terça-feira, 30 de outubro de 2018

TELINHA QUENTE 333


Roberto Rillo Bíscaro

A profundeza das águas no título da minissérie Deep Water (2016) vai bem mais além das penhascosas praias australianas, onde boa parte da ação se passa. Nos anos 80/90, dezenas de gays foram chacinados na região e os crimes permanecem sem resposta, porque afinal, lá é a terra do Mad Maxo.
Quando a SBS exibiu a quadra de episódios, fez disso evento televisivo, lançando também o documentário Deep Water: The Real Story, deixando clara sua intenção de unir entretenimento com denúncia. A Netflix tem Deep Water em seu catálogo; poderia fazer o mesmo com o documentário.
Os detetives Tori Lustigman e Nick Manning (aquele bigode anos 70 tá mais pra Narcos, mano!) investigam a morte de um homem gay e Tori não demora a perceber que o caso está ligado a uma série de crimes não resolvidos, inclusive o de seu próprio irmão, um dos tantos homossexuais rejeitados pela família e que acabaram mortos na praia e ninguém se importou.
Subjacente à competente narrativa detetivesca, Deep Water é sobre como o patriarcado heteronormativo caucasiano não enxerga nada a sua frente, a não ser a si. Aproveitando que a TV australiana também passa pela sua era doirada, Deep Water desafia essa muralha através da detetive Tori, inegavelmente o centro e ponto de vista pelo qual lemos os acontecimentos. Ela tem que se haver com o descaso que seus superiores tiveram para com os crimes; com a negação do pai, que nunca aceitou que o filho fosse gay e com seu próprio fardo de sentimento de culpa: aos 11 anos, foi ela quem acabou impulsionando o irmão a desembestar pra fora de casa na véspera do Natal, quando foi morto.
Fãs do sucesso Orange Is The New Black gostarão de saber que Yael Stone, a Lorna Morello (a Wikipedia que me contou, porque Orange...não me interessa) domina Deep Water. Sua Tori Lustigman é a policial durona e séria, que de vez em quando desaba, especialmente quando se dá conta de que como mulher, sua posição não é muito distinta dos estrangeiros e homossexuais. Claro que sempre tem aquelas que não enxergam isso, mas daí são moídas na porrada e parecem gostar.
Apesar do conteúdo potencialmente pesado e do subtexto horrendo, porque escancara injustiça apavorante, Deep Water não é ponderoso, porque o roteiro não proselitiza; é sólido show policial com tons sociais, como muitos.
Por mais boa vontade em representar os gays com simpatia, Deep Water derrapa na rasura de representá-los todos – até os mais velhos – com corpões sarados e blábláblá. Claro que isso faz parte dum contexto maior televisivo que é seu falso caráter inclusivo: tem gente de tudo quanto é cor, mas de preferência bombado, mas duvido que todo mundo em Sydney seja tão sarado, só porque lá existe vôlei de areia.

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