quinta-feira, 21 de março de 2019

TELONA QUENTE 280


Roberto Rillo Bíscaro

Nos anos 1980, Stepnhen Frears filmou com sucesso o romance Ligações Perigosas, do general francês Choderlos de Laclos, onde a nobreza mostra sua face libertina. Ano passado, da própria França, veio Mademoioselle Vingança, outra fábula sobre a amoralidade da decadente classe social que perdeu seu trono pra burguesia.
Constante do catálogo da Netflix, a produção é sobre um predador travestido de liberalidade e boas-intenções, que corteja até seduzir a Marquesa de La Pommeraye. Esta vivia isolada em sua linda propriedade campestre e, apesar de saber que o Marquês de Arcis fazia o estilo carcará (pega, mata e come, não necessariamente nessa ordem), se deixa levar por sonhos bovaristas de fidelidade e amor eterno. Uma das leituras possíveis é que as relações por conveniência descaradamente aprovadas pela nobreza são mais eficazes do que a idealização romântica burguesa. E é isso que confere a esse aparente dramalhão novelesco uma qualidade de farsa bastante irônica.
Por se tratar de filme “de época” (e qual não é?), Mademoiselle Vingança é bem palavroso em sua exposição e fica mais divertido, quando a marquesa começa a encetar sua terrível vingança. Racionalizando que a ação é para vingar todas as mulheres, Madame não parece se importar com os danos colaterais que poderá causar à Mademoiselle de Joncquières, peça fundamental para a armadilha. O título original é Mademoiselle de Joncquières, convém, então, prestar bastante atenção ao seu papel simbólico no desfecho da história, deliciosa.
Cécile de France está impecável como a Marquesa de La Pommeraye em um filme cenicamente lindo e mais perverso do que a superfície deixa ver.

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