quarta-feira, 23 de outubro de 2013

MONTANHA-RUSSA NOITE ADENTRO

Longa Jornada Noite Adentro (1987) Poster

Roberto Rillo Bíscaro
Long Day’s Journey Into Night é tida por muitos como a obra-prima do norte-americano Eugene O’Neill. O conteúdo autobiográfico é hiper-ressaltado até mesmo pra aguar o teor mais explicitamente politizado de suas peças primeiras, informadas pelo Expressionismo. Quando é possível despolitizar a arte, há uma legião que não perde a chance. 
Long Day’s... é o Naturalismo de Ibsen e Strindberg (leia sobre 2 de suas peças aqui), da virada do século XIX pro XX, amplificado em gritaria ainda mais estridente. Escrita em princípios dos 40’s, a peça foi publicada postumamente no decênio seguinte. Marx, Freud ou Kardec diriam não ser coincidência a estreia mundial da Longa Jornada Noite Adentro ter sido na strindbergiana Estocolmo, vizinha da ibseniana Noruega.
Trata-se duma family play típica na sala-de-estar transformada em lavanderia; haja alvejante pra tanta roupa suja!
Os 4 Tyrones estão isolados em uma casa no meio da névoa e às escuras devido à sovinice do pai. A falta de clareza repercute suas vidas destruídas pelo convívio familiar, mas muito mais pelas condições sócio-históricas. O conteúdo autobiográfico é importante; O’Neill declarou ser um acerto de contas com seu próprio sangue. Mas, a avareza e o desperdício duma carreira séria no teatro em troca de uma de ídolo de matinê com peça de consumo fácil estão enraizadas no terror pela miséria, incutido em James Tyrone desde sua faminta infância irlandesa. Conflitos dessa natureza não são resolvíveis e é esse precisamente o material dramatúrgico “escondido” de Long Day’s Journey Into Night.
Durante o dia regado a álcool e morfina, o casal Tyrone e seus 2 filhos perdedores se agridem, tentam ajustar contas inajustáveis, recriam/idealizam seus passados numa experiência cênica poderosa. Passei um pouco da fase de curtir tanta histeria e hoje até me parece algo pretensioso, mas não nego a importância do psicologismo de O’Neill pro teatro, cinema e TV da segunda metade do século passado.
Vi a adaptação televisiva, de 1987, baseada na teatral, muito badalada na Broadway no ano anterior. Lembro-me de ler nos suplementos culturais e morrer de vontade de ir à Nova York ver meu Jack Lemmon em cena.
Pude vê-lo no You Tube e alguns maneirismos vocais enjoaram. Grande, mas não acrescentou ao que eu já conhecia dele (não é pouco, garanto). Peter Galagher e Kevin Spacey (de volta à TV com a elogiada House of Cards, próxima na minha lista de temporadas a assistir) estão sólidos como os filhos.
Long Jornada Noite Adentro tem um filé pruma grande atriz. Interpretar a morfinada mamãe Tyrone não é pra qualquer uma. Katherine Hepburn continua favorita, na adaptação sessentista, dirigida por Sidney Lumet. Mas Bethel Leslie não faz nada feio nessa versão oitentista. Aproveitem, pois dificilmente lerão algo semelhante: vale ver mais por ela do que por meu Jack, embora ele apareça na frente de todos em toda a divulgação. Hollywood tem poder!
Quase 3 horas de inglês sem legenda com texto e clima densos, que valem a pena pra quem quer uma volta de montanha-russa emocional.

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