quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CONTANDO A VIDA 69

Rendendo-me momentaneamente ao truísmo que reza que no Brasil o ano começa só após o Carnaval, selecionei um texto de nosso cronista-filosofal, onde ele responde à questão “professor, na sua vida faria tudo do mesmo jeito?”

COMEÇAR DE NOVO?

José Carlos Sebe Bom Meihy

Dizem que são as perguntas que movem o mundo, e não as respostas. Há sabedoria nisso, com certeza. Mas, questões podem nos perturbar. Muito. Lembro-me que na juventude, frente às primeiras namoradinhas, eu sempre começava qualquer encontro com uma chuva de perguntas. Era um jeito de disfarçar a timidez e provocar reações, mas nem sempre dava certo. Era essa uma estratégia diferente dos amigos que encantavam as garotas com elogios diversos, decantando belezas às vezes inexistentes, que poderiam recair no rosto, jeito de dançar, cabelo, sorriso. Isso, porém, não funcionava comigo. Antes de tomar qualquer iniciativa eu punha a cabeça para funcionar e elaborava diálogos que, contudo, nunca se realizavam do jeito que supunha. Estava sempre fadado ao insucesso galanteador. Na minha cabeça a coisa funcionava mais ou menos assim: imaginava uma pergunta inicial e esperava que as respostas viessem nas poucas alternativas que eu elaborava. Como raramente acertava, não conseguia substituir o plano por outros. Pois bem, essas recordações me vieram à cabeça quando alguém pouco dado à censura lançou a sentença: professor, na sua vida faria tudo do mesmo jeito? Gelei. Na realidade, não precisava dar uma resposta fiel, dizer algo definitivo, expressar exegeses ontológicas. Mas, a surpresa abriu um buraco em minha perplexidade. Sabe como reagi? Apelei para a MPB e ressuscitei Gonzaguinha balbuciando um trecho de “Começaria tudo outra vez”, carro-chefe de seu primeiro álbum, de 1977: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse meu amor/ A chama no meu peito ainda queima, saiba, nada foi em vão”. Dei uma manhosa pulada no teor romântico e recobrei a parte, digamos, civil que me interessava “e então eu cantaria a noite inteira/ Como eu já cantei e cantarei/ As coisas todas que já tive, tenho e sei que um dia terei/ A fé no que virá e a alegria de poder olhar pra trás”. Com chave de ouro, já sem cantarolar, cravei: “começaria tudo outra vez”. Como peste ameaçadora, no entanto, a pergunta foi impregnando minha alma e convocando o meu “eu caçador de mim”, como se um Milton Nascimento cantasse dentro de mim. Logo me veio à mente outra música, esta provocando diálogo inverso. Dessa feita, era Ivan Lins cantando a superação de tramas, sem o que não valeria a experiência. Novamente, abdiquei o sentido amoroso e no lugar insisti no sentido existencial das palavras que diziam “Começar de novo e contar comigo/ Vai valer a pena ter amanhecido/ Ter me rebelado, ter me debatido/ Ter me machucado, ter sobrevivido/ Ter virado a mesa, ter me conhecido/ Ter virado o barco, ter me socorrido/ Começar de novo e só contar comigo”. Alinhei outras canções até o ponto de responder que deveria buscar meu próprio exame, pois, afinal, faria tudo outra vez?

Devo dizer que era um fim de tarde, um quase anoitecer desses em que o não frio se disfarça em não calor e tudo fica incerto. Sentei-me, troquei o olhar para fora, buscando no interior ver o essencial. Fiquei surpreso com a rapidez da resposta. E logo fui me sentenciando favoravelmente. Acho que acertei muito. Fiz muitas coisas dignas de saudação pessoal. Mesmo delegando aos outros direitos de opiniões diversas, creio que acertei como pai, fui bom marido, fiz excelentes amigos, profissionalmente fui sucedido com algum sucesso e, creio, deixo um legado que não envergonhará minha memória. Mesmo assim, creio que não repetiria algumas coisas. Na altura dos tempos, tenho concluído que perdi muito tempo com alguns detalhes tolos, deixei de elogiar ou reconhecer méritos devidos a alguns parceiros, chorei demais algumas perdas pífias e demorei-me muito em outras que não deixo calar. Talvez tenha sido muito severo com os filhos na primeira infância e agido com muito rigor com alunos que precisavam de tempo para expressar seu melhor. Mas,  nada que me convidasse à negação. Para mim mesmo, desdobrei a questão: o que aprendi da vida? Meio que companheiro de mim mesmo, como uma espécie de anjo clemente, me vieram alguns sentimentos que procurei cultivar com zelo extremo: não guardar mágoas; saber que tudo pode ser dito desde que de forma adequada; ter capacidade de pedir perdão se necessário e sobretudo negociar diferenças. Estava nesse ponto quando fui virado pelo avesso e de fora. Vez mais, aflorou um verso que se pôs em lugar de canções. Foi Fernando Pessoa quem, como colocando a mão em meu ombro, disse: tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário