cultural mais valiosos da Grã-Bretanha 80’s. O documentário e atitudes recentes de Summer e Hooky atestam pra obtusidade de seu caráter. Mas, como não respeitar suas contribuições pra cultura pop?
O documentário pode ser visto no You Tube, sem legendas:

Quem quiser se aprofundar no mundo de Ian Curtis, pode se interessar pela excelente cinebiografia Control (2007), disponível com legendas em português. Se eu fosse você, assistiria.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A SUPERAÇÃO DE JOSIVAN

Na pequena cidade de Jucurutu, no interior do Rio Grande do Norte, vive um homem que perdeu as duas mãos quando ainda era criança em um choque elétrico. Mas, o que poderia parecer o fim da vida para ele, acabou sendo um recomeço e hoje Josivan é um grande exemplo de superação.

sábado, 5 de janeiro de 2013

ALBINO GOURMET 81

Baunilha é tudo de bom, vocês gostam?

ISENÇÃO ALBINA

Aposentadoria de portador de albinismo pode ter isenção de imposto de renda

Os portadores de albinismo podem ter seus proventos de aposentadoria isentos de imposto de renda. É o que prevê o Projeto de Lei do Senado (PLS) 245/2012, do senador Eduardo Amorim (PSC-SE), em tramitação na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).
Na justificativa do projeto, o autor explica que o albinismo, condição que causa a ausência parcial ou total do pigmento na pele, nos cabelos e nos olhos, decorre de um bloqueio incurável da síntese de melanina. Ele argumenta que os portadores de albinismo têm sua força produtiva reduzida devido a limitações físicas e necessitam de tratamentos de saúde e cuidados especiais, sendo necessário conceder isenção de imposto de renda para essas pessoas.
O relator da matéria na CAE, senador Walter Pinheiro (PT-BA), já se manifestou favoravelmente. Se aprovado, o projeto segue para a Comissão de Assuntos Sociais (CAS), onde vai tramitar em caráter terminativo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

PAPIRO VIRTUAL 44

Me dei um leitor de e-books como presente de Natal. Desapegado de suportes tecnológicos, não tenho essa de “nada substitui o cheiro do papel, virar as páginas” etc. Interessa-me o conteúdo. Também amo praticidade, por isso, quanto mais cômoda a forma, melhor. Gostei da tela, não ofusca; achei o máximo poder ter centenas de obras num receptáculo único. É levinho, ao passo que há calhamaços de celulose que doem a tendinite!
Pra estrear minha adesão à contemporaneidade, decidi ler as tragédias sofoclianas ainda não conhecidas. Comecei com a mais antiga (talvez), Ájax. Cri divertido o paradoxo de usar suporte hi-tech pra ler texto escrito há 25 séculos.  
Antes de ser produto de limpeza, Ájax era o herói homérico combatente em Tróia. Findo o conflito, decidiram presentear alguém com a armadura do falecido Aquiles. A disputa ficou entre Odisseu e Ájax. Quem levou a prenda foi o primeiro, pela esperteza e capacidade de articulação. Ájax era uma montanha de músculos meio sem cérebro, tadinho. Vem da Grécia a dicotomia entre labor intelectual e físico e a valorização do primeiro. Envergonhado com a derrota e acreditando que sua honra fora maculada, Ájax suicida-se (cabeça dura, além de meio oca).
Sófocles utilizou esse material do período heróico da história grega pra criar uma peça onde delineia com maestria o protótipo de herói trágico que passou a representar pra alguns o protagonista trágico típico. Seria mais correto dizer que se trata do herói trágico sofocliano, uma vez que Ésquilo e Eurípedes operavam de modo algo distinto.
O tragediógrafo inventa uma crise de nervos pra Ájax, logo após o anúncio do ganhador da armadura. Cego de fúria, o herói dirige-se ao acampamento grego pra matar Agamenon, Menelau, Odisseu, enfim, todos os comandantes. Atena, deusa da sabedoria e protetora de Odisseu, distorce temporariamente a percepção de Ájax, que chacina ovelhas e gado, pensando tratar-se de seus desafetos. Seria o primeiro caso de insanidade temporária?
A peça se inicia com a deusa fazendo Ájax perceber o papelão. Quando o soldado se dá conta de mais essa humilhação, resolve se suicidar. Esse é o típico herói sofocliano: uma vez decidido a executar uma ação, nada o demoverá. Essa inflexibilidade distancia-o de nós, pobres mortais, tornando-o modelar.

Mesmo servindo de exemplo pra diversos esquemas definidores das características formais da tragédia, Sófocles sequer encaixa-se perfeitamente neles. Não é incomum a afirmação de que nas tragédias a violência ocorre SEMPRE fora da cena, sendo anunciada por mensageiros. Ájax se mata em frente à platéia e seu cadáver permanece no palco por boa parte do tempo. É que, depois de sua morte, iniciam-se as discussões sobre ele merecer ou não ser enterrado.
O sepultamente e todo o cerimonial envolvido eram deveras importantes pros helênicos. Traidores não mereciam essa honraria; seus corpos deveriam ser deixados ao relento pra serem devorados. Lembram-se do imbróglio de Antígone, também de Sófocles?
Ájax não se arrepende por haver pensado em chacinar seus companheiros, o problema é justamente o contrário: fica humilhado por não haver logrado êxito. Mas, ao cogitar eliminar os seus por não haver obtido um feito pessoal, é percebido como traidor da polis. Quem intercede a seu favor é seu maior inimigo, Odisseu, demonstrando compaixão e capacidade de articulação, ao contrário da obstinação de Ájax. Em certo sentido, a peça trata da obsolescência dum tipo de herói em detrimento de outro, mais maleável, mais, comunitário, digamos. Isso não significa que Ájax seja execrado.
Com estilo menos pomposo e coro menos presente do que em Ésquilo, além da adição dum terceiro ator em cena (segundo Aristóteles, invenção de Sófocles), o texto sofociliano apresenta ainda hoje fascinantes possibilidades de encenação. Como representar a invisibilidade de Atena pra Odisseu, mas não pra Ájax? E a queda proposital desse sobre a espada?
Amantes de animais certamente torcerão o nariz pras descrições da matança dos pobres bichinhos, que desde sempre têm pagado pela imbecilidade humana ou de supostos deuses.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

ESCOLHI SER ALBINO NA ARGENTINA

Em 2009, o trabalho do blog foi destaque na revista argentina El Cisne, que trata do universo das pessoas com deficiência.
Ontem, o editor da publicação, Luis Martinez, contou-me que minha autobiografia Escolhi Ser Albino mereceu artigo de página inteira.
Ele me enviou foto da revista, que compartilho com vocês.
Agradecimentos sinceros ao pessoal d'El Cisne, cujo link encontra-se na seção Territórios Amigos. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

MELHORES DE 2012 – PARTE II


Dia 01/07, elegi meus melhores do primeiro semestre. Hora de escolher o que mais me agradou no segundo. Basta juntar as 2 postagens pra obter minha lista de melhores de 2012.

Cinema
Los Colores de La Montaña – comovente produção colombiana sobre um garoto que amadurece na marra.
Tyranosaur – Inglaterra bem menos otimista do que aquela vendida pela imprensa do frenesi da gravidez de Kate Middleton.
The Inkeepers – Ti West, diabinho retrô, me assustando com uma porta batendo!

Música
Crystal Castles III – estupendo petardo eletrônico canadense.

TV
Melrose Place – pondo em dia meu proposital atraso com relação aos 90’s, vi as 7 temporadas da novela e algumas são realmente excitantes.
DALLAS – primeira temporada da reedição de meu show favorito. Em memória de Larry Hagman. JR Ewing deve morrer na segunda temporada, que se inicia em janeiro.
Downton Abbey – terceira temporada, que ergue a bola meio caidaça na segunda.

Literatura
Oresteia, de Ésquilo – única trilogia trágica grega sobrevivente. Dá vontade de pegar uma máquina do tempo e buscar mais.
http://www.albinoincoerente.com/2012/12/papiro-virtual-43.html

INTERNET PEÇA DE MUSEU


Museu da Internet | Foto: Internet Museum
Altavista foi a primeira grande ferramenta de busca da web a se popularizar mundialmente
Embora esteja em constante evolução, a internet já coleciona alguns marcos históricos desde sua criação, e agora muitos deles podem ser visitados em um museu – online, obviamente –, criado por três holandeses: The Big Internet Museum.
Entre as atrações estão a ARPAnet, que deu origem à rede, o email, IRC e ICQ (os vovôs do MSN, Gtalk e Skype), o spam e até mesmo os emoticons.
Para os que viram a WWW (World Wide Web) nascer, é uma viagem no tempo, e para as gerações mais novas, acostumadas ao mundo dos tablets, trata-se de uma oportunidade de entender como chegou-se até aqui em tão pouco tempo.
"Nós não temos um prédio. A razão é simples: nossa coleção só existe online. Fora isso, somos um museu como qualquer outro –com curadores, uma coleção permanente diversificada, exposições temporárias, diferentes alas, doações, e mais. Talvez possamos até abrir uma loja de souvenirs no futuro", diz um anúncio dos criadores Dani Polak, Joep Drummen e Joeri Bakker no site: Clique www.thebiginternetmuseum.com.
Curiosamente, a página de abertura diz que o local tem entrada gratuita, e que está aberto constantemente, sete dias por semana, 24 horas por dia, mas estará fechado durante o Carnaval no Brasil, "por razões óbvias".
O museu também dá a possibilidade de o usuário se transformar em um dos curadores, ao mover objetos que acha mais importantes na coleção, além de enviar sua própria entrada para a exposição, com algo que julgue relevante na história da rede.

Alas especializadas

"O museu tem sete alas especializadas. Por exemplo, na ala de história os visitantes descobrem os primeiros testes com a ARPAnet [primeiro "sistema operacional" da internet antes da criação da WWW]", explicam os criadores.
Na ala "meme", encontram-se fenômenos virais como Chuck Norris, que em 2005 foi criticado por sua suposta dureza, e o Nyan Cat, uma animação de um gato feita em 8 bits ao ritmo da canção "Nyanyanyanyanyanyanya".
Entre as exposições temporárias, a agência britânica de produção de conteúdo digital MediaMonks prepara uma mostra especial sobre o Adobe Flash – plataforma multimídia para agregar animações, vídeos e interatividade.
Em sua resenha sobre o museu, o blog especializado em tecnologia The Verge diz que "apesar de ser uma boa maneira de refrescar a memória sobre as coisas que havíamos esquecido", as exposições "não oferecem a possibilidade de ver de perto os curiosos objetos físicos da história da internet".

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

ESCOLHI SER ALBINO NO RECANTO

Descobri resenha de minha autobiografia Escolhi Ser albino no site Recanto das Letras. 
Bom saber que está gerando reações positivas!
Leia em:
http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/4055860

TELINHA QUENTE 65


Roberto Rillo Bíscaro


O grande público anglo-saxão não aprecia ler legendas, mas a série policial dinamarquesa Forbrydelsen deu tiros nessa barreira e virou fenômeno cult na BBC4, onde as 3 temporadas foram exibidas legendadas. Forbrydelsen foi vendida pro mundo todo (alguma Globosat a exibe aqui) e inspirou refilmagem norte-americana.
Elogiei a primeira e segunda temporadas e continuo fã da Inspetora Chefe Sarah Lund.
Os 10 capítulos da terceira aventura da detetive correspondem aos dias de investigação do sequestro da pequena Emilie Zeuthen, filha do chefão da Zeeland, empresa responsável por boa parte do PIB danês. Devido à recente crise global do capitalismo, o conglomerado ameaçava transferir sua produção pra barata semi-escravidão asiática, o que ferraria os planos de reeleição do primeiro-ministro Kristian Kamper. Como nas temporadas anteriores, os níveis pessoal, econômico e político apresentam-se imbricados.
Entremear instâncias tão diversas, constituídas por personagens e situações tão poderosas dissolve o protagonismo de Sarah Lund. São tantas reviravoltas, envolvendo interesses de todas as personagens que a policial não pode assumir a função de condutora da investigação. Ela partilha sua incerteza conosco, decepcionando telespectadores acostumados á fórmula centrada no poder do indivíduo. Somos jogados de canto a outro duma Dinamarca invernal, soturna e molhada.

Comparar o tratamento do caso dos pobres Birk Larsen da temporada inicial com o dos influentes Zeuthen - dos quais depende a sobrevivência política do primeiro-ministro – desmascararia muito da falácia da igualdade social escandinava. Também útil perceber que mesmo a tão civilizada península jutlândica ainda precisa contar histórias taliônicas.
O sequestro da loirinha Emilie chacoalha o país, devido a sua classe social, e, em nível individual afeta a vida de todas as personagens, devastadoramente. O final de Forbrydelsen III é o melhor até agora, mas desagradou muitos que gostam da “normalidade” restaurada enquanto rolam os créditos de enceramento.
A atriz Sofie Gråbøl e os produtores juram que esse foi o derradeiro caso de Sarah Lund. Malgrado meu entusiasmo pela série, devo concordar com a decisão. Diversas situações e cenas da primeiratemporada repetem-se na terceira e o vingador do estupro e morte da filha parecia o vilão da argentina Epitáfios: possui recursos econômicos e logísticos digno dum pequeno comando, está sempre passos á frente da polícia e consegue acesso a locais improváveis. Nada contra Epitáfios, que amo demais, demais da conta, mas, a proposta de Forbrydelsen era mais realista e isso começou a deteriorar.
Pra conservar a excelência, melhor parar enquanto se está no topo da forma. Forbrydelsen foi formidável.

DOIS MIL E TREZE

Uso Drummond pra desejar aos amigos um excelente e combativo 2013.
Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.